“Amazing Grace...”


“Amazing Grace...”

18 de fevereiro, o Amazing Grace Sunday da Aliança Evangélica Mundial, passou desapercebido por aqui, ocasião em que os cristãos do mundo todo foram convidados a cantar Amazing Grace. Celebravam-se os 200 anos da abolição da escravatura e intercedia-se pela libertação daqueles que ainda hoje são de alguma forma escravizados. Tal descaso é uma pena, já que o evento enfatizou coisas tão essenciais e tão em falta em nosso meio: Cristãos engajados em movimentos sociais e políticos com valores éticos e interesses que transcendam seus próprios umbigos.

A composição do hino citado está ligada à luta pela abolição da escravatura. John Newton(1725-1807), o autor, foi capitão de um navio negreiro. (O De Traficante de Escravos a Pregador de Brian Edwards, Editora Fiel é uma excelente biografia). Numa viagem à Inglaterra, quando quase naufragou, Newton teve uma experiência mística. No camarote refletindo, chegou à conclusão que Deus o protegera da tempestade por ser “Gracioso”. Esta noção mudaria a sua vida e teria reflexos no mundo todo.

Compôs o hino em Dezembro de 1772, já pastor, e o declamou no culto do dia 01 de Janeiro de 1773. Em 1786 pregou uma série de sermões sobre diversos temas tendo como ouvinte o jovem anglicano recém-convertido William Wilberforce, membro da Câmara dos Comuns desde os 21 anos e que tinha sido eleito representante por Yorkshire, o maior e mais importante condado da Inglaterra, que solicitou sua supervisão pastoral. Em decorrência da influência espiritual do agora abolicionista e ex-traficante Newton e após uma forte experiência mística (algo não incomum na Inglaterra de então) decidiu então dar sentido à sua vida. Wilberforce definia como missão de vida a luta pela supressão da escravatura. Newton tornar-se-ia uma grande inspiração para a titânica luta de Wilberforce. O comércio de escravos era econômica e politicamente vantajoso, pelo que os abolicionistas tinham contra si grandes poderes e interesses. Travou uma luta titânica, na Câmara dos Comuns. Não poucas vezes foi chamado de traidor da Pátria. Desperdiçou sangue, suor e muitas lágrimas, além de 18 anos de lutas contra aqueles que criam ser o tráfico uma fonte de renda e um dos sustentáculos da economia da nação.

Foi influenciado além de Newton, por John Wesley, presbítero anglicano, e Anthony Benezet, francês calvinista de sólidas convicções anti-escravagistas que tinham em comum a idéia que o tráfico de escravos era uma “execrável vileza”, nas palavras de Wesley. Essas amizades serviram para fortalecer Wilberforce quando o vigor de sua juventude e o talento que tinha politicamente parecia fraquejar. Como sua meta esbarrava na imoralidade e insensibilidade que se instalara na sociedade inglesa, teve que perseguir uma segunda meta: a reforma da maneira de viver na Inglaterra.

Apresentou várias propostas de lei, que foram rejeitadas. Mas não desanimava, pois cria que a perversidade do comércio era gigantesca, medonha e desumana. Estava completamente preparado para a abolição, fossem quais fossem as conseqüências. Determinou-se nunca descansar até que tivesse a conseguido.

O tráfico foi oficialmente abolido em 1807, completamente, porém só em 1833, três dias antes da morte de Willberforce. Para ele não bastava professar o Cristianismo, levar uma vida decente e ir à Igreja aos Domingos, mas tinha que moldar cada aspecto, cada recanto da vida cristã. Sua abordagem do Cristianismo era essencialmente prática. Foi talvez o maior parlamentar de então. Sendo reeleito consecutivas vezes para o Parlamento.

Pegando carona no fato de Amazing Grace ter sua história confundida com a abolição da escravidão, Michael Apted e Steven Knight, deram o nome da canção a um filme (www.amazinggracemovie.com) sobre a vida de Wilberforce. Produzido pela Walden Media e lançado nos cinemas em Fevereiro de 2007, sem previsão ainda para o Brasil. Tendo Ioan Gruffudd, como Wilberforce e Albert Finney, como John Newton. Já ocupa o 10° lugar em arrecadação nos EUA. Mesmo sendo para comemorar um grande feito, não é imune às críticas: O assessor do prefeito de Londres para a igualdade, Ken Livingstone, acusou o diretor de "Amazing Grace", Michael Apted, de "adoçar" o horror do tráfico de escravos centrando-se no abolicionista britânico William Wilberforce e sua luta parlamentar.

Críticas e ciúmes à parte, o certo é que o filme nos ajuda a não só comemora uma data tão importante como também nos serve de exemplo no âmbito político, coisa que estamos tão carentes.

Como reflexo desta decisão parlamentar e consciente de seu poderio bélico, a Inglaterra proibiu o tráfico no mundo todo. Tornou-se a guardiã (com que intenções?) dos mares. Logo, Portugal e sequazes aboliram o tráfico por conta do poderio naval inglês.

Assim o aristocrata tornou-se o grande campeão da causa anti-escravagista no mundo político de sua época. E ainda tem gente que pensa que político evangélico não pode ser ético e relevante! Quando a lei da abolição foi aprovada o parlamento se pôs de pé e ovacionou Wilberforce por vários minutos, enquanto ele, já desgastado pelos anos, com o rosto entre as mãos chorava as lágrimas da vitória.

Que fazer: ressuscitar Wilberforce ou pedir que Deus seja “Gracioso” e nos dê mais líderes como ele?
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