A História de Dechen



Esta animação nos conta a história de Dechen, um monge budista tibetano em processo de treinamento que tem uma grande paixão pela jardinagem. No vídeo podemos ver como ele planta uma flor, a observa e cuida da mesma com muito carinho e total dedicação. No entanto, a planta vai perdendo força apesar de todos os cuidados desprendidos.

E a linda flor, sufocada pela ausência do sol, começa a murchar, provocando grande incompreensão e tristeza ao protagonista. Mas no momento em que o pequeno monge descobre que a flor somente teria uma vida feliz em seu lugar de origem, ele a leva e planta-na no solo que ela tanto ama.

Ali a flor se torna incomensuravelmente bela. E o menino monge descobre que, ainda que amamos muito algo ou alguém, não podemos deixá-lo cativo. Pois cada ser é ímpar e possui o seu modo íntimo de felicidade. Ele descobre que amar é aceitar a felicidade do outro ainda que esta felicidade não seja ao seu lado. E que por mais que nos dediquemos ao nosso objeto de desejo, ele precisa de seu próprio espaço para respirar, para crescer, para resplandecer.

“Deixar livre é único modo de amar verdadeiramente”. Clara Dawn.
[Fonte do texto: http://www.portalraizes.com/a-historia-de-dechen-amar-e-deixar-ir/]

Opinião


Balzac, que percebeu tanta coisa, percebeu também qual era o papel que a polícia estava começando a desempenhar no mundo contemporâneo. Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão. Mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas elemento determinado.

O romancista tinha mais ou menos dezesseis anos quando Napoleão caiu, e assim pôde ver como a polícia organizada por Fouché adquirira por acréscimo (numa espécie de desenvolvimento natural das funções) o seu grande papel no mundo burguês e constitucional que então se abria: disfarçar o arbítrio da vontade dos dirigentes por meio da simulação de legalidade.

A polícia de um soberano absoluto é ostensiva e brutal, porque o soberano absoluto não se preocupa em justificar demais os seus atos. Mas a de um Estado constitucional tem de ser mais hermética e requintada. Por isso, vai-se misturando organicamente com o resto da sociedade, pondo em prática um modelo que se poderia chamar de “veneziano” — ou seja, o que estabelece uma rede sutil de espionagem e de delação irresponsável (cobertas pelo anonimato) como alicerce do Estado.

Para este fim, criam-se por toda a parte vínculos íntimos e profundos. A polícia se disfarça e assume uma organização dupla, bifurcando-se numa parte visível (com os seus distintivos e as suas siglas) e numa parte secreta, com o seu exército impressentido de espiões e alcaguetes, que em geral aparecem como exercendo ostensivamente uma outra atividade. Este funcionamento duplo permite satisfazer também a um requisito intransigente da burguesia, dominante desde os tempos de Balzac, e dispensado só nos casos de salvação da classe: a tarefa policial deve ser executada implacavelmente, mas sem ferir demais a sensibilidade dos bem-postos na vida. Para isso, é preciso esconder tanto quanto possível os aspectos mais desagradáveis da investigação e da repressão.

Para obter esse resultado, a sociedade suscita milhares de indivíduos de alma convenientemente deformada. Assim como os “comprachicos” d’O Homem que Ri, de Victor Hugo, estropiavam fisicamente as crianças a fim de obterem aleijões para divertimento dos outros, a sociedade puxa para fora daqueles indivíduos a brutalidade, a privação, a frustração, a torpeza, a tara — e os remete à função repressora.

Daí o interesse da literatura pela polícia, desde que Balzac viu a solidariedade orgânica entre ela e a sociedade, o poder dos seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal, do degenerado, para o fortalecimento da ordem. Nos seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor, mesmo porque este pode ter sido antes um transgressor, como é o caso de Vautrin, ao mesmo tempo o seu maior criminoso e o seu maior policial.

Dostoievski percebeu uma coisa mais sutil: a função simbólica do policial como sucedâneo possível da consciência — a sociedade entrando na casa de cada um através da pressão ou do desvendamento que ele efetua. Em Crime e Castigo, o juiz de instrução Porfírio Porfiriovitch vai-se tornando para Raskolnikof uma espécie de desdobramento dele mesmo.

Mas foi Kafka n’O Processo, quem viu o aspecto por assim dizer essencial e ao mesmo tempo profundamente social. Viu a polícia como algo inseparável da justiça, e esta assumindo cada vez mais um aspecto de polícia. Viu de que maneira a função de reprimir (mostrada por Balzac como função normal da sociedade) adquire um sentido transcendente, ao ponto de acabar se tornando a sua própria finalidade. Quando isso ocorre, ela desvenda aspectos básicos do homem, repressor e reprimido.

Para entrar em funcionamento, a polícia-justiça de Kafka não tem necessidade de motivos, mas apenas de estímulos. E uma vez em funcionamento não pode mais parar, porque a sua finalidade é ela própria. Para isso, não hesita em tirar qualquer homem do seu trilho até liquidá-lo de todo, física ou moralmente. Não hesita em pô-lo (seja por que meio for) à margem da ação, ou da suspeita de ação, ou da vaga possibilidade de ação que o Estado quer reprimir, sem se importar se o indivíduo visado está envolvido nela. Em face da importância ganha pelo processo punitivo (que acaba tendo o alvo espúrio de funcionar, pura e simplesmente, mesmo sem motivo), a materialidade da culpa perde sentido.

A polícia aparece então como um agente que viola a personalidade, roubando ao homem os precários recursos de equilíbrio de que usualmente dispõe: pudor, controle emocional, lealdade, discrição — dissolvidos com perícia ou brutalidade profissionais. Operando como poderosa força redutora, ela traz à superfície tudo o que tínhamos conseguido reprimir, e transforma o pudor em impudor, o controle em desmando, a lealdade em delação, a discrição em bisbilhotice trágica.

Daí uma espécie de monstruosa verdade suscitada pela polícia. Verdade oculta de um ser que ia penosamente se apresentando como outro, que de fato era outro, na medida em que não era obrigado a recair nas suas profundidades abissais. Aliás, seria mais correto dizer que o outro é o suscitado pela polícia. O outro, com a sua verdade imposta ou desentranhada pelo processo repressor, extraída, contra a vontade, dos porões onde tinha sido mais ou menos trancada.

De fato, a polícia tem necessidade de construir a verdade do outro para poder manipular o eu do seu paciente. A sua força consiste em opor o outro ao eu, até que este seja absorvido por aquele e, deste modo, esteja pronto para o que se espera dele: colaboração, submissão, omissão, silêncio. A polícia esculpe o outro por meio do interrogatório, o vasculhamento do passado, a exposição da fraqueza, a violência física e moral. No fim, se for preciso, poderá inclusive empregar a seu serviço este outro, que é um novo eu, manipulado pela dosagem de um ingrediente da mais alta eficácia: o medo — em todos os seus graus e modalidades.

Um exemplo dessa redução degradante é o comportamento do delegado com o encanador, no filme Inquérito sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de Elio Petri.

O delegado, que é também o criminoso, resolve brincar com o destino e como que provar o mecanismo autodominante da polícia, a sua finalidade em si mesma. Para isso, dirige-se a um transeunte qualquer, escolhido ao acaso, e confessa que é o matador procurado, dando como prova a gravata azul celeste que usa e fora vista nele. Convence então o pobre transeunte a ir à polícia e relatar o fato, dando-lhe para levar como indício (e evidentemente como baralhamento do indício) diversas gravatas iguais, que mostrariam como era a do assassino.

Chegado à polícia, o transeunte, que é encanador, dá de cara com o assassino que se confessara na rua, e que ia delatar; mas que agora está no seu papel de delegado. Este o interroga com brutalidade e o pressiona física e moralmente para dizer quem era o assassino que se desvendara a ele na rua. Mas o pobre diabo, completamente desorganizado pela contradição inexplicável, não tem coragem para tanto. Com isso, vai ficando suspeito, vai-se caracterizando legalmente corno possível criminoso, até desaparecer dos nossos olhos, trôpego, arrasado, por uns corredores sujos que levam aonde bem suspeitamos.

A força que o paralisa, e que nos paralisaria eventualmente, vem de uma ambiguidade, misteriosa na aparência, mas eficaz, cuja natureza foi sugerida acima: o repressor e o transgressor são o mesmo, não apenas fisicamente e do ponto de vista dos papéis sociais, mas ontologicamente (o outro é o eu).

Tudo nesse episódio é modelar: a gratuidade com que se escolhe o culpado; a imposição de um comportamento não intencional (ir à polícia com as gravatas azuis no braço, delatar um criminoso sem nome, que não interessa); o baralhamento da verdade, quando ele constata que o homem que se denunciara como assassino é também o delegado; a transformação do inocente em suspeito e do suspeito em delinquente, aceita pelo próprio inocente, do fundo da sua desorganização mental, forjada pela inquirição.

O fulcro desse processo talvez seja aquele momento do interrogatório em que o delegado pergunta ao pobre diabo, já zonzo, qual é a sua profissão.

“— Sou hidráulico”, responde ele.

O delegado esbraveja:

” — Qual hidráulico qual nada! Agora toda a gente quer ser alguma coisa bonita! O que você é é encanador, não é? En-ca-na-dor! Por que hi-dráu-li-co?!”.

E o desgraçado, já sem fôlego nem prumo: “— Sim, sou encanador”’. (Cito de memória porque não tenho o roteiro.)

Vê-se que o pobre homem, a exemplo de toda a sua categoria profissional, tinha adotado uma designação de cunho técnico (idraulico, em italiano), que o afasta da velha designação artesanal “encanador” (stagnaro, em italiano), e assim lhe dá a ilusão de um nível aparentemente mais elevado, ou pelo menos mais científico e atualizado. Mas o policial o reduz ao nível anterior, desmascara a sua autopromoção, lira para fora a sua verdade indesejada. E, no fim, é como se ele dissesse:

” — Sim, confesso, não sou um técnico de nome sonoro, que evoca inocentemente alguma coisa de engenharia; sou mesmo um pobre diabo, um encanador. Estou reduzido ao meu verdadeiro eu, libertado do outro”.

Mas, na verdade, foi a polícia que lhe impôs o outro como eu. A polícia efetuou um desmantelamento da personalidade, arduamente construída, e trouxe de volta o que o homem tinha superado. Sinistra mentalidade redutora, que nos obriga a ser, ou voltar a ser, o que não queremos ser; e que mostra como Alfred de Vigny tinha razão, quando anotou seu diário:

“Não tenha medo da pobreza, nem do exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas tenha medo do medo”.

Por Antônio Cândido (texto publicado em “Opinião”, em janeiro de 1972). Recuperado por Outras Palavras.
[Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/09/texto-de-antonio-candido-publicado-em-1972-esta-mais-atual-do-que-nunca.html]

A Arte do Otimismo

[Escuta Resenha] Os contos de Clarice Lispector


Já não era sem tempo. Eis que finalmente foi publicado no Brasil, no mês passado pela editora Rocco, um livro reunindo todos os contos de Clarice Lispector. Trata-se da obra Clarice Lispector. Todos os Contos, que vem à luz depois de uma trajetória pouco convencional, tendo sido publicada originalmente nos Estados Unidos, em 2015 – quando foi selecionada pelo The New York Times como um dos melhores livros do ano passado – para finalmente chegar agora às mãos do leitor brasileiro. É verdade que muitos dos contos já eram conhecidos pelo grande público, sobretudo aqueles divulgados em livros de maior repercussão como Laços de Família, Legião Estrangeira e Felicidade Clandestina – que contêm pérolas como “A galinha”, “A menor mulher do mundo” e “Felicidade clandestina” –, porém, parte significativa das histórias aqui reunidas ainda permanecia desconhecida para a grande maioria, exceto para aqueles aficionados por Clarice.

A obra Clarice Lispector. Todos os Contos é organizada pelo norte-americano Benjamin Moser, autor da bela biografia Clarice, publicada em 2009 pela editora Cosac Naify. Nesta biografia minuciosamente construída, Moser recupera os percursos de Clarice – desde o seu nascimento na Ucrânia em 1920, sua vinda ainda nova para o Brasil, sua passagem por Maceió e Recife, o casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente e sua longeva vida no exterior, seu divórcio, o retorno para o Rio de Janeiro, seu trabalho como escritora, suas relações familiares, especialmente com os dois filhos, seu círculo de amizades, sua morte e sua posterior transformação em uma espécie de mito da literatura brasileira –, entremeando com reflexões sobre os livros escritos pela autora, como Perto de Coração Selvagem – romance lançado em 1943 que a projetou nacionalmente –, A Paixão segundo G.H. e A Hora da Estrela. As alegrias, sofrimentos, dores e angústias de Clarice são contadas de forma cuidadosa por Moser, cuja obra tem como diferencial ancorar as raízes da autora no misticismo judaico, destacando o impulso espiritual e o caráter sagrado que impulsionou e atravessou a sua obra.

Clarice Lispector. Todos os Contos é composto por oitenta e cinco textos, publicados desde 1929, quando a autora tinha 19 anos, até a sua morte, em 1977. A organização dos contos em forma cronológica permite ao leitor acompanhar os escritos de Clarice durante toda a sua vida adulta, abrindo possibilidades para associar seus escritos a fases específicas de sua trajetória. Milhares de personagens desfilam nas páginas desta obra: poucos homens; a grande maioria, mulheres. Cristina, Luísa, Flora, Idalina, Gertrudes, Catarina, Sofia, Margarida, Ofélia, Frozina, Sra. Jorge B. Xavier, Ruth, Carmen, Beatriz, Aurélia, Cândida… Mulheres novas, de meia idade, idosas; mulheres de diferentes tipos, trejeitos, profissões, sonhos, desejos, inquietações, questionamentos. Nas várias mulheres narradas nos diferentes contos que compõem a obra, Clarice, é claro, se faz presente. Na maior parte das vezes de forma implícita; em outras, de forma explícita, sobretudo em seus últimos contos, nos quais sua personalidade aparece mais destacada, especialmente quando a dimensão reflexiva – e também melancólica – passa a ganhar um espaço importante no direcionamento de sua escrita.

Como sugere o próprio Moser na introdução à obra, o registro da condição de mulher de Clarice não deve ser tomado como mero detalhe sem importância. Os escritos de Clarice, em sua maioria, abordam temas que foram tradicionalmente associados ao universo feminino, e é uma escrita feminina situada social e historicamente: uma mulher, artista, de classe média, mãe, casada e posteriormente divorciada, em uma época na qual o divórcio era visto como heresia. Porém, e isto que importa perceber, esta inscrição no mundo feminino, esta escrita de uma mulher sobre mulheres, não a circunscreve a qualquer nicho específico e não reduz em absolutamente nada a universalidade das experiências ali narradas. A literatura de Clarice é uma literatura universal e o reconhecimento tardio que o mundo anglo-saxão lhe devota se deve mais à sua condição de escritora de um país periférico, que tem como idioma o português, muito mais restrito em termos de circulação no mundo editorial quando comparado, por exemplo, com o espanhol, do que propriamente com algo associado à qualidade da sua obra.

Não se lê Clarice; se sorve Clarice. Suas palavras parecem escolhidas a dedo, com precisão, esmero, requinte. Em alguns contos, ela adquire uma verve mais seca, refreada, contida; em outros, a leveza, a delicadeza e a suavidade se impõem. A prosa elegante faz com que o leitor flutue na leitura, embora se veja, constantemente, surpreendido, não apenas com a trama desenvolvida, mas, especialmente, com os recursos formais mobilizados pela autora. Dessa perspectiva, flutua-se sim na leitura de Clarice, mas se flutua com cuidado, com apuro, com parcimônia, como se se andasse em uma loja de cristais, permanecendo atento a cada passo dado. Por estar repleta de obstáculos – que não impossibilitam o percurso, mas o tornam mais complexo –, a escrita de Clarice atrai e afasta, seduz e repele, em um jogo intrigante, que desafia o tempo todo o leitor atento que busca saborear em cada sentença o gosto da frase bem escrita.

O fato de Clarice ter se tornado postumamente pop, sugada pelo mundo da indústria cultural, com frases autorais que lhe são atribuídas, citadas fora do contexto nas redes sociais, pode dar a impressão de que Clarice é uma escritora fácil, cuja leitura se dá sem maiores esforços. É um engano. Estamos a falar de uma autora complexa, densa, em certo sentido, difícil. Seria, então, Clarice necessariamente uma escritora hermética? Em sua última entrevista, em 1977, concedida à TV Cultura, Clarice responde negativamente à acusação de hermetismo. Admite, porém, que certos contos são, inclusive para ela mesma, ainda incompreensíveis, a exemplo do perturbador “O ovo e a galinha”. Não ser hermético, contudo, não é sinônimo de ser fácil. Para ser bem sorvida, como merece ser, sua leitura demanda atenção, concentração. Lê-la de forma acelerada é um erro que pode levar à perda de detalhes primorosos de sua escrita. A pressa, a rapidez e a agitação do mundo moderno não se coadunam com a prosa moderna de Clarice; esta exige calma, respiro, silêncio.

A literatura de Clarice pode ser associada àquilo que Leyla Perrone-Moisés, em ótimo ensaio sobre autores brasileiros contemporâneos como Nuno Ramos, André Queiroz e Julian Fuks, publicado em 2012 na “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo, chamou de “literatura exigente”, o que a colocaria, caso se aceite esta classificação, ao lado de nomes como Joyce, Kafka, Borges e Beckett. No caso de Clarisse, esta literatura exigente se mostra de forma clara em seu experimentalismo formal, ancorado em uma orientação vanguardista, que também está presente em outros autores de sua geração, como Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Não à toa, há aqueles que apontam para as linguagens de Clarice e Guimarães – assim como para aquela desenvolvida por artistas visuais a exemplo de Lygia Clark – como aprofundamentos tardios do modernismo dos anos 1920, embora suas literaturas inovem para outros caminhos, apostando em novas perspectivas.

Esse experimentalismo já estava presente em alguns contos de sua juventude, a exemplo de “Mais dois bêbados”, contido em Primeiras Histórias, que se encerra de forma abrupta e repentina: “De repente, ele tirou o palito da boca, os olhos piscando, os lábios trêmulos como se fosse chorar, disse:”. Contudo, ele se exacerba em contos posteriores, indo às suas últimas consequências, como no já mencionado “O ovo e a galinha”, “Discurso para a inauguração”, de Fundos de Gaveta, de Legião Estrangeira, “Perdoando Deus”, “Tempestade das almas” e “Vida ao natural”, de Felicidade Clandestina, e, especialmente, em “O relatório e a coisa”, contido no livro Onde estivestes de Noite. Como destacado por Moser no “Apêndice”, este texto foi originalmente publicado com o título “Objeto: anticonto”. Na ocasião de sua publicação, Clarice, que o chamou de “anticonto geométrico”, incluiu o seguinte prefácio: “Acho que queria fazer um anticonto, uma antiliteratura. Como se assim eu desmistificasse a ficção. Foi uma experiência valiosa para mim. Não importa que eu tenha falhado. Chama-se OBJETO” (p.652-3). Alguns contos de Clarice, a exemplo de “Perfil de seres eleitos” e “Seco estudos de cavalo”, causam espanto e inquietação: precisam ser decifrados, desemaranhados. O leitor deve se comportar como um caçador, deslocando as vírgulas, empurrando as palavras, adentrando pelo interior do papel para buscar, em meio àquela suposta estranheza, a riqueza que se extrai de variadas passagens.

Sergio Buarque de Holanda, no artigo “Tema e Técnica”, publicado originalmente no Diário Carioca, em 1950, já chamava a atenção para o fato de Clarice, ao lado de Oswald de Andrade, ter sido uma das escritoras brasileiras que mais levaram a fundo a dimensão poética e a problematização das questões formais em suas escritas, deixando em segundo plano a preocupação temática. Na introdução de Clarice Lispector. Todos os Contos, Moser avança em uma hipótese interessante para explicar esta ousadia formal e a “estranha gramática” da autora, destacando para além da influência do misticismo judaico herdado do pai, a ausência, em uma perspectiva mais ampla, de uma tradição na qual pudesse se ancorar, o que lhe assegurava um grau maior de liberdade para apostar no novo, sem que isso significasse uma inovação pela simples inovação. Clarice, segundo Moser, “vinha de uma tradição de fracasso, de uma tradição, como escritora brasileira, como escritora, como mulher, mas talvez principalmente em consequência de suas origens” (p.17). Clarice, em certo sentido, inventa uma tradição, a partir de “uma incessante busca linguística, uma mutabilidade gramatical” (p.21).

Essas reflexões sobre as inovações formais de Clarice e sobre sua “literatura exigente” não devem, contudo, afastar o leitor de Clarice Lispector. Todos os Contos. Pelo contrário. Deve-se ler e sorver Clarice, pois uma vez que se adentra em seu universo mergulha-se em uma torrente viciante de sofisticação. Não que todos os contos sejam primorosos. Clarice tropeça, se apressa em algumas histórias, simplifica enredos ou se estende demasiadamente em algumas narrativas. Seus últimos contos, especialmente aqueles publicados em A Via Crucis do Corpo, não alcançam a mesma potência de outros trabalhos, e não apenas pelo fato de abordarem o erótico no contexto conservador da ditadura que então vigia no país, como parece sugerir a introdução de Moser, mas pela razão mais prosaica de que eles não têm a mesma elegância e precisão dos livros anteriores. Mas, de modo geral, o que impera é uma capacidade imensa e assombrosa de construir uma literatura repleta de requintes, paradoxalmente contida e visceral. Seus personagens, na maior parte das vezes, expõem subjetividades atordoadas, marcadas por aquilo que podemos chamar de um equilíbrio frágil, como se algo estivesse permanentemente na iminência de se romper. É uma literatura do limiar, da beira, do limite, da expectativa.

Espera-se que Clarice Lispector. Todos os Contos possa contribuir para uma maior difusão de Clarice Lispector, tão citada, mas ainda tão pouco efetivamente lida no Brasil. Em um país que gosta de seguir os modismos que nos chegam de fora, resta torcer para que a consagradora recepção deste livro no mundo anglo-saxão influencie os daqui a conhecerem melhor uma autora que, sem qualquer arrombo nacionalista ou patriotesco, está no panteão daquilo que a literatura universal produziu de mais sofisticado.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.** Crédito da imagem: Fraco e Moura. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector>. Acesso em: 14 jun. 2016.

Logística Ambiental e Reversa


Responsabilidade Compartilhada: Sistema de Logística Reversa de Resíduos de Medicamentos Domiciliares como instrumento para a sustentabilidade



A confiança cega nos benefícios advindos das pesquisas científicas e dos avanços tecnológicos, que se manifestou de forma exponenciada durante quase todo século XIX, entrou num longo declínio desde que as luzes deste mesmo século se extinguiram. Esta confiança era parte do conjunto das características do modelo social que se desenvolveu durante a Revolução Industrial, por isso mesmo também chamado de Sociedade Industrial. Para este modelo social os riscos ambientais, sociais ou econômicos eram considerados como intrínsecos à evolução científica e como consequência previsível do progresso proporcionado. O preço a ser pago por todos os benefícios resultantes e que seria minimizado ou superado quando as pesquisas científicas alcançassem níveis que sequer poderiam ser previstos ou imaginados àquela época, permitindo que fossem alcançados avanços consideráveis nas áreas de consequências mais críticas (BECK, 2011; HARARI, 2015; HOBSBAWN, 2014).

No próprio Século XIX algumas vozes dissonantes quanto à postura confiante nos benefícios obtidos por meio dos avanços da Revolução Industrial e do Capitalismo dela resultante se fizeram ouvir em diversas áreas da sociedade, uma das áreas que logrou contribuição mais profícua foi a literatura. O inglês Charles Dickens (1812 – 1870) e os franceses Victor-Marie Hugo (1802 – 1885) e Émile Zola (1840 – 1902) foram alguns dos proeminentes escritores daquele período que se dedicaram ao tema.

Charles Dickens (2014, p. 37) apresenta o contexto no qual inspirou Tempos Difíceis de forma lúgubre: “Era uma cidade de tijolos vermelhos, ou de tijolos que seriam vermelhos caso as cinzas e a fumaça permitissem; mas no estado de coisas de então, era uma cidade de vermelhos e negros antinaturais”.


Nesta obra, mais do que em qualquer outra, efetuou um relato dramático do esgarçamento do tecido social da sociedade daquela época. A despersonalização causada pela exploração trabalhista da indústria, sempre em busca do lucro fácil sem mensurar as externalidades, alcançou níveis tais que os mais hábeis trabalhadores eram considerados apenas uma “Mão” e dos que não eram providos de habilidades que os destacassem sequer poder-se-ia dizer que eram notados ou percebidos como algo além de meros objetos. Estes estavam sujeitos a desenvolver atividades rotineiras e entendiantes, que não transmitiam sentido algum para suas vidas sem objetivos maiores ou aspirações relevantes: “para fazer o mesmo trabalho, e para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior” (DICKENS, 2014, p. 37).


Este livro, que conta com a admiração de um gênio do quilate de G. K. Chesterton, é considerado pela crítica literária como um manifesto de protesto contra as consequências sociais e ambientais, as externalidades, resultantes dos avanços científicos e tecnológicos que em algum momento fugiram ao controle humano durante e imediatamente após a Revolução Industrial inglesa. Com a geração incessante de riquezas e a concentração destas em poucas mãos e a aparente produção de conforto para os indivíduos que não sabiam sequer que precisavam de todo aquele aparato (MATOS, 2007, p. 27).


Jean Valjean, um fugitivo das galés francesas, consagrado pela indústria do entretenimento por meio de filmes, musicais e peças de teatro, Fantine, uma prostituta desdentada, esfarrapada e doente e Cosette, uma órfã sem esperanças, são os personagens centrais da obra mais conhecida de Victor Hugo e que o imortalizou: Os Miseráveis. Publicado originalmente em 03 de abril de 1862 é parte do movimento conhecido como Romantismo. Nesta obra em particular Hugo utiliza-se de sua pena para efetuar uma análise introspectiva sobre as condições sociais da época em que se insere, interpretando de forma vigorosa e por vezes revolucionária, as transformações que as Revoluções Industrial e Francesa introduziram no corpo orgânico da sociedade francesa dos séculos XVIII e XIX e o decorrente e inevitável conflito de classes que começava a imergir e tomar força, sem deixar de demarcar sua posição de forma incisiva e inquestionável.

Uma chave hermenêutica à obra de Hugo é a confiança que tinha no homem e na sua imensa capacidade de transformar o meio em que habitava de forma positiva, tal confiança é patente nesta obra, mais do que em qualquer outra que tenha escrito. Valjean que esteve preso 17 anos por roubar um pão, suportou todos os suplícios imagináveis na pior das prisões francesas: as galés, sai do cativeiro de forma inusitada, como um farrapo humano e após uma experiência espiritual com um representante do clero que lhe demonstra imerecida bondade, se permite deixar para trás toda a carga negativa que se amoldou ao seu caráter durante o encarceramento e se torna um cidadão virtuoso, altruísta e de uma bondade infinita (HUGO, 2013).


Hugo seguindo a tendência romântica de sub-repticiamente defender ideias de fraternidade e liberdade leva o leitor a refletir sobre o envilecimento humano, causado principalmente pela onipotência do dinheiro e as muitas variáveis do nascente capitalismo: individualismo feroz, a usura bancária ou de indivíduos quase sempre inescrupulosos, desprezo pelo meio ambiente e pela natureza. Apresenta ainda de forma trágica, embora favorável, os últimos dias da Comuna de Paris, ato de suprema coragem de alguns manifestantes que defendiam ideias de igualdade no meio de uma desigualdade tão crescente (HUGO, 2013).


Outra obra que retrata de forma traumática essa época é Germinal do escritor francês Émile Zola, expoente do movimento naturalista que tem no visceral O Cortiço do maranhense Aluísio de Azevedo um correspondente brasileiro. Para escrevê-lo (originalmente publicado em 1885), Zola decidiu conhecer de perto as agruras dos trabalhadores das minas de extração de carvão e passou cerca de dois meses atuando como mineiro. Sua “encarnação” para familiarizar-se com o meio em que mais morriam do que viviam incluiu viver no mesmo lugar que os trabalhadores, onde comeu e bebeu nas mesmas tavernas.


Retratou de forma crua e realista as lutas diárias daqueles trabalhadores em busca da sobrevivência durante o Segundo Império francês: os baixos salários e a exploração trabalhista que os expunha a uma luta sem sucesso contra fome; as moradias inapropriadas até mesmo para animais; o calor inclemente dentro das minas e as constantes infiltrações que os obrigavam a trabalhar com os pés sempre úmidos; as péssimas condições de trabalho por conta da falta de estruturas sólidas e seguras; as doenças epidérmicas e respiratórias trazidas pelas atividades profissionais; os acidentes constantes que aleijavam aqueles que preferiam a morte como uma forma de libertação de uma realidade sem esperança, além da exploração sexista a que as mulheres estavam sujeitas, seja de ordem familiar, conjugal ou trabalhista (ZOLA, 2000).


Zola observou tudo isso enquanto empurrava um vagonete cheio de carvão, acompanhou ainda de perto a greve dos mineiros contra a opressão trabalhista, sob a orientação do movimento socialista que estava no nascedouro e se disseminava entre o proletariado. E a luta entre as ideias anarquistas e socialistas, tão em voga àquela época. Germinal que é o primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa utiliza-se das ideias, que serviam de sementes da revolução que possibilitaria uma transformação social, como uma metáfora. Por diversas razões é considerado um libelo cruento contra exploração que a revolução industrial causou na França (CHIAVENATO, 1995).


Outro modelo social sub-repticiamente substituiu este modelo da Sociedade Industrial, ainda que também tenha sofrido alterações profundas desde as últimas décadas do fim do século XX. O sociólogo alemão Ulrich Beck (2011) denominou este modelo de Sociedade de Risco que neste paradigma é menos catástrofe que antecipação da catástrofe. Seria um estágio da modernidade no qual começam a se concretizar as ameaças produzidas até então pela sociedade industrial. Um modelo que busca antever cenários futuros por meio de simulações no presente, tentando antecipar as prováveis catástrofes (quer sejam mudanças climáticas, êxodo de refugiados, escassez de alimentos, revoluções sociais e políticas, crises financeiras, guerras e litígios internacionais, conflitos étnicos e religiosos ou desastres ambientais) que podem surgir em decorrência dos modelos atuais de produção e consumo. De forma que políticas públicas e medidas econômicas possam ser estruturadas e implementadas e que contribuam efetivamente para que essas catástrofes sejam evitadas.

Este modelo é caracterizado como aquele no qual a elevação do nível de conforto e do bem-estar de cada indivíduo que vive em sociedade é propiciado pela constante inovação tecnológica [ou destruição criativa, no dizer do economista austríaco Joseph Schumpeter]. E tornou-se realidade no mesmo momento em que a modernização atingiu seu ápice de sucesso: avanços tecnológicos, sociais, culturais, científicos ou econômicos. Porém, este sucesso intrinsecamente também permitiu o surgimento de aspectos causadores de consequências negativas, visto que criam um ciclo que escapa ao controle humano, são denominados de efeitos colaterais indesejados do processo de modernização. Quando esta sociedade se dá conta dos riscos a que está exposta estabelece uma necessidade premente de precaução e segurança ao mesmo tempo que, obrigatoriamente impõem uma “lógica do risco”, gerando uma crise de legitimidade nas instituições da Modernidade, pois se instala um estado constante de indeterminação e insegurança (BAHIA, 2012; BECK, 2011).

Esta Sociedade está em constante perigo de sofrer catástrofes de diversas ordens devido à evolução técnica constante da fase anterior, também conhecida por “modernidade simples”. E este perigo e risco a que esta sociedade é vulnerável e está submetida é causado pela própria sociedade global e globalizada que toma decisões por intermédio de alguns dos seus membros no manejo dos avanços tecnológicos, industriais, biológicos, sociais, políticos, culturais, científicos, econômicos, genéticos, de energia nuclear, etc., numa ação reflexiva: sendo ela a causadora dos efeitos que lhe atinge, daí este modelo também ser denominado como “modernização reflexiva” (GIDDENS; LASH; BECK, 2012).


A Sociedade do Risco é pródiga em gerar incessantemente riquezas, com a mesma voracidade com que produz socialmente riscos globalizados que atingem indiscriminadamente as condições básicas de todas as nações do planeta. Estes riscos de procedência antrópica são porém, indeterminados do ponto de vista do binômio espaço-tempo, o que contribui para que a comprovação dos danos se torne quase impossível, bem como o nexo de causalidade, fator imprescindível para que um fato antecedente seja vinculado a um resultado danoso (BAHIA, 2012, p.61).


Esta sociedade de risco deverá trilhar dois caminhos da mesma importância: nenhuma nação deverá tentar resolver seus problemas sozinha, visto que os efeitos colaterais são globais; abrir espaço para discussão de ordem moral e política que facilite o surgimento de uma cultura amadurecida e que tendo consciência do risco global, proporcione meios para a criação de espaços alternativos que façam surgir um movimento civil de responsabilidade globalizada. Que supere de forma eficiente o que Beck (2011, p. 75) chama de “irresponsabilidade organizada”, aquela contradição que enfrenta a sociedade de risco diante de uma degradação ambiental ao não ter instrumentos efetivos que lhe permita responsabilizar indivíduos ou instituições pelo dano causado (BAHIA, 2012, p. 60).


A Responsabilidade Compartilhada pelo Ciclo de Vida do Produto, um princípio-mor da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) instituída pela Lei 12.305 de 02 de agosto de 2010 e regulamentada pelo Decreto 7.404 de 23 de dezembro de 2010, é uma tentativa de minimizar esta “irresponsabilidade organizada” e propiciar a criação de uma cultura de responsabilização dos riscos e dos danos causados ao meio ambiente, com a obrigatoriedade da criação de sistemas de logística reversa que garantam o retorno efetivo e satisfatório dos resíduos de produtos de pós-venda ou pós-consumo e suas respectivas embalagens ao ciclo produtivo, ao ciclo de negócios ou recebam a destinação final de forma ambientalmente adequada.

[Introdução da dissertação defendida no Programa de Mestrado da Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável na Faculdade da Ciência da Administração de Pernambuco da Universidade de Pernambuco (UPE)]

Logística Reversa


Paulo Freire, mestre, apóstolo e profeta