A Avó Grilo - O Mito da Dona da Água

Uberização do trabalho: subsunção real da viração


Entre salões e apps
Em outubro de 2016, o governo de Michel Temer sancionou uma lei que passou desapercebida nos embates sobre as terceirizações. A lei “Salão parceiro – profissional parceiro” desobriga proprietários de salões de beleza a reconhecerem o vínculo empregatício de manicures, depiladora(e)s, cabelereira(o)s, barbeiros, maquiadora(e)s e esteticistas. O estabelecimento torna-se responsável por prover a infraestrutura necessária – os demais trabalhadores seguem sendo reconhecidos como funcionários – para que suas “parceiras” e “parceiros”, agora legalmente autônomos, realizem seu trabalho. Assim, aquela manicure que trabalha oito horas por dia ou mais, seis vezes por semana, para o mesmo salão, poderá ser uma prestadora de serviços. 

Talvez por referir-se ao trabalho tipicamente feminino, aparentemente irrelevante e socialmente invisível, a lei foi recebida mais como perfumaria do que como a abertura legal da porteira para a uberização do trabalho no Brasil1. A uberização, tal como será tratada aqui, refere-se a um novo estágio da exploração do trabalho, que traz mudanças qualitativas ao estatuto do trabalhador, à configuração das empresas, assim como às formas de controle, gerenciamento e expropriação do trabalho. Trata-se de um novo passo nas terceirizações, que, entretanto, ao mesmo tempo que se complementa também pode concorrer com o modelo anterior das redes de subcontratações compostas pelos mais diversos tipos de empresas. A uberização consolida a passagem do estatuto de trabalhador para o de um nanoempresário-de-si permanentemente disponível ao trabalho; retira-lhe garantias mínimas ao mesmo tempo que mantém sua subordinação; ainda, se apropria, de modo administrado e produtivo, de uma perda de formas publicamente estabelecidas e reguladas do trabalho. Entretanto, essa apropriação e subordinação podem operar sob novas lógicas. Podemos entender a uberização como um futuro possível para empresas em geral, que se tornam responsáveis por prover a infraestrutura para que seus “parceiros” executem seu trabalho; não é difícil imaginar que hospitais, universidades, empresas dos mais diversos ramos adotem esse modelo, utilizando-se do trabalho de seus “colaboradores just-in-time” de acordo com sua necessidade2. Este parece ser um futuro provável e generalizável para o mundo do trabalho. Mas, se olharmos para o presente da economia digital, com seus motoristas Uber, motofretistas Loggi, trabalhadores executores de tarefas da Amazon Mechanical Turk, já podemos ver o modelo funcionando em ato, assim como compreender que não se trata apenas de eliminação de vínculo empregatício: a empresa Uber deu visibilidade a um novo passo na subsunção real do trabalho, que atravessa o mercado de trabalho em uma dimensão global, envolvendo atualmente milhões de trabalhadores pelo mundo e que tem possibilidades de generalizar-se pelas relações de trabalho em diversos setores.

A uberização, portanto, não surge com o universo da economia digital: suas bases estão em formação há décadas no mundo do trabalho, mas hoje se materializam nesse campo. As atuais empresas promotoras da uberização – aqui serão tratadas como empresas-aplicativo – desenvolvem mecanismos de transferência de riscos e custos não mais para outras empresas a elas subordinadas, mas para uma multidão de trabalhadores autônomos engajados e disponíveis para o trabalho. Na prática, tal transferência é gerenciada por softwares e plataformas online de propriedade dessas empresas, os quais conectam usuários trabalhadores a usuários consumidores e ditam e administram as regras (incluídos aí custos e ganhos) dessa conexão.

O fato é que as empresas-aplicativo têm pouca materialidade, mas altíssima visibilidade. A empresa Uber tem tamanha atuação pelo mundo que torna hoje cabível utilizarmos o termo em questão. A fonte da fetichizada “força da marca” neste caso se refere à multidão de trabalhadores e consumidores que a empresa consegue mobilizar pelo mundo (apenas na cidade de São Paulo, sabe-se que os motoristas já são mais numerosos que os taxistas. Ultrapassam os 50 mil; entretanto, a empresa não divulga seus dados). A atuação do Uber tocou em questões centrais do desenvolvimento capitalista, como a mobilidade urbana e as legislações em torno da economia digital. Tornou-se tema de campanhas e debates eleitorais, no terreno arenoso da permeabilidade entre empresas e Estado, que envolve interesses dos consumidores-eleitores, conflitos dos trabalhadores e embates de titãs sobre o tal “livre” mercado. Porém, mais do que isso, o Uber tornou evidente tendências mundiais do mercado de trabalho, que envolvem não só a transformação do trabalhador em microempreendedor, mas também do trabalhador em trabalhador amador3 produtivo, questão que desenvolvo ao longo da análise.

As empresas-aplicativo firmam-se no mercado como mediadoras entre consumidores e trabalhadores-microempreendedores, provendo a infraestrutura necessária – ainda que virtual – para que esse encontro aconteça. Para tanto, assim como a proprietária que receberá a comissão pelo trabalho da manicure, o Uber recebe uma porcentagem (de 25%) por atuar como mediador entre a multidão de consumidores-poupadores e a multidão de motoristas amadores. Obviamente, sua atuação é muito mais complexa que isso. Assim como a “parceira” manicure não está em relação de igualdade com o proprietário ou a proprietária do salão para definir seus ganhos, a intensidade de seu trabalho, a extensão de sua jornada, o trabalhador uberizado também tem seu trabalho subsumido. Entretanto, as formas de controle, gerenciamento, vigilância e expropriação de seu trabalho são ao mesmo tempo evidentes e pouco tangíveis: afinal, o estatuto do motorista é de um trabalhador autônomo, a empresa não é sua contratante, ele não é um empregado, mas um cadastrado que trabalha de acordo com suas próprias determinações; ao mesmo tempo, o que gerencia seu trabalho é um software instalado num smartphone: mesmo definindo as regras do jogo, a empresa aparece mais como uma marca do que de fato como uma empresa. Mas o discurso sobre a “parceria” entre empresas-aplicativo e trabalhadores, assim como a imaterialidade destas, rapidamente se esfumaçam quando trabalhadores uberizados se apropriam de seu poder enquanto multidão e estabelecem formas coletivas de resistência e de negociação. Nesse momento as formas de controle, expropriação e opressão ficam explícitas.

Já estão em ato novas formas de organização política, que envolvem a criação de sindicatos de aplicativos, greves e manifestações de trabalhadores uberizados. Em 2016 ocorreu uma série de manifestações, greves, processos judiciais, formação de sindicatos de trabalhadores de aplicativos pelo mundo. Motoristas Uber americanos (atualmente mais de 400 mil) juntaram-se a enfermeiras, trabalhadores do setor hoteleiro, entre outros, na campanha “Fight for US$15”, que demandava o pagamento mínimo de quinze dólares por hora de trabalho. Na Califórnia, a empresa Uber optou por pagar US$100 milhões em acordo com dezenas de milhares de trabalhadores (não há dados claros sobre esse número) que acionaram coletivamente a justiça, requerendo reconhecimento legal do vínculo empregatício com a empresa. O acordo evitou que o processo fosse a julgamento (ver aqui e aqui). No final do ano, a justiça inglesa determinou que a Uber reconhecesse o vínculo empregatício com seus motoristas; o processo ainda está em andamento.

Os motoboys que trabalham para o aplicativo Loggi também organizaram, sob coordenação do SindimotoSP, manifestação que interrompeu faixas da Marginal Pinheiros e da Av. Rebouças, contra a nova forma de remuneração por entrega implementada pela empresa, que em realidade aumenta sua porcentagem de ganhos sobre o trabalho dos motofretistas. Os ciclistas-entregadores da empresa Foodora organizaram as primeiras greves de trabalhadores por aplicativos na Itália, as quais evidenciaram novas formas de punição (como o desligamento do aplicativo de lideranças), assim como de apoio (as manifestações começaram a contar com a adesão de usuários consumidores). Motociclistas do aplicativo Deliveroo, após sete dias de greve, conseguiram impedir mudanças que rebaixariam o valor de sua hora de trabalho. Também foram criados em 2016 o Sindicato dos Motoristas de Aplicativo de São Paulo, a Associação dos Motoristas Autônomos por Aplicativos e Sindicato dos Motoristas de Transporte Privado Individual de Passageiros do Estado do Pernambuco. No início de 2017, a Uber acionou a justiça da Califórnia, tentando impedir a formação de sindicatos.

O trabalhador-perfil e o consumidor-vigilante
Basicamente, a empresa Uber promove a conexão entre uma multidão de motoristas amadores pagos e uma multidão de usuários em busca de tarifas reduzidas em relação aos táxis; em algumas cidades se estabelece como uma opção economicamente acessível, menos degradante e mais veloz que o transporte público. Entrando de forma totalmente predatória e com poucas regulamentações, rapidamente a empresa reconfigura o mercado privado da mobilidade urbana. Tem uma estratégia agressiva de entrada nos mercados locais; em muitas cidades o Uber é ilegal, mas segue operando normalmente. Para tanto, conta com uma multidão de usuários e recruta – na passiva (melhor seria, conta com a adesão permanente de) – uma multidão de motoristas amadores, que encontram nessa atividade uma forma de geração de renda.

O Uber, assim como outras empresas que operam com a mesma lógica, estabelece regras, critérios de avaliação, métodos de vigilância sobre o trabalhador e seu trabalho, ao mesmo tempo que se exime de responsabilidades e de exigências que poderiam configurar um vínculo empregatício. Consumo, avaliação, coleta de dados e vigilância são elementos inseparáveis. Em realidade, o controle sobre o trabalho é transferido para a multidão de consumidores, que avaliam os profissionais a cada serviço demandado. Essa avaliação fica visível para cada usuário que for acessar o serviço com aquele trabalhador. A certificação sobre o trabalho vem agora da esfera do consumo, por meio dessa espécie de gerente coletivo que fiscaliza permanentemente o trabalhador. A multidão vigilante, na forma multidão, é então quem garante de forma dispersa a certificação sobre o trabalho. A confiança, elemento chave para que o consumidor entregue seus bens e documentos nas mãos do motoboy, para que adentre o carro de um desconhecido que será seu motorista (e que, diferentemente do taxista, não passou por um processo de certificação publicamente regulamentada), é então garantida pela atividade dessa multidão vigilante, que se engaja e também confia no seu papel certificador. Assim o trabalhador uberizado se sabe permanentemente vigiado e avaliado. Essa nova forma de controle tem se mostrado eficaz na manutenção de sua produtividade, na sua adequação aos procedimentos – informalmente estabelecidos – que envolvem sua ocupação. Ao adequar-se o trabalhador trabalha para si e para a empresa, para si e para o cultivo da marca, que em realidade depende inteiramente da atuação dispersa desse exército de motoristas.

A realização do trabalho conta com a disposição do trabalhador em aceitar a tarefa oferecida – o que quer dizer um permanente gerenciamento de sua própria produtividade –, mas essa aceitação requer vencer a concorrência entre os motoristas disponíveis. A avaliação da multidão de consumidores fornece os elementos para o ranqueamento dos trabalhadores. Este opera como um critério na determinação – programada, automatizada – de quais trabalhadores terão mais acesso a quais corridas.

Trabalhadores e consumidores tornam-se perfis virtuais, números de um cadastro. A atividade de ambos é material e tangível, é ela a fonte que alimenta o controle sobre o trabalho, sua organização e distribuição no tempo e no espaço, que, no entanto, são programados e executados pelos softwares e seus algoritmos.

Ser um trabalhador-perfil em um cadastro da multidão significa na prática ser um trabalhador por conta própria, que assume os riscos e custos de seu trabalho, que define sua própria jornada, que decide sobre sua dedicação ao trabalho e, também, que cria estratégias para lidar com uma concorrência de dimensões gigantescas que paira permanentemente sobre sua cabeça4.

A uberização, portanto, consolida a passagem do trabalhador para o microempreendedor. Essa consolidação envolve novas lógicas que contam, por um lado, com a terceirização da execução do controle sobre o trabalho das empresas para um multidão de consumidores vigilantes; e, por outro lado, com o engajamento da multidão de trabalhadores com relação à sua própria produtividade, além da total transferência de custos e riscos da empresa para seus “parceiros”.

Mais um passo na flexibilização do trabalho
De saída, o termo flexibilização só tem sentido crítico se o compreendermos como mudanças contemporâneas do processo de trabalho ligadas à relação entre Estado, capital e trabalho; à relação entre inovações tecnológicas, políticas dos Estados nacionais na promoção dos fluxos financeiros e de investimento, aumento do desemprego e de novas formas de exploração que também envolvem mudanças subjetivas do trabalhador. Refere-se à relação entre a mobilidade do capital e a do trabalho em nível global. A flexibilização também pode ser compreendida mais simplesmente como as formas contemporâneas de eliminação de direitos associados ao trabalho e, ainda mais do que isso, da transferência de riscos, custos e trabalho não pago para os trabalhadores. Essa transferência envolve a extensão do tempo de trabalho, assim como sua intensificação, em formas mais ou menos reconhecíveis.

Nas últimas décadas ficou claro que também era possível transferir o gerenciamento do trabalho para o próprio trabalhador – é óbvio que um gerenciamento subordinado, costurado pelas ameaças da concorrência e do desemprego. O fato é que a passagem do relógio de ponto para o relógio de pulso mostrou-se extremamente eficaz na intensificação do trabalho e na extensão do tempo de trabalho. Hoje a jornada de oito horas parece uma lembrança distante para trabalhadores das mais diversas qualificações e remunerações5.

O cerne da flexibilização em realidade está nesse movimento que transfere para o trabalhador a administração de seu trabalho, dos custos e dos riscos, sem com isso perder o controle sobre sua produção. David Harvey ao tratar da organização na dispersão, João Bernardo6 ao demonstrar que terceirizar a produção não significa perder o controle sobre a mesma são autores que deixam evidente que a dispersão do trabalho não significou perda de controle do capital ou qualquer tipo de democratização no processo de trabalho. Pelo contrário, o que vimos nestas décadas é a enorme centralização do capital acompanhada por novas formas de intensificação do trabalho, extensão do tempo de trabalho e transferência de riscos e custos para os trabalhadores, em formas cada vez mais difíceis de mapear.

A uberização complementa-se com as terceirizações ao mesmo tempo que concorre com elas. Complementa-se na medida em que é mais um passo na transferência de custos e responsabilidades sobre a produção. Mas é também uma forma de eliminação de empresas terceirizadas que não conseguirão bancar a concorrência com as empresas-aplicativo. É o que vemos no segmento dos motoboys, hoje legalmente reconhecidos como motofretistas. Nos anos 1980, o motoboy era diretamente contratado pela empresa, até mesmo a moto era de propriedade da contratante e não do trabalhador. A partir dos anos 1990 empresas terceirizadas de entregas espraiam-se pelo mercado. Hoje são mais de 900 mil motoboys no Brasil, na cidade de São Paulo provavelmente mais de 200 mil. Esse imenso exército de motoqueiros – que dão suas vidas e pernas cotidianamente para garantir a circulação de bens de consumo e de documentos – foi se expandindo juntamente com a terceirização de seu trabalho. A extensão do crédito para os mais pobres permite a aquisição financiada da moto; os celulares tornam-se instrumento de trabalho popular, o que reconfigura toda a logística e o ritmo de trabalho desses profissionais; a baixa qualificação exigida e a remuneração mais alta que outras ocupações de mesmo nível são elementos que contribuem para a consolidação e o espraiamento das empresas terceirizadas e de uma ampla oferta de vagas para motoboys. Ao mesmo tempo, o crescimento do contingente de trabalhadores e das empresas contratantes também está relacionado ao desenvolvimento de São Paulo como metrópole colapsada na questão da mobilidade urbana e simultaneamente centro da valorização financeira e fundiária.

Nesse universo bem consolidado de empresas terceirizadas e seu enorme exército de trabalhadores, adentram os aplicativos de motofrete. Estão há menos de cinco anos no mercado, não há dados precisos, mas já contam com a adesão de dezenas de milhares de motofretistas em São Paulo. Para ser um entregador da Loggi o motoboy torna-se um microempreendor MEI7 e tem de estar regulamentado como motofretista8. Os fundadores da Loggi entraram no mercado criando um nicho que não existia até então. Assim como o Uber, o aplicativo Loggi conecta consumidores e motoristas (neste caso, motofretistas); define o valor da entrega, retendo uma comissão de 20% por essa mediação; automatizou a logística, desenvolvendo um software que geolocaliza os motofretistas disponíveis e os consumidores. O consumidor faz um pedido, a plataforma online torna o pedido visível para os motofretistas mais próximos do ponto de partida, quem aceitar primeiro leva. Motofretistas são mapeados antes e também ao longo da entrega. O consumidor tem acesso aos dados do motofretista – nome, foto, avaliação de outros consumidores – e pode acompanhar online seu deslocamento: a vigilância opera como um mecanismo central para a confiança do consumidor. Para o motoboy, os aplicativos podem ser o meio de livrar-se da exploração da empresa terceirizada (que em geral abocanha 40% do valor da entrega realizada) e tornar-se um trabalhador por conta própria, o que, por enquanto, pode proporcionar-lhe rendimentos maiores. Trabalhar por conta própria requer abrir mão de direitos (caso o motoqueiro seja formalizado) e enfrentar a relação permanente entre concorrência e rendimentos: quanto mais trabalhadores aderirem aos aplicativos, menor será a possibilidade de ganho e provavelmente maior será o tempo de trabalho9.

Ainda, é possível a articulação e uma retroalimentação entre uberização e terceirização clássica. Para muitos, hoje o aplicativo e as terceirizadas se combinam: o motofretista preenche com entregas ofertadas no aplicativo os poros de não-trabalho na sua jornada para as terceirizadas – uma estratégia que requer o saber-fazer de sua própria logística.

O admirável mundo doe-marketplace
Para compreendermos a uberização temos de enfrentar os termos já muito familiares ao mercado, mas pouco apropriados pelas armas da crítica (para onde mirar?). A economia digital hoje é o novo campo da flexibilização do trabalho, enquanto um campo virtual que conecta a atividade de consumidores, trabalhadores e empresas, sob formas menos reconhecíveis e localizáveis.

Atualmente, olhando apenas para o Brasil, motoristas, motofretistas, caminhoneiros, esteticistas, operários da construção civil, trabalhadores do setor de limpeza, babás, assim como advogados, médicos, professores, entre outros, contam com aplicativos que possibilitam a uberização de seu trabalho. O mercado de trabalho em geral agora é permeado por um espaço virtual de compra e venda de trabalho, conhecido como e-marketplace. Trata-se de um universo virtual extremamente propício para a transformação de trabalhadores em microemprendedores, assim como de trabalhadores em trabalhadores amadores. Como me explica o diretor de uma empresa-aplicativo de motofrete em São Paulo, o “e-marketplace é um lugar onde pessoas se encontram para fazer compras. Somos um lugar onde pessoas que procuram motofrete encontram motofretistas.”

O e-marketplace tornou-se um universo extremamente profícuo e lucrativo, fomentado pelas chamadas startups, que são novos modelos de empresa. Loggi, Uber, Google, Facebook são exemplos de startups que deram certo. Startup nomeia a combinação contemporânea entre inovação, empreendedorismo e um amplo mercado de fundos de investimento (os chamados investidores-anjo). São pequenas empresas de alto potencial lucrativo; a inovação aqui se refere ao desenvolvimento tecnológico, mas também à possibilidade de criarem novos modelos de negócios. Segundo a revista Exame, “uma startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza”. As startups dão uma espécie de materialidade ao espírito empreendedor do capitalista contemporâneo e a um novo formato de futuras corporações: a empresa Uber é o exemplo de startup bem sucedida; como narra seu site, foi criada em 2008, quando dois amigos iluminados, andando nas ruas de Paris, se deram conta de que a dificuldade para conseguir um táxi era em realidade um belo nicho de mercado. Lançada no mercado em 2010, a empresa hoje atua em 540 cidades pelo mundo. Em 2016 seu valor de mercado era de mais de 64 bilhões de dólares. Livrar-se dos custos do trabalho mantendo os ganhos e controle sobre a produção: as startups que se firmam como empresas-aplicativo – tal como as compreendo aqui – concretizam o auge do modelo da empresa enxuta, com um número ínfimo de empregados e milhares de empreendedores conectados, de consumidores engajados, de trabalhadores amadores. São fundamentais na consolidação do e-marketplace; mas, se aparecem como mediadoras entre oferta e demanda (tais como a Amazon; o site de sebos Estante Virtual; os aplicativos móveis para táxis, como Easytaxi; sites de vendas de roupa online, como Dafiti), em realidade parte dessas empresas promove uma imensa reorganização do mundo do trabalho, estabelecendo novos nichos para diversas ocupações, novas formas de controle sobre o trabalho, novas experiências do consumo.

Crowdsourcing: a multidão produtiva detrabalhadores amadores
A multidão como um bom negócio. Em 2008, o jornalista Jeff Howe cunhou o termo crowdsourcing10. O outsourcing teria chegado ao seu novo estágio, a crowd constituía-se como a nova fonte das terceirizações. Navegando na celebração da economia compartilhada, o autor em realidade desvendava a enorme transferência de trabalho das empresas para os usuários navegantes do ciberespaço. O debate é longo e complexo. O que somos nós, usuários do Facebook? A cada post, um cent, não para nós, é claro. O que torna a empresa uma das de maior valor de mercado no mundo senão a participação de seus usuários? O que faz do Youtube o Youtube senão a produção e uploads e visualizações permanente de seus usuários? Seria essa atividade trabalho? Mas não é preciso enveredar por esse caminho complexo das atividades criativas de consumidores que se traduzem magicamente em lucro para empresas. Atualmente, a transferência de trabalho na forma trabalho está explícita em diversos sites que contam com a adesão da multidão de usuários-trabalhadores. No início dos anos 2000, a NASA criou o projeto Clickworkers e com ele descobriu que não precisava ter trabalhadores contratados para identificar elementos como crateras nas fotos de Marte: após testar a multidão, comprovou que esta era tão eficiente e muito mais rápida no cumprimento da tarefa, realizada gratuitamente como forma de “colaboração para o futuro”. O site Innocentive hoje congrega cientistas uberizados com corporações como Procter & Gamble, Johnson’s & Johnson’s. Estas perceberam que seus departamentos de pesquisa e desenvolvimento podem se estender aos laboratórios improvisados de profissionais em busca de complemento de renda ou apenas motivados pelos “desafios” lançados no site. As soluções propostas pelos usuários podem ser patenteadas pelas empresas, a contrapartida para o usuário selecionado são as premiações em dinheiro.

O crowdsourcing só é possível se o trabalhador for o trabalhador amador. O que vamos nos deparando é com uma perda – apropriada de forma lucrativa – do lastro do trabalho. A multidão de trabalhadores realiza trabalho sem a forma socialmente estabelecida do trabalho, em atividades que podem transitar entre o lazer, a criatividade, o consumo e também o complemento de renda. Trata-se de uma ausência da forma concreta do trabalho, o que significa a plena flexibilidade e maleabilidade de uma atividade que, entretanto, se realiza como trabalho (estaríamos vendo o que Francisco de Oliveira, há 14 anos, denominou de a plenitude do trabalho abstrato?11). O motorista Uber não é um motorista profissional, como o taxista. O resolutor de enigmas do Innocentive pode até ser um empregado de algum departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, mas enquanto usuário, é um cientista amador. Não há local de trabalho definido, não há vínculos, não há dedicação requerida, não há seleção, contrato ou demissão (ainda que, como vimos, a concorrência opera permanentemente, de forma difusa e ilocalizável). Digamos que, na contemporaneidade, todo trabalhador é um potencial trabalhador amador. Assim como o motofretista combina seu trabalho na terceirizada com o do aplicativo, assim como o engenheiro pejotizado passa seus dias entre o computador e a direção do carro Uber, trabalhadores dos mais diversos perfis socioeconômicos engajam-se em atividades que não têm um estatuto profissional definível, mas que podem ser fonte de rendimento, de redução de custos, ou mesmo do exercício de sua criatividade.

Da viração para a Gig economy
Voltando para os salões de beleza, o trabalho tipicamente feminino oferece-nos as raízes da flexibilização do trabalho que atravessa o mercado de cima a baixo. A indistinção entre o que é e o que não é tempo de trabalho, a fusão entre esfera profissional e esfera privada e a impossibilidade de mediações publicamente instituídas na regulação do trabalho, a indefinição quanto ao que é e o que não é trabalho são alguns dos elementos que costuram a vida das mulheres. No mais precário trabalho da costureira em domicílio, da empregada doméstica, da dona de casa podemos encontrar elementos que hoje tecem a exploração do trabalho de forma generalizada12. Olhando para uma ocupação tipicamente feminina, foi possível reconhecer tendências em curso no mercado de trabalho que hoje desembocam na forma visível da uberização. As revendedoras de cosméticos, só para a empresa Natura, hoje são mais de um 1,4 milhão de mulheres no Brasil. Com os mais diversos perfis socioeconômicos, diaristas, secretárias, professoras, donas de casa, entre tantas outras, combinam sua profissão, ou a ausência dela, com as revendas. As revendas têm uma capilaridade impressionante com a vida pessoal e com outras ocupações. Vender ao longo da jornada de trabalho na escola, no escritório, vender nas festas de família, promover oficinas de maquiagem nas férias, distribuir produtos na repartição pública: o que a pesquisa evidenciou foi uma plena adesão a um trabalho sem forma trabalho, e é justamente essa falta de formas que possibilita sua permeabilidade com outras atividades.

A empresa transfere para a multidão de trabalhadoras uma série de riscos e custos, e conta com uma dimensão não contabilizável e não paga do trabalho dessas mulheres. O espaço da casa, o ambiente de trabalho, o investimento em produtos para uso próprio como meio de venda, as relações pessoais funcionam como vetores para venda e também para a promoção da marca. Mas o que mais nos interessa aqui é perceber a atual adesão de 1,4 milhão de mulheres, somente no Brasil, somente para uma empresa, ao trabalho amador. O trabalho sem forma trabalho, sem estatuto de trabalho, que opera como um meio de complemento de renda, como um exercício de uma identidade profissional indefinida, como facilitador para o consumo. Do lado da empresa, o trabalho amador informal está muito bem amarrado, traduz-se em informação, em uma fábrica que tem sua produção pautada pelo ritmo das vendas desse exército gigantesco.

O motorista Uber tem com seu trabalho uma relação muito parecida com a da revendedora Natura: um complemento de renda advindo de uma atividade que não confere um estatuto profissional, um bico, um trabalho amador, que utiliza o próprio carro, a destreza do motorista, suas estratégias pessoais e sua disponibilidade para o trabalho.

Olhando para esses trabalhadores, vemos em ato a viração, tema atual e ao mesmo tempo constitutivo do mercado de trabalho brasileiro desde sua formação. A viração – e remeto-me ao uso que Vera Telles fazia do termo já no início dos anos 200013 – é pouco tratada nos estudos do trabalho brasileiros, inclusive na produção e análise de dados sobre emprego/desemprego; entretanto é constitutiva da vida e da sobrevivência dos trabalhadores de baixa qualificação e rendimento. O “viver por um fio”14 das periferias brasileiras significa um constante agarrar-se às oportunidades, que em termos técnicos se traduz na alta rotatividade do mercado de trabalho brasileiro, no trânsito permanente entre trabalho formal e informal (como demonstra Adalberto Cardoso15), na combinação de bicos, programas sociais, atividades ilícitas e empregos (ver pesquisas do viver na periferia, em especial os coordenados por Gabriel Feltran, Vera Telles e Cibele Rizek16). A trajetória profissional dos motoboys entrevistados deixa isso evidente. Hoje motoboy-celetista e entregador de pizza, amanhã motofretista-MEI, ontem montador em fábrica de sapatos, manobrista, pizzaiolo, feirante, funileiro, funcionário de lava-rápido. Motogirl hoje, antes diarista, copeira, coordenadora de clínica para viciados em drogas. Motofretista, serralheiro, repositor de mercadorias; confeiteiro e também ajudante de pedreiro. Proprietário de loja de bebidas, trabalhador na roça, funcionário do Banco do Brasil e hoje motofretista autônomo. Motoboy hoje, antes faxineiro, porteiro e cobrador de ônibus. Este é o movimento com que grande parte dos brasileiros tecem o mundo do trabalho.

Mas a viração agora já tem nome internacional e globalizado, seguimos na vanguarda do atraso: a gig economy17 nomeia hoje o mercado movido por essa imensidão de trabalhadores que aderem ao trabalho instável, sem identidade definida, que transitam entre ser bicos ou atividades para as quais nem sabemos bem nomear. A plataforma online da empresa Airbnb, por exemplo, hoje conta com a adesão de milhares de usuários que disponibilizam seus domicílios para aluguel instantâneo e passageiro; atuando como microempreendedores amadores, tornam-se uma espécie de administradores de suas próprias casas. A gig economy é feita de serviços remunerados, que mal têm a forma trabalho, que contam com o engajamento do trabalhador-usuário, com seu próprio gerenciamento e definição de suas estratégias pessoais. A gig economy dá nome a uma multidão de trabalhadores just-in-time (como já vislumbrava Francisco de Oliveira no início dos anos 2000 ou Naomi Klein ao mapear o caminho das marcas até os trabalhadores)18, que aderem de forma instável e sempre transitória, como meio de sobrevivência e por outras motivações subjetivas que precisam ser mais bem compreendidas, às mais diversas ocupações e atividades. Entretanto, essas atividades estão subsumidas, sob formas de controle e expropriação ao mesmo tempo evidentes e pouco localizáveis. A chamada descartabilidade social também é produtiva. Ao menos por enquanto.

Por Ludmila Costhek Abílio é Doutora em Ciências Sociais pela UNICAMP. Possui graduação em Ciências Sociais pela FFLCH-USP (2001) e mestrado em Sociologia pela mesma instituição (2005). Atualmente faz seu Pós-doutorado na FEA-USP sobre a constituição da chamada nova classe média brasileira. É autora do premiado Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos (Boitempo, 2014).

* Artigo publicado originalmente no site PassaPalavra.
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NOTAS
1 Quando da sanção, o presidente do SEBRAE, Guilherme Afif Domingos, adiantou: “o setor de beleza será o modelo para a terceirização em todos os setores”.
2 O Contrato Zero Hora já abrange 3% da força de trabalho no Reino Unido, mais de 900 mil trabalhadores, e cresce exponencialmente a partir de 2012. O contrato regulamenta a condição de trabalhador just-in-time, possibilitando às empresas a utilização da mão de obra de acordo com sua necessidade, a custos e encargos reduzidos.
3 Para discussão sobre o trabalhador amador: Dujarier, M. Le travail du consommateur. Paris, La Découverte, 2009. Abílio, L.C. Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos. São Paulo : Boitempo, 2014.
4 Fazendo o cálculo custo-benefício, centenas de motoristas Uber concluíram que custos com o desgaste do carro, entre outros, são maiores na realização de pequenas corridas. Uma das saídas encontradas foi buscar as corridas mais longas a partir do aeroporto de Guarulhos. Essa decisão se traduziu na formação de bolsões de estacionamento, nos quais formam-se gigantescas filas de espera pelo próximo trabalho. O motorista pode passar horas (12 horas, como diz a notícia) esperando por um chamado vindo do aeroporto – o qual ele tem de aceitar sem saber seu destino nem o valor a ser ganho. Motoristas passam o dia jogando baralho e dominó, e em torno deles já se formou uma rede de trabalhadores informais fornecedores de marmitas, bebidas, banheiros químicos.
5 Na pesquisa que realizei com motofretistas ficou claro que a maioria dos entrevistados tem uma jornada de 14 horas por dia ou mais sobre a moto, em meio ao trânsito de São Paulo.
6 Harvey, D. A condição pos-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo : Loyola, 1992. Bernardo, J. Democracia totalitária: teoria e prática da empresa soberana. São Paulo: Cortez, 2004.
7 No Brasil a uberização é ainda potencializada por uma nova figura jurídica, criada no governo Dilma, do Microempreendedor Individual (MEI). A princípio estabeleceu-se como um meio para a formalização de trabalhadores informais de baixa renda, que então se tornam pessoas jurídicas, podendo emitir nota fiscal, sem terem as responsabilidades jurídicas de uma empresa. O MEI não pode faturar mais de 60 mil reais por ano e contribui para a Previdência Social, tendo acesso a benefícios sociais tais como auxilio maternidade, auxílio doença e aposentadoria. A figura do MEI tornou-se ao mesmo tempo instrumento governamental para a redução da taxa do trabalho informal no Brasil e veículo extremamente eficaz da pejotização dos trabalhadores de baixa qualificação e rendimento.
8 Em 2009 o governo Lula reconheceu e regulamentou a profissão de motofretista e mototaxista. As prefeituras encarregam-se das regulamentações locais. Em São Paulo a regulamentação foi o mote de diversas manifestações em que centenas de motofretistas bloquearam vias principais da cidade com seu instrumento de trabalho. A regulamentação envolve uma série de custos para os motoboys. Até hoje, apesar de estar implementada na cidade de São Paulo, não é fiscalizada, permanecendo opcional para o trabalhador. As empresas-aplicativo de motofrete cadastram apenas profissionais regularizados. Para elas a regulamentação é extremamente propícia, na medida em que certifica o trabalhador autônomo, operando como uma forma de burocratização da relação de confiança que é fundamental para que o consumidor contrate o serviço. Assim sendo, os motoboys que trabalham com aplicativos são motofretistas-MEI.
10 Howe, Jeff. Crowdsourcing: How the power of the crowd is driving the future of business. Nova York, Rondon House, 2008.
11 Oliveira, F. Crítica à razão dualista/ O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
12 Ver seções “O flex é feminino” e “O sistema de vendas diretas e a exploração do trabalho tipicamente feminino” em Abílio, L.C. Sem maquiagem.., cit.
13 Telles, V. Mutações do trabalho e experiência urbana. Tempo social, n.18, v.1, 2006, p. 173-95.
14 Castel, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998.
15 Cardoso, A. Ensaios de sociologia do mercado de trabalho brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2013.
16 CABANES, R.; GEORGES, I.; RIZEK, C. & TELLES, V (orgs.). Saídas de emergência: Ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo. São Paulo: Boitempo, 2011; FELTRAN, G. O valor dos pobres. Cadernos CRH, Salvador, v.27, n.72, p. 495-512, Dez. 2014; TELLES, V. S.; CABANES, R. (Orgs.). Nas Tramas da Cidade – trajetórias urbanas e seus territórios. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006.
17 Gig economy é o termo que hoje nomeia a sobrevivência por meio de bicos, contratos de trabalho temporário, atividades como a do Uber. O termo dá a dimensão da globalização da viração (ver aqui e aqui).
18 Oliveira, F. Passagem na neblina. In: Stédile, J., Genoíno, J. (orgs.) Classes sociais em mudança e luta pelo socialismo. São Paulo: Perseu Abramo, 2000. Klein, N. Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido. São Paulo: Record, 2002.

Você acredita em Deus?

Por que ainda sou um economista militante


O que você não deveria fazer depois deste ano tão desanimador? Três grandes tentações serão sentidas, em diferentes graus, dependendo das pessoas. Vou chamá-las de quietismo, aquiescência e emulação.

Quietismo
Comecemos pelo quietismo. Significa, substancialmente, renunciar a tentar dialogar com o mundo em geral. Significa encurvar-se sobre si mesmo. Significa se concentrar na própria especialização. Se você é economista, significa voltar a escrever ensaios que serão lidos por algumas centenas de pessoas e renunciar a qualquer tentativa de fazer com que essa palavra chegue ao mundo mais amplo. Pelo menos no que se refere a mim, essa é uma tentação muito forte.

Quero contar-lhes o que eu fiz no domingo passado. Eu tinha um editorial para escrever, mas decidi que precisava esclarecer algumas coisas na minha cabeça e, depois, talvez escrevê-las para outros. Então, passei algumas horas muito agradáveis lendo artigos acadêmicos e, depois, abraçado no meu velho amigo Fred (Fred está para “Federal Reserve Economic Data”, um site fantástico para encontrar estatísticas).

Foi uma experiência maravilhosamente relaxante, calmante, um pouco o equivalente nerd de assistir vídeos de gatinhos no YouTube (eu também faço isso, aliás). Em suma, foi ótimo.

Obviamente, as pessoas vão continuar fazendo coisas desse tipo. Vão continuar trabalhando nos seus mundos específicos, trabalhando em coisas que não são necessariamente destinadas a atingir um público de massa. Ao contrário, a maioria das pessoas vai fazer isso: nem todos podem tentar, ou deveriam tentar, influenciar a opinião dos não especialistas, dos não adeptos aos trabalhos.

Eu acho que, no fim, mesmo se você for a pessoa mais introvertida e acadêmica do mundo, para todos nós, a justificativa última daquilo que fazemos é fazer algo que vai mudar o mundo, que vai melhorar as coisas.

Se você ler a obra-prima de um economista extremamente influente como John Maynard Keynes, a “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, que é um livro notoriamente difícil (é um trabalho duro até mesmo para os economistas de profissão), você vai ver que, no fim, ele fornece uma autojustificação. Por que ele escreve esse livro que, com efeito, é dirigido a um público de adeptos aos trabalhos, sabendo que os políticos não vão lê-lo? Porque as ideias importam, dizia. “Os homens práticos, que se acreditam imunes a qualquer influência intelectual, geralmente são escravos de algum economista já falecido. Os líderes loucos, que ouvem vozes vindas do ar, destilam sua exaltação de algum escrevinhador acadêmico de alguns anos atrás.” Em suma, as ideias vêm e vão pelo mundo. Mas o que acontece se os líderes loucos destilam a sua exaltação de um site de mentiras gerido por São Petersburgo? Qual o papel, nesse caso, para o raciocínio aprofundado?

Bem, a menos que se acredite que existe um canal que permite que o saber acadêmico penetre no mundo real, todo o esforço é bastante desanimador. Por isso, é o caso de continuar trabalhando duro para tentar estabelecer essa conexão. Das várias coisas que eu estou falando, o quietismo é a tentação que exerce a maior atração em mim: mas também é uma tentação à qual eu não quero ceder.

Aquiescência
Vocês já estão vendo, não é mesmo? Se um conjunto de ideias têm sucesso politicamente, isso significa que alguma validade elas devem ter. Há alguns intelectuais que são centristas de profissão: se há duas inclinações, a verdade deve estar sempre no meio; e, se há extremismo, deve ser, por força, igualmente extremo, independentemente do contexto.

Vocês certamente estão vendo muitos que já começam a encontrar subterfúgios para defender que o presidente [Trump] e os seus colaboradores mais próximos devem ter alguma razão. O problema dessa atitude, naturalmente, é que o fato de ter o poder não torna certo aquilo que você diz, o fato de ter o poder não decide onde está a verdade. Só porque algo funcionou bem, isso não significa que possui qualquer validade.

Vocês devem aferrar com força os seus princípios. Não devem acreditar que o seu lado está sempre certo (certamente não é o caso), não devem acreditar que são infalíveis (absolutamente não é o caso), mas devem acreditar que os instrumentos da razão – tentar compreender realmente como o mundo funciona e tentar basear a sua visão de como o mundo deveria ser sobre essa compreensão – não são influenciados pelos destinos políticos. Vocês devem continuar acreditando nisso. Se vocês cederem a essa tentação, renunciem ao próprio sentido da existência de vocês.

Emulação
O que acabamos de ver, e não é a primeira vez, é que ideias simplistas, completamente erradas, funcionaram muito bem. Que aqueles que afirmam coisas simplistas, facilmente refutáveis, não pagam nenhum imposto. E que ter uma narrativa forte, mesmo que totalmente falsa, aparentemente funciona melhor do que ter uma narrativa sofisticada, mas pouco convincente. Talvez, então, deveríamos fazer a mesma coisa?

Nesse ponto, eu deveria fornecer exemplos correspondentes para o outro lado do espectro político, mas a verdade é que não há nada de realmente comparável. E aqui voltamos a uma das coisas que eu dizia antes sobre os centristas de profissão: é uma espécie de axioma pelo qual duas partes do debate político devem necessariamente ser simétricas, mas não é assim. Simplesmente há uma enorme diferença.

Quando ouço as pessoas dizerem: “Se introduzirmos os deveres de Trump e abraçarmos o protecionismo, vai se desencadear outra depressão que irá destruir milhões e milhões de postos de trabalho”, eles estão dizendo algo que não é validado pela análise econômica. O argumento de que o protecionismo destrói postos de trabalho não é aquilo que dizem os manuais de economia (e eu escrevi vários manuais de economia). Aquilo que os manuais dizem é que o protecionismo reduz a eficiência e nos torna mais pobres no longo prazo. Eles não dizem que vai destruir muitos postos de trabalho. Porém, vê-se muita gente – que deveria saber dessas coisas – propagando análises alarmistas.

Moody’s publicou uma análise sobre os efeitos da política comercial de Trump que é chocante na sua falta de fundamentos. Não é que o modelo econômico esteja errado, é justamente que ele não está baseado em nada, em nenhum modelo que qualquer pessoa possa utilizar para qualquer coisa. Eles simplesmente fabricaram uma história ali para assustar as pessoas contra os efeitos da política comercial. E é uma tentação que eu entendo. Alguém pode dizer: “Você vai pagar um preço quando vierem à tona as coisas que você disse que estavam erradas”, mas, nos últimos meses, a verdade é que não vimos ninguém pagar preço algum por dizer coisas inexatas. Existem muitos outros exemplos como esse e, em alguns casos, provavelmente muito mais graves.

Vocês devem lembrar por que estamos lutando realmente. Eu tenho valores, uma preferência política: há coisas que eu quero ver realizadas. Eu quero uma sociedade que seja mais benevolente para com os infelizes, que conforte os aflitos e aflija os ricos, e não o contrário. Quero uma sociedade aberta, em muitos sentidos.

Mas há algo maior do que a simples questão do que vai acontecer com a política fiscal, com os programas sociais ou com o salário mínimo. Tornou-se cada vez mais evidente que, embora a luta de fundo, obviamente, seja entre direita e esquerda (entre um Estado concebido como a serviço da oligarquia e um Estado concebido como protetor), ela é também, em certo nível, uma luta entre aqueles que querem defender o Iluminismo e aqueles que querem destruí-lo.

A honestidade intelectual é um valor fundamental. Vocês não devem começar contando mentiras nobres, porque sacrificariam aquilo que vocês são. Não se escondam no seu jardim. Não comecem a encontrar truques para defender que coisas insensatas, no fim das contas, têm sentido.

O que fazer?
Mesmo aqueles de nós que saíram das fronteiras do mundo acadêmico e tentaram falar com o exterior não se comprometeram o suficiente para encontrar formas adequadas para se comunicar com um grupo mais amplo de pessoas. Continua-se confiando demais no código, dando por descontado que as pessoas sabem ou entendem coisas que muitas delas não sabem e não entendem. Não é o suficiente.

O pior de tudo é quando se sobe na cátedra, quando se defende algo aproveitando-se da própria autoridade. Eu não acho que já tenha feito isso ou, pelo menos, tento evitá-lo. Pediram-me para assinar diversos abaixo-assinados sobre os terríveis efeitos das políticas de Trump. Eu tinha uma desculpa: o New York Times não me permite fazer coisas desse tipo. Mas o fato é que essa estratégia é incrivelmente ineficaz. Ela simplesmente não funciona: não nestes Estados Unidos, não nesta fase da nossa civilização. Dizer “eu sou um especialista, acreditem em mim” simplesmente não funciona.

Mas, mesmo para além disso, a tentação de ficar calmo e não se esforçar para traduzir abstrações em coisas mais concretas, que as pessoas possam compreender, é muito grande. E devemos combatê-la. Uma forma para combatê-la, também aqui, é evitar não só o jargão técnico, mas também certos modos de enquadrar a questão que são de difícil compreensão.

Há muito tempo, quando eu estudava para o mestrado, o meu orientador na época, o falecido Rudi Dornbusch, dizia que, quando se escreve para um público genérico, não é preciso começar dizendo: “Tomemos uma economia pequena e aberta…”. É preciso dizer: “Na Bélgica…”.

Ora, eu não quero ser aquele que simplesmente diz: “Faça o que eu faço. Todos deveriam ser como eu”. Eu também fiz um exame de consciência, e uma coisa que é importante e que eu não faço, e que não é natural para mim fazer, é individualizar, focar a atenção nas histórias de pessoas individuais. Realmente não é o meu estilo. Eu não sou aquele tipo de pessoa que vai para outro país e encontra um artigo local que, coincidentemente, diz exatamente as coisas que eu penso. Eu também não sou aquele tipo de pessoa que faz jornalismo in loco e encontra uma família que foi afetada pelo problema. E há um motivo pelo qual eu não faço isso: sempre me irritou, e continua me irritando, quando os políticos fazem um discurso e dizem: “Deixem-me contar sobre a família Garcia”. Mas eles fazem isso por uma ótima razão: fazem porque é a maneira pela qual a maioria das pessoas se relacionam. É preciso ir para o lado pessoal, e é uma coisa que os intelectuais públicos também devem encontrar a maneira de fazer.

Outra coisa que vocês devem fazer é focar o assunto. Não significa que vocês devem renunciar aos seus padrões, mas vocês devem se perguntar: o que é que funciona? Há pessoas que é preciso persuadir, há uma tese a ser defendida: como fazemos isso? E que pontos precisam ser postos em relevo? As pessoas têm pouco tempo e um intervalo de atenção limitado, e se distraem facilmente se vocês começarem pela tangente. Vocês devem manter o foco.

Recentemente, eu participei de um evento com o ex-deputado democrata Barney Frank sobre a possibilidade de novos progressos na reforma das finanças, e acabou-se discutindo se havia esperança de salvar alguma coisa. Barney disse uma coisa muito afiada sobre a comunicação política: “Devemos nos comprometer em dizer a verdade e nada além da verdade, mas não necessariamente toda a verdade. Às vezes, ela é uma distração”.

Para mim, ele tem razão. Vocês devem focar o assunto. E, acima de tudo, levar adiante rixas com os seus colegas e querer passar por cima dos outros são sempre uma coisa feia, mas, nesse contexto, são um pecado capital. Aqui, não se trata de vocês, trata-se do mundo.

Continuem insistindo. A minha avó, que às vezes falava um inglês excêntrico, sempre dizia que “Roma não foi construída da noite para o dia”. Vocês devem ter paciência e aceitar que, em muitas ocasiões, não conseguirão vencer a discussão, pelo menos não imediatamente. Indivíduos péssimos vão ganhar as eleições, pessoas que dizem bobagens totais vão chamar a atenção de quem está no poder e talvez vão conseguir persuadir grande parte da opinião pública. Mas isso não significa que vocês não podem fazer a diferença em sentido positivo, se persistirem. Vocês simplesmente devem perseverar. Vocês devem ter a pele dura e estar preparados para reviravoltas. Vocês também devem estar preparados para receber muitos ataques pessoais.

Continuem promovendo a vida da mente como um caminho, pelo menos, para uma possível melhoria da vida em geral. As forças que acabamos de ver são algo que aqueles que prestavam atenção sabiam que existiam, mas se revelaram mais fortes do que se imaginava. Provavelmente, será uma longa noite. Se eu lhes pareço calmo e reconciliado, vocês estão muito enganados. Não passa um dia, certamente não passa uma noite sem que eu atravesse uma fase de pessimismo e de pânico. Mas vocês devem fazer o seu dever.

Em tudo isso, o papel do raciocínio aprofundado e a tentativa de fazer com que esse raciocínio aprofundado chegue a um público mais amplo e mais inteligente será mais essencial do que nunca. Talvez, daqui a dez anos, vamos pensar novamente neste discurso e diremos: “Nossa, como estávamos deprimidos. Mas, no fim, tudo correu bem”.

Paul Krugman

Empreendedorismo Social

Existe vida extra-terrestre?


Cientistas da NASA descobriram uma estrela Trappist-1, distante 39 anos luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de água e assim de vida. Esta descoberta recolocou a questão de eventual vida extra-terrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área.

As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida.

A vida é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. O fato é que há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades inimagináveis de raios, de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a geoquímica da Terra, esta levou até à exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira: estruturaram-se cerca de 20 aminoácidos e quatro bases fosfatas. Como num imenso relâmpago que cai sobre o mar ou brejo, irrompeu a primeiro ser vivo.

Dando um salto quântico e qualitativo, emergiu na Terra, em nosso espaço-tempo curvo, num canto de nossa galáxia média, num sol secundário, num planeta de quantité négligeable, a Terra, a grande novidade: a vida. A Terra passou por 15 grandes dizimações em massa, mas como se fora uma praga, a vida jamais foi extinta,

Vejamos, rapidamente, a lógica interna que permitiu a eclosão da vida. À medida que avançam em seu processo de expansão, a matéria e a energia do universo tendem a se tornar cada vez mais complexas. Cada sistema se encontra num jogo de interação, numa dança de troca de matéria e de energia, num diálogo permanente com o seu meio, retendo informações.

Biólogos e bioquímicos, como Ilya Prigogine (prêmio Nobel em química, 1977), afirmam que vigora uma continuidade entre os seres vivos e inertes. Não precisamos recorrer a um princípio transcendente e externo para explicar o surgimento da vida, como o fazem, comumente, as religiões e a cosmologia clássica. Basta que o princípio de complexificação, autoorganização e autocriação de tudo, também da vida, chamado de princípio cosmogênico, estivesse embrionariamente naquele pontozinho ínfimo, emerso da Energia de Fundo que depois explodiu. Um dos mais importantes físicos quânticos da atualidade, Amit Goswami, sustenta a tese de que o universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um princípio ordenador supremo, Deus. Por isso, para ele, o universo é autoconsciente (O universe autoconsciente, Rio 1998).O mesmo pensa talvez o maior cosmólogo atual Brian Swimme (The hidden Heart of the Cosmos, 1996).

A Terra não detém o privilégio da vida. Segundo Christiann de Duve, prêmio Nobel de biologia (1974) que escreveu uma das mais brilhantes obras sobre a vida, disse em seu livro Poeira vital: a vida como imperativo cósmico:
Há tantos planetas vivos no universo quanto há planetas capazes de gerar e sustentar a vida. Uma estimativa conservadora eleva o número à casa dos milhões. Trilhões de biosferas costeiam o espaço em trilhões de planetas, canalizando matéria e energia em fluxos criativos de evolução. Para qualquer direção do espaço que olhemos, há vida (…). O universo não é o cosmo inerte dos físicos, com uma pitada a mais de vida por precaução. O universo é vida com a necessária estrutura à sua volta ( Op.cit.1997,p. 383).
É mérito da astronomia, na faixa milimétrica, ter identificado um conjunto das moléculas nas quais se encontra tudo o que é essencial para dar início ao processo de síntese biológica (Longair, M. As origens do nosso universo, 1994, p. 65-6). Nos meteoros e meteoritos, encontraram-se aminoácidos. Esses, sim, são os eventuais portadores das arquibactérias da vida. Houve, provavelmente, vários começos da vida, muitos frustrados, até que um definitivamente se firmou.

Presume-se que as mais diversas formas de vida originaram-se todas de uma única bactéria originária (Wilson, O . E., A diversidade da vida, São Paulo, 1994). Com os mamíferos, surgiu uma nova qualidade da vida, a sensibilidade emocional e o cuidado. Dentre os mamíferos, há cerca de 70 milhões de anos, destacam-se os primatas, e depois, por volta de 35 milhões de anos, os primatas superiores, nossos avós genealógicos, e há 17 milhões de anos, nossos predecessores, os hominidas. Há cerca e 8-10 milhões de anos, emergiu na África o ser humano, o australopiteco. Por fim apareceu, há 100 mil o Homo sapiens-sapiens/demens-demens do qual somos herdeiros imediatos (Reeves, H. e outros, A mais bela história do mundo, Petrópolis, 1998).

A vida não seria fruto do acaso (contra Jacques Monod, O acaso e a necessidade, Petrópolis, 1979). Bioquímicos e biológicos moleculares mostraram (graças aos computadores de números aleatórios) a impossibilidade matemática do acaso puro e simples. Para que os aminoácidos e as duas mil enzimas subjacentes pudessem se aproximar e formar uma célula viva, seriam necessários trilhões e trilhões de anos, mais do que os 13,7 bilhões de anos, a idade do universo. As possibilidades são de 10 em potência, 1000 contra um. O assim chamado acaso é expressão de nossa ignorância.

Estimamos que o sentido da evolução ascendente é produzir mais e mais condições para a irrupção da vida, também extra-terrestre como na lua Europa de Júpiter e os três planetas rochosos de Trappist-1.

Com razão disse o famoso físico britânico Freeman Dyson (*1923): ”quanto mais examino o universo e os detalhes de sua arquitetura, mais acho evidências de que o universo sabia que um dia, lá na frente, iríamos surgir”(Disturbing the Universe, 1979, p. 250).

Leonardo Boff junto com o cosmólogo Mark Hathaway trata detalhamente o tema em o O Tao da Libertação, Vozes 2010.
Fonte: https://leonardoboff.wordpress.com/2017/02/24/existe-vida-extra-terrestre/

Empreendedorismo Social: o que é isso?

Átomos e partículas. Estória do acelerador


Neste segundo remix da obra de Carroll (2012) (C) sobre a partícula do fim do universo (bóson de Higgs), vamos estudar dois capítulos: átomos e partículas; estória do acelerador.

I. ÁTOMOS E PARTÍCULAS
Busca-se particionar a matéria até “seus últimos constituintes, quarks e léptons” (C:39). É a ideia fixa da física: achar o fim do fim, sem nunca encontrar, talvez porque a realidade mais se assemelha a um círculo ingente, do que a uma linha reta que começa e acaba. Conta Carroll que no início dos 1800, o médico alemão Hahnemann fundou a prática da homeopatia. Desiludido pela medicina da época, desenvolveu nova abordagem com base no princípio de “igual cura igual” – doença pode ser tratada precisamente pela mesma substância que a causa, desde que seja manipulada adequadamente. A manipulação é chamada de “potencialização”, consistindo em diluir a substância repetidamente em água, agitando vigorosamente cada vez. Método típico de diluição é misturar uma parte da substância de 99 partes de água – prepara-se remédio homeopático diluindo, agitando e diluindo de novo, agitando de novo, até 200 vezes. Mais recentemente, Jago, consultor profissional de software e cético recreativo, quis demonstrar que não cria em homeopatia como abordagem válida. Decidiu aplicar o método de diluição serial a uma sustância obtida facilmente: sua própria urina. E que depois bebeu – por ser um pouco impaciente, diluiu apenas 30 vezes – não chamou de “urina”, mas de “mijo” (piss), dizendo que desenvolvia a cura por ser mijado (piss nos Estados Unidos significa também ficar com raiva; na Inglaterra, inebriar-se). Os resultados vieram num vídeo espalhafatoso no YouTube. Após a diluição em trinta vezes, ao final de urina não tinha mais nada. Tudo isso pela razão de tudo ser feito de átomos, combinados em moléculas. Estas são as menores unidades das substâncias.

Separadamente, dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são só átomos; combinados, viram água. Podemos diluir as coisas para sempre e manter a identidade – uma colher de urina pode conter cerca de 1024 moléculas; se diluímos uma vez misturando uma parte de urina com 99 partes de água, ficaremos com 1022 moléculas de urina. Diluindo duas vezes, ficarão 1020. Com 12 vezes, haverá em média apenas uma molécula restante. A partir daí já estaremos misturando água com água. Assim Jago, ao final, bebia água apenas. Adeptos da homeopatia, sabendo disso, creem que moléculas da água retêm uma “memória” de qualquer erva ou químico usado na diluição e que, de fato, a solução final é mais potente que a substância no início. Isto viola o que sabemos sobre física e química e experimentos clínicos classificam remédios homeopáticos como placebos. Mas sempre houve quem acredita nisso. A física toma dois fatos incisivos: i) podemos particionar a matéria em pedaços menores, na unidade menor possível;  ii) ao fundo há apenas alguns elementos que podem combinar-se, resultando na variedade do mundo observado. Num primeiro momento, o zoológico das partículas parece bagunçado, mas há apenas 12 partículas, em dois grupos de sei: quarks, que sentem a força forte nuclear, e léptons, que não. É uma estória estupefaciente, secular, desde a descoberta do elétron em 1897 até a do férmion (o neutrino tau) em 2000.

Visivelmente, Carroll acredita num ponto final na partição da matéria – sempre se prometeu isso, mas nunca deu certo. A cada momento inventa-se algo a mais, indicando que, assim como o universo parece “infinito” para cima, também parece para baixo. Tratando-se de algo material, esperamos que comece em algum lugar, mas este lugar até hoje fugiu...

II. IMAGENS DOS ÁTOMOS
As imagens mais comuns dos átomos – em revistas em quadrinhos, por exemplo – aparecem como pequenos sistemas solares, com núcleo central e elétrons orbitando-o – serve também de logo da Atomic Energy Commission americana. Mas traz equívoco de modo sutil – representa-se o modelo de Bohr, aplicando a mecânica quântica da época, oriunda de Rutherford. No modelo de Rutherford, elétrons orbitam o núcleo em qualquer distância imaginável, como planetas no sistema solar, exceto que são atraídos por eletromagnetismo, não gravidade. Bohr modificou a ideia insistindo que os elétrons podem viajar apenas em certas órbitas particulares, um grande passo em frente para entender a radiação emitida por átomos. Hoje sabemos que elétrons “não orbitam”, pois não possuem posição ou velocidade – a mecânica quântica diz que elétrons persistem em nuvens de probabilidade conhecidas como “funções de onda”, que nos dizem onde poderíamos achar a partícula se formos observar. Mas a imagem popular não é tão ruim assim. Elétrons são relativamente leves; mas de 99.9% da massa de um átomo é localizada no núcleo. Este é feito de combinação de prótons e nêutrons – um nêutron é um pouco mais pesado que um próton – um nêutron é cerca de 1.842 vezes mais pesado que um elétron, enquanto um próton é cerca de 1.836 vezes mais pesado. Prótons e nêutrons são chamados de “núcleons”, pois perfazem o núcleo. À parte o fato de que próton tem carga elétrica e nêutron é mais pesado, os dois núcleons são similares. Elétrons são atraídos para o núcleo pela força do eletromagnetismo, que é muitíssimo mais forte que a gravidade. A atração eletromagnética entre um elétron e um próton é cerca de 1039 vezes mais forte que a atração gravitacional entre eles. Enquanto gravidade é simples – tudo atrai tudo – eletromagnetismo é mais sutil. Nêutrons recebem o nome do fato de serem neutros, sem carga elétrica. A força eletromagnética entre elétron e nêutron é zero. Partículas com o mesmo tipo de carga elétrica repelem-se. Elétrons são atraídos para os prótons dentro do núcleo porque elétrons carregam carga negativa e prótons positiva. Elétrons não sentem a força forte (assim como nêutrons não sentem eletromagnetismo), mas prótons e nêutrons sim, o que permite fazer o núcleo. Mas até certo ponto. Se o núcleo engordar demais, a repulsão elétrica vira excessiva, e o núcleo se torna radioativo – pode sobrevier um pouco, mas tende a decair em núcleos menores.

A estória de elétrons, prótons e nêutrons se formou no início dos 1930. A natureza, porém, é mais contorcionada e Dirac, já nos 1920, já fizera uma equação do elétron – todo férmion está associado com um tipo oposto de partícula – antipartícula. Partículas da antimatéria têm exatamente a mesma massa, mas carga oposta elétrica. Quando se ajuntam, se aniquilam em radiação energética. Coligir antimatéria é, por isso, pelo menos em teoria, modo de estocar energia e gerou muita especulação sobre propulsão de foguetes na ficção. A teoria de Dirac virou realidade em 1932, quando Anderson descobriu o pósitron – a antipartícula do elétron. Há simetria estreita entre matéria e antimatéria; mas o universo observado está cheio de matéria e contém muito pouca antimatéria. Por que é assim, ainda é mistério. Anderson estudava raios cósmicos, partículas de alta energia do espaço que se espatifam na atmosfera terrestre, produzindo outras partículas que eventualmente nos atingem no chão. Para criar imagens do rastro das partículas carregadas, Anderson usou tecnologia incrível conhecida como “câmara da nuvem” – o princípio básico é similar às nuvens reais que vemos no céu – enche-se câmara com gás que é supersaturado com vapor da água. “Supersaturado” significa que o vapor de água está para formar gotículas de água líquida, mas não o faz sem algum empurrão externo. Em nuvem regular, este empurrão vem na forma de algum grão de impureza, como poeira ou sal. Na câmara, o empurrão vem quando partícula carregada passa por ela – a partícula esbarra nos átomos dentro, chacoalhando elétrons soltos e criando íons. Estes servem como locais de nucleação para gotículas mínimas de água. Assim, uma partícula carregada passando deixará rastro de gotículas em sua esteira, bem como o rabo deixado por um avião, deixando amostra de sua passagem. Anderson tomou sua câmara de nuvem, enrolou em magneto poderoso, até ao teto do prédio aeronáutico em California Institute of Technology (Caltech) e aguardou os raios cósmicos. Para se obter vapor apropriadamente supersaturado dentro exigiu decréscimo rápido em pressão, induzido por pistão que causaria estrondo forte a cada vez que fosse deslanchado. Funcionava só à noite por consumo massivo de energia.

Estrondos reverberariam no ar de Pasadena toda noite, como testemunho ruidoso de que segredos do universo estavam sendo descobertos. Anderson tirou fotos que mostraram número igual de partículas que se curvavam no sentido relógio e contrarrelógio. A explicação seria que havia número igual de prótons e elétrons contidos na radiação; de fato, é o que se espera. Mas Anderson tinha outro tanto de dados que podia usar: a espessura do rastro do íon deixado na câmara. Reconheceu que, dada a curvatura dos rastros, todo próton que os produzia teria de estar se movendo relativamente devagar (menos de 95% da velocidade da luz) – deixando rastros mais espessos de íons do que era observado. Parecia que partículas misteriosas passando na câmara estavam carregadas positivamente, como próton, mas relativamente leves, como elétron. Havia outra possibilidade lógica: talvez os rastros eram simplesmente elétrons movendo-se para trás. para testar isso, ele introduziu uma placa de chumbo dividindo a câmara. Uma partícula movendo-se de um lado do chumbo para outro iria mover-se mais devagar, indicando claramente a direção da trajetória. Em foto icônica da história da física de partículas, vemos partícula em cura contrarrelógio movendo pela câmara, passando pelo chumbo e voltando mais devagar – a descoberta do pósitron. Gigantes da área, como Rutherford, Pauli e Bohr se mostraram incrédulos no início, mas experimento bonito sempre se impõe à intuição. Eis a antimatéria entrando no mundo da física de partículas.

III. NEUTRINOS
Arranjamos assim mais três férmios (antipróton, antinêutron, pósitron), num total de seis. Outros problemas vieram; por exemplo, quando nêutrons decaem, viram prótons emitindo elétrons. Medidas meticulosas do processo pareciam indicar que energia não era conservada – o total de energia do próton e elétron eram sempre um pouco menos. A resposta foi sugerida em 1930 por Pauli, sacando que a energia extra podia ser carregada por partícula ínfima neutra difícil de achar; chamou de “nêutron”, antes de o nome ficar ligado à partícula pesada neutra nos núcleos. Logo após, para evitar confusão, Fermi chamou de “neutrino” – de fato, um nêutron emite o que agora reconhecemos como antineutrino, mas o princípio estava bem correto. Pauli sentiu-se incomodado por sugerir partícula difícil de detectar, mas hoje neutrinos são coisa comum. Havia ainda a questão do processo exato pelo qual nêutrons decaem; quando partículas interagem entre si, implica algum tipo de força, mas o decaimento de um nêutron seria o esperado da gravidade, eletromagnetismo ou força nuclear. Então físicos passaram a atribuir o decaimento de nêutron à “força nuclear fraca”, pois tinha algo a ver com núcleons, mas não era a força que mantém os núcleos (força nuclear forte). O neutrino estabeleceu um pouco de simetria na partículas elementares. Havia duas partículas leves, elétron e neutrino, que eventualmente se diziam “léptons” (do grego, pequeno); e havia duas partículas pesadas, próton e nêutron, chamados “hádrons” (do grego, grandes). Os hádrons sentem a força nuclear forte, enquanto os léptons não. Cada categoria continha uma partícula e uma neutra. Parece inventado!

Em 1936, chegou mais um visitante do céu – o múon; Anderson, descobridor do pósitron, e Neddermeyer estavam estudando rádios cósmicos de novo; acharam uma partícula com carga negativa como elétron, mas mais pesada, embora mais leve que antipróton seria. Chamou-se “mu meson”, vendo-se logo tratar-se de méson (bóson feito de um quark e um antiquark), formando a abreviação “múon”. Nos 1930, metade das partículas elementares conhecida  (elétron, pósitron, próton, nêutron, múon e antimúon) foram descobertas na Caltech com Anderson. Depois veio a colheita do LHC. O múon foi surpresa total – já tínhamos o elétron – por que teria primo mais pesado? Em 1962, experimentalistas Lederman, Schwartz e Steinberger mostraram que havia realmente dois tipos diferentes de neutrinos – neutrinos elétrons, que interagem com elétrons e são muitas vezes criados com ele, mas também neutrinos múons, que andam juntos com múons; quando nêutron decai, emite elétron, próton e antineutrino elétron; quando o múon decai, emite elétrons e um antineutrino elétron, mas também um neutrino múon. E o processo se repetiu. Nos 1970, a partícula tau foi descoberta, também negativamente carregada como o elétron, mas pouco mas pesada que o múon; as três acabaram vistas como primas idênticas, diferindo apenas em massa. Todas sentem as forças fracas e eletromagnéticas, mas não a forte; a tau tem seu tipo de neutrino, já antecipado, mas não detectado até 2000.

Então, seis léptons, em três “famílias” ou “gerações”: o elétron com seu neutrino; o múon com seu neutrino; e a tau com seu neutrino. É perfeitamente natural ponderar se uma quarta geração ou mais vão vir... Por enquanto, só um talvez, embora pareça haver evidência que isto seria tudo! É porque os neutrinos conhecidos têm massas bem pequenas – certamente mais leves que o elétron. Agora sabemos como buscar novas partículas leves, analisando cuidadosamente os decaimentos das mais pesadas. Podemos contar quantas partículas similares a neutrino teriam de haver para dar conta dos decaimentos, e a resposta são três. Não há certeza total, porém.

A vinda dos aceleradores de partículas levou a um boom no número de partículas elementares. Havia píons, cáons, méson seta, méson ro, híperons e mais. Lamb, em sua preleção do Nobel de 1955, saiu-se com essa: “O descobridor de nova partícula elementar costumava ser premiado com o Nobel, mas tal descoberta agora deveria ser punida com multa de $10 mil” (C:49). As novas eram hádrons – ao contrário dos léptons, interagem fortemente com nêutrons e prótons, levando à suspeita crescente de que novatos não eram propriamente “elementares”, refletindo algo mais profundo estrutural. Isto se revelou em 1964 por Gell-Mann e Zweig, que, de modo independente, propuseram que hádrons eram feitos de partículas menores chamadas “quarks”. Como os léptons, vêm em seis diferentes sabores: up, down, charm, estranho, top e inferior. Os quarks up/charm/top têm carga elétrica +2/3, enquanto down/estranho/inferior -1/3; são agrupados por vezes como “tipo up” e “tipo down”, respectivamente. Ao contrário dos léptons, cada caso de quark representa um terceto de partículas, ao invés de uma. Os três tipos de cada quark são fantasiosamente chamados por cores: vermelho, verde ou azul. Quarks são “confinados”, significando que existem apenas em combinações dentro dos hádrons, nunca isoladamente. Quando se combinam, é sempre em combinações “sem cor”. Prótons e nêutrons possuem três quarks dentro: um próton é dois ups e um down, enquanto um nêutron é dois downs e um up. Um dos quarks será vermelho, um verde e outro azul; juntos se tornam brancos, sem cor.

IV. A FORÇA QUE NÃO SE ENCAIXA
Os férmions do Standard Model são o que dão à matéria à volta tamanho e molde. Mas são as forças e partículas bósons associadas que facultam aos férmions interagir entre si. Férmions podem empurrar ou puxar uns aos outros tocando bósons para frente e para trás, ou podem perder energia e decair para outros férmions cuspindo algum tipo de bóson. Sem bósons, os férmions simplesmente se moveriam retamente sempre, não afetados por nada. A razão por que o universo é tão incrivelmente complexo e interessante é que tais forças são diferentes, empurrando/puxando em modos complementares. Físicos muitas vezes dizem haver quatro forças da natureza – não incluem o Higgs, por ser diferente dos outros bósons. Os outros se dizem “bósons calibre” (gauge boson) (mais tarde se discute isso). O gráviton é um pouco diferente dos outros; toda partícula elementar tem certo “spin” intrínseco, e fóton, glúons e bóson W/Z têm um spin igual a 1, enquanto o gráviton de 2. Não sabemos ainda reconciliar gravidade com as demandas da mecânica quântica, porém.

O Higgs, por sua vez, é totalmente diverso; é bóson “escalar”, significando que tem zero spin. Ao contrário dos bósons calibre, o Higgs emerge de simetria ou outro princípio natural. Um mundo sem o Higgs seria bem diferente, mas ainda assim consistente com a teoria física. Mesmo importantíssimo, parece deformidade na estrutura matemática do Standard Model. É bóson e por isso pode ser intercambiado para trás e para frente com outras partículas, dando azo à força da natureza. É uma vibração no campo de Higgs, dando massa a todas as partículas elementares. O Higgs interage com todas as partículas massivas em nosso zoo – os quarks, o léptons carregados e os bósons W e Z (deixemos neutrinos de lado). Quanto mais massiva é partícula, mais fortemente se acopla ao Higgs. A realidade, porém, vai noutra direção: quanto mais fortemente uma partícula se acopla com o Higgs, tanto mais massa pega movendo-se no campo ambiental de Higgs que pervade espaço vazio. O Higgs é partícula pesada, e mesmo quando a produzimos não somos capazes de vê-la diretamente; rapidamente decai em outras partículas. Esperamos haver certo ritmo de decaimento para (exemplo) bósons W, diferente do quark inferior, dos mésons tau etc. Não é algo aleatório – sabemos exatamente como ele interage, de sorte que calculamos bem exatamente a frequência esperada de tipos diferentes de decaimentos.

V. ESTÓRIA DO ACELERADOR
Discute-se a história de colidir partículas a energias cada vez mais intensas. A ideia por trás do acelerador parece simples: tomar algumas partículas, acelerar a altas velocidades e espatifar com outras, para ver no que dá. Comparou-se isso com espatifar dois relógios suíços para ver o que sobra com os pedaços... Esta analogia não vale. Quando esmagamos partículas entre si, não estamos vendo como são feitas, mas criando nova partículas. Para chegar a tais velocidades usa-se princípio básico: partículas carregadas (elétrons e prótons) podem ser empurradas à volta por campos magnéticos; usamos campos elétricos para acelerar partículas a velocidades crescentes e campos magnéticos para mover na direção correta, como em tubo circular do LHC. Afinando tais campos delicadamente, pode-se reproduzir condições especiais não vistas na terra. O desafio é então: acelerar partículas o quanto pudermos, esmagá-las entre si e ver o que se cria de novo. Todos os passos são complexos. LHC representa a culminação de décadas de trabalho duro.

Quando o Bevatron criou antipróton, não foi porque havia escondidos, mas, porque as colisões trouxeram novas partículas à existência. Na teoria quântica, ondas representam partículas originais vibrando no campo antipróton; para ocorrer, o ingrediente crucial é que tenhamos suficiente energia. O insight que torna possível a física de partículas é a equação de Einstein E = mc2 – massa é realmente forma de energia; a massa do objeto é o mínimo de energia que pode ter; quando algo está parado, o montante de energia que carrega é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz. A velocidade da luz é número grande (300 mil km/h). Mas, quando o objeto de move? Discussões sobre relatividade gostam de falar como se a massa aumentasse quando uma partícula se aproxima da velocidade da luz, mas é equívoco – prefere-se ver a massa como constante – a energia cresce chegando perto da velocidade da luz. Quando um acelerador empurra prótons a energias mais altas, vão se aproximando da velocidade da luz, embora nunca se chegue propriamente lá. Podem-se fazer partículas pesadas a partir de leves.

Prótons são hádrons – partícula que interagem fortemente; quando se esmagam duas, os resultados são um tanto imprevisíveis. O que realmente ocorre é que um dos quarks ou glúons dentro do hádron esmaga-se em um dos quarks ou glúons do outro, mas não se sabe a energia precisa de cada lado. Uma máquina que faz elétrons colidir é bem diferente: construída para precisão, não força bruta. Quando elétron e pósitron colidem, sabe-se bem o que está sucedendo; os resultados são melhor apropriados para mensurações exatas das propriedades. Aceleradores foram criados em muitas versões, mas hoje o show acontece no LHC.

CONCLUSÃO
Carroll esforça-se por mostrar um quadro simétrico, simples, bonito das partículas elementares, mas, na verdade, é um chão complicado. A própria condição aparentemente anômala (uma deformidade no Standard Model) do Higgs indica que podemos ser surpreendidos por novas elaborações, que com certeza vão vir no futuro. É possível mesmo que o modelo padrão venha a ser superado com o tempo, como já se insinua na mecânica quântica, que continua sendo vista como “mecânica”, por tradição positivista, não porque se imagina como cláusula pétrea. Se aceitarmos que a física de hoje explica talvez 5% do universo, na prática não sabemos ainda “nada”. Tudo pode vir a ser virado de cabeça para baixo. Por isso, não convém assegurar um chão final da matéria, porque sempre este chão foi se afastando. É melhor não se açodar. Provavelmente, qualquer explicação da realidade é menos real do que se gostaria.

REFERÊNCIAS
CARROLL, S. 2012. The particle at the end of the universe: How the hunt for the Higgs Boson leads us to the edge of a new world. Dutton, N.Y.

Pedro Demo (2016)
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