Make It Rain

When the sins of my father
Weigh down in my soul
And the pain of my mother will not let me go
Well I know there can come fire from the sky
To refine the purest of canes
Even though I know this fire brings me pain
Even so and just the same

Make it rain
Make it rain down low
Make it rain, make it rain
Make it rain
Make it rain down low
Make it rain, make it rain

And the seed needs the water
Before it grows out of the ground
But it just keeps on getting hotter
And the hunger more profound
Well I know there can come tears from their eyes
But they may as well all be in vain
Even though I know these tears come with pain
Even so and just the same

Make it rain
Make it rain down low
Make it rain, make it rain
Make it rain
Make it rain down low
Make it rain, make it rain

And the seas are full of water
It stops by the shore
Just like the riches of grandeur
That never reach the port

And let the claps fill with thunderous applause
And let the lightning be the veins
And fill the sky
With all that they can drop
When it's time to make a change

Make it rain
Make it rain down low
Make it rain, make it rain
Make it rain
Make it rain down low
Make it rain, make it rain



Faça Chover
Quando os pecados de meu pai
Pesam em minha alma
E a dor de minha mãe não me deixa em paz
Bom, eu sei que o fogo pode cair do céu
Para refinar o mais puro dos cetros
Mesmo sabendo que este fogo me traz dor
Mesmo assim, tudo bem

Faça chover
Faça chover lá embaixo
Faça chover, faça chover
Faça chover
Faça chover lá embaixo
Faça chover, faça chover

E a semente precisa da água
Para que possa crescer acima do chão
Mas está ficando cada vez mais quente
E a fome, mais profunda
Bom, eu sei que lágrimas podem cair dos olhos
Mas elas podem muito bem ser em vão
Mesmo sabendo que estas lágrimas trazem a dor
Mesmo assim, tudo bem

Faça chover
Faça chover lá embaixo
Faça chover, faça chover
Faça chover
Faça chover lá embaixo
Faça chover, faça chover

E os mares estão cheios de água
E a água acaba nos litorais
Assim como as riquezas dos poderosos
Que nunca chegam ao porto

E deixe que as palmas cresçam em um aplauso trovejante
E deixe que os relâmpagos sejam as veias
Que preenche os céus
Com tudo o que ela pode derramar
Quando está na hora de mudar

Faça chover
Faça chover lá embaixo
Faça chover, faça chover
Faça chover
Faça chover lá embaixo
Faça chover, faça chover

A vida à beira de um vulcão


A doença psíquica não é diferente das outras doenças. Ela é, apenas mais cruel, porque é invisível. Não há sinais físicos correlatos para quem sofre um transtorno de personalidade; não há febre; não há manchas espontâneas na pele; não há inchaços; nada que se possa ver num exame de raio x, ou mesmo numa sofisticada ressonância magnética. A doença psíquica é íntima apenas de quem convive com ela. E, mesmo assim, pode ser uma íntima desconhecida; dada sua natureza volátil e instável. Os transtornos de personalidade não têm nenhuma lógica que os possa explicar. E, aqueles que sofrem com essas doenças, ainda têm que lidar com um inimigo ainda mais implacável e cruel: o preconceito!

O Transtorno de Personalidade Borderline é caracterizado por um comportamento padrão regido por instabilidade nas relações interpessoais; autoimagem distorcida; dependência afetiva e excessiva impulsividade. Essa combinação explosiva mantém a pessoa numa condição mental perturbada, posto que ela pode ser acometida pelos sintomas de forma inesperada e violenta, transformando sua vida numa experiência caótica, intensa e dolorosa.

É na fase inicial da vida adulta que se observa maior ocorrência no surgimento do TPB. A denominação Transtorno de Personalidade Borderline foi usado pela primeira vez em 1884 e a partir disso, seu diagnóstico e tratamento passaram por várias modificações no decorrer dos anos. No início, enquadravam-se no termo pacientes cujo quadro oscilava entre a sanidade e a loucura, entre a neurose e a psicose; em função disso usou-se o termo “borderline”. O diagnóstico aparecia relacionado a sintomas neuróticos graves. A precisão no diagnóstico começou a se desenhar na década de 1980; antes disso, a maioria dos médicos tinha a crença de que a personalidade era algo definitivo, imutável; e, portanto não poderia ser objeto de observação e estudo para determinar qualquer tipo de doença.

São várias as causas envolvidas na instalação de um quadro de Transtorno de Personalidade Borderline: predisposição genética; experiências tráumáticas na infância ou adolescência; abuso; negligência; e, até fatores ambientais e sociais (guerras; acidentes causados por fenômenos naturais). É prevalente a ocorrência de TPB quando há parentes de 1º grau com esse transtorno. Famílias instáveis, formada por pais agressivos ou envolvidos em relações muito conflituosas e violentas são outro fator de desencadeamento de TPB. Crianças submetidas a uma educação excessivamente autoritária, com exigência completa de submissão e obediência, também podem desenvolver o transtorno, pois têm seu desenvolvimento cognitivo e emocional deformado por dúvidas profundas acerca de suas capacidades e excessivo sentimento de culpa e vergonha por seus fracassos, por mais naturais e típicos que sejam. No entanto, embora seja bem menos frequente, observa-se a ocorrência deste transtorno em indivíduos que não se enquadram em nenhum dos critérios previstos.

Aqueles que são vítimas de Transtorno de Personalidade Borderline vivem num sofrimento profundo. Empenham esforços desumanos na tentativa de evitar situações de abandono, quer elas sejam reais ou imaginárias. Repetem padrões de relacionamentos pautados pela alternância de extremos: ou idealizam demais o objeto de seu afeto, ou o desvalorizam a ponto de humilhar e romper vínculos definitivamente. Lutam com uma dualidade acerca da percepção que têm de si mesmos: ou se acham “o máximo”, ou se sentem “um lixo”. Submergem em comportamentos impulsivos ou obsessivos que podem variar de gastos excessivos; a sexo irresponsável; abuso de substâncias químicas; compulsão alimentar ou desejo de viver em risco permanente. São acometidos de forma constante por sentimento de menos valia, sentem-se vazios e entediados. Irritam-se facilmente, sendo protagonistas de explosões desproporcionais de raiva que duram algumas horas, mas depois deixam o indivíduo destruído diante de situações muitas vezes irremediáveis e que ele não tem como consertar. Não raras vezes, o portador de TPB mutila-se fisicamente e chega a tentar contra a própria vida.

O caos que envolve a vida do portador de Transtorno de Personalidade Borderline, atinge de forma inexorável aqueles que convivem com ele, sobretudo seus familiares. Muitas vezes, a família e os amigos desistem do portador de TPB, em função da dificuldade em lidar com suas intempestivas oscilações de comportamento. Entretanto, é importante salientar que os sintomas e próprio transtorno são tratáveis por meio de psicoterapia, acompanhamento médico-psiquiátrico e, quando necessário, uso de medicamentos sob prescrição, avaliação e orientação médica, para tratar condições periféricas tais como depressão, insônia, ansiedade, compulsão ou irritabilidade, por exemplo.

O prognóstico é de esperança e possibilidade de uma vida plena, organizada e com qualidade, desde que o paciente receba e persista no conjunto indicado de tratamentos e conte com um anteparo emocional, formado por uma rede afetiva de pessoas que se disponham a enfrentar cojuntamente os inúmeros desafios que os transtornos de personalidades infringem.

O fato é que aquele que vive às voltas com esse alucinante estado emocional em carne viva, sofre. Além das inúmeras contingências cruéis da doença, sofre com as catastróficas experiências amorosas nas quais se envolve; sofre com a falta de capacidade (ainda que temporária) de se comprometer com as mais simples tarefas do dia-a-dia; sofre por perder empregos, por não conseguir terminar o que começa, por não ser possível manter a concentração; sofre porque ser diferente é uma afronta que o outro não tolera porque se acha imune de qualquer tragédia dessas; sofre quando o outro à sua frente trata sua condição mental (grave) como algo imaginário ou um comportamento “para chamar a atenção”.

Assim, caso nos caiba a oportunidade de conviver com um de nós que esteja sendo tragado pelas agruras de uma doença psíquica, procuremos enxergar além da nossa tosca mania de rotular o outro com definições reducionistas. Façamos um pequeno esforço para compreender que nunca seremos capazes de mensurar de fato o quanto é dolorosa a luta de alguém cujo opositor não tem cara, nem coração. Tratemos de nos curar dessa doença epidêmica que é o preconceito. Assim, quem sabe, em vez de torcer o nariz e virar as costas, não sejamos capazes de acolher entre os braços e oferecer um tiquinho da nossa valiosa atenção!

Ana Macarini
Fonte: http://www.contioutra.com/borderline-a-vida-a-beira-de-um-vulcao/

Logística Reversa de Equipamentos Eletroeletrônicos – Análise de Viabilidade Técnica e Econômica


Logística Reversa para o setor de medicamentos



“Deus está morto!” – O que Nietzsche queria dizer com isso?


Deus está morto!” Em alemão, Gott ist tot! . Esta é a frase que mais do que qualquer outra está associada com Nietzsche. No entanto, há uma ironia aqui, já que Nietzsche não foi o primeiro a chegar a esta expressão. O escritor alemão Heinrich Heine (que Nietzsche admirava) disse antes, Hegel também. Mas foi Nietzsche quem fez disso a sua missão como um filósofo para responder à mudança cultural dramática que a expressão “Deus está morto” descreve.

A frase aparece pela primeira vez no início do Livro Três de A Gaia Ciência (1882). Um pouco mais tarde, é a ideia central no famoso aforismo (125) intitulado O louco, que começa assim:

“Nunca ouviram falar do louco que acendia uma lanterna em pleno dia e corria pela praça, gritando: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!”. Mas aqueles que não acreditam em Deus, ficavam rindo, e diziam: “Estará perdido, tal uma criança?”, “Estará escondido? Estará com medo de nós?”, “Terá viajado?”. O louco então gritou: – Para onde foi Deus? o que vos direi! Nós o matamos! Vós e eu! Somos nós, nós todos, os assassinos! Mas como fizemos isso? Como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte? Como tiramos a terra de sua órbita? Para onde vamos agora? Não estamos sempre caindo? Para frente, para trás, para os lados? Mas haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos vagando através de um infinito Nada? Não sentiremos na face o sopro do vazio? O imenso frio? Não virá sempre noite após noite? Não acenderemos lâmpadas em pleno dia? Não podem ouvir o barulho dos coveiros – enterrando Deus? Ainda não sentiram o fedor da decomposição divina? Os deuses também apodrecem! E Deus morreu! Deus está morto! E nós o matamos!”

O louco continua a dizer:
Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram!
O que tudo isso significa?
O primeiro ponto bastante óbvio a fazer é que a afirmação “Deus está morto” é paradoxal. Deus, por definição, é eterno e todo-poderoso. Ele não é o tipo de coisa que pode morrer. Então, o que significa dizer que Deus está “morto”? A ideia opera em vários níveis.

Como a religião perdeu o seu lugar na nossa cultura
O significado mais óbvio e importante é simplesmente este: Na civilização ocidental, a religião em geral, e o cristianismo em particular, estão em um declínio irreversível. Ele está perdendo, ou já perdeu o lugar central que tem mantido nos últimos dois mil anos. Isto é verdade em todas as esferas: na política, filosofia, ciência, literatura, arte, música, educação, vida social cotidiana, e as vidas espirituais interiores dos indivíduos.

Alguém poderia objetar: mas com certeza, ainda existem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo o Ocidente, que ainda são profundamente religiosas. Este é sem dúvida verdade, mas Nietzsche não vai negá-la. Ele está apontando para uma tendência em curso que, como ele indica, a maioria das pessoas ainda não compreende totalmente. Mas a tendência é inegável.

No passado, a religião era central em nossa cultura. A música de Bach era religiosa na inspiração. As maiores obras de arte do Renascimento, como A Última Ceia de Leonardo da Vinci,  normalmente tomavam temas religiosos. Cientistas como Copérnico, Descartes e Newton, eram homens profundamente religiosos. A ideia de Deus desempenhou um papel fundamental no pensamento de filósofos como Tomás de Aquino, Descartes, Berkeley e Leibniz. Sistemas de ensino inteiros foram regidos pela igreja. A grande maioria das pessoas foram batizadas, casadas e enterradas pela igreja, e frequentavam a igreja regularmente ao longo das suas vidas.

Nada disso é verdade mais. A freqüência à igreja, na maioria dos países ocidentais mergulhou em figuras individuais. Muitos preferem agora cerimônias seculares no nascimento, casamento e morte. E entre os intelectuais-cientistas, filósofos, escritores, e artistas-religiosos a crença não desempenha praticamente nenhum papel em seu trabalho.

O que causou a morte de Deus?
Portanto, este é o primeiro e mais básico sentido em que Nietzsche pensa que Deus está morto. Nossa cultura está se tornando cada vez mais secularizada. A razão não é difícil de entender. A revolução científica que começou no século 16 logo ofereceu uma maneira de compreender os fenômenos naturais que se mostrou claramente superior à tentativa de compreender a natureza por referência aos princípios religiosos ou escrituras. Esta tendência ganhou força com o Iluminismo no século 18, que consolidou a ideia de que a razão e evidência ao invés de escritura ou da tradição devem ser a base para nossas crenças. Combinado com a industrialização no século 19, o crescente poder tecnológico desencadeado pela ciência também deu às pessoas uma sensação de maior controle sobre a natureza. Sentir-se menos à mercê de forças incompreensíveis também desempenhou o seu papel na derrocada da fé religiosa.

Como Nietzsche deixa claro em outras seções de A gaia ciência , sua afirmação de que Deus está morto não é apenas uma afirmação sobre a crença religiosa. Em sua opinião, grande parte da nossa maneira padrão de pensamento carrega elementos religiosos que não estão conscientes. Por exemplo, é muito fácil falar sobre a natureza como se ele contivesse propósitos. Ou se falamos sobre o universo como uma grande máquina, esta metáfora carrega a implicação sutil que a máquina foi projetada. Talvez o mais fundamental de todos é a nossa hipótese de que não existe tal coisa como verdade objetiva. O que queremos dizer com isso é algo parecido com o modo como o mundo poderia ser descrito do “ponto de vista do olho de Deus ” – ponto de vista que não é apenas um entre muitas perspectivas, mas é a única verdadeira perspectiva. Para Nietzsche, porém, todo o conhecimento tem que ser de uma perspectiva limitada.

Implicações da morte de Deus

Por milhares de anos, a ideia de Deus (ou deuses) ancorou o nosso pensamento sobre o mundo. Foi especialmente importante como base para a moralidade. Os princípios morais que se seguem (Não mate. Não roube. Ajude aqueles em necessidade. Etc.) tinham a autoridade da religião por trás deles. E a religião forneceu um motivo para obedecer a essas regras, uma vez que nos disse que a virtude seria recompensada os vícios punidos. O que acontece quando este tapete é puxado para fora?

Nietzsche parece pensar que a primeira resposta será confusão e pânico. O aforismo O louco citado acima é cheio de perguntas terríveis. Uma descida no caos é vista como uma possibilidade. Mas Nietzsche vê a morte de Deus como um grande perigo e uma grande oportunidade. Ela nos oferece a oportunidade de construir uma nova “tabela de valores”, aquela que vai expressar um recém-descoberto amor deste mundo e por esta vida.

Uma das principais objeções de Nietzsche ao cristianismo é que no pensamento dessa vida como uma mera preparação para a vida após a morte, ele desvaloriza a própria vida. Assim, após a grande ansiedade expressa no Livro III, Livro IV de A gaia ciência é uma expressão gloriosa de uma perspectiva de afirmação da vida.

Por Emrys Westacott
Fonte: About Philosophy

Disturbed - The Sound of Silence

Como o anarquismo cresce na Grécia

Oferecendo serviços que o Estado abandonou e acolhendo a população empobrecida e refugiados, movimentos articulam-se e querem ocupar espaço político — obviamente, sem fundar partido.


Sete anos após as políticas de austeridade e mais recentemente, a crise de refugiados ter afetado os poucos recursos do governo, há cada vez menos recursos para os cidadãos. Muitos perderam a fé. Alguns dos que nunca tiveram fé desde o início decidiram resolver a situação com as próprias mãos, para a vergonha das autoridades.

Tasos Sagris, de 45 anos anos, membro do grupo anarquista grego chamado Void Network e do grupo de teatro auto-organizado Embros, é um dos que se colocam à frente do ressurgir do ativismo social que preenche o vácuo deixado pela ausência do Estado.

“As pessoas confiam porque não as usamos como consumidores ou eleitores,” diz Sagris. “Toda falha do sistema prova que a ideia do anarquismo é verdadeira.”

Nos últimos dias, a ideia não tem sido apenas o caos e a destruição das instituições do Estado e da sociedade — a crise econômica tem dado conta dessa demanda — mas também de apoio mútuo e ação cidadã.

Mas o movimento continua diverso, com alguns grupos enfatizando a necessidade do ativismo social e outros priorizando a luta contra a autoridade com atos de vandalismo e confrontos com a polícia em manifestações. Alguns buscam combinar ambas perspectivas.

Independente dos meios, desde 2008 espaços como os “centros sociais de auto-organização” têm se desenvolvido em toda a Grécia, financiadas por doações privadas ou o dinheiro arrecadado de eventos programados com certa regularidade, exibições e bares, a maioria aberta ao público. Existem cerca de 250 em todo o país.

Alguns ativistas organizam-se em torno de centros de distribuição de comida e remédios, por conta da intensificação da pobreza e do colapso dos serviços públicos.

Nos últimos meses, grupos anarquistas e de esquerda têm dedicado o seu tempo e energia para abrigar refugiados que sofreram com inundações ocorridas em 2015 e os despejados de suas casas, desde que a União Europeia e as nações balcãs fecharam as suas fronteiras. Cerca de 3 mil refugiados vivem em 15 prédios abandonados, que foram tomados pelos anarquistas na capital.

Os anarquistas tiveram um papel importante nos levantes estudantis que ajudaram a derrubar a ditadura grega no final de 1970 — inclusive na rebelião da Politécnica de Atenas, em novembro de 1973, reprimida pelas autoridades com policiais e tanques de guerra, o que resultou em diversas mortes.

Desde o final dos anos 1970 e o inicio da década de 80, os anarquistas somaram-se aos grupos de esquerda na ocupação dos espaços das universidades gregas para promover o seu pensamento e estilo de vida. Muitos desses espaços existem até hoje.

Ao longo dos anos, os anarquistas também apoiaram múltiplas causas, como a oposição à reforma neoliberal da educação ou a campanha contra os jogos olímpicos de Atenas em 2004.

O movimento continua sendo amplamente apoiado pelo público em geral, o que reflete uma profunda desconfiança nas autoridades. Boa parte dos gregos foi afetada pelas políticas de “austeridade” nos últimos anos, impostas pelos credores internacionais.

Em Atenas, o epicentro anarquista continua sendo o bairro bohêmio de Exarchia, onde o assassinato de um adolescente por um policial em 2008 desencadeou duas semanas de revolta, auxiliando a revigorar o movimento.

A policia desocupou recentemente alguns prédios ilegalmente ocupados (squats) por anarquistas de Atenas, no norte da cidade de Thesssalonika e na ilha de Lesbos, que foram possíveis alternativas para centenas de imigrantes pelos últimos dois anos. Por pouco, não emergiu uma ampla crise, que o Syriza — partido de esquerda do primeiro ministro Alexis Tsipras — teria dificuldade em administrar.

Em uma entrevista, o ministro da Ordem Pública, Nikos Toskas, disse que as remoções policiais seriam “sistemáticas”, e riam até onde “se fizesse necessário”. O prefeito de Atenas, Giorgos Kaminis, condenou os squats, dizendo que eles comprometem “a qualidade de vida dos refugiados”.

“Ninguém sabe quem os controla e em que condições estão vivendo as pessoas que estão sendo postas nos prédios”, disse ele, respondendo a pergunta de um repórter.

Os anarquistas dizem que os squats são espaços humanos alternativos aos acampamentos organizados pelo Estado, que estão lotados por 60 mil imigrantes e refugiados. Grupos dos Direitos Humanos têm condenado amplamente os campos como sujos e perigosos.

Em Exarchia, um dos squats é uma escola estadual do ensino secundário que foi abandonada por questões estruturais. Ela foi ocupada na ultima primavera com ajuda de anarquistas, tornando-se a casa de 250 refugiados, maioria da Síria, que tem uma copa e cozinha no teto. Muitos refugiados estão nas “listas de espera” para entrar em um dos prédios ocupados.

Segundo Lauren Lapidge, uma ativista social britânica de 28 anos, que veio à Grécia em 2015, no auge da crise dos refugiados gregos e está ativamente envolvida com as diversas ocupações de prédios, os squats funcionam na forma de comunidades auto-organizadas, independentes do Estado e de organizações não-governamentais. “Eles são organismos vivos: as crianças vão para a escola, alguns nasceram no squat, nós temos casamentos aqui dentro”, disse Lauren.

Outra iniciativa em Exarchia envolve anarquistas e moradores locais que levaram um container de carga para a praça central do bairro, convertendo-o em quiosque político, onde eles distribuem comida e remédio e vendem literatura anarquista.

Vassilik Spathara, uma pintora e anarquista de 49 anos que vive em Exarchia, disse que a iniciativa era necessária devido às autoridades locais não auxiliarem “nem mesmo para trocar lâmpadas’ na praça, conhecida pela presença de criminosos, que a atividade constante auxiliou a dissipar.

“As autoridades atacam a área porque é o único lugar de Atenas que tem se organizado, com uma identidade anti-establishment”, diz Spathara.

O prefeito Kaminis diz que as autoridades locais têm cooperado com os moradores “para renovar a área”, e insistiu que os moradores de Exarchia têm os mesmos direitos de todos os atenienses.

Dentro da perspectiva política desabante grega, os anarquistas parecem ter se constituído como uma alternativa política ao governo.

“Nós queremos que o povo resista, de todas as formas, desde tomar conta dos refugiados até queimar bancos e o Parlamento”, disse Sagris, membro do Void Network e do grupo de teatro Embros, que arrecada dinheiro para financiar os squats. “Os anarquistas usam todas as táticas, as violentas e não-violentas”.

Ele também notou que os anarquistas tem uma “obrigação moral” de ter certeza que tragédias — como a morte de três pessoas em maio de 2010 quando o banco de Atenas foi incendiado durante um ato anti-austeridade — não aconteça de novo. Apesar de os anarquistas terem sido culpados, ninguém foi condenado em um tribunal que terminou com três executivos de banco condenados por assassinato por negligência, resultante da ausência de precauções de segurança. (Ele foram soltos com fiança, podendo apelar).

Outro grupo anarquista, Rouvikonas, está querendo transcender a violência, apesar de seus membros terem vandalizado prédios públicos e de empresas. Na última semana, membros do grupo, armados com pedaços de pau com bandeiras pretas anarquistas, realizaram uma patrulha no centro de Atenas, dizendo que a polícia não age para interromper o tráfico de drogas e a prostituição envolvendo jovens imigrantes.

Membros do Rouvikonas recentemente entraram com um processo na corte para fundar uma “sociedade cultural” destinada a organizar os eventos de arrecadação. No sábado, o grupo apresentou sua “identidade política” em um squat em Exarchia. (Os anarquistas insistem que eles não estão formando um partido político).

Os anarquistas obviamente não podem forma um partido político”, disse Spiror Dapergolas, de 45 anos, um desenhista gráfico que participa do Rouvikonas. “Mas nós podemos ter os nossos próprios meios de entrar na arena política”, disse ele. “Nós queremos crescer.”

Por Niki Kitsantonis, no New York Times | Tradução: Lucca Ignácio, em seu espaço no Medium

War Child Holland - Batman

Tecnologia pode criar elite de super-humanos e massa de 'inúteis'


"A desigualdade existe há no mínimo 30 mil anos. Os caçadores-coletores eram mais igualitários do que as sociedades subsequentes. Eles tinham poucas propriedades, e propriedade é um pré-requisito para desigualdade de longo prazo. Mas até eles tinham hierarquias. 

Nos séculos 19 e 20, porém, algo mudou. Igualdade tornou-se um valor dominante na cultura humana em quase todo o mundo. Por quê?

Foi em parte devido à ascensão de novas ideologias como o humanismo, o liberalismo e o socialismo.

Mas também se tratava de mudanças tecnológicas e econômicas - que estavam ligadas a essas novas ideologias, claro.

De repente, a elite começou a precisar de um grande número de pessoas saudáveis e educadas para servir como soldados nos exércitos e como trabalhadores nas fábricas.

Os governos não forneciam educação e vacinação porque eram bondosos. Eles precisavam que as massas fossem úteis. Mas agora isso está mudando novamente.

Os melhores exércitos da atualidade demandam poucos soldados, mas altamente treinados e com equipamentos de alta tecnologia.

As fábricas também estão cada vez mais automatizadas.

Esse é um dos motivos pelos quais poderemos - num futuro não tão distante - ver a criação das sociedades mais desiguais que já existiram na história humana. E há outros motivos para temer esse futuro.

Com rápidos avanços em biotecnologia e bioengenharia, nós podemos chegar a um ponto em que, pela primeira vez na história, desigualdade econômica se torne desigualdade biológica.

Até agora, humanos tinham controle sobre o mundo ao seu redor. Eles podiam controlar rios, florestas, animais e plantas. Mas eles tinham muito pouco controle do mundo dentro deles.

Eles tinham capacidade limitada de manipular seus próprios corpos, cérebros e mentes. Eles não podiam evitar a morte. Talvez esse não seja sempre o caso.

Há duas maneiras principais de aprimorar humanos: ou você altera algo em sua estrutura biológica por meio de alteração de seu DNA, ou - o jeito mais radical - você combina partes orgânicas e inorgânicas, talvez conectando diretamente cérebros e computadores.

Os ricos - ao adquirir tais melhorias biológicas - poderiam se tornar literalmente melhores que os demais: mais inteligentes, saudáveis e com vidas mais longas.

Nesse ponto, será fácil que essa classe "aprimorada" tenha poder. Pense desta forma: no passado, a nobreza tentou convencer as massas que eles eram superiores a todos os outros e que deveriam deter o poder. No futuro que estou descrevendo, eles realmente serão superiores às massas.

E como eles serão melhores que nós, fará mais sentido ceder a eles o poder e a prerrogativa de tomada de decisões.

Podemos também constatar que a ascensão da inteligência artificial - e não apenas automação - pode significar que grandes contingentes de pessoas, em todos os tipos de emprego, simplesmente perderão sua utilidade econômica.

Os dois processos casados - aprimoramento humano e ascensão de inteligência artificial - podem resultar na separação da humanidade em uma pequena classe de super-humanos e uma gigantesca subclasse de pessoas "inúteis".

Eis um exemplo concreto: pense no mercado de transporte.

Há centenas de motoristas de caminhões, táxis e ônibus no Reino Unido. Cada um deles comanda uma pequena parte do mercado de transporte, e todos ganham poder político em função disso. Eles podem se sindicalizar e, se o governo faz algo que não gostam, eles podem fazer uma greve e travar todo o sistema.

Agora, avance 30 anos no tempo. Todos os veículos conduzem a si próprios e uma corporação controla o algoritmo que comanda todo o mercado de transporte.

Todo o poder econômico e político previamente compartilhado por milhares agora está nas mãos de uma única corporação.

Depois que você perde sua importância econômica, o Estado perde ao menos um pouco do incentivo de investir em saúde, educação e bem-estar.

Seu futuro dependeria da boa vontade de uma pequena elite.

Talvez haja boa vontade mas, em tempo de de crise - como uma catástrofe climática -, seria muito fácil te descartar.

Tecnologia não é determinista. Ainda podemos fazer algo para lidar com tudo isso. Mas acho que deveríamos estar cientes de que descrevo um futuro possível. Se não gostamos dessa possibilidade, precisamos agir antes que seja tarde.

Existe mais um passo possível no caminho rumo à desigualdade previamente inimaginável.

A curto prazo, a autoridade pode se centrar em uma pequena elite que detenha e controle os algoritmos e os dados que os alimentam. A longo prazo, porém, a autoridade poderá se transferir completamente dos humanos aos algoritmos.

Quando uma inteligência artificial for mais inteligente que nós, toda a humanidade poderá se tornar inútil.

O que aconteceria depois disso? Não temos nenhuma ideia - literalmente não podemos imaginar. Como poderíamos? Estamos falando de uma inteligência muito maior do que a que a humanidade possui."

Yuval Noah Harari é professor de História na Universidade Hebraica de Jerusalém, ele estuda o passado para olhar para o futuro. Autor de dois best-sellers, Sapiens: Uma breve história da humanidade (editora L&PM) e Homo Deus: Uma breve história do amanhã (editora Companhia das Letras), Harari foi entrevistado pelo programa The Inquiry, da BBC, sobre a possibilidade de a tecnologia alterar o mundo e a espécie humana.

Resíduos Sólidos no Brasil


Logística Reversa


Plano de negócios


Perfil do empreendedor brasileiro


Acredite no seu sonho

A evolução da palavra empreendedorismo


Sapiens: Breve História da humanidade (II) A Árvore do Conhecimento


Neste segundo remix da obra de Harari (2015) (H) sobre Sapiens (Breve história da humanidade), vamos estudar o segundo capítulo da primeira parte (A árvore do conhecimento). Há 150 mil anos, Sapiens ocupava a África oriental, mas passou a colonizar o planeta e exterminar outras espécies humanas há 70 mil anos; nos milênios pelo meio, mesmo que parecesse conosco (os cérebros eram grandes como os nossos), não desfrutavam de vantagens marcantes, não tinham ferramentas propriamente superiores, nem outros feitos notáveis.

I. CONVIVÊNCIAS
Consta que no primeiro encontro entre Sapiens e Neandertals, estes venceram. Há 100 mil anos, alguns grupos Sapiens migraram para o norte, rumo ao Levante, que era território dos Neandertals, mas não se firmaram, talvez devido a nativos agressivos, clima inclemente e parasitas não familiares locais. Sapiens eventualmente recuou. Este desempenho decepcionante levou pesquisadores a especular que a estrutura interna dos cérebros desses Sapiens era provavelmente diferente da nossa; pareciam-se conosco, mas as habilidades cognitivas – aprender, lembrar, comunicar-se – eram limitadas. “Ensinar a tais Sapiens antigos inglês, persuadi-lo da verdade do dogma cristão ou conseguir que entendesse a teoria da evolução seria provavelmente inciativa sem viabilidade” (H:20). Vale o reverso também: difícil para nós entender sua linguagem e entendimento. Mas, desde 70 mil anos, Sapiens passou a fazer coisas bem especiais. Deixou a África pela segunda vez, e agora varreram os Neandertals e outras espécies da face da terra. Em período curto, alcançou a Europa e Ásia oriental; há 45 mil anos, chegaram à Austrália (continente até então intocado por humanos) – este período (70 mil a 30 mil anos atrás) testemunhou a invenção de barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas, além de agulhas (para fazer roupas quentes). Os primeiros objetos podem chamados arte dessa era; aparecem os primeiros vestígios de religião, comércio e estratificação social. A maioria dos pesquisadores crê que tais feitos sem precedentes foram produto de revolução nas habilidades cognitivas. Mantém que gente que levou Neandertals à extinção, colonizou a Austrália e esculpiu o homem-leão (da caverna em Stadel, Alemanha, cerca de 32 mil anos atrás) eram tão inteligentes quanto nós, criativos e sensíveis – poderíamos nos comunicar com eles plenamente, também em questões de cognição sofisticada. O aparecimento de novos modos de pensar e comunicar-se, entre 70 mil e 30 mil anos atrás, constitui a Revolução Cognitiva (H:21). O que causou isso é incerto (ainda) – a teoria mais comum sugeres que mutações genéticas acidentais mudaram a formatação interna do cérebro, capacitando pensar de modos sem precedentes e comunicar-se usando novo tipo de linguagem – podemos chamar de mutação da Árvore do Conhecimento. Por que teria ocorrido no DNA do Sapiens, não no Neandertal? Teria sido acaso puro, parece. Será mais importante trabalhar as consequências desta mutação da Árvore do Conhecimento do que suas causas. O que foi tão especial nesta linguagem que facultou conquistar o mundo?

Não foi a primeira linguagem. Todo animal tem um tipo de linguagem, até mesmo insetos: comunicam-se de modo sofisticado, informa-se entre si sobre alimento ao redor; nem foi a primeira linguagem vocal; muitos animais, também espécies de macacos, possuem isso; por exemplo, macacos verdes usam chamados de vários tipos para se comunicarem; zoólogos identificaram um chamado que significa “cuidado, águia!”; chamado um pouco diferente diz “cuidado, um leão!”. Quando pesquisadores tocaram uma gravação do primeiro chamado para um grupo de macacos, eles pararam o que estavam fazendo, olhando para cima com medo. Ouvindo a segunda gravação, logo subiram em árvores. Sapiens faz muito mais que isso; no entanto, baleias e elefantes possuem habilidades impressionantes; um papagaio imita sons notavelmente. O que seria especial em nossa linguagem? Resposta comum é que nossa linguagem é flexível – podemos conectar número limitado de sons e sinais para produzir número infinito de sentenças, cada uma com significado próprio. Podemos, então, ingerir, estocar e comunicar montante prodigioso de informação sobre o mundo à volta. Humanos podem criar uma narrativa sobre os leões, indicando local exato, observações feitas, expectativas etc. Com esta informação, os membros do bando podem reunir-se e discutir como abordar o problema, talvez caçar o leão.

Uma segunda teoria concorda que nossa linguagem única evoluiu como meio de partilhar informação sobre o mundo. Mas a informação mais importante que se transmitia era sobre humanos, não leões. A linguagem evoluiu como modo de fofocar, por sermos animais sociais, cooperativos e reprodutivos. Não basta saber o que há por aí, pois é bem mais importante conversar sobre si mesmos, suas desavenças e amizades, como se dorme, como se cria criança, quem engana a quem... O montante de informação que precisamos obter e estocar para dar conta das relações sempre mutantes de algumas dúzias de indivíduos já é enorme (Num bando de 50 indivíduos, há 1.225 relações um-a-um e infinitas combinações sociais mais complexas) (H:23). Todos os macacos mostram interesse afiado em tal informação social, mas não fofocam propriamente, embora seja essencial para a convivência em bandos maiores (Dunbar, 1998). A teoria da fofoca parece gozação, mas muita pesquisa a suporta. Até hoje, grande parte da comunicação humana, também na forma de emails, chamadas telefônicas e colunas de jornais, é fofoca. É tão natural que parece ter a linguagem evoluído para este propósito.

Harari brinca então com cientistas que, num seminário mortalmente sério, quando se encontram para comer ou pausar, não falam sobre quarks, mas provavelmente sobre o colega traído pela esposa ou sobre a briga com o diretor do departamento. Em geral fofoca é sobre malfeitos. Rumores são especialidade do quarto poder, dos jornalistas... Provavelmente ambas as teorias – da fofoca e da informação sobre o leão por perto – têm seu lugar. No entanto, a marca única da linguagem não é a habilidade de transmitir informação sobre homens e leões; mas de transmitir informação sobre coisas que não existem. Só humanos falam sem parar sobre o que nunca viram, tocaram ou cheiraram. Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram primeiro com a Revolução Cognitiva – por exemplo, dizer que o leão é o espírito vigilante da tribo. Não será viável convencer a um macaco que nos dê sua banana, com a promessa de que vai ter muitas outras após a morte. E isto se fez coletivamente – em mitos comuns como na estória da criação bíblica, nos mitos nacionalistas. Isto deu a habilidade sem precedentes de cooperar flexivelmente em sociedades maiores – podemos cooperar de modos bem mais flexíveis.

II. LENDA DA PEUGEOT
Os primos chimpanzés em geral vivem em grupos pequenos (algumas dúzias) – fazem amizades, caçam e lutam juntos; sua estrutura social tende a ser hierárquica; o membro dominante, quase sempre um macho, chama-se “macho alfa” e os outros machos e fêmeas mostram sua submissão curvando-se para ele, enquanto fazem grunhidos, não muito diferente dos humanos. O alfa procura manter harmonia social na tropa; quando dois brigam, intervém; de modo menos benevolente, pode monopolizar comida e impedir que indivíduos inferiores copulem com as fêmeas. Quando dois contestam o alfa, foram coalizões extensivas de asseclas, machos e fêmeas, do grupo; laços entre membros da coalizão se baseiam em contato diário íntimo – abraço, toque, beijo, coçar e favores mútuos. Assim como políticos humanos em campanhas eleitorais andam à volta apertando mãos e beijando bebês, assim aspirantes ao poder gastam tempo abraçando, dando palmadinhas e beijando bebês. O alfa em geral ganha a posição não por ser mais forte fisicamente, mas porque lidera coalizão maior e mais estável. Esta é estratégica não para disputas, mas também para atividades cotidianas – os membros passam mais tempo juntos, partilham comida e se ajudam em apertos. Há limites claros de tamanho dos grupos que podem ser formados e mantidos – todos precisam conhecer-se intimamente; dois chimpanzés que nunca se haviam encontrado, lutado ou se coçado juntos, não sabem se podem confiar-se, se vale a pena ajudar-se, e quem está acima. Em condições naturais, uma tropa típica tem 25 indivíduos; ao aumentar, a ordem social se desestabiliza, levando a eventuais rupturas e formação de nova tropa. Raramente houve casos de grupos com mais de 100 em estudos zoológicos; grupos separados quase não cooperam, tendem a competir por território e comida. Pesquisadores documentaram guerra prolongada entre grupos e mesmo um caso de atividade de genocídio na qual uma tropa sistematicamente matou a maioria dos membros do outro bando (Waal, 2000; 2005. Wilson; Wrangham, 2003. Symington, 1990:49. Chapman; Chapman, 2000:26).

Possivelmente, tais padrões comportamentais dominaram as vidas sociais de humanos primitivos, incluindo Sapiens arcaico. Como macacos, humanos têm instintos sociais que possibilitavam a nossos ancestrais a formar amizades e hierarquias e a caçar ou lugar juntos. Mas isto valia para grupos pequenos íntimos; com maiores, a ordem social se esfacela e o bando cinde. Mesmo que um vale fértil pudesse alimentar 500 Sapiens, não havia como viverem juntos – como se estabeleceria liderança, quem iria caçar e onde, e quem se acasala com quem? Na esteira da Revolução Cognitiva, fofoca ajudava o Sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis; mas mesmo isto tem limite. Pesquisa sociológica mostrou que o tamanho natural máximo de um grupo unido por fofoca está em 150. A maioria não pode conhecer intimamente, nem fofocar efetivamente com mais. Mesmo hoje, limiar crítico nas organizações humanas está em torno desse número mágico. Abaixo disso, comunidades, empresas, redes sociais e unidades militares podem manter-se com base maior em relações íntimas e fofoca. Não se precisa de rankings formais, títulos e leis para manter a ordem (Dunbar, 1998. Aiello; Dunbar, 1993:189. McCarty et alii, 2001:32. Hill; Dunbar, 2003:65).

Então, como humanos chegaram a formar cidades enormes? O segredo esteve provavelmente no aparecimento da ficção. Estranhos em grande número pode cooperar acreditando em mitos comuns. Igrejas se baseiam em mitos religiosos comuns; dois católicos que nunca se encontraram podem lutar juntos ou construir hospital, porque ambos têm a mesma crença. Nada disso existe fora das estórias inventadas e contadas. Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça, fora da imaginação comum humana. Primitivos mantinham a ordem crendo em espíritos e fantasmas, e dançando na noite de lua cheia em torno do fogo. Mas não percebemos que ainda funcionamos assim. Veja-se exemplo das empresas – empresários e advogados são, de fato, feiticeiros incisivos – a diferença principal entre eles e xamãs tribais é que advogados modernos conta estórias bem mais estranhas. A lenda da Peugeot é boa referência. Um ícone que se assemelha ao leão-homem está nos carros, caminhões e motos em todo o mundo, em geral no capô. Peugeot começou como empresa familiar em Valentigney, a 320 km da Caverna Stadel – hoje emprega 200 mil pessoas no mundo, a maioria estranha entre si, mas cooperam tão efetivamente que em 2008 Peugeot produziu mais de 1.5 milhão de carros, com ingressos de $55 bilhões de euros. O cerne da empresa é sua marca imaginária, distinta das bases físicas e das pessoas envolvidas. Se um juiz decretasse falência, desapareceria a marca, mas os prédios e carros continuam. Advogados chamam a isso de “ficção legal” – existe como entidade legal. Está ligada a leis dos países onde opera; podem abrir contas bancarias e ter propriedade; paga impostos e pode ser processada, também em separado dos donos. Pertence ao gênero particular de ficções legais chamado “empresas de responsabilidade limitada” – a ideia por trás é uma das invenções mais engenhosas. Sapiens viveu milhões de anos sem isso. Durante a maior parte da história registrada, propriedade podia ser possuída por gente de carne e osso. Na França do século XIII, quem tinha um negócio, era ele mesmo o tocador, era o negócio. Se o produto fosse ruim, seria processado em pessoa. Se tomasse mil moedas de ouro emprestadas para montar seu negócio e este falisse, teria como pagar, vendendo a propriedade – sua casa, vaca, terra. Talvez viesse mesmo a vender seus filhos em servidão. Se não cobrisse a dívida, poderia ficar na cadeia ou ser escravizado pelos credores. Era responsável plenamente. Era mesmo difícil ser empresário. E por isso passou-se a imaginar empresas de responsabilidade limitada – legalmente independentes das pessoas que as organizam ou onde investem dinheiro ou as gerem.

Nos séculos recentes, tais empresas viraram atores principais da arena econômica e somos tão acostumados com elas que esquecemos ser imaginárias. Nos Estados Unidos, o termo técnico usado é “corporação”, que é irônico, pois o termo deriva de “corpus” (corpo em latim) – o que precisamente tais corporações não têm. Mesmo não tendo corpos reais, o sistema legal trata como pessoas legais, também o sistema legam francês desde 1896, quando Armand Peugeot, que havia herdado dos pais uma loja de metais que produzia molas, serras e bicicletas, decidiu entrar na produção de veículos. Foi uma companhia de responsabilidade limitada, com seu nome, mas era independente. Se um dos carros quebrasse, o comprador pode processar a Peugeot, mas não o Sr. Peugeot. Este morreu em 1915, mas não a empresa. Criou a empresa de modo similar a sacerdotes e feiticeiros ao criarem deuses e demônios, ou como padres franceses criam o corpo de Cristo na missa dominical. Contam-se estórias e as pessoas se convencem delas. Harari parodia a missa católica, um pouco inclementemente. No caso de Peugeot a estória crucial era o código legal, constitucional. Seguindo liturgia e ritos, e com devidas vestimentas e ornamentos, mais juramentos aqui e ali, surge empresa. Quando em 1896, Peugeot quis criar sua empresa, pagou a um advogado para vencer todos os rituais e procedimentos exigidos; milhões de franceses creram que a empresa existia mesmo.

Mas, contar boa estória não é fácil (H:30). Contar até é fácil, difícil é persuadir a crer em deuses, nações ou empresas. Isto, porém, dá ao Sapiens imenso poder, porque arrasta milhões de cooperadores. Não seria viável criar estados, igrejas ou sistemas legais, se falássemos apenas de coisas que existem de fato, como rios, árvores ou leões. As pessoas se engalfinharam em torno de estórias do arco da velha; em tais redes, ficções como Peugeot não só existem, como acumulam poder imenso. São “construtos sociais” ou “realidades imaginadas”, para a academia. Não é mentira – mentira é quando digo que um leão está perto do rio e não há nenhum leão aí. Nada de especial com mentiras – macacos mentem também. Um macaco verde foi visto dizendo “Cuidado! Um leão!”, quando não havia. O alarme atemorizou o companheiro que fugiu deixando a banana para o malandro. Ao contrário de mentira, realidade imaginada é algo em que todos creem, e persistindo isso, exerce força no mundo. O escultor da caverna Stadel pode ter sinceramente crido na existência do espírito guardião do leão-homem; alguns feiticeiros são charlatães, mas a maioria é sincera; a maioria dos milionários sinceramente creem na existência de dinheiro e empresas de responsabilidade limitada. “A maioria dos ativistas dos direitos humanos acreditam na existência dos direitos humanos. Ninguém mentia quando, em 2011, a ONU pediu que o governo líbio respeitasse direitos humanos dos cidadãos, mesmo que ONU, Líbia e direitos humanos sejam fingimentos de imaginações férteis. Desde a Revolução Cognitiva, Sapiens passou a viver em realidade dual. Num lado, a realidade objetiva dos rios, árvores e leões; noutro, a imaginada dos deuses, nações e empresas. Com o tempo a realidade imaginada se tornou tanto mais poderosa, a ponto de rios, árvores e leões dependerem das entidades imaginadas como Estados Unidos e Google.

Harari faz uma “gozação” bem humorada para desvelar que a realidade por trás da imaginada é feita de teias de poder invisível, mas não menos efetivo. Mas seria o caso lembrar que a Revolução Cognitiva tem como um de seus esteios o poder de abstração e modelagem da mente humana – a ciência também é “construto social”, em suas teorias que só existem na mente dos cientistas. Não há teoria andando por aí, morando lá, vestindo isso ou aquilo. Mas, com sua instrumentação chegamos à Lua – são extremamente efetivas, como religiões são. O abstrato é parte do concreto, não sendo talvez bem o caso falar de realidade dual – é a mesma realidade de fundo, mas abstraída de modos diferenciados. Não dá para viver no mundo físico dos físicos, nem eles podem; vivemos em realidades concretas bem diferentes. São duas realidades? Certamente, não, ainda que até hoje não tenhamos deslindado tais mistérios da mente.

III. ULTRAPASSANDO O GENOMA
Estando cooperação humana de larga escala fundada em mitos, o modo de cooperar pode ser alterado mudando os mitos – inventando outras estórias. Em circunstâncias adequadas, mitos podem mudar rapidamente. Em 1789, a população francesa mudou da noite para o dia de crer no mito do direito divino dos reis para crer no mito da soberania popular. Desde a Revolução Cognitiva, Sapiens é capaz de revisar sem comportamento rapidamente de acordo com as necessidades. Isto abriu uma avenida da evolução cultural, ultrapassando barreiras de tráfego da evolução genética e com isso avançou muitíssimo além de outras espécies na habilidade de cooperar. O comportamento de outros animais sociais é determinado em grande medida pelos genes. “DNA não é autocrata” (H:32). Comportamento animal é influenciado também por fatores ambientais e encrencas individuais. Contudo, em dado ambiente, animais da mesma espécie tenderão a comportar-se de modo similar. Mudanças significativas em comportamento social não podem ocorrer, em geral, sem mutações genéticas. Por exemplo, chimpanzés comuns possuem a tendência genética de viver em grupos hierárquicos puxados por um macho alfa. Bonobos são mais igualitários, em geral dominados por alianças femininas, mas não fazem assembleias e escrevem uma constituição. Para tamanha mudança, há que haver também mudança genética. Humanos arcaicos não aprontaram nenhuma revolução; mudanças no padrão social, a invenção de novas tecnologias e a colonização de habitats estranhos resultaram de mutações genéticas e pressões ambientais mais do que de iniciativas culturais.

Eis a razão da demora para isto florescer; dois milhões de anos atrás, houve mutações genéticas que eclodiram no aparecimento de nova espécie humana chamada Homo erectus – esta emergência foi acompanhada pelo desenvolvimento de nova tecnologia da pedra, agora reconhecida como traço definitório desta espécie. Sem novas mutações genéticas, sua tecnologia estagnou por quase dois milhões de anos! Ao contrário, desde a Revolução Cognitiva, Sapiens foi capaz de mudar seu comportamento rapidamente, transmitindo novos comportamentos a gerações futuras sem necessidade de mudança genética ou ambiental. Harari dá como exemplo o aparecimento de elites sem filhos, como sacerdotes católicos, budistas, burocracias chinesas de eunucos. Vai contra princípios fundamentais da seleção natural abandonar a procriação, via abstinência sexual. Isto só pode ser curtido sobre mitos poderosos e crenças. Harari dá a entender, nas entrelinhas, que é difícil entender tais comportamentos, mesmo mantidos por milênios e em culturas tão diferentes, mas talvez emerja aí certa dose excessiva de “crença” no método científico, onde fés não cabem. Mas humanos sempre curtiram fés como fundamentos de suas existências, com lados positivos e negativos, certamente. Tem razão em alegar o quanto parece estranho que alguém decida viver em celibato – mas não é enfermidade; é fé. Muitos dirão que fé é alienação, excrescência evolucionária, mas sendo tão comum em humanos, talvez seja o caso achar normal.

Constrói um exemplo: um residente em Berlim de 1900 e chegando aos 100 anos; passou a infância no Império dos Hohenzollern de Guilherme II; a idade adulta na República de Weimar, no Terceiro Reich Nazista e na comunista Alemanha oriental; morreu cidadã de uma Alemanha democrática e reunificada; fez parte de cinco sistemas sociopolíticos bem diversos, mas o DNA foi o mesmo. Eis a chave do sucesso do Sapiens – na luta corpo a corpo, o Neandertal teria batido o Sapiens. Mas em conflito com centenas, não. Neandertals podiam colher informação sobre leões á volta, mas não faziam disso narrativa, incluindo espíritos. Sem ficção, não há cooperação! Tinham cognição limitada, a julgar por seus restos arqueológicos em sites no centro europeu – ocasionalmente acharam conchas marinhas do Mediterrâneo e Atlântico – parece que tais conchas foram para o interior continental via comércio entre bandos de Sapiens. Sítios de Neandertals não têm vestígios de comércio, cada grupo manufaturava suas ferramentas e materiais locais (Taborin, 1993).  

Outro exemplo do Pacífico sul. Bandos de Sapiens que viviam na ilha de Nova Irlanda, ao norte da Nova Guiné, usavam vidro vulcânico chamado obsidiana para manufaturar ferramentas particularmente fortes e afiadas. Mas aí não há depósito de obsidiana; testes de laboratórios revelaram que a obsidiana usada foi trazida de depósitos na Nova Guiné, uma ilha a 402 km de distância (Summerhayes, 1998). Comércio foi atividade bem pragmática, sem base ficcional, mas é fato que nenhum outro animal, a não ser o Sapiens, se envolveu nisso com base em ficções. Comércio não existe sem confiança, e é bem difícil confiar em estranhos. A rede global de comércio de hoje baseia-se na confiança em tais entidades fictícias como dólar, Banco Central americano, marcas totêmicas de empresas. Quando dois estranhos se encontram em sociedade tribal e querem comerciar, muitas vezes apelam para confiança via deus comum, ancestral mítico ou totem animal. Se podiam comerciar bens, permutavam também informação, cirando rede mais densa de ampla de conhecimento. Técnicas de caça são outro argumento das diferenças. Neandertals costumavam caçar sozinhos ou em grupos pequenos; Sapiens, por sua vez, desenvolveu técnicas que repousavam em cooperação entre muitas dezenas de indivíduos e talvez mesmo entre bandos diferentes. Método bem eficaz era cercar um bando inteiro de animais, como cavalos selvagens, e então caçar à distância pequena, sendo possível matar em massa, conforme planejamento prévio. Arqueólogos descobriram sítios onde bandos inteiros foram mortos anualmente assim. Há mesmo sítios onde cercas e obstáculos foram erigidos para fazer arapucas artificiais. Havendo violência entre Neandertals e Sapiens, os primeiros não eram muito melhores que cavalos selvagens; mesmo que Sapiens perdesse o primeiro round, podiam se reprogramar em novos estratagemas na próxima.

Assim, cultura passou a força evolucionária, rivalizando com o DNA, cuja proporção é sempre objeto de muita querela científica. Isto poderia também dar outra luz sobre religiões, não como esquisitice aos olhos científicos, mas como tecnologias do espírito para dar sentido à vida, organizar razões de ser, morais, apegos e felicidades. Religiões são também armas de guerra, mas não menos ciência.

IV. REVOLUÇÃO COGNITIVA

Nova habilidade
Consequências mais amplas
Habilidade de transmitir quantidades mais amplas de informação sobre o mundo à volta do Homo sapiens Planejar e executar ações complexas, como evitar leões e caçar bisão
Habilidade de transmitir quantidades maiores de informação sobre relações sociais do SapiensGrupos maiores e mais coesivos chegando a 150 indivíduos
Habilidade de transmitir informação sobre coisas que não existem realmente, tais como espíritos tribais, nações, empresas de responsabilidade limitada e direitos humanosa) Cooperação entre grandes números de estranhos;
b) inovação rápida de comportamento social (H:37).

Surge parceria entre história e biologia (H:37). A diversidade imensa de realidades imaginadas inventadas pelo Sapiens e resultante pletora comportamental são peças centrais do que chamamos “culturas”. Tendo aparecido, nunca cessaram de mudar, desenvolver-se e alterações imparáveis é o que chamamos de “história”. É o ponto em que história se livra da biologia; até então, os feitos humanos pertenciam ao reino da biologia, ou à pré-história). Depois, narrativas históricas substituíram teorias biológicas como meios primordiais de explicar o desenvolvimento do Sapiens. Para entender o surgimento da Cristandade ou a Revolução Francesa, não basta compreender a interação de genes, hormônios e organismos; é mister tomar em conta a interação de ideias, imagens e fantasias também. Não significa que biologia sumiu, já que continuamos animais, sendo que habilidades físicas, emocionais e cognitivas são moldadas pelo DNA ainda. Nossas sociedades são constituídas dos mesmos blocos de construção dos Neandertals e chimpanzés, e quanto mais examinamos – sensações, emoções e laços familiares – tanto menos diferença achamos. Mas é erro olhar as diferenças ao nível do indivíduo ou família. Uma a um, ou dez a dez, somos “embaraçosamente” (Ib.) similares a chimpanzés. Diferenças significativas começam a aparecer quando ultrapassamos limiar de 150, chegando a mil ou dois mil, tornando-se estupefacientes. Reunindo milhares de chimpanzés, só vai dar confusão; mas Sapiens se reúnem aos milhões, bilhões. Juntos criam padrões como redes de comércio, celebrações e instituições políticas...

A diferença real entre nós e chimpanzés é a cola mítica que nos une em números bastos de indivíduos, famílias e grupos. Isto nos fez mestres da criação (H:38). Precisamos de outras habilidades, como de fazer ferramentas, mas isto será de pouca consequência sem vínculo com a habilidade de cooperar em multidões. Como foi que agora temos mísseis intercontinentais com ogivas nucleares, enquanto há 30 mil anos tínhamos apenas lanças primitivas? Fisicamente não houve melhoria significativa na capacidade de fazer ferramentas nos últimos 30 mil anos. Mas nossa capacidade de cooperar com grandes números de estranhos melhorou demais. Uma lança se faz rápido, com ajuda de parceiros, mas um míssil com ogiva atômica pede cooperações de milhões de estranhos...

Em suma, a relação entre biologia e história ficou assim na Revolução Cognitiva: i) biologia põe parâmetros básicos para comportamento e capacidades do Homo sapiens; a história toda ocorre dentro dos limites desta arena biológica; ii) contudo, esta arena é extraordinariamente ampla, permitindo ao Sapiens jogar variedade estonteante de jogos; graças à habilidade de inventar ficção, Sapiens cria jogos mais e mais complexos, que cada nova geração elabora e desenvolve ainda mais; iii) consequentemente, para entender como Sapiens se comportam, precisamos descrever a evolução histórica de suas ações; referir-se apenas às constrições biológicas seria como um locutor de rádio esportivo, assistindo à Copa do Mundo, dar apenas uma descrição do campo, ao invés do que os jogadores fazem (H:38).

CONCLUSÃO
Harari se apega ao lado fictício mental da produção imaginária, também porque isso lhe dá chance de fazer uma paródia ferina interessante. Mas poderia ter sublinhado a capacidade de abstração modelar, base da cognição dita científica, em especial no uso da matemática (algo tipicamente abstrato), para enfrentar um dos desafios maiores epistemológicos: para entender o concreto é preciso abstrair dele! A realidade não é o que parece. No mundo da ficção, porém, é o caso fazer distinções importantes como é a ficção religiosa e científica – possivelmente ambas são essenciais evolucionariamente, mas hoje apreciamos bem mais a segunda (como faz Harari com picardia). O mundo científico pode ser visto como ficção – Einstein gostava de partir de experimentos mentais – mas é uma ficção matematizada, bem diferente de um conto de fadas. Precisamos deste também, porém.


REFERÊNCIAS
AIELLO, L.C.; DUNBAR, R.I.M., 1993. ‘Neocortex Size, Group Size, and the Evolution of Language’, Current Anthropology 34:2 (1993).
CHAMPLAN, C.A.; CHAPMAN, L.J. 2000. ‘Determinants of Groups Size in Primates: The Importance of Travel Costs’, in On the Move: How and Why Animals Travel in Groups, ed. Sue Boinsky and Paul A. Garber (Chicago: University of Chicago Press, 2000).
DUNBAR, R. 1998. Grooming, Gossip and the Evolution of Language (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998).
HARARI, Y.N. 2015. Sapiens: A brief history of humankind. Harper, London.
HILL, R.A.; DUNBAR, R.I.M. 2003. ‘Social Network Size in Humans’, Human Nature 14:1 (2003).
MCCARTHY et alii, 2001. ‘Comparing Two Methods for Estimating Network Size’, Human Organization 60:1 (2001).
SUMMERHAYES, G.R. 1998. ‘Application of PIXE-PIGME to Archaeological Analysis of Changing Patterns of Obsidian Use in West New Britain, Papua New Guinea’, in Archaeological Obsidian Studies: Method and Theory, ed. Steven M. Shackley (New York: Plenum Press, 1998), 129–58.
SYMINGTON, M.F. 1990. ‘Fission-Fusion Social Organization in Ateles and Pan’, International Journal of Primatology 11:1 (1990).
TABORIN, Y. 1993. ‘Shells of the French Aurignacian and Perigordian’, in Before Lascaux: The Complete Record of the Early Upper Paleolithic, ed. Heidi Knecht, Anne Pike-Tay and Randall White (Boca Raton: CRC Press, 1993), 211–28.
WAAL, F. 2000. Chimpanzee Politics: Power and Sex among Apes (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2000).
WALL, F. 2005. Our Inner Ape: A Leading Primatologist Explains Why We Are Who We Are (New York: Riverhead Books, 2005).
WILSON, M.L.; SRANGHAM, R.W. 2003. ‘Intergroup Relations in Chimpanzees’, Annual Review of Anthropology 32 (2003), 363–92.

A Alegoria da Caverna





Como Gerenciar Conflitos de Gerações: Geração X, Y e Baby Boomers

Conflitos de Gerações
Infográfico:Confira o infográfico sobre conflitos de gerações | Sociedade Brasileira de Coaching.

Humano, Demasiado Humano III

Documentário III: Humano, Demasiado Humano – Jean-Paul Sartre: O Caminho Para a Liberdade. Neste episódio é abordada a vida e a obra do mais famoso filósofo existencialista europeu, Jean-Paul Sartre (1905-1980). O homem que passou a vida a desafiar a lógica convencional amava os paradoxos. O documentário expõe estes paradoxos da sua vida e da sua obra, ao mesmo tempo em que ambos são questionados. A pergunta central que é colocada é: Se o ser humano é livre para fazer o que quiser, como justifica Sartre, então como devemos viver as nossas vidas no dia-a-dia?



Sapines: Breve História da humanidade (I)


Harari (2015) (H) teve êxito editorial maiúsculo com seu “Sapiens: A brief history of mankind”, mexendo com muitas sensibilidades sobre a saga humana até aqui na história. Começa com uma “linha do tempo da história”, desde 13.5 bilhões de anos, até ao presente e futuro[1]. Foi surpreendente que um apanhado da história humana (que chama de “breve”) tivesse tanto impacto, em parte devido ao modo de colocar as coisas, as provocações interpostas, os recados nas entrelinhas, a interpretação inteligente. Nesta parte vamos estudar o que chama de Revolução Cognitiva, que vamos dividir em quatro capítulos. 

I. UM ANIMAL DE DE NENHUMA SIGNIFICAÇÃO
“Cerca de 13.5 bilhões anos atrás, matéria, energia, tempo e espaço chegaram à existência no que se conhece como Big Bang. A estória dessas características fundamentais de nosso universo é chamada física. Cerca de 300 mil anos após seu aparecimento, matéria e energia passaram a coalescer em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A estória dos átomos, moléculas e suas interações é chamada química. Cerca de 3.8 bilhões de anos atrás, num planeta chamado Terra, certas moléculas se cominaram para formar estruturas particularmente amplas e intrincadas chamadas organismos. A estória dos organismos é chamada biologia. Cerca de 700 mil anos atrás, organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar mesmo estruturas mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é chamado história” (H:3). Harari divisa três revoluções incisivas no curso da história: a cognitiva que deslanchou a história há cerca de 70 mil anos; a agrícola que espalhou-se há cerda de 12 mil anos; a científica, que entrou em cena apenas há 500 anos, e que pode terminar a história e começar algo completamente diferente.

É o objetivo do livro: contar a estória das três revoluções que afetaram humanos e organismo parceiros. Houve humanos bem antes de haver história; animais muito similares a humanos modernos apareceram primeiro há cerca de 2.5 milhões de anos; mas por gerações incontáveis não conseguiram destacar-se dos outros organismos como que coabitavam. Na África oriental, há 2 milhões de anos, podíamos achar um elenco familiar de caracteres humanos: mães ansiosas embalando seus bebês e grupos de crianças soltas brincando na lama; jovens temperamentais brigando contra ditames da sociedade e idosos preocupados que ficarem em paz; machos batendo no peito tentando impressionar a beleza local e matriarcas velhas sábias que já haviam visto de tudo. Esses humanos arcaicos amavam, brincavam, faziam amizades estreitas e competiam por status e poder – mas igualmente chimpanzés, babuínos e elefantes. Não havia nada de especial em relação a humanos. Ninguém, menos ainda nos humanos, parecia haver qualquer indício de que seus descendentes iriam um dia chegar à lua, partir o átomo, destrinchar o código genérico e escrever livros de história.

Para Harari, esta foi a marca da pré-história humana – animais sem significação maior. Biólogos classificam organismos em espécies. Animais se dizem da mesma espécie se tendem a acasalar-se entre si, produzindo crias férteis. Cavalos e asnos têm ancestral comum recente e partilham muitos traços físicos; mas mostram pouco interesse sexual entre si. Acasalam-se apenas se induzidos, mas suas crias, as mulas, são estéreis. Mutações no DNA do asno não podem cruzar para o dos cavalos, e vice-versa; são, pois, duas espécies distintas. Ao contrário, um buldogue e um spaniel podem até parecer diferentes, são membros da mesma espécie, partilhando o mesmo pool de DNA; acasalam-se bem e suas crias crescem capazes de acasalarem-se com outros cães e procriar. Espécies evoluídas de ancestral comum são agrupadas sob o epíteto de “gênero”; leões, tigres, leopardos e jaguares são espécies diferentes do gênero Panthera. Biólogos etiquetam organismos com nome e gênero latino de duas partes, seguido por espécie; leões, por exemplo, são chamados de Panthera leo, a espécie leo do gênero Panthera. O Homo sapiens – a espécie sapiens (sábio) do gênero Homo (homem). Gêneros são agrupados em famílias, como os gatos (leões, chitas, gatos domésticos), e cães (logos, raposas e chacais) e os elefantes (elefantes, mamutes e mastodontes). Todos os membros de uma família recuam sua linhagem uma matriarca ou a um patriarca fundador. Todos os gatos, por exemplo, desde o menorzinho caseiro ao leão mais feroz, partilham ancestral felino comum que viveu há cerca de 25 milhões de anos. Homo sapiens, também, pertence a uma família; este fato banal costumava ser um dos segredos mais guardados, pois Homo sapiens sempre preferiu ver-se como separado dos animais, um órfão sem família, sem parente ou primos e, mais importante, sem progenitores. Quer se goste ou não, somos membros de uma família ruidosa e grande chamada de grandes macacos. Nossos parentes mais próximos incluem chimpanzés, gorilas e orangotangos, sendo chimpanzés os mais próximos. Há apenas 6 milhões de anos, uma única fêmea macaca teve dois filhos; um virou o ancestral de todos os chimpanzés, outro é nosso avô.
Este modo de contar a história humana tem sido trunfo fundamental do êxito de Harari. Simples, elucidativo, bem informado, divertido. Humanos são animais, têm ancestrais, são de uma família de macacos. Evolucionariamente, nada especial, porque a evolução é apenas normal.  

II. ESQUELETOS NO BANHEIRO
Gostamos de nos ver como humanos únicos, como se tivéssemos saído do nada. Ao contrário, temos um bocado de primos não civilizados. Na verdade, o sentido de humano é de um animal pertencendo ao gênero Homo, tendo havido muitas espécies neste gênero, além do Homo sapiens. Há 10 mil anos, de fato, somos a única espécie humana que restou. Ao final da história atual pode ocorrer que sobrevenham humanos não-sapiens, tecnologicamente. Harari usa, em geral, sapiens para denotar membros da espécie Homo sapiens, e reserva “humano” para denotar membros do gênero Homo. Humanos evoluíram primeiro na África oriental há cerca de 2.5 milhões de anos de um gênero prévio de macacos chamados Australopitecos, que significa “macaco do sul”. Há cerca de 2 milhões de anos, alguns desses homens e mulheres arcaicos deixaram sua pátria para viajar e colonizar áreas da África do norte, Europa e Ásia. Exigindo a sobrevivência nas florestas nevadas da Europa do norte traços diferentes daqueles indonésios com florestas tropicais, populações humanas evoluíram em direções diversas. Resultaram distintas espécies, com nome latino pomposo (Homo rudolfensis [África oriental]; erectus [Ásia oriental], neanderthalensis [Europa e África]). Humanos na Europa e Ásia ocidental evoluíram para Homo neanderthalensis (Homem do Vale Neander) (o neandertal); mais fortes e musculosos do que nós sapiens de hoje, estavam bem adaptados ao clima frio da era glacial na Eurásia ocidental.

Já as regiões mais orientais da Ásia estavam habitadas pelo Homo erectus (Homem ereto), que sobreviveu perto de 2 milhões de anos, tendo sido a espécie mais duradoura até então, um recorde que nossa turma dificilmente vai quebrar, pois é duvidoso que Homo sapiens esteja por aí a mil anos de hoje e dois milhões nem se fala. Na ilha de Java (Indonésia) viveu Homo soloensis (Homem do Vale Solo), adaptado aos trópicos. Oura ilha indonésia – Flores – humanos arcaicos sofreram processo de nanismo – chegaram a flores quando o nível do mar estava excepcionalmente raso, tornando a ilha acessível; subindo o mar, alguns ficaram por lá, em situação de penúria. Humanos grandes, com muita necessidade de comida, morreram antes; menores sobreviveram melhor. Em gerações, as pessoas de Flores se tornaram anões; esta espécie única, conhecida por cientistas como Homo floresiensis, tinham altura máxima de cerca de 1 metro e pesavam 25 quilos; mas eram capazes de produzir ferramentas de pedra e ocasionalmente caçar até elefantes, ainda que também os elefantes fossem uma espécie de exemplares menores.

Em 2010, outro parente foi resgatado do esquecimento, quando cientistas escavaram a Caverna Denisova na Sibéria e descobriram osso fossilizado do dedo; análises genéticas provaram que o dedo era de uma espécie não conhecida antes da espécie humana, que passou a chamar-se Homo denisova. Não seria surpresa achar, no futuro, outros parentes. O berço da humanidade continua a nutrir outras novas espécies, como Homo rudolfensins (Homem do Lago Rudolf), Homo ergaster (Homem trabalhador) e eventualmente nossa própria espécie, que sem modéstia alguma alcunhamos de Homo sapiens (Homem sábio). Alguns deles foram parrudos, outros anões; alguns foram caçadores temíveis e outros coletores/agricultores; alguns viviam numa única ilha, enquanto muitos perambulavam nos continentes – mas todos eram do gênero Homo, seres humanos. É falácia visualizar essas espécies como arranjadas em linha reta de descendência, com Ergaster resultando no Erectus, este no Neandertal e este em nós. Modelos lineares sugerem que, em dado momento, apenas um tipo de humano habitava a terra, e todas as espécies anteriores eram meramente modelos mais velhos de nós mesmos. A verdade é que desde há 2 milhões de anos até 10 mil anos, o mundo era lar, ao mesmo tempo, de muitas espécies humanas, como há muitas espécies de cães, porcos, gatos... O mundo antigo teve pelo menos seis espécies diferentes humanas. O que é peculiar é nossa atual exclusividade, não a multiplicidade de espécies, sob suspeita... Como se há de ver, nos Sapiens temos razões para reprimir a memória dos parentes (exterminados) (H:8).

III. CUSTO DE PENSAR
Mesmo com tantas diferenças, as espécies humanas compartilham características definitórias, em especial cérebros grandes; mamíferos pesando quase 60 quilos têm cérebro médio de 30 cm3. Os primeiros homens e mulheres, há 2.5 milhões de anos, tinham cérebros de 91 cm3. Modernos Sapiens têm cérebro de 185 – 215 cm3. Cérebros dos Neandertals eram ainda maiores, mas inteligência não depende apenas de tamanho cerebral. Cabe perguntar por que cérebros gigantes são tão raros no reino animal? No Sapiens, o cérebro responde por 2-3% do peso do corpo, mas consome 25% da energia do corpo em repouso – em outros animais, o consumo pode ser de apenas 8%. Humanos arcaicos pagavam por cérebros grandes de dois modos; primeiro, gastavam mais tempo em busca de comida; segundo, seus músculos atrofiavam – humanos derivaram energia do bíceps para os neurônios, embora fosse estratégia ótima para a sobrevivência na savana. Um chimpanzé não pode filosofar com umHomo Sapiens, mas pode fazê-lo em pedaços como uma boneca. Hoje, cérebro grande vale por demais a pena, bastando levar em conta os feitos tecnológicos, ainda que isto tenha vindo bem mais tarde. No início, à parte algumas facas e pontoes de pedra, humanos tinham pouco a mostrar. Então, o que levou em frente a evolução humana? Não se sabe. Outro traço singular é o andar ereto sobre duas pernas. Ficar de pé facilita vasculhar a savana para buscar caça e antecipar-se ao inimigo, e braços liberados da locomoção poder fazer outras coisas importantíssimas, como jogar pedra e flechas ou sinalizar. Quanto mais coisas as mãos fazem, tanto maior êxito se garante na manipulação da natureza, razão pela qual humanos melhoraram nervos e músculos finos nas palmas da mão e dedos. Podem fazer ferramentas sofisticadas. A primeira evidência de produção de ferramenta data de cerca de 2.5 milhões de anos atrás, e isto é critério pelo qual arqueólogos reconhecem antigos humanos.

Andar ereto teve, porém, seu custo, já que o andaime tinha de carregar crânio grande – pagava-se pela visão mais ampla e mãos industriosas com dores nas costas e pescoços endurecidos. Mulheres pagaram bem mais, exigindo cinturas mais estreitas, constringindo o canal do parto – e isto logo agora que bebês eram cada vez maiores – morte no parto tornou-se mais comum. Mulheres que davam à luz mais cedo, quando o cérebro da criança ainda era relativamente pequeno e macio, saíam-se melhor e sobreviviam para terem mais filhos. A seleção natural favoreceu, então, nascimentos mais cedo; de fato, comparados com outros animais, humanos nascem prematuros, quando muito de seus sistemas vitais estão subdesenvolvidos. Um potro logo troteia após nascer; um gatinho já se cuida algumas semanas depois de nascer; bebês humanos dependem por muitos anos dos mais velhos. Mas isto contribuiu para as habilidades sociais extraordinárias humanas, bem como para problemas sociais únicos. Mães sozinhas dificilmente conseguiam sustentar suas crias e a si mesmas com outras crias no pé. Crianças crescendo impunham necessidade constante de ajuda de outros membros da família e vizinhos – é preciso uma tribo para criar um humano. Evolução, assim, favoreceu a quem criou laços sociais fortes. Ademais, já que humanos nascem subdesenvolvidos, podem ser educados e socializados em extensão bem maior do que outros animais. “A maioria dos mamíferos emerge do ventre como cerâmica vidrada emergindo de um forno – toda tentativa de remoldar irá apenas arranhar ou quebrar” (H:9). Já humanos emergem do ventre como vidro fundido de uma fornalha – podem ser talhados, esticados e moldados com grau surpreendente de liberdade. “É por isso que hoje podemos educar nossos filhos para tornarem-se cristãos ou budistas, capitalistas ou socialistas, beligerantes ou pacíficos” (Ib.).

Assumimos que cérebro grande, uso de ferramentas, habilidades superiores de aprendizagem e estruturas sociais complexas são vantagens incisivas. Parece evidente que isto fez da humanidade o animal mais poderoso na terra. Mas humanos desfrutaram tais vantagens por plenos 2 milhões de anos, nos quais eram criaturas fracas e marginais. Assim, humanos de há um milhão de anos, mesmo com cérebros grandes e ferramentas de pedra, viviam atemorizados por predadores, quase nunca caçavam coisa grande e subsistiam mormente colhendo plantas, pegando insetos e assaltando animais, ou comendo restos de carne deixados por carnívoros. Um dos usos mais comuns era quebrar ossos com ferramentas de pedra para chegar à medula – alguns pesquisadores creem que este foi nosso nicho original – assim como pica-paus se especializam em extrair insetos de troncos de madeira, os primeiros humanos se especializaram em extrair medula dos ossos. Por quê? Leões derrubam uma girafa e a devoram; espera-se pacientemente, até depois que hienas e chacais façam sua parte; só depois, chegam humanos, com cuidado extremo. Isto é chave para entender nossa história e psicologia. A posição na cadeia alimentar era, até bem recentemente, no meio; por milhões de anos, humanos caçavam criaturas menores e colhiam o que podiam, sendo facilmente caçados por predadores. Só há 400 mil anos várias espécies humanas começaram a caçar animal grande regularmente e só nos últimos 100 mil anos – com a chegada do Homo sapiens – humanos pularam para o topo da cadeia alimentar. E isto teve consequências; outros animais no topo da pirâmide, como leões e tubarões, evoluíram para esta posição bem gradualmente, em milhões de anos; isto facultou ao ecossistema desenvolver filtros que impedem leões e tubarões de depredar em demasia. Tornando-se leões mais letais, as gazelas evoluíram para correr mais, hienas para lançar mão da cooperação e rinocerontes para serem mais mal humorados. Em contraste, humanos ascenderam ao topo tão rapidamente que o ecossistema não teve tempo de ajuste; ainda, humanos também não se adaptaram. A maioria dos predadores do topo do planeta são criaturas majestosas – milhões de anos os encheram de autoconfiança. Sapiens, em contraste, parece mais uma ditador de república das bananas – tendo sido até recentemente um subalterno (underdog) da savana, mantém-se cheio de temores e ansiedades sobre sua posição, o que o torna tanto mais cruel e perigoso. Muitas calamidades históricas, desde guerras letais a catástrofes ecológicas, resultaram deste salto açodado (H:11).

Esta descrição animada e colorida de Harari é, naturalmente, uma interpretação (humanos falando de humanos é coisa sempre suspeita); falta saber se a “evolução” concorda. No entanto, foi esta narrativa divertida que deu fama tão destacada ao livro, em particular sua cautela desconstrutiva da empáfia humana; antes de pretender e ser tanta coisa, foi um bicho qualquer. Por muito tempo patinou na savana, até elevar-se cognitivamente acima dos outros animais. Depois deslanchou, mas bem recentemente. E continua, sobretudo, uma fera ambígua.

IV. CORRIDA DE COZINHEIROS
Ponto algo na ascensão ao topo foi a domesticação do fogo. Algumas espécies teriam feito uso casual por volta de 800 mil anos atrás; mas há cerca de 300 mil anos, Homo erectusNeandertals e antepassados do Sapiens estavam usando diariamente. Humanos conquistaram fonte confiável de luz e calor e arma mortal contra leões espreitando. Não muito depois, humanos começaram a colocar tochas a seu redor; fogo bem gerido podia tornar matas intransitáveis em pastagens para gado domesticado. Ademais, uma vez apagado o fogo, empreendedores da idade da pedra podiam perambular  nos restos fumegantes e colher animais carbonizados, nozes e tubérculos. Mas a melhor coisa do fogo é cozinhar. Alimentos não digeríveis in natura – como trigo, arroz e batatas – viraram bases da dieta via cozimento, que, ainda, matava germes e parasitas que infestavam a comida. Havia então tempo maior para mastigar e digerir favoritos antigos como frutas, nozes, insetos e carcaças, se fossem cozidos. Enquanto chimpanzés gastam cinco horas por dia mastigando comida crua, basta uma hora para as pessoas ingerirem comida cozida. Com isso a comida também se diversificou, além de gastar menos tempo comendo, com dentes e intestinos menores. Alguns pesquisadores creem que há link direto entre a chegada do cozimento e o encurtamento dos intestinos humanos e o crescimento do cérebro. Intestinos longos e cérebro grande consomem muita energia – preferiram-se os primeiros (Gibbons, 2007).

Fogo também aprofundou o hiato entre humanos e outros animais; o poder de quase todos os animais depende dos corpos: força muscular, tamanho dos dentes, alcance das asas; embora possam lidar com ventos e corretes, não as controlam, constritos a seu design físico. Águias, por exemplo, identificam colunas termais vindas do chão, abrem suas asas gigantes e facultam que o ar quente as elevem no céu; mas não controlam a localização das colunas e sua carga mássica é estritamente proporcional à envergadura das asas. No entanto, há 150 mil anos humanos ainda eram criaturas marginais; podiam agora meter medo em leões e queimar matas; mas, contando as espécies juntas, não haveria mais que um milhão de humanos vivendo entre o arquipélago indonésio e a península ibérica, “um mero borrão no radar ecológico” (H:P12). Nossa espécie, Sapiens, já andava por aí, mas restringia-se a um canto da África. Não se sabe onde e como animais que podem ser classificados como Homo sapiens evoluíram primeiro de algum tipo prévio de humanos, mas a maioria dos estudiosos concordam que, há 150 mil anos, a África oriental foi habitada pelo Sapiens similares a nós hoje. Concorda-se também que há 70 mil anos, Sapiens saiu da África oriental e se espalhou na península árabe e daí para toda a Eurásia continental. Quando chegou, encontrou outros humanos. O que aconteceu a estes?

Há duas teorias em conflito. A “teoria do cruzamento” fala de uma estória de atração, sexo e mistura; quando Sapiens chegou ao Oriente Médio e Europa, encontraram os Neandertals; estes eram mais musculosos, tinham cérebros maiores e estavam mais bem adaptados ao frio; usavam armas e fogo, eram bons caçadores e aparentemente cuidavam de seus enfermos e deficientes. São muitas fezes descritos como brutos e estúpidos (da caverna), mas evidência recente mudou a imagem. Conforme a teoria do cruzamento, quando Sapiens se espalhou nas terras dos Neandertals, o cruzamento ocorreu a ponto de as populações se fundirem; se tiver sido o caso, euroasiáticos de hoje não são puros Sapiens, mas mistura de Sapiens e Neandertals; de modo similar, quando Sapiens chegou à Ásia oriental, cruzaram com Erectus locais, de sorte que chineses e coreanos são mistura de Sapiens e Erectus. A visão oposta – teoria da substituição – narra outra estória, da incompatibilidade, revulsão e talvez genocídio. Para esta visão, Sapiens e outros humanos tinham anatomias diferentes, talvez também outros hábitos de acasalamento e mesmo odores corporais; teria havido pouco interesse sexual entre si; mesmo se ocorresse acasalamento, a cria seria infértil. As duas populações permaneceram distintas e quando os Neandertals se extinguiram, ou foram mortos, seus genes se foram. Sapiens substituiu as populações humanas prévias sem fundirem-se. Se for o caso, as linhagens de humanos contemporâneos podem ser rastreadas, exclusivamente, até a África oriental, há 70 mil anos e seríamos todos “Sapiens puros” (H:13).

Está em jogo muita coisas em ambas as teorias; 70 mil anos é algo curto na evolução; se a teoria da substituição for correta, todos os humanos têm a mesma bagagem genética e distinções raciais são negligenciáveis. Se a teoria do cruzamento for certa, pode bem haver diferenças genéticas entre africanos, europeus e asiáticos que recuam a milhares de anos, sendo isso dinamite político... A teoria da substituição tem prevalecido por enquanto, por conta de fundamentos arqueológicos mais sólidos e é politicamente mais correta. Mas isto terminou em 2010, quando os resultados de um esforço de quatro anos em mapear o genoma dos Neandertals foram publicados; geneticistas foram capazes de coletar DNA suficiente intacto de fósseis para montar comparação ampla com os humanos atuais. Os resultados surpreenderam a comunidade científica; achou-se que de 1-4% do DNA humano único das populações modernas no Oriente Médio e Europa é DNA de Neandertal; pouca coisa, mas significativa. Segundo choque veio logo depois, quando DNA extraído de dedo fossilizado de Denisova foi mapeado – resultados provaram que até 6% do DNA humano único do melanésios modernos e dos australianos aborígenes são DNA denisovano. Se isto for válido – há pesquisa ulterior em andamento que pode reforçar ou modificar as conclusões – os adeptos do cruzamento acertaram em algumas coisas, mas não significa que a teoria da substituição esteja toda errada. Em vista de que Neandertals e Denisovanos contribuíram com montante pequeno do DNA nosso de hoje, é impossível falar de “fusão” entre Sapiens e outras espécies humanas; embora diferenças não fossem suficientemente grandes para completamente impedir intercurso fértil, eram suficientes para tornar tais contatos muito raros. Parece que, há 50 mil anos, as espécies se distanciaram o suficiente para não se misturarem, em particular, Sapiens já eram bem diferente dos Neandertals e Denisovanos, sobretudo no plano cognitivo e social, mas poderia ocorrer, ainda que muito raramente, algum cruzamento. Mesmo assim, alguns genes do Neandertal pegou carona no Sapiens...

Sobra a pergunta: por que sumiram? Uma possibilidade é que Sapiens, tecnológica e socialmente superior, os levou à extinção. Outra é que a disputa por recursos gerou violência que propiciou a primeira limpeza étnica da história... Temos aí, na saga dos Neandertals, um dos maiores condicionais (se...). Se tivesse havido chance de cruzamento generalizado, como teria sido o futuro deles? Que culturas teriam emergido, religiões, estruturas políticas...? Nos últimos 10 mil anos, Sapiens se acostumou a ser espécie única, a ponto de se pretender ápice da criação e que um abismo nos separa dos outros animais. Quando Darwin indicou que o Sapiens era apenas outro tipo de animal, as pessoas se sentiram ultrajadas. Até hoje, muitos se negam a crer. Os últimos resquícios do Homo Soloensis datam de cerca de 50 mil anos; Homo denisova desapareceu pouco depois; Neandertals sumiram há 30 mil anos; os últimos humanos anões evaporaram de Flores há 12 mil anos – deixaram alguns ossos, ferramentas de pedra e alguns genes em nosso DNA e um monte de questões sem resposta. Qual o segredo do sucesso do Sapiens? A resposta mais provável é a própria coisa que torna o debate possível: conquistou o mundo graças à sua linguagem única (H:18).

CONCLUSÃO
A ciência arqueológica e similares avançaram muito em descobertas de como teria sido nosso passado ancestral. Mas, cada vez que achamos algumas respostas, sobrevêm outras ainda mais inquietantes. Talvez seja mesmo impossível recompor uma saga tão dinâmica, tortuosa, gradual e agitada, com restos arqueológicos. O lado interessante de Harari é o acento que põe nas questões mais provocativas, como a disputa em torno de como aconteceu o encontro entre espécies humanas diferentes, se houve cruzamento a ponto de uma fusão definitiva, ou se a diferença, aumentando, provocou confrontos e rivalidades que deixaram o palco para apenas uma, a cognitiva e socialmente superior... Este tipo de conhecimento é, como diz Harari, dinamite. Alguns vão pescar aí apoios racistas, tão comuns em ocidentais brancos. É particularmente instigante o contraponto entre um animal mais ou menos vagabundo, e o que ele virou depois, o pico da evolução animal. Tudo isso está pendurado numa hipótese científica, por mais que seja hoje tão badalada: seleção natural (evolução natural). Alguns vão dizer que está mais que confirmada; outros preferem manter como a hipótese mais palatável ou em voga, já que ciência não cria verdades inamovíveis. Não será à-toa que há tanta gente ainda apegada ao criacionismo, por conta de uma “fé”.

Pedro Demo (2016)

REFERÊNCIAS
GIBBONS, A. 2007. ‘Food for Thought: Did the First Cooked Meals Help Fuel the Dramatic Evolutionary Expansion of the Human Brain?’, Science 316:5831 (2007), 1,558–60.
HARARI, Y.N. 2015. Sapiens: A brief history of humankind. Harper, London.

[1] Eis a linha do tempo, segundo Harari: Anos antes do presente: 13.5 bilhões – matéria e energia aparecem; começo da física; átomos e moléculas aparecem. Começo da química. 4.5 bilhões – formação do planeta terra. 3.8 bilhões: emergência dos organismos; começo da biologia. 6 milhões – última avó comum de humanos e chimpanzés. 2.5 milhões – evolução do gênero Homno na África; primeiras ferramentas de pedra. 2 milhões – Humanos se espalharam da África para Eurásia; evolução de espécies humanas diferentes. 500 mil – Neandertals evoluem na Europa e Oriente Médio. 300 mil – Uso diário do fogo. 200 mil – Homo Sapiens evlui na África oriental. 70 mil – A Revolução Cognitiva; emergência da linguagem fictiva; começo da história; Sapiens se espalhou a partir da África. 45 mil – Sapiens coloniza Austrália; extinção da megafauna australiana. 30 mil – Extinção dos Neandertals. 16 mil – Sapeinas colônia a Américva; extinção da megafauna americana. 13 mil – Extinção do Homo floresiensis; Homo sapiens é a úncia espécie humana que sobrevive. 12 mil – A Revolução Agrícola; domesticação de plantas e animais; colonizações permanentes. 5 mil – Primeiros reinados, escrita e dinheiro; religiões politeístas. 4.250 – Primeiro império – Império Acadiano de Sargon. 2.500 – Invenção da cunhagem de moeda – dinheiro universal; império persa – ordem política universal “para libertar todos os seres do sofrimento”. 2 mil – Império Han na China; Império Romano no Mediterrâneo; cristiandade. 1.400 – Islã. 500 – A Revolução Científica; humanidade admite sua ignorância e começa a adquirir poder sem precedentes; europeus começam a conquistar a América e os oceanos; o planeta inteiro se torna arena única histórica; surgimento do capitalismo. 200 – A Revolução Industrial; família e comunidade são substituíodos pelo Estado e mercado; extinção massiva de plantas e animais. O Presente – Humanos transcendem os limites do planeta terra; armas nucleares ameaçam a seleção, mais que a natural. O Futuro – Design inteligente se torna princípio básico da vida? Homo sapiens é substituído por super-humanos? (H:P75).
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