Faze-o novamente, Senhor!

Uma oração para momentos de aflição:

Querido Senhor

A nossa esperança ainda é a de despertarmos. A nossa esperança ainda é a de abrirmos os olhos sonolentos e pensarmos: que sonho horrível. Como isso pôde ter acontecido? Estamos tristes, Pai.

E por isso nos achegamos a ti. Não pedimos ajuda a ti; nós a suplicamos. Não pedimos; imploramos. Sabemos o que tu podes fazer. Lemos as historias. Refletimos nas historias e agora suplicamos: “Faze-o novamente, Senhor. Faze-o novamente”.

Tu te lembras de José? Tu o resgataste do poço. Tu podes fazer o mesmo por nós. Faze-o novamente, Senhor.

Tu te lembras dos hebreus no Egito? Tu protegeste seus filhos contra o anjo da morte. Temos filhos também, Senhor. Faze-o novamente.

E Sara? Tu te lembras de suas orações? Tu as ouviste. Josué? Tu te lembras de seus medos? Tu o inspiraste. E as mulheres no tumulo? Tu ressuscitaste sua esperança. As duvidas de Tomé? Tu as levaste embora. Faze-o novamente, Senhor. Faze-o novamente.

De cativo, tu transformaste Daniel em um conselheiro do rei. Tomaste Pedro, o pescador, e o fizeste Pedro, o apostolo. Por causa de ti, Davi deixou de conduzir ovelhas para conduzir exércitos. Faze-o novamente, Senhor, pois precisamos de conselheiros hoje; precisamos de apóstolos; precisamos de lideres. Faze-o novamente, querido Senhor.

Sobretudo, faze novamente o que fizeste no Calvário. O que vimos nesta tragédia, tu viste ali naquela sexta-feira. A inocência acabou. Deus estava sofrendo. Mães estavam chorando. O mal estava dançando. Assim como as sombras caíram sobre nossos filhos, a escuridão caiu sobre o teu Filho. Assim como nosso mundo se despedaçou, o Filho da Eternidade foi transpassado.

E, ao anoitecer, a canção mais doce do céu foi o silencio, enterrado atrás de uma pedra.

Mas tu não hesitaste, ó Senhor. Tu não hesitaste. Depois de seu Filho permanecer por três dias em um buraco escuro, tu rolaste a pedra, bradaste na terá e transformaste a sexta-feira mais escura no domingo mais brilhante. Faze-o novamente, Senhor. Transforma este Calvário em Páscoa.

Obrigado por estas horas de oração.

Que tua misericórdia seja sobre todos os que sofrem. Concede aqueles que nos conduzem uma sabedoria que vá alem de seus anos e experiência. Tem misericórdia das almas que partiram e dos feridos que ficaram. Dá-nos graça para que possamos perdoar e fé para que possamos crer.

E olha com bondade para a tua igreja. Por dois mil anos tu a tens usado para curar um mundo ferido.

Faze-o novamente, Senhor. Faze-o novamente.

Por meio de Cristo, amém.

[Fonte: Max Lucado. Dias melhores virão. Thomas Nelson. Adaptado de uma oração escrita para a America Prays, uma vigília de oração pelo país em 15 de setembro de 2001.]

Um vislumbre de Jesus


Os dicionários definem um maltrapilho como um “esfarrapado”, “roto”, “pelintra”, “mendigo”, “um pedinte”. Mas a definição bíblica de maltrapilho vai muito além, como mostra qualquer exame rápido das Escrituras.

Ao passearmos tranqüilamente pelos corredores da história da salvação, observamos que Deus sempre demonstrou um afeto especial pelos pobres e pequeninos, pelos humildes de coração. Desde o instante em que a teocracia é formada, no monte Sinai, Javé quis de Israel a compreensão de que ele esperava algo mais de seu povo eleito que a mera observância externa à lei mosaica. Com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais evidenciado para os israelitas o fato de serem exatamente os maltrapilhos (os anawim — literalmente, “pequenos e pobres” —, como eram chamados em hebraico) o objeto especial da ternura e da compaixão de Deus.

A princípio, o termo maltrapilho tinha contornos somente sociológicos ou econômicos. Os maltrapilhos eram os desabrigados, os sem-terra, os meninos e as meninas de rua, os despojados, a quem um dia Deus tornaria novamente prósperos. Mais tarde, com a influência do profeta Isaías, o termo adquiriu sentido espiritual de enorme profundidade. O ministério de Isaías iniciou-se com uma visão de Deus “assentado num trono alto e exaltado [...]. Acima dele estavam serafins [...]. E proclamavam uns aos outros: ‘Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos...’”. A visão deixou em sua alma uma marca incandescente e indelével: Deus é totaliter aliter, Totalmente Outro. Os sentimentos humanos não podiam tocá-lo, e o pensamento humano não era capaz de contê-lo. Como Charles de Foucauld aprendeu no momento de sua conversão: “Deus é tão grande que há uma distância infinita entre Deus e tudo o que não é Deus”.

A idéia do mistério é ainda desconcertante para boa parte das mentes modernas, mas constitui a pulsação dos profetas e dos santos de todas as eras. Eles sabem que Deus pode fazer qualquer coisa e agirá desde que os homens e as mulheres sejam suficientemente humildes para reconhecer que necessitam dele.

Os profetas posteriores, seguindo os passos de Isaías, chamaram a essas pessoas simples e humildes anawim ou, transpondo para um conceito que possamos entender hoje: “maltrapilhos”. Foi assim que os vocábulos relacionados à pobreza deixaram de ter sentido exclusivamente econômico para também abarcarem nuanças espirituais. No alicerce dessa mutação, estava o princípio de Isaías: Deus executa seus atos divinos somente quando as pessoas reconhecem a insuficiência humana delas próprias (ou, no linguajar dos AA, sua “impotência humana”). Os verdadeiros amigos de Deus foram aqueles que se sentiram realmente pobres diante dele. Perceberam que o ato mais fundamental da religião era o fato de deverem a vida e o próprio ser a Outro. A dependência e a rendição amorosa consistiam para eles próprio fôlego de vida. Os maltrapilhos eram os pobres em espírito, pequenos aos próprios olhos, cientes de sua nudez e pobreza diante de Deus, por isso mesmo entregando-se sem reservas a sua misericórdia.

Era esse o espírito que Deus procurava em seu povo; é a única atitude que condiz com a condição de criatura própria do ser humano. Alia um senso de impotência da pessoa com uma confiança infalível no amor de Deus e uma rendição total à orientação de sua vontade. Os maltrapilhos eram na realidade o remanescente, o verdadeiro Israel para quem as promessas messiânicas haviam sido feitas.

Quando por fim o Filho de Deus abre as cortinas da eternidade e lá em Belém finca o pé na história humana, os que dão o passo de encontrá-lo são os verdadeiramente pobres em espírito: José, Zacarias e Isabel, Simeão e Ana, os pastores e os magos. Esses formaram sua corte, o remanescente sagrado de maltrapilhos prometido pelos profetas. Muito antes, porém, o olhar de Deus havia repousado com afeição especial sobre Maria, a jovem judia de Nazaré. Ninguém era mais verdadeiramente pobre em espírito, tão profundamente ciente de necessitar dele, tão inteiramente rendido a sua vontade. Foi por isso que ele a escolheu para ser a mãe do Messias — o menor e mais humilde na longa sucessão de maltrapilhos.

Como era de esperar, quando Jesus começa seu ministério profético, de imediato identifica o espírito de maltrapilho que havia nele: “... aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração...”. E que dizer do primeiro grupo chamado para o reino? “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.”

Meditações para maltrapilhos consiste numa série de reflexões escritas num espaço de 22 anos — anos de alegria e sofrimento, de fidelidade e infidelidade, de compromisso intenso e graves recaídas, de vida desordenada e esforço intenso por ser fiel a Jesus. Compartilho essas reflexões com um alvo específico em mente: não desejando transmitir pensamentos inspiradores, mas esperando despertar, ressuscitar e reavivar uma confiança radical e inamovível no Deus representado em forma corpórea no Carpinteiro de Nazaré. Creio piamente que o esplendor de um coração humano que confie na verdade de ser amado de modo incondicional confere maior prazer a Deus e lhe traz mais deleite do que a catedral mais magnífica jamais erigida ou o órgão mais estrondoso jamais tocado.

Confiar de forma inabalável hoje num maltrapilho é algo extraordinário, porque em geral exige um grau de coragem que chega às raias do heroísmo. Quando a sombra da cruz de Cristo recai sobre as pessoas na forma de fracassos, pesares, rejeição, abandono, desemprego, solidão, depressão, a perda de um querido; quando ficamos surdos a tudo o mais, exceto ao bramido estridente da nossa própria dor; quando o mundo ao redor repentinamente se apresenta como um lugar ameaçador e hostil, bem podemos bradar de angústia: “Como um Deus de amor permite que isso aconteça?”. E assim é lançada a semente da desconfiança, obrigando-nos a uma situação de escolha: nos afastaremos de Deus, ou nos voltaremos em direção a ele mesmo quando a escuridão o esconde de nossa visão? Escolher a luz de Deus na noite escura do desespero é um ato heróico de coragem.

Continuo a deparar com essa escolha nos momentos mais sombrios, solitários e desalentadores de minha vida. Ao convidá-lo a unir-se comigo nessa viagem de maltrapilho, não peço mais de você do que peço de mim mesmo: que confie no amor de Deus não importando o que nos aconteça.

Brennan Manning

[Apresentação feita pelo autor do livro Um vislumbre de Jesus, Editora Palavra, 1ª edição, 201 páginas.]

A Volta do Filho Pródigo(Gerson Borges)



Um dia deixei você,
quando fui ingrato e mal.
Nem ao menos agradeci
seu amor, o seu carinho.

Um dia, deixei você
e achei tudo tão normal.
Ninguém sabe o que é sofrer
até descobrir sozinho.

Longe de casa, longe de casa,
dura pouco a ilusão. Longe de casa,
longe de casa,
adoece o coração
e não há ninguém por perto,
longe de casa é um deserto.
Longe de casa, longe de casa,
só há solidão.

Pai, eu te abandonei,
quanta coisa destruí!
Mas agora aprendi
que esse mundo é perigoso.

Eu quero recomeçar,
levantar onde caí.
Eu tô cansado de mendigar
tendo um pai tão amoroso!

Longe de casa, longe de casa,
dura pouco a ilusão.
Longe de casa, longe de casa,
adoece o coração
e não há ninguém por perto,
longe de casa é um deserto.
Longe de casa, longe de casa,
só há solidão.

[Hoje é meu aniversário, e este é para me lembrar que eu sou um maltrapilho cansado de carregar a mala pesada de minha vida, eu sou um mendigo de vestes rotas que ainda come bolotas com os porcos, mas eu tenho um pai(Abba) que está sempre me esperando quando findam todas as minhas idas e vindas, e no dia em que estas jornadas terminarem definitivamente, receberei Seu abraço e sei que Ele fará uma festa em comemoração ao meu regresso. Voltarei Pai! Já estou na estrada de volta para Teus afáveis braços.]

Pai

Pai!

Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar

Ah! Ah! Ah!...

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz

Pai! Paz!...

Composição: Fábio Jr.

[Este é um canto que desde pequeno me fazia sentir um aperto no peito, hoje que eu não tenho mais a tua companhia, torna o aperto insuportável, dói a saudade, dói tua falta, dói a ausência de teu sorriso. Até breve pai, até breve profeta, até breve herói. Hoje completarias 71 anos, este é para que os 05 longos anos de tua partida se encurtem.]

A Cabana de William P. Young


Comecei a reler este livro, há pouco mais de um mês eu o li pela primeira vez, não consegui segurar a ansiedade e já estou de volta à leitura. O livro está na lista dos mais vendidos da Veja no Brasil e nas listas dos principais veículos de comunicação dos EUA, o pop-star Michael W. Smith deu a seguinte opinião sobre este livro:
"Esta história deve ser lida como se fosse uma oração – a melhor forma de oração, cheia de ternura, amor, transparência e surpresas. Se você tiver que escolher apenas um livro de ficção para ler este ano, leia A cabana."
Concordo plenamente com ele, sinto-me até ousado em tentar acrescentar algo, mas não consigo resistir, fui tomado pela mesma alegria indizível que tive ao ler O Evangelho Maltrapilho, meu peito apertou demais, às vezes não consegui resistir e chorei muito, confesso que nas primeiras 60 páginas eu fiquei tão deprimido, que eu queria continuar a ler, mas queria também parar, a dor de Mack era tão concreta que tornou-se minha dor. Li de uma "sentada", e após algumas horas ainda estava com uma sensação de êxtase, como se não estivesse na terra.

Dei esse livro de presente à minha filha Mysha com 13 anos, o livro sugere que seja presenteado às pessoas que mais amamos (não acho que seja um questão de marketing, é uma questão de compartilhar a Graça), e ela perguntou se era verídico, eu respondi que torcia que fosse, pois é bom demais para não ser verdade. O único comentário que ela fez após suas incontáveis lágrimas era do desejo de que o livro virasse um filme.

A Cabana foi publicado nos EUA por uma editora pequena, que não alcançou o status de gigante ainda, surpreendeu à crítica, à editora e talvez ao próprio autor, não foram criadas muitas estratégias de marketing, mesmo assim o livro já figura como uma dessas raridades que contagia o público, que entusiasmado sai indicando para todos os amigos e colegas, e vai aos poucos se tornando um fenômeno de vendas. Eu mesmo já recomendei a diversos amigos que presenteassem o livro no fim de ano, a mídia já previa que comprá-lo para presentear em amigo secreto seria a tendência para este verão, acrescento ainda que talvez seja um dos melhores presentes que se possa dar a alguém. E este monólogo nada mais é que uma forma de humildemente propagá-lo um pouco mais. O livro já ultrapassa a cifra de dois milhões de exemplares vendidos apenas nos EUA. A imprensa, sempre desconfiada de histórias com forte teor religioso e por que não dizer doutrinário, demonstra ter gostado também. Só discordo quando ela considera que este livro é de auto-ajuda, acho que não sabe classificar um livro.

A história tem um mote: um acontecimento trágico que ocorreu durante uma viagem de fim de semana, essa viagem, bem programada, era pra ter sido repleta de diversão e alegria, porém uma tragédia marca para sempre a vida da família de Mackenzie Allens: sua filha mais nova, a adorável, doce e reflexiva Missy(adjetivo que lembra perdida em inglês), desaparece misteriosamente, indicíos que foi raptada surgem durante as buscas. Depois de exaustivas investigações, algumas poucas evidências de que ela teria sido assassinada são encontrados numa cabana abandonada e essas evidências levam a crer que que ela foi brutalmente assassinada por algum maníaco sexual.

Os quatro anos seguintes é um misto de inferno de Dante com o Armagedon Apocalíptico, ele passa a viver numa tristeza profunda causada pela culpa de não ter conseguido proteger a sua pequena filha e pela saudade incurável que sente dela, imerso numa dor profunda e paralisante, que todos nós conhecemos bastante, Mack entrega-se ao que ele chama de a Grande Tristeza, um estado de torpor, ausência deliberada e raiva que, mesmo após tanto tempo do desaparecimento da menina, insiste em não diminuir, tornou-se companheira, tornou-se amiga, tornou-se até uma razão para viver. Este estado é muito parecido com que os Pais do Deserto denominavam de Acedia, um estado melancólico de indiferença às coisas bela da vida e à própria vida.

Mack recebe numa noite solitária e fria um estranho bilhete, que tem como remetente um tal de "Papai", essa alusão não traz boas lembranças para ele, uma vez que seu relacionamento com seu pai sempre foi tumultuado e por vezes ele só sentia ódio do seu pai bêbado. Porém a esposa e os filhos de Mack usam esse título para Deus. A mensagem escrita era um convite para voltar à cabana onde aconteceu a tragédia. Tal bilhete só poderia ter sido escrito por um maníaco sádico que não se importava com os sentimentos de ninguém.

Relutante e eivado de dores e péssimas lembranças, além de um ressentimento muito grande com uma pitada de desconfiança ele vai ao local do crime numa tarde de inverno, talvez procurasse uma maneira de aplacar o seu sofrimento, nada melhor que olhar nos olhos de nossos demônios para fazer com que percamos o medo deles, a sensação que passa é de alguém que quer rever algo que causou uma dor muito profunda e que está tão cativo daquela dor que quer passar de novo por ela, a dor tornou-se necessária, uma verdadeira obsessão. Ele aproxima-se pausadamente do local mais assustador para sua alma, palco onde seu mais terrível pesadelo foi encenado. O que encontrará alí, mudará o seu destino e dos que o cercam para sempre.

Ao entrar na Cabana ele enfrenta todos os piores pesadelos que se pode imaginar, todos os medos, todos os demônios, todos de uma vez só, sem subterfúgios, sem ter para onde correr, porém em meio a tudo isso ele tem uma surpresa, talvez não seja tão surpreendente assim, Deus, Jesus e o Espírito Santo estão à sua espera para o que se poderia chamar de "acerto de contas" e, com imensa benevolência, compreensão e compaixão, dialogam com Mack sobre vida, morte, dor, perdão, fé, amor e redenção, fazendo-o compreender alguns dos episódios mais tristes de sua história.

Ele tem então essa experiência ímpar de conversar, chorar e até mesmo de xingar, se fosse o caso, o principal responsável pela perda de Missy, o próprio Deus, o que surpreende não e a presença divina naquela cabana, mas sim a forma que essa trindade se manifesta, emana, é o que se pode chamar de versão triúna escandalosa, bastante estranha, mas nem por isso menos acolhedora, Ela, a Trindade, está pronta para responder a todos os questionamentos de Mack e ainda se oferecer para curar a sua alma. Deus pai aparece como uma acolhedora dona-de-casa negra (segundo um articulista da Veja, parece uma mistura do misterioso Oráculo, da série Matrix, com a ama carinhosa de E o Vento Levou...), o Espírito Santo é uma diáfana, bastante estranha, mulher oriental e Jesus é um jovem carpinteiro que faz piada sobre o próprio narigão judaico, no melhor estilo de sátira. Como ficar irritado e se afastar de personagens assim? Além do mais, Papai (estranho chamar uma mulher assim) gosta de soltar umas piadinhas meio sem graça. Algo que transparece desde a primeira vez que aparece é a idéia que o seu colo é bastante convidativo para cabeças que não reclinam há muito tempo, para rostos que há muito não choram porque as lágrimas já secaram. Este estranho "acerto de contas" se dá no palco da dor, uma metáfora de Young para o fato de que para alcançar a cura, precisamos sentar à mesa com nossas dores e medos e olhá-los nos olhos. É com imensa benevolência que Papai, Sarayu(Espírito Santo) e o alegre e bondoso Jesus travam com Mack iniciam o processo de cura, revirando feridas, desatando as ataduras e colocando as feridas ao ar livre, para serem definitivamente curadas, mas só após serem expostas. Quem não gostaria de um encontro como esse? 

A Cabana é para mim uma metáfora de uma discussão muito antiga: como conciliar a bondade de Deus com tanta injustiça, dor e violência? E o que é mais incompreensível ainda: como conciliar que Ele seja tão poderoso se coisas más acontecem? Em curtas palavras, ou Deus é bom ou é Poderoso, pois o mundo não permite as duas coisas ao mesmo tempo. Como então equacionar as contradições da vida? Se Deus é poderoso por que permite que coisas más aconteçam? Deus é bom, porém não tem tanto poder assim e o mundo é cruel e injusto, e Ele não pode fazer nada. Estas são as discussões que A Cabana desperta.

Mack, como eu e você, como tantos bilhões de seres humanos diante das muitas dores profundas e dilacerantes que assolam à alma mais do que ao corpo se questiona: Se Deus é tão poderoso, por que não faz nada para amenizar o nosso sofrimento? A tendência de quem só consegue pensar assim é se afastar de um ser que não se importa, não é melhor ficar distante de alguém impassível? Por isso que nos distanciamos tanto de Deus, não conseguimos conviver com sua aparente e irritante impassibilidade. Ficamos do lado de Mack, por que o vemos inocente, não vemos nenhum aparente erro em sua vida que justifique tal sofrimento, mas a pergunta aqui é: e os que cometeram erros em suas vidas, esses mereceriam ter o sofrimento atenuado? A misericórdia é justa?

A leitura é de uma intensidade que chega a doer, mas é bastante sensível, e com certeza é profundamente transformadora. O livro nos leva a refletir sobre o amor e o poder de Deus, sobre o sentido da dor, do sofrimento e das dúvidas. Permite que aqueles que desconfiam do amor de Deus possam olhar de novo para Ele, não como um juiz, mas como um Pai desesperado de amor. O livro deve ser lido por todos, principalmente para aqueles que, como eu, estão há tanto tempo dentro da Cabana que não sabem onde é a saída, mas sabem que ela existe, mesmo que demore achar, quando a achar será uma pessoa melhor, para aqueles que olham de fora para a Cabana com terror e medo possam olhar como um processo inevitável em busca de cura.

Como disse um poeta cristão tempos atrás: "Não me negue o sofrimento se for para te encontrar Jesus...", peço a Papai que me tire da Cabana escura e fria, quando eu tiver que sair dela, não quando eu quiser sair dela.

[Este é para Jennyfher, amiga e companheira, que descobriu na sua própria Cabana que Abba, Papaizinho, está lá, cuidando de suas dores, de suas tormentas e com a mão na maçaneta, pronto para abrir a porta].

Confissões de um ex-pastor(VII)

Se eu não estivesse escrevendo esta série de Confissões de um ex-pastor, daria, creio eu, acertadamente o título para este monólogo de: Os leprosos modernos e os fariseus de sempre!

Antes de tudo, se faz necessário um alerta, para que não ocorram mal-entendidos: os termos leproso e fariseu estão sendo usados como metáforas. Não exerço nenhum juízo de valor quando os utilizo.

Consta num dos livros mais esquisitos do Primeiro Testamento, Levíticos, o livro que eu mais encontrei dificuldades para ler da Bíblia, até mesmo mais que Apocalipse, as regras para tratar cerimonialmente, e socialmente, um caso de lepra na família e na comunidade(13:45 e 46), a Lei mosaica era rígida e impiedosa: o leproso deveria morar fora da cidade mantendo uma distância de seis passos de outras pessoas e usar roupas de acompanhantes de enterro, a lepra tornava a pessoa cerimonialmente impura, que era excluída do acampamento hebreu, e por conta disso era considerada também alijada da presença de Deus, já que se considerava a reunião no Templo (Tabernáculo) como a única forma legítima de estar na presença de Deus. A preocupação com esta doença e que justificaria todo este tratamento, reflete em Salmo 91:6, onde o salmista canta: "... nem a peste que se propaga nas trevas...", ou no dizer da NVI: "... nem a peste que se move sorrateiramente nas trevas...", cria-se que a lepra era contagiosa à noite, por isso que deveriam afastar-se, o povo de Deus não poderia ter doenças que deformassem o corpo, qualquer deformidade o afastava do Santuário e da possibilidade de oficiar, eram rigorosos, mas a questão era de sobrevivência, hoje isso é compreendido e aceitável.

A Lei Mosaica caducou, a Graça instalou-se, ou pelo menos tem se esforçado, pois não é bem vinda ainda na igreja moderna. Existem muitos fariseus (não estou usando em sentido pejorativo este termo) e doutores da Lei, gente íntegra, cumpridora da Lei, obediente a todos os mandamentos bíblicos e que não satisfeita com isso ainda acrescenta alguns por conta própria, que não é hipócrita, mas de uma espiritualidade doentia, gente que não consegue ter misericórdia, gente que conhece a Graça apenas como um verbete do dicionário.

O caso que eu vou relatar é uma ilustração disso, não quero que seja tomado como crítica, não quero ser impiedoso, a única razão de usá-lo é como um exemplo, não julgo as ações de ninguém. Anos atrás eu tinha um grande amigo, foi meu professor de Homilética no seminário, gostava tanto dele que pedi para ir para sua igreja, queria ajudá-lo, mas queria aprender com ele, assim tornou-se também meu pastor, quando ele saiu para ser pastor de uma igreja maior eu fiquei, ainda seminarista, dando assistência à igreja, ele me orientava e muito. Quando ainda era pastor da igreja pequena orávamos muito juntos, líamos a Bíblia e outros livros juntos, chorávamos juntos, recomendávamos livros um ao outro. Um dia intermediei a reunião dele com o presidente de um presbitério, a intenção era que a igreja dele que era separatista voltasse ao seio da igreja mãe, o que de fato pouco tempo depois concretizou-se, passando o mesmo posteriormente a exercer cargos de destaque na denominação. Tudo isso durou até o dia em que revelei a minha face pecadora e meu caráter com grandes falhas e inconsistências. Não era mais chamado de "varão" e nem de "abençoado" quando o encontrava, apenas leve contato e distantes e "frouxos" apertos de mão, dizem os mais antigos que um homem é conhecido pela força ou a forma que aperta a mão de outro, nada mais de abraços, nada mais de tapinhas nas costas.

Eu estava em um Shopping de Recife há meses atrás, numa tarde de sábado, solitário, deprimido e triste em meio à multidão que alheia à minha condição comprava, comprava e comprava naquele templo do deus Mamom, ao passar num corredor deparei-me com este pastor abraçado à esposa defronte à vidraça de uma loja, fiquei feliz ao ver aquele homem de Deus, alguém que sempre julguei piedoso, e continuo crendo nisto ainda hoje, grande orador, sempre fez sermões de três pontos de forma invejável, metódico como pastor e um bom professor sempre disposto a aprender, uma das suas maiores características sempre foi a humildade e o espírito de serviço. Ele me olhou de soslaio e virou o rosto, fez de conta que não me viu, acredito que não queria ser visto num lugar público falando com um leproso espiritual como eu, acho que minhas deformidades estavam tão acentuadas que devem ter causado repulsa aos olhos sensíveis e sinceros do meu amado amigo. Para não envergonhá-lo e deixá-lo constrangido eu me afastei, fiquei com piedade dele, talvez eu o deixasse em maus lençóis com a esposa, que o acompanhava, se o abordasse, não quis forçá-lo a falar com um leproso, levei a minha lepra para longe, eu não queria contaminá-lo.

Philip Yancey descreve em A Dádiva da dor e em Alma sobrevivente, ainda que neste último de forma resumida, a história do médico Paul Brand, que abandonou o luxo e a fama para tratar de leprosos em regiões paupérrimas da Índia, algo que me chamou à atenção naquela brilhante biografia foi o caso de um homem que estava num estágio avançado de lepra, rejeitado pela família, pela sociedade e por muitos centros de saúde, foi tentar a sorte derradeira no hospital do Dr. Brand, ao ser examinado por este, começou a chorar, o médico ficou assustado e perguntou à enfermeira que servia de intérprete se estava machucando sem querer o rapaz, a resposta que recebeu foi que o choro se devia ao fato de que aquele homem havia esquecido o toque humano, e estava emocionado por estar sendo tocado pelo Dr. Brand.

Eu me senti naquele dia como um leproso, num grau tão elevado de infecção, que esconderam até o rosto de mim, por medo de contaminação. Sei que minhas falhas de caráter são um grave desapontamento a Deus, que mesmo assim me ama, sei também que são um grave desapontamento à igreja, que não consegue amar pecadores como eu. Só os perfeitos são amados, só os bonzinhos são queridos, eu não sou nenhuma coisa e nem outra. Quando reencontrar meu amigo nos longos e iluminados corredores do Palácio de Abba, não o deixarei esconder o rosto outra vez, até porque minha lepra ficará por aqui mesmo, darei um grande abraço e beijarei sua face, feliz por estarmos juntos no único lugar onde não vale o que somos ou o que fomos, o que vale e valerá para sempre é a sombra de uma cruz (e tudo o mais que ela representa) num monte empoeirado na antiga Jerusalém. Neste dia muitos de nós descobriremos que a mania pela perfeição, a intolerância e o desprezo aos imperfeitos não foi o evangelho que Abba mandou que pregássemos.

Espero que um dia, quando o Rei mandar me buscar e me chamar para sentar à mesa, aqueles que torceram o rosto para mim, sejam mais tolerantes, pois como Mefibosete, sou aleijado cheio de defeitos, o manto púrpura sobre os meus ombros não modifica meus defeitos, apenas os encobre, mas não os conserta de vez, mesmo assim o Rei mandou me buscar, e segundo a Sua própria palavra: "... para que eu use de misericórdia (bondade)...". Um dia eu sei que dirão, Jocelenilton, coxo de caráter de ambos os pés, morava em Jerusalém, porquanto comia à mesa com o Rei, e isto bastará como epitáfio para minha lápide: Comia à mesa com o Rei.

Uma prece: Sou um Maltrapilho Abba! Permita que eu ame e compreenda àqueles que não conseguem me amar por eu ser um pecador, não permita que tenha raiva e nem ressentimento, permita, que eu possa tocar naqueles que estão na mesma condição que eu, precisando de um amigo, de um abraço e de um apoio, me ajude a aceitar às falhas dos maltrapilhos desprezados como eu, e que aqueles que têm saúde espiritual, possam continuar sãos, ainda que desviem os olhos de mim. Sustenta-os, protege-os, fortaleça-os.

Elegia desesperada(O Desespero da Piedade)

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

Vinícius de Moraes
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.

Meu amigo livro...

“Só devemos emprestar livros aos grandes amigos, e os grandes amigos não pedem livros emprestados”. Autor desconhecido.
Entrar numa livraria casualmente ou de propósito, seja num Shopping Center ou numa rua qualquer, passar alguns minutos escolhendo um bom livro, isso é uma questão relativa, depois dirigir-se para o caixa e efetuar o pagamento, ter o bloqueio eletrônico do livro liberado, dirigir-se à saída, as olhadelas furtivas quando o sinal de trânsito fecha ou nos intervalos das sacudidelas do ônibus, a chegada em casa e o ato de sentar-se para ler é algo tão corriqueiro que a maioria, ou mesmo a totalidade de nós, não pensa nas implicações ou na trajetória percorrida por aquela celulose que foi extraída de uma árvore, normalmente de um pinheiro, e passou por um processo industrial de beneficiamento sendo transformada então em papel, que é enrolado e enviado para um armazém onde fica aguardando que uma editora o compre, depois de todo um percurso, que pode ser ou não longo, finalmente chega à gráfica, finalmente não! A viagem está apenas no começo.

Então um livro é estampado, ou impresso nessas páginas e lá se vai a nossa celulose, transformada em livro para uma distribuidora, depois para a estante de uma livraria aguardar que alguém o leve, após inúmeras esperanças vãs, finalmente é comprado, caso vá para um bibliófilo será manuseado com cuidado e depois de lido será bem guardado, guardado até demais, mas caso nosso livro seja comprado por uma instituição que tenha uma biblioteca, então começa um mundo de ida e vindas, viagens e mais viagens, vai passar por muitas aventuras, mas também por muitos apertos, levará muitas pessoas às lágrimas, mas pode também ter vontade de chorar por ser maltratado. Porém imaginemos que nosso livro seja exportado, alguém digamos, por exemplo, lá na longínqua Latvia, que lê português resolve entrar num site de uma livraria brasileira que efetua vendas para o exterior e adquire o nosso amigo, lá se vai ele, sendo embalado e enviado para uma empresa que efetuará o traslado por via aérea, ou surface para a Europa, depois ele será enviado no modal ferroviário, por último irá por via rodoviária até as mãos do ansioso dono, que depois de devorá-lo irá utilizar as suas idéias numa tese de mestrado em literatura, explicando as nuances da literatura brasileira e as influências do dinamarquês Sören Kierkgaard no pensamento existencialista do autor da obra. Parece viagem? Mas é uma viagem.

Imagine então que ao invés de um livro ela seja beneficiada para ser um caderno ou para ser a capa de um DVD de um show de um cantor famoso? Bom as viagens serão infinitas, melhor pararmos por aqui. Ainda bem que não teve a nossa celulose o azar de virar santinho de político que não foi eleito, pode ser que na próxima “encadernação” após a reciclagem, ela venha como folha ou capa de best-seller, tomara que seja de um livro de José Saramago ou de Khaled Hosseini.

Imagine então que nosso amigo latviano ao invés de comprar o livro resolvesse efetuar o download do arquivo em PDF que ele encontrou num site qualquer, ou então ele comprasse a versão digitalizada do livro de forma legal, o ebook e o colocasse num Pda ou Smartphone para poder ler em qualquer lugar, isso faria que a nossa velha amiga celulose beneficiada fosse poupada de toda essa trajetória?

Em tempos de modos ecologicamente corretos, qual será o futuro do livro se a leis se tornarem mais rígidas na contenção do desmatamento? Já existe alguma tecnologia que venha a substituir a celulose e com isso não haja tanto corte de árvores? E essa tecnologia poria fim ao que chamamos de livro?

Já li diversos livros na tela do computador e li outros tantos na tela do Palm, mas nada supera o prazer de abrir um livro e cheirá-lo, claro, o paladar é aguçado pelo olfato, experimente comer uma deliciosa feijoada gripado, não tem sabor, tem que sentir o cheiro antes de degustá-la, isso faz parte do ritual. E o que dizer do prazer de colocar um livro debaixo do travesseiro, com o PC ou Palm isso num fica muito legal não. Ainda tenho a mania de rabiscar anotações nos livros que leio, são hábitos que não dá para mudar. Espero que desenvolvam tecnologias e políticas sustentáveis de plantio de florestas de pinheiros, para que os livros como os conhecemos hoje não desapareçam.

O que é que a frase do início do texto tem a ver com tudo isso? Nada, ela é só um conselho aos que pensarem em comprar livros.

(Introdução de um trabalho para a Faculdade Boa Viagem)
P.S: Homenagem à Nathalia, minha sobrinha que completa ano hoje.