“The Lobby”: censurado por Israel (Parte 1)

Os defensores do governo de Israel não querem que você saiba que ele tem um grande flanco aberto: o apoio dos Estados Unidos. E é por isso que, quando um jornalista disfarçado da Al Jazeera se infiltrou em organizações influentes do lobby israelense junto ao governo americano, acabou provocando um incidente diplomático internacional – e descobrindo casos de espionagem, difamação e até investidas do estado israelense contra universitários americanos. 
Este é o primeiro de quatro episódios da série censurada por Israel, disponível pela primeira vez em português. Ele revela como representantes do governo israelense e de outros grupos pró-Israel nos EUA atuam para estrangular o movimento pró-Palestina Boicote, Desinvestimento e Sanções em um campus universitário da Califórnia.

Massacres de Israel contra a Palestina

Violência contra civis de Israel é condenável, mas a história está cheia de ataques a palestinos – e mostra que colonizadores só cedem com faca no pescoço.

Bruno Huberman
Professor do Curso de Relações Internacionais da PUC-SP.


O contexto importa para entender o que se passa na Palestina, mais particularmente em Gaza, desde 7 de outubro. A ofensiva militar liderada pelo Hamas não surgiu como um raio no céu azul. Os guerrilheiros palestinos que improvisaram drones e outras formas de superar o bloqueio terrestre, aéreo e marítimo imposto sobre a Faixa de Gaza desde 2005 são o estouro da panela de pressão.

Importante destacar: a violência que gera mortes de civis, como na ofensiva do Hamas, não deve ser justificada sob nenhum ponto. O objetivo aqui é compreender a razão que faz os palestinos recorrerem à violência para lutar por libertação nacional. E a razão principal é a violência colonial sionista-israelense.

Este é o ataque palestino mais letal desde o início da colonização sionista-israelense da Palestina no final do século 19. Foi a primeira vez, desde 1948 (quando o estado de Israel foi criado por meio de um processo de limpeza étnica), que palestinos retomaram território expropriado pelos israelenses.

Descolonização, como muitos palestinos têm lembrado desde sábado, não é uma metáfora, não é um discurso, não é uma teoria acadêmica, mas um ato material de retomada de terra, libertação e autodeterminação. A questão é que, aos povos colonizados, como os palestinos, muitas vezes não resta outra alternativa a não ser a violência. Frantz Fanon, intelectual martinicano ativo na libertação anticolonial da Argélia contra a França nos lembra: o colonizador cede apenas com a faca no pescoço.

As descolonizações, ao longo da história, sempre envolveram, em maior ou menor grau, formas de violência por parte dos povos colonizados. Isso porque o colonialismo é a representação da violência pura. E a única linguagem que ele compreende, segundo o mesmo Fanon, é a violência. O intelectual martinicano acrescenta: a violência ainda é essencial para a humanização do colonizado. Para a sua transformação em novos homens e mulheres que deixem de ser objetificados e animalizados pelo colonizador.

Algo muito similar é dito pelo intelectual C.R.L. James sobre a libertação dos haitianos contra os mesmos franceses e por Rosemary Saiygh. Ela mostra como os refugiados palestinos que viviam sob opressão do Líbano em campos de refugiados se sentiram humanizados quando guerrilheiros palestinos pegaram em armas e assumiram o controle dos campos para lutar por sua libertação e retorno à Palestina.

O resultado do levante dos palestinos no Líbano foi o massacre de Shabra e Shatila, em 1982. A milícia libanesa formada por cristãos maronitas de direita, a Kataib, aliada de Israel na Guerra Civil do Líbano, assassinou entre 800 e 3,5 mil palestinos, incluindo idosos e crianças. O ataque contou com apoio das tropas israelenses que ocupavam Beirute sob a anuência do então ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon.

Esse foi o mais famoso de uma série de massacres que os israelenses provocaram contra os palestinos. Essa é a realidade da Palestina desde a Nakba, que é o termo em árabe para catástrofe, que os palestinos utilizam para designar a tragédia que o seu povo sofreu no processo de criação de Israel e da Guerra Árabe-Israelense de 1948-1989. Isso porque, além da expulsão em massa e da criação da diáspora palestina (são aproximadamente 7 milhões de refugiados espalhados pelo mundo), aconteceram diversos massacres contra a população nativa.

O maior deles ocorreu no vilarejo de Dawayima, perto de Hebron, quando 145 palestinos foram executados por militares israelenses, em 29 de outubro de 1948. Mas o massacre mais famoso aconteceu no vilarejo de Deir Yassin, próximo a Jerusalém. Na ocasião, integrantes das milícias sionistas de direita Gang Stern e Irgun mataram 110 palestinos – incluindo 30 crianças – depois que a liderança palestina do vilarejo fez um acordo de não agressão com a principal milícia sionista, a Haganah.

O ataque provocou pânico nos palestinos dos vilarejos do entorno e causou a fuga de milhares durante as operações israelenses de conquista de Jerusalém. Os massacres contribuíram decisivamente para o que o historiador israelense Ilan Pappe chamou de processo de “limpeza étnica” na Palestina.

Massacres de Israel contra palestinos se acumulam
Listo aqui os massacres cometidos por Israel contra os palestinos antes do conflito iniciado este mês. O compilado foi feito pelo historiador Nur Masalha em seu livro “The Palestine Nakba: Decolonising History, Narrating the Subaltern, Reclaiming Memory” [“A Nakba palestina: descolonizando a história, narrando o subalterno e reivindicando a memória”] e atualizado por mim:

Qibya, em outubro de 1953: tropas israelenses da Unidade 101 atacaram o vilarejo de Qibya, na Cisjordânia, matando 69 palestinos. Muitos se escondiam em suas casas quando bombas explodiram as residências. Foram destruídas 45 casas, uma escola e uma mesquita.

• Kafr Qasim, em outubro de 1956: a polícia de fronteira israelense massacrou 48 cidadãos palestinos de Israel, incluindo seis mulheres e 23 crianças.

Vilarejos na Galileia, em março de 1976: seis cidadãos palestinos de Israel foram mortos, 100 foram feridos e outros 100 foram presos em protestos contra a expropriação de terras na Galileia pelo estado de Israel.

Hebron, em fevereiro de 1994: foram massacrados 29 muçulmanos dentro de uma mesquita em Hebron pelo colono fundamentalista judeu Baruch Goldstein.

Campo de refugiados de Jenin, em abril de 2002: o Exército de Israel atacou o campo usando bulldozers, tanques e helicópteros. Estima-se que morreram centenas de homens, mulheres e crianças, embora não se saiba o número exato, pois muitos foram enterrados sob os escombros.

Intifadas em 1987, 1993, 2000 e 2002: milhares foram mortos e feridos pelo Exército de Israel.

Gaza, em dezembro de 2008: 1.417 palestinos foram mortos, sendo mais de 900 deles civis.

Gaza, em novembro de 2012: 174 palestinos foram mortos e centenas ficaram feridos em uma ação israelense para assassinar o dirigente militar do Hamas, Ahmad Jabari.

Gaza, em julho e agosto de 2014: o sequestro de três jovens israelenses pelo Hamas resultou em uma guerra de sete semanas em que 2,1 mil palestinos e 73 israelenses foram mortos, incluindo seis civis de Israel.

Gaza, em março de 2018: milhares de palestinos protestaram próximos à cerca em torno de Gaza na Marcha do Retorno. As tropas israelenses abriram fogo e mataram 170 palestinos ao longo de vários meses de protesto, resultando em um novo confronto entre Hamas e Israel.

Gaza, em maio de 2021: depois de meses de tensão durante o Ramadan, centenas de palestinos foram feridos em um dia de reza na mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém. O Hamas demandou a desocupação israelense. Em um confronto que durou 11 dias, 260 palestinos e 11 israelenses foram assassinados em Gaza.

O resultado de décadas de colonialismo israelense é a formação de um apartheid em todo o território da Palestina. Dentro de Israel, existem os palestinos que sobreviveram à Nakba e que compõe cerca de 20% da população israelense como cidadãos de terceira classe. Eles são uma minoria marginalizada, mas com direitos civis.

Nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza desde 1967, Israel é soberano e não oferece direito algum aos palestinos. A Autoridade Nacional Palestina, estabelecida nos Acordos de Oslo, tem o poder de uma prefeitura: assegura serviços como educação, saúde, transporte, etc. Mas o poder de controlar fronteiras, finanças, comércio, entre outros, pertence exclusivamente ao estado de Israel, o que limita severamente a autodeterminação palestina.

Anos de cooperação de segurança e reza à cartilha neoliberal de desenvolvimento pela ANP não resultaram na criação de um estado da Palestina. A moderação do grupo dirigente da ANP, o Fatah, e a negociação diplomática trouxe apenas mais colonização para os palestinos. Essa é a razão de o Hamas ainda optar pela resistência violenta, como fizeram diferentes grupos guerrilheiros palestinos durante a Guerra Fria.

Em Gaza, é onde os palestinos têm a vida mais restrita. Onde ninguém entra nem sai. Onde Israel controla a entrada de alimentos calculando a quantidade de calorias mínimas para sobrevivência dos 2 milhões de palestinos. Onde bombas caem do céu e destroem prédios inteiros. Onde a ONU considera a vida “invivível”. Uma distopia na realidade. É nesse ambiente que a radicalidade do Hamas ferve e explode.O que acontece agora em Gaza é uma continuação do que ocorre desde 1948. É por isso que os palestinos dizem viver uma “Nakba contínua” , isto é, uma catástrofe diária. Os massacres se repetem, as expulsões se repetem, as demolições de casas e vilarejos se repetem. A negação da autodeterminação palestina por meio da ocupação militar na Cisjordânia e na Faixa de Gaza criou uma panela de pressão de insatisfação e ressentimento entre os palestinos. No sábado, ela estourou.


Repito: a violência do Hamas é fruto do colonialismo israelense, que segue a lógica dos colonialismos por povoamento, segundo o teórico australiano Patrick Wolfe. Enquanto houver terra indígena, os colonos buscarão expropriá-la. Enquanto houver resistência indígena, os colonos buscarão silenciá-la. A ofensiva dos ruralistas brasileiros sobre as terras indígenas na proposta do Marco Temporal revela como essa lógica vai do Brasil a Israel, passando também por países como EUA, Canadá, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. A eventual reação violenta de indígenas contra o roubo de terras por grileiros operaria na mesma racionalidade observada em Gaza.

Importante ressaltar que os palestinos têm encontrado diferentes formas de resistir ao longo da história além do levante armado. Manifestações em massa, boicotes e auto-organização são algumas das formas utilizadas para lutar por sua libertação nacional. E, embora a luta armada possa ser importante para fazer os palestinos serem ouvidos globalmente e interromper a normalização da sua ausência de liberdade, ela nunca trouxe vitórias significativas para a conquista do seu estado. O aumento da opressão após a Segunda Intifada e o fim das negociações diplomáticas entre Israel e palestinos demonstram o fracasso da luta armada.

Será somente com o combate à ordem internacional liderada pelos EUA, que permite que esse regime de apartheid colonial se mantenha de pé, que virá a libertação da Palestina. Essa é a importância de trazer à tona a lógica colonial que estrutura a violência opressora contra os povos indígenas na Palestina e em diferentes localidades do mundo, para construir novas alianças internacionais de solidariedade capazes de mover a descolonização.

Fonte: https://www.intercept.com.br/2023/10/13/israel-estes-sao-os-maiores-massacres-contra-a-palestina/

Sabra e Chatila, um massacre a ser sempre lembrado


A limpeza étnica sistemática de 1948 na Palestina, segundo Ilan Pappé, foi o principal acontecimento “constitutivo de sua história moderna”. Com o início da prática de limpeza de Israel, milhares de palestinos, expulsos ou aterrorizados, se refugiaram no Líbano em busca de abrigo e segurança. Segundo Pappé, tal limpeza foi praticamente eliminada da memória e consciência coletiva global, tornando, portanto, o direito à memória uma das ferramentas mais importantes para a resistência e luta do povo palestino.

Quando em 1982 Israel invadiu o Líbano em busca da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), na época presidida por Iasser Arafat, o estado sionista encontrou então a situação perfeita para ocupar o país e aliar-se a um grupo fascista rumo ao poder. Bashir Gemayel, então presidente eleito do Líbano e carismático líder cristão no país, defendia uma política alinhada à dos Estados Unidos. Em entrevista concedida nos anos 80, ao ser questionado se era ou não aliado de Israel, Bashir explica que sua relação com o estado sionista não é permanente, e que, politicamente, alia-se a quem lhe for conveniente “tomando o máximo de vantagens e benefícios para o balanço de poder e o equilíbrio de poderes no Líbano”. Seu assassinato foi então o estopim para que um massacre de inocentes, sobretudo de palestinos refugiados, acontecesse com a ajuda prática de Israel.

Mas os planos de tal crime de guerra foram arquitetados durante encontros realizados no dia 15 de setembro, com o então Ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, e líderes de uma mílicia libanesa falangista cristã ligada ao governo de Bashir, Elie Hobeika, Fadie Frem e Zahi Bustani. Nesse encontro, Sharon autorizava as tropas israelenses, responsáveis pelo cerco aos campos libaneses, a permitirem a entrada dos falangistas.

O historiador árabe Fawwaz Traboulsi descreve em seu livro História Moderna do Líbano os interesses firmados antes da morte do presidente Bashir, que planeja colocar em prática uma “solução radical” para equilibrar demograficamente o Líbano, “provocando um êxodo geral da população palestina” que, segundo ele, constituía “um povo em excesso” na região. Junto a responsabilidade destinada a Ariel Sharon e ao governo cristão libanês, o estado norte-americano também teve a sua participação ao retirar todas as suas forças de paz, responsáveis pela supervisão da saída da OLP, e ao evadir os destacamentos militares da região e pressionando, indiretamente, a retirada de forças francesas e italianas do local.

Na prática, os ataques aos campos de Sabra e Chatila podem ser definidos como um massacre de Deir Yassin revisitado, com as mesmas características crueis e de limpeza étnica executadas durante e a partir da Nakba palestina. O massacre deixou cerca de 4.000 pessoas entre mulheres, crianças e idosos mortas. Muitas delas, decapitadas, mutiladas ou desfiguradas.

O jornalista Odd Karsten Tveit, um dos primeiros a entrar nos campos de refugiados após o massacre, descreveu em relato para a TV Al Jazeera cenas de horror. Em um primeiro momento, visitou um hospital e encontrou um jovem garoto ferido nas pernas e no quadril, e ele gritava “mataram minha mãe e meu pai”. Depois, um grupo de palestinos, “usando kuffyas”, mostrou o que até então se tratava apenas de rumores de um massacre.

A cena real de uma matança: corpos e corpos empilhados por estreitas vielas, e multidões aos prantos, buscando por sobreviventes ente os escombros. Tantos mortos, inocentes, esquecidos pela Síria e Jordânia, abandonados, no meio do jogo político sujo de Israel com os Estados Unidos. Apoiados por Washington, os soldados israelenses cometeram as mais diversas atrocidades. O massacre acabou com diversos vilarejos libaneses e muitos acampamentos de refugiados palestinos. Um soldado israelense, que atuou no massacre, Ari Folman, em seu documentário relembra o genocídio no Líbano, as execuções sumárias e a noite em Beirute com o céu iluminado por bombas de fósforo branco e outras de fragmentação. Quando amanheceu, viu pelas ruas mães e esposas de palestinos mortos, que choravam sobre os escombros e ruas encharcadas por sangue. O então primeiro ministro de Israel, Menachem Begin, já possuía um extenso currículo de matanças executadas contra palestinos. Ele era o líder sionista da Stern Gang, grupo terrorista responsável pela chacina em Deir Yasin.

Reflexos do massacre no Brasil
A representação da OLP em território brasileiro instalou-se no ano de 1979 e, em 1982, com o massacre dos palestinos no Líbano, realizou, com diversas organizações estudantis, sindicatos e partidos políticos, grandes passeatas em protesto ao genocídio dos palestinos em São Paulo. Mohamed Al Kadri descreve que as manifestações contaram com dez mil pessoas pedindo o fim dos massacres e a Palestina Livre.

Elie Hobeika, um dos responsáveis junto com Ariel Sharon pelos massacres de Sabra e Chatila, em 1985 assumiu o posto de chefe da milícia cristã, e pouco tempo depois alinhou o grupo aos interesses da Síria. Em janeiro de 2002, Hobeika morreu em um atentado a bomba, e sua morte apontou responsáveis como a Síria e, principalmente, Israel. Isso pois pretendia depor em Bruxelas em um processo de vítimas do massacre. Ele seria uma importante testemunha com relatos que prejudicariam o governo israelense.

No mesmo ano, meses depois, o empresário libanês Mikhael Youssef Nassar e sua esposa foram assassinados em um posto de gasolina da avenida Juscelino Kubtischek, no Itaim Bibi, em São Paulo. Foram mortos com tiros de uma pistola com silenciador e munição brasileira. O libanês era conselheiro de Hobeika e, depois dele, seria a segunda testemunha mais perigosa a depor contra os organizadores e executores do massacre de Sabra e Chatila. Além disso, era filho do comandante do famigerado Exército do Sul do Líbano, força aliada de Israel durante a guerra civil. Sobre ele ainda recai a suspeita de tráfico de armas e negócios ilícitos com áreas em vias de desapropriação para rodoanel. O motivo de seu assassinato nunca foi esclarecido pelas autoridades brasileiras mas há grandes possibilidades que seus executores sejam os mesmos de Elie Hobeika. Tal fato reforçou e, de certa maneira, confirmou a culpa de Israel pela morte de milhares de civis palestinos e libaneses.

O massacre 30 anos depois
Apesar de tal evento ser configurado como uma violação grave diante de um Tribunal Penal Internacional, nenhuma investigação ou condenação foram diretamente feitas contra o governo do Líbano. E mesmo com a acusação formal por meio de inquérito contra Ariel Sharon, o ministro da defesa não foi preso nem deixou o governo, somando este fato trágico da história da Palestina ocupada a tantos outros ignorados por quaisquer organizações ou nações da comunidade internacional.

O genocídio contra o povo palestino e as violações dos direitos humanos e das leis internacionais continuam fazendo parte da política assassina de Israel. Segundo a ANURP – Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos, mais de 500 mil palestinos buscaram refúgio no Líbano e não são considerados pelo governo libanês como moradores permanentes. Vivem isolados em guetos, como cidadãos de segunda classe. Somente em 2010, por exemplo, tiveram o direito ao emprego formal e, ainda assim, sem poder ocupar qualquer cargo.

Um analista sênior da ONG humanitária Human Rights Watch, Nadim Houry declarou que “os palestinos que vivem no Líbano têm as piores condições de vida de todo o Oriente Médio”, sem direitos civis e acesso a serviços públicos como saúde e educação. Fica claro que, além de genocídios planejados e executados por Israel, Estados Unidos e aliados, os palestinos sofrem todos os dias com o apartheid promovido dentro da Palestina ocupada e nos campos de refúgio espalhados pelo mundo. Sabra e Chatila é perpetuada e velada, então, sob ações de exclusão étnica, omissão e abandono dos palestinos.

Fonte: https://icarabe.org/artigos/sabra-e-chatila-um-massacre-a-ser-sempre-lembrado - Publicado originalmente em 20/09/2012

Líbano lembra do massacre de Sabra e Shatila


Beirute, 17 set (Prensa Latina) O Líbano recorda hoje os homens, mulheres, idosos e crianças assassinados pela direita cristã a serviço da ocupação israelense no campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila.

No 41º aniversário do massacre, os movimentos libaneses e palestinos condenaram o acontecimento e exigiram que os seus perpetradores fossem responsabilizados, à luz das tentativas inimigas de destruir a segurança e a estabilidade nos campos.


A este respeito, a Frente de Ação Islâmica no Líbano sublinhou que o inimigo israelita pretendia com este massacre desmoralizar e quebrar a vontade do povo palestino e a simpatia da nação.

Neste sentido, destacou que tal operação criminosa contra civis indefesos, realizada durante noites e dias com toda a traição às forças nacionais, é considerada uma das mais horríveis da história da humanidade.

Por sua vez, o porta-voz do movimento Hamas, Jihad Taha, afirmou que a perda daqueles mártires no crime horrendo constitui um testemunho da crueldade e do sadismo da entidade de Tel Aviv, uma entidade usurpadora baseada no terrorismo e no racismo.


Ao mesmo tempo, alertou para os esforços para liquidar a causa palestina, desestabilizando as condições dos refugiados e revogando o seu direito de regressar às suas casas.

Neste contexto, o porta-voz mediático da Jihad Islâmica, Muhammad Hajj Musa, sublinhou a decisão dos palestinos de não perdoar os crimes israelitas e os seus agentes. Condenou o silêncio internacional cúmplice e a impunidade dos assassinos durante 41 anos, apesar da abundância de provas que expõem os participantes, os instigadores e aqueles que lhes forneceram apoio, cobertura e proteção.

Nesta linha de pensamento, destacou que todos os palestinos têm o dever de preservar os campos e enfrentar os planos que os atacam do ponto de vista securitário, militar e social, longe dos conflitos internos.


Aliás, o porta-voz do movimento Fatah, Munther Al-Hayek, descreveu o massacre de Sabra e Shatila como um crime completo, perpetrado por gangues terroristas cujo objetivo é acabar com a presença palestina, agarrando-se ao direito de retorno para suas terras.

Em 15 de setembro de 1982, a direita cristã libanesa invadiu casas e atirou em civis em Sabra e Shatila sob o pretexto de atacar a Organização para a Libertação da Palestina, um dia após o assassinato do chefe da milícia falangista Bashir Gemayal. O número de mortos varia entre 1.700 e 3.500, este último segundo a Cruz Vermelha, após três dias de tortura, violações e tiroteios.

A persistência do mito

Depois de se consolidar nas publicações de obras de ficção do Oriente Médio, a editora Tabla dá mais um ousado passo adiante estreando na não ficção com o provocativo Dez mitos sobre Israel, de Ilan Pappe. Reconhecido como um dos “novos historiadores” israelenses, grupo de acadêmicos que realiza uma crítica contundente à criação do Estado de Israel e ao sionismo, Pappe dispensa apresentações óbvias e tietagens, ainda mais depois da publicação de A limpeza étnica da Palestina pela Sundermann em 2016. Ao associar o termo limpeza étnica, cunhada pelo sociólogo Michael Mann para descrever os acontecimentos da Guerra da Bósnia (1992-95), com a criação do Estado de Israel e a Nakba de 1948, Pappe sofreu duras perseguições e ameaças, o que o levou, em 2007, a trocar Israel pela Grã-Bretanha e a Universidade de Haifa pela Universidade de Exeter, onde leciona ciência política e dirige o Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina.


Dez mitos sobre Israel foi publicado em 2017, nos cinquenta anos da Guerra de Junho de 1967 ou a “guerra sem escolha”, um desses dez mitos que Pappe se propõe a desconstruir. Em pouco mais de 250 páginas, a obra está composta de dois prefácios, um da edição de 2017 e outro para a edição brasileira, e divide-se em três partes: “As falácias do passado”, que trata de seis mitos (A Palestina era uma terra vazia, Os judeus eram um povo sem terra, Sionismo é judaísmo, Os palestinos deixaram sua pátria voluntariamente em 1948, A guerra de Junho de 1967 foi uma “guerra sem escolha”); “As falácias do presente”, que trata de três mitos (Israel é a única democracia do Oriente Médio; As mitologias de Oslo; As mitologias de Gaza); e “Olhando para o futuro” que trata do décimo mito (A solução de dois Estados é o único caminho a seguir), além de uma Conclusão (O Estado israelense de colonização de povoamento no século 21) e uma linha do tempo que tem a intenção de ajudar o leitor a identificar os acontecimentos narrados nos dez mitos.

Nessa obra, que é também uma denúncia, Pappe não se furta ao trabalho do historiador: apresenta suas fontes (cartas, documentos, atas de reuniões, relatórios, currículos escolares, artigos de jornais), confronta os dados, dialoga com a historiografia, debate as posições consolidadas, refuta as certezas e desconstrói os mitos sobre os quais o Estado de Israel foi edificado e tem se sustentado no passado e no presente e na sua projeção para o futuro.

Apoio interno e externo
O autor defende que a persistência do mito, sua solidez e a dificuldade de sua desconstrução residem no fato de estar consolidado não apenas em sua narrativa em Israel, para justificar e camuflar sua existência usurpadora, mas porque sempre teve e continua tendo respaldo e apoio interno e externo. De um lado o apoio de países como Grã-Bretanha e sua Declaração Balfour de 1917, e os Estados Unidos e seu protestantismo milenarista; de outro, a ajuda da mídia, da propaganda oficial, dos currículos escolares, dos textos didáticos, dos estudos bíblicos e da arqueologia bíblica que contribuíram para perpetuar uma definição do que era a Palestina mas não a quem ela pertencia, assim como para justificar a expropriação e a ocupação da terra e a desumanização do palestino, visto como usurpador e inimigo eterno.

Para Ilan Pappe há vários autores responsáveis pela criação dos mitos: claramente, Theodor Herzl e o movimento sionista, baseado na fundação de um Estado judeu na Palestina como uma resposta ao antissemitismo europeu; os primeiros colonos do Leste Europeu a ocuparem a “terra vazia”; os judeus comunistas e socialistas que igualaram sionismo ao comunismo; as nações colonialistas que atuaram em interesse próprio; os acadêmicos de grande projeção pública nas mídias e, sobretudo, a sociedade judaica de Israel que se calou, se omitiu e deu carta branca para que suas lideranças continuassem adotando uma política destrutiva sobre o povo palestino. Foi na construção desses mitos e na manutenção de sua narrativa que Israel tem legitimado suas ações e angariado apoio para consolidar sua presença na Palestina, e o direito ao retorno ao mesmo tempo em que nega aos palestinos esse mesmo direito. Assim, os palestinos são os estranhos, estrangeiros, usurpadores; os judeus são os povos originários, autênticos, nativos. A doença e a cura.

Ao analisar esses dez mitos, Pappe apresenta um novo vocabulário para definir a militância judaica na Palestina: Israel é um Estado de apartheid, uma etnocracia racista e judeificada que tem baseado suas ações no terror militar, nas atrocidades cotidianas, nas prisões, na guetificação, nos boicotes, nos bloqueios, na intolerância, no assédio, no abuso, na matança, na desumanização dos palestinos; a Nakba é limpeza étnica — e, não custa lembrar, um crime contra a humanidade —; sionismo é colonialismo e, portanto, ocupação é colonização. Para o autor, são mais de cem anos de violação de direitos humanos na Palestina sob a falsa bandeira da “única democracia do Oriente Médio” — democracia que, Pappe não cansa de reafirmar enfaticamente, se comporta como uma “ditadura da pior espécie” e “um dos regimes mais cruéis de nosso tempo”.

O autor não se contrapõe à ideia de que os povos têm direito de se inventarem — aliás, os mitos estão na origem de povos, nações e Estados ao longo da história da humanidade. Também não há limites numéricos para esses mitos, um ou dez, como os enumerados e dissecados por Pappe em relação a Israel. A questão é quando esses mitos, construídos para legitimar um povo ou um Estado, carregam consigo opressão, racismo, limpeza étnica e genocídio sobre outro povo e sobre um lado da história. Quando esses mitos legitimam narrativas criminosas e permitem que os crimes continuem a ser cometidos impunemente. Como afirma Edward Said em seu artigo “Permission to Narrate” (Permissão para narrar, 1984), que trata dos massacres de Sabra e Chatila e da responsabilidade de Israel na perpetração desse crime, deve-se levar em conta que quem tem a permissão de narrar tem legimitidade para narrar fatos, acontecimentos, mitos e memórias.

Pappe também denuncia a responsabilidade acadêmica dos intelectuais em transformar mitos em verdades, de colaborar com uma narrativa legitimadora de um lado da história ou, por que não dizer, falsificadora da história. Pappe intima o intelectual a se posicionar, o desafia a comprovar com pesquisas a narrativa que corrobora, a dizer o que deve ser dito, a não se omitir para não ser conivente. Ele está ciente de que é preciso coragem para “questionar os mitos fundadores de seu próprio Estado e sociedade”, pois como Said enfatiza em Representações do intelectual (2005), o intelectual deve ser comprometido com o que faz e com o que diz, deve ter ousadia e coragem para se expor, deve causar embaraço, deve ter compromisso e assumir riscos.

Ao ler Dez mitos sobre Israel podemos perceber que Pappe é um intelectual comprometido com seu papel na sociedade, ou melhor, na humanidade, pois não lhe falta coragem para apontar, questionar, destrinchar, desconstruir e denunciar os dez mitos sobre Israel. Em tempo de guerra de narrativas, história oficial, pós-verdades, mitos e contramitos, talvez um título opcional e muito apropriado para essa obra fosse: Dez fake news de Israel sobre a Palestina e os palestinos. É preciso ter coragem. A coragem da verdade, como nos lembra Michel Foucault.


40 anos de Sabra e Chatila:

 

Há 40 anos, na noite de 16 de Setembro de 1982, milícias falangistas cristãs libanesas invadiram os campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, nos arredores de Beirute, com o apoio do exército israelita que, desde Junho, ocupava a capital do Líbano.

Durante dois dias, os falangistas, instigados por Israel, levaram a cabo um hediondo massacre de que resultaram numerosas vítimas palestinas, em grande parte mulheres e crianças.

Soldados israelitas cercaram os campos para impedir que os refugiados saíssem, e durante a noite disparavam foguetes luminosos para ajudar a ação dos criminosos falangistas. Ao fim dos dois dias de massacre, Israel forneceu os buldózeres para cavar valas comuns.

O número exato de vítimas é difícil de determinar pois, além do milhar de corpos enterrados em valas comuns, muitas vítimas ficaram soterradas nas casas derrubadas a buldózer pelas milícias e centenas de palestinos foram por elas levados para destino desconhecido de onde nunca regressaram. Uma estimativa credível aponta para 3500 vítimas.

Um cenário de horror
O massacre foi de uma barbaridade inaudita. Ao entrar no campo de Chatila no dia 19, a jornalista americana Janet Lee Stevens deparou-se com a cena de corpos com membros e cabeças cortadas, alguns rapazes castrados, corpos retalhados com cruzes. "Vi mulheres mortas nas suas casas com as saias levantadas até a cintura e as pernas abertas; dezenas de jovens mortos a tiro depois de terem sido alinhados contra uma parede; crianças com a garganta cortada, uma mulher grávida com a barriga esventrada, de olhos ainda muito abertos, o rosto enegrecido gritando silenciosamente de horror; inúmeros bebés e crianças pequenas que tinham sido esfaqueadas ou despedaçadas e que tinham sido atiradas para pilhas de lixo."

Robert Fisk descreve um cenário de horror: "O que encontrámos no campo palestino de Chatila às 10 da manhã de 18 de Setembro, desafia qualquer descrição (…) Havia mulheres jazendo nas suas casas com as saias rasgadas até ao peito e as pernas todas abertas, crianças com as gargantas cortadas, filas de jovens baleados nas costas depois de alinhados numa parede de execução. Havia bebés (…) cujos corpos tinham sido lançados para pilhas de lixo, juntamente com latas vazias de rações do exército americano, equipamento médico do exército de Israel e garrafas vazias de whisky. (…). Havia uma pilha de corpos, mais de uma dúzia de jovens (…) mortos à queima-roupa (…) um tinha sido castrado (…) o mais novo teria só 12 ou 13 anos. (…). Encontrámos os corpos de cinco mulheres e várias crianças (…) Uma das mulheres tinha um bebé ao colo. A bala que lhe atravessou o peito matou também o bebé."

No seu ensaio Avenging Sabra and Shatila, citado por Ramzy Baroud em artigo recente evocativo da efeméride, Kifah Sobhi Afifi descreveu o ataque conjunto falangista-israelita ao seu campo de refugiados quando ela tinha apenas 12 anos de idade. "Por isso fugimos, tentando ficar o mais perto possível dos muros do campo. Foi então que vi as pilhas de cadáveres por todo o lado. Crianças, mulheres e homens, mutilados ou a gemer de dor enquanto morriam. As balas voavam por todo o lado. As pessoas estavam a cair à minha volta. Vi um pai a usar o seu corpo para proteger os seus filhos, mas eles foram todos alvejados e mortos na mesma".

As reações internacionais
No mesmo artigo de Ramzy Baroud, ele refere que a Dra. Swee Chai Ang, que tinha acabado de chegar ao Líbano como cirurgiã voluntária e estava colocada no Hospital de Gaza em Sabra e Chatila, escreveu num artigo recente que, após a divulgação de fotografias dos "montes de cadáveres nos becos do campo", seguiu-se um ultraje mundial, mas tudo isso foi de curta duração. "As famílias e os sobreviventes das vítimas foram logo deixados sozinhos para se dedicarem às suas vidas e reviverem a memória daquela dupla tragédia do massacre e das 10 semanas precedentes de intenso bombardeamento terrestre, aéreo e marítimo e bloqueio de Beirute durante a invasão".

Em 19 de Setembro de 1982 o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade a Resolução 521 que "condena o massacre criminoso de civis palestinos em Beirute".

Em 16 de Dezembro desse mesmo ano, a Resolução 37/123 da Assembleia Geral da ONU "condena nos termos mais fortes o massacre em grande escala de civis palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila" e "resolve que o massacre foi um ato de genocídio".

No dia seguinte, a AG aprovou a Resolução 37/134 que "condena Israel pela sua invasão do Líbano que infligiu graves danos aos civis palestinos, incluindo pesadas perdas de vidas humanas, sofrimento intolerável e destruição material maciça".

E depois, o silêncio.

Os culpados
Quarenta anos passaram sobre o horror de Sabra e Chatila. Todos os responsáveis ficaram impunes. Os sobreviventes e os descendentes das vítimas continuam à espera que lhes seja feita justiça.

Robert Fisk não tem dúvidas: "Se os israelitas não tinham participado nas matanças, tinham certamente enviado milícias para o campo. Tinham-nas treinado, dado-lhes uniformes, entregado rações do exército americano e equipamento médico israelita. Depois tinham assistido aos assassinatos nos campos, tinham-lhes dado assistência militar - a força aérea israelita tinha lançado todos aqueles foguetes luminosos para ajudar os homens que estavam a assassinar os habitantes de Sabra e Chatila - e tinham estabelecido uma ligação militar com os assassinos nos campos."

A Comissão de Inquérito Kahan, criada por Israel em 28 de Setembro de 1982, concluiu que a "responsabilidade direta" recaía sobre os falangistas, embora Israel tenha sido considerado "indiretamente responsável". O Ministro da Defesa Ariel Sharon foi considerado como tendo "responsabilidade pessoal" por "ignorar o perigo de derramamento de sangue e vingança" e "não tomar as medidas adequadas para impedir o derramamento de sangue". Foi demitido do seu cargo, mas isso não obstou a que se tornasse Primeiro-Ministro de Israel em 2001.

Ariel Sharon, supremo comandante militar da invasão do Líbano, encontrava-se pessoalmente a poucas centenas de metros do local do crime e nada fez para impedir o massacre. Mas o seu envolvimento na morte de palestinos não começou nem terminou ali Uma publicação do Institute for Midle East Understanding enumera a longa lista de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade imputáveis a Ariel Sharon, desde que, em Outubro de 1953, no âmbito da chamada Operação Shoshana, foi o responsável directo pelo massacre de 69 palestinos, dos quais dois terços eram mulheres e crianças, na aldeia de Qibya.

O primeiro-ministro israelita na altura, Menachim Begin, também escapou impune à sua responsabilidade pela morte de mais de 17 000 libaneses, palestinos e sírios na invasão do Líbano em 1982.

A responsabilidade
O massacre de Sabra e Chatila foi uma consequência directa da impunidade concedida a Israel pelos EUA e pela comunidade internacional. Ainda que particularmente hediondo, o massacre de Sabra e Chatila não é uma excepção, antes se inclui numa longa série de crimes contra o povo palestino que caracteriza a história de Israel, ainda desde antes da sua criação em 14 de Maio de 1948.

"Teria Israel sido capaz de invadir e massacrar à vontade se não fosse o apoio militar, financeiro e político dos Estados Unidos e do Ocidente?", questiona Ramzy Baroud no artigo que vimos citando. "A resposta é não. Aqueles que têm dúvidas quanto a tal conclusão só precisam de considerar a tentativa, em 2002, por parte dos sobreviventes do massacre dos campos de refugiados do Líbano, de responsabilizar Sharon. Levaram o seu caso à Bélgica, tirando partido de uma lei belga que permitia a acusação de alegados criminosos de guerra internacionais. Após muita discussão, muitos atrasos e intensa pressão por parte do governo dos EUA, o tribunal belga acabou por abandonar completamente o caso. Por fim, Bruxelas alterou as suas próprias leis para garantir que tal crise diplomática com Washington e Telavive não se repetiria."

A memória
Quarenta anos depois, os nomes de Sabra e Chatila permanecem vivos na memória da humanidade como sinónimos da barbárie e da natureza criminosa do Estado sionista.

São também um testemunho da natureza volúvel da comunidade internacional que passa rapidamente do estado de choque para o olvido, quando não para a desculpabilização.

Mas Sabra e Chatila, bem como todos os episódios da ocupação da Palestina, são também um sinal de que, apesar do longo cortejo de atrocidades israelitas e da sua impunidade, a resistência do povo palestino não quebra.

"Não chorem à beira do meu túmulo..."


"Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá. 
Estou no soprar dos ventos, nas tempestades de verão e nos chuviscos suaves da primavera. 
Eu sou a pressa inquieta dos ruídos da cidade e o silêncio das madrugadas. 
Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá. 
Estou no brilho das estrelas perfurando a noite e no cantar alegre dos pássaros. 
Não, não chorem tristes à beira do meu túmulo, eu não estou lá, eu não morri. 
Eu sou a vida incessante e livre, que corre nas águas do rio." 
Mary Elizabeth Frye.

Como se formou o sionismo evangélico no Brasil



Este artigo, publicado na revista Religião & Sociedade, busca analisar o surgimento, entre grupos evangélicos brasileiros, do chamado “sionismo cristão”. Tal posicionamento pode ser entendido como argumentação religiosa que resulta em discurso e atuação política em apoio ao fortalecimento e ampliação territorial do Estado de Israel. 

Foram analisados fatores nacionais e internacionais para explicar a adoção desse tipo de posicionamento político por parte de importantes lideranças evangélicas brasileiras, especialmente nos últimos anos.

1 - A QUAL PERGUNTA A PESQUISA RESPONDE?
A questão central desse artigo é o surgimento entre grupos evangélicos brasileiros do chamado “sionismo cristão”, entendido como argumentação religiosa que resulta em discurso e atuação política em apoio ao fortalecimento e ampliação territorial do Estado de Israel. Buscamos, assim, identificar e analisar fatores nacionais e internacionais que expliquem a adoção desse tipo de posicionamento político por parte de importantes lideranças evangélicas brasileiras, especialmente nos últimos anos. Para entender essa genealogia, acessamos e discutimos livros e outras produções (vídeos, textos em sites) de autores evangélicos brasileiros que defendem o sionismo. Inicialmente expomos a literatura publicada ainda no século 20 e tentamos rastrear a difusão do sionismo cristão suas articulações nacionais e internacionais naquele contexto. A seguir procuramos identificar quem são os líderes evangélicos, que defendem o sionismo cristão e adotam práticas judaizantes no Brasil contemporâneo. Tal identificação nos conduziu à reflexão sobre o papel do turismo evangélico à Terra Santa e também do movimento chamado de NAR (New Apostolic Reformation) no surgimento de líderes sionistas cristãos no Brasil. Finalmente, refletimos sobre a incidência do governo Bolsonaro na consolidação e implementação do sionismo cristão evangélico no país. 

2 - POR QUE ISSO É RELEVANTE?
Embora o sionismo cristão seja já por muitas décadas uma força política significativa nos Estados Unidos e em certa medida na Inglaterra e em outros países europeus, não era observado no Sul Global. O êxito da empreitada sionista cristã varia não só nas articulações internas dos próprios movimentos e os vínculos dos cristãos locais com os centros irradiadores do sionismo no plano internacional (USA-Europa), mas também com as relações estabelecidas com o Estado de Israel. Entretanto os diferentes governos brasileiros, como os de outros países do “Sul”, não recebiam pressões de lideranças religiosas para apoiar Israel quando havia disputas na ONU, envolvendo esse Estado e o povo palestino. Por isso, em várias ocasiões os representantes brasileiros na ONU se opuseram à Israel e apoiaram palestinos. O sionismo cristão brasileiro, que ficará mais evidente nos últimos anos, quer reverter esse posicionamento de crítica ao Estado de Israel no plano diplomático e ir além, vide o empenho evangélico ao exigir de Bolsonaro levar a embaixada brasileira para Jerusalém. De tal forma que, a relevância do sionismo cristão também reside na sua capacidade de realizar articulações internacionais e nacionais para alcançar os objetivos que interessam ao Estado de Israel, gerando potenciais conflitos com o movimento pró palestinos no Brasil. Em termos religiosos, a importância desta reflexão encontra-se na possibilidade de ampliar a compreensão de como se concretizam essas narrativas sionistas cristãs internacionais no Brasil. Ao mesmo tempo, ajuda na percepção do tipo de adaptações teológicas, do envolvimento das lideranças e seus fiéis nessa causa e do porquê da proliferação da bandeira de Israel em eventos políticos, protestos sociais, processos eleitorais e templos evangélicos. 

3 - RESUMO DA PESQUISA
Essa pesquisa é parte de um projeto mais amplo iniciado em 2020, que está sendo realizado em equipe sob a coordenação de Paul Freston e de Joanildo Burity, com apoio da Fundaj, intitulado “O crescimento do Sionismo Cristão no Sul Global: o caso do Brasil e da Guatemala”. Esse artigo é apenas um resultado parcial baseado numa primeira etapa da pesquisa com coleta de dados no Brasil. Um dos objetivos dessa pesquisa era examinar como as ideias sionistas foram se difundindo em segmentos diferenciados do meio evangélico brasileiro a partir dos anos 60 com a ajuda das perspectivas teológicas do dispensacionalismo e foi se transformando nas décadas seguintes, gerando um ativismo político-religioso em defesa do Estado de Israel. Observou-se que, este ativismo tornou-se mais perceptível na coligação política que elegeu Jair Bolsonaro à presidência, envolvendo setores conservadores evangélicos, católicos, judeus, além de militares e liberais. As informações foram coletadas em sites e outras fontes de dados disponíveis na internet, complementadas por leituras de material de igrejas brasileiras, bibliografia e entrevistas com especialistas sobre o tema e algumas lideranças religiosas. 

4 - QUAIS FORAM AS CONCLUSÕES
O sionismo cristão não é novidade no Brasil. Há registro desse tipo de discurso já na década de 1920. Os eventos internacionais que fortaleceram o sionismo cristão, especialmente o profético, nos EUA e na Europa também tiveram seus reflexos no Brasil. No entanto, observa-se que a presença mais evidente desse discurso no espaço político brasileiro somente aparece no século 21, quando os evangélicos, além de bem mais numerosos, passaram a ter maior protagonismo na política, especialmente no legislativo. Procuramos mostrar que apesar de muito interligados, é possível distinguir o filossemitismo, da judaização e do sionismo cristão: esse último pressupõe a defesa do Estado de Israel contemporâneo. Desde o final dos anos de 1990 cresce o interesse por Israel, ora associado ao imaginário bíblico ora como um exemplo de prosperidade divina e ora na apropriação de uma estética judaica como se nota entre algumas igrejas evangélicas brasileiras, com destaque para a Igreja Universal do Reino de Deus. Salientamos a importância das viagens à Terra Santa e o contato com a Embaixada Cristã em Jerusalém na emergência do sionismo cristão no Brasil. Também, da influência do NAR, cujos Apóstolos Terra Nova, Milhomens, Itioka, Valadão são sionistas cristãos relevantes. Vale ressaltar que encontramos sionistas cristãos que não se vinculam ao NAR, como Silas Malafaia. Enfim, a posição pró Israel tende a crescer a partir de um filossemitismo e simpatia pelo povo de Deus, que e com as frequentes caravanas turísticas com líderes evangélicos à Terra Santa. 

5 - QUEM DEVERIA CONHECER SEUS RESULTADOS?
Esse tipo de dados e reflexão interessa a toda população que quer entender a importância da religião na política nacional e internacional, mas especialmente a líderes religiosos e políticos. Na academia, o texto contribui na discussão, sobre o Israel imaginário, a presença do Estado de Israel e do ativismo cristão em prol dessa nação que frequentemente se visibiliza, ora em eventos científicos, ora em publicações. As entrevistas realizadas que embasam os argumentos, representam um acervo importante para os especialistas que se debruçam na temática, pois fora do país se tem bibliografia significativa, porém são poucos os trabalhos sobre o sionismo cristão no Sul Global. O artigo tenta demonstrar como na prática setores evangélicos apropriam-se das ideias que circulam internacionalmente. Com isso, além de abraçar uma causa, eles visam conquistar a simpatia das autoridades israelenses para facilitar suas incursões turísticas na Terra Santa e conseguir que suas missões possam ser frutíferas no Oriente Médio. Mas, os dados indicam que o governo de Israel também está interessado em estimular esse tipo de sionismo no Brasil e certamente no Sul Global. Conhecer essa troca de interesses pode ser útil para setores religiosos e também diplomáticos. 

6 - REFERÊNCIAS
Carpenedo, M. (2021). Christian Zionist Religiouscapes in Brazil: Understanding Judaizing Practices and Zionist Inclinations in Brazilian Charismatic Evangelicalism. In: Social Compass 2021, Vol. 68(2) 204–217. 
Crome, A. (2018). Christian Zionism and English National Identity, 1600–1850. Palgrave Macmillan.
Freston, P. 2020 [b]). “Conclusion”. Palestra apresentada no congresso “Politics and Religion in Brazil and the Americas: Evangelical Churches and their Relations with Judaism, Zionism, Israel and the Jewish Communities”, Universidade de Haifa, 13-15 de Janeiro.
Reinke, A. Daniel (2018). O sionismo cristão e sua influência na cultura protestante brasileira. Dissertação, orientador: Wilhelm Wachholz – São Leopoldo: EST/PPG. 
Frossard, M. S. (2013). “Caminhando por terras bíblicas: religião, turismo e consumo nas caravanas evangélicas brasileiras para a Terra Santa”. (Tese) Programa de Ciências da Religião, UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). 

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Maria das Dores Campos Machado  é professora titular e colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Pesquisadora do CNPq, Brasil. Doutora em sociologia pelo Iuperj. 
Cecília Loreto Mariz  é professora titular do Departamento de Sociologia e do PPCIS (Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais) do Instituto de Ciências Sociais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Coordenadora do Grupo de Estudo do Cristianismo “Clara Mafra”. Pesquisadora do CNPq, Brasil; Doutora em Sociologia pela UNI Boston University. 
Brenda Carranza  é professora visitante do PPGHS (Programa de Pós-Graduação em História Social) da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora do Grupo de Estudo do Cristianismo “Clara Mafra”. Pesquisadora do CNPq, Brasil; Doutora em Sociologia pela UNI Boston University. 
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