Sua Graça Revmª D. Rowan Williams

Já se vão mais de 1.400 anos, desde que o beneditino Agostinho desembarcou como bispo na Inglaterra no outono de 597, enviado pelo Papa Gregório Magno, o iniciador da Idade Média, para representar a Sé romana na Bretanha. A obra dele consistiu em levar o evangelho aos povos bárbaros que então habitavam a ilha.

Como sinal da incalculável herança histórica e de renovo, os mais de 70 milhões de anglicanos espalhados pelo Mundo, em comunhão com a Sé de Cantuária, têm novo líder espiritual desde o último dia 27/02. Por meio de ritual que se perpetua milenarmente, foi entronizado Sua Graça D. Rowan Williams, o 104º Arcebispo de Cantuária, dele se pode dizer que nasceu para a púrpura. O galês Rowan, é o primeiro arcebispo de Cantuária, desde o Século XVI que não pertence à Igreja da Inglaterra, além de ser o mais jovem, dos últimos tempos. Piedoso, possuidor de espiritualidade profunda, reconhecidamente culto, porém dotado de humildade verdadeira, todos o tratam pelo primeiro nome, coisa pouco comum na fleumática Inglaterra.

Certamente que, uma das tônicas de seu arquiepiscopado será engajar mais ainda, a Igreja da Inglaterra com a sociedade e com a cultura. Se ela seguir seu exemplo pessoal, certamente que se envolverá, e muito, em questões sociais e éticas. Em 1980, quando ainda era o capelão no Claire College, participou de um protesto a favor do desarmamento nuclear, em Cambridge, na frente da base aérea norte-americana, acabou preso. Ele também é contra a guerra no Iraque, acredita que ela segue intenções escusas, que não justificam o morticínio que acontecerá, considera-a como "imoral". Chegou a criticar veementemente o ataque ao Afeganistão, além de defender a abolição das sanções contra o Iraque. De outra feita "orientou" o primeiro-ministro Tony Blair, anglicano, a empregar ética no comércio internacional de armas, e ressaltou a obrigação que ele tem, (Blair) de diminuir os índices de pobreza e de fome no Mundo.

É crítico ferrenho na área de política e voz ativa clamando contra a injustiça social. Não é arcebispo por geração espontânea, foi eleito por vontade da igreja, por vontade de Deus. Teologicamente ele é o que se pode chamar de conservador ou ortodoxo, pois defende Verdades Credais: encarnação de Deus, nascimento virginal, ressurreição histórica de Jesus. "... O vento sopra onde quer..." Esse sopro de Deus que atinge a Igreja da Inglaterra, prenuncia o seu renovar contínuo pelo Espírito, é resposta à oração: "... dirige o que seremos...". Sopra Senhor!

Diário de Pernambuco Edição de Sexta-Feira, 21 de Março de 2003

Receita da fama

Segundo Sto. Estevão, diácono da igreja primitiva, Moisés, o príncipe do Egito, passou de sua infância até seus quarenta anos no Egito sendo instruído em toda ciência e sabedoria antigas, depois quarenta anos no deserto pastando cabras, sendo instruído pragmaticamente a como sobreviver em meio à adversidade em terras áridas, depois mais quarenta anos liderando o povo de Israel na jornada à terra prometida, aplicando o que tinha aprendido nos dois primeiros terços de sua vida e aprendendo como liderar uma turba pusilânime e melindrosa, assim ele tornou-se famoso, mesmo que não tenha sido essa a sua vontade.

João, o Batista, segundo o relato do Evangelho, primo de Jesus, era uma personalidade excêntrica e extravagante, mas também era um ser dirigido e guiado pelo Espírito de Deus. A despeito de sua esquisitice, foi considerado por Jesus como o maior dentre os nascidos de mulher. Nunca buscou a fama, mas a adquiriu por sua vida e na sua morte, que ocorreu por manter-se apegado ao que cria e ao que pregava.

Santo Agostinho, bispo, um dos pilares do pensamento do Cristianismo ocidental, nunca procurou a glória, mas ela veio, dizia: "... porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso...". Dessa forma viveu uma odisséia em busca de Deus, esquecendo-se de si mesmo, tornou-se famoso, mesmo que desprezasse tal coisa.

São Francisco de Assis, il poverello, conquistou a notoriedade justamente ao se afastar dela, sua humildade e sua busca incessante em seguir as pegadas do Nazareno, o fizeram uma das maiores personalidades da história do Cristianismo. Nunca procurou a fama, embora ela tenha vindo.

Lutero, o homem do Castelo Forte, entristeceu-se profundamente quando viu seu nome unido a uma igreja. Não queria ser lembrado, não queria a fama. Suas palavras em Worms: "... não é seguro e nem certo ir contra a consciência...", o tornam uma das maiores personalidades do Mundo, ao defender a liberdade de expressão. É lembrado em qualquer compêndio de história, embora se achasse apenas um simples monge.

Existem muitos modos diferentes de ser famoso, alguns difíceis e outros menos difíceis, mas todos árduos e trabalhosos. Alguns precisaram morrer para que seu nome fosse escrito nas pedras da História.

Mas a luz do Século XXI trouxe consigo uma receita imbatível e fácil de alcançar a fama: não é necessário fazer o que essas pessoas fizeram, basta participar de um reality show e a fama cai de pára-quedas na sala, sem o mínimo esforço.

Diário de Pernambuco Edição de Terça-Feira, 11 de Março de 2003

Mártires nossos de cada dia

Habacuque, um profeta existencialista, que viveu entre 600 e 300 a.C., era um homem de fé, ainda que arrazoando com Deus, ainda que duvidando d'Ele. Chegou pois a questionar a intervenção divina na história humana, quando indagou em suas pressuposições kierkegaardianas: "Até quando clamarei eu e tu não me escutarás?..."Era um homem cansado e desenganado.

Clamores contemporâneos! Queixas hodiernas! Reclamos de alguém que anseia pelo advento do Reino de Deus. Quando Deus perguntou a Caim onde estava Abel, usou uma figura muito vívida "...a voz do sangue de teu irmão clama a mim desde a terra..." Ele ouviu os brados metafóricos, os gritos lancinantes por justiça, feitos por uma voz silenciosa, muda, inaudível. São dois brados, são dois gritos, são dois protestos antitéticos, de um lado o profeta de Deus que ainda tem voz para reclamar, do outro o sangue do mártir que já não pode falar nem clamar, a violência calou sua voz.

O sangue clama porque não há quem grite em seu lugar, não há quem fale por si, então ele sobe em clamor até Deus. Tertuliano dizia que o sangue dos mártires cristãos, vítimas da sanha sanguinária e da violência gratuita do Império Romano, servia de insumo para um novo semear do Espírito Santo.

Mártir, um termo que bem pode ser interpretado como testemunha, é todo aquele que morreu por uma causa, dando sua morte como legado da vida e das idéias que defendeu, como combustível que impulsiona aqueles que testemunham sua morte e sua vida. Foi assim com os primeiros cristãos, com os atraiçoados da Guanabara, com os curdos, com os judeus durante quase toda sua história, com os afegãos, com os kosovares, com os palestinos e agora com o povo Xukuru.

Mártires de todos os dias, do cotidiano, mortes banais, pois caem rápido demais no esquecimento. Quando alguém fala em nome de outro que foi imolado, o sangue dele descansa em paz, mas quando calamos por medo ou omissão, seu sangue sobe até Deus. Como Habacuque, sinto-me cansado de ter que ir ao Monumento Tortura Nunca Mais, pois não tenho ido para depositar flores, tenho ido com muitos outros cúmplices e conspiradores da paz em busca de justiça, para gritar que a violência ainda não acabou.

Somos famintos de sede e de justiça, ainda temos voz, por isso não podemos deixar que o sangue dos mártires precise subir até Deus, falemos por eles, pelo povo iraquiano, curdo, afegão, xucuru, atikum, palestino e os nossos irmãos que são sacrificados todos os dias pela violência. "Venha o Teu reino".

Diário de Pernambuco Edição de Sexta-Feira, 7 de Março de 2003
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