Contos IV - A fuga II

A tarde já estava terminando, não se lembrava de nenhum crepúsculo como aquele, sem estar em casa, de banho tomado à espera do jantar e acompanhado de alguém, essas coisas no momento estavam muito longe de se tornarem reais para ele, pois estava só, faminto e muito cansado, o calor no ônibus era sufocante, não conseguiu manter-se alerta, pegou no sono, dormiu boa parte do trajeto, trajeto esse que ele não sabia qual era. Foi acordado pela trocadora que lhe indagou para onde ele ia, como não soube inventar uma mentira convincente, levantou suspeita, falou que tinha batido a cabeça no ferro do ônibus e que estava confuso, isso preocupou mais ainda os passageiros e o motorista que decidiu levá-lo para uma delegacia, não tinha jeito de menino de rua, além de fardado levava livros.

A idéia de ter que tratar com policiais numa delegacia o deixou nervoso, mas era muito tarde para recuar ou mesmo para continuar fugindo. Rendeu-se. Quando chegaram à delegacia, foi entregue pelo motorista aos policiais com a informação que ele estava perdido, não sabia onde morava e nem, obviamente, sabia voltar para casa. Anotou isto na memória, ele não era um garoto em fuga, era um garoto que saiu da escola para ir ao trabalho do pai e se perdeu, isso faria toda a diferença no futuro.

Era a primeira vez que entrava num distrito policial, só tinha visto um por dentro nos filmes e em alguns programas da televisão. Sabia que a partir daquele momento levava vantagem sobre seus irmãos e alguns colegas, pois estava passando por experiência que eles nunca passaram e talvez nunca passassem, logo ele teria muitas histórias para contar e eles se roeriam de inveja de suas aventuras.

Os policiais foram educados, reza uma lenda que naqueles tempos eles eram humanos, perguntaram onde estudava, quem era seu pai e onde trabalhava, onde ele morava, nome da mãe, etc. enfim queriam encontrar qualquer informação que pudesse ajudá-los a encontrar seus pais. A única coisa que não lhe perguntaram foi se ele queria ser encontrado. Ele sabia que se admitisse que não sabia onde seu pai trabalhava e onde morava seria considerado pelos homens como um menino bobo, mas o medo da surra fez com que ele escolhesse parecer tolo, negou qualquer informação que pudesse ajudá-los, propositadamente.

Achou até engraçado que os policiais não conseguissem localizar a escola que ele estudava pelo emblema que trazia no bolso da camisa, afinal de contas era uma escola pública. Ele sabia o nome e o bairro, mas não disse, os policiais eram adultos e eles se quisessem que descobrissem, afinal de contas eram investigadores, porém se deu conta que eles não se pareciam em nada com Baretta ou mesmo Kojak, e a diferença maior não era apenas a aparência exótica e sim a sagacidade, ou melhor, a falta dela.

Como não havia conselho tutelar e nem abrigo, foi conduzido pelo responsável pelo plantão para sua própria casa, para ele era o delegado, lá conheceu a mulher do policial, seus filhos e filhas. Foi muito bem tratado, tomou banho, deram-lhe uma roupa limpa, colocaram comida para ele. Depois ainda teve tempo de assistir a programas de televisão junto com os filhos da casa.

Depois de algum tempo a mulher conduziu todos para o quarto, deram-lhe uma cama e cobertor. Quando deitou ficou imaginando que talvez ficasse morando ali mesmo, com aqueles meninos e meninas como seus irmãos, não sabia dizer se gostaria disso, ainda não tivera tempo de pensar sobre o assunto. Pegou no sono, suas preocupações não o impediram de dormir, estava muito cansado e o dia tinha sido muito longo, o mais longo que já tivera até então.

Foi acordado pela dona da casa por volta da madrugada, ouviu vozes na porta da casa, eram algumas pessoas que queriam vê-lo, eram parentes de uma criança desaparecida e talvez essa criança fosse ele. Ao chegar à porta deu de cara com seu pai, que em lágrimas gritou de alegria ao vê-lo bem e sem nenhum machucado. Abraçaram-se durante muito tempo enquanto seu pai, que tinha pouco mais de 37 anos, chorava como criança.

Após o reconhecimento o colocaram no carro de um vizinho e ele foi espremido no banco de trás entre seu pai ainda em prantos e alguns parentes e amigos dele. Contou a mesma mentira que contara na delegacia, tinha saído de casa com a intenção de fazer uma surpresa ao seu pai indo para o trabalho dele, o alívio de tê-lo encontrado foi tão grande que ninguém lhe perguntou como esperava fazer surpresa ao pai se este estava dormindo em casa quando ele saiu da escola.

Quando o veículo começou a subir a ladeira que conduzia ao seu bairro, os homens que estavam levando-o colocaram revólveres para fora e começaram a atirar, disparavam para o alto, acordando aqueles que porventura tivessem adormecido e gritavam a plenos pulmões: - Nós achamos o menino, nós achamos o menino!

Quando o veículo parou na porta de sua casa sua mãe, irmãos e outros parentes correram para abraçá-lo, ele nunca tinha visto tanta gente reunida por sua casa. Contaram-lhe depois que no bairro ninguém dormiu naquela noite, alguns homens junto com seu pai tinham montado equipes de buscas e tinham descido as encostas da montanha armados e com lanternas em busca de alguma pista que pudesse levá-los a ele, as mulheres e as crianças sentavam ou deitavam nas calçadas com cobertores e tomando café, não queriam dormir, não enquanto ele não fosse achado. Foram às rádios, às estações de televisão e às delegacias, numa delas por influência do filho do patrão de seu pai souberam que numa delegacia no município vizinho tinha um garoto que correspondia à descrição dada. Não demoraram então a encontrá-lo, ele passou desaparecido por cerca de 12 horas, 12 angustiantes horas para seus pais.

Com esta aventura recebeu a alcunha dos vizinhos de “Perdido no espaço”, em referência a um programa de televisão exibido à época. Detestava o apelido, talvez o maior castigo pela aventura tão funesta.

O que mais chamou à atenção de seus irmãos foi que na manhã seguinte, ainda com o efeito da aventura vivida e do fato de ter se tornado celebridade da noite para o dia ainda teve tempo de perguntar-lhes: - Vocês viram àquele programa de humor ontem? Consideraram uma piada de mau gosto.

Ao final todos se salvaram, inclusive a surra prometida, motivo da fuga, nunca foi dada. A sua empreitada planejada, executada e abortada por força maior alcançou o objetivo inicial: não levar uma surra.

Ilusão

Um dia qualquer eu andava à esmo pelo centro da cidade quando de repente vi Rubem Fonseca (pelo menos eu até hoje acho que era ele) atrás de uma vidraça folheando um livro que eu podia jurar que era de Susan Sontag, mas bem podia ser de Philip Roth, como sou avesso à tietagem fiquei meio ressabiado em abordá-lo, mas acabei entrando só para vê-lo de perto, sem querer incomodá-lo, na verdade eu queria ver o que ele estava lendo. Para minha surpresa à porta junto ao Paulo Coelho estava José Saramago, não sei se os dois estavam se entendendo, pois apesar de falarem a mesma língua, habitam universos paradoxais. Pasmei! Encontrar um autor já era demais, encontrar três só poderia ser sonho. Eu sabia que não estava sonhando. Procurei o Rubem Fonseca, mas já não conseguia mais vê-lo, havia muita gente e muitos cercavam Coelho e Saramago e eu nem sequer ousei abordá-los, o primeiro por não gostar de seus livros e o segundo por conta de algumas questões sobre Deus que eu acho que levaria horas ou dias discutindo com ele, não para tentar convencê-lo, esse não é um papel para mim, mas para poder entendê-lo, talvez assim eu entendesse a mim mesmo. Tentei afastar-me, tentei, por que esbarrei em Orhan Pamuk e fiquei estático. Não era para menos ele estava ao lado do caçador de pipas Khaled Hosseini e de William “Mackenzie” Young, o que diziam mexeu profundamente com minha alma, cheguei às lágrimas.

Para disfarçar fui para os fundos do salão e me dei conta que só poderia estar ficando doido, já que eu tinha certeza de que não estava sonhando, pois vi dois barbudos, com paletós antigos, aparência austera, conversando numa língua estranha, eram Tolstoi e Dostoiévski, e ainda tinha o Amós Oz escrevendo uma carta, logo ele que tem essa mania, mas faz isso de forma admirável. Pensei em fugir, mas o careca do Stephen Covey e o enorme G.K. Chesterton estavam barrando literalmente meu caminho, o segundo procurava convencer o primeiro dos efeitos positivos do café, parei para observar as suas obras e teria me demorado dias por ali se não tivesse ouvido André Rieu executando prodigiosamente Amazing Grace. Ia me desesperar quando vi a angelical Flannery O´Connor, que me trouxe lucidez, aí quando o maltrapilho de Abba Brennan Manning me envolveu com suas palavras eu me senti em casa. Dei-me conta então que estava numa livraria e vi que não estava doido, nunca estivera tão lúcido em toda minha vida. Vi ainda C.S. Lewis e Tolkien conversando no Café, cada um apontava as falhas na adaptação de suas obras para o cinema, Enya e Nana Mouskouri conversando com um sujeito com roupas estranhas e uma peruca bizarra, eu acho que era Bach, na área de CD´s e Rubem Alves aprontando com Ian McEwan na área infantil, ele já havia aprontado umas boas com João Calvino na área técnica, dei muitas risadas.

Sempre que quero boas companhias vou lá, me sento e me delicio com essas adoráveis figuras. Se é verdade que o céu é reflexo de nossas maiores aspirações, espero que o meu seja igual a uma livraria, ciumento e egoísta por livros do jeito que sou, é capaz de eu não deixar ninguém entrar nele, nem São Pedro.

Contos III - A fuga I

Abriu a porta, desceu os 16 degraus da escada, ele era capaz de fazer isso de olhos fechados, uma vez tentou subir, mas não deu muito certo, tomou um tombo que lhe trouxe péssimas recordações por muito tempo, cruzou o portão de madeira e o fechou atrás de si, dessa forma saiu de casa, não sentia saudades antecipadas e achava que não sentiria nunca, não tinha naquela época nenhum cão de estimação, por isso que não teve que despedir-se de ninguém, nem de algo. Só estavam em casa os seus irmãos e seu pai dormindo, mas a estes ele não contaria de jeito nenhum o que iria fazer. Além da farda da escola, só levava a mochila nas costas com os livros e os cadernos, nada mais.

Estava indo para a escola, mas não estava indo apenas para escola, aquele dia seria marcado como o dia em que viveria a maior aventura de sua vida, até então. Naquele final de manhã já tinha tudo programado: quando as aulas terminassem por volta das 03 horas da tarde, não voltaria para casa, não voltaria nunca mais, tal decisão era algo pensado, já havia arquitetado isso semanas atrás. A gota d’água para tão drástica decisão é que ele corria o risco de levar naquele mesmo dia uma sova da mãe por conta de algumas atitudes que andava tomando na escola, e olha que quando a mãe prometia uma sova ela não esquecia e ainda aplicava a mesma com uma qualidade que faria Torquemada se roer de inveja. As tais atitudes, motivo da prometida sova, eram coisas como: conversar muito em sala de aula e discutir com alguns colegas por conta de suas idéias sonhadoras e talvez precoces, depois de alguns anos foi detectado que o mesmo tinha hiperatividade, mas naquele tempo isso era considerado “impulsividade” e a pecha que a família lhe colocou: “impulsivo”, era sinônimo de traquinas e treloso.

A escola era uma obrigação, não porque não gostasse de estudar, mas porque não mexia com a sua mente que era inquieta e abastecida com sonhos e projetos que ele tirava dos livros que devorava desde o primeiro dia em que começou a ler, gostava de aprender, mas o método que impunham não lhe atraía, ficava alheio e distraído. O assunto chato e a forma modorrenta da professora ensinar fritavam seus nervos. Ela competia com os contos de fadas e as centenas de aventuras que ele vivenciava todos os dias, e estes sempre levavam a melhor. Não tirava notas altas e isso preocupava a sua mãe, um dia, no futuro, detectaram que a sua capacidade de raciocínio era muito acima da média, mas nem por isso deixou de ser considerado, neste tempo, um aluno problema.

Ao toque da campainha, qual general que se dirige à frente do seu exército para ser o primeiro a combater o inimigo ou qual condenado que caminha inexoravelmente ao cadafalso, dirigiu-se à saída, com a certeza que nunca mais voltaria àquela escola. Só dariam por sua falta lá pelas quatro horas da tarde, hora em que a mãe voltaria do médico, o pai estaria dormindo ainda, pois tinha que trabalhar no turno da noite e só acordaria por volta das cinco horas.

Caminhando o mais rápido possível, para que não fosse visto por conhecidos ou parentes se dirigindo por caminhos que não levavam a sua casa, o mais rápido que as pernas de um menino de sete anos podem andar.

Desceu a enorme ladeira que conduzia ao bairro em que morava, este ficava no alto de uma montanha, as encostas eram cobertas por espessa vegetação, em algumas partes existia uma verdadeira floresta. Ao chegar à estrada de via expressa, tomou o primeiro caminho, sem um plano, sem um rumo. Os carros passavam velozes assustando-o, além da vegetação espessa ao lado da rodovia, não via viva’lma. Sentiu-se só e com medo, mas a sua determinação não o faria voltar atrás.

Um menino loiro, de 07 anos de idade, com uma farda escolar na década de 70, numa estrada de via expressa, é óbvio que chamaria à atenção. Passava um casal e uma senhora de idade de carro que lhe perguntaram para onde se dirigia. Teve a oportunidade de contar a primeira mentira naquele dia, a primeira de muitas que teria que contar durante aquela aventura. Disse que tinha que ir ao trabalho do pai e que este estava esperando por ele, perguntaram se queria carona, ele aceitou, primeiro porque sairia mais rápido daquele lugar, segundo porque não precisaria andar tanto. Lá foi ele naquele Fusca conversando distraidamente, tentando não parecer nervoso e aumentando o cabedal de mentiras para manter a primeira mentira.

Desceu quando a rodovia cruzava uma área urbana, onde passava um ônibus para o bairro em que seu pai trabalhava, o nome era muito sugestivo: Afogados, o mesmo bairro em que morara quando a família chegou do interior fugindo da seca, depois tiveram que fugir para a casa da planície por conta de enchentes, e agora estava ele em mais um êxodo, seria sempre assim? Sua intenção não era ir para o trabalho do seu pai.

Pegou qualquer ônibus, nem olhou o destino, mesmo que olhasse não adiantaria nada mesmo, pois não conhecia nenhuma rota de viagem. Sempre sentia enjôos nos ônibus, chegara várias vezes a vomitar. Torceu para que isso não acontecesse desta vez, pois estava por conta própria, não podia mostrar-se frágil e nem vulnerável. Estava tão nervoso que nem sequer sentiu vertigens, tanto melhor. O ônibus passou bem perto do local onde o seu pai trabalhava, por certo que ele ainda não estava lá, era muito cedo, deveria estar em casa, será que já acordara? Será que sua mãe já chegou? Será que já deram por sua falta? Não parou para pensar nas respostas e nos desdobramentos que elas trariam, concentrou-se em seu plano.

Ao chegar ao terminal no centro da cidade desceu e pegou o primeiro ônibus que estava parado, nem sabia para onde ia e nem queria saber, a sua idade lhe dava gratuidade em todos os ônibus, caso tivesse que pagar a passagem esta aventura teria outro final, bem mais abrupto. O único plano que tinha em sua mente era morar na beira da praia, local que lhe fascinava e para o qual tinha ido tão poucas vezes, não nos casarões e apartamentos, mas na areia mesmo, vivendo daquilo que as pessoas lhe dessem. Parece pueril, mas é pueril mesmo, ele só tinha 07 anos.

A praia lhe atraía e repelia com o mesmo fascínio, pois uma vez foi lançado pelas ondas na areia, o que lhe causou vergonha e alguns arranhões que doeram menos que o fato de parecer não se adequar. Lembrava que quando o pai prometia levá-los à praia, a avó materna sempre se intrometia e acabava convencendo-o a não sair de casa. Uma vez a desculpa que deram é que era feriado, logo a praia estaria fechada, acreditou, como sempre fazem as crianças, mas odiou a mentira quando descobriu a verdade, e isso lhe tirou um pouco da confiança nos adultos, até o dia em que lhe tiraram toda.

Contos II - Ler

Ele pegou um livro na cadeira que lhe servia de criado mudo, tinham mais de 20 em cima dela, todos ordenados de forma perfeccionista, alguns eram técnicos, outros eram de espiritualidade e outros ainda de liderança, cada um com um marcador, alguns com plástico envolvendo a capa, são os mais caros e aqueles que ele manuseia mais. Estava lendo todos de uma só vez, quando cansava de um, passava para outro, conseguia dessa forma ler mais de 10 livros por mês, às vezes lia mais de 120 livros por ano, ainda lembrava-se de uma época que ficou doente de bronquite e conseguiu ler mais de 300 livros em seis meses. Procurou os óculos de grossas lentes, sinal de astigmatismo avançado e miopia inclemente, colocou-os, olhou para o título do livro para certificar-se que estava pegando o livro certo e foi para o banheiro, passaria a próxima meia hora sentado, lendo, como fazia todos os dias. Leria pelo menos por uma hora antes de sair para o trabalho. Como morava razoavelmente perto, vinte minutos andando, levava sempre dois ou três livros, um deles seria lido durante a caminhada, conhecia de cor o caminho, não tinha medo de tropeçar e nem vergonha que o considerassem louco. No intervalo do almoço leria mais uma hora, não era bem compreendido pelos colegas de trabalho por isso, alguns costumavam distraí-lo na hora em que estava lendo, quando perguntou por que faziam isso, recebeu como resposta: - Não gosto de te ver estudando, me sinto ignorante. Ao que perguntou então: - Por que então não faz o mesmo? A resposta é sempre a mesma: - Porque tenho preguiça. Isso fez com que procurasse uma sala diminuta, onde a partir daquela data se trancaria lá dentro para ler até o término do intervalo. À noite após o jantar leria duas ou três horas, era assim que fazia desde que se lembrava, não sabia fazer diferente, tinha necessidade disso, tinha esse vício e não fazia nada para curá-lo. Mas nem sempre foi assim, ainda se lembrava como tudo começou cerca de 35 anos antes.

Foi como um cego ao ver a luz pela primeira vez após uma cirurgia de transplante de córnea, ou como um surdo ao ouvir o som de um pássaro apenas aos 10 anos de idade graças a um aparelho. O universo tomou outra cor quando descobriu que sabia ler, aconteceu assim mesmo, acordou um belo dia, escovou os dentes, tomou o seu cotidiano café com pão e procurou um local para ficar invisível, como também era de seu costume, deitou-se no chão de barriga para baixo, pegou o primeiro gibi de histórias em quadrinhos que veio à mão e sentiu-se o próprio Champollion, muito embora no momento nem idéia tivesse quem era esse sujeito, decifrando hieróglifos em manuscritos milenares, ainda que fossem apenas as patusqueladas de Donald e Tio Patinhas. Olhando assim parece que foi simples.

Foi só o começo, depois vieram os livros infantis, a Bíblia (três vezes a leu antes de completar 10 anos), os contos de bang-bang e os livros policiais que emprestava do marido da tia. Surgiu então o hábito, por necessidade pois não tinha dinheiro para comprar os que queria, de pedir livros e gibis emprestados, lia tanto, que mesmo na segunda ou terceira série, lia os livros dos irmãos que estavam quatro ou cinco anos mais adiantados que ele. Numas férias leu um livro escolar do irmão que continha mais de 200 resumos de livros de literatura brasileira, começou então um longo namoro com este tipo de livros, até encontrar numa biblioteca escolar literatura européia e americana, então conheceu A Ilha do Tesouro, Robinson Crusoé, O Médico e o Monstro, As Aventuras do Príncipe Eric, Os Três Mosqueteiros, A Cabana do Pai Tomás, Tarzan, etc. Tinha o hábito de pegar sempre um livro emprestado na biblioteca. No intervalo das aulas, antes mesmo de largar e depois que largava lia outro livro. Quando aparecia algum livro que chamava à atenção, às vezes roubava para poder ler em casa, sempre procurando devolver assim que terminasse de ler. Um dia chegou em casa mais tarde que de costume, pois a leitura o tinha feito viajar e não ter se dado conta da hora, quando disse à mãe que estava na escola lendo, ela não acreditou, tomou uma surra e ficou de castigo, mas não lamentou, a lembrança do que tinha lido enxugou suas lágrimas.

Porém além de não possuir livros, nunca ganhou nenhum livro do pai ou da mãe, talvez por isso quando adulto deixava de comprar roupas e até mesmo comida para poder adquirir livros, havia outro empecilho às leituras: sua mãe. Ela não gostava da sofreguidão e do ímpeto de náufrago socorrido que ele tinha, achava um exagero que ele ficasse lendo até tarde da noite, por isso proibiu sumariamente aquelas aventuras noturnas. Televisão, novela podia, ler demais não.

O teto da casa que morava era de telhas de barro, não era moda as casas terem o teto lajeado ainda, por isso o pai havia colocado telhas de vidro em lugares estratégicos da casa para que as luzes não precisassem ser acesas durante o dia, era uma forma de economizar energia, numa casa com 04 adolescentes isso era vital. Ele aproveitava então o reflexo que a lua incidia sobre a cama para poder ler, colocava um livro debaixo do travesseiro e na hora em que ia dormir, tão logo a mãe apagasse a luz da sala ou do quarto dela, ele tirava o livro e navegava num mar de emoções e aventuras até que uma nuvem encobrisse ou a réstia se alonjasse demais da cama. A escuridão nunca foi desculpa para que não lesse, metáfora para a vida toda, nada o faria dali em diante não ter um livro à mão. Mesmo que não tenha condições de ler, anda sempre com um livro.

Uma tarde deslocava-se com algumas pessoas para efetuar visitas a enfermos e outros desesperançados, levava à mão uma Bíblia, livro pelo qual tinha afeição especial, já era hábito ler andando, talvez pela leitura empolgante ou pelo caminho que não era de todo conhecido, ao descer uma ladeira não tão íngreme tropeçou nos próprios pés ou em alguma coisa e deu de cara com o chão, de cara só não, de pernas, de joelhos, de cotovelos e outras partes do corpo, foi um verdadeiro açougue, foi levantado todo arranhado, e a única coisa que o fazia lamentar-se foi que a sua amada Bíblia tinha se rasgado e perdido a capa, nem a vergonha o deixou triste. Uma metáfora que levou para o resto da vida: É preciso ler e olhar em volta, caso contrário a leitura pode ser um perigo.

Logo estaria usando grossas lentes, sinal de uma miopia crescente, mas com um misto de satisfação de saber que faria tudo outra vez, a sua infância não teve vídeos-game, nem brinquedos sofisticados, mas teve a companhias de reis, rainhas, magos, bruxos, feiticeiras, monstros, animais de todos os tipos, mocinhos, bandidos, escoteiros, marinheiros, etc. toda uma gama de seres que ainda se alojam em sua mente, levando-o a desejar ser apenas o sonhador que foi na infância que nem sempre sabia onde terminava a ficção e começava a vida real.

Mensagem para você, meu filho!

Não acho que esta música seja de teu gosto, um adolescente de 16 anos não deve gostar de músicas melancólicas, a não ser os “emos” e pelo que me consta você não é emo, mas mesmo estes não devem gostar dela, talvez a achem “brega”. Por isso peço licença para começar esta carta reproduzindo um verso composto por um grande cantor: Antônio Marcos, que era um gênio, mas também era um desajustado, um inconformado, provavelmente morreu infeliz e incompreendido:

"... Como vai você, eu queria saber da sua vida,
peço alguém pra me contar sobre os seus dias,
anoiteceu e eu preciso só saber..."

Essa música ele cantava com a alma, muito melhor que o insosso Roberto Carlos. Pena que você nunca o viu cantar, pena mesmo! Utilizo-me desta parte da música como uma forma de expressar o quanto eu sinto saudades de você. Há 16 anos ela tem sido o “hino” que eu canto em cada aniversário teu, o clamor de minha garganta em cada dia dos pais em que a tua ausência é tão presente e o grito inaudível de meu peito em cada dia das crianças. Sei que você nem se considera mais sequer adolescente e deve ser como todos os demais garotos de tua idade, como eu mesmo fui um dia, livre e independente, certamente que não desejaria presentes e nem aceitaria recebê-los hoje, afinal de contas hoje é apenas “Dia das Crianças”, por isso que para marcar esta data eu te escrevo esta mensagem, que há 200 anos estaria numa garrafa lançada ao mar, há 100 anos seria uma missiva entregue pelo carteiro à cavalo, há 10 anos seria um telegrama e hoje é “postada” num blog, mas todas expressariam, como esta, o amor incondicional de um pai que tem por sobrenome saudade. Há muito tempo que não paramos para conversar, já se passaram tantos anos desde a última vez.

A vida tem sido tão difícil, marcada por sonhos irrealizados e que nunca se realizarão e planos que foram lançados no mar do esquecimento para não lancetarem tanto, ela é tão corrida, ela passa tão rápido, ou deixamos que ela passe tão rápido, que eu chego a me perguntar se vale a pena viver oitenta anos em vinte.

Nem parece que sou pai de um adolescente com essa idade, ainda não me acostumei com a idéia. Tenho apenas a certeza do que é difícil educar filhos desta faixa etária hoje em dia, são tantos desafios, tantas dificuldades, que às vezes bate um desespero, tenho lido muito sobre o assunto, procuro me informar para poder enfrentar bem as situações que podem me sobrevir, além de você ainda tenho a Mysha (caso não saibas, Mysha é o epíteto de Jessicah Rhebeccah, tua irmã) com 14 anos, uma linda garota, no mais amplo sentido da palavra, tanto interiormente, quanto exteriormente. Inteligente, culta, sensível, escreve bem demais, tem centenas de contos que eu vivo pedindo que ela publique, mas ela sempre procrastina, digo, protela, prorroga, vocês dois são dois universos diferentes, cada um com seu mundo, cada um com suas “certezas”. Você precisa ver o que ela fala de si mesma, as lutas que tem e, olha que dá vontade de rir, as paranóias de que é feia, uma verdadeira Cinderela que se acha Gata Borralheira! Dá uma olhada de leve no blog que ela mantém e depois ver as fotos no perfil dela no Orkut. Vá entender as mulheres! Conselho de pai, não tente, é uma roubada, para cada coisa que elas disserem, diga apenas hum, hum! E balance a cabeça afirmativamente, isso vai fazer com que te considerem atencioso e você não se meterá em problemas.

Só agora que já tens capacidade de me entender e compreender de fato é que te escrevo esta, e um dos motivos é para dizer o quanto lamento não ter visto você dar os primeiros passos, eu não estava à tua frente com os braços abertos te dando a confiança que precisavas nesta fase tão importante de tua vida, eu também não limpei as feridas, que as muitas quedas e os muitos tombos te causaram. Não pude também te ensinar as primeiras palavras, como também não ouvi sequer quais foram as que você primeiro pronunciou. Nunca troquei uma fralda sequer tua, nunca me levantei à noite para te colocar no braço até que a dor ou o desconforto te deixasse dormir. Nunca arranquei nenhum dente teu e nunca te coloquei para dormir ninando-te me meus braços.

Lamento profundamente o fato de não ter te ensinado a andar de bicicleta, nem sei se sabes, se aprendeste de alguma forma, também não te ensinei a jogar bola, muito embora eu nem saiba muito, sempre fui meio desajeitado, parece que nem tenho coordenação motora, nem sei se seria capaz de fazer isso, mas com certeza correr contigo atrás de uma bola teria sido um prazer imenso para mim..

Não te ensinei a jogar pião, bola de gude e construir e empinar pipas, coisas que eu sei que os meninos de hoje nem sabem que um dia existiram, pensam que são peças de museu, mas também poderia jogar contigo no computador ou em qualquer videogame irado desses modernos.

Não pude te levar à escola, nem no primeiro dia e nem outro dia qualquer depois, não pude ver teus jogos, tuas competições esportivas, nunca pude ir à escola para comemorar o Dia dos Pais ao teu lado.

Nunca te levei ao Santuário Maior dos Rubro-negros de Recife, a majestosa Ilha do Retiro, covil do Leão do Norte, se bem que neste momento as coisas não andam muito boas por aquelas bandas não. Nunca assistimos a jogos do Sport e nem tomamos sorvetes juntos.

Nunca te levei à igreja, você nunca me viu pregando ou ensinando e nunca pudemos falar de Deus e de Jesus. Nunca pude ler histórias (e estórias também) para você, como fazia para a tua irmã quando ela era menor. Nunca pude te contar minhas aventuras, como o dia em fugi de casa ou o dia em que toquei fogo numa plantação, mas isso fica para outro dia, eu já estou correndo o risco de entrar numa digressão, e em outro lugar eu já escrevi sobre isso.

Não fiz nada disso não foi por estar ocupado, talvez se esse fosse o motivo eu estaria agora feliz, pelo menos poderia recuperar o tempo perdido, mas não fiz nada disso porque você foi embora muito antes que eu pudesse fazer algo, foi embora sem um sorriso, sem uma lágrima, sem um choro e até mesmo sem um adeus.

O dia 31 de agosto de 1993 ainda está marcado à ferro e fogo em minha alma, deixou marcas indeléveis, que, acredito eu, são eternas. Neste dia, ainda que eu tivesse 25 anos, para mim foi o dia em que perdi a noção do “mundo maravilhoso de Alice”. Onde tive que enfrentar todos os meus medos, todos de uma só vez, onde a sombra começou a pairar sobre minha vida e a “noite escura” da alma chegou de vez.

Neste dia você nasceu e floresceu, neste dia você definhou e morreu.

Você foi como um presente de Deus, chegou quando disseram que era impossível que você viesse, e foi embora quando eu achava impossível que fosse verdade. 16 longos anos imaginando como seria toda uma vida, como seria ter você e Mysha, juntos, curtindo a infância de cada um e vivenciado cada momento e cada vitória, e dividindo o peso de cada derrota que por acaso sobreviesse.

Senti-me só no dia em sepultei você, perdido, ainda que muita gente estivesse ao meu lado, uma dor profunda como eu nunca havia sentido, como nunca senti depois, porém a dor nunca mais foi embora, resisti por muito tempo, depois me acostumei, caso ela vá embora eu creio que sentirei muita falta. Não é que ela virou amiga, apenas não sei como é existir sem ela.

Alguns anos depois senti a mesma solidão, o mesmo sentimento de desamparo e abandono à beira da sepultura do meu pai, você já o deve ter conhecido, é claro! Não sabes o quanto eu sonhei com vocês dois juntos, tenho certeza que ele te colocaria nas costas e te deixaria fazer cavalinho nele, seria um problema para mim, pois ele como um bom avô iria te colocar no mau caminho, como o pai de minha mãe me colocou. A dor que eu senti foi diferente, a dor que senti quando me despedi de você foi uma dor não natural, nenhum pai deveria enterrar um filho, nenhum pai!

A saudade dói, mas a saudade que sinto pode ser, parafraseando um escritor americano, um “rumor da outra vida” que um dia teremos juntos, quando nos reencontrarmos, então a tua presença e a presença eterna da Luz Divina preencherão todos os vazios que porventura ainda existam. Sobre os vazios que só Abba pode preencher, um santo do passado um dia disse: "Fizeste-nos para Ti, e inquieto estará o nosso coração enquanto não encontrar em Ti descanso". Você já deve tê-lo conhecido, é um cara esquisito que gostava de roubar pêras, por nome Santo Agostinho. Sei que já experimentas essa plenitude, sabes bem do que estou falando, muito melhor do que eu.

E então sentaremos na beira de um rio, pescaremos, andaremos e conversaremos, colocaremos os assuntos em dia. Mas neste dia, já não terei mais lágrimas para derramar, pois elas serão enxugadas por Abba, a saudade vai desaparecer e só alegria do reencontro dominará nossos corações. E aí esperaremos aqueles que virão depois de nós e então “estaremos juntos para sempre com o Senhor”.

Até breve Ulrich, até breve garoto, dê lembranças ao teu avô, diga-lhe que sinto muito a sua falta, até breve meu filho.

Contos I - Desfile

Numa manhã de inverno ele ficou radiante quando a professora colocou o seu nome na lista dos que iriam desfilar, bem verdade que ela perguntou quem queria, mas como gostava muito dele não titubeou ao listar seu nome. A escola se preparava para o desfile cívico de 07 de Setembro, data esta muito valorizada pelo governo militar na década de 70. Era época de cantar “Este é um país que vai pra frente...”. Ninguém queria ficar de fora, muito menos um garoto de 07 anos, que ainda lembrava-se do primeiro desfile que assistiu quando morava numa cidade do interior e que, talvez por conta do calor, acabou passando mal e indo para casa mais cedo sem ter visto o desfile todo.

Ainda desfilou nas ruas do bairro durante um ensaio, a emoção de marchar sob a cadência da banda marcial da escola, o orgulho de ser visto pelos amigos e vizinhos no meio daquele pelotão era indescritível, era como se todo o mundo tivesse parado apenas para vê-lo, não seria destaque e nem guia de pelotão, mas estaria ali, num meio de um pelotão e com uma farda universal que o tornaria invisível, mas estaria ali.

Quando chegou em casa foi categórico: - Vou desfilar no dia 07, a professora disse que tem que ter a camisa da farda e a calça azul, a camisa eu já tenho, só falta a calça. Ele não contava com a resposta da mãe, dita de forma inexorável e letárgica: - Eu não tenho como comprar a calça, você não pode desfilar! Ela não entendia o que aquele desfile significava para ele. Foi ponto final, não houve choros e nem lamentos, isso não era permitido. Nem sequer o doce engano de sonhar com os olhos abertos ele teve, sabia que a mãe não voltaria atrás, sabia que ela não se preocuparia com isso, não era dada a arrependimentos. Por incrível que possa parecer seis meses depois ele fugiu de casa, foi encontrado, mas fugiu.

Numa tarde perdida, dez anos depois, tinha colocado o uniforme de educação física, pois haveria treino de judô na academia da escola naquela tarde. Era sufocante estudar numa escola de carreira militar: estudo pela manhã, atividades físicas à tarde, regime de internato, farda, desfile, bandeiras... etc. Quando se dirigia à academia disseram-lhe que haveria formatura no campo de futebol, todos, absolutamente todos deveriam ir para lá, foi meio desconfiado, pois o traje que estava destoava do restante dos 98% dos alunos. Formar no pelotão de tênis, enquanto os demais estavam de borzeguim era se expor demais e num quartel isso era perigoso.

Quando o oficial comandante do quadro de alunos deu voz de comando de “- Fora de forma, marche!”, ele esperou o pior, achou que seria punido por estar sem uniforme. - No mínimo vou pegar um fim de semana sem sair do quartel. Era o mais lógico pensamento que poderia ter, mas o que o esperava, ele não podia prever. Saiu em disparada para apresentar-se ao Tenente, enquanto corria no meio daquela fileira interminável de alunos ficava imaginando o que aconteceria se alguém estendesse a perna, por certo que o tombo seria memorável, não teve medo que algum engraçadinho fizesse isso, mais pela presença dos oficiais que por confiança nos colegas, ao chegar na frente recebeu ordem de permanecer ali ao lado de outros colegas, até que lhe disseram que ele havia sido escolhido para ser guia de pelotão, só depois ele soube que não era só guia do pelotão, mas o guia do primeiro pelotão, na absoluta vanguarda da tropa escolar.

07 de Setembro, centro da cidade, principal avenida, com milhares de pessoas observando ele desfilou com uniforme de gala, branco impecável de doer na vista, fuzil na mão esquerda e diante do pelotão de alunos, desta vez ele não estava invisível, todos os olhos o viram, mas parece que toda aquela multidão não estava ali, ele nem notava, pois tinha que desempenhar bem o seu papel e isso pedia concentração máxima, olhar em frente e puxar o desfile. As câmeras de TV o filmaram e ele foi visto nos principais telejornais naquela noite, além de saber que uma Rede de TV estava transmitindo o desfile ao vivo, no outro dia suas fotos saíram nos jornais. Era o mesmo menino de 07 anos que não conseguiu desfilar quando quis e desta vez ele era o guia e nem sequer havia pedido.

Seis meses depois ele pediu baixa, achava que a carreira militar não era para ele.

Metade


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também

Composição: Oswaldo Montenegro

[Tributo à Mysha, filha, amiga e modelo de ser humano. "Luz de meus olhos" e "Meu sangue, minha querida".]
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