Confissões de um ex-pastor(VII)

Se eu não estivesse escrevendo esta série de Confissões de um ex-pastor, daria, creio eu, acertadamente o título para este monólogo de: Os leprosos modernos e os fariseus de sempre!

Antes de tudo, se faz necessário um alerta, para que não ocorram mal-entendidos: os termos leproso e fariseu estão sendo usados como metáforas. Não exerço nenhum juízo de valor quando os utilizo.

Consta num dos livros mais esquisitos do Primeiro Testamento, Levíticos, o livro que eu mais encontrei dificuldades para ler da Bíblia, até mesmo mais que Apocalipse, as regras para tratar cerimonialmente, e socialmente, um caso de lepra na família e na comunidade(13:45 e 46), a Lei mosaica era rígida e impiedosa: o leproso deveria morar fora da cidade mantendo uma distância de seis passos de outras pessoas e usar roupas de acompanhantes de enterro, a lepra tornava a pessoa cerimonialmente impura, que era excluída do acampamento hebreu, e por conta disso era considerada também alijada da presença de Deus, já que se considerava a reunião no Templo (Tabernáculo) como a única forma legítima de estar na presença de Deus. A preocupação com esta doença e que justificaria todo este tratamento, reflete em Salmo 91:6, onde o salmista canta: "... nem a peste que se propaga nas trevas...", ou no dizer da NVI: "... nem a peste que se move sorrateiramente nas trevas...", cria-se que a lepra era contagiosa à noite, por isso que deveriam afastar-se, o povo de Deus não poderia ter doenças que deformassem o corpo, qualquer deformidade o afastava do Santuário e da possibilidade de oficiar, eram rigorosos, mas a questão era de sobrevivência, hoje isso é compreendido e aceitável.

A Lei Mosaica caducou, a Graça instalou-se, ou pelo menos tem se esforçado, pois não é bem vinda ainda na igreja moderna. Existem muitos fariseus (não estou usando em sentido pejorativo este termo) e doutores da Lei, gente íntegra, cumpridora da Lei, obediente a todos os mandamentos bíblicos e que não satisfeita com isso ainda acrescenta alguns por conta própria, que não é hipócrita, mas de uma espiritualidade doentia, gente que não consegue ter misericórdia, gente que conhece a Graça apenas como um verbete do dicionário.

O caso que eu vou relatar é uma ilustração disso, não quero que seja tomado como crítica, não quero ser impiedoso, a única razão de usá-lo é como um exemplo, não julgo as ações de ninguém. Anos atrás eu tinha um grande amigo, foi meu professor de Homilética no seminário, gostava tanto dele que pedi para ir para sua igreja, queria ajudá-lo, mas queria aprender com ele, assim tornou-se também meu pastor, quando ele saiu para ser pastor de uma igreja maior eu fiquei, ainda seminarista, dando assistência à igreja, ele me orientava e muito. Quando ainda era pastor da igreja pequena orávamos muito juntos, líamos a Bíblia e outros livros juntos, chorávamos juntos, recomendávamos livros um ao outro. Um dia intermediei a reunião dele com o presidente de um presbitério, a intenção era que a igreja dele que era separatista voltasse ao seio da igreja mãe, o que de fato pouco tempo depois concretizou-se, passando o mesmo posteriormente a exercer cargos de destaque na denominação. Tudo isso durou até o dia em que revelei a minha face pecadora e meu caráter com grandes falhas e inconsistências. Não era mais chamado de "varão" e nem de "abençoado" quando o encontrava, apenas leve contato e distantes e "frouxos" apertos de mão, dizem os mais antigos que um homem é conhecido pela força ou a forma que aperta a mão de outro, nada mais de abraços, nada mais de tapinhas nas costas.

Eu estava em um Shopping de Recife há meses atrás, numa tarde de sábado, solitário, deprimido e triste em meio à multidão que alheia à minha condição comprava, comprava e comprava naquele templo do deus Mamom, ao passar num corredor deparei-me com este pastor abraçado à esposa defronte à vidraça de uma loja, fiquei feliz ao ver aquele homem de Deus, alguém que sempre julguei piedoso, e continuo crendo nisto ainda hoje, grande orador, sempre fez sermões de três pontos de forma invejável, metódico como pastor e um bom professor sempre disposto a aprender, uma das suas maiores características sempre foi a humildade e o espírito de serviço. Ele me olhou de soslaio e virou o rosto, fez de conta que não me viu, acredito que não queria ser visto num lugar público falando com um leproso espiritual como eu, acho que minhas deformidades estavam tão acentuadas que devem ter causado repulsa aos olhos sensíveis e sinceros do meu amado amigo. Para não envergonhá-lo e deixá-lo constrangido eu me afastei, fiquei com piedade dele, talvez eu o deixasse em maus lençóis com a esposa, que o acompanhava, se o abordasse, não quis forçá-lo a falar com um leproso, levei a minha lepra para longe, eu não queria contaminá-lo.

Philip Yancey descreve em A Dádiva da dor e em Alma sobrevivente, ainda que neste último de forma resumida, a história do médico Paul Brand, que abandonou o luxo e a fama para tratar de leprosos em regiões paupérrimas da Índia, algo que me chamou à atenção naquela brilhante biografia foi o caso de um homem que estava num estágio avançado de lepra, rejeitado pela família, pela sociedade e por muitos centros de saúde, foi tentar a sorte derradeira no hospital do Dr. Brand, ao ser examinado por este, começou a chorar, o médico ficou assustado e perguntou à enfermeira que servia de intérprete se estava machucando sem querer o rapaz, a resposta que recebeu foi que o choro se devia ao fato de que aquele homem havia esquecido o toque humano, e estava emocionado por estar sendo tocado pelo Dr. Brand.

Eu me senti naquele dia como um leproso, num grau tão elevado de infecção, que esconderam até o rosto de mim, por medo de contaminação. Sei que minhas falhas de caráter são um grave desapontamento a Deus, que mesmo assim me ama, sei também que são um grave desapontamento à igreja, que não consegue amar pecadores como eu. Só os perfeitos são amados, só os bonzinhos são queridos, eu não sou nenhuma coisa e nem outra. Quando reencontrar meu amigo nos longos e iluminados corredores do Palácio de Abba, não o deixarei esconder o rosto outra vez, até porque minha lepra ficará por aqui mesmo, darei um grande abraço e beijarei sua face, feliz por estarmos juntos no único lugar onde não vale o que somos ou o que fomos, o que vale e valerá para sempre é a sombra de uma cruz (e tudo o mais que ela representa) num monte empoeirado na antiga Jerusalém. Neste dia muitos de nós descobriremos que a mania pela perfeição, a intolerância e o desprezo aos imperfeitos não foi o evangelho que Abba mandou que pregássemos.

Espero que um dia, quando o Rei mandar me buscar e me chamar para sentar à mesa, aqueles que torceram o rosto para mim, sejam mais tolerantes, pois como Mefibosete, sou aleijado cheio de defeitos, o manto púrpura sobre os meus ombros não modifica meus defeitos, apenas os encobre, mas não os conserta de vez, mesmo assim o Rei mandou me buscar, e segundo a Sua própria palavra: "... para que eu use de misericórdia (bondade)...". Um dia eu sei que dirão, Jocelenilton, coxo de caráter de ambos os pés, morava em Jerusalém, porquanto comia à mesa com o Rei, e isto bastará como epitáfio para minha lápide: Comia à mesa com o Rei.

Uma prece: Sou um Maltrapilho Abba! Permita que eu ame e compreenda àqueles que não conseguem me amar por eu ser um pecador, não permita que tenha raiva e nem ressentimento, permita, que eu possa tocar naqueles que estão na mesma condição que eu, precisando de um amigo, de um abraço e de um apoio, me ajude a aceitar às falhas dos maltrapilhos desprezados como eu, e que aqueles que têm saúde espiritual, possam continuar sãos, ainda que desviem os olhos de mim. Sustenta-os, protege-os, fortaleça-os.

Ninguém te ama como Jesus te ama

O coração humano não tem a capacidade de dar o amor que você precisa para ser feliz. A limitação do coração humano é grande, pois ele não pode fazer nada por si mesmo. Ele dependerá sempre de um outro coração que o ajude e que igualmente o ame, para que ele possa também ser feliz.

Nessas condições, o coração humano está sempre sujeito às limitações de um outro, às vezes, até mais frágil e muito mais carente que o nosso próprio coração, aumentando, assim, cada vez, mais o circulo da infelicidade. Um carente procura outro carente, um frágil se apóia em outro frágil na esperança de cada um dê ao outro a felicidade que ambos não têm, o resultado disso é a queda, pois estamos nos apoiando em algo sem sustentação em si mesmo.

Da mesma forma, quando alguém quer fazer de nos a sua fonte de felicidade, colocando em nossas mãos a sua enorme necessidade de ser feliz e nós, eu e você, que também estamos precisando desesperadamente de felicidade, nos sentimos confusos e impotentes. É nesse momento de angustia e solidão que devemos nos lembrar daquela frase:- "Jesus te ama".

Sim, Jesus te ama, e com um amor que nasce e não do coração humano, mas do coração de Deus. Ninguém pode te amar como Jesus te ama. Simplesmente porque Jesus não tem amor. Ele é o Amor. O verdadeiro amor, que não pode ser encontrado ao coração humano, pois vem do alto, é espiritual, sobrenatural, sagrado. Jesus não esperou ser amado por você para também te amar Ele já te ama, agora, ontem, amanhã e sempre. O seu amor divino não estabelece condições ou imposições para te amar Jesus te ama como você é. Para ele você não é feio ou bonito, grande ou pequeno, branco ou negro, rico ou pobre, jovem ou velho, pois Jesus não olha a sua aparência, mas ele vê o seu coração. E é ali, no seu coração, que ele quer habitar para lavar as suas feridas, tirar toda a amargura, secar as suas lagrimas e limpar as cicatrizes de sua alma, porque você, você é importante demais para ele.

O coração humano não tem culpa de ser limitado, se alguém não deu a felicidade que você esperava, é porque ninguém pode dar aquilo que não tem. Mas quando você aceitar receber em seu coração esse amor que perdoa, esse amor que não cobra, esse amor que dá a paz, a alegria, o seu coração humano será transformado em um coração espiritual, pois nele habitará o amor de Jesus Cristo. Então, você vai começar a olhar, a perdoar e a amar como Jesus. E, finalmente, você vai encontrar aquilo que tanto você procurava. A felicidade.

Pois só o amor de Jesus Cristo tem a capacidade de dar tudo que você precisa para ser feliz.
Olha:- Ninguém pode te amar como Jesus te ama.

Nelson Ned

[Esta é uma das minhas preferidas, ouço a voz de Jesus quando ouço este poema]

Elegia desesperada(O Desespero da Piedade)

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

Vinícius de Moraes
A poesia acima foi extraída do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág.73.

Meu amigo livro...

“Só devemos emprestar livros aos grandes amigos, e os grandes amigos não pedem livros emprestados”. Autor desconhecido.
Entrar numa livraria casualmente ou de propósito, seja num Shopping Center ou numa rua qualquer, passar alguns minutos escolhendo um bom livro, isso é uma questão relativa, depois dirigir-se para o caixa e efetuar o pagamento, ter o bloqueio eletrônico do livro liberado, dirigir-se à saída, as olhadelas furtivas quando o sinal de trânsito fecha ou nos intervalos das sacudidelas do ônibus, a chegada em casa e o ato de sentar-se para ler é algo tão corriqueiro que a maioria, ou mesmo a totalidade de nós, não pensa nas implicações ou na trajetória percorrida por aquela celulose que foi extraída de uma árvore, normalmente de um pinheiro, e passou por um processo industrial de beneficiamento sendo transformada então em papel, que é enrolado e enviado para um armazém onde fica aguardando que uma editora o compre, depois de todo um percurso, que pode ser ou não longo, finalmente chega à gráfica, finalmente não! A viagem está apenas no começo.

Então um livro é estampado, ou impresso nessas páginas e lá se vai a nossa celulose, transformada em livro para uma distribuidora, depois para a estante de uma livraria aguardar que alguém o leve, após inúmeras esperanças vãs, finalmente é comprado, caso vá para um bibliófilo será manuseado com cuidado e depois de lido será bem guardado, guardado até demais, mas caso nosso livro seja comprado por uma instituição que tenha uma biblioteca, então começa um mundo de ida e vindas, viagens e mais viagens, vai passar por muitas aventuras, mas também por muitos apertos, levará muitas pessoas às lágrimas, mas pode também ter vontade de chorar por ser maltratado. Porém imaginemos que nosso livro seja exportado, alguém digamos, por exemplo, lá na longínqua Latvia, que lê português resolve entrar num site de uma livraria brasileira que efetua vendas para o exterior e adquire o nosso amigo, lá se vai ele, sendo embalado e enviado para uma empresa que efetuará o traslado por via aérea, ou surface para a Europa, depois ele será enviado no modal ferroviário, por último irá por via rodoviária até as mãos do ansioso dono, que depois de devorá-lo irá utilizar as suas idéias numa tese de mestrado em literatura, explicando as nuances da literatura brasileira e as influências do dinamarquês Sören Kierkgaard no pensamento existencialista do autor da obra. Parece viagem? Mas é uma viagem.

Imagine então que ao invés de um livro ela seja beneficiada para ser um caderno ou para ser a capa de um DVD de um show de um cantor famoso? Bom as viagens serão infinitas, melhor pararmos por aqui. Ainda bem que não teve a nossa celulose o azar de virar santinho de político que não foi eleito, pode ser que na próxima “encadernação” após a reciclagem, ela venha como folha ou capa de best-seller, tomara que seja de um livro de José Saramago ou de Khaled Hosseini.

Imagine então que nosso amigo latviano ao invés de comprar o livro resolvesse efetuar o download do arquivo em PDF que ele encontrou num site qualquer, ou então ele comprasse a versão digitalizada do livro de forma legal, o ebook e o colocasse num Pda ou Smartphone para poder ler em qualquer lugar, isso faria que a nossa velha amiga celulose beneficiada fosse poupada de toda essa trajetória?

Em tempos de modos ecologicamente corretos, qual será o futuro do livro se a leis se tornarem mais rígidas na contenção do desmatamento? Já existe alguma tecnologia que venha a substituir a celulose e com isso não haja tanto corte de árvores? E essa tecnologia poria fim ao que chamamos de livro?

Já li diversos livros na tela do computador e li outros tantos na tela do Palm, mas nada supera o prazer de abrir um livro e cheirá-lo, claro, o paladar é aguçado pelo olfato, experimente comer uma deliciosa feijoada gripado, não tem sabor, tem que sentir o cheiro antes de degustá-la, isso faz parte do ritual. E o que dizer do prazer de colocar um livro debaixo do travesseiro, com o PC ou Palm isso num fica muito legal não. Ainda tenho a mania de rabiscar anotações nos livros que leio, são hábitos que não dá para mudar. Espero que desenvolvam tecnologias e políticas sustentáveis de plantio de florestas de pinheiros, para que os livros como os conhecemos hoje não desapareçam.

O que é que a frase do início do texto tem a ver com tudo isso? Nada, ela é só um conselho aos que pensarem em comprar livros.

(Introdução de um trabalho para a Faculdade Boa Viagem)
P.S: Homenagem à Nathalia, minha sobrinha que completa ano hoje.

Confissões de um ex-pastor(VI)

Rabia, uma mística islã que viveu por volta dos anos 800 d.C. define por meio de uma petição dirigida a Alá a essência de um verdadeiro relacionamento com Deus:
Se eu Te adorar por medo do inferno,
Queima-me no Inferno.
Se eu Te adorar pelo Paraíso,
Exclua-me do Paraíso.
Mas, se eu Te adorar pelo o que Tú és,
Não escondas de mim a Tua face.

Essa declaração, que muitos cristãos estão dispostos a elogiar, mas bem poucos a pronunciar com sinceridade, sintetiza o ideal de uma verdadeira adoração, de um sincero relacionamento com Deus. À guisa de exemplo podemos ver que um músico brasileiro expõe essa frase no verso do CD e do DVD, porém, por incrível que possa parecer, todas as músicas são triunfalistas, de teologia de restituição e pós-teologia da prosperidade.

A nossa maneira pós-moderna de viver nos leva a achar mais fácil amar a Deus ou por medo ou pelo o que Ele pode dar, inclusive a vida eterna, difícil amá-lo pelo o que Ele é, apenas por isso. Incrível como uma mística de uma tradição anti-cristã(muçulmana) pode ter uma visão relacional com Deus com uma profundidade maior que muitas tradições que se dizem cristãs. Nesse evangelho que nem é moderno, nem pós-moderno, mas sim medieval com todas as superstições e fetiches de então, a relação com Deus é sempre na base da troca, trocar adoração por benção, obediência por salvação, amor por bem-estar. Uma pena que vivamos assim, até mesmo de forma inconsciente. Não conseguimos mais olhar para as práticas cúlticas sem arrepiar o cabelo, para as músicas cantadas na igreja moderna, parecem mais um mantra de troca com Deus: Eu te adoro para que me abençoes. Parece que Deus é um coitadinho que não tem adoradores, aí aparece um crente bonzinho e propõe a Deus uma relação de mútuo benefício: - Bom eu te adoro, agora...

E ainda tem gente que acha que a igreja não precisa de reforma. Que saudade de Lutero, Zwínglio e Calvino. Ouço as músicas triunfalistas de hoje em dia e me arrepio, pois quão distantes estão do Evangelho Maltrapilho anunciado por Jesus. É gente que anda por sobre o mar, é gente que só vive no cume dos montes, é gente que tem fartura, gente que prospera, gente que só vence. Não consigo me ver nesse meio, não consigo cantar essas músicas, não consigo dizer amém a algumas orações que ouço.

Tem um pastor que se credita tantos méritos que escala anjos ao seu lado, como Dunga escala a zaga da seleção brasileira, seria risível, se não fosse um motivo de ojeriza por ser tão trágico, é um vilipêndio à teologia sadia. Outros mais parecem camelôs vendendo seus produtos. É uma vergonha, me recolho e penso que este não é o evangelho de Jesus.

Prefiro a companhia de Maltrapilhos, prefiro os desajustados como eu, prefiro a companhia dos insatisfeitos, dos desprezados, prefiro ir para igrejas em que seja proibida a entrada de pessoas perfeitas, junto com os párias eu me sinto junto com meus semelhantes, eu me sinto em casa, junto aos pequeninos de Abba, eu sinto que sou bem-aventurado.

Confissões de um ex-pastor(V)

Gostaria de considerar a expressão: Ex-pastor. Será que alguém pode realmente falar de vocação perdida em se tratando de ministério pastoral? Posso definir-me como ex-pastor? Fala-se tanto em desqualificação para o ministério pastoral e da impossibilidade de restauração de pastores que cometeram deslizes ou mesmo um só deslize que eu, que sempre tive problemas com o meu caráter imperfeito, não posso jamais pensar em conduzir um rebanho, pois ninguém tão desajeitado quanto eu conseguiu isso com sucesso.

Primeiro por que ninguém me seguiria, como alguém poderia seguir um pastor que peca naqueles pecados que antes condenava? Segundo por que a igreja é o único exército que abandona seus feridos no campo de batalha, quem paga o preço para restaurar pecadores imperfeitos?

Já fui tantas vezes criticado, e sempre que essas mesmas pessoas precisaram de mim para sepultar os seus mortos ou casar seus filhos que fizeram sexo pré-marital, eu as atendi, enterrei seus mortos e abençoei seus filhos, alguns me criticaram por isso, mas mesmo assim fiz as cerimônias sem nenhum sentimento de vingança, o mesmo que disse Davi: "... Se Deus o mandou amaldiçoar a Davi, deixa-o amaldiçoar a Davi...", eu digo sem nenhum orgulho dos meus acusadores, digam o que quiserem, eu ouvirei. Difícil ser alvo de injustiça, difícil ser alvo de inveja, mas ser alvo de olhares inquisidores, julgadores, desamorosos é pernicioso, dilacera a alma, destrói a vontade de viver, mata. Nada nega mais a graça de Deus que falta de perdão. Por isso não consigo ir à igreja, vejo abraços, vejo beijos e digo para mim mesmo: Se souberem quem eu sou não me aceitarão, sei que pareço ter a síndrome do coitadinho, mas não é isso, para ser aceito na igreja é preciso fingir ser perfeito, e eu já cansei disso, não sou perfeito, nunca serei e não vou mais fingir, não quero fingir.

Só tem uma coisa que me alegra: quando Satanás, aquele que tem o ódio nos olhos, chega diante de Deus e com desdém, zombaria e maledicência diz: - Viste Nilton? Caiu em mais uma de minhas armadilhas, esse não tem jeito, esse só faz tentar ser, nunca consegue. Deus olha para Jesus, este compassivo como sempre, levanta sua mão furada e diz para Deus: - Olha para ele através de minhas mãos meu pai, olha através de minhas chagas. Quando Deus faz isso, Ele só vê o sangue de Jesus derramado por mim. Satanás, que só tem ódio no olhar, se afasta, pois o amor incondicional é algo que ele não consegue suportar. Deus me olha através do sacrifício de Jesus e Ele está satisfeito com esta morte de cruz, logo Ele está satisfeito comigo. Obrigado Jesus por que por tuas pisaduras eu fui e sou sarado!.

Confissões de um ex-pastor(IV)

Todas as vezes, nos últimos cinco ou seis anos, que eu tive a oportunidade de ministrar, seja palestrando, ensinando ou pregando, eu iniciei com as seguintes palavras: “Na presença do Cordeiro, o qual tem os olhos como que chama de fogo, se faz presente entre os candeeiros de ouro, tem na mão direita as sete estrelas, ama a verdade, abomina a mentira e julga com justiça”, esta introdução que repeti à exaustão eu a garimpei, como diria o Mestre Othon Guanaes Dourado, ilustre professor de Homilética do Seminário Presbiteriano do Norte em Recife, no site http://www.arpav.org/, provavelmente cunhada pelo Rev. Paulo Anglada, pastor presbiteriano de larga cultura, com descrições de Jesus segundo a ótica apocalíptica do prisioneiro de Patmos. Queria deixar isto registrado de antemão, não fui criador da mesma, apenas mero repetidor.

Mas ela retrata o medo e o temor que sou tomado quando estou à frente de um púlpito para pregar, falar de verdades eternas é uma responsabilidade muito grande, não se pode falar de céu e inferno sem tremer, então tenho que lembrar para mim mesmo na presença de quem estou, dá muito medo, dá vontade de sair correndo, muitas vezes já disse em oração para Deus, que se Ele tivesse alguém para pregar no meu lugar, eu de bom grado cederia o espaço, mas quando Ele me permite falar, e por Sua infinita graça usa meus lábios para edificar as almas, não existe sentimento mais sublime, já desci do púlpito quase que sem pisar no chão, tamanha a satisfação de ser usado por Deus, algumas vezes desci com uma vergonha tão grande que se pudesse me enterrava vivo.

Mas também sou acometido muitas vezes de orgulho, porque algumas vezes fui elogiado, ou muitas vezes fui criticado e me deixei abater, os dois sentimentos são doentios, preferiria não os tê-los, mas tenho que conviver com isto, tenho que tomar cuidado com a postura no púlpito, para não ser teatral, os gestos, a voz, cuidado para não ser superficial e falso, mas tudo é tão difícil.

Um dos mais belos sentimentos é poder falar de Deus, um privilégio, um dom, é algo inigualável, mesmo sabendo que não mais serei convidado a pregar, e mesmo que seja não devo mais aceitar, ainda assim eu ando pelas ruas, nos ônibus, montando sermões e me imaginando pregando, chego a chorar, me emociono muito. Tenho tantos sermões e ilustrações na cabeça que a única forma de me satisfazer é fingir que estou pregando, faço isso sozinho, trancado no banheiro, sei que sou indigno, gostaria de não ter mais a vontade de ser pastor, de ensinar, pregar, mas isso parece minha pele, gruda. Tenho medo que tal desejo seja fruto só da vontade de aparecer, querer destaque, notoriedade, mas creio que seja fruto de um resquício de vocação perdida e talentos ainda não enferrujados.

Não sou mais pastor por escolha minha, na verdade não sou por escolhas erradas que fiz, não sou por erros meus, mas bem que eu seria mais tranqüilo se não tivesse mais nenhum dom de ministério, eu seria mais feliz com minha perda de vocação se não tivesse mais nenhum desejo de pregar, ter o desejo e não poder exercê-lo é uma forma de punição, talvez a maior que alguém que se desqualificou para o ministério possa sofrer. Por isso só peço misericórida, só peço graça, só peço que: "... na Tua ira, lembra-Te da misericórdia..."

Confissões de um ex-pastor(III)

Davi, maior rei de Israel, aquele que Deus chamou de o Homem segundo o meu Coração, ao ser confrontado por Natã, profeta de Deus, no caso do adultério com Bate-Seba deixa sua alma gemer: "Eu nasci em pecado e em pecado me concebeu minha mãe”(Salmo 51:7) ou na versão Pastoral: “... Eis que nasci na culpa, e minha mãe já me concebeu pecador... eu ”, para início de conversa também tenho que admitir que não sou uma exceção, não estou imune à queda, não fui vacinado contra a degradação humana que acometeu todos da minha raça, posso não gostar do fato, mas tenho que conviver com isto: sou um ser caído. No dizer do calvinismo mais radical: sou um ser depravado.

Desde a minha tenra infância eu percebo que a inclinação para as coisas más era uma constante, por mais que soubesse o que fazer de forma correta, era sempre a incorreta que acabava fazendo. Lembro das goiabas roubadas no roçado de Seu Otacílio (nenhuma semelhança com Santo Agostinho, roubava para comer, não para estragar) lembro das pedradas nas casas alheias, ou daquelas que atirei nos cachorros na rua, nas malvadezas com alguns pobres gatos, ou dos amigos que enganei na escola dizendo que colocar ferro em brasa no congelador o transformava em imã, brinquedo de nossa predileção. Lembro com tristeza ao ver hoje como o sinal da queda já era forte, mesmo nessa época.

Sempre gostei de livros e os lia com muita voracidade, cheguei a ler mais de 300 por ano, quando não conseguia pegar emprestado na biblioteca, os roubava dentro do caderno, só para ler mais um pouco, às vezes devolvia, às vezes jogava fora com medo de ser apanhado. O livro A menina que roubava livros não me é nenhuma novidade, roubei muito mais livros que ela.

Nesse período, noto hoje, que já era dotado de uma ira incontida, muitas vezes irracional, contra tudo e contra todos, talvez porque queria mais do que chicotadas e tapas, queria apenas ser aceito, como achava que não era, sonhava com outros horizontes, outros lugares, outras pessoas, mas quando acordava estava sempre no mesmo lugar, na mesma situação e a tristeza aumentava.

Acho incrível que com pouco mais de cinco anos, já sofria de insônia, não dormia bem, ficava horas e horas com o pensamento divagando, assustado com os terrores da noite e os gritos lancinantes. Creio que por isso não conseguia evitar molhar a cama, motivo de mais vergonha e punições.

Gostava de ler para dormir, mas minha mãe não permitia, então eu escondia os livros debaixo do lençol e quando ela dormia eu abria o livro e começava a ler à luz de uma telha de vidro no teto de meu quarto. Por isso hoje eu tenho sérios problemas de visão, gastei-a, mas gastei muito bem, não me arrependo, pois viajava, sonhava e fugia de minha realidade nas asas de bons livros, devorei coleções inteiras, ainda hoje lembro de milhares de histórias que li, devo ter mais horas de leitura que urubu senil tem de vôo.

Mas como Davi admito: sou pecador, um ser caído, imerso numa cultura de pecado, não fui nenhum pouco diferente das centenas de milhares de garotos de minha idade. Porém hoje eu sei que por trás de tudo isso, alguém me olhava, com olhos de ternura, olhos de afeto, não me olhava como eu era, mas me olhava como eu ainda serei, sempre me olhou com olhos de futuro, de como Ele fará com que eu seja. Olhos de pai, olhos de mãe, olhos que não reprovam, não incriminam, olhos que afagam, acolhem, restauram e refrigeram. Como Davi posso dizer também: "... bondade e misericórdia me seguirão...". Ou melhor bondade e misericórdia me seguiram e me seguem...

Confissões de um ex-pastor(II)

O Kyrie eleison é um dos cânticos mais belos de todos os tempos da hinódia cristã, conciso, porém de uma densidade inigualável, o nome é a pronúncia do vocábulo grego Kyriós, na forma vocativa, com sentido exclamativo e significa Senhor! Cantado como mantra por algumas tradições orientais é repetido milhares de vezes por aqueles cristãos, que buscam o êxtase de forma diferente daquela que a tradição protestante ocidental está acostumada:
Senhor, tem piedade de nós,
Cristo, tem piedade de nós,
Senhor tem piedade de nós, sim, tem piedade de nós
!

Para essas tradições a Oração do Coração, como é chamada, é o centro de sua espiritualidade, a mesma está também disseminando-se por aqui no ocidente, quem quiser saber mais leia O Peregrino Russo da Paulus. Mesmo correndo o risco de parecer arrogante e ousado, eu compus um Kyrie, customizado, personalizado, para introduzir minhas orações, queixumes, monólogos e conversas particulares com Deus:
Sou um maltrapilho Abba!
Tem misericórdia de mim pecador.

Fiz uma síntese da oração do cego à beira do caminho com o elemento central da teologia espiritual de Brennan Manning, padre romano, casado, norte-americano, verdadeiro profeta e mentor de muitos teólogos protestantes, no belíssimo livro O Evangelho Maltrapilho da Editora Textus/Mundo Cristão, talvez o melhor livro que eu li nos últimos dez anos, melhor até mesmo que Maravilhosa Graça de Philip Yancey e Despertar da Graça de Charles Swindoll.

Nessas singelas palavras, não estou sendo hipócrita ao falar assim, não estou tentando dizer para Deus quem eu sou, isso Ele já o sabe muito bem, eu estou dizendo isso para mim, quando acordo, quando deito, quando abro um livro, quando viajo ou quando divago em pensamentos, que sou um mendigo, de vestes rotas, que anseio desesperadamente pelo carinho do meu Abba, meu Paizinho, que até mesmo esse declaração é fruto da graça dEle, que não mereço, por isso mesmo esse amor é tão grande, posso até mesmo dizer que injusto, não fiz nada, não faço nada, sou tão desajustado, tão complicado, tão imerecedor, pareço mais com o filho de Jônatas: Mefibosete, que mesmo sendo aleijado, mesmo sendo desprezado, um dia o rei mandou buscar no deserto de Lo-debar, trouxe-o à sua presença e o convidou para comer à mesa todos os dias. Como ele deve ter feito tantas vezes, sento-me no canto e fico quieto, mas Ele insiste em Se levantar e vir me abraçar. Ah! como é doce o Seu abraço, como é quente o Seu beijo nas minhas faces. Minhas lágrimas rolam pela face ruborizada, eles as enxuga e me oferece uma outra taça.

Sou tão orgulhoso, tão soberbo, que preciso repetir todos os dias que saí de Lo-debar, de uma vida num deserto interior, de vergonha e medo, depressão e desespero, porque o Rei mandou me buscar, não sai por minhas próprias forças. Digam o que disserem de mim, provavelmente em tudo terão razão, mas Ele mandou me buscar, segundo as Suas próprias palavras: "... para que eu use de bondade..." Ele não morreu no meu lugar para poder me amar, Ele morreu sim, por já me amar. Um amor que não cobra, um amor que perdoa, que não estabelece condições. Sou um maltrapilho Abba!...

Confissões de um ex-pastor(I)

397 d.C. Roma, a maior metrópole do mundo civilizado de então, que não me escutem os chineses, estava em declínio, o seu zênite havia passado e o ocaso já se levantara no horizonte, os bárbaros estavam fazendo festa, pois as fronteiras do império estavam desguarnecidas, as muitas intrigas rasgaram a túnica que nunca foi inconsútil. Foi então que esse mundo em ruínas morais e sociais passou a conhecer a alma de Aurelius de Tagaste(atual Argélia), mais conhecido como Agostinho, ou Santo Agostinho, o filho de Mônica, através de sua obra Confissões, escrita enquanto o mesmo ainda era pastor(bispo) da diocese de Hipona, com frase escritas para a eternidade, tais como: “... porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso...”. (Estou usando a versão da Martin Claret, 2002, São Paulo, uma péssima tradução, não aconselho a ninguém comprar nenhum livro desta editora, a tradução parece que foi feita por um programa de computador, em uma palavra: medíocre).

2006 d.C. O mundo pseudo-civilizado de então: os EUA estão em fase de declínio, o que normalmente acontece com todos os impérios, tudo o que sobe, desce. Craig Groeschel, pastor de uma igreja norte-americana em evidência, escreveu Confissões de um pastor(publicado no Brasil pela Editora Mundo Cristão, 2007), claro que sem os arroubos da genialidade literária e da profundidade filosófica e retórica de Agostinho, exigir isso seria demais também, não é mesmo? O título criou uma expectativa muito grande em mim, que não foi correspondida, bastante irreal, pude perceber ao término da leitura, senti-me frustrado, pois esperava muito mais, fechei o livro com um pouco de sabor de cabo de guarda-chuva na boca, não que uma curiosidade mórbida me motivasse a saber os pecados de alguém, mas sim por desejar ouvir dificuldades iguais às minhas nas palavras de outra pessoa para descobrir que não sou o único que sofre tais defeitos de fábrica. O título soou um pouco marketeiro por isso, não correspondendo com a proposta do autor, não deixa de ser um bom livro, mas não para mim, queria mais, muito mais.

Resolvi então escrever esta série de artigos, que provavelmente só eu lerei afinal de contas eu escrevi para mim, seria mais ou menos como uma dissertação de confessionário, muito embora minha tradição eclesiástica não contemple esse tipo de ritual. Não tenho a pretensão de seguidores e nem de leitores, escrevê-lo por si só já é um feito, mais que isso seria arrogância.

Não pretendo nessas confissões seguir uma linha de raciocínio, mas apenas colocar pensamentos dispersos, qual colcha de retalhos, seria o que os iluminados chamam de brainstorm. Caso pareça que não tem começo nem fim, você estará coberto de razão e não peço desculpas por isso.
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