Paulo Freire, mestre, apóstolo e profeta

Sistemas de Logística Reversa como instrumentos para sustentabilidade


Desfazendo a Entropia por meio da Logística Reversa


A logística reversa se propõe a reverter a dispersão entrópica de resíduos sólidos por todo o globo terrestre. As inquirições que as várias vertentes motivadoras impõem, se traduzem numa pergunta norteadora: pode a logística reversa desfazer esta dispersão e como pode fazer isso? Foi empreendida uma pesquisa exploratória e descritiva na literatura técnica de livros e artigos científicos da base de dados da Scielo e do Google Acadêmico sobre logística reversa publicados após a regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em 02 de agosto de 2010, em busca de respostas para as questões impostas. A logística reversa se apresenta como o instrumento da PNRS com capacidade de reverter esta desordem, reorganizando o sistema. A desordem de um sistema é matéria da Física, especificamente da 2ª Lei da Termodinâmica, a Lei da Entropia, que afirma que a desordem de um sistema isolado tende ao infinito e que esta desordem é irreversível, visto que espontaneamente a desordem não poderá ser desfeita, num sistema aberto a desordem pode ser desfeita, porém com repercussão para o mesmo sistema ou sistema maior no qual esteja contido. Constatou-se que os sistemas de logística reversa que são requeridos pela PNRS podem minimizar a entropia, por meio dos planos de coleta, acondicionamento, armazenamento e beneficiamento, contatou-se também que desfazer a entropia por meio da logística reversa requer cuidados especiais, para que a diminuição num elo da cadeia não redunde no aumento da mesma em outro elo, com perdas para todo o sistema.

Leia o artigo

Modelo de Sistema de Logística Reversa para o Setor Farmacêutico na Região Metropolitana do Recife


A geração de resíduos sólidos, urbanos, de saúde, industriais, radiativos ou perigosos cresceu exponencialmente nos últimos anos, graças, em parte à estabilidade econômica alcançada com a consolidação do Plano Real e a consequente elevação da renda das Classes C, D e E, a economia cresceu e o consumo acelerou. Um dos segmentos industriais que tem experimentado um crescimento inigualável é a industria de eletroeletrônicos, principalmente a produção de linha verde (que compreende desktops, notebooks, impressoras e aparelhos de telefonia móvel, os smartphones, e os tablets), para que se tenha ideia do tamanho do mercado ou do problema, dependendo por qual prisma se avalie a situação, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) em 2005 a base instalada de aparelhos de telefonia móvel somava 86,2 milhões de unidades, em 2010 este número se elevou para 202,9 milhões, um aumento de 135,38% em cinco anos, o que representaria aumento de quase 27,08% anualmente, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) afirma que quase 55 milhões de unidades foram vendidas, apenas em 2010. Este aumento exponencial de produção e consumo se deve à necessidade que estas indústrias têm, de que, para se manterem competitivas, precisam lançar produtos novos, alguns sem nenhum inovação tecnológica em relação aos modelos já existentes, apenas modificações estéticas, num espaço de tempo menor do que 10 anos atrás, com isso o Ciclo de Vida do Produto tende a ser menor, beneficiando assim a geração cada vez maior de resíduos, gerando uma entropia em níveis nunca antes imaginado nesta era industrial (SARAIVA, 2012, pg. 701). Foi para, em parte, propor uma solução para este problema que a PNRS foi instituída.

Em 02 de Agosto de 2010, quando o então Presidente da República, Luís Inácio da Silva, sancionou a Lei 12.305, que instituía a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a regulamentou quatro meses depois, por meio do Decreto 7.404 (23 de dezembro de 2010), um ciclo de mais de 25 anos chegava ao fim.

O inicio desta trajetória remonta a 1983, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) retomou o interesse pelas questões ambientais, inserindo-as em sua agenda de prioridades, criando a Comissão Mundial do Meio Ambiente, a presidência da mesma coube à Gro Harlem Brundtland, então primeira-ministra da Noruega, Mansour Khalid, sudanês, foi escolhido como vice-presidente da Comissão. Após quatro anos de intensa discussão a Comissão elaborou um relatório bastante contundente, por meio dele criticava o modelo de crescimento econômico adotado, tanto pelos países ditos desenvolvidos, bem como por aqueles em desenvolvimento, posto que o mesmo era baseado na exploração excessiva dos recursos naturais (PEREIRA; SILVA; CARBONARI, 2011).

O Relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum), publicado em 1987, passou a ser chamado de Relatório Brundtland, em alusão à presidente que tão brilhantemente liderou a Comissão. Ao mesmo se deve a definição de desenvolvimento sustentável mais adotada hoje: “O equilíbrio que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1998). Este conceito contrariava tudo o que estava sendo feito então em diversas partes do mundo, pois buscava-se o desenvolvimento econômico, ou buscava-se manter o desenvolvimento econômico da geração atual, sem se preocupar e nem mensurar o dano causado ao meio ambiente, que estava sendo exaurido.

O passo seguinte dado pela ONU foi propor, em 1989, que estratégias efetivas que detivessem a degradação ambiental e promovessem o desenvolvimento sustentável fossem elaboradas, esta resolução resultou na Agenda 21, um programa que foi aprovado durante a Conferência sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento do Rio de Janeiro (que ficou conhecida como Rio-92 ou Eco-92), o programa deveria ser implementado pelos países ao longo do seculo XXI e objetivava incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável nas politicas públicas de cada país.

Neste contexto, o então Deputado Federal Fábio Feldmann, apresenta o Projeto de Lei (PL) 3.333/92, por meio do qual torna pública a primeira proposta de uma lei abrangente, de âmbito nacional, que tratasse dos resíduos sólidos, o mesmo é apensado ao PL 203/91, que era originário do Senado Federal e se propunha a regular tão somente à gestão de resíduos hospitalares, face à complexidade e quantidade de temas debatidos, transcorreram-se quase 20 anos de tramitação no   Congresso Nacional (ARAUJO; FELDMANN; 2012, pg. 561).

A PNRS foi sancionada e regulamentada por meio de decreto num espaço de 04 (quatro) meses, porém, isto não é indicativo de que redundou dos esforços tão somente dos membros da legislatura de então. A Lei 12.305/2010, bem como o decreto 7.404/2010 que a regulamentou vieram à lume por alguns fatores que merecem destaque: iniciativa do executivo federal que reacendeu o debate no Congresso Nacional, anseio da sociedade civil organizada, interesse por parte do empresariado que almejava pela definição dos papéis de responsabilidade com os resíduos urbanos bem delineados, pressão do terceiro setor, de órgãos ambientalistas e de sindicatos classistas, principalmente das associações e cooperativas de catadores e catadoras de materiais reciclados (PHILIPPI, 2012).

Para que não pairem dúvidas sobre a quem se destina a PNRS, no Art. 1º, § 1º o legislador é bem claro ao enumerar quais entes estão sujeitos à observância desta lei:
as pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, responsáveis, direta ou indiretamente, pela geração de resíduos sólidos e as que desenvolvam ações relacionadas à gestão integrada ou ao gerenciamento de resíduos sólidos (BRASIL, 2010, p. 09).
A PNRS essencialmente se baseia em princípios inovadores: a prevenção e a precaução; o poluidor-pagador e o protetor-recebedor; a visão sistêmica na gestão dos resíduos (com foco nas variáveis ambiental, social, cultural, econômica, tecnológica e de saúde pública); o desenvolvimento sustentável; a ecoeficiência; a cooperação entre os setores produtivos, poder público e a sociedade civil na gestão e governança dos resíduos sólidos urbanos; o importante princípio da responsabilidade compartilhada durante todo o ciclo de vida do produto e o reconhecimento do resíduo sólido reutilizável e reciclável como um bem econômico e promotor da cidadania. Estes princípios elevam a PNRS à categoria de Lei que poderia ser aplicada em qualquer país desenvolvido ou naqueles que, por sua longevidade histórica, transcenderam algumas questões que ainda são vitais em economias em desenvolvimento.

[Introdução da monografia de conclusão de curso do MBA em Logística Empresarial 2013 na FCAP - UPE (Modelo de Sistema de Logística Reversa para o Setor Farmacêutico na Região Metropolitana do Recife)]

"... eu envergo, mas não quebro..."

Se por acaso pareço
Que agora já não padeço
De um mau pedaço na vida
Saiba que minha alegria
Como é normal, todavia
Com a dor é dividida

Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo
Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mas volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibro, e requebro
É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambu-taquara
Eu envergo mas não quebro




Eu envergo mas não quebro
Não é só felicidade
Que tem fim na realidade
A tristeza também tem
Tudo acaba, se inicia
Temporal e calmaria
Noite e dia vai e vem

Quando é má a maré
E quando já não dá pé
Não me revolto ou nem queixo 
E tal qual um barco solto  
Salvo do alto mar revolto  
Volto firme pro meu eixo  

E em noite assim como esta  
Eu cantando numa festa  
Ergo o meu copo e celebro  
Os bons momentos da vida  

E nos maus tempos da lida  
Eu envergo mas não quebro  
Eu envergo mas não quebro 
Eu envergo mas não quebro

Eu envergo mas não quebro.

[Quando procurei palavras que pudessem expressar o que sinto, lembrei desta música, que consegue traduzir tudo o que penso e sinto, Mysha].

Depois da linha do horizonte!


["Imagine que você está à beira-mar e você vê um navio partindo, você fica olhando, enquanto ele vai se afastando e afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparece apenas um ponto no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram e você diz: "Pronto, ele se foi". Foi aonde? Foi a um lugar que sua vista não alcança, só isto, ele continua grande, tão bonito e tão importante como era quando estava com você. A dimensão diminuída está em você, não nele. E naquele exato momento em que você está dizendo "ele se foi", há outros olhos vendo-o aproximar-se, outras vozes exclamando em júbilo: "Ele está chegando"]

Um verdadeiro choque, foi o que senti quando soube que ele estava de partida, sua ida era inadiável e inexorável, não havia o que pudesse fazer para que não acontecesse, a tristeza por esta perda irreparável foi suplantada, ainda que momentaneamente, pela ansiedade de, ao menos, me despedir dele. Sai correndo em direção ao local em que, segundo me disseram, ele partiria, era um pequeno cais, no meio de uma encosta rochosa na beira de uma praia quase deserta.

O crepúsculo se aproximava, nuvens cinzas cobriam o céu, tornando o dia mais triste ainda, um temporal se avizinhava, era apenas uma questão de minutos que caísse, o vento frio, inclemente, aumentava o desconforto, não conseguia impedir que o maxilar involuntariamente se mexesse, o barulho dos dentes se chocando era tão natural quanto tentar respirar, apenas a vontade de me despedir era maior que tudo isso.

Desci os degraus de três em três, eram escorregadios, haviam sido esculpidos há muito tempo, além disso o constante uso por décadas os deteriorava, os que utilizavam o cais, arrastavam suas pequenas embarcações por ali, provocando um desgaste maior do que o das intempéries, verdadeiras armadilhas, por muito pouco não cai. De repente vislumbrei uma figura dentro da água, empurrava o pequeno bote à remos, a água chegava-lhe aos joelhos, olhava absorto para um ponto, parecia que estava vendo alguém, antes que pudesse gritar o seu nome, a forte chuva, esperada, mas não desejada, caiu, o vento soprava forte e o céu escureceu, coloquei as mãos, qual viseira, sobre a testa para poder continuar acompanhando os movimentos daquela figura, agora quase indistinta, já não tentava descer os degraus ao seu encontro, sabia que seria impossível, queria pelo menos vê-lo partir, isso seria um pequeno consolo, já que, naquele momento, percebera que não iria conseguir falar com ele.

Entrou no bote, tomou os remos e começou a se afastar da costa lentamente, olhou em direção aos rochedos sobre os quais eu me encontrava, a impressão que eu tive foi que ele não me viu, mas durou alguns segundos olhando para aquela direção, até que virou o rosto e começou a remar vigorosamente. Ao contrário do que eu pensara ele não tinha se assentado de costas para a proa do barco, ele se colocara de frente para a proa, o que fazia com que visse apenas as suas costas, e, fato que me impressionou bastante, foi que ele usava apenas um remo, nunca soubera que ele manuseava com tanta perícia aquele artefato. 

Recuei um pouco e subi de volta alguns degraus, queria que ele me visse, caso olhasse para trás outra vez, a chuva diminuiu, o vento começou a soprar na direção contrária, da terra para o mar, o  que fazia com que a velocidade do barco aumentasse gradativamente.

Sentei-me num rochedo e contemplei com espanto o progresso que vazia, se afastava da costa cada vez mais rápido, a escuridão das nuvens cinzas arrefeceu, uma réstia de luz furou as nuvens e circundou aquele pequeno bote, eu só conseguia ver uma pequena sombra, não conseguia divisar a forma humana do objeto em si, as lágrimas salgadas se misturaram à miopia inclemente e lentamente o ocultaram de minha vista.

Em questão de minutos, o barco se aproximou da linha do horizonte, ali onde o mar se confunde com o céu, em pouco tempo eu não seria mais capaz de vê-lo, me levantei em reverência àquela perda irreparável, enquanto refletia sobre aquele momento tão triste, pensei te-lo visto ficar em pé no barco e acenar, meu coração palpitou desesperado para que eu acenasse de volta, só então quando um forte trovão ribombou, eu me dei conta de que ele não acenava para mim, nas sim para o "outro lado do horizonte", acenava para alguém que o estava esperando na outra margem.

Fiz todo o caminho de volta, não havia mais desespero e nem ansiedade em minha alma, quando cheguei em cima, olhei mais uma vez, porém não via mais nada, enxuguei as lágrimas, esbocei um sorriso de satisfação, pois havia compreendido que ele havia voltado para casa e que eu um dia faria o mesmo, mas ainda não, pelo menos não hoje.

Tributo ao amigo que se foi Rodrigo Azevedo, o Gral.

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul. 

 By William Ernest Henley



Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.
[Este tornou-se o meu "mote" desde Maio de 2013]

Num meio-dia de Primavera


Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale à pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro 
Fonte: Fernando Pessoa