Colcha de retalhos (I)


Rever o passado olhar com olhos calmos pro meu presente e fazer o possível para não ficar pensando no futuro – ao menos nesse futuro daqui alguns anos que ninguém na verdade sabe se chegará -. Fecho os olhos e começo a pedir. Não são coisas muito complicadas de serem atendidas. Ao menos eu acho que não. Apenas me concentro em cada rosto que já conheci até hoje e nos sentimentos que tenho por cada uma dessas pessoas. Que não nos faltem bons sentimentos sejam no Natal ou em qualquer dia do Ano Novo que se aproxima. Que nos falte egoísmo. Que nos sobre paciência pra enfrentar mais trezentos e sessenta e cinco – ou seria trezentos e sessenta e seis? – dias. Que sejamos capazes de enxergar algo de bom em cada momento ruim que nos acontecer. Que não nos falte esperança. Que novos amigos cheguem. Que antigos amigos sejam reencontrados. Que cada caminho escolhido nos reserve boas surpresas. Que músicas de letras e melodias bonitas nos façam suspirar. Que a cada sorriso que uma criança der nos faça ter um bom dia e enxergar uma nova esperança. Que nos sobre tempo para beber e conversar com os amigos. Que cada um de nós saiba ouvir cada conselho dado por uma pessoa mais velha. Que não nos falte vontade de sorrir apesar dos pesares. Que sejamos leves. Que sejamos livres de preconceitos. Que nenhum de nós se esqueça da força que possui. Que não nos falte fé e amor.

*  *  *

Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças. Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser à toa (...) Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.

* * *

Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto.

*  *  *

Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde. Mais dinheiro. Mais poesia. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

A Igreja evangélica e a ditadura militar de 1964


O Golpe Militar
Em 1964, os militares deram um golpe de estado depondo o então presidente João Goulart. Este golpe aconteceu no dia 31 de março de 1964.

De 1964 a 1985, o Brasil viveu um dos períodos mais negros de sua historia. A democracia foi abolida o estado de direito deixou de existir. Qualquer cidadão podia ter seu lar invadido pelas tropas do exército, para isto bastava uma denúncia sem qualquer tipo de comprovação.

O assassinato de pessoas por órgãos militares virou rotina, a tortura aos presos passou a ser algo normal. O total de desaparecidos durante os anos de ditadura, até hoje não foi revelado, o certo é que muitas famílias viram seus entes queridos serem presos por motivos fúteis e nunca mais voltarem para casa. Muitas jovens mulheres foram violentadas nos porões da repressão militar só por serem filhas de acusados de traidores do regime. Muitos pais confessaram crimes jamais cometidos apenas para não verem seus filhos serem torturados.

É triste ouvir pessoas dizendo: “tempos bons eram os tempos da ditadura”. São pessoas totalmente desinformadas, que só sabiam o que o governo permitia que fosse divulgado. A imprensa em geral vivia amordaçada, sem poder publicar noticias que divulgassem a maldade e os atos criminosos dos militares.

A Igreja Evangélica durante a Ditadura
O 31 de março de 1964 marcou mais do que uma reviravolta nos rumos do país. Foi também um momento crucial para a Igreja Evangélica no Brasil. O mesmo golpe que tirou do poder o presidente João Goulart, afetou também os púlpitos. Sobretudo aqueles onde o pregador tinha coragem de defender a cidadania e a liberdade de expressão. Muitos pastores foram presos, crentes torturados e até desaparecidos nos porões da ditadura. Quem era evangélico e tinha atuação política ou comunitária nos anos pós-64 tem lembranças amargas.

O Departamento de Mocidade da Confederação Evangélica do Brasil (CEB) foi à primeira entidade de orientação evangélica a sofrer a perseguição do regime. A CEB promovia a cooperação entre as igrejas nas áreas de ação social, educação cristã e atividades diaconais. Foi fechada sem direito de defesa. Reunindo algumas das principais correntes evangélicas do país, como as igrejas Presbiteriana, Luterana, Metodista, Assembléia de Deus e Congregacional, a CEB promoveu eventos que ficaram célebres como a Conferência do Nordeste, em Recife (PE), com o tema “Cristo e o processo revolucionário”. Foi a primeira vez que os cristãos e os marxistas se encontraram para discutir a relação da igreja com a realidade social e cultural brasileira. Um dos preletores foi o sociólogo Gilberto Freyre. A conferência do Recife reuniu 160 delegados de 16 denominações evangélicas. Houve uma grande repercussão em todo Brasil. A CEB reunia os líderes para discutir como a Igreja Evangélica enfrentaria a nova realidade: o agravamento da crise econômica e social, da pobreza e da desigualdade social. A Igreja estava em busca de uma identidade nacional, foi um período rico na busca de um caminho, a igreja brasileira refletia os mesmos movimentos da sociedade.

No início dos anos 60, a sociedade brasileira vivia os conturbados anos posteriores à renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961. Era uma época de incertezas. Jânio foi sucedido por seu vice, João Goulart, cuja postura mais à esquerda incomodava os setores conservadores e acendeu a "luz vermelha" nos Estados Unidos, que temiam o surgimento de uma Cuba no Cone Sul. A polarização entre esquerda e direita era inevitável, inclusive dentro das igrejas. Muitos setores criticavam o envolvimento da Igreja com a política, para eles o papel do crente era apenas pregar o evangelho.

Quando o golpe se intensificou e as perseguições começaram a apertar o cerco sobre as igrejas, o movimento da Conferencia do Recife se desfez. O Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas (SP), foi fechado e os alunos expulsos. Colégios e faculdades de teologia, também expulsaram professores que tinham a visão de uma nova Igreja. Para os militares os inimigos estavam em todos os lugares, inclusive nas igrejas. A Faculdade Metodista Rudge Ramos em São Paulo foi fechada por ordem do governo militar em 1967, depois que os formandos escolheram D. Helder Câmara, bispo de Olinda e Recife e inimigo declarado dos “fardados”, como paraninfo da turma.

Naquela época os jovens evangélicos eram politizados, preocupados com o país. A ideologia era ensinada também na escola Dominical de algumas igrejas.O templo da Igreja Metodista Central de São Paulo foi cercado pela policia e muitos jovens saíram presos. O pastor da Igreja Batista em Volta Redonda no Rio de Janeiro, Geraldo Marcelo, foi preso três vezes como agente da subversão, chegando a ficar 43 dias em poder dos militares. Hoje ele conta que superou os traumas e relembra os cultos que realizava na cadeia: “cinco companheiros se converteram e um deles hoje é pastor”. O pastor Geraldo conta que sofria torturas diárias, pensou em suicídio para não entregar os irmãos na fé. “Eu pensava em me matar. A pressão era muito grande. Só que eu era forte, precisava de cinco ou seis agentes para me torturar”, conta ainda comovido com as lembranças. “Foi pela ação de Deus que eu não morri, eu me sentia como Jesus, querendo passar de mim aquele cálice”.

Neste tempo o número de evangélicos no pais era na ordem de 4,5% da população. Então porque uma comunidade tão pequena incomodava tanto o regime? As ações da repressão militar mostram que o pequeno grupo causava incômodo. A explicação é simples: num pais que tinha 39% de analfabetos, os evangélicos eram uma elite pensante, exercia influencia política e era percebido socialmente. Nem todos os crentes no entanto faziam parte deste grupo, a igreja em geral se comportou muito mal, o medo das mudanças reforçou o conservadorismo, e muitas igrejas cediam seus púlpitos para propaganda a favor do regime militar. Muitos pastores entregaram ao Regime, membros de suas igrejas, acusando-os de comunistas. Os que entregavam colegas era beneficiados pela Ditadura.

A partir de 1970 houve um desmonte da consciência política da Igreja Evangélica Brasileira, um movimento com forte influência americana, o chamado "Grupo da Califórnia", da extrema direita protestante americana, uma organização com muito dinheiro veio para o Brasil. A ação desse movimento consistia em enviar ao Brasil professores de teologia e recursos para tocar projetos educacionais ligados as igrejas. Era o fortalecimento da direita dentro das igrejas, e consequentemente o enfraquecimento e afastamento da liderança de pessoas com pensamento e ação anti-ditadura. A partir de então, os evangélicos que eram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, não recebiam qualquer apoio das igrejas, sequer palavras de apoio, lembram alguns pastores que foram presos. Um pastor, que passou 11 meses preso no famigerado DOI-Codi, principal orgão de repressão do regime militar, soube pelos torturadores que foi denunciado por um pastor da Igreja Metodista.

A certeza só veio quando anos depois teve acesso à sua documentação nos arquivos da ditadura. No processo dele estava o bilhete que dois pastores de sua igreja enviaram ao coronel Faustine, diretor do Serviço Nacional de Informações, o entregando. Havia uma aliança implícita entre os setores conservadores da Igreja e os órgãos de repressão. A falta de registros históricos do período da ditadura pela Igreja Evangélica é uma das formas de não revelar seus paradoxos. A mesma denominação que delatou esse pastor também tinha setores que o apoiavam e à sua família. Pastores tentaram visitá-lo e não conseguiram. Igrejas se reuniam e oraram pelos presos, em atos de fé e coragem.

A Igreja Metodista do Brasil pediu perdão, oficialmente aos que foram denunciados e presos por atos de líderes da denominação. Mas, muitos protagonistas da repressão que agiram de dentro das igrejas evangélicas, que colaboraram com o Regime Militar, entregando irmãos na fé, preferiram o silêncio.

Conclusão
Hoje, depois de poucos anos passados, a maioria do povo não sabe o que realmente acontecia com os considerados inimigos dos militares, não sabem que muitos pastores foram presos e torturados. Por isso se ouve alguns irmãos elogiando os tempos da ditadura.

Durante os vinte e um anos em que durou a ditadura, nosso país sofreu um atraso em muitas áreas, principalmente a de informática e tecnologia. Muitos cientistas foram “convidados” a deixarem o Brasil, isto nos causou prejuízos até hoje não recuperado. Por isso ainda somos dependentes externos em varias áreas da informática e tecnologia.

Então procure se informar mais sobre a historia recente de seu país, só assim você saberá que muitos dos que elogiam os militares não sabem do que estão falando.

Rev. João Dias de Araújo é clérigo da Igreja Presbiteriana Unida e autor do livro Inquisição sem fogueiras, que estuda o período de exceção da ditadura dentro da IPB

Publicado originalmente na Revista Eclésia
Fonte: MEP Recife

Ler ficção para entender a realidade!


Foi por meio de duas obras de Brennan Manning (O impostor que vive em mim, tradução brasileira de Abba's child, publicada pela Mundo Cristão em 2006 e Falsos, metidos e impostores, tradução de Posers, fakers and wannabes que é uma versão juvenil do primeiro, também publicada pela Mundo Cristão:2008), uma de Philip Yancey (Rumores de outro mundo, tradução de Rumors of another world, publicada pela Vida, 2004) e uma de Eugene Peterson (Trovão Inverso, tradução de Reversed Thunder publicado por Habacuc, 2005) que eu fui apresentado “oficialmente” à Flannery O’Connor.

A frequência com que ela era citada nas obras que listei, noutras dos mesmos autores e ainda em outros tantos livros que li, de autorias as mais diversas, que eu não citei aqui, aguçou a minha curiosidade, além do mais, as citações eram sempre qualitativas e corroborativas, numa palavra, todos lhe eram simpáticos. A tríade de autores a qual me referi no inicio, além de ser composta de grandes escritores da atualidade, contribuiu bastante para a minha formação espiritual, já que li todos os livros dela que me chegaram às mãos, isto significa dizer mais de 40 títulos, e por isso, por considerar o pensamento de cada um relevante, que eu tive a curiosidade exponenciada pelas obras de Flannery, se um padre católico com forte vocação para o álcool, casado e divorciado, um tolerante episcopal, ex-batista fundamentalista, de origem racista e preconceituosa e um teólogo presbiteriano de tão larga erudição que traduziu uma versão da Bíblia para sua própria meditação, garimpavam (devo esta conotação ao saudoso Mestre Othon Dourado do Seminário Presbiteriano do Norte em Recife) os escritos dela em busca de algo que tivesse significado, eu que os lia com avidez deveria portanto fazer o mesmo, se ela alimentava as ideias deles e eles alimentavam as minhas, nada mais natural que procurasse a fonte onde bebiam.

Foi assim então que comprei Contos completos (Cosacnaify:2008, 715 páginas), a primeira vez que tive este volume em minha mãos, o contemplei com uma fleuma sacerdotal, virei-o para olhar a contracapa e só então o abri com uma devoção incomparável. Desde então li duas vezes este livro e iniciei recentemente a terceira leitura. E a cada leitura um mundo novo se descortina diante de meus olhos que já não são mais olhos de marinheiro de primeira viagem.

O mundo protestante brasileiro precisa conhecer a católica estadunidense Flannery O'Connor, não apenas por ser tão citada por expoentes literários modernos, mas, principalmente, pelo mundo de relações densas (permeado de hipocrisia e preconceito, com personagens complexos, que ela enclausurou, muito bem, num universo religioso tão sui generis quanto caricaturesco, estereotipando-os), que ela pinta nas páginas de seus contos, tal como um pintor faria em suas telas por meio de um pincel. O resultado é magnífico, a sua obra é como um grande painel daqueles que vemos em alguns museus e pinacotecas, para poder apreciá-lo devidamente, temos que nos aproximar com cuidado para entender os detalhes, mas temos também que nos afastar para contemplar o todo e poder assim encaixar cada peça em seu devido lugar. Isso ajudaria com certeza ao ethos protestante brasileiro tão diverso (e tão sem consciência do seu papel e da diversidade interna, a ponto de não podermos chamá-lo de protestantismo, mas sim de “protestantismos”), a descobrir caminhos que permitam o exercício de uma espiritualidade sadia, diversa e inclusivista, com resposta à altura dos anseios do homem moderno, sem que com isso perca de vista os marcos bíblicos.

Mary Flannery O'Connor nasceu no sul dos Estados Unidos, em Milledgeville na Geórgia (a mesma Geórgia de Ray Charles em Georgia on my mind, que se tornou o hino do estado), em 1925, era filha única de pais católicos, descendentes de imigrantes irlandeses, isso por si só já diz em que tipo de catolicismo ela foi criada. A sua formação em Sociologia e Inglês, em 1945, e o posterior programa de Mestrado em Criação Literária na Universidade do Estado de Iowa que cursou, a capacitaram a enxergar aquele universo em que habitava de uma forma muito particular e específica. A cidade em que nasceu tinha pouco mais de 10.000 habitantes, acompanhando a tendência do estado, e da região em que estava inserida, era uma cidade de maioria branca, protestante e rural, com investimentos altíssimos na agropecuária. O estado possuía mais de de 50 mil fazendas, que ocupavam aproximadamente 30% de todo o território. A economia da região agiu sobre a formação do povo e até mesmo sobre aspectos religiosos, como cultivavam o algodão, arroz e milho, necessitavam de mão-de-obra barata, e isso só podia ser equacionado com a escravidão, no período em que Flannery nasce a abolição já tinha acontecido, porém as consequências de centenas de anos de escravidão tinham impingido na sociedade marcas que outras centenas de anos seriam necessárias para que reconciliassem tantas divergências, e isto é bastante exposto e explorado na obra de Flannery, sendo um dos seus temas subjacentes.

A sua vocação literária foi se revelando aos poucos desde a sua infância, quando passou a colaborar com o jornal da escola com artigos e desenhos satíricos. Quando tinha apenas quinze anos ela perde o pai, que foi vítima do lúpus, uma doença infecciosa do sangue, de caráter hereditário. Quando ainda estudante de sociologia ela já era atuante nos veículos literários do Georgia State College for Woman, e por conta de suas talentosas publicações se tornou conhecida do escritor Robert Penn Warren e de editores de uma revista literária, que abriram-lhe caminho para suas primeiras publicações. Após a graduação passou a lecionar e em 1952 publicou seu primeiro romance Wise blood (que foi para o traduzido para o português por José Roberto O’Shea e recebeu o título de “Sangue sábio”.

É esta católica branca tentando sobreviver numa região dominada pela maioria branca protestante e democrata, uma verdadeira remanescente (o catolicismo representava menos de 8% da população) numa região em que o fundamentalismo se propagou com facilidade e onde a famigerada Ku Klux Klan plantou suas sementes de ódio, racismo e preconceito que pode exercer uma influência benéfica sobre a mente protestante brasileira.

Ela utiliza-se de forma magistral de diversos elementos, alguns de forma contraditória, do sul dos Estados Unidos e cria um mundo ficcional, mas nem tanto, onde ambienta a sua obra, utiliza ainda, habilmente, diga-se de passagem, da violência que era comum à região como instrumento para provocar no leitor respostas aos seus questionamentos sub-reptícios (ou seja, furtivos), choca com a realidade de sua ficção, porém ainda que provoque continuamento o leitor branco e protestante, ela diverte este mesmo leitor ao apresentar o lado mais grotesco possível de seus personagens caricatos.

Em 1964, quando só contava com 39 anos morreu de lúpus, a mesma doença que vitimou seu pai, foi uma das mais curtas e ricas carreiras literárias que se tem notícia, ela escreveu mais um romance, três volumes de contos e ensaios. E se tornou reconhecida como uma das maiores contistas de todos os tempos, recebendo por isso a honra de figurar entre os principais escritores contemporâneos, sendo comparada, não sem motivos, com William Faulkner, um grande nome da literatura mundial e, o maior nome da literatura do sul dos Estados Unidos.

Num evento que abordou a dificuldade de escrever literatura secular e conciliar isso com uma fé credal ela disse: “... O romancista e o crente, quando não são o mesmo homem, ainda mantêm muitos traços em comum – uma desconfiança do abstrato, um respeito pelos limites, um desejo de penetrar a superfície da realidade e de encontrar em cada coisa o espírito que o faz ser o que é e sustenta o mundo unido. Mas eu não acredito que tenhamos uma grande ficção religiosa até que tenhamos de novo a feliz combinação de um artista crente e uma sociedade crente. Até que chegue esse tempo, o romancista terá de fazer o melhor que puder no trato com o mundo que tem. No fim, ele pode constatar que, em vez de refletir a imagem no coração das coisas, ele apenas refletiu nossa condição decaída e, por meio dela, a face do mal pelo qual estamos todos possuídos. É uma realização modesta, mas talvez necessária.” Veja O romancista e o crente.

Isto nos deixa com muita coisa para pensar, muita mesmo: como ter uma visão realista do universo que nos cerca, sem perder de vista as relações que se dão em seu interior e ao mesmo tempo como criar um outro “mundo possível” apresentando uma outra realidade que não seja utópica, sendo moldada por preceitos bíblicos? Como ter fé num mundo hipócrita e cruel? Como ter fé num mundo racista e preconceituoso? Como preservar a Imago Dei num ser falível, sem deixar que as falhas humanas o tornem uma mera caricatura daquilo para o que foi criado? É um longo caminho a percorrer, fica mais fácil usando a bússola de Flannery, seja seguindo suas lições, seja não seguindo os seus personagens.

Clamor!


"Muito tempo depois, morreu o rei do Egito. Os israelitas gemiam e clamavam debaixo da escravidão; e o seu clamor subiu até Deus. Ouviu Deus o lamento deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó. Deus olhou para os israelitas e viu qual era a situação deles. (…) [Deus disse ainda a Moisés]: "Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó". Então Moisés cobriu o rosto, pois teve medo de olhar para Deus. Disse o Senhor: "De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, e também tenho escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo. Por isso desci para livrá-lo das mãos dos egípcios e tirá-los daqui para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel: a terra dos cananeus, dos hititas, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus. Pois agora o clamor dos israelitas chegou a mim, e tenho visto como os egípcios os oprimem. (Êxodo 2:23-25; 3:6-9 – Nova Versão Internacional)
Do dicionário: clamar (lat clamare) 1 Bradar, gritar, proferir em altas vozes. 2 Protestar, vociferar. 3 Exorar, implorar.4 Exigir, reclamar.

Em várias passagens a Bíblia afirma que Deus ouve o clamor do Seu povo e age em seu favor. O clamor do povo de Deus move o Seu Coração e O faz agir de forma absoluta, transformando a realidade, mudando a situação! O texto de Êxodo, acima, é um dos exemplos.

Mais do que uma oração de intercessão ou de petição, o clamor é uma oração de exigência, de protesto, diante de uma situação real que contraria o projeto de Deus e Sua promessa. O clamor revela principalmente, indignação! Deus ouve o clamor e se move porque o clamor representa também uma disponibilidade de mudança e de obediência à Sua Vontade por parte de quem clama!

O clamor significa total dependência à vontade de Deus e confiança em Seu Amor. Afinal, clamar é decorrente da percepção que todas as tentativas feitas por nós mesmos resultaram em fracasso, a realidade continua opressiva e a vida insuportável. O verdadeiro clamor surge desta percepção da realidade e da nossa incapacidade de mudar essa realidade por nós mesmos! Esgotaram-se todos os recursos humanos disponíveis. Nada resta senão clamar diante de Deus e abrir-se à Sua ação.

Não se trata de desespero! mas de profunda esperança na ação amorosa de Deus, e disponibilidade de agir conforme Deus dará, através do Seu Espírito, a inspiração e a direção para o movimento de mudança, estando Ele mesmo agindo conosco!

Portanto, o clamor não significa passividade na espera do agir de Deus, mas disposição e abertura da mente para perceber e acolher a orientação de Deus, e agir conforme tal orientação. Os israelitas clamaram e Deus levantou Moisés para comandar a ação do povo; Moisés fez sua parte, admoestando o Faraó e conclamando o povo; Deus fez sua parte agindo diretamente contra o Egito; o povo fez sua parte, dispondo-se a caminhar rumo ao desconhecido – uma nova terra, prometida por Deus – permitindo que Deus o guiasse através do deserto, por longo tempo... a nova realidade não acontece de imediato, implica em uma nova caminhada e disposição de caminhar!

Há momentos em nossa vida que precisamos clamar. Há momentos na vida da comunidade e da Igreja em que precisamos clamar! Não tenhamos medo de fazer isso, de protestar diante de Deus, pois Deus tem um compromisso conosco, o compromisso da Paternidade e da Maternidade. Clamar não é “cobrar de Deus”, mas afirmar que estamos dispostos a assumir nossa parte em Sua ação transformadora da realidade, que vamos agir, não mais sozinhos, mas com Ele!

A humanidade, e portanto a Igreja de Deus, vive hoje situações realmente complicadas. Quando analisamos friamente a realidade sentimo-nos impotentes. Há elites que governam tudo e impõem os valores da morte para garantirem sua vida. Como no antigo Egito! É necessário clamar diante de Deus! e seguir com Ele um novo caminho!

Podemos estar vivendo uma situação de vida complicada, com sérios problemas de saúde, com dificuldades financeiras, totalmente impotentes diante da situação. É necessário clamar diante de Deus e estar atento ao Seu mover, com disposição para seguir Sua orientação, e fazer o que nos couber fazer!

Não tenha receio! Deus te ama! Clama diante de Deus contra aquilo que te oprime, que te traz indignação! O Senhor ouvirá o teu clamor! e te dará forças para um novo caminhar, pois caminhará contigo!

Luiz Caetano, ost
Fonte: Paróquia Episcopal Anglicana São Paulo Apóstolo

Maior Tortura


Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite,
E não tenho nem sombra em que me acoite,
E não tenho uma pedra em que me deite!

Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços!
Perco-me em mim na dor de ter vivido!
E não tenho a doçura duns abraços
Que me façam sorrir de ter nascido!

Sou como tu um cardo desprezado
A urze que se pisa sob os pés,
Sou como tu um riso desgraçado!

Mas a minha Tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para concretizar a minha Dor!

Florbela Espanca - Trocando olhares

Candeias apagadas, vidas despedaçadas!



A nota começa de forma lacônica: "Há um bálsamo em Gileade" cantaram os coristas em um culto solene no sábado dia 19 de maio de 2012, que marca o fim de 161 anos de vida em adoração da Catedral Episcopal de St. John, em Wilmington, estado de Delaware, nos Estados Unidos…”. A canção, que talvez não seja muito conhecida do evangelicalismo tupiniquim, é o leitmotiv adequado para a ocasião, me arrisco de que esta classificação que fiz possa ser chamada de despropositada, em virtude de ser uma canção desconhecida, ainda assim insisto que, além de ser uma peça bastante tradicional da hinódia evangélica é nada mais, nada menos, do que isso: um leitmotiv.

Continua a nota: “... Tragicamente, ele não tem mais fiéis para manter as portas abertas. O Ex-Bispo Presidente da liberal Igreja Episcopal dos Estados Unidos Frank Griswold fez um sermão de “ação de graças" para desfazer o "espaço sagrado" e "lugar sagrado" e "deu graças pela presença sagrada "[seja lá o que isso signifique]. Mas na verdade seu sermão era um elogio, um culto in memoriam para uma catedral que vai agora juntar-se a muitas outras paróquias que fecharam as portas na Igreja Episcopal dos Estados Unidos. Talvez, com o tempo, a Catedral Nacional de Washington também poderá fechar. Mais Catedrais da Igreja Episcopal estão quase sem fieis. Ao longo dos próximos 20 anos elas vão calmamente fechar e serão vendidas para se tornarem prédios seculares. […] Nesse “culto in memoriam” pela primeira vez em anos, a Catedral estava cheia com cerca de 300 pessoas. Foi a última vez que esse santuário teve fieis. […] Em julho, um desmantelamento terá lugar, uma espécie de funeral eclesiástico para a família e amigos, e a Catedral será então desmontada e seus objetos litúrgicos, bancos, peças, incluindo um magnífico conjunto de vitrais sobre o altar, serão vendidos pelo maior lance. "FIM”. Termina a nota de forma tão lacônica quanto começou.

Li esta funesta nota (que mais parece um daqueles anúncios na seção “Avisos Fúnebres” em algum jornal de terceira categoria), na última terça (22) no site da Diocese Anglicana do Recife (www.dar.org.br), não sei ainda qual o sentimento prevalecente, se tristeza, pesar, amargura, desapontamento, etc, só o tempo é que dirá, o fato em si, para mim é inclassificável. Sei apenas que durante a leitura fui tomado por uma amargura que me acompanhou até o fim, e que perdurou por muito tempo após, e esta sensação volta quando reflito sobre o conteúdo da nota. Ainda que conhecedor das escrituras (diria que até mesmo um pouco acima da média, mesmo correndo o risco de parecer pretensioso, mas afirmo isso em virtude de ter lido e estudado a Bíblia desde os meus 08 anos de idade, antes de completar 10 anos já a tinha lido três vezes de capa a capa, e passei a ensiná-la na igreja quando tinha por volta de 14 anos) e sabedor de que isto foi previsto por Jesus e por seus apóstolos, ainda assim sou tomado por um sentimento de inadequação e pesar, ainda mais sabendo que tal comunidade faz parte da família confessional à qual pertenço.

Este excerto me fez lembrar de uma história antiga e triste que, eu creio ser ideal para nos conduzir à uma reflexão sobre estes acontecimentos, haja vista que não podemos simplesmente ignorar os fatos e nem tampouco podemos deixar de retirar alguma lição preciosa, vamos à ela:

Quando os primeiros raios de sol da alvorada refulgiram naquelas encostas, foi que se pôde avaliar com precisão o que tinha de fato acontecido naquela que talvez tenha sido a mais sombria, tempestuosa e trágica noite que tinham vivido até então. Eram centenas de corpos despedaçados nas rochas, alguns estavam intactos, outros já tinha sido devorados parcialmente pelo cardume de tubarões que passou a noite se refestelando naquela baía, ao alvorecer, com o apetite saciado, rondava os corpos, arrancando pedaços apenas para obedecer ao seu próprio instinto destrutivo. De cima das rochas podia-se ver ainda algumas manchas de sangue que se dissipavam. Restos da embarcação, as velas rasgadas, cordas, tonéis boiando, um dos mastros quebrado pela fúria dos ventos, botes quebrados, madeirame do calado partido ao meio, equipamento do convés, além de diversos restos de comida e utensílios da cozinha jaziam na beira da praia, tornando mais dantesco ainda aquele cenário.

As centenas de pessoas das vilas vizinhas acorriam às encostas escarpadas tão logo a notícia se espalhava como um rastilho de pólvora, perplexos diante de tamanha tragédia se indagavam como aquilo, inominável, poderia ter acontecido, eles que se cercaram de tantos cuidados e adotaram tanta precaução, desde que um acidente há mais de 100 anos vitimou mais de 300 pessoas, desde então tinham sido eficientes em evitar que naufrágios, como aquele, ocorressem naquelas encostas.

Quando as autoridades chegaram, enquanto a população se organizava para resgatar os corpos, com o intuito de lhes dar um funeral decente, os soldados montaram uma mesa diante de uma tenda e os magistrados deram início imediatamente às apurações do que poderia ter permitido que uma catástrofe de tal dimensão acontecesse.

Ele foi trazido diante da mesa em que os magistrados estavam reunidos, cabisbaixo, trôpego, cabelo desgrenhados, roupa amarfanhada e suja e os olhos vermelhos que indicavam mais do que uma noite insone, indicavam uma noite de choro contínuo. As pessoas desviavam o olhar quando ele passava, se afastavam como se ele estivesse com lepra, até parecia que ninguém o conhecia, muito embora fosse amigo de infância ou mesmo parente de muitos do que estavam ali. Somente sua mãe e sua esposa não se afastaram, mesmo assim não ousou olhar para elas, sabia que estavam ali não para condená-lo, mas isto não diminuía sua dor por tê-las decepcionado tanto.

- Onde você estava?

Foi a pergunta que o magistrado lhe fez de chofre, demorou a responder, não porque estivesse pensando numa boa resposta, ele diria a verdade, mas sabia que a verdade não consertaria o que tinha sido feito.

- Estava no farol, como era o meu dever, desde que o sol se pôs que eu assumi o turno da noite.

- Se estava no farol, então me responda como é que deixou isto acontecer? Por que foi que não acendeu o farol quando começou a chover e a névoa se tornou densa e sólida?

Sabia que não poderia dizer a verdade, mas sabia que também não poderia mentir, quaisquer que fossem as consequências ele teria que arcar com elas.

- Estava muito frio, chovendo muito, eu levei uma garrafa de Rum para o farol, bebi um pouco e adormeci, só acordei quando algumas pessoas começaram a bater na porta me pedindo para acender o farol, mas já era muito tarde.

- Uma garrafa de Rum? Foi a pergunta que o magistrado lhe fez, apontando para algumas garrafas vazias de Rum, vinho e conhaque. Cabisbaixo e envergonhado ele não ousou contestar.

- Levem-no daqui antes que a população o despedace. E quanto a nós, que Deus nos ajude a colocar um pouco de ordem neste caos! Disse o magistrado às outras autoridades.

A ordem do magistrado o deixou temeroso, porém aliviado por sair dali, por se afastar daqueles olhares que queimavam mais do que mercúrio. Ele não ofereceu resistência quando foi cercado pelos soldados e levado para uma das celas do castelo, longe da família, longe dos amigos, longe dos que o queriam ver morto, não sabia mais que eram os amigos e quem eram os inimigos, a linha ficou muito tênue depois daquela noite. Sabia que as autoridades queriam protegê-lo, muito embora ele não pudesse ser protegido de quem ele mais temia: sua própria consciência.

Foi contemplando este quadro desolador que o poeta cristão Philip Paul Bliss[1] compôs os versos que se tornariam eternamente famosos e que são cantados até hoje em todas as igrejas de tradição evangélicas ao redor do mundo:

Nas tormentas dessa vida,
Perto está a perdição.
Aos incautos navegantes,
Quem trará a salvação?

Resplandeçam nossas luzes
Através do escuro mar,
Pois nas trevas do pecado
Almas podem naufragar!

Brilha sempre, em graça imensa,
Rico amor do eterno Deus.
Cumpre a nós mostrar o rumo
Do caminho para os céus.

Nuvens de paixão mundana
Não nos deixam ver o sol.
Oh, mostremos o perigo
Com as luzes do farol.

Aos errantes, insensatos,
Guia ao porto divinal!
Em Jesus há vero abrigo
Do furor do temporal.

Noite eterna se aproxima,
Tenebrosa em seu horror!
Clama, avisa aos infelizes;
Insta-os para o Salvador! [2]

Este é um leitmotiv apropriado para o momento em que vivemos, quando aqueles que são responsáveis por manter as candeias acesas se embriagam com este século, com todo o dinheiro, poder, fama, status e grandeza que ele oferece, não há outro canto a ser entoado senão este como lamento, como aviso, como advertência e como um sinal de despertamento.

As naus continuam singrando os mares perigosos no meio da procela em seu furor, envolvidos por névoas densas e trevas profundas, só mesmo um farol aceso sobre um rochedo no alto pode servir de referência. Ainda há aqueles que no meio da tempestade ousam vencer as condições adversas e acendem as candeias, ou todos estão embriagados e embriagando-se? Na última vez que duvidaram, Ele advertiu que ainda havia 7.000 varões que não tinham dobrado o joelho, a esperança não morreu, a esperança, há esperança!
__________________________________
[1] Philip Paul Bliss é um dos escritores de hinos mais famoso na história da música cristã. Ele foi quem escreveu a letra e a música, de hinos como os seguintes: Almost Persuaded, Dare to Be a Daniel, Hallelujah 'Tis Done!, Hallelujah, What a Saviour!, Hold the Fort, Jesus Loves Even Me, Let the Lower Lights Be Burning, Once for All, The Light of the World Is Jesus, Whosoever Will, Wonderful Words of Life. Escreveu apenas o texto de My Redeemer e escreveu apenas a música de I Gave My Life for Thee, It Is Well with My Soul, Precious promisse. Bliss morreu ainda novo, com 38 anos. E isso se deu em 1876. Mr. Bliss passou os dias do feriado de Natal com sua mãe e sua irmã na Pensilvânia e fez planos pra voltar pra Chicago em Janeiro, para trabalhar com Moody. Porém um telegrama chegou pedindo-lhe que voltasse mais cedo. Sendo assim, antecipou a volta pra Chicago, planejando chegar na sexta a noite. Ele decidiu deixar seus dois filhos pequenos, de 1 e 4 anos de idade, com sua mãe. Nesta viagem de volta pra casa, em 29 de dezembro, Philip Paul Bliss morreu juntamente com sua esposa num acidente com o trem no qual estavam. O funeral foi realizado em Roma, na Pensilvânia, onde um monumento foi erguido com a inscrição "PP Bliss, author... Segure o Fort!". Serviços memoriais foram realizados em todo o país para o casal amado. A morte de nenhum civil trouxe tanto sofrimento para a nação, como a morte de Philip e sua esposa. Em 31 de dezembro, D.L. Moody discursou em uma reunião memorial, em Chicago. No dia 05 de janeiro, um concerto memorial foi realizado para homenagear Philip Paul Bliss também em Chicago. A cerimônia contou com 8000 pessoas no salão e outras 4.000 do lado de fora.
[2] HNC 308 - Nas tormentas dessa vida.

Salmo Borderline (VII)



"Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia?
Meu Deus! Eu clamo de dia, mas não respondes; de noite, e não recebo alívio!
Tu, porém, és o Santo, és rei, és o louvor de Israel.
Em ti os nossos antepassados puseram a sua confiança; confiaram, e os livraste.
Clamaram a ti, e foram libertos; em ti confiaram, e não se decepcionaram.
Mas eu sou verme, e não homem, motivo de zombaria e objeto de desprezo do povo.
Caçoam de mim todos os que me vêem; balançando a cabeça, lançam insultos contra mim, dizendo:
"Recorra ao Senhor! Que o Senhor o liberte! Que ele o livre, já que lhe quer bem! "
Contudo, tu mesmo me tiraste do ventre; deste-me segurança junto ao seio de minha mãe.
Desde que nasci fui entregue a ti; desde o ventre materno és o meu Deus.
Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e não há ninguém que me socorra.
Muitos touros me cercam, sim, rodeiam-me os poderosos de Basã.
Como leão voraz rugindo escancaram a boca contra mim.
Como água me derramei, e todos os meus ossos estão desconjuntados. Meu coração se tornou como cera; derreteu-se no meu íntimo.
Meu vigor secou-se como um caco de barro, e a minha língua gruda no céu da boca; deixaste-me no pó, à beira da morte.
Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Perfuraram minhas mãos e meus pés.
Posso contar todos os meus ossos, mas eles me encaram com desprezo.
Dividiram as minhas roupas entre si, e tiraram sortes pelas minhas vestes.
Tu, porém, Senhor, não fiques distante! Ó minha força, vem logo em meu socorro!
Livra-me da espada, livra a minha vida do ataque dos cães.
Salva-me da boca dos leões, e dos chifres dos bois selvagens. E tu me respondeste.
Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na assembléia te louvarei.
Louvem-no, vocês que temem o Senhor! Glorifiquem-no, todos vocês, descendentes de Jacó! Tremam diante dele, todos vocês, descendentes de Israel!
Pois não menosprezou nem repudiou o sofrimento do aflito; não escondeu dele o rosto, mas ouviu o seu grito de socorro.
De ti vem o tema do meu louvor na grande assembléia; na presença dos que te temem cumprirei os meus votos.
Os pobres comerão até ficarem satisfeitos; aqueles que buscam o Senhor o louvarão! Que vocês tenham vida longa!
Todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor, e todas as famílias das nações se prostrarão diante dele, pois do Senhor é o reino; ele governa as nações.
Todos os ricos da terra se banquetearão e o adorarão; haverão de ajoelhar-se diante dele todos os que descem ao pó, cuja vida se esvai.
A posteridade o servirá; gerações futuras ouvirão falar do Senhor, e a um povo que ainda não nasceu proclamarão seus feitos de justiça, pois ele agiu poderosamente". 


Salmos 22:1-31 (NVI)
Fonte: http://www.bibliaonline.com.br

Pertencer


Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.

Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".



Há alguns anos. Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos".

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.

O romancista e o crente


Como sou romancista, e não filósofa ou teóloga, tenho de entrar nessa discussão num nível muito mais baixo e seguir por um caminho muito mais estreito do que o que me seria mais desejável. Para os fins deste simpósio, foi sugerido que concebêssemos a religião em sentido lato, como uma expressão da preocupação última do homem, em vez de identificá-la com o judaísmo ou o cristianismo institucional ou com “ir à igreja”.Vejo a utilidade disso. É uma tentativa de ampliar a noção do que é uma religião e de como o religioso precisa ser exprimível na arte de nosso tempo. Mas sempre há o perigo de, ao tentar ampliar as ideias dos estudantes, acabemos por evaporá-las, e acho que nada neste mundo se presta à rápida evaporação quanto as preocupações religiosas.

Como escritora, a maior parte do meu trabalho é tornar tudo, mesmo uma preocupação crucial, o mais sólido, concreto e específico possível. O escritor começa seu trabalho no ponto em que o conhecimento começa – com os sentidos; ele trabalha com as limitações da matéria e, a menos que esteja escrevendo fantasia, tem de permanecer dentro das possibilidades concretas de sua cultura. Ele está vinculado a seu passado particular e às instituições e tradições que seu passado legou a sua sociedade. No ocidente, fomos formados pela tradição judaico-cristã. Estamos ligados a ela por fios que frequentemente podem ser invisíveis, mas que, ainda assim, estão lá. Essa tradição moldou o nosso secularismo; formou inclusive o molde do ateísmo moderno. De minha parte, devo permanecer bem dentro da tradição judaico-cristã. Tenho de falar, sem apologia, da Igreja, mesmo quando a igreja está ausente; de Cristo, mesmo quando ele não é reconhecido.

Quando alguém fala como cientista, creio que seja possível desconsiderar grandes partes da personalidade e falar simplesmente como cientista; mas quando alguém fala como romancista, precisa falar da mesma maneira que escreve – com toda a personalidade. Muitos alegam que o trabalho de um romancista é nos mostrar como o homem sente, e dizem que essa é uma operação em que seus próprios compromissos não interferem de maneira alguma. O romancista, como se diz, está em busca de um símbolo para expressar um sentimento e se ele for judeu, cristão, budista ou o que quer que seja não faz diferença para a adequação do símbolo. Dor é dor, alegria é alegria, amor é amor, e essas emoções humanas são mais fortes do que qualquer simples crença religiosa; são o que são, e o romancista os mostra exatamente assim. Isso é verdade até certo ponto, mas não dá conta de um romance. A grande ficção envolve todo o espectro do discernimento humano; não se trata simplesmente da imitação de um sentimento. O bom escritor não apenas encontra um símbolo para o sentimento, ele encontra um símbolo e um modo de fixá-lo que diz ao leitor inteligente se este sentimento é adequado ou inadequado, se é moral ou imoral, se é bom ou mau. E sua teologia, mesmo em seu mais remoto alcance, terá uma influência direta sobre ele.

Faz uma grande diferença para a feição de um romance se seu autor crê que o mundo veio à existência e e se sustenta por um ato criativo de Deus, ou se ele crê que o mundo e nós mesmos somos produtos de um acidente cósmico. Faz uma grande diferença para o romance se seu autor crê que fomos criados à imagem de Deus ou se crê que fomos nós que criamos um Deus com nossas próprias mãos. Faz uma grande diferença se ele crê que nossa vontade é livre, ou determinada como a dos outros animais.

Santo Agostinho escreveu que as coisas do mundo emanam de Deus de duas maneiras: intelectualmente, na mente dos anjos, e fisicamente, no mundo das coisas. Para a pessoa que crê nisso – como o mundo ocidental sustentou até poucos séculos atrás –, este mundo físico, sensível, é bom porque provém de uma fonte divina. O artista geralmente sabe disso por instinto; seus sentidos, que são usados para penetrar o concreto, assim o dizem. Quando Conrad disse que seu objetivo como artista era prestar a mais alta justiça possível ao universo visível, ele estava falando com o mais firme instinto de romancista. O artista penetra o mundo concreto a fim de encontrar em suas profundezas a imagem de sua fonte, a imagem da realidade última. Isso de forma alguma atrapalha sua percepção do mal, mas, ao contrário, a torna mais aguda, pois somente quando o mundo natural é visto como bom o mal se torna inteligível como uma força destrutível e uma consequência necessária de nossa liberdade.

Nos últimos séculos, temos vivido em um mundo cada vez mais convencido de que os limites da realidade terminam muito próximo da superfície, que não há uma fonte divina última, que as coisas do mundo não provêm de Deus de maneira dupla, ou de qualquer maneira. Por quase dois séculos, o espírito popular de sucessivas gerações tem se inclinado mais e mais à visão de que os mistérios da vida por fim cairão diante da mente do homem. Muitos escritores modernos têm estado mais preocupados com o processo da consciência do que com o mundo objetivo fora da mente. Na ficção do século XX, cada vez mais acontece de um mundo absurdo e sem sentido colidir com a consciência sagrada do autor ou da personagem; raramente, agora, autor e personagem saem para explorar e penetrar um mundo em que o sagrado está refletido.

No entanto, o escritor sempre tem de criar um mundo, e este deve ser crível. As virtudes da arte, como as virtudes da fé, são tais que vão além das limitações do intelecto, além de qualquer mera teoria que um escritor pode nutrir. Se o romancista está fazendo aquilo que como artista está obrigado a fazer, ele inevitavelmente sugerirá aquela imagem da realidade última conforme se pode vislumbrar em algum aspecto da situação humana. Neste sentido, a arte revela, e os teólogos aprenderam a não ignorá-la. Em muitas universidades, você encontrará departamentos de teologia cortejando intensamente os departamentos de inglês. O teólogo está interessado especificamente no romance moderno porque ali ele vê refletido o homem de nosso tempo, o descrente, que está, no entanto, agarrado de uma maneira desesperada e geralmente honesta com problemas intensos do espírito.

Nós vivemos em uma era descrente, mas que é notável e desequilibradamente espiritual. Há um tipo de homem moderno que reconhece o espírito em si mesmo, mas que deixa de reconhecer um ser fora de si a quem possa adorar como Criador e Senhor; consequentemente, ele tem se tornado sua própria preocupação última. Ele diz com Swinburne “Glória ao homem nas alturas, pois ele é o mestre das coisas”, ou com Steinbeck “No fim era a palavra e a palavra estava com o homem”. Para ele, o homem tem seu natural espírito de coragem, dignidade e orgulho e deve considerá-lo um ponto de honra a ser satisfeito com isso.

Há outro tipo de homem moderno que reconhece um ser divino que não ele mesmo, mas não acredita que este pode ser conhecido anagogicamente, definido dogmaticamente ou recebido sacramentalmente. Para ele, Espírito e matéria estão separados. O homem vagueia, preso em uma confusão de culpa que não é capaz de identificar, tentando alcançar um Deus do qual não pode se aproximar, um Deus incapaz de se aproximar dele.

E há um outro tipo de homem moderno que não é capaz de crer nem de conter-se a si mesmo na descrença e que busca desesperadamente, sentindo em tudo a experiência da perda de Deus.

Na melhor das hipóteses, nossa era é uma era de buscadores e descobridores e, na pior, uma era que tem domesticado o desespero e aprendido a conviver felizmente com ele. A ficção que celebra este último estado é a que tem menos chance de transcender suas limitações, pois quando a necessidade religiosa é banida com sucesso, ela geralmente atrofia, mesmo no romancista. O senso do mistério se esvai. Um tipo de evolução reversa se dá, e toda a gama de sentimento é embotado.

Os buscadores são outro assunto. Pascal escreveu em seu caderno: “Seu eu não O tivesse conhecido, eu não O teria encontrado”. Esses buscadores descrentes têm seu efeito mesmo entre aqueles de nós que acreditam. Começamos a examinar nossas próprias noções religiosas, para ressoá-las de forma genuína, para purificá-las no calor da agonia de nossos vizinhos descrentes. Que escritor cristão poderia ser comparado a Camus? Temos de procurar em muito da ficção de nosso tempo um tipo de sub-religião que expressa sua preocupação última em imagens que ainda não quebraram para mostrar qualquer reconhecimento de um Deus que se revelou. Tão grande quanto muito dessa ficção, tanto quanto ela revela um esforço sincero para encontrar a única verdadeira preocupação crucial, tanto quanto em muitos casos ela representa valores religiosos de uma ordem elevada, eu não acredito que ela possa adequadamente representar na ficção a experiência religiosa central – aquilo que, afinal, diz respeito a uma relação com um ser supremo reconhecido pela fé. É a experiência de um encontro, de um tipo de conhecimento que afeta todas as ações dos crentes. É a experiência de Pascal depois de sua conversão, e não de antes.

O que eu digo aqui seria muito mais afim ao espírito de nossos tempos se eu pudesse falar para vocês sobre a experiência de escritores como Hemingway, Kafka, Gide e Camus, mas toda a minha própria experiência tem sido aquela do escritor que crê, de novo nas palavras de Pascal, no “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó e não no deus dos filósofos e eruditos”. Este é um Deus ilimitado e que se revela de maneira específica. É aquele que se tornou homem e levantou dentre os mortos. É um que confunde os sentidos e as sensibilidades, conhecido primeiramente como uma pedra de tropeço. Não há nenhuma maneira de encobrir essa especificação ou fazê-la mais aceitável para o pensamento moderno. Este Deus é o objeto da preocupação última e tem um nome.

O problema do romancista que deseja escrever sobre o encontro do homem com este Deus é como ele deve tornar a experiência – que é natural e sobrenatural ao mesmo tempo – inteligível, crível, ao leitor. Em qualquer época isso seria um problema, mas em nossa própria é quase insuportável. No público de hoje, o sentimento religioso se tornou, se não atrofiado, pelo menos nebuloso e piegas. Quando Emerson decidiu, em 1832, que não podia mais celebrar a Santa Ceia a menos que o pão e o vinho fossem removidos, deu-se um passo importante na vaporização da religião nos EUA, e o espírito daquele passo continua apressado. Quando o fato físico é separado da realidade espiritual, a dissolução da fé é, por fim, inevitável.

O romancista não escreve para expressar a si mesmo, não escreve simplesmente para apresentar a visão que ele considera verdadeira; ao contrário, ele apresenta sua visão de tal modo que ela possa ser transferida, o mais completamente possível, a seu leitor. Você pode seguramente ignorar o gosto do leitor, mas não pode ignorar sua natureza, não pode ignorar sua paciência limitada. Seu problema será cada vez mais difícil à medida que suas crenças se afastam das dele.

Quando escrevo um romance em que a ação central é um batismo, estou bastante consciente de que, para a maioria dos meus leitores, o batismo é um rito sem sentido, e assim, em meu romance, tenho de conferir se este batismo causa suficiente admiração e mistério para sacudir o leitor em algum tipo de reconhecimento emocional de seu significado. Para este fim eu tenho de direcionar o romance todo – sua linguagem, sua estrutura, sua ação. Tenho de fazer o leitor sentir em seus ossos, se em nenhum outro lugar, que algo importante está acontecendo aqui. A distorção, neste caso, é um instrumento; o exagero tem um propósito e toda a estrutura da história ou do romance foi feita de tal forma por causa da crença. Não é este o tipo de distorção que destrói; é o tipo que revela – ou deveria revelar.

Estudantes frequentemente têm a ideia de que os processos em operação aqui são dos que atrapalham a honestidade. Eles pensam que inevitavelmente o escritor, em vez de ver o que é, verá apenas o que crê. É perfeitamente possível, claro, que isso aconteça. Sempre, desde que o romance existe, o mundo foi inundado com uma má ficção pela qual o impulso religioso foi responsável.

O lamentável romance religioso surge quando o escritor supõe que, por causa de sua fé, ele está de alguma maneira dispensado da obrigação de penetrar na realidade concreta. Ele pensará que os olhos da Igreja ou da Bíblia ou de sua teologia particular já terão construído a visão para ele, e que seu trabalho é rearranjar essa visão essencial em padrões satisfatórios, sujando-se o mínimo possível no processo. Seu sentimento quanto a isso pode ser mais bem definido por uma daquelas teologias maniqueístas que vê o mundo natural como indigno de penetração. Mas o verdadeiro romancista, aquele com o instinto do que deve fazer, sabe que não pode se aproximar do infinito diretamente, que ele deve penetrar o mundo natural humano tal como ele é. Quanto mais sacramental a sua teologia, mais incentivo ele terá para fazer isso.

O sobrenatural é um embaraço hoje até para muitas igrejas. O viés naturalista saturou nossa sociedade a tal ponto que o leitor não percebe que ele tem de mudar sua visão ao ler algum tipo de ficção que trate de um encontro com Deus. Permitam-me deixar o romancista de lado por um momento e falar sobre seu leitor.

Este leitor tem, em primeiro lugar, de se livrar de um ponto de vista puramente sociológico. Nos anos trinta, passamos por um período nas letras americanas em que a crítica social e o realismo social eram considerados por muitos como os mais importantes aspectos da ficção. Ainda sofremos com uma ressaca desse período. Criei um personagem, Hazel Motes, cuja principal paixão era libertar-se da convicção de que tinha sido redimido por Jesus. A decadência do sul nunca entrou em minha cabeça, mas Hazel disse “eu viu” e “eu trazi” e ele era do leste do Tenessee; assim, a explicação de um leitor médio era que ele devia representar algum problema social peculiar àquela parte do sul não civilizado.

Dez anos, entretanto, têm feito alguma diferença em nossa atitude diante da ficção. A tendência sociológica se enfraqueceu naquela forma particular, mas sobreviveu em outra igualmente ruim. Esta é a noção de que o escritor de ficção está atrás de tipos. Eu não sei quantas cartas recebi dizendo que o sul não é, de maneira alguma, do jeito que eu o pintei; alguns me dizem que o protestantismo no sul não é como eu o retratei, que o protestante do sul nunca estaria preocupado, como Hazel Motes está, com as práticas penitenciais. É claro, como romancista, eu nunca quis caracterizar o Sul típico ou o protestantismo típico. O sul e a religião ali encontrada são extremamente fluidas e oferecem variedade suficiente para dar ao romancista a mais ampla gama de possibilidades imaginável, pois o romancista está obrigado pelas possibilidades razoáveis, não pelas probabilidades, de sua cultura.

Há um viés ainda pior que esses dois – o viés clínico, o preconceito que vê tudo o que é estranho como um caso de estudo do anormal. Freud trouxe à luz muitas verdades, mas sua psicologia não é um instrumento adequado para compreender o encontro religioso ou a ficção que o descreve. Qualquer determinação psicológica, cultural ou econômica pode ser útil até certo ponto; aliás, tais fatos não podem ser ignorados, mas o romancista estará interessado neles somente à medida que for capaz de passar por eles para dar um sentido de algo além deles. Quanto mais aprendemos sobre nós mesmos, para mais fundo no desconhecido empurramos as fronteiras da ficção.

Tenho observado que a maior parte da melhor ficção religiosa de nosso tempo é mais chocante exatamente para aqueles leitores que reclamam ter um intenso interesse em encontrar mais “propósito espiritual” – como gostam de dizer – nos romances modernos do que no momento podem detectar neles. O leitor de hoje, se crê na graça, a vê como algo que pode estar separado da natureza e servida a ele crua como um êxtase instantâneo. A palavra favorita deste leitor é compaixão. Não quero difamar a palavra. Há um sentido melhor em que ela pode ser usada, embora raramente o seja – o sentido de estar em angústia com e para a criação em sua sujeição à vaidade. Este é um sentido que implica um reconhecimento do pecado; este é um sofrer com, mas que não abranda a rigidez e não faz concessões. Quando infundida nos romances, é geralmente repugnante. Nosso tempo não vai buscá-lo.

Já falei bastante sobre o sentimento religioso de que carece o público moderno, e ao objetar-me, pode-se indicar que há um verdadeiro retorno dos intelectuais de nosso tempo a um interesse em religião e a um respeito por ela. Acredito que isso seja verdade. No futuro saberemos em que este interesse pela religião resultará. Pode, junto com o novo espírito ecumênico que vemos por toda parte ao nosso redor, proclamar uma nova era religiosa, ou pode ser simplesmente que a religião sofrerá a última degradação e se tornará, por algum tempo, um modismo. O que quer que signifique para o futuro, não creio que nossa sociedade atual seja uma em que as crenças básicas sejam religiosas, exceto no Sul. De qualquer maneira, não é possível ter uma alegoria efetiva em tempos em que as pessoas são assoladas de uma forma ou de outra por convicções passageiras, porque todos a lerão de modo diverso. Não é possível indicar valores morais quando a moralidade muda conforme o que está sendo feito, pois não há uma base comum de julgamento aceita. E não é possível mostrar a ação da graça quando a graça é extirpada da natureza ou quando toda possibilidade de graça é negada, pois ninguém terá a menor ideia do que você está falando.

O escritor sério sempre toma o vício, na natureza humana, como seu ponto de partida, geralmente o vício numa personagem em outros aspectos admirável. O drama geralmente se baseia no fundamento do pecado original, quer o escritor pense em termos teológicos, quer não. Então, também, supõe-se que qualquer personagem num romance sério detém uma carga de sentido maior do que ele mesmo. O romancista não escreve sobre pessoas no vácuo; ele escreve sobre pessoas em um mundo em que algo está flagrantemente ausente, em que há o mistério geral da incompletude e a tragédia particular de nossos tempos a ser demonstrada, e o romancista tenta transmitir, em forma de livro, uma experiência total da natureza humana de qualquer tempo. Por essa razão, os maiores dramas naturalmente envolvem a salvação ou a perda da alma. Onde não há fé na alma, há muito pouco drama. O romancista cristão se distingue de seus pares pagãos por reconhecer o pecado como pecado. Conforme a sua herança, ele não o vê como doença ou acidente do ambiente, mas como a escolha responsável da ofensa contra Deus que envolve seu futuro eterno. Ou se leva a sério a salvação ou não. E é bom perceber que a maior medida de seriedade admite a maior medida de comédia. Somente se estivermos seguros de nossas crenças poderemos ver o lado cômico do universo. Uma das razões por que boa parte de nossa ficção contemporânea é mal-humorada é que muitos desses escritores são relativistas e têm de continuamente justificar as ações de suas personagens numa escala móvel de valores.

Nossa salvação é um drama representado com o diabo, um diabo que não é simplesmente o mal generalizado, mas uma inteligência má determinada por sua própria supremacia. Eu acho que, se escritores com uma visão religiosa do mundo se sobressaem nesses dias no retrato do mal, é porque eles têm de tornar sua natureza inconfundível com a de sua audiência particular.

O romancista e o crente, quando não são o mesmo homem, ainda mantêm muitos traços em comum – uma desconfiança do abstrato, um respeito pelos limites, um desejo de penetrar a superfície da realidade e de encontrar em cada coisa o espírito que o faz ser o que é e sustenta o mundo unido. Mas eu não acredito que tenhamos uma grande ficção religiosa até que tenhamos de novo a feliz combinação de um artista crente e uma sociedade crente. Até que chegue esse tempo, o romancista terá de fazer o melhor que puder no trato com o mundo que tem. No fim, ele pode constatar que, em vez de refletir a imagem no coração das coisas, ele apenas refletiu nossa condição decaída e, por meio dela, a face do mal pelo qual estamos todos possuídos. É uma realização modesta, mas talvez necessária.

Flannery O'Connor
Tradução de William C. Cruz

“... derrota não é coisa de cristão...”


"Se levante do chão
Erga a sua cabeça,
Siga para o alvo
Que produz salvação,
Se levante do chão
Erga sua cabeça
Derrota não é coisa de cristão”.

Esta música da cantora “gospel” Thalyta, que foi tão tocada nas rádios e cantada nas igrejas na década de 90 não seria muito apreciada por alguns personagens da história da Fé, acho que Calvino, especialmente Kierkegaard, São João da Cruz e Santo Atanásio, além do próprio São Paulo não a apreciariam e nem endossariam tal teologia.

Um personagem em especial teria motivos de sobra para rejeitar esta música. Eu o chamaria de “Capitão Nascimento da Fé: Elias, o Tesbita. O estereótipo ideal para profeta no Primeiro Testamento. Ele é sem dúvidas, um dos personagens mais emblemáticos das escrituras sagradas, israelita, homem de princípios inegociáveis e de uma integridade invendável, tem sido, por séculos, admirado por cristãos, judeus e islamitas por seu engajamento na luta contra o domínio de Satã (que para ele poderia ser manifestado tanto pelas estruturas políticas, quanto pelas práticas das falsas religiões.), o seu engajamento foi muito além do discurso e da pregação imprecatória.

Alguns momentos de sua vida, como a luta com os profetas de Baal no Carmelo são dignas de um best seller ou de um filme que, facilmente levaria umas 15 estatuetas da Academia, alguns outros, bem mais intimistas, expondo uma humanidade que surpreende, seriam “extirpados” das escrituras, se isso fosse possível, por alguns pregadores modernos, mormente os defensores do modo da “Vida Vitoriosa”, pois contraria aquilo que ensinam nos púlpitos e nas redes de TV. Para estes, os cristãos fiéis, só vivem nas montanhas, nunca no “vale”, metáfora que utilizam para fases de depressão e dificuldades.

O capítulo 19 de I Reis começa dizendo que Acabe (Segundo os cronistas bíblicos, o pior rei do norte que Israel já teve, seguidor de cultos da fertilidade canaanitas por influência de sua esposa Jezabel, que por sua índole, teve o nome transformado num adjetivo que caracteriza tudo o que é de idólatra e pernicioso) contou a Jezabel o que Elias fizera aos seus favoritos: “... e como havia matado todos aqueles profetas à espada. Por isso Jezabel mandou um mensageiro a Elias para dizer-lhe: "Que os deuses me castiguem com todo o rigor, caso amanhã nesta hora eu não faça com a sua vida o que você fez com a deles". 1 Reis 19:1-2 (NVI aqui e em todas as citações neste texto).

Não podíamos esperar outra reação de Elias que não fosse tomar a espada e conclamar o povo que o seguisse numa revolução espiritual que teria 100% de chance de ser bem sucedida, afinal de contas Deus estava do seu lado e já provara isso no Carmelo, mas o que vemos Elias fazer é uma outra coisa: “... Elias teve medo e fugiu para salvar a vida...”, 1 Reis 19:3. Deixa eu ver se eu li direito: Elias, o destemido, que aniquilou mais 400 profetas de Baal teve medo da ameaça de uma meretriz e ainda por cima fugiu? Acho que vou tirar Elias da minha lista de heróis.

O texto fala que ele teve medo e resolveu fugir! Isso não combina com “Gigantes espirituais”, isso combina mais com seres humanos que são susceptíveis às dificuldades da vida, sejam elas espirituais, sejam emocionais, sejam afetivas. Fuga aqui não deve tomada como figura de linguagem para alguma patologia psicológica, o medo o fez deslocar-se centenas de quilômetros até um lugar onde julgasse estar distante o suficiente do alcance da rainha perversa.

O que atrapalha a linha de raciocínio é que este rapaz tinha alcançado uma das maiores vitórias, ou talvez a maior que um profeta ousou acreditar que poderia lograr, ele além de ter uma prova visível e inconteste de que Deus estava com ele, ainda saiu-se vencedor ao aniquilar um clero reunido em “Assembleia Nacional”!

Alguém poderia chamá-lo de covarde, e é exatamente o que ele é nesta passagem, nada mais do que um covarde. Não foi corajoso para matar um clero inteiro? E agora fraqueja? Já escutei e li pessoas dizendo que Deus não usa covardes, que não podemos ter medo e nem temor, acho que quem pensa isso nunca meditou, não estou falando de ler rápido, nesta passagem da escritura.

E para piorar a situação, pois é, podia ficar pior, diz ainda o texto que: “... e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. "Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados." (1 Reis 19:4). Elias, o profeta de Deus, instrumento poderoso nas mãos de Yavé, deseja a morte! Já tentaram desculpar e atenuar o texto dizendo que não era “não propriamente a morte física, mas a morte espiritual”, onde que se pode inferir isso aqui? O que ele pede é a morte mesmo, além de medo e de ter agido com desespero e fugido, motivado pelo medo, o seu esgotamento o conduz a desejar a cessação da vida, término de sua atividade na terra. Em nenhum momento o texto fala de que ele intentou ou dá margem para acreditar que ele intentaria contra a própria vida, mas o que fica bem claro é que ele sente uma angústia tão intensa, que acredita que só a morte seria capaz de por fim a essa dor. Este tipo de sentimento só conhece e entende quem já “andou por vales de sombra da morte”.

Muitos defensores da TP (Teologia da Prosperidade) diriam que Elias está “em pecado”! “Quem já viu um homem de Deus pedir para morrer? Melhor é confessar e deixar o pecado, porque depressão é do Diabo e Deus nos criou para sermos vitoriosos e não para andarmos de cabeça baixa!”. Entra em cena então um outro sintoma em Elias: “… Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu...” (1 Reis 19:5). O estado depressivo de Elias, além da fatigante viagem, lhe deu sono, letargia, ou no dizer dos Pais do Deserto: Acédia[1]. Esse é um mal que aflige também o homem moderno, e os cristão, que não são imunes às enfermidades da mente e nem da alma, quando acometidos por alguma delas são instigados pelo Positivismo pós-moderno e pós-evangélico a ignorar estes males, pois “o crente tem que decretar a vitória e esmagar a cabeça de Satanás!”. A TP não permite aos seus seguidores a aceitação de que podem sofrer de depressão ou de outro transtorno qualquer, muito menos será tolerado o tratamento por um psiquiatra ou terapia de grupo. Só há duas saídas: confessar o pecado ou ser exorcizado!

Há quem diga que: “... Quando não damos importância à casa do Senhor, à Palavra de Deus, não oramos, não jejuamos, não nos preocupamos com nossa intimidade e comunhão com Deus; o diabo nos ataca. Ele está sempre pronto para isso! Porém, se nós temos a nossa aliança com Deus intacta, o que é o diabo para nos tocar?”. Acho que esta hermenêutica é falha diante de um fato como esse, Elias vinha de uma “cruzada” de evangelização, talvez a maior do Primeiro Testamento, se não ganhou almas como os apóstolos do Novo Testamento ou os evangelistas da Igreja Primitiva, pelo menos livrou Israel de quase meio milhar de ímpios, os resultados foram por demais positivos, a Glória de Deus foi manifesta por meio dele, a comunhão era real, portanto, falar de depressão como fruto de pecados não confessados neste texto é não apenas impróprio, bem como agir de má-fé.

Poucos entenderiam o que aconteceu com Elias, e só quem passou por isso pode compreender o que a alma dele sofria naquela ocasião, só quem já foi vítima de um medo incompreensível, pode entender a fuga covarde empreendida por ele, que representa bem mais do que pensamos, representa uma falta de confiança que Deus poderia guardá-lo de todo mal. A vontade de morrer, a letargia são familiares a quem já ansiou por ter algo que lhe desse esperança, algo que lhe trouxesse a vontade de viver de novo. Quando o dia amanhece e nada nele demonstra que vale à pena estar vivo, ou quando as sombras do crepúsculo trazem mais do que escuridão, trazem o medo e angústia de mais uma noite sem esperança, sem nada que possa aquietar a mente e o espírito. Quando deitar e dormir é mais questão de “apagar a mente” do que repousar.

E o que dizer aos sinceros cristãos que são vítimas de tais males? Eles estão em dias com a sua vida piedosa e a sua espiritualidade está sadia, mas a mente não está. O que dizer-lhe então? Que a depressão não é doença, mas sim sintoma de pecado não confessado, ou então que há maldição hereditária sobre sua vida? Será isso mesmo o que Deus pensa?

A tratativa de Deus com Elias foi primeira profilática: "… Levante-se e coma..." (1 Reis 19:5), já ouvi asneiras sobre este texto de que: “... Toda vez que lemos na Bíblia, o Senhor mandando alguém se levantar é porque Ele quer que esta pessoa esteja na posição correta para ser usado. [...] A segunda ordem de Deus a Elias é comer. Mas comer o quê? A Palavra do Senhor...”, pode ser bonito este fraseado, mas isso é malbaratar as Escrituras, isso é alegoria, método espúrio de interpretação. Deus mandou o anjo “cuidar” de Elias, animá-lo, alimentá-lo, ajudá-lo a ter disposição para andar e sair daquele lugar. Isso é o que deve ser feito, ajudar, auxiliar, amparar e cuidar de quem está sofrendo, apontar o dedo acusadoramente é seguir um caminho oposto ao traçado pelo próprio Deus.

Por último o que vemos é que, após uma experiência apofática, que é uma forma de afirmar os Atributos de Deus por meio da negação, que Elias teve, Deus tratou do seu medo, seu desânimo, sua depressão e sua acédia: “... "O que você está fazendo aqui, Elias?" (1 Reis 19:9).

Não vou torcer e nem maltratar o texto sagrado ao fazer alegorias baratas sobre o que significa a caverna que Elias se abrigou ou cada fenômeno natural por ele presenciado. Antes vou resumir numa palavra apenas o método terapêutico divino: Elias ouviu a voz de Deus!

Num mundo tão sem referência, tão “pós-moderno”, dizer que a solução para alguns dos males que nos acomete é ouvir a Voz de Deus soa tragicômico! Qual a “voz” devemos ouvir? A da IURD, a da Internacional, a da Mundial, a de Malafaia, a de Bento XVI, qual afinal de contas?

A Bíblia, somente ela, crendo na promessa de Jesus: “Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir”. (João 16:13).

Quando vier o medo, sinta-o! quando tiver vontade de fugir e não houver saída fuja! quando sentir-se depressivo e sem ânimo e só quiser dormir, durma! mas quando a voz de Deus vier, levante-se e ouça tudo o que Ele disser, só assim encontraremos a cura.

[1] - “A acédia é um tédio que acabrunha; i. é, que deprime de tal modo a alma do homem que não lhe apraz fazer nada; assim como tudo o que é ácido é ao mesmo tempo frio. Por isso, a acédia produz um certo tédio de agir,como claramente o diz a Glosa àquilo da Escritura (Sl 106, 18): A alma deles aborreceu toda a comida, que a acédia é um torpor da alma, que desiste de começar o bem”. P. D. Mézard, O. P. in: Meditationes ex Operibus S. Thomae citado em Permanência).  
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