Meu amigo livro...

“Só devemos emprestar livros aos grandes amigos, e os grandes amigos não pedem livros emprestados”. Autor desconhecido.
Entrar numa livraria casualmente ou de propósito, seja num Shopping Center ou numa rua qualquer, passar alguns minutos escolhendo um bom livro, isso é uma questão relativa, depois dirigir-se para o caixa e efetuar o pagamento, ter o bloqueio eletrônico do livro liberado, dirigir-se à saída, as olhadelas furtivas quando o sinal de trânsito fecha ou nos intervalos das sacudidelas do ônibus, a chegada em casa e o ato de sentar-se para ler é algo tão corriqueiro que a maioria, ou mesmo a totalidade de nós, não pensa nas implicações ou na trajetória percorrida por aquela celulose que foi extraída de uma árvore, normalmente de um pinheiro, e passou por um processo industrial de beneficiamento sendo transformada então em papel, que é enrolado e enviado para um armazém onde fica aguardando que uma editora o compre, depois de todo um percurso, que pode ser ou não longo, finalmente chega à gráfica, finalmente não! A viagem está apenas no começo.

Então um livro é estampado, ou impresso nessas páginas e lá se vai a nossa celulose, transformada em livro para uma distribuidora, depois para a estante de uma livraria aguardar que alguém o leve, após inúmeras esperanças vãs, finalmente é comprado, caso vá para um bibliófilo será manuseado com cuidado e depois de lido será bem guardado, guardado até demais, mas caso nosso livro seja comprado por uma instituição que tenha uma biblioteca, então começa um mundo de ida e vindas, viagens e mais viagens, vai passar por muitas aventuras, mas também por muitos apertos, levará muitas pessoas às lágrimas, mas pode também ter vontade de chorar por ser maltratado. Porém imaginemos que nosso livro seja exportado, alguém digamos, por exemplo, lá na longínqua Latvia, que lê português resolve entrar num site de uma livraria brasileira que efetua vendas para o exterior e adquire o nosso amigo, lá se vai ele, sendo embalado e enviado para uma empresa que efetuará o traslado por via aérea, ou surface para a Europa, depois ele será enviado no modal ferroviário, por último irá por via rodoviária até as mãos do ansioso dono, que depois de devorá-lo irá utilizar as suas idéias numa tese de mestrado em literatura, explicando as nuances da literatura brasileira e as influências do dinamarquês Sören Kierkgaard no pensamento existencialista do autor da obra. Parece viagem? Mas é uma viagem.

Imagine então que ao invés de um livro ela seja beneficiada para ser um caderno ou para ser a capa de um DVD de um show de um cantor famoso? Bom as viagens serão infinitas, melhor pararmos por aqui. Ainda bem que não teve a nossa celulose o azar de virar santinho de político que não foi eleito, pode ser que na próxima “encadernação” após a reciclagem, ela venha como folha ou capa de best-seller, tomara que seja de um livro de José Saramago ou de Khaled Hosseini.

Imagine então que nosso amigo latviano ao invés de comprar o livro resolvesse efetuar o download do arquivo em PDF que ele encontrou num site qualquer, ou então ele comprasse a versão digitalizada do livro de forma legal, o ebook e o colocasse num Pda ou Smartphone para poder ler em qualquer lugar, isso faria que a nossa velha amiga celulose beneficiada fosse poupada de toda essa trajetória?

Em tempos de modos ecologicamente corretos, qual será o futuro do livro se a leis se tornarem mais rígidas na contenção do desmatamento? Já existe alguma tecnologia que venha a substituir a celulose e com isso não haja tanto corte de árvores? E essa tecnologia poria fim ao que chamamos de livro?

Já li diversos livros na tela do computador e li outros tantos na tela do Palm, mas nada supera o prazer de abrir um livro e cheirá-lo, claro, o paladar é aguçado pelo olfato, experimente comer uma deliciosa feijoada gripado, não tem sabor, tem que sentir o cheiro antes de degustá-la, isso faz parte do ritual. E o que dizer do prazer de colocar um livro debaixo do travesseiro, com o PC ou Palm isso num fica muito legal não. Ainda tenho a mania de rabiscar anotações nos livros que leio, são hábitos que não dá para mudar. Espero que desenvolvam tecnologias e políticas sustentáveis de plantio de florestas de pinheiros, para que os livros como os conhecemos hoje não desapareçam.

O que é que a frase do início do texto tem a ver com tudo isso? Nada, ela é só um conselho aos que pensarem em comprar livros.

(Introdução de um trabalho para a Faculdade Boa Viagem)
P.S: Homenagem à Nathalia, minha sobrinha que completa ano hoje.
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