Mister Bush ou mister Nabucodonosor?

"... desfaze os teus pecados pela justiça (...) usando de misericórdia para com os pobres, e talvez se prolongue a tua tranquilidade..."

Mister Bush! Em Bagdá, a mesma que você quer destruir, no ano 608 a.C. viveu o profeta Daniel, que foi salvo dos leões, ele registrou em suas memórias que um déspota imperialista, Nabucodonosor, governava o Mundo com ambição. O conselho acima lhe foi dado pelo profeta.

Ele não prestou atenção, respirava, dormia, acordava com a idéia de suplantar reinos, dominar países, conquistar nações. A ninguém ouvia, a ninguém atendia.

Hoje o mundo conhece um déspota tão imperialista quanto Nabucodonosor: Você mister George Bush, você é cristão, mas, mostra-se soberbo, autoritário, auto-suficiente, o típico fundamentalista que prega: quem não é por mim(EUA) é contra mim(EUA). Até o bispo da diocese a que a sua igreja é vinculada está contra essa sua guerra. O seu radicalismo é a versão cristã do Taleban, aquele que você prometeu destruir eque continua vivo.

Por que essa fixação com o Islã? Será por causa do fechamento de países dessa religião à influência americana? Será que lá tem muitas placas de Coca-Cola e McDonalds? Você está de volta aos idos medievais, quando se conclamava dos púlpitos das catedrais cruzadas contra os chamados infiéis do Islã.

Você hoje é o pregoeiro, seus cúmplices nesse genocídio, ou têm os mesmos interesses espúrios seus, de apropriação das riquezas naturais do Iraque ou estão com o chapéu na mão pedindo esmola a você, vendem a alma, vendem a soberania. É a prostituição diplomática.

Você ordena que outros países expulsem diplomatas iraquianos. Você se acha o Dono do Mundo, quer mandar na casa dos outros. Certamente que os cofres americanos se fecharão para as nações que não atenderem aos seus pedidos. Seu dinheiro, mister Bush, está sujo, sujo com o sangue dos afegãos, dos hispanos, dos milhares de africanos que morrem de fome por sua causa, dos iraquianos inocentes, que não têm culpa por seu pai não ter conseguido destruir Saddam, e que você agora quer tirá-lo ao custo de milhares de vidas inocentes.

Tanto você quanto seu pai, cada um já teve seu Vietnam, por que não aprendem? Você quer vingar o Vietnam é? Não era preciso ser analista internacional para prever que um desastre atingiria as instituições democráticas, no momento em que um político de inteligência mediana, a pouca que tinha foi corroída pelo álcool, na maior trapalhada eleitoral de todos os tempos, digna dos dramalhões mexicanos, num enredo à la Chapolin Colorado, assume o governo da nação mais rica do Mundo.

Você passará para a história como o presidente mais medíocre dos EUA. Você governa como se tivesse nas mãos um console de um game irado, só que não lhe explicaram as regras do jogo, ainda que o fizessem, você não entenderia. Você só tem competência para despertar no Mundo um antiamericanismo. Você parece um vaqueiro de filmes de Hollywood, que desafia os mocinhos e corteja as donzelas, falastrão sem cérebro.

Você recorre à violência para não ter que falar, pois quando fala mostra-se de verdade: poucas inteligências cognitiva e emocional. Seus mísseis inteligentes estão caindo sobre inocentes, será que o Quociente de Inteligência deles é igual ao seu? A história de Nabucodonosor diz que ele ficou louco, comeu capim até desistir de seu imperialismo. O império dele? Virou pó. Ele ouviu: "... passou de ti o reino...".

A história ensina, os sábios aprendem. É necessário que você tenha o mesmo destino dele para conhecer a humildade? Nunca mais financiarei suas guerras, seu sanduíche e seu refrigerante jamais verão meu dinheiro.

Neste mês estamos lembrando a morte de Jesus, o mesmo que você diz seguir. Pergunto humildemente: Em seus passos que faria Jesus? Essa frase, não é minha e nem é nova. Ele mataria inocentes, por causa de barris de petróleo? Ou por uma obsessão? Não coloque o nome de Jesus na sua guerra suja, não mate em nome de quem morreu para dar a vida. Yankee go home!

Diário de Pernambuco Edição de Quarta-Feira, 2 de Abril de 2003

Sua Graça Revmª D. Rowan Williams

Já se vão mais de 1.400 anos, desde que o beneditino Agostinho desembarcou como bispo na Inglaterra no outono de 597, enviado pelo Papa Gregório Magno, o iniciador da Idade Média, para representar a Sé romana na Bretanha. A obra dele consistiu em levar o evangelho aos povos bárbaros que então habitavam a ilha.

Como sinal da incalculável herança histórica e de renovo, os mais de 70 milhões de anglicanos espalhados pelo Mundo, em comunhão com a Sé de Cantuária, têm novo líder espiritual desde o último dia 27/02. Por meio de ritual que se perpetua milenarmente, foi entronizado Sua Graça D. Rowan Williams, o 104º Arcebispo de Cantuária, dele se pode dizer que nasceu para a púrpura. O galês Rowan, é o primeiro arcebispo de Cantuária, desde o Século XVI que não pertence à Igreja da Inglaterra, além de ser o mais jovem, dos últimos tempos. Piedoso, possuidor de espiritualidade profunda, reconhecidamente culto, porém dotado de humildade verdadeira, todos o tratam pelo primeiro nome, coisa pouco comum na fleumática Inglaterra.

Certamente que, uma das tônicas de seu arquiepiscopado será engajar mais ainda, a Igreja da Inglaterra com a sociedade e com a cultura. Se ela seguir seu exemplo pessoal, certamente que se envolverá, e muito, em questões sociais e éticas. Em 1980, quando ainda era o capelão no Claire College, participou de um protesto a favor do desarmamento nuclear, em Cambridge, na frente da base aérea norte-americana, acabou preso. Ele também é contra a guerra no Iraque, acredita que ela segue intenções escusas, que não justificam o morticínio que acontecerá, considera-a como "imoral". Chegou a criticar veementemente o ataque ao Afeganistão, além de defender a abolição das sanções contra o Iraque. De outra feita "orientou" o primeiro-ministro Tony Blair, anglicano, a empregar ética no comércio internacional de armas, e ressaltou a obrigação que ele tem, (Blair) de diminuir os índices de pobreza e de fome no Mundo.

É crítico ferrenho na área de política e voz ativa clamando contra a injustiça social. Não é arcebispo por geração espontânea, foi eleito por vontade da igreja, por vontade de Deus. Teologicamente ele é o que se pode chamar de conservador ou ortodoxo, pois defende Verdades Credais: encarnação de Deus, nascimento virginal, ressurreição histórica de Jesus. "... O vento sopra onde quer..." Esse sopro de Deus que atinge a Igreja da Inglaterra, prenuncia o seu renovar contínuo pelo Espírito, é resposta à oração: "... dirige o que seremos...". Sopra Senhor!

Diário de Pernambuco Edição de Sexta-Feira, 21 de Março de 2003

Receita da fama

Segundo Sto. Estevão, diácono da igreja primitiva, Moisés, o príncipe do Egito, passou de sua infância até seus quarenta anos no Egito sendo instruído em toda ciência e sabedoria antigas, depois quarenta anos no deserto pastando cabras, sendo instruído pragmaticamente a como sobreviver em meio à adversidade em terras áridas, depois mais quarenta anos liderando o povo de Israel na jornada à terra prometida, aplicando o que tinha aprendido nos dois primeiros terços de sua vida e aprendendo como liderar uma turba pusilânime e melindrosa, assim ele tornou-se famoso, mesmo que não tenha sido essa a sua vontade.

João, o Batista, segundo o relato do Evangelho, primo de Jesus, era uma personalidade excêntrica e extravagante, mas também era um ser dirigido e guiado pelo Espírito de Deus. A despeito de sua esquisitice, foi considerado por Jesus como o maior dentre os nascidos de mulher. Nunca buscou a fama, mas a adquiriu por sua vida e na sua morte, que ocorreu por manter-se apegado ao que cria e ao que pregava.

Santo Agostinho, bispo, um dos pilares do pensamento do Cristianismo ocidental, nunca procurou a glória, mas ela veio, dizia: "... porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso...". Dessa forma viveu uma odisséia em busca de Deus, esquecendo-se de si mesmo, tornou-se famoso, mesmo que desprezasse tal coisa.

São Francisco de Assis, il poverello, conquistou a notoriedade justamente ao se afastar dela, sua humildade e sua busca incessante em seguir as pegadas do Nazareno, o fizeram uma das maiores personalidades da história do Cristianismo. Nunca procurou a fama, embora ela tenha vindo.

Lutero, o homem do Castelo Forte, entristeceu-se profundamente quando viu seu nome unido a uma igreja. Não queria ser lembrado, não queria a fama. Suas palavras em Worms: "... não é seguro e nem certo ir contra a consciência...", o tornam uma das maiores personalidades do Mundo, ao defender a liberdade de expressão. É lembrado em qualquer compêndio de história, embora se achasse apenas um simples monge.

Existem muitos modos diferentes de ser famoso, alguns difíceis e outros menos difíceis, mas todos árduos e trabalhosos. Alguns precisaram morrer para que seu nome fosse escrito nas pedras da História.

Mas a luz do Século XXI trouxe consigo uma receita imbatível e fácil de alcançar a fama: não é necessário fazer o que essas pessoas fizeram, basta participar de um reality show e a fama cai de pára-quedas na sala, sem o mínimo esforço.

Diário de Pernambuco Edição de Terça-Feira, 11 de Março de 2003

Mártires nossos de cada dia

Habacuque, um profeta existencialista, que viveu entre 600 e 300 a.C., era um homem de fé, ainda que arrazoando com Deus, ainda que duvidando d'Ele. Chegou pois a questionar a intervenção divina na história humana, quando indagou em suas pressuposições kierkegaardianas: "Até quando clamarei eu e tu não me escutarás?..."Era um homem cansado e desenganado.

Clamores contemporâneos! Queixas hodiernas! Reclamos de alguém que anseia pelo advento do Reino de Deus. Quando Deus perguntou a Caim onde estava Abel, usou uma figura muito vívida "...a voz do sangue de teu irmão clama a mim desde a terra..." Ele ouviu os brados metafóricos, os gritos lancinantes por justiça, feitos por uma voz silenciosa, muda, inaudível. São dois brados, são dois gritos, são dois protestos antitéticos, de um lado o profeta de Deus que ainda tem voz para reclamar, do outro o sangue do mártir que já não pode falar nem clamar, a violência calou sua voz.

O sangue clama porque não há quem grite em seu lugar, não há quem fale por si, então ele sobe em clamor até Deus. Tertuliano dizia que o sangue dos mártires cristãos, vítimas da sanha sanguinária e da violência gratuita do Império Romano, servia de insumo para um novo semear do Espírito Santo.

Mártir, um termo que bem pode ser interpretado como testemunha, é todo aquele que morreu por uma causa, dando sua morte como legado da vida e das idéias que defendeu, como combustível que impulsiona aqueles que testemunham sua morte e sua vida. Foi assim com os primeiros cristãos, com os atraiçoados da Guanabara, com os curdos, com os judeus durante quase toda sua história, com os afegãos, com os kosovares, com os palestinos e agora com o povo Xukuru.

Mártires de todos os dias, do cotidiano, mortes banais, pois caem rápido demais no esquecimento. Quando alguém fala em nome de outro que foi imolado, o sangue dele descansa em paz, mas quando calamos por medo ou omissão, seu sangue sobe até Deus. Como Habacuque, sinto-me cansado de ter que ir ao Monumento Tortura Nunca Mais, pois não tenho ido para depositar flores, tenho ido com muitos outros cúmplices e conspiradores da paz em busca de justiça, para gritar que a violência ainda não acabou.

Somos famintos de sede e de justiça, ainda temos voz, por isso não podemos deixar que o sangue dos mártires precise subir até Deus, falemos por eles, pelo povo iraquiano, curdo, afegão, xucuru, atikum, palestino e os nossos irmãos que são sacrificados todos os dias pela violência. "Venha o Teu reino".

Diário de Pernambuco Edição de Sexta-Feira, 7 de Março de 2003

Missão da Igreja

"... Violência nas ruas, armas, direitos deturpados, órfãos desamparados, viúvas roubadas, devastação, ódio, morte, saques, opressão, extorsões, incesto, assassinatos, matricídios, parricídios..."

À primeira vista parece uma lista das principais manchetes policiais dos jornais, mas não é. São fatos tão comuns hoje em dia que pensamos tratar de nosso cotidiano.

Na verdade são denúncias dos profetas que viveram há quase 2.500 anos, em época e lugares bem distintos dos nossos. Parece tão viva a cena, parece tão contemporânea que chegamos a confundir seus vaticínios com notícias de jornal.

Em meio a tal caos, a Igreja não definiu seu papel de atuação, não encontrou seu roteiro, não estudou bem o script. Alguns setores enfatizam que a missão primordial da Igreja é kerigma. Ou seja, a proclamação do Evangelho. Entendendo que as boas novas é que o Cristo veio libertar do pecado. Outros, porém, crêem que a missão da igreja é diaconia, enfatizando a ação social. Crêem que o Cristo veio libertar da opressão social. É a igreja indo ao encontro do oprimido, necessitado, faminto, órfão, viúva etc. Tendo uma visão profética, onde a denúncia da opressão e da violência é um ministério. Tal como fizeram os profetas da Bíblia.

Alheios a toda essa discussão, anônimos desprezam a questão da lógica aristotélica do terceiro excluído. Alguns teóricos crêem que é só para proclamar o Evangelho, outros que o verdadeiro Cristianismo é engajar-se, e assim a querela continua e a Igreja não sai da inércia. Cristãos humildes dizem: Por que não se faz os dois ao mesmo tempo, por que não se prega o Evangelho, praticando-o? Por que tem que ser um ou outro? Por que não os dois?

Eles sintetizam as duas visões. Por isso, gente humilde e simples dá opção aos sem opção de vida, esperança aos desesperançados, distribuem empatia e amor nos corredores e enfermaria de hospitais, teimam em cumprir os mandamentos de Jesus: "... estava preso e foste ver-me...". Muitos e infinitos anônimos, provam para os teóricos de gabinete, que a missão da Igreja é proclamar o Evangelho, não apenas das tribunas, púlpitos e naves imensas dos templos, também proclama-se o Evangelho, nos becos da fome, nas vielas da miséria, nos quintais do desespero. Pessoas inconformadas com injustiça e violência saem às ruas para anunciar que o pobre e o oprimido são o rosto do Cristo, que avilta-los é aviltar os céus.

Está no Evangelho: "... cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes..."

Diário de Pernambuco Edição de Sábado, 22 de Fevereiro de 2003

Filhos de Deus

"Não busquemos satisfazer a sede pela liberdade tomando da taça da amargura e do ódio..."

Essas verdades foram vaticinadas por Martin Luther King, o mesmo que, no dia 20 de janeiro último, comemorou-se o seu dia nos EUA. Pacifista morto em 68, era contra até a guerra justa, foi martirizado em sua própria nação. Morreu porque buscava assegurar a outros o direito a viver num mundo justo e sem desigualdades. Na mesma semana do feriado, nos corredores da Casa Branca e do Pentágono, circulam nas mãos dos burocratas pesquisas de opinião, feitas para descobrir se os americanos são ou não favoráveis à guerra.

Isso parece enredo de peça de teatro no estilo Kafka: non sense. Enquanto algumas igrejas e instituições de direitos humanos se reuniam para comemorar o nascimento de alguém que lhes indicou o caminho da igualdade, do amor e da paz, os líderes do seu país só respiram guerra e ainda procuram saber se estão agradando, se estão dando ibope. King foi discípulo de um homem que procurou a paz em todos os instantes de sua vida. Paz entre os homens e paz dos homens com Deus: Jesus Cristo. Num de seus discursos, usando um pequeno morro como plataforma para divisar os rostos ansiosos de seus seguidores, ele proclama com sua voz suave e macia, cheia de amor e paz: "Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus...".

Os EUA que, orgulhosamente, não sem razão, se gabam de terem sido fundados sobre as verdades bíblicas, dão mostram da superficialidade do Cristianismo que vivem. Uma geração que é a favor da guerra, uma geração belicista, uma geração que elege seus dirigentes pelo discurso duro e beligerante. À cada queda nas pesquisas, George, o Bush (Cauda de Raposa), que também se diz cristão, só precisa disparar uns mísseis e promover umas invasões e logo a sua popularidade dispara. Com soberba desdenha das opiniões contrárias à guerra, da ONU e de seus aliados, e ao melhor estilo non-sense espera que o Iraque obedeça à ONU, mas ele mesmo não obedece, pensa estar acima do Bem e do Mal. Rev. King indicou o caminho da paz, porque conhecia o evangelho e procurava vivê-lo. Jesus não deixou opção, não deixou escolha, sua ética era radical:

Os filhos de Deus buscam a paz. Pacificador no entender dele era a credencial de seus seguidores, não o dogma, nem tampouco reuniões de êxtase espiritual, mas uma simples e sublime busca pela implantação do Reino: "... Venha o Teu reino..." Esqueceram das palavras de King, ou melhor, esqueceram as de Jesus.

Diário de Pernambuco Edição de Sábado, 8 de Fevereiro de 2003

Richard Shaull

"Não sabeis que hoje caiu um grande homem?" Estas palavras ditas há séculos pelo rei-poeta Davi, bem poderiam ter sido ditas para Richard Shaull em 25/10/2002. Um dos precursores da Teologia da Libertação. Ele teve uma passagem controvertida nas igrejas presbiterianas brasileiras. Através de seu discurso profético, conseguiu que os evangélicos discutissem o tema da responsabilidade social da igreja, durante o regime ditatorial de 60, quando falar de social era coisa de comunista nos ambientes conservadores do protestantismo indígena.

Foi um dos ícones do ecumenismo no Brasil. Conseguiu que cabeças importantes daquela década lessem autores europeus e americanos, que não se enquadravam no leito de Procrusto do evangelicalismo de então. Os jovens precisavam de referências, precisavam de um profeta, e encontraram em Shaull essa pessoa. Gente como Rubem Alves, João Dias, Áureo Bispo, e tanto outros beberam de suas palavras, e na hora em que foram requisitados, se fizeram presentes, na luta contra o autoritarismo que imperava nos meios eclesiásticos.

Rubem Alves, amigo e discípulo fiel, escreveu: "... Agora ele ficou encantado. Partiu. É certo que plantarei uma árvore para ele no meu lugarzinho solitário, no alto de uma montanha, à beira de um vulcão, junto com as árvores de outros conspiradores... quando não houver ninguém por perto, as árvores conversarão entre si...".

Richard Shaull, antes de vir para o Brasil, havia sido expulso da Colômbia pelos católicos, e aqui foi expulso pelos protestantes, e mesmo assim, teimava em anunciar para todos os lados os seus ideais de ecumenismo. "... Para que sejam um..." era sua singela oração. Tal como a flor perfuma a mão que a arranca, Shaull brinda seus algozes com amor e defende o direito deles de falar e pensar. Para gente como ele o escritor sagrado diz: "... homens dos quais o mundo não era digno..." - Até breve profeta!

Diário de Pernambuco Edição de Sexta-Feira, 24 de Janeiro de 2003

Fundamentalistas versus Reformados (II edição)


Escrevi este texto quando o Talebã, a mais radical face do Fundamentalismo Islâmico ainda dominava boa parte do Afeganistão, os donos de toda a verdade e receptáculos da sabedoria divina, segundo a sua ótica.

Cabe-nos refletir sobre um outro fundamentalismo: O teológico pós-reformado, aquele surgido, não como uma reação ao existencialismo ou ao liberalismo europeu, mas sim como instrumento do Departamento de Estado dos Estados Unidos. O auto-denominado Reforma do Século XX. Como dizia Carl McIntire, e seus comensais menos influentes aqui em solo Tupiniquim, nada poderia ser mais soberbo, pois o mesmo surgiu, com investimentos do governo norte-americano, durante a chamada guerra-fria, para expandir, não a fé reformada, mas a suposta democracia americana, ou o American Way of Life. Coisa que fizeram muito bem, quem não lembra da famosa Aliança para o Progresso? quando as doações de alimentos e outras coisas mais entravam em nossas igrejas, enquanto agentes da CIA fomentavam junto com os militares brasileiros o que seria a Revolução de 1964?

Porém hoje, como as ameaças de guerra, ficaram só nas ameaças, o Muro de Berlim caiu, o Império Soviético ruiu, o mundo ficou sem bicho-papão até que surgissem os talebãs. O Fundamentalismo entrou em crise, pois o seu grande inimigo foi despedaçado, daí ficou sem norte, visto que era um movimento de reação e não de ação. O fundamentalismo precisa de um inimigo, para justificar a sua própria existência.

O Fundamentalismo cristaliza as verdades do passado como se fossem eternas, ele é nocivo às novas aprendizagens, é pouco estimulador do pensar teológico, não é original e nem tampouco há teólogos de destaques em seu meio, o que há são reprodutores ou contadores de teologia alheia, o fundamentalista não ousa, não pensa, não cria. Incrível que o fundamentalista coloca em pé de igualdade com a Bíblia, o que seus teólogos disseram no passado.

O fundamentalista é estressado, pois se sente na obrigação de defender Deus, como se dEle tivesse recebido procuração para isso. Acha que tem todas as respostas, e que só ele pode teologizar ou pensar sobre Deus, só ele sabe o que Deus pensa e como pensa, só a ele foi dada a condição de desvendar os mistérios de Deus.

O fundamentalista persegue quem pensa diferente dele sobre Deus, lembrado Torquemada e outros inquisidores do passado católico, porém ele é pouco reverente com Deus, pois atribui às suas palavras e às crenças dos outros tal poder que chega a acreditar que elas podem mudar o ser de Deus. O fato de alguém dizer que Deus é pequeno e pouco poderoso, não diminuirá em nada a Divindade, porém o fundamentalista acha que sim, daí, minimiza o caráter e a essência divinas.

Quem não pensa como ele,está errado, sempre. O amor fraternal não faz parte de seu catecismo, conduta que não o impulsiona a olhar com respeito às crenças alheias. É catedrático em usar versículos chaves das escrituras, para não julgar, mas já condenar sumariamente quem não canta por sua cartilha. "… arrepende-te e volta às primeiras obras...".

Entendo e a história da igreja comprova isso, que os reformadores, mesmo sendo homens de sua época, não eram assim, ousaram teologicamente, expandiram visões doutrinárias, sistema filosóficos e pensamentos não muito ortodoxos sobre Deus, não para a época. Não creio que ser reformado é ser fundamentalista, muito pelo contrário, pois a fé reformada não é cristalizada, permite a reflexão e o filosofar sobre Deus, o homem e sobre essa relação.

Faria um bem maior se falasse dos "fundamentalismos", visto que existe um concílio que os congrega, mesmo sendo tal movimento uma colcha de retalhos, que não se casam de doutrinas díspares. Batismo de criança, aspersão, imersão, línguas estranhas, governo de igreja, eucaristia, predestinação, arminianismo e muitas outras mais. Difícil é para alguns fundamentalistas, incluindo os batista e os de origem pentecostal, justificar essa união, quando eles crêem, que quem é batizado por aspersão na infância não é crente. Pois tal sacramento para eles é impróprio. Juntar-se então com os presbiterianos e outros, é mais conveniência, pois nem mesmo da eucaristia estes últimos podem participar. Difícil de entender.