Confissões de um ex-pastor(VI)

Rabia, uma mística islã que viveu por volta dos anos 800 d.C. define por meio de uma petição dirigida a Alá a essência de um verdadeiro relacionamento com Deus:
Se eu Te adorar por medo do inferno,
Queima-me no Inferno.
Se eu Te adorar pelo Paraíso,
Exclua-me do Paraíso.
Mas, se eu Te adorar pelo o que Tú és,
Não escondas de mim a Tua face.

Essa declaração, que muitos cristãos estão dispostos a elogiar, mas bem poucos a pronunciar com sinceridade, sintetiza o ideal de uma verdadeira adoração, de um sincero relacionamento com Deus. À guisa de exemplo podemos ver que um músico brasileiro expõe essa frase no verso do CD e do DVD, porém, por incrível que possa parecer, todas as músicas são triunfalistas, de teologia de restituição e pós-teologia da prosperidade.

A nossa maneira pós-moderna de viver nos leva a achar mais fácil amar a Deus ou por medo ou pelo o que Ele pode dar, inclusive a vida eterna, difícil amá-lo pelo o que Ele é, apenas por isso. Incrível como uma mística de uma tradição anti-cristã(muçulmana) pode ter uma visão relacional com Deus com uma profundidade maior que muitas tradições que se dizem cristãs. Nesse evangelho que nem é moderno, nem pós-moderno, mas sim medieval com todas as superstições e fetiches de então, a relação com Deus é sempre na base da troca, trocar adoração por benção, obediência por salvação, amor por bem-estar. Uma pena que vivamos assim, até mesmo de forma inconsciente. Não conseguimos mais olhar para as práticas cúlticas sem arrepiar o cabelo, para as músicas cantadas na igreja moderna, parecem mais um mantra de troca com Deus: Eu te adoro para que me abençoes. Parece que Deus é um coitadinho que não tem adoradores, aí aparece um crente bonzinho e propõe a Deus uma relação de mútuo benefício: - Bom eu te adoro, agora...

E ainda tem gente que acha que a igreja não precisa de reforma. Que saudade de Lutero, Zwínglio e Calvino. Ouço as músicas triunfalistas de hoje em dia e me arrepio, pois quão distantes estão do Evangelho Maltrapilho anunciado por Jesus. É gente que anda por sobre o mar, é gente que só vive no cume dos montes, é gente que tem fartura, gente que prospera, gente que só vence. Não consigo me ver nesse meio, não consigo cantar essas músicas, não consigo dizer amém a algumas orações que ouço.

Tem um pastor que se credita tantos méritos que escala anjos ao seu lado, como Dunga escala a zaga da seleção brasileira, seria risível, se não fosse um motivo de ojeriza por ser tão trágico, é um vilipêndio à teologia sadia. Outros mais parecem camelôs vendendo seus produtos. É uma vergonha, me recolho e penso que este não é o evangelho de Jesus.

Prefiro a companhia de Maltrapilhos, prefiro os desajustados como eu, prefiro a companhia dos insatisfeitos, dos desprezados, prefiro ir para igrejas em que seja proibida a entrada de pessoas perfeitas, junto com os párias eu me sinto junto com meus semelhantes, eu me sinto em casa, junto aos pequeninos de Abba, eu sinto que sou bem-aventurado.
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