Colônia Correcional: Ilha Grande


Tinham conseguido armar na cama vizinha um difícil mosquiteiro. Na manhã seguinte vi sentado nela um sujeito maduro, atraente, óculos grossos de miopia, a roupa de casimira pelo avesso.

- Bom dia, atirou-me risonho e lento.

Estava com desejo de conversar e logo se apresentou: Mota. Escorregamos depressa numa camaradagem fácil, tive realmente muito prazer em conhecê-lo.

- O senhor tomou parte na Aliança Nacional Libertadora, seu Mota?

- Não senhor – respondeu a criatura amável. Tinha as minhas simpatias. Sou admirador de [Luís Carlos] Prestes.

Vejam só. Porque simpatizava com a Aliança Nacional Libertadora – cadeia, braços cruzados, a roupa vestida pelo avesso, a cabeça baixa e sem cabelos. Pobre de seu Mota. A situação dele era com certeza a do Manuel Leal, meu amigo velho arrancado às Alagoas, metido no cárcere dos sargentos no quartel de Recife, depois na prisão de Manaus e agora ali a carregar tijolos. Mas Leal não tinha o sossego, a conversa amável de seu Mota. Andava irritado, sombrio, num desespero mudo, contido. Um dia essa mudez se quebrou e o infeliz, de volta do trabalho, suado, coberto de pó vermelho, dirigiu-se a mim, ríspido:

- Por que é que eu estou preso? Hem? Diga.

Estranhei, tive pena do homem a desabar em velhice rápida. Coitado. Não me parecia longe o tempo em que os tristes olhos hoje apagados no rosto murcho brilhavam muito vivos, os fartos anéis da cabeleira negra seduziam mulheres. Pobre de Leal. Provavelmente a decadência não era apenas física; o espírito devia estar em declínio também para ele me vir fazer tal pergunta.

- Que é que você quer que eu diga? Sei lá! Nem sei porque estou preso.

O meu antigo camarada engasgou-se, esteve um minuto a examinar-me com espanto e censura. Tomou fôlego e, de supetão:

- Você? Ora essa! Está preso porque é comunista. Sempre foi.

Declarou isso aos berros, sem ligar importância aos guardas e à polícia.

- Desde menino. Sempre foi. Ainda usava calças curtas e já lia essas coisas no balcão de seu pai. Mas eu? Que foi que eu fiz para estar aqui? Hem? Explique.

Cheio de piedade, não conseguia eximir-me ao desejo de rir ouvindo esse despropósito. Leal gritava a denúncia, provavelmente ignorando que ela me poderia ser funesta. Não repliquei, temendo encolerizá-lo ainda mais. Coitado. Não percebia a exígua significação das brochuras que li na infância; continham veneno, supunha, estava nelas a causa da minha desgraça. Tinham sido justos comigo. Pois não passara a vida a procurar sarna para me coçar? Com ele havia injustiça. Por quê? Responsabilizava-me:

- Diga. Por que me mandaram para aqui? Diga ao menos que é comunismo. Não sei. Nunca me meti com vocês, nunca li nada disso. Explique.

A aflição tornava egoísta uma pessoa amorável. Desequilíbrio, certamente. Vinham-me à lembrança o riso aberto de Leal, as anedotas de caixeiro viajante sem graça, narradas muitos anos atrás, quando ele se hospedava em nossa casa no interior. Que horrível decadência! Via-me obrigado a fazer a comparação, e isso me dava imenso desgosto. Não me ocorreu uma palavra generosa, capaz de minorar aquela angústia. Afastei-me em silêncio. Esquisito afligir-se um prisioneiro de tal modo, não achar sossego, alhear-se do meio, o pensamento fixo no exterior, em casos remotos. Esses viventes arredios ficam desagradáveis. Sentimos não poder auxiliá-los, distraí-los, receamos contagiar-nos, finar naqueles tormentos. Buscamos a companhia de sujeitos expansivos, esboçam-se camaradagens num instante desfeitas. As histórias de Gaúcho afugentavam-me o sono, seria agradável escutá-lo muitas horas. Infelizmente quebravam-se: vinha o momento de recolher, éramos forçados a calar-nos e o resto da narrativa se adiava para a noite seguinte.

- Imagine vossa mercê. Peguei um dia uma roupa nova bacana, azul marinho. Assentava no meu corpo e não foi para a muamba. Vesti-me nela e caí na rua. Pois veja que azar, na Lapa um sujeito do meu tope começou a espiar demais para mim e não deu tempo de pirar. Chegou-se e atacou: “- Moço, me desculpa. Onde foi que o senhor arranjou esse terno?” “- Pergunta muito bem, respondi eu. Comprei hoje por cem mil reis a um adelo da rua da Constituição, número tal.” “- Pois moço, juro que esse terno é meu. Foi roubado ontem.” Aí eu me ofendi e propus: “- O senhor quer ir comigo falar com o adelo, agora mesmo? É um negociante conhecido.” O tipo afrouxou: “- Não, não, posso estar enganado. Mas ia garantir que não estou. É o feitio, é a cor, é o tamanho.” Foi-se embora. E eu voei para casa. Um susto medonho, não sei como tive tanta calma. Tirei a roupa e disse à mulher: “Leva este diabo ao intrujão, dá sumiço a isto.” A gente não deve usar as coisas que rouba.

A conclusão vinha quase em forma de conselho: o ótimo ladrão parecia querer livrar-me de tais vexames. Também me agradava a figura tranquila de seu Mota. Apesar de ser vítima de uma iniquidade, pois não se envolvera em política, mantinha na prisão melhor humor. “- Bom dia”. Estava ali junto, emoldurado pelo mosquiteiro entreaberto, os óculos a faiscar. A voz nunca se alterava, e a afável saudação nos transmitia serenidade. Realmente só vi seu Mota zangar-se uma vez. Fazia uma semana que nos conhecíamos, e ele me narrava os seus começos. Fora secretário da prefeitura em Corumbá, ou Cuiabá, não me lembro. De fato quem se responsabilizava pela administração era ele, que o prefeito, coronel e analfabeto, não entendia de verbas.

- Esse matuto viajou para o Rio e lá ficou três meses. Dirigi o pessoal na ausência do homem e fiz boa arrecadação. Quando ele chegou, havia em caixa trinta contos, naquele tempo uma fortuna. Arrumei o balancete e dei ao prefeito a chave do cofre. Não faltou um tostão.

O meu vizinho interrompeu-se, um minuto se conservou absorto, o olhar distante, mergulhado nas suas recordações. Súbito inquiriu:

- O senhor acredita? Acha que eu entreguei esse dinheiro?

- Sem dúvida, seu Mota. Ora essa!

O ex-secretário da prefeitura de Corumbá teve um longo suspiro:

- Entreguei. Foi uma doidice. Com trinta contos nas mãos, e passei a outro esse dinheiro todo. É o remorso que me persegue na vida.

Seu Mota concluiu, exaltando-se:

- Eu era muito novo. E muito burro.

Graciliano Ramos
[Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/142275-1]

Definição de Anarquia


Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "sem governo", isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituída.

Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tornasse a meta de um movimento, que hoje é um dos fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra "anarquia" foi usada universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada nesse sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade.

Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e não filológica. A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vida social.

O homem, como todos os seres vivos, se adapta às condições em que vive e transmite , através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão.

Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a essas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros.

Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas pernas não poderá caminhar, ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tirá-las inimigo.

Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa ausência de governo, também signifique ausência de ordem.

Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra "república" (governo de muitos) era usada exatamente como "anarquia", implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados na linguagem popular de quase todos os países. Quando essa opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra "anarquia", justamente por significar "sem governo" será o mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total". 

Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o nome, por ser esse mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa interpretação. O erro vem disso e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas encontram para difundir suas idéias não depende do nome que deram a si mesmos. Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as pessoas têm sobre as funções do governo, ou o "Estado” com é chamado.

Errico Malatesta 1907.
[Fonte: https://www.facebook.com/Anarquismo.Liberdade/posts/1072045876236144:0]

Quem foi Janusz Korczak?




Janusz Korczak (pseudônimo tirado de um romance pouco conhecido de Kra Szewski. ) — cujo nome verdadeiro era Henryk Goldszmit — era um homem humilde e simples na sua mais profunda acepção.

Sua vida foi recontada inúmeras vezes e continuará sendo, porque ela mostra o horror da última guerra, a exterminação dos judeus poloneses e o holocausto em atos indescritíveis na maior atrocidade que a história e a humanidade já conheceu.

Nasceu em Varsóvia há pouco mais de cem anos. O fato de seu pai ter sido um advogado conhecido e seu avô um médico mostra até que ponto o seu meio foi assimilado. Pertencendo a uma família da elite cultural polonesa, teve a melhor formação pediátrica da época (1898-1904), pois estudou em Paris (que dava ênfase à pesquisa de novos conhecimentos) e em Berlim (conhecido pela aplicação metódica dos conhecimentos adquiridos). Nos seus 8 anos de prática pediátrica deu preferência à população pobre da qual não cobrava. Como pediatra tinha conceitos avançados para a época e modernos para os nossos dias.

Um pouco desgastado com a prática médica (decepcionado com a comercialização da medicina e as intrigas acadêmicas) reconciliou-se com ela através da pediatria social: "os remédios são instrumentos auxiliares e não substitutos da higiene e da ajuda social à família".

Ele cresceu na solidão, preservado das influências do exterior, sem se dar conta de que era judeu e sem saber o que isso significava. Antes de terminar a escola ele perdeu o seu pai, atingido por uma doença mental. A miséria sucedeu a abundância. O jovem Henryk tomou sobre si, da maneira como pode, o encargo de sua mãe e irmã, e nos anos seguintes, freqüentemente passando fome, estudou medicina com enormes dificuldades. Quando, por fim, obteve seu diploma, as coisas começaram a melhorar, contribuindo também para isso sua reputação de escritor que se afirmava. Mas isto não durou muito tempo. Repentinamente um tipo de necessidade interior mudou completamente seu destino.

Com trinta e quatro anos ele abandonou o exercício da medicina para se dedicar toda a sua vida às crianças. A ideia fixa de consagrar sua vida às crianças parecia possuí-lo. Ele não era um idealista ingênuo; o que o caracterizava era uma compreensão extraordinária da criança e a convicção da necessidade de lutar pelos seus direitos no mundo governado pelos adultos. Ele não tinha confiança no mundo governado pelos adultos, mas como cada verdadeiro reformador ele julgava que mesmo uma só pequena vela acesa valia mais que lamentar-se da escuridão. Sua intuição não excluía sua sensibilidade e ela está edificada sobre uma observação constante, clínica, poder-se-ia dizer, sobre um estudo minucioso dos fatos. Totalmente absorvido por sua única ideia, não havia lugar nele para tudo que os outros davam tanta importância – dinheiro, a celebridade, um lar, uma família.

Com o objetivo de criar um ambiente adequado para suas crianças e alunos, ele inaugurou, em abril de 1912, o orfanato Lar das Crianças, na rua Krochmalna, em Varsóvia. Seu público-alvo eram as crianças judias carentes. A casa acolheu 200 delas — e os fundos para o empreendimento foram conseguidos com judeus mais proeminentes do país.

O orfanato contava com salas confortáveis de estar, refeitórios, banheiros, biblioteca e dormitórios. Havia, ainda, uma sala silenciosa com quadros na parede e um aquário, destinada aos estudos e à meditação. Nesse espaço, as próprias crianças realizavam os principais trabalhos e administravam o orfanato por meio de duas instituições básicas: o Parlamento e o Tribunal, que organizavam a vida em comunidade e solucionavam os conflitos, exercitando as crianças e também os educadores no espírito da participação e responsabilidade.

"Sem uma infância serena e completa, toda vida posterior fica mutilada."

ideia expressa nessas palavras condiz com seu princípio fundamental de que o educador deveria sempre levar a sério a opinião do aluno, seu ponto de vista, porque não considerá-los oprimiria a personalidade da criança e seu amor próprio.

Em 1942, os nazistas ordenaram a transferência do orfanato para uma casa pequena e suja, no gueto de Varsóvia. Em 5 de agosto do mesmo ano, durante a liquidação do gueto de Varsóvia, os hitleristas ordenaram o agrupamento das crianças do orfanato de Korczak e o envio das mesmas ao campo de morte de Treblinka. O ‘Velho Doutor’ reuniu duzentos pupilos, os fez colocar-se sabiamente em fileiras e, à sua frente, partiu com eles para o ‘Umschlagplatz’, no cruzamento das ruas Stawki e Dzika, onde todos foram colocados em vagões de carga e enviados para os fornos crematórios.

Esta marcha nas ruas do gueto foi vista por algumas centenas de pessoas, e a silhueta pequena de Korczak dirigindo-se para seu calvário, inconsciente de seu heroísmo, fazendo aquilo que lhe parecia evidente, excitava as imaginações. A novidade espalhou-se imediatamente, repetida de boca em boca com a força de detalhes inventados: que Korczak carregava nos braços os dois menores, coisa pouco provável, porque ele mesmo estava doente e tinha dificuldades em andar; que o ‘Jundenrat’ tinha intervindo no derradeiro momento e tinha despachado em seguida um mensageiro atrás da fila, portador de um salvo conduto somente para Korczak, que foi por ele rejeitado com desprezo; que para apaziguar as crianças ele tinha lhes dito que iam em excursão e que eles, confiantes, o seguiam sem choro e sem protesto. Mas nenhum embelezamento é necessário diante dessa verdade nua e crua; não é preciso ajuntar qualquer coisa para torná-la mais eloquente. A antítese do espírito e das dificuldades é clara e definitiva: um homem sábio por excelência, desinteressado e bom, opondo-se aos covardes, bárbaros obtusos, que se mostravam sob seu aspecto mais satânico.

Entre os milhões de mortes anônimas, a de Korczak tem um grande significado. Nos campos e guetos, ele se tornou para muitos, uma inspiração, pois o que mais ajudava a sobreviver era a convicção obstinada e indestrutível que a dignidade humana poderia vencer , embora tudo parecesse provar o contrário.

A imprensa clandestina dos campos mostra bem o quanto esta derradeira caminhada sublime do "Velho Doutor" foi um reconforto e uma dose de ânimo para seus contemporâneos. A partir daí sua glória tem crescido e o mundo fez de Korczak um símbolo moral.

Quando os hitleristas fecharam os judeus de Varsóvia dentro do gueto, o orfanato perdeu sua casa à Rua Kruchmalna, do lado ‘ariano’, e transportou-se para locais provisórios, no interior dos muros do gueto. Naquele momento Korczak já percebia melhor que a maioria das pessoas que a máquina impiedosa os mataria a todos. Mas ele pensava em não renunciar ao seu direito de aliviar os sofrimentos.

Alquebrado e doente, cada dia ele reunia as forças que lhe restavam e partia à procura de viveres e de medicamentos para as crianças. Às vezes ele não trazia nada de suas buscas obstinadas, outras vezes ele voltava somente com uma ínfima parte do necessário. Apesar de fome incessante cada vez mais insuportável e às doenças sempre mais freqüentes, ele cuidava para que seu orfanato funcionasse normalmente, a fim de que seus alunos pudessem sentir-se bem. Freqüentemente ele trazia dos locais mais distantes uma nova criança encontrada na rua, no fim de suas forças, para quem a bondade do Velho Doutor significava a salvação durante algum tempo ainda.

Nestas condições rigorosas levadas ao extremo e que em tempo normal é difícil de se imaginar, nós temos em Korczak, no seu trabalho cotidiano, um exemplo do que pode fazer um genuíno homem guiado pelo amor.

Ele morreu com suas crianças na câmara de gás, em Treblinka. Mas apesar de mais de meio século ter se passado desde sua morte, a história não deixa margens a dúvidas: existe o homem, dentro dele um cérebro, junto com ele um coração e acima de todos seus sentidos uma faísca Divina: uma neshamá.

Como o próprio Korczak acreditava: "mesmo uma só pequena vela acesa vale mais que lamentar-se da escuridão", desejo que hoje não seja apenas um dia de dor e lamento. Que possamos sentir e chorar pelos que se foram, mas que ao mesmo tempo possamos acender a chama de muito mais luzes, verdadeiras obras divinas chamadas Filhos, Netos, Bisnetos daqueles que já não se encontram entre nós… fisicamente.

[Fonte: http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/janusz/home.html]

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Fundamentalismo Cristão


O fundamentalismo sempre existiu nas tradições religiosas. Ele consiste em interpretar literalmente o texto sagrado, sem contextualizá-lo, extraindo deduções alegóricas e subjetivas como a única verdade universalmente válida. Para o fundamentalista, a letra da lei vale mais que o Espírito de Deus. E a doutrina religiosa está acima do amor.

Escolas do Sul dos EUA, e também no Estado do Rio de Janeiro, rejeitam os avanços científicos resultantes das pesquisas de Darwin e ensinam que o homem e a mulher foram criados diretamente por Deus. Tal visão fundamentalista nem sequer reconhece que Adão, em hebraico, significa “terra”, e Eva, “vida”. Como os autores hebreus do Antigo Testamento não raciocinavam com categorias abstratas, à semelhança da gente simples do povo, o conceito ganhou plasticidade no “causo” de Adão e Eva.

Todo fundamentalista é, a ferro e fogo, um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... para o bem deles!

Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se considera revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes. O mais próximo de nós, brasileiros, é o que vigora no governo dos EUA, convencido de que promove o bem contra as forças do mal, utilizando armas letais no extermínio do povo iraquiano e tratando os homossexuais como doentia aberração da natureza.

Uma das melhores conquistas da modernidade é a separação entre a Igreja e o Estado. Nada de papas coroando reis, como na Idade Média, ou de presidentes consagrando a nação ao Sagrado Coração de Jesus, como há poucas décadas ocorria na Colômbia.

Certa vez perguntei a Fidel por que em Cuba o Estado e o Partido eram confessionais. Ele estranhou: “Como confessionais?” “Sim, expliquei, pois são oficialmente ateus. E negar a existência de Deus é tão confessional como afirmá-la.”Mais tarde, o Estado e o Partido Comunista cubanos tornaram-se laicos, assim como todos os estados e partidos modernos.

Reger a vida política a partir de preceitos religiosos é um desrespeito a quem professa outra religião ou nenhuma. Isso não significa que um cristão deva abrir mão de suas convicções e dos valores evangélicos. Mas ele não deve esperar que todos reconheçam a natureza religiosa de sua ética. E nem queira impor a sua fé como paradigma político.

Há que cuidar também para evitar o fundamentalismo laicista, de quem julga que religião é uma questão privada, sem dimensão social e política. Afinal, todos os cristãos são discípulos de um prisioneiro político... O fundamentalismo laicista, que sempre relegou a religião à esfera da superstição, é danoso por estimular o preconceito e não reconhecer que milhões de pessoas têm em sua fé o paradigma de suas convicções e práticas. Corre-se o risco de repetir o erro dos antigos partidos comunistas, que exigiam dos novos militantes profissão de fé no ateísmo.

Reforçam o fundamentalismo cristão todos os que são indiferentes ao diálogo inter-religioso e consideram a sua igreja como a única verdadeira intérprete dos mandamentos e da vontade divinos. Por isso, é importante estabelecer os critérios éticos que propiciam a base sobre a qual as diferentes igrejas e religiões devem dialogar e somar esforços. São eles: a ética da libertação num mundo dominado por múltiplas opressões; a ética da justiça nessa realidade estruturalmente injusta; a ética da gratuidade nessa cultura mercantilista onde imperam o interesse e o negócio; a ética da compaixão num mundo marcado pela dor de tantas vítimas; a ética da acolhida, já que há tantas exclusões à nossa volta; a ética da solidariedade numa sociedade fortemente competitiva; a ética da vida num mundo ameaçado pelos sinais de morte na natureza e nos pobres.

O fundamentalismo é irmão gêmeo do moralismo. E o moralista é capaz de ver o mosquito no olho alheio, como observou Jesus, sem atinar para a trave no próprio olho. No caso de certos políticos imperiais, quem sabe a solução para a paz seja considerar a guerra um atentado ao pudor...

Frei Betto
[Fonte: http://www.voltairenet.org/article122917.html]

A História de Dechen



Esta animação nos conta a história de Dechen, um monge budista tibetano em processo de treinamento que tem uma grande paixão pela jardinagem. No vídeo podemos ver como ele planta uma flor, a observa e cuida da mesma com muito carinho e total dedicação. No entanto, a planta vai perdendo força apesar de todos os cuidados desprendidos.

E a linda flor, sufocada pela ausência do sol, começa a murchar, provocando grande incompreensão e tristeza ao protagonista. Mas no momento em que o pequeno monge descobre que a flor somente teria uma vida feliz em seu lugar de origem, ele a leva e planta-na no solo que ela tanto ama.

Ali a flor se torna incomensuravelmente bela. E o menino monge descobre que, ainda que amamos muito algo ou alguém, não podemos deixá-lo cativo. Pois cada ser é ímpar e possui o seu modo íntimo de felicidade. Ele descobre que amar é aceitar a felicidade do outro ainda que esta felicidade não seja ao seu lado. E que por mais que nos dediquemos ao nosso objeto de desejo, ele precisa de seu próprio espaço para respirar, para crescer, para resplandecer.

“Deixar livre é único modo de amar verdadeiramente”. Clara Dawn.
[Fonte do texto: http://www.portalraizes.com/a-historia-de-dechen-amar-e-deixar-ir/]

Opinião


Balzac, que percebeu tanta coisa, percebeu também qual era o papel que a polícia estava começando a desempenhar no mundo contemporâneo. Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão. Mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas elemento determinado.

O romancista tinha mais ou menos dezesseis anos quando Napoleão caiu, e assim pôde ver como a polícia organizada por Fouché adquirira por acréscimo (numa espécie de desenvolvimento natural das funções) o seu grande papel no mundo burguês e constitucional que então se abria: disfarçar o arbítrio da vontade dos dirigentes por meio da simulação de legalidade.

A polícia de um soberano absoluto é ostensiva e brutal, porque o soberano absoluto não se preocupa em justificar demais os seus atos. Mas a de um Estado constitucional tem de ser mais hermética e requintada. Por isso, vai-se misturando organicamente com o resto da sociedade, pondo em prática um modelo que se poderia chamar de “veneziano” — ou seja, o que estabelece uma rede sutil de espionagem e de delação irresponsável (cobertas pelo anonimato) como alicerce do Estado.

Para este fim, criam-se por toda a parte vínculos íntimos e profundos. A polícia se disfarça e assume uma organização dupla, bifurcando-se numa parte visível (com os seus distintivos e as suas siglas) e numa parte secreta, com o seu exército impressentido de espiões e alcaguetes, que em geral aparecem como exercendo ostensivamente uma outra atividade. Este funcionamento duplo permite satisfazer também a um requisito intransigente da burguesia, dominante desde os tempos de Balzac, e dispensado só nos casos de salvação da classe: a tarefa policial deve ser executada implacavelmente, mas sem ferir demais a sensibilidade dos bem-postos na vida. Para isso, é preciso esconder tanto quanto possível os aspectos mais desagradáveis da investigação e da repressão.

Para obter esse resultado, a sociedade suscita milhares de indivíduos de alma convenientemente deformada. Assim como os “comprachicos” d’O Homem que Ri, de Victor Hugo, estropiavam fisicamente as crianças a fim de obterem aleijões para divertimento dos outros, a sociedade puxa para fora daqueles indivíduos a brutalidade, a privação, a frustração, a torpeza, a tara — e os remete à função repressora.

Daí o interesse da literatura pela polícia, desde que Balzac viu a solidariedade orgânica entre ela e a sociedade, o poder dos seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal, do degenerado, para o fortalecimento da ordem. Nos seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor, mesmo porque este pode ter sido antes um transgressor, como é o caso de Vautrin, ao mesmo tempo o seu maior criminoso e o seu maior policial.

Dostoievski percebeu uma coisa mais sutil: a função simbólica do policial como sucedâneo possível da consciência — a sociedade entrando na casa de cada um através da pressão ou do desvendamento que ele efetua. Em Crime e Castigo, o juiz de instrução Porfírio Porfiriovitch vai-se tornando para Raskolnikof uma espécie de desdobramento dele mesmo.

Mas foi Kafka n’O Processo, quem viu o aspecto por assim dizer essencial e ao mesmo tempo profundamente social. Viu a polícia como algo inseparável da justiça, e esta assumindo cada vez mais um aspecto de polícia. Viu de que maneira a função de reprimir (mostrada por Balzac como função normal da sociedade) adquire um sentido transcendente, ao ponto de acabar se tornando a sua própria finalidade. Quando isso ocorre, ela desvenda aspectos básicos do homem, repressor e reprimido.

Para entrar em funcionamento, a polícia-justiça de Kafka não tem necessidade de motivos, mas apenas de estímulos. E uma vez em funcionamento não pode mais parar, porque a sua finalidade é ela própria. Para isso, não hesita em tirar qualquer homem do seu trilho até liquidá-lo de todo, física ou moralmente. Não hesita em pô-lo (seja por que meio for) à margem da ação, ou da suspeita de ação, ou da vaga possibilidade de ação que o Estado quer reprimir, sem se importar se o indivíduo visado está envolvido nela. Em face da importância ganha pelo processo punitivo (que acaba tendo o alvo espúrio de funcionar, pura e simplesmente, mesmo sem motivo), a materialidade da culpa perde sentido.

A polícia aparece então como um agente que viola a personalidade, roubando ao homem os precários recursos de equilíbrio de que usualmente dispõe: pudor, controle emocional, lealdade, discrição — dissolvidos com perícia ou brutalidade profissionais. Operando como poderosa força redutora, ela traz à superfície tudo o que tínhamos conseguido reprimir, e transforma o pudor em impudor, o controle em desmando, a lealdade em delação, a discrição em bisbilhotice trágica.

Daí uma espécie de monstruosa verdade suscitada pela polícia. Verdade oculta de um ser que ia penosamente se apresentando como outro, que de fato era outro, na medida em que não era obrigado a recair nas suas profundidades abissais. Aliás, seria mais correto dizer que o outro é o suscitado pela polícia. O outro, com a sua verdade imposta ou desentranhada pelo processo repressor, extraída, contra a vontade, dos porões onde tinha sido mais ou menos trancada.

De fato, a polícia tem necessidade de construir a verdade do outro para poder manipular o eu do seu paciente. A sua força consiste em opor o outro ao eu, até que este seja absorvido por aquele e, deste modo, esteja pronto para o que se espera dele: colaboração, submissão, omissão, silêncio. A polícia esculpe o outro por meio do interrogatório, o vasculhamento do passado, a exposição da fraqueza, a violência física e moral. No fim, se for preciso, poderá inclusive empregar a seu serviço este outro, que é um novo eu, manipulado pela dosagem de um ingrediente da mais alta eficácia: o medo — em todos os seus graus e modalidades.

Um exemplo dessa redução degradante é o comportamento do delegado com o encanador, no filme Inquérito sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de Elio Petri.

O delegado, que é também o criminoso, resolve brincar com o destino e como que provar o mecanismo autodominante da polícia, a sua finalidade em si mesma. Para isso, dirige-se a um transeunte qualquer, escolhido ao acaso, e confessa que é o matador procurado, dando como prova a gravata azul celeste que usa e fora vista nele. Convence então o pobre transeunte a ir à polícia e relatar o fato, dando-lhe para levar como indício (e evidentemente como baralhamento do indício) diversas gravatas iguais, que mostrariam como era a do assassino.

Chegado à polícia, o transeunte, que é encanador, dá de cara com o assassino que se confessara na rua, e que ia delatar; mas que agora está no seu papel de delegado. Este o interroga com brutalidade e o pressiona física e moralmente para dizer quem era o assassino que se desvendara a ele na rua. Mas o pobre diabo, completamente desorganizado pela contradição inexplicável, não tem coragem para tanto. Com isso, vai ficando suspeito, vai-se caracterizando legalmente corno possível criminoso, até desaparecer dos nossos olhos, trôpego, arrasado, por uns corredores sujos que levam aonde bem suspeitamos.

A força que o paralisa, e que nos paralisaria eventualmente, vem de uma ambiguidade, misteriosa na aparência, mas eficaz, cuja natureza foi sugerida acima: o repressor e o transgressor são o mesmo, não apenas fisicamente e do ponto de vista dos papéis sociais, mas ontologicamente (o outro é o eu).

Tudo nesse episódio é modelar: a gratuidade com que se escolhe o culpado; a imposição de um comportamento não intencional (ir à polícia com as gravatas azuis no braço, delatar um criminoso sem nome, que não interessa); o baralhamento da verdade, quando ele constata que o homem que se denunciara como assassino é também o delegado; a transformação do inocente em suspeito e do suspeito em delinquente, aceita pelo próprio inocente, do fundo da sua desorganização mental, forjada pela inquirição.

O fulcro desse processo talvez seja aquele momento do interrogatório em que o delegado pergunta ao pobre diabo, já zonzo, qual é a sua profissão.

“— Sou hidráulico”, responde ele.

O delegado esbraveja:

” — Qual hidráulico qual nada! Agora toda a gente quer ser alguma coisa bonita! O que você é é encanador, não é? En-ca-na-dor! Por que hi-dráu-li-co?!”.

E o desgraçado, já sem fôlego nem prumo: “— Sim, sou encanador”’. (Cito de memória porque não tenho o roteiro.)

Vê-se que o pobre homem, a exemplo de toda a sua categoria profissional, tinha adotado uma designação de cunho técnico (idraulico, em italiano), que o afasta da velha designação artesanal “encanador” (stagnaro, em italiano), e assim lhe dá a ilusão de um nível aparentemente mais elevado, ou pelo menos mais científico e atualizado. Mas o policial o reduz ao nível anterior, desmascara a sua autopromoção, lira para fora a sua verdade indesejada. E, no fim, é como se ele dissesse:

” — Sim, confesso, não sou um técnico de nome sonoro, que evoca inocentemente alguma coisa de engenharia; sou mesmo um pobre diabo, um encanador. Estou reduzido ao meu verdadeiro eu, libertado do outro”.

Mas, na verdade, foi a polícia que lhe impôs o outro como eu. A polícia efetuou um desmantelamento da personalidade, arduamente construída, e trouxe de volta o que o homem tinha superado. Sinistra mentalidade redutora, que nos obriga a ser, ou voltar a ser, o que não queremos ser; e que mostra como Alfred de Vigny tinha razão, quando anotou seu diário:

“Não tenha medo da pobreza, nem do exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas tenha medo do medo”.

Por Antônio Cândido (texto publicado em “Opinião”, em janeiro de 1972). Recuperado por Outras Palavras.
[Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/09/texto-de-antonio-candido-publicado-em-1972-esta-mais-atual-do-que-nunca.html]

A Arte do Otimismo

[Escuta Resenha] Os contos de Clarice Lispector


Já não era sem tempo. Eis que finalmente foi publicado no Brasil, no mês passado pela editora Rocco, um livro reunindo todos os contos de Clarice Lispector. Trata-se da obra Clarice Lispector. Todos os Contos, que vem à luz depois de uma trajetória pouco convencional, tendo sido publicada originalmente nos Estados Unidos, em 2015 – quando foi selecionada pelo The New York Times como um dos melhores livros do ano passado – para finalmente chegar agora às mãos do leitor brasileiro. É verdade que muitos dos contos já eram conhecidos pelo grande público, sobretudo aqueles divulgados em livros de maior repercussão como Laços de Família, Legião Estrangeira e Felicidade Clandestina – que contêm pérolas como “A galinha”, “A menor mulher do mundo” e “Felicidade clandestina” –, porém, parte significativa das histórias aqui reunidas ainda permanecia desconhecida para a grande maioria, exceto para aqueles aficionados por Clarice.

A obra Clarice Lispector. Todos os Contos é organizada pelo norte-americano Benjamin Moser, autor da bela biografia Clarice, publicada em 2009 pela editora Cosac Naify. Nesta biografia minuciosamente construída, Moser recupera os percursos de Clarice – desde o seu nascimento na Ucrânia em 1920, sua vinda ainda nova para o Brasil, sua passagem por Maceió e Recife, o casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente e sua longeva vida no exterior, seu divórcio, o retorno para o Rio de Janeiro, seu trabalho como escritora, suas relações familiares, especialmente com os dois filhos, seu círculo de amizades, sua morte e sua posterior transformação em uma espécie de mito da literatura brasileira –, entremeando com reflexões sobre os livros escritos pela autora, como Perto de Coração Selvagem – romance lançado em 1943 que a projetou nacionalmente –, A Paixão segundo G.H. e A Hora da Estrela. As alegrias, sofrimentos, dores e angústias de Clarice são contadas de forma cuidadosa por Moser, cuja obra tem como diferencial ancorar as raízes da autora no misticismo judaico, destacando o impulso espiritual e o caráter sagrado que impulsionou e atravessou a sua obra.

Clarice Lispector. Todos os Contos é composto por oitenta e cinco textos, publicados desde 1929, quando a autora tinha 19 anos, até a sua morte, em 1977. A organização dos contos em forma cronológica permite ao leitor acompanhar os escritos de Clarice durante toda a sua vida adulta, abrindo possibilidades para associar seus escritos a fases específicas de sua trajetória. Milhares de personagens desfilam nas páginas desta obra: poucos homens; a grande maioria, mulheres. Cristina, Luísa, Flora, Idalina, Gertrudes, Catarina, Sofia, Margarida, Ofélia, Frozina, Sra. Jorge B. Xavier, Ruth, Carmen, Beatriz, Aurélia, Cândida… Mulheres novas, de meia idade, idosas; mulheres de diferentes tipos, trejeitos, profissões, sonhos, desejos, inquietações, questionamentos. Nas várias mulheres narradas nos diferentes contos que compõem a obra, Clarice, é claro, se faz presente. Na maior parte das vezes de forma implícita; em outras, de forma explícita, sobretudo em seus últimos contos, nos quais sua personalidade aparece mais destacada, especialmente quando a dimensão reflexiva – e também melancólica – passa a ganhar um espaço importante no direcionamento de sua escrita.

Como sugere o próprio Moser na introdução à obra, o registro da condição de mulher de Clarice não deve ser tomado como mero detalhe sem importância. Os escritos de Clarice, em sua maioria, abordam temas que foram tradicionalmente associados ao universo feminino, e é uma escrita feminina situada social e historicamente: uma mulher, artista, de classe média, mãe, casada e posteriormente divorciada, em uma época na qual o divórcio era visto como heresia. Porém, e isto que importa perceber, esta inscrição no mundo feminino, esta escrita de uma mulher sobre mulheres, não a circunscreve a qualquer nicho específico e não reduz em absolutamente nada a universalidade das experiências ali narradas. A literatura de Clarice é uma literatura universal e o reconhecimento tardio que o mundo anglo-saxão lhe devota se deve mais à sua condição de escritora de um país periférico, que tem como idioma o português, muito mais restrito em termos de circulação no mundo editorial quando comparado, por exemplo, com o espanhol, do que propriamente com algo associado à qualidade da sua obra.

Não se lê Clarice; se sorve Clarice. Suas palavras parecem escolhidas a dedo, com precisão, esmero, requinte. Em alguns contos, ela adquire uma verve mais seca, refreada, contida; em outros, a leveza, a delicadeza e a suavidade se impõem. A prosa elegante faz com que o leitor flutue na leitura, embora se veja, constantemente, surpreendido, não apenas com a trama desenvolvida, mas, especialmente, com os recursos formais mobilizados pela autora. Dessa perspectiva, flutua-se sim na leitura de Clarice, mas se flutua com cuidado, com apuro, com parcimônia, como se se andasse em uma loja de cristais, permanecendo atento a cada passo dado. Por estar repleta de obstáculos – que não impossibilitam o percurso, mas o tornam mais complexo –, a escrita de Clarice atrai e afasta, seduz e repele, em um jogo intrigante, que desafia o tempo todo o leitor atento que busca saborear em cada sentença o gosto da frase bem escrita.

O fato de Clarice ter se tornado postumamente pop, sugada pelo mundo da indústria cultural, com frases autorais que lhe são atribuídas, citadas fora do contexto nas redes sociais, pode dar a impressão de que Clarice é uma escritora fácil, cuja leitura se dá sem maiores esforços. É um engano. Estamos a falar de uma autora complexa, densa, em certo sentido, difícil. Seria, então, Clarice necessariamente uma escritora hermética? Em sua última entrevista, em 1977, concedida à TV Cultura, Clarice responde negativamente à acusação de hermetismo. Admite, porém, que certos contos são, inclusive para ela mesma, ainda incompreensíveis, a exemplo do perturbador “O ovo e a galinha”. Não ser hermético, contudo, não é sinônimo de ser fácil. Para ser bem sorvida, como merece ser, sua leitura demanda atenção, concentração. Lê-la de forma acelerada é um erro que pode levar à perda de detalhes primorosos de sua escrita. A pressa, a rapidez e a agitação do mundo moderno não se coadunam com a prosa moderna de Clarice; esta exige calma, respiro, silêncio.

A literatura de Clarice pode ser associada àquilo que Leyla Perrone-Moisés, em ótimo ensaio sobre autores brasileiros contemporâneos como Nuno Ramos, André Queiroz e Julian Fuks, publicado em 2012 na “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo, chamou de “literatura exigente”, o que a colocaria, caso se aceite esta classificação, ao lado de nomes como Joyce, Kafka, Borges e Beckett. No caso de Clarisse, esta literatura exigente se mostra de forma clara em seu experimentalismo formal, ancorado em uma orientação vanguardista, que também está presente em outros autores de sua geração, como Guimarães Rosa, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Não à toa, há aqueles que apontam para as linguagens de Clarice e Guimarães – assim como para aquela desenvolvida por artistas visuais a exemplo de Lygia Clark – como aprofundamentos tardios do modernismo dos anos 1920, embora suas literaturas inovem para outros caminhos, apostando em novas perspectivas.

Esse experimentalismo já estava presente em alguns contos de sua juventude, a exemplo de “Mais dois bêbados”, contido em Primeiras Histórias, que se encerra de forma abrupta e repentina: “De repente, ele tirou o palito da boca, os olhos piscando, os lábios trêmulos como se fosse chorar, disse:”. Contudo, ele se exacerba em contos posteriores, indo às suas últimas consequências, como no já mencionado “O ovo e a galinha”, “Discurso para a inauguração”, de Fundos de Gaveta, de Legião Estrangeira, “Perdoando Deus”, “Tempestade das almas” e “Vida ao natural”, de Felicidade Clandestina, e, especialmente, em “O relatório e a coisa”, contido no livro Onde estivestes de Noite. Como destacado por Moser no “Apêndice”, este texto foi originalmente publicado com o título “Objeto: anticonto”. Na ocasião de sua publicação, Clarice, que o chamou de “anticonto geométrico”, incluiu o seguinte prefácio: “Acho que queria fazer um anticonto, uma antiliteratura. Como se assim eu desmistificasse a ficção. Foi uma experiência valiosa para mim. Não importa que eu tenha falhado. Chama-se OBJETO” (p.652-3). Alguns contos de Clarice, a exemplo de “Perfil de seres eleitos” e “Seco estudos de cavalo”, causam espanto e inquietação: precisam ser decifrados, desemaranhados. O leitor deve se comportar como um caçador, deslocando as vírgulas, empurrando as palavras, adentrando pelo interior do papel para buscar, em meio àquela suposta estranheza, a riqueza que se extrai de variadas passagens.

Sergio Buarque de Holanda, no artigo “Tema e Técnica”, publicado originalmente no Diário Carioca, em 1950, já chamava a atenção para o fato de Clarice, ao lado de Oswald de Andrade, ter sido uma das escritoras brasileiras que mais levaram a fundo a dimensão poética e a problematização das questões formais em suas escritas, deixando em segundo plano a preocupação temática. Na introdução de Clarice Lispector. Todos os Contos, Moser avança em uma hipótese interessante para explicar esta ousadia formal e a “estranha gramática” da autora, destacando para além da influência do misticismo judaico herdado do pai, a ausência, em uma perspectiva mais ampla, de uma tradição na qual pudesse se ancorar, o que lhe assegurava um grau maior de liberdade para apostar no novo, sem que isso significasse uma inovação pela simples inovação. Clarice, segundo Moser, “vinha de uma tradição de fracasso, de uma tradição, como escritora brasileira, como escritora, como mulher, mas talvez principalmente em consequência de suas origens” (p.17). Clarice, em certo sentido, inventa uma tradição, a partir de “uma incessante busca linguística, uma mutabilidade gramatical” (p.21).

Essas reflexões sobre as inovações formais de Clarice e sobre sua “literatura exigente” não devem, contudo, afastar o leitor de Clarice Lispector. Todos os Contos. Pelo contrário. Deve-se ler e sorver Clarice, pois uma vez que se adentra em seu universo mergulha-se em uma torrente viciante de sofisticação. Não que todos os contos sejam primorosos. Clarice tropeça, se apressa em algumas histórias, simplifica enredos ou se estende demasiadamente em algumas narrativas. Seus últimos contos, especialmente aqueles publicados em A Via Crucis do Corpo, não alcançam a mesma potência de outros trabalhos, e não apenas pelo fato de abordarem o erótico no contexto conservador da ditadura que então vigia no país, como parece sugerir a introdução de Moser, mas pela razão mais prosaica de que eles não têm a mesma elegância e precisão dos livros anteriores. Mas, de modo geral, o que impera é uma capacidade imensa e assombrosa de construir uma literatura repleta de requintes, paradoxalmente contida e visceral. Seus personagens, na maior parte das vezes, expõem subjetividades atordoadas, marcadas por aquilo que podemos chamar de um equilíbrio frágil, como se algo estivesse permanentemente na iminência de se romper. É uma literatura do limiar, da beira, do limite, da expectativa.

Espera-se que Clarice Lispector. Todos os Contos possa contribuir para uma maior difusão de Clarice Lispector, tão citada, mas ainda tão pouco efetivamente lida no Brasil. Em um país que gosta de seguir os modismos que nos chegam de fora, resta torcer para que a consagradora recepção deste livro no mundo anglo-saxão influencie os daqui a conhecerem melhor uma autora que, sem qualquer arrombo nacionalista ou patriotesco, está no panteão daquilo que a literatura universal produziu de mais sofisticado.

* Fernando Perlatto é um dos Editores da Revista Escuta.** Crédito da imagem: Fraco e Moura. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Clarice_Lispector>. Acesso em: 14 jun. 2016.