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Alma Perdida


Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

Cegueira Bendita


Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!

Florbela Espanca - Trocando olhares - 24/04/1917

Oração


Ó Deus, senhor da terra, omnipotente,
Senhor do vasto mar! Senhor do céu!
Atentei esta prece humilde e crente,
Ouvi-me por piedade, Senhor meu!

Olhai por todos que amam sua terra,
Guiai aqueles que amam Portugal
Protegei os que mandam pela guerra
A defender o seu torrão natal!

Lançai o vosso olhar de piedade
Por todos os que arrastam ´ma saudade
Pela pátria distante, muito além!…

Consolai, ó meu Deus, os orfãnzinhos,
As mães, as noivas e os que têm ninhos
Despedaçados pela guerra. Amém.

Florbela Espanca - Trocando olhares - 19/06/1916

A Minha Dor


A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

Florbela Espanca - O Livro das Mágoas

Sem remédios


Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou ...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca - O Livro das Mágoas

Neurastenia


Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza ...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza ...

Chuva ... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento ... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!! ...

Florbela Espanca
 - O Livro das Mágoas

Das vantagens de ser bobo


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Esperança? - 2ª Edição



Mesmo que não veja nenhum motivo aparente,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que a razão pareça loucura,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que a loucura seja a razão para tudo,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que a noite tenha sido escura e fria,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que o sono não tenha vindo.
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que os sonhos tenham sido pesadelos,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que os pesadelos sejam constantes.
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que levantar da cama seja difícil.
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que sair do quarto seja amedrontador.
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que todos estejam longe,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que planejar o futuro seja impossível,
Eu vou crer na esperança.
Mesmo que o futuro se resuma ao próximo minuto,
Eu vou crer na esperança.
Ainda que não queira viver,
Eu vou crer na esperança.
Ainda que só deseje a morte,
Eu vou crer na esperança.
Ainda que mude de opinião de minuto em minuto.
Eu vou crer na esperança.
Ainda que não saiba no que crer daqui a um minuto,
Eu vou crer na esperança.
Pelo menos neste instante,
Eu vou crer na esperança.
Ainda que tenha que crer contra a esperança,
Eu vou crer na esperança.
Eu insisto em crer na esperança.
Ela fará renascer o amor,
Ela fará renascer a fé.
Ela trará em suas asas a certeza,
Certeza que Abba, ainda cuida de mim!
Eu ainda creio na esperança!

Desisto

Desisto de tudo que é doce,
Mas desisto também de tudo que é amargo. 
Desisto de ver o pôr-do-sol,
Mas desisto também de contemplar a alvorada.
Desisto de chorar sem parar, 
Mas desisto também de sorrir sem causa. 
Desisto de lavar o rosto com lágrimas, 
Mas desisto também da máscara do riso. 
Desisto de procurar a beleza nas pequenas coisas, 
Mas desisto também de tornar belo o que é feio. 
Desisto de ouvir a canção mansa da chuva no telhado, 
Mas desisto também da elegia do vento. 
Desisto de ouvir o sorriso da criança, 
Mas desisto também do olhar dos velhos. 
Desisto de abraços que aproximam, 
Mas desisto também do adeus que afasta. 
Desisto da guerra que animaliza, 
Mas desisto também da falsa paz. 
Desisto de ver a luz na escuridão, 
Mas desisto também do sol que cega. 
Desisto do frio que congela a alma, 
Mas desisto também do calor que derrete os sentimentos. 
Desisto de olhar do alto da montanha, 
Mas desisto também de ver a vida abissal. 
Desisto de sonhos que nunca se realizarão, 
Mas desisto também de pesadelos que sufocam. 
Desisto da infelicidade que mata aos poucos, 
Mas desisto também da felicidade utópica. 
Desisto da vida que se arrasta, 
Mas desisto também da morte que sepulta para sempre. 
Desisto do amor que é ilusão, 
Mas desisto também do ódio que envenena. 
Desisto de dormir e sonhar, 
Mas desisto também de acordar e enfrentar a dura realidade. 
Desisto de tudo, 
Mas também não desisto de nada.

[Concebi este texto nesta madrugada, quando o sono me abandonou e a realidade da vida me fez ver que os sonhos não precisam se realizar para serem bons, melhor que seja só um sonho].