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Morte e Vida Severina

"...E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida)..."


Natal pobre ou Natal dos pobres?


Dezembro, 14, Santo Antônio dos Lopes, na região do Médio Mearim, no interior do Maranhão, estado rico, estado pobre, desigualdade social em alta e distribuição de renda em baixa, feudalismo puro, nos moldes medievais, ainda que haja alguns avanços, ainda assim, tem muito o que melhorar. Tive que atravessar esta pequena cidade para ir ao banco, poderia ter ido à pé, mas o sol estava inclemente e o calor insuportável, por isso optei por ir de carro, ainda que fosse uma curta distância, trafeguei numa velocidade incrivelmente baixa, o trânsito é tranquilo, mas a quantidade de motos, com motoqueiros e motoqueiras, alguns com pouco mais de 10 anos, que não têm o hábito de usar capacete e desconhecem as leis mais básicas do Código de Trânsito, como é o caso de mão e contramão, exige uma maior atenção para alguém, que como eu, vem do trânsito agitado de uma capital, e que por isso mesmo, está acostumado com motoqueiros intrépidos e afoitos, porém que têm muito mais sagacidade e habilidade na condução de suas irrequietas máquinas, pude fazer uma análise pormenorizada de toda a cidade. A pólis é diminuta, tem no máximo 14.000 habitantes (muito embora especulem que a mesma terá 200.000 habitantes em 2020), sem muitos atrativos, exceto por um rapaz que passa o dia todo tocando violão, sem colocar uma nota sequer, a seriedade com que canta, acaba encantando a todos os que passam, não sei se é louco, sei apenas que ao vê-lo com tanta serenidade eu questiono o conceito de lucidez, na pequena praça do centro, a cidade tem no máximo três praças, uma árvore de Natal lembra a data que se aproxima, se não fosse por ela, nem me daria conta que estamos em dezembro, a árvore só é visível à noite, por conta das luzes, durante o dia, sequer notamos a sua presença. O comércio não está agitado, não há correrias, as pessoas não estão entregues à gastanças e mais gastanças, nem mesmo na sexta-feira às vésperas da semana natalina há correrias, ainda que seja o dia oficial da feira da cidade, tudo transcorre normalmente.

Dezembro, 17, Recife, capital de Pernambuco. Depois de quase 20 dias longe de casa, fui assistir com a minha filha, Jessicah, ao filme Gato de botas, numa sala de cinema dentro de um shopping no centro da cidade, ao descer do ônibus próximo ao local, já tinha me arrependido de ter ido para aquele shopping específico, mal consegui andar em sua direção, as ruas estavam apinhadas de pessoas com sacolas, embrulhos, presentes, crianças por todos os lados, adultos tentando controlar em vão os olhos ávidos e insaciáveis das crianças, foi uma tormenta até chegar à bilheteria do cinema, após comprar as entradas para cerca de 45 minutos depois, fomos à praça da alimentação almoçar, e foi mais frustrante ainda, ter que ficar com um prato numa bandeja, procurando uma mesa para sentar e comer. Não posso dizer que foi um almoço tranquilo. Após a sessão, que foi extremamente relaxante e me fez esquecer o “mundo lá fora”, tive um choque ao reentrar naquele mundo, as lojas estavam apinhadas de gente, desde lojas de roupas, perfumes, variedades, calçados, presentes, etc, parece que até mesmo as farmácias estavam concorridas naquele dia. O barulho, a aparência extática das pessoas, todas parecendo aqueles zumbis que vemos nos filmes, dirigindo-se ao templo do deus Mamon, movidas pela ganância cada vez maior do ter e o aparente espírito natalino, que transforma temporariamente algumas pessoas, me fizeram sentir saudades da pacata e humilde Santo Antônio dos Lopes. Creio que desde que Charles Dickens imortalizou o Ebenezer Scrooge, no seu encantador Christmas Carol, que confundimos a sensação advinda do fato de termos um pouco mais de dinheiro neste período, por intermédio do 13º salário, e o fato de ganharmos presentes, que traz um efeito psicológico benéfico de alguma forma, com alguma influência angelical ou espiritual. 

Este contraste entre estas duas realidades me leva a refletir sobre o significado do Natal, ou a perda de significado do mesmo, porém, por outro lado, também me ajuda a constatar que este fenômeno, consumo e endividamento exacerbado, que ocorre durante este período não é característica apenas desta época do ano, mas, apenas que é exponenciado nesta ocasião por conta da mídia e da suposta sensação de um poder aquisitivo maior, proporcionada pelo recebimento do 13º salário. 

Ainda que distantes, as duas cidades estão próximas, já que a mídia tem o poder de influenciar diferentes culturas ao mesmo tempo, mas apresentam padrões de consumo tão díspares. Como a pequena Santo Antônio não tem shopping e as redes de televisão que são exibidas por lá, em sua maioria não transmitem comerciais nos intervalos, já que o sinal, na maior parte, chega por meio de parabólicas, as pessoas se preocupam mais com alimentos e coisas essenciais do que com os supérfluos e futilidades que estamos acostumados numa cidade grande como Recife, o impacto do apelo da mídia é menor e muitas das pessoas da cidade sequer nunca viram um shopping, daí não entenderem o quanto de supérfluo é comprado numa capital como Recife. 

Se tivesse que fazer uma escolha definitiva, eu faria sem pestanejar, entre morar numa cidade pequena, um pouco isolada desta vida fútil e vã da capital, ou morar numa metrópole como Recife, que sufoca, massifica e oferece cada vez menos, eu escolheria a cidade pequena, escolheria a tranquilidade, a paz e escolheria viver!

No meu sonho de Natal!


Eu ainda tenho um sonho! Diferentemente do sonho do pastor e profeta Martin Luther King que sonhava com um novo dia, um novo mundo, meu sonho é mais singelo, meu sonho é um sonho de Natal, e neste sonho, não há os presentes desejados, e nunca alcançados, da infância: revólver de espoleta, trem elétrico, bicicleta de cross, Atari, etc, no meu sonho há apenas um desejo: que o Natal seja diferente do que é hoje. Não estou sendo nostálgico e pregando que os “Natais” passados teriam sido melhores do que os atuais, não é isso, estou dizendo que sonho com um Natal diferente de todos os que vivi, ou que existiram um dia.

No meu sonho de Natal as discussões “teológicas” sobre qual dia Jesus de fato nasceu é coisa de somenos importância, não importará se nasceu em dezembro, o que é pouco provável, ou em janeiro ou ainda em fevereiro, o que importará de fato, é que o dia seja reservado para que o Deus que se fez carne seja adorado. No meu sonho de Natal, nenhuma igreja deixará de guardar este dia, nenhum cristão, seja conservador ou não, deixará de fazer uma pausa em meio à vida, com suas nuances da correria da pós-modernidade, para refletir sobre o que o dia significa, nenhuma igreja fará com que o seu credo e suas convicções teológicas sejam maiores do que relembrar que Deus se fez carne!

No meu sonho de Natal, as ruas não estão tomadas de homens de roupas vermelhas e gorros vermelhos com barbas, postiças ou não, ostentando barrigas enormes, postiças ou não, vendendo sonhos, todos postiços, para crianças que não podem pagar por eles. As ruas estarão tomadas por pessoas comuns que deixarão seus interesses próprios, nem que seja por um único dia, e sairão em busca de outras pessoas, tão humanas quanto elas, que não tiveram as mesmas oportunidades, para dividir um pouco do que receberam da vida, como analogia pelo que o Criador fez ao encarnar Seu filho para que sofresse as nossas dores. No meu sonho de Natal não apenas neste dia as pessoas serão solidárias e tolerantes, no meu sonho de Natal, o verdadeiro espírito do Natal tomará o ano inteiro, as pessoas viverão os 365, ou 366, dias do ano como se fossem cada um o Dia de Natal!

No meu sonho de Natal, não há pinheiros verdes, com simulacros de neve, que não cai aqui no nordeste, ostentando as salas de estar dos lares, mas sim mandacurus verdes e cheios de água. Ainda que ressaltem as dificuldades pelas quais passa o povo forte e sofrido do sertão nordestino, ainda assim é um libelo de esperança, tal e qual o salmista, “... restaura-nos, assim como enches o leito dos ribeiros no deserto...” (Salmo 126, NVI) o povo nordestino pode cantar cheio de esperança: “... mandacaru quando fulora” na seca, é o sinal que a chuva chega no sertão...”, acompanhando a letra de uma canção do repertório da região. No meu sonho de Natal, não há ilusões, pinheiros verdes e neve, ainda que belos de serem vistos, são apenas figuras ilusórias que não trazem esperança, mas sim frustração. No meu sonho de Natal as pessoas não ouvirão as músicas melancólicas natalinas, algumas produzidas apenas para serem mote comercial, ouvirão sim as canções que foram cantadas pelos anjos no dia que Deus se fez carne, só que ao invés de anjos cantando, teremos um coro de maltrapilhos, desempregados, moradores de rua, prostitutas, bêbados, viciados e tantos outros desajustados, que conscientes de suas limitações, encontram na encarnação um motivo para viverem, para viverem uma vida, ainda que medíocre e aquém do padrão de Deus, ainda assim uma vida de esperança, esperança que tudo pode mudar, que tudo vai mudar um dia, pois o Deus que se fez carne um dia prometeu: “... estou fazendo novas todas as coisas...” (Apoc. 21:5 NVI).

No meu sonho de Natal não há duendes verdes que arrumam o trenó de Papai Noel e separam os presentes para serem entregues na noite de Natal. No meu sonho de Natal há anjos, que passam o ano inteiro sendo enviados por Deus para guardarem os Seus e os protegerem de todo o mal, que tocam os corações sofridos e as feridas abertas com um bálsamo de amor e compaixão. No meu sonho de Natal estes anjos, alguns tão humanos quanto nós, dividem a sua alegria com crianças em orfanatos, bebês em hospitais para portadores de HIV ou câncer, idosos em asilos, enfermos em leitos de hospital e encarcerados na prisão, e aceitam levar consigo um pouco das dores destes para que o peso do fardo não seja tão grande assim.

No meu sonho de Natal, os shoppings centers, templos consagrados ao deus Mamon, não abrem, são proibidos de funcionarem, desta forma não poderão vender ilusões, não estarão disponíveis para que mulheres solitárias, sedentas de atenção e carinho comprem bolsas e calçados, dos quais nem precisam, como forma de se presentearam para minimizar o vazio que sentem na alma, não estarão disponíveis para que homens da meia idade se sentem às mesas dos bares, envoltos em fumaças de cigarros, e afoguem suas mágoas e suas frustrações do ano todo em barris de chope e em conquistas sedutoras, vãs e vazias, de moçoilas ávidas por aventuras e dinheiro fácil, não estarão disponíveis para que adolescentes e jovens, que não se encontraram ainda na vida, não enxergaram um caminho real e cheio de propósito para seguirem, se enfastiem de diversão, drogas, bebidas e de relacionamentos fugazes e vãos, como forma de diminuírem a tristeza que sentem na alma por não terem uma vida com objetivo e concretude, No meu sonho de Natal estes templos orgiásticos, reservados apenas para aqueles que tem, estarão fechados, para que todos possamos aprender que ser é muito mais importante do que ter. No meu sonho de Natal, todos, absolutamente todos aprenderão que o vazio na alma, só pode ser preenchido pelo Deus que se encarnou, pois como disse um santo do passado: “... fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti”, não são as futilidades da vida que preencherão este vazio.

No meu sonho de Natal as redes de televisão estão proibidas de venderem ilusões, não poderão exibir comerciais que induzam as pessoas a fazerem compras de supérfluos, de supérfluos que não podem pagar, de supérfluos que não precisam. Não poderão enganar as pessoas, induzindo-as que para serem aceitas nas muitas tribos que a sociedade criou precisam fumar aquele cigarro, beber aquele refrigerante ou aquela cerveja, usarem aquela roupa ou terem aquele carro. As pessoas aprenderão que só serão aceitas, e só aceitarão o outro, incondicionalmente, quando todos, absolutamente todos, nos amarmos como Jesus nos ensinou e mandou que fizéssemos, qualquer coisa diferente e distante disso é frustração, pois será uma caricatura de amor, e um amor caricaturesco não preenche o vazio e a necessidade que o ser humano tem de ser amado. No meu sonho de Natal as pessoas não farão dívidas impagáveis, não entrarão no ano seguinte devendo mais do que são capazes de pagar, simplesmente porque foram induzidas pela insaciabilidade do comércio. Cada uma comprará aquilo que de fato precisa e pode pagar, aquelas que precisam de algo pelo qual não podem pagar, esperarão o dia em que poderão comprar ou receberão de outrem.

No meu sonho de Natal não há presentes para pobres ou ricos, todos saberão que aquele dia é do Deus que se fez carne, logo é Ele que deve receber presentes, e como o conceito de valores do mesmo é diferente do conceito secular, precisarão pois refletir sobre o que colocar diante dEle, e saberão então que o que mais O agrada é “... um coração quebrantado e contrito...” (Salmo 51:17 NVI), então todos nós, independentemente de cor, raça, credo, status quo, etnia e local de nascimento, depositaremos diante de sua manjedoura aquilo que temos de mais precioso: nossas vidas, nossas almas, nossos corações e nossos sonhos!

Espero dormir e sonhar este singelo sonho de Natal, e espero que a noite seja longa, e quando acordar, espero descobrir que não foi um sonho, mas sim que uma revolução espiritual aconteceu e que o meu sonho se tornou realidade, pois foi um sonho que me foi dado por Aquele que se fez carne e habitou entre nós.

Um toque de vulnerabilidade natalina

 
Talvez porque eu envelheci antes do tempo, eu ainda não fico muito à vontade com cartões eletrônicos, com mensagens coloridas e letras brilhantes. Mas essa forma de comunicação e expressão de bem querer chegou para ficar, e se não me rendo totalmente a ela, também não devo deixar de usá-la. Então aqui vai uma tímida expressão de um desejo de Feliz Natal. Feliz Natal? Que Natal? Eu fico um pouco desapontado quando percebo que Natal tem se tornado para muitos apenas um trampolim para a celebração da Festa do Ano Novo. A expectativa do Novo Ano parece ser tão grande que a celebração do Natal é facilmente obfuscada. Então Natal se tornou um trampolim, apenas enquanto uma espécie de festa preparatória para a festa maior que é a celebração de final de ano e acolhida da chegada de um novo ano que se inicia. O mais triste para mim é que o Natal não é nesse caso um trampolim impulsionador, mas um trampolim do tipo brinquedo menor no parque de diversões. Mas seria bom que o Natal fosse usado como um trampolim mesmo. Um trampolim impulsionador. Trampolim no qual as pessoas buscam o impulsionamento para serem atiradas de peito aberto para as novas aventuras de um Novo Ano.

Eu sou daqueles que curtem muito o período natalino. Gosto dos filmes, das músicas, das compras, das expressões nos rostos da pessoas. É claro que em meio a tudo isso sempre surge em mim aquele crítica antimercadológica e anticonsumista, mas eu curto tudo isso assim mesmo! Há uma certa magia no ar. Existe um certo encantamento, que eu gosto de curtir. E eu me sinto com um menino novamente. O período natalino mesmo quando destituído do seu significado mais profundo pode proporcionar isso. Adultos voltando a ser crianças! E penso que é disso que precisamos: Deixar de posar de adultos, se desvencilhar da couraça protetora mas que sufoca a expressão do amor, desfazer esse semblante sério e responsável e se soltar como uma criança diante da beleza do mundo. Não era isso que Aristóteles e Platão diziam em relação a filosofia? A filosofia começa com uma atitude de maravilhamento diante do mundo. E parece que para sermos vistos como adultos nós somos forcados a perder essa capacidade de maravilhamento. As vezes esse maravilhamento nos leva à aquele famoso embobecimento, expressa na famosa frase do sábio fulano de tal: “O Amor é lindo e embobece.” Pois Natal é’isso, Deus se fazendo criança, Deus se embobecendo para experimentar todo esse maravilhamento que nós humanos somos convidado a vivenciar!

Eu acordei hoje tentando encontrar uma frase que resumisse um pouco o significado mais profundo do Natal, e cheguei a uma conclusão que penso definir uma dimensão importante da mensagem natalina:

Natal é Deus tornando-se vulnerável aos deleites e às agruras do amor.

Então Natal é Deus se entregando como um presente, e nessa entrega ele se faz vulnerável. Ele sofre o risco da agrura da rejeição e indiferenca, mas também se abre para experimentar o deleite da aceitação e reciprocidade. Natal é Deus presente e Natal é presente de Deus! Emanuel, o Deus conosco, mas o Deus que se dá a nós como uma dádiva infinita. Então Natal é entrega! A palavra grega usada no Novo Testamento para descrever essa entrega divina é Kenosis, que significa esvaziamento e mesmo rebaixamento (Filipenses 2.6). No Natal Deus se esvazia do seu próprio poder para viver dentro das limitações humanas. Deus se rebaixa para exaltar os seres humanos. Deus se biologiza para tirar os humanos do estado meramente animal e trazê-los de volta a transcendência. Deus se faz carne demonstrando que não há nada errado com o corpo humano e a fisicalidade. Mas Deus também se corporifica numa afirmação inequívoca de que não existe espiritualidade vivida fora do corpo e separada dos outros. Deus toca o mundo e se permite ser tocado por ele.

Que este Natal seja o trampolim que nos impulsione a viver um Ano Novo de forma mais plena e profunda. Que façamos como Deus e nos entreguemos kenoticamente ao outro! Que sejamos esvaziados do egocentrismo e nos enchemos do amor que se entrega, que se faz vulnerável. Que toquemos o mundo! Que nos permitamos ser também tocados por ele!

Feliz Natal!

Nele,

The Revd Joabe G. Cavalcanti
St Barnabas Vicarage