Silêncio incômodo: a cumplicidade com um genocídio


Desde 7 de outubro de 2023, a Faixa de Gaza tornou-se o palco de uma devastação sistemática que, aos olhos de inúmeros juristas, agências da ONU e organizações de direitos humanos, adquiriu contornos de genocídio. Mais de 67 mil palestinos foram mortos, cerca de 170 mil feridos e aproximadamente 80% das habitações foram destruídas ou severamente danificadas. Enquanto as bombas caem e a fome se instala, o mundo assiste, e, em grande medida, permanece em silêncio. Esta reflexão analisa o paradoxo do “estranho cruzar dos braços da humanidade”: como é possível que, na era da informação instantânea e da transmissão ao vivo do sofrimento, a comunidade internacional tenha reagido com uma passividade que muitos já classificam de cumplicidade ativa. O silêncio incômodo que cerca a destruição de Gaza não é um acaso histórico, mas o resultado de decisões políticas deliberadas, de uma arquitetura de poder que protege certos Estados da prestação de contas e de uma “paralisia moral” que as gerações futuras dificilmente perdoarão.

A magnitude do desastre - Os números, por si sós, contam uma história avassaladora. Segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, amplamente considerados confiáveis pelas Nações Unidas, o conflito já vitimou dezenas de milhares de pessoas, sendo a esmagadora maioria de civis. Um levantamento secreto da própria inteligência militar israelense, revelado por uma investigação conjunta do Guardian, da +972 Magazine e do Local Call, indica que 83% dos mortos até maio de 2025 eram civis, uma proporção que apenas três outros episódios nas últimas três décadas ultrapassaram: o genocídio de Ruanda (1994), o cerco russo a Mariupol (2022) e o massacre de Srebrenica (1992-1995). A fome, entretanto, foi oficialmente declarada em agosto de 2025, com mais de meio milhão de palestinos à beira da inanição. A devastação não se limita às baixas humanas: mais de 25 mil toneladas de explosivos, o equivalente a duas bombas nucleares, foram lançadas sobre Gaza, colapsando os sistemas de água e saneamento e espalhando poluição tóxica que afetará a população por gerações.

O enquadramento jurídico - A acusação de genocídio deixou há muito o terreno da retórica para se firmar em decisões judiciais vinculativas. Em dezembro de 2023, a África do Sul moveu uma ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ) ao abrigo da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948. Em 26 de janeiro de 2024, a CIJ determinou medidas provisórias, ordenando que Israel “tomasse todas as medidas ao seu alcance para prevenir a prática de todos os atos abrangidos pelo âmbito do artigo II” da Convenção, incluindo a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar a destruição física do grupo. Em maio de 2024, o tribunal foi ainda mais longe, ordenando a Israel que “cessasse imediatamente a sua ofensiva militar” em Rafah. Para além da CIJ, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de captura contra o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, por “crimes de guerra e crimes contra a humanidade”. A Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio concluiu que as ações de Israel preenchem os critérios da Convenção da ONU. Em novembro de 2024, um comitê especial da ONU declarou, sem rodeios: “Um genocídio está se desenrolando diante dos nossos olhos. A História não perdoará a nossa inação”.

Contudo, o direito internacional, desprovido de um mecanismo de execução efetivo, revelou-se uma folha de papel. Israel ignorou as ordens da CIJ, desrespeitou as resoluções do Conselho de Segurança e desafiou a jurisdição do TPI. Os Estados Unidos vetaram sistematicamente resoluções que exigiam um cessar-fogo no Conselho de Segurança, enquanto a União Europeia se revelou impotente e dividida. Como observou o embaixador palestino na Índia, “pela primeira vez na História, um genocídio foi transmitido ao vivo, apoiado pelas potências ocidentais, enquanto o resto do mundo permanecia impotente, incapaz sequer de entregar alimentos ou medicamentos”.

As razões do silêncio - Por que o mundo se cala? O Centro Tricontinental, numa análise recente, cunhou o conceito de “pânico moral” para explicar a indiferença do Ocidente oficial. Trata-se de um fenômeno em que “uma pessoa tem medo de aderir às suas próprias convicções morais porque isso exigiria alguma coragem que poderia ter consequências”. No caso de Gaza, ignorar o genocídio e a limpeza étnica “só pode ser descrito como intencional e não por ignorância”. As ações de Israel são demasiado visíveis para serem ignoradas, a menos que políticos, acadêmicos e jornalistas escolham ativamente fazê-lo, receando ser rotulados como antissemitas ou confrontar a cumplicidade dos seus próprios países.

Esta paralisia moral inscreve-se numa estrutura mais ampla de cumplicidade ativa. Os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, romperam com décadas de consenso internacional ao reconhecer Jerusalém como capital indivisa de Israel, legitimar assentamentos ilegais e desmantelar a solução de dois Estados. A Alemanha, por sua vez, vê-se enredada na contradição de uma Staatsräson que a leva a apoiar com armas e diplomacia um Estado acusado de genocídio, enquanto proclama o “Nunca Mais” do Holocausto como seu mais alto compromisso moral. A União Europeia, como lembra o teólogo Evaristo Villar, oscila entre a impotência e a cumplicidade, bloqueando resoluções de paz. Como advertiu Hannah Arendt, “a violência pode destruir o poder, mas é incapaz de criá-lo”. O silêncio dos poderosos, longe de ser neutro, é uma forma de violência estrutural que permite que o massacre continue.

O julgamento da História - As gerações futuras, ao olharem para este período, confrontar-se-ão com uma questão inquietante: como foi possível que a humanidade, armada de informação e de instituições construídas sobre as cinzas do Holocausto, tenha assistido de braços cruzados a um novo genocídio? A resposta, suspeita-se, não será piedosa. O relatório do comitê especial da ONU foi inequívoco: “Sob a nossa vigilância, temos permitido que o relógio recue para uma era de barbárie sem controle, a própria perseguição que um dia juramos que nunca mais aconteceria”. E acrescentou: “A nossa inação não está apenas falhando na proteção de vidas inocentes; está desmantelando o próprio sistema jurídico internacional, uma estrutura laboriosamente construída para proteger a paz e a segurança de todos”.

Os historiadores do futuro registrarão, certamente, que este genocídio ocorreu em plena luz do dia, filmado em celulares e transmitido ao vivo para todo o mundo. Não houve desculpa de ignorância. O que houve foi uma escolha deliberada de priorizar interesses geopolíticos de curto prazo em detrimento de princípios humanitários fundamentais. Como escreveu o embaixador palestino, “a máscara da superioridade moral caiu”. E a cumplicidade que permitiu que este genocídio continuasse durante dois longos anos será, para a posteridade, uma mancha indelével na consciência coletiva da nossa época.

Mas o julgamento da História não recairá apenas sobre os governos. Recairá também sobre cada um de nós, acadêmicos que se calaram com medo de represálias profissionais, jornalistas que normalizaram o horror com eufemismos, cidadãos que preferiram não saber, religiosos que se escondem atrás de mitos bíblicos ou doutrinas espúrias para legitimar assassinatos covardes, estupros e o cárcere a céu aberto que Gaza se tornou. Villar nos recorda que “aqueles que permanecem em silêncio por razões geopolíticas tornam-se cúmplices; aqueles que justificam o massacre com eufemismos tornam-se carrascos”. O futuro perguntará: onde estavas tu, quando Gaza clamava?

A urgência do testemunho - O genocídio em Gaza não é um conflito distante entre dois lados equidistantes. É, como afirma Villar, “o teste final da nossa humanidade, um ponto de virada ética para a nossa era”. A arquitetura do direito internacional pode ter falhado na sua função protetora, mas a memória, essa, resiste. E a memória coletiva das futuras gerações será moldada não apenas pelos fatos, mas pelas respostas que hoje damos a esses fatos. A inação não é neutralidade; é cumplicidade. O silêncio não é prudência; é conivência.

Num mundo onde a impunidade ameaça tornar-se norma, a única resposta moralmente defensável é o testemunho, a recusa em aceitar a voz única do mais forte, a coragem de dizer o que está acontecendo, mesmo quando as consequências são incômodas. O futuro, como nos recorda o comitê da ONU, “não perdoará nem esquecerá a nossa inação e cumplicidade”. Resta saber se, antes que seja tarde demais, o estranho cruzar dos braços da humanidade se transformará num abraço solidário com os que sofrem. Até lá, o silêncio continuará a ecoar, ensurdecedor, cúmplice e, para sempre, vergonhoso.

 

Para aqueles que não lerão este artigo

Em nossa cultura intelectual e jornalística surge uma nova forma retórica. Trata-se da arte de escrever para idiotas que, entre nós, tem feito muito sucesso. Pensávamos ter atingido o fundo do poço em termos de produção de idiotices para idiotas, mas proliferam subformas, subgêneros e subautores que sugerem a criação de um nova ciência. 

Por Marcia Tiburi e Rubens Casara, da Revista Cult

Estamos fazendo piada, mas quando se trata de pensar na forma assumida atualmente pela “voz da razão” temos que parar de rir e começar a pensar.

Artigos ruins e reacionários fazem parte de jornais e revistas desde sempre, mas a arte de escrever para idiotas vem se especializando ao longo do tempo e seus artistas passam da posição de retóricos de baixa categoria para príncipes dos meios de comunicação de massa. Atualmente, idiotas de direita tem mais espaço do que idiotas de esquerda na grande mídia. Mas isso não afeta em nada a forma com que se pode escrever para idiotas.

Diga-se, antes de mais nada, que o termo idiota aqui empregado guarda algo de seu velho uso psiquiátrico. Etimologicamente, “idiota” tem relação com aquele que vive fechado em si mesmo. Na psiquiatria, a idiotia era uma patologia gravíssima e que, em termos sociais, podemos dizer que continua sendo.

Uma tipologia psicossocial entra em jogo na história, baseada em dois tipos ideais de idiotas: oidiota de raiz, dentre os quais se destaca a subcategoria do idiota representante do conhecimento paranoico, e o neo-idiota, com destaque para o “idiota” mercenário que lucra com a arte de escrever para idiotas.

Vejamos quem são:
1- O Idiota de raiz é fruto de um determinismo: ele não pode deixar de ser idiota. Seja em razão da tradição em que está inserido ou de um déficit cognitivo, trata-se de um idiota autêntico.

O Idiota de raiz divide-se em três subtipos:
1. 1 – Ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. Repete clichês introduzidos no cotidiano pelos meios de informação que ele conhece, a televisão e os jornais de grande circulação, em que a informação é controlada. Sua formação é “midiatizada”, mas ele não sabe disso e se orgulha do que lhe permitem conhecer. No limite, o ignorante orgulhoso diz “sou fascista”, sem conhecer a experiência do fascismo clássico da década de 30 e o significado atual da palavra, assim como é capaz de defender sem razoabilidade alguma ideias sobre as quais ele nada sabe. Um exemplo muito atual: apesar da violência não ter diminuído nos países que reduziram a maioridade penal, a ignorância da qual se orgulha o idiota, o faz defender essa medida como solução para os mais variados problemas sociais. Ele se aproxima do “burro mesmo” enquanto imita o representante do conhecimento paranoico, apresentados a seguir.

1.2 – “Burro mesmo”: não há muito o que dizer. Mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. Por exemplo: o “burro mesmo” faz uma manifestação “democrática” para defender a volta da ditadura. Para bom entendedor, meia palavra…

1.3 – Representante do conhecimento paranoico: tendo estudado ou sendo autodidata, o representante do conhecimento paranoico pode ser, sob certo aspecto, genial. Freud comparava, em sua forma, a paranoia a uma espécie de sistema filosófico. O paranoico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. Se duvidasse, ele poderia ser um filósofo. O conhecimento paranoico cria monstros que ele mesmo acredita combater a partir de suas certezas. O comunismo, o feminismo, a política de cotas ou qualquer política que possa produzir um deslocamento de sentido e colocar em dúvida suas certezas, ocupa o lugar de monstro para alguns paranoicos midiaticamente importantes.

Curioso é que o representante do conhecimento paranoico pode parecer alguém inteligente, mas seu afeto paranoico o impede de experimentar outras formas de ver o mundo, abortando a potência de inteligência, que nele é, a todo momento, mortificada. Isso o aproxima do “ignorante orgulhoso” e do “burro mesmo”.

Em termos vulgares e compreensíveis por todos: ele é a brochada da inteligência.
2 – O neo-idiota: o neo-idiota poderia não ser um idiota, mas sua escolha, sua adesão à tendência dominante, o coloca nesse lugar. Não se pode esquecer que, além de cognitiva, a inteligência é uma categoria moral. O neo-idiota não é apenas um idiota, mas também um canalha em potencial.

Há dois subtipos de neo-idiota:

2.1 – O “idiota” mercenário quer ganhar dinheiro. Ele serve aos interesses dominantes, mas é um idiota como outro qualquer, porque não ganha tanto dinheiro assim quando vende a alma.

Nessa categoria, prevalece o mercenário sobre o idiota. Por isso, podemos falar de um idiota entre aspas. Ganha dinheiro falando idiotices para os idiotas que o lerão. Seu leitor padrão divide-se entre o “burro mesmo” e o “idiota cool”. Ele escreve aquilo que faz o “burro mesmo” pensar que é inteligente. O idiota cool, por sua vez, se sente legitimado pelo que lê. O que revela a responsabilidade do idiota mercenário no crescimento do pensamento autoritário na sociedade brasileira. Apresentar Homer Simpson ou qualquer outro exemplo de “burro mesmo” como modelo ideal de telespectador ou leitor é paradigmático nesse contexto.

2.2 – O “idiota cool” lê o que escreve o idiota mercenário. Repete suas ideias na esperança de ser aceito socialmente. De ter um destaque como sujeito de ideias (prontas). Ele gosta de exibir sua leitura do jornal ou do blog e usa as ideias do articulista (do representante do conhecimento paranoico ou do idiota mercenário) para tornar-se cool. Ele segue a tendência dominante. Ao contrário do “burro mesmo”, nele sobressai o esforço para estar na moda. Como, diferentemente dos seus ídolos, ele não escreve em jornais ou blogs famosos, ele transforma o Facebook e outras redes sociais no seu palco.

Diante disso, temos os textos produzidos a partir da altamente falaciosa arte de escrever para idiotas. O sucesso que alcançam tais textos se deve a um conjunto de regras básicas. Identificamos dez, mas a capacidade para escrever idiotices tem se revelado engenhosa e não deve ser menosprezada:

1- Tratar como idiota todo mundo que não concorda com as idiotices defendidas. O texto é construído a partir do narcisismo infantil do articulista. O autor sobressai no texto, em detrimento do argumento. Assim ele reafirma sua própria imagem desqualificando a diferença e a inteligência para vender-se como inteligente.

2- Não deixar jamais que seu leitor se sinta um idiota. Sustentar idiotices com as quais o leitor (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) se identifique, o que faz com que o mesmo se sinta inteligente.

3- Abordar de forma sensacionalista qualquer tema. Qualquer assunto, seja socialmente relevante ou não, acaba sendo tratado de maneira espetacularizada.

4- Transformar temas desimportantes em instrumentos de ataque e desqualificação da diferença. Por exemplo, a “depilação feminina” já foi um assunto apresentado de modo enervante, excitante, demonizante e estigmatizante. Nesse caso, o preconceito de gênero escondeu a falta de assunto do articulista.

5- Distorcer fatos históricos adequando-os às hipóteses do escritor. Em uma espécie de perversão inquisitorial, o acontecimento acaba substituído pela versão distorcida que atende à intenção do autor do texto para idiotas.

6- Atacar alguém. Este é um dos aspectos mais importantes da arte de escrever para idiotas. A limitação argumentativa esconde-se em ataques pessoais. Cria-se um inimigo a ser combatido. O inimigo é o mais variado, mas sempre alguém que representa, na fantasia do escritor, o ideal contrário ao dos seus leitores (os idiotas: o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool).

7- Reduzir tudo a uma visão maniqueísta. Toda complexidade desaparece nos textos escritos para idiotas. O mundo é apresentado como uma luta entre o bem e o mal, o certo e o errado, o comunismo e o capitalismo ou Deus e o Diabo.

8- Desconsiderar distinções conceituais. Nos textos escritos para idiotas, conservadores são apresentados como liberais, comunistas são confundidos com anarquistas, etc.

9- Investir em clichês e ideias fixas. Clichês são pensamentos prontos e de fácil acesso. Sem o esforço de reflexão crítica, os clichês dão a sensação imediata de inteligência. Da mesma maneira, o recurso às ideias fixas é uma estratégia para garantir a atenção do leitor idiota (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) e reforçar as “certezas” em torno das hipóteses do escritor (nesse particular, Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler, foi bem entendido).

10-Escrever mal. A pobreza vernacular e as limitações gramaticais são essências na arte de escrever para idiotas. O leitor idiota não pode ser surpreendido, pois pode se sentir ofendido com algo mais inteligente do que ele. Ele deve ser capaz de entender o texto ao ler algo que ele mesmo pensa ou que pode compreender. Deve ser adulado pela idiotice que já conhece ou que o escritor quer que ele conheça.

(Para além do que foi identificado acima, fica a questão para quem deseja escrever para idiotas: como atingir a pobreza essencial na forma e no conteúdo que concerne a essa arte?)

A arte de escrever para idiotas constitui parte importante da retórica atual do poder. Saber é poder, falar/escrever é poder, e o idiota que fala e é ouvido, que escreve e é lido, tem poder. O empobrecimento do debate público se deve a essas “cabeças de papelão”, fato que é identificado tanto por pensadores conservadores quanto por progressistas.

O grande desafio, portanto, maior do que o confronto reducionista entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, entre machistas e feministas, parece ser o que envolve os que pensam e os que não pensam. Sem pensamento não há diálogo possível, nem emancipação em nível algum.

Se não houver limites para a idiotice, ao contrário da esperança que levou a escrever esse texto, resta isolar-se e estocar alimentos.

Sami Yusuf - One

 


Olhos d’água


Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando... De que cor eram os olhos de minha mãe? 

Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?

Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo... Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela... Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?

Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado... Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? 

Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía. Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?

Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva... Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?

E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?

E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos.

E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.

E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?

Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:

Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

Conceição Evaristo
(In: Olhos d’água, p. 15-19)

Maher Zain - Palestine Will Be Free


 

Liderança em tempos de crise


GOODWIN, Doris, K. Liderança em tempos de crise; Tradução de Alessandra Bonrruquer. 1ª edição Rio de Janeiro: Editora Record. 2020. 560 pgs.

Liderança em tempos de crise é um estudo detalhado sobre liderança, escrito por Doris Kearns Goodwin, renomada historiadora e autora, conhecida por seus estudos sobre líderes presidenciais dos Estados Unidos, que habilmente nos transporta para os bastidores da Casa Branca, onde testemunhamos como quatro dos presidentes mais emblemáticos enfrentaram desafios monumentais e moldaram o destino de uma nação: Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Franklin D. Roosevelt e Lyndon B. Johnson.

Para isso, ela examina as habilidades e traços de liderança dos quatro presidentes durante momentos considerados cruciais da história do país: para explorar como esses líderes enfrentaram e superaram crises durante seus mandatos.

Goodwin mergulha minunciosamente nas vidas e carreiras dos quatro líderes, fornecendo insights valiosos e detalhados sobre suas personalidades, estilos e qualidades de liderança ímpares, como enfrentaram desafios únicos, lidaram com momentos extraordinários e lideraram o país através de crises e durante períodos críticos, que testaram suas habilidades e resiliência.

O livro é uma exploração profunda de como a liderança eficaz pode moldar o curso da história e inspirar uma nação em tempos de turbulência.

Abraham Lincoln: Goodwin analisa como Lincoln liderou o país durante a Guerra Civil, enfrentando divisões profundas e tomando decisões difíceis para preservar a União e abolir a escravidão;

Theodore Roosevelt: Ela explora como Roosevelt liderou durante a Era Progressista, lutando contra a corrupção e promovendo reformas sociais e econômicas para lidar com os desafios da industrialização e urbanização;

Franklin D. Roosevelt: Goodwin examina o papel de Roosevelt na liderança dos Estados Unidos durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, destacando sua habilidade em mobilizar o país e inspirar confiança durante tempos de crise;

Lyndon B. Johnson: Por fim, ela investiga como Johnson enfrentou desafios como a luta pelos direitos civis e a Guerra do Vietnã, analisando suas habilidades políticas e seu estilo de liderança.

Liderança em Tempos de Crise é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em história, liderança ou política. Com uma combinação ímpar de narrativa cativante, pesquisa detalhada e insights perspicazes, o livro oferece uma visão inspiradora e edificante sobre como os líderes podem enfrentar desafios e crises com coragem, sabedoria e liderança eficaz.

Você já leu esse livro?

O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo

Liderança baseada em princípios

Depois de ler Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes: lições poderosas para a transformação pessoal, O 8º hábito: da eficácia à grandeza e A 3ª alternativa: resolvendo os problemas mais difíceis da vida, li de “uma sentada” [lá vem digressão: na verdade de duas sentadas, pois li em 2008 e reli em 2009 e estou relendo agora em 2024] Liderança baseada em princípios de Stephen R. Covey (falecido em 16 de julho de 2012, em decorrência de uma hemorragia cerebral que sofreu após um acidente de bicicleta).


Este livro é uma obra fundamental que oferece uma abordagem transformadora para liderança pessoal e organizacional. Covey apresenta um modelo de liderança baseado em valores fundamentais e princípios éticos que promovam a eficácia, a confiança e o crescimento sustentável, este modelo se propõe a ser um guia inspirador para líderes em todos os níveis de uma organização.

A liderança é uma arte complexa (não confundir com confuso ou de difícil compreensão), que exige não apenas habilidades técnicas, mas também uma compreensão profunda dos valores e princípios que guiam as ações de um líder.

Covey argumenta que a liderança eficaz começa com uma base sólida de caráter e princípios, e faz uma anamnese de "Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes", que foram concebidos para ajudar os líderes a desenvolverem essa base tão necessária, ao mesmo tempo que servem como um guia prático para alcançar o sucesso pessoal e profissional.

Cada hábito aborda uma área diferente do crescimento pessoal e da liderança, como autodisciplina, planejamento estratégico, priorização, empatia, comunicação eficaz, trabalho em equipe e autoaperfeiçoamento:
1. Ser proativo;
2. Começar com um fim em mente;
3. Colocar primeiro o primeiro;
4. Pensar ganha-ganha;
5. Procurar primeiro entender, depois ser entendido;
6. Criar sinergia;
7. Afiar o machado;

Covey oferece, ao longo do livro, insights profundos e exemplos práticos de como os líderes podem aplicar esses hábitos em suas vidas e organizações para alcançar resultados excepcionais. Ele destaca a importância de cultivar relacionamentos baseados em confiança, comunicação eficaz e colaboração, enfatizando que o verdadeiro sucesso não é apenas medido por resultados financeiros, mas também pela qualidade dos relacionamentos e pelo impacto positivo na comunidade.

A ênfase na liderança servidora é um ponto-chave do livro, por meio dela os líderes colocam as necessidades dos outros em primeiro lugar e trabalham para capacitar suas equipes a alcançarem seu pleno potencial. Covey argumenta que os líderes eficazes são aqueles que se dedicam ao crescimento e ao bem-estar de seus colaboradores, criando um ambiente de trabalho inspirador e motivador.

Além disso, "Liderança Baseada em Princípios" destaca a importância de se viver e liderar com integridade, ética e valores sólidos. Covey ressalta que a liderança eficaz não é apenas sobre alcançar metas e objetivos, mas também sobre fazer a coisa certa, mesmo quando é difícil.

"Liderança Baseada em Princípios" é uma leitura essencial para líderes em todos os níveis de uma organização, pois oferece uma abordagem holística e transformadora para liderança. Com sua combinação de princípios sólidos, insights práticos e exemplos inspiradores, Stephen R. Covey fornece aos líderes as ferramentas necessárias para liderar com integridade (o sentido mais estrito do termo: “inteiro”), compaixão e eficácia em um mundo cada vez mais complexo e desafiador. Este livro não é apenas um guia para alcançar o sucesso, mas também uma chamada para uma liderança que prioriza o bem-estar das pessoas (como alguns chavões corporativos: “gente que cuida de gente”). Com sua abordagem prática e inspiradora, Stephen R. Covey oferece um guia valioso para liderança autêntica, compassiva e baseada em valores, que pode transformar vidas e organizações para melhor.

A coragem para liderar


BROWN, Brené.
A coragem para liderar: trabalho duro, conversas difíceis, corações plenos; tradução Carolina Leocádio. BestSeller, Rio de Janeiro, 2020. 8ª Ed.

Não é um livro tão simples, quanto parece à primeira vista. Na verdade, é simples sim, apenas que na simplicidade da exposição e escrita que reside toda a força e importância desse livro, simplicidade aliada à franqueza e honestidade, honestidade, principalmente, consigo mesma.

A verdade é que até para andar com esse livro nas mãos, à mostra, é preciso coragem. Muita gente “experiente” pega nesse livro nas livrarias, dá uma olhada para os lados, só depois que abre e folheia.

Eu comprei esse livro em 2019 para dar de presente para minha filha, não foi para mim, que isso fique bem claro [esse comportamento por si só já é vulnerabilidade, e a Brené Brown fala disso como ninguém].

Coragem para liderar é, mesmo correndo risco de usar chavão, uma obra inspiradora que mergulha nas águas profundas e complexas da liderança autêntica e compassiva. Brené é uma pesquisadora renomada nas áreas que envolvem vulnerabilidade, coragem e resiliência, sua perspicácia acadêmica e expertise é explorar como os líderes podem cultivar conexões significativas, promover a confiança e estimular a inovação em seus ambientes de atuação.

O livro procura ir além das teorias de liderança convencionais, desafiando os leitores a olharem para dentro de si mesmos, explorar sua própria autenticidade e vulnerabilidade como pré-requisitos essenciais para a liderança eficaz. Ao longo do livro é destacada a importância de os líderes desenvolverem aquilo que Carol Dweck (Mindset: a nova psicologia do sucesso) chama de mentalidade de crescimento, aliada à filosofia de lifelong learning (aprendizagem contínua) e a melhoria pessoal como elementos-chave para o sucesso.

A contribuição mais marcante do livro talvez seja a abordagem compassiva [do latim compassionis, que significa junção de sentimentos] em relação aos desafios e fracassos que os líderes enfrentam. A autora encoraja os líderes a abraçarem a imperfeição e a praticarem a autocompaixão, reconhecendo que todos estão sujeitos a cometer erros e que o verdadeiro crescimento vem da capacidade de se levantar após as quedas (resiliência). Importante aqui é fazer um diálogo dessa habilidade com o conceito de antifrágil de Nassim Taleb.

Além disso, o livro também apresentar insights práticos sobre como os líderes podem construir culturas organizacionais inclusivas, promovendo a diversidade e a equidade em todos os níveis da hierarquia. Destaca a importância de criar espaços seguros onde todos os membros da equipe se sintam valorizados e capacitados a contribuir plenamente com seus talentos e perspectivas únicas.

Brown compartilha, ao longo do livro, uma série de histórias envolventes e inspiradoras de líderes que incorporaram os princípios da coragem e da vulnerabilidade em suas práticas diárias de liderança. Essas narrativas adicionam uma dimensão humana à discussão, ilustrando como os conceitos abstratos podem ser aplicados de maneira tangível em diversos contextos profissionais e pessoais.

Podemos resumir que Coragem para Liderar é uma leitura obrigatória para todos os líderes (sejam neófitos no ofício ou calejados pela experiência) que buscam aprimorar suas habilidades e criar ambientes de trabalho mais positivos e produtivos. Com uma abordagem empática e perspicácia acadêmica, Brené Brown oferece um guia valioso para liderar com coragem, compaixão e autenticidade em um mundo cada vez mais complexo e desafiador.

Hamas é uma organização terrorista?


Entenda por que o Brasil não trata o Hamas como organização terroristaClassificação de organizações terroristas é atribuição da ONU, diz MRE. 

Publicado em 12/10/2023 - 17:26, por Pedro Rafael Vilela - Repórter da Agência Brasil - Brasília.

Os ataques do grupo extremista islâmico Hamas em uma festa rave no último sábado (7), em Israel, deram início a um novo capítulo sangrento no histórico conflito entre esse grupo e o exército israelense. As características do ataque, com centenas de mortes de civis e outras vítimas sendo levadas como reféns, levantou a questão sobre a denominação do Hamas como um grupo terrorista.

Veículos de imprensa de todo o mundo e algumas nações classificam assim o grupo extremista que controla a Faixa de Gaza. Ao lamentar o episódio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelas redes sociais, se referiu ao ataque como terrorista, mas não estendeu tal adjetivo ao Hamas. Assim, o presidente segue a linha adotada pelo governo brasileiro.

O Palácio do Itamaraty emitiu um comunicado, nesta quinta-feira (12), para informar que segue as avaliações do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) na designação dos grupos considerados terroristas. Pela Carta da ONU, o Conselho de Segurança é o órgão encarregado de zelar pela paz internacional.

“O Conselho de Segurança mantém listas de indivíduos e entidades qualificados como terroristas, contra os quais se aplicam sanções. Estão incluídos o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, além de grupos menos conhecidos do grande público”, diz um trecho do comunicado.

Na nota, o Ministério das Relações Exteriores reafirma que, “em aplicação dos princípios das relações internacionais previstos no Artigo 4º da Constituição, o Brasil repudia o terrorismo em todas as suas formas e manifestações”.

Apesar da definição da ONU, países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão, integrantes União Europeia e outras nações classificam o Hamas como uma organização terrorista.

Já maioria dos países-membros da ONU, incluindo países europeus como Noruega e Suíça, além de China, Rússia, nações latino-americanas, como o próprio Brasil, México, Colômbia, seguem a definição atual da ONU que não classifica o Hamas como grupo terrorista. A ideia de uma posição mais neutra também é uma forma de manter os países como mediadores de conflitos, além de ampliarem a capacidade de proteção a seus cidadãos em áreas conflagradas.

“A prática brasileira, consistente com a Carta da ONU, habilita o país a contribuir, juntamente com outros países ou individualmente, para a resolução pacífica dos conflitos e na proteção de cidadãos brasileiros em zonas de conflito – a exemplo do que ocorreu, em 2007, na Conferência de Anápolis, EUA, com relação ao Oriente Médio”, diz ainda a nota do Itamaraty, para reforçar a posição brasileira atual.

Um grupo de deputados de oposição chegou a pedir, essa semana, que o Ministério das Relações Exteriores mude a classificação brasileira sobre o Hamas.

A violência em Israel e na Palestina chegou ao sexto dia nesta quinta, com a continuidade de intensos bombardeios na Faixa de Gaza, onde vivem 2,3 milhões de palestinos. Autoridades locais já contabilizam 1,2 mil mortes e mais de 5 mil feridos. Há pelo menos 180 mil desabrigados.

Em Israel, segundo a emissora pública Kan, o número de mortos havia aumentado para 1,3 mil desde o último sábado, quando começaram os ataques violentos promovidos pelo grupo islâmico Hamas.

Quem é o Hamas
O Hamas, nome que significa, em árabe, Movimento de Resistência Islâmica, é um movimento palestino constituído de uma entidade filantrópica, um braço político e um braço armado. Foi criado em 1987, no contexto da 1ª Intifada, que foi uma das revoltas Palestinas contra a ocupação de Israel.

Em 2006, o Hamas derrotou o Fatah nas eleições legislativas para a Autoridade Nacional Palestina (ANP), conquistando o direito de formar o novo governo. Os dois partidos, no entanto, entraram em conflito. O Hamas expulsou o Fatah da Faixa de Gaza. Em resposta, o Fatah rejeitou o governo de unidade e se manteve à frente da ANP, que passou a ter uma administração política voltada para as áreas da Cisjordânia.

Segundo o cientista político Leonardo Paz, o Hamas não reconhece o Estado de Israel e briga pela independência de um Estado Palestino. “Israel, por sua vez, diz que o território é seu e não tem como oferecer qualquer tipo de soberania a esse Estado palestino porque não haveria nenhuma garantia de segurança de que esse Estado não seria um posto avançado para atacar Israel”, acrescenta.
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O Nakba e a reviravolta na política palestina

O horror israelense já dura 72 anos, mas o ataque à Sheikh Jarrah pode ter saído pela culatra. A Autoridade Palestina se mostrou fraca e impotente. Hamas ganha mais popularidade, apostando na luta unificada e resistência “mais contundente”


O bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, é o lar e o exílio de algumas famílias palestinas desde 1950, quando foram desalojados de suas casas em 1948, em decorrência dos confrontos violentos, conhecido como a Nakba (“catástrofe”). Muitos palestinos, de segunda e terceira geração, nasceram em Sheikh Jarrah. Para eles, Sheikh Jarrah sempre foi e sempre será o seu lar nacional.

A vitória israelense na guerra de 1948 determinou conquistas territoriais importantes e o deslocamento interno e externo de mais de 700 mil palestinos. Parte dos palestinos desalojados foram alocados nos Estados árabes vizinhos como a Jordânia, Síria, Líbano e Egito e outra parte para os territórios da Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Se do lado israelense, 1948 foi o ano de independência do Estado de Israel, do lado palestino, 1948 é a Nakba, um período marcado pela desintegração da sociedade palestina através da dispersão humana, dos massacres e da destruição da vida em sociedade. A Nakba está enraizada na memória e na história palestina como um ponto de ruptura e de mudanças irreversíveis.

O momento, definido pelos palestinos como catástrofe, paradoxalmente, marca o nascimento do lar nacional do povo judeu, o Estado de Israel, após uma década de perseguições e de extermínios da comunidade judaica da Europa promovido pelo nazismo. A criação do Estado de Israel representa, na memória coletiva judaica, o renascimento e a ressurreição do povo judeu.

Embora a sociedade palestina seja detentora de diversas identidades étnicas, culturais, políticas e religiosas, desde antes de 1948, a Nakba unificou a memória coletiva e a identidade nacional palestina. A Nakba é frequentemente invocada durante a eclosão de novos conflitos e de ciclos de violência nos territórios ocupados, em Israel e nos campos de refugiados. Isso ocorre porque muitos conflitos registrados na história palestina, como o Setembro Negro, na Jordânia, em 1971; os massacres nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano, e as Intifadas (de 1987 e 2000) nos territórios ocupados, não teriam acontecido se não fossem precedidos pela Nakba.

De um modo geral, a Nakba representa um trauma constante, uma injustiça irreparável. A Nakba não é apenas uma lembrança do passado, a Nakba está presente nas condições de vida de todos os palestinos dos territórios ocupados, em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Faixa de Gaza; nos campos de refugiados e na diáspora. A Nakba é traduzida pelo cerceamento da locomoção dos palestinos, nos inúmeros check in points, na precariedade dos campos de refugiados no mundo árabe e na legislação discriminatória em Israel. A Lei de Nacionalidade, aprovada pelo parlamento israelense em julho de 2018, estabeleceu que o exercício do direito de autodeterminação em Israel é exclusivo do povo judeu. Essa nova lei retirou o idioma árabe da categoria de língua cooficial do Estado de Israel.


Os palestinos vivem, até hoje, o seu exílio e o seu deslocamento permanente.

Para os palestinos, os lugares do período pré-Nakba não são apenas lugares de memória, mas, acima de tudo, um símbolo de tudo que foi perdido. Muitos refugiados palestinos ainda guardam as chaves de suas propriedades perdidas durante a Nakba. Para os palestinos, nascidos nos campos de refugiados e no exílio, a Palestina se resume à memória de seus pais e avós que lutam para que esta lembrança não seja esquecida e a Palestina não desapareça. A Palestina não é apenas um território geográfico, mas a memória dos palestinos exilados.

O caso de Sheikh Jarrah, particularmente, tornou-se dramático porque no mesmo mês em que os palestinos estavam sendo ameaçados de perderem suas casas para alguns israelenses que reclamavam na justiça o direito de posse de propriedade, perdida em 1948, aconteciam duas importantes celebrações do calendário religioso judaico e islâmico, o Iyyar e o Ramadã.

No início desse ano de 2021, a Suprema Corte israelense decidiu a favor de alguns colonos reaverem suas propriedades em Sheikh Jarrah, e outorgou até o dia 2 de maio para que as famílias palestinas de Sheikh Jarrah negociassem um acordo com esses colonos israelenses sobre a propriedade de suas casas. Diante do impasse, o Poder Judiciário israelense propôs um acordo, requereu que as famílias palestinas despejadas pagassem aluguel aos colonos pelas residências até que o título de propriedade fosse transferido aos cidadãos israelenses e não exatamente aos herdeiros, desalojados em 1948. O que é ilegal, de acordo com a lei internacional.

Ainda, no dia 10 de maio, aconteceu a controversa marcha anual do “Dia de Jerusalém”, que celebra a “reunificação” da cidade de Jerusalém, em decorrência da vitória israelense na guerra de Junho de 1967. Nessa manifestação, grupos nacionalistas israelenses costumam percorrerem os territórios palestinos, localizados na cidade velha de Jerusalém. Foi nesse mesmo dia que muitos muçulmanos palestinos celebravam o fim do mês sagrado do Ramadã, o Eid al-Fitr, no Haram al-Sharif, nos arredores da mesquita de Al-Aqsa, conhecido pelos judeus como o Monte do Templo.

Em meio às celebrações religiosas do calendário judaico e islâmico, foi deflagrado uma guerra entre jovens palestinos e israelenses no bairro de Sheikh Jarrah. Os ataques à mesquita de Al-Aqsa, durante as celebrações do fim do mês sagrado do Ramadã, provocaram a fúria dos grupos de resistência palestina. Os foguetes do Hamas, dessa vez, alcançaram cidades importantes de Israel, chegando a atingir os arredores de Jerusalém e de Tel Aviv, provocando medo entre a população israelense, além de pôr em cheque o sistema de defesa aérea, o Iron Dome.

A decisão de retaliação aos ataques do Hamas em Israel deu projeção ao premiê israelense, Benjamin Netanyahu, que, até então, vivia um momento político conturbado. Netanyahu fracassou na formação de um governo em Israel, além de, atualmente, enfrentar alguns processos judiciais por corrupção, fraude e abuso de poder. Do lado palestino, o presidente da autoridade palestina, Mahmoud Abbas, cada vez mais impotente e enfraquecido e que se perpetua no poder há mais de 12 anos, adiou mais uma vez as eleições palestinas, diante da nova crise instalada.

O novo ciclo de violência, deflagrado em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza, fortaleceram os dois extremos: o ministro Benjamin Netanyahu e o grupo Hamas. Os projetos políticos de ambos se sobrepõem à existência e à narrativa do outro.

Benjamin Netanyahu nunca reconheceu o Estado palestino. Ao longo de sua gestão, em Israel, Netanyahu anexou territórios palestinos por intermédio de construção de assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Em dezembro de 2017, em apoio ao atual premiê israelense, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a transferência da embaixada dos Estados Unidos, da cidade de Tel Aviv para Jerusalém, de modo a reconhecer oficialmente Jerusalém como a capital indivisível do Estado de Israel e, assim, inviabilizar o projeto de tornar Jerusalém Oriental a capital de um futuro Estado palestino. O gesto do governo americano influenciou outros Estados, como a Sérvia e a Guatemala, a transferirem suas embaixadas.

O grupo Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), por outra parte, é cada vez mais popular entre os palestinos, sobretudo na Faixa de Gaza. A gradual popularidade do Hamas ocorre basicamente por duas razões. O grupo islamita mantém inúmeros programas sociais, culturais e religiosos, capazes de aproximar os palestinos, sobretudo os mais pobres, de sua ideologia. Além disso, o fracasso dos Acordos de Paz de Oslo (1993), combinado com a progressiva brutalidade da ocupação israelense provocou, ao longo do tempo, o ceticismo de muitos palestinos pelas iniciativas de diálogos com o governo de Israel.

A permanência da Nakba, refletida nos contínuos ataques em Gaza e nos últimos acontecimentos em Sheikh Jarrah, sequestraram o movimento nacional e secular palestino. O Hamas passou a ser reconhecido como o “campeão” da resistência palestina, ao enfrentar arduamente o inimigo israelense. Diante de uma autoridade palestina extremamente impopular e enfraquecida, o Hamas passou a controlar a narrativa palestina e a garantir a sua popularidade frente ao partido al-Fatah, de Mahmoud Abbas, e, do mesmo modo, entre as comunidades da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. Muitos estudiosos, como o professor de Ciências Políticas da Universidade de Bar Ilan, Ariel Zellman, acredita, inclusive, que o cancelamento das eleições na palestina se deveu ao receio da autoridade palestina pelas chances reais de vitória do Hamas.

Além da sobreposição de narrativas, os últimos confrontos comprovaram que o Hamas está belicamente mais forte. Os foguetes lançados contra Israel são mais potentes e sofisticados. Mesmo assim, os 11 dias de pesados bombardeios israelenses deixou 232 palestinos mortos, entre as vítimas fatais haviam 65 crianças, 39 mulheres e 17 idosos. O número de vítimas palestinas escancara publicamente a força militar desproporcional de Israel frente ao seu adversário palestino.


O fortalecimento de dois adversários que não se reconhecem mutuamente é especialmente trágico, pois tende a sinalizar para mais confrontos violentos. Os eventos em Sheikh Jarrah e na Faixa de Gaza refletem a fragmentação da sociedade palestina desde a Nakba e reafirma a face cruel e desumana de Israel, representada pelo atual governo. Além disso, os interesses políticos dos governos israelense e palestino abafam as inúmeras tentativas de aproximação e de diálogo entre as sociedades civis israelense e palestina. A ocupação da Palestina, desde a Nakba, impediu e ainda impede o encontro de muitos palestinos e israelenses que se recusam a ser inimigos. Contudo, apesar das dificuldades, durante os eventos violentos em Sheikh Jarrah houve manifestações conjuntas em 30 cidades israelenses. “A luta é política, entre os que querem a ocupação e a supremacia e aqueles que desejam a paz e a igualdade”, afirmou publicamente o deputado palestino Ayman Odeh, em uma grande manifestação na cidade de Tel Aviv. A conciliação acontecerá entre palestinos e israelenses quando os palestinos passarem a viver com dignidade. Enquanto houver Nakba a paz estará longe de ser alcançada...

Luciana Garcia de Oliveira é mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (DLO-USP) e uma das responsáveis pela tradução da coletânea Escritos Judaicos, de Hannah Arendt, publicado pelo selo Amarilys (2016).

A ideia fracassou

Este poema acaba de chegar de Gaza, uma mensagem enviada para o mundo em meio à barbárie. Bassman Addirawi é escritor e poeta da cidade de Gaza, nascido em 1988. É também um dos 17 jovens poetas do livro Gaza, terra da poesia (org. Muhammad Taysir), em que assina os poemas: “Filhos desobedientes” (أبناء عاقون) e “O estandarte da ira” (راية الغيظ).

O poema árabe foi publicado originalmente no site da revista Arablit Quarterly e a tradução do árabe ao português é de Beatriz Gemignani.      

Todo nosso apoio ao povo palestino.


por Bassman Addirawi

Fecho com Deus.
Também meu coração está decepcionado.
Se eu pudesse agora me sentava com Ele,
fumaríamos um cigarro e daria tapinhas no Seu ombro,
choraríamos juntos até cair uma chuvinha fina
que lavasse Gaza dessa nuvem de fumaça, que não é do céu,
e estancasse o estrondo que mata outra criança em Gaza
então meu sangue pararia de fluir das mãos e da boca do mundo,
a vida sopraria no peito de Gaza e uma nova ressurreição se daria
sem feridas, sem gemidos.
Mas o gemido, meu Deus, não morre. 
Escuto Deus soluçar: “Um bilhão de calados, um milhão de assassinos”.
O choro se adensa.
Apesar do meu jeito, servo desobediente, eu rezo
e lembro o rosto de todas as famílias e amigos,
lembro as ruas, as cidades, o rosto do mar,
o rosto de todos que passaram por mim em Gaza.
Rezo e escuto a voz de Deus em cada explosão e em cada corpo decepado que grita:
A ideia fracassou.
A ideia fracassou.

O pentecostalismo sionista “made in USA”

O pentecostalismo sionista “made in USA” e o apoio às ilegalidades de Israel
"Derrotar o imperialismo em todas as suas formas é uma exigência da humanidade pelo respeito ao direito internacional e a pertença inalienável dos povos originários ao seu território ancestral", escreve Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini), editor dos canais do Estratégia & Análise e militante socialista libertário de origem árabe-brasileiro, em artigo originalmente publicado por Monitor do Oriente Médio, 23-11-2020.

* * *

Existe uma conta de chegada na política doméstica dos EUA que se dá na vitória ou derrota em alguns colégios eleitorais, a partir do chamado “cinturão bíblico”. Quase sempre a pregação moral, a mesma que alinha votos à direita do sistema político da Superpotência, aponta para a chamada “direita cristã”. Como cientista político de formação, considero mais preciso denominar “direita pentecostal” e, no tema desse artigo, mais especificamente “sionismo pentecostal”.

Não é apropriado associar diretamente um sistema de crenças de tipo religioso com um determinado posicionamento político. Isso seria algo próximo da apostasia e como tal é crime, combato esse tipo de afirmação com toda a veemência. Tampouco é correto relacionar toda a pregação protestante nos Estados Unidos com posições mais reacionárias. Durante os anos da grande industrialização, do início do sindicalismo massivo na década de 1880 até a consolidação do New Deal na segunda metade dos anos 1930, não foram poucos os pastores, ministros e ministras que se alinharam junto à classe trabalhadora e lutaram ombro a ombro por melhores condições de vida e direitos sociais. Talvez o exemplo mais evidente seja a luta dos mineiros do carvão e suas famílias, combinando um sindicalismo classista de resistência e a congregação religiosa como abrigo e guarida para uma vida, ou mesmo uma sobrevivência mais coletiva, e muito solidária.

O exemplo ganha contornos épicos com a Congregação das Igrejas Batistas do Sul e o papel de destaque das lideranças religiosas afro-americanas, a começar pelo próprio Dr. Martin Luther King Jr, à frente da Conferência de Lideranças Cristãs do Sul (SCLC). Ele, junto ao islamizado Malcolm X, são as maiores referências de intelectuais e pregadores afro-americanos dos EUA no século XX. Infelizmente, os supremacistas brancos profanam a cruz do profeta Issa (Jesus Cristo, portanto, o crucificado) e se utilizam de simbologia “cristã” para pregar justamente o oposto do realizado pelo Messias, quando enfrentou o imperialismo de seu tempo e de peito aberto. O mau exemplo é abundante.

Fundado no ano de 2015, o museu dos “cristãos sionistas” – Friends of Zion foi fruto de uma aliança entre o republicano Mike David Evans e a elite dirigente do Estado de Israel, incluindo Menahem Begin (o próprio), o terrorista da Irgun que virou primeiro ministro do Estado Colonial. Evans foi um dos proeminentes “assessores pentecostais” do derrotado Donald Trump. Mas não para por aí.


A poderosa rede International Fellowship of Christians and Jews envia um volume considerável de recursos para Israel, assim como promove imigração de famílias judaicas, sempre contrapondo o permanente desequilíbrio demográfico. Nas partes mais importantes do portal, não se observa nada da tradição humanista da esquerda judaica (não sionista), tampouco abordam o problema da extrema direita que sempre flerta com o nazi-fascismo. Outra “curiosa” coincidência.

Segundo o canal Vice, o alinhamento das congregações do chamado “cinturão bíblico” com Israel é de hegemonia absoluta, o que inclui um volume importante de recursos destinados aos assentamentos na Cisjordânia. Ou seja, em nome de algum tipo de leitura fundamentalista do Velho Testamento, empresas cujo negócio é arrecadar recursos em espécie de pessoas necessitadas, destinam parte desta verba para construções que são ilegais, perante o direito internacional, e vão de encontro a várias resoluções da ONU, a começar pela Resolução 242 que, em “tese”, obrigaria Tel Aviv a devolver os Territórios Ocupados na Naksa, em 1967. Alguém viu uma “expedição de capacetes azuis” desembarcando no litoral da Palestina Ocupada em 1948? Alguém foi informado de um “bloqueio econômico” de vulto ou uma “ação conjunta” sequer parecida com as condenações da África do Sul no período do Apartheid? Suponho que não, pois isso jamais existiu.


E tem mais. John Hagee é um pastor que coordena excursões para Israel e apoia os assentamentos ilegais na Cisjordânia. Também é líder da congregação protestante de teleevangelistas e ganhador de uma medalha dos “Friends of Zion” - inclusive afirma, na seção de “sistema de crenças”, um compromisso com Israel. A razão alegada é milenarista, como afirmado abaixo através de ampla pesquisa. Hagee diz que: “Cremos na promessa de Gênesis 12: 3 a respeito do povo judeu e da nação de Israel. Acreditamos que os cristãos devem abençoar e confortar Israel e o povo judeu. Os crentes têm um mandato bíblico para combater o anti-semitismo e falar em defesa de Israel e dos escolhidos.”


Suponho que para tais cidadãos estadunidenses, essa interpretação do Velho Testamento tenha mais “validade” do que as 850 mil pessoas que foram deportadas, expulsas de suas terras onde residem a tanto ou mais tempo do que a frase no Gênesis. Além da Nakba, como se fosse pouco, os cerca de 13% de árabes-palestinos de fé cristã, resultando em distintas comunidades simplesmente seriam simplesmente “irrelevantes”.

Curioso que um pouco mais abaixo do mesmo texto, afirma-se em Genesis 12:6: “E passou Abrão por aquela terra até ao lugar de Siquém, até ao carvalho de Moré; e estavam então os cananeus na terra.” Não entro no mérito dos sistemas de crenças e valores religiosos, mas tomando em conta o fenômeno histórico, o povo palestino sempre esteve lá e combateu o mesmo imperialismo. Enfim, nada justifica, a não ser que a propaganda milenarista ultrapasse o direito internacional. Daí para uma teoria “globalista” ou outras extravagâncias ao estilo de Steve Bannon e Alexander Dugin não falta nada.


É importante observar esta interpretação do historiador Walker Robins:
“Os Batistas do Sul viam amplamente a Palestina com olhos orientalistas, associando o movimento sionista à civilização ocidental, modernidade e progresso contra os árabes da Palestina, que eles viam como incivilizados, pré-modernos e atrasados. Essa visão era compartilhada por viajantes batistas, por missionários, por pré-milenaristas e por seus oponentes.”
Infelizmente, nada disso é “novidade” e é uma evidência na relação para-estatal de diplomacia pública, que realiza uma aliança direta através de enlaces do Ministério de Assuntos Estratégicos de Israel e as maiores congregações do cinturão bíblico. O jornal israelense Haaretz fez uma boa investigação a respeito, assim como a Al Jazeera, em inglês, corretamente afirma que:
“Como resultado de tais crenças, os sionistas cristãos apoiam o empreendimento de colonatos ilegais de Israel na Cisjordânia e, de facto, qualquer outra política - israelense, americana ou outra - que assegure a soberania judaica israelense sobre a terra desde o Mar Mediterrâneo até ao rio Jordão e mesmo mais além, até à margem oriental da Jordânia”. E termina reiterando que “Os sionistas cristãos geralmente ignoram as violações dos direitos palestinos por Israel, mesmo dos palestinos cristãos, ou as veem como um meio necessário para um fim.” (no mesmo link acima).
Considerando que 80% dos chamados evangélicos dos EUA (de um total de 70 milhões), com especial ênfase os pentecostais teleevangelistas, apoiam incondicionalmente o Estado de Israel, ignoram o Apartheid Colonial e a invasão de territórios soberanos dos países vizinhos, para além do lobby do AIPAC, existe uma demanda doméstica bem à direita, com crenças milenaristas e motivações imperiais para seu aliado estratégico.


Não me espanta. As Treze Colônias, quando unificadas, formadas por convencionais escravagistas, autoproclamaram o Destino Manifesto. Assim, romperam seguidos acordos e tratados com nações indígenas, forçaram duas guerras contra o México e terminaram por roubar metade do território do país vizinho. Era de se supor que a hegemonia da direita milenarista defenda quem faça no Oriente Médio o que os Estados Unidos fizeram no continente americano: expansionismo territorial, genocídio indígena, apartheid ou segregação e conquistas imperialistas como em Porto Rico, Filipinas e Havaí.

Derrotar o imperialismo em todas as suas formas é uma exigência da humanidade pelo respeito ao direito internacional e a pertença inalienável dos povos originários ao seu território ancestral.


Israel: 70 anos de brutalidade

Desde a criação do Estado hebreu, palestinos são expulsos de suas casas, presos, torturados, mortos e submetidos a violência econômica grosseira. É a “nakba”. Poderia ser a “solução final” de Hitler.


Por Greg Shupak, no Jacobin | Tradução: Mauro Lopes

Em 14 de maio de 1948, setenta anos atrás, Israel lançou sua “declaração de independência”. Desde então, todo dia 15 de maio tem sido o Dia Nakba quando os palestinos marcam a limpeza étnica sofrida por seu povo depois da criação de Israel. [Nakba é uma palavra árabe que significa “desastre” ou “catástrofe”, termo similar a shoá em hebraico, que os judeus utilizam para designar o massacre nazista – nota OP]. Este Dia Nakba foi marcado pela Grande Marcha de Retorno, uma grande mobilização em massa até a cerca que Israel ergueu para separar Gaza e Israel, para manifestar seu desejo de passar pela barreira. Até o momento, Israel já matou pelo menos 52 manifestantes palestinos, no que a Anistia Internacional chamou de “uma violação repugnante da lei internacional”, envolvendo “o que parecem ser assassinatos intencionais, que constituem crimes de guerra”.

Como outros estados coloniais, Israel pretende asfixiar a vida social das populações dos territórios ocupados que procura dominar. Esse imperativo é particularmente urgente no caso de Israel, onde as populações judias e não-judias são de tamanho equivalente e a terra em questão é relativamente pequena. A negação discriminatória de direitos estende-se aos palestinos em outros países -são cidadãos de segunda classe em Israel, sob ocupação, na diáspora ou em campos de refugiados. Todos são impedidos de retornar às suas casas através do uso da violência e com a ajuda decisiva dos EUA.

A mensagem inconfundível para os palestinos de todas as gerações, desde antes da Nakba até a Grande Marcha de Retorno, é que a menor resistência ao etnoestado erigido em sua terra natal será combatido com prisões e mortes.

Anatomia da repressão
A violência israelense permeia todos os aspectos da vida dos palestinos, com estratégias de controle que assumiram uma variedade de formas ao longo do tempo. Para criar o Estado em 1948, as forças sionistas expulsaram 750.000 palestinos de suas casas. No processo, realizaram cerca de dez massacres em grande escala, cada um com pelo menos cinquenta vítimas, juntamente com cerca de cem massacres menores. As forças dos paramilitares israelenses mataram palestinos em quase todas as suas aldeias, despejando repetidamente os corpos das vítimas em covas, antes da oficialização do Estado de Israel. Em várias ocasiões, milícias sionistas mataram crianças e estupraram mulheres palestinas.

Atrocidades semelhantes continuaram nos primeiros anos do Estado de Israel. Em 1953, as forças israelenses massacraram 69 aldeões palestinos em Qibya, depois de alegarem “infiltração” do território israelense por refugiados palestinos. Durante o conflito de Suez, três anos depois, eles mataram 48 trabalhadores palestinos em Kafr Kassim; 275 civis palestinos em Khan Yunis e num campo de refugiados próximo; em seguida, mais 111 palestinos no campo de refugiados de Rafah.

Depois de 1967, com o estado de Israel consolidado, o governo começou a perseguir o que Tariq Dana e Ali Jarbawi chamam de “sonho de uma ‘Grande Israel’ com o máximo de terra e o mínimo de árabes”. Mais de 350.000 palestinos foram expulsos de suas casas, enquanto Israel ocupava a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental (assim como as Colinas de Golan da Síria e o Sinai do Egito). Quase 600.000 colonos adentraram ilegalmente nos territórios ocupados com o apoio do Estado. E os massacres de palestinos em Israel continuaram desde então: no verão de 2014, Israel matou 2.251 palestinos – incluindo 1.462 civis e 556 crianças – durante a fúria assassina chamada Operação Margem Protetora. Como observou o estudioso canadense Nahla Abdo, a violência dos palestinos deve ser vista no contexto dessa “relação assimétrica” entre os dois lados.

Enquanto isso, aos palestinos nos territórios ocupados é sistematicamente negado o devido a processo legal: mantidos sem julgamento em detenções administrativas ou submetidos a processos militares e rotineiramente torturados. Tal tratamento estende-se às crianças palestinas, sujeitas a práticas que, nas palavras da UNICEF, “resultam em tratamento ou punição cruel, desumano ou degradante, de acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança e a Convenção contra a Tortura”, incluindo ameaças de “morte, violência física, confinamento solitário e agressão sexual, contra si mesmos ou um membro da família”. Atualmente, existem mais de 6.000 presos políticos palestinos em prisões israelenses.

Quando os palestinos não estão sendo algemados, torturados, bombardeados ou abatidos, eles vivem sob a ameaça contínua de tais ações. Depois da guerra de 1967, Israel estabeleceu um regime para examinar tudo, desde oficinas palestinas que fabricam móveis, sabão, tecidos, produtos de azeitonas e doces, até listar quantos televisores, refrigeradores, fogões a gás, pomares, animais e tratores os palestinos possuem, muitas vezes censurando livros, romances, filmes, jornais e panfletos políticos.

Expropriação econômica
A violência econômica – a expropriação da riqueza palestina e a destruição da capacidade dos palestinos de se sustentarem – marcou o tratamento de Israel aos palestinos desde o início do Estado israelense. Nos anos imediatamente posteriores a 1948, Israel adotou políticas destinadas a confiscar e controlar a terra palestina, destacadamente com a Lei da Propriedade Desocupada de 1950, pela qual Israel garantiu para si 90% da terra, designando como “desocupada” toda terra que os palestinos tivessem sido obrigados a abandoar devido repartição conduzida pelas Nações Unidas em 1947.

Os assentamentos israelenses são construídos em áreas ricas em recursos, projetados para explorar a água palestina e a terra arável – uma política que aumenta os recursos de Israel e priva os palestinos de desenvolvimento econômico. Após a ocupação de 1967, Israel construiu um regime econômico destinado a incorporar a economia palestina à economia de Israel, tornando seu governo colonial um empreendimento barato e, ao mesmo tempo, frustrando o desenvolvimento econômico palestino. Entre as medidas adotadas estavam o fechamento de instituições financeiras e monetárias árabes, a imposição da moeda israelense, a proibição de exportações e importações, exceto através de fronteiras controladas por Israel, a imposição de altos impostos (alfândega, imposto de renda, IVA), quase nenhum investimento em infraestrutura nas áreas palestinas, licenciamento restrito para atividades industriais e controle sobre comunicações, recursos de eletricidade, água e recursos naturais. As políticas israelenses transformaram o mercado palestino num mercado cativo, que se tornou um conveniente lixão para produtos industriais israelenses de má qualidade que não podiam competir com os fabricantes dos países industrializados da Europa e EUA. Isso não só trouxe grande lucro para a economia israelense, mas igualmente formou uma nova classe de capitalistas israelenses, cujas principais atividades industriais foram projetadas para os territórios ocupados.

Assim, as políticas israelenses provocaram uma deterioração da base econômica palestina e criaram uma dependência estrutural à economia de Israel, na medida em que o Estado ocupante controla os principais pontos nodais da atividade econômica, como fronteiras, terras, recursos naturais, comércio, movimentação de mão-de-obra, gestão fiscal e zoneamento industrial. Por mais de uma década, além disso, um brutal cerco militar combinado entre EUA e Israel e o Egito dizimou Gaza, a ponto de em breve a região ser inabitável. Militares e colonos de Israel arrancaram centenas de milhares de oliveiras palestinas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e nos primeiros anos do milênio o exército israelense arrasou quatro milhões de metros quadrados de terra cultivada.

A Grande Marcha do Retorno

Desde o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março, Israel matou dezenas de palestinos e feriu quase 4.000. Nenhum israelenses foi morto ou ferido. O poder da Marcha é que ela chama a atenção para a ilegitimidade de manter artificialmente uma maioria demográfica judaica na Palestina histórica. Enquanto massas de palestinos aproximam-se da cerca entre Gaza e Israel, os manifestantes personificam a “ameaça” de palestinos retornando a seus lares e vivendo em uma Palestina-Israel que não pode ter como premissa manter os palestinos fora e perpetuamente apátridas -como refugiados ou como uma minoria oprimida dentro de Israel.

Os manifestantes estão, em suma, tentando afirmar, pelo menos temporária e simbolicamente, seu direito à sua terra, identidade, nacionalidade, liberdade -o que as negociações com Israel e seu patrono norte-americano não produziram até hoje.

Greg Shupak é professor de mídias na Universidade de Guelph, Canadá. É autor de “A história equivocada: Palestina, Israel e a Media (OR Books)

Fontehttps://outraspalavras.net/sem-categoria/israel-70-anos-de-brutalidade/ - Publicado originalmente em 16/05/2018.