Você crê que Ele te ama?


A maior contribuição que a Reforma Protestante deu ao mundo foi a "redescoberta" da Graça, da mensagem da Graça, neste vídeo o Amor Indizível de Deus é abordado de forma admirável. Um padre americano, alcoólatra e que deixou o sacerdócio para se casar, expõe as mesmas verdades de Lutero e Calvino. O Vento sopra onde quer e como quer.

Se alguém puder responder positivamente à pergunta que Manning faz, será chamado de Bendito! Espero que um dia eu possa dizer sim com todo o coração sem subterfúgio nem dissimulação. Abba, pertenço a Ti!

"Castelo Forte é o nosso Deus!..."


Que Halloween que nada!


Paris, 1792, o oficial Claude Joseph Rouget de Lisle da divisão de Estrasburgo, compôs uma canção com um forte teor revolucionário, o canto, originalmente, foi concebido para encorajar os soldados que combatiam nas fronteiras, na região do rio Reno. Ela obteve, surpreendemente, sucesso imediato e em pouco tempo, por intermédio de viajantes, chegou à Provença, no sudeste da França. O auge da popularidade desta canção foi no período conhecido como Revolução Francesa, especialmente entre as unidades do exército de Marselha, estas, um mês depois de sua composição a cantaram durante toda uma marcha que fizeram até Paris, e a tornaram conhecida naquele grande centro urbano, que também era a capital do país. Desde então, passou a ser associada à cidade de Marselha. ficando por isso conhecida como La Marseillaise (A Marselhesa), não demorou muito para que se tornasse o Hino Nacional da França.

Ainda que tenha sido banida em alguns momentos posteriores, hoje (2011) ainda é o hino oficial francês, mostrando que a canção venceu afinal.

Martinho Lutero, monge alemão, da Ordem dos Agostinianos compôs uma canção para encorajar os seus seguidores, e os partidários de suas ideias teológicas, na luta contra o Império e a Igreja de Roma. A ideia central desta canção foi concebida nas semanas que antecederam a convocação de Lutero para ir a Worms, se defender diante do Imperador e dos emissários do Papa e em decorrência, defender o movimento reformado que acabava de nascer na Alemanha, quaisquer vacilos, ou tropeços, sabiam os líderes do movimento, certamente que seriam fatais, e que poderiam acarretar na morte prematura de uma ideologia e de seu mentor . Segundo John Fox, no seu famoso Livro de Mártires Cristãos, no capítulo História da Vida e Perseguições de Martinho Lutero, este foi dissuadido por seus amigos a não comparecer diante do Imperador, que não era simpático à causa reformada, o que poderia acarretar em condenação à morte, Fox assim descreve o ocorrido:

... Veio de modo contrário às expectativas de muitos, tanto dos adversários como dos amigos. Os seus admiradores deliberaram juntos, e muitos trataram de persuadi-lo para que não se aventurasse ao perigo de ir a Roma, pois consideraram que tantas vezes não se havia respeitado a promessa de segurança para as pessoas nesta condição. Ele, após ter ouvido todas as suas persuasões e conselhos, respondeu-lhes do seguinte modo: “No que a mim me diz respeito, uma vez que me chamaram, resolvi e estou certamente decidido a ir a Worms, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo; sim, mesmo sabedor de que há ali tantos demônios para resistir-me, em número tão grande como o das telhas que cobrem as casas da cidade de Worms”.

Segundo ainda algumas “lendas pias”, Lutero teria dito: “Se cada telha dos Castelos de Worms fosse um demônio, mesmo assim, eu iria, pois Castelo Forte é o nosso Deus!”, desta forma a canção que ele compôs foi chamada assim.

Existem controvérsias sobre quase tudo na vida de Lutero e sobre o momento exato em que foi escrita esta música, não poderia deixar de ser. Alguns historiadores defendem que ela tenha sido produzida durante o exílio forçado no Castelo de Wartburgo, quando também iniciou a tradução da Bíblia para o alemão, feito que, segundo autoridades germânicas, fixou o idioma, igualando-o ao feito de Camões com a obra os “Lusíadas” na língua portuguesa.

Wittenberg, 1517, mais precisamente no dia 31 de outubro, há exatos 494 anos, este padre agostiniano, que também era professor de teologia, o já citado alemão Martinho Lutero, escreveu em latim, para a comunidade teológica, algumas de suas inquietações e de seus questionamentos quanto à postura da igreja católica, dos bispos e da maioria dos padres, naquilo que ele considerava desvios e afastamentos da teologia e eclesiologia sadias, foram tantos questionamentos que quando deu por si já tinha chegado a 95. Como forma de conclamar os alunos e seus pares para um debate que redundasse numa melhoria da práxis teológica, ele fixou estas ideias, chamadas no jargão teológico de então de Teses, às portas da catedral do castelo de Wittenberg. Certamente que Lutero jamais imaginou que o seu ato resultaria num dos estopins da Reforma Protestante, não foi o único e nem foi o primeiro, mas certamente que foi um dos mais importantes.

Lutero, por ser um poeta com forte pendor musical, sempre atentou para a música e suas influências no âmbito da nova comunidade eclesial que surgia, mesmo à contragosto, de seu movimento. À época, as músicas utilizadas na liturgia eram polifônicas, elas se apresentavam com mais de uma melodia, e todas estas melodias eram cantadas e executadas ao mesmo tempo, o que era muito complexo de ser feito, muito embora fosse belíssimo de ser apreciado. Além disso, não só por conta dos dotes musicais, mas também pelo mínimo de cultura e conhecimento necessários aos executores, esta atmosfera musical só era acessível aos membros mais elevados da alta hierarquia da igreja. Poucas pessoas eram habilitadas para cantar e, muito poucas, tocavam algum instrumento. Lutero, com sua noção de igualdade e desclericização, entendia que as pessoas na igreja deveriam cantar algo mais simples, de fácil acesso e canções menos complexas de serem executadas, popularizando dessa forma o estilo canto coral, essa preocupação era não só para a adoração, mas também para a catequese, já que o povo iletrado aprendia por meio daquilo que cantava.

O estilo que ajudou a tornar popular, ele não criou, é conhecido como canto congregacional, que nada mais é que uma canção apresentada numa melodia só, porém a harmonia é dividida para quatro vozes (baixo, tenor, contralto e soprano). Assim ele proporcionou que qualquer pessoa, por mais simples que fosse, pudesse manifestar sua adoração a Deus através do canto, o que no passado só era acessível aos letrados clérigos da igreja romana, por isso mesmo, eram envoltos em mistério e muitas vezes sacralizados. As letras das canções hinos foram traduzidas do latim para o alemão, e para as línguas nativas dos países que aderiram a esta prática, o que até então só era cantado por poucos, passou a ser cantado por todos.

A Lutero são atribuídas várias canções e peças musicais, todas foram compostas para serem cantadas na igreja, nenhuma, porém, supera a famosa e emblemática “Castelo Forte é o nosso Deus” (Ein' feste Burg ist unser Gott), que aparece em todos os hinários evangélicos brasileiros e que só é cantada no dia 31 de outubro nas igrejas históricas, nas demais, que não são diretamente herdeiras da Reforma, nem isso acontece. O poeta romântico Heinrich Heine foi um dos que primeiro a chamou de “Marselhesa da Reforma”: por ser o símbolo de uma época de libertação religiosa e intelectual, e como não poderia deixar de ser, revolucionária.

O hino é baseado no livro de Salmos, capítulo 46, principalmente no versículo sete. Este salmo, que é uma canção da liturgia judaica começa assim: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”. Lutero não a traduziu diretamente do hebraico, antes fez uma paráfrase, que, nada mais é que uma adaptação do original com a intenção de tornar a letra acessível a qualquer pessoa, em qualquer nível cultural, originando este tão famoso “Coral da Reforma”. Lutero também é autor da melodia, ele mesmo compôs os arranjos que deveriam acompanhar esta música, segundo alguns estudiosos, ele fez isso de maneira magistral. São elogiados por estes estudiosos o vigor, a profundidade e a nobreza da linha melódica. Eu não entendo de música, por isso elogio a letra e dou meu testemunho de que ao ouvir a introdução deste hino, assumo um rigor marcial, tal impacto que ele causa em mim, mas isso é tema para outro tipo de artigo. Quem é que não se emociona com versos como esse?

Com o seu poder defende os seus
Em todo o transe agudo”.

E nada nos assustará
Com Cristo por defesa”.

A canção “tornou-se um hit” ainda na infância do movimento reformista, expandiu-se muito rapidamente, como tudo que era associado a Lutero, e chegou, em pouco tempo, a tornar-se o hino nacional da Alemanha protestante. Lutero, bem como os seus seguidores, não só cantava em todas as ocasiões possíveis, como incentivava que a mesma fosse cantada nos lares, nas ruas, no campo, em viagens, etc. O quanto ela foi importante à época, para infundir coragem aos que se sentiam fracos e para incentivar os que “guerreavam” na feroz batalha contra ardilosos inimigos, para que alcançassem vitórias, é de longe, incalculável.

Ela sempre recebeu da parte de numerosos compositores tratamento especial. Podemos citar dentre eles o incomparável organista barroco alemão, Johann Sebastian Bach, com a cantata BWV 80 (Ein' feste Burg ist unser Gott), o pianista alemão, do período romântico, Felix Mendelsshon-Bartholdy, com a Sinfonia da Reforma, Beethoven dela fez um cânon para vozes masculinas; Meyerbeer usou-a em sua ópera “Os Huguenotes”, Wagner na célebre “Marcha do Imperador”, que escreveu para comemorar o regresso do Imperador Guilherme, que voltava vitorioso do confronto Franco-Prussiano, e Debussy que apresentou-a no n° 3 de suas peças a dois pianos intituladas “Em preto e branco”. Isto para só citar as algumas das principais apropriações desta renomada peça de Lutero.

Fazendo coro com alguns historiadores, afirmo que é inconcebível celebrar e comemorar a Reforma Protestante sem que este hino seja cantado, eu senti falta do som tão familiar no filme Lutero. A certeza que a canção luterana nos traz de que Deus é um escudo e o refúgio forte para todos os homens, e que os defende de toda a investida maligna do inimigo, que vive rodeando como um leão que ruge, a torna uma canção que supera todas as limitações cronológicas. Lutero afirma que aquele que ama, e teme o Deus Altíssimo, pode perder tudo nesta vida, mas, certamente, com Jesus Cristo irá viver eternamente. Os defensores da Teologia da Prosperidade bem que poderiam de vez em quando cantar essa música em suas igrejas.

Pois é isso. Que Halloween que nada! hoje é dia da Reforma Protestante. Hoje é dia de celebrar a coragem de Lutero, Calvino, Zwínglio e tantos outros anônimos que acabaram sofrendo o martírio. Hoje é dia de dizer: Sou protestante! Graças a Deus.

Carta à mãe de um Borderline (I)

Advertência: Se você não for Borderline, não for mãe de um Borderline ou não for uma mãe que esteja em busca de saber como não tornar seu filho um Borderline, abandone este post, vá ler algo mais alegre, sugiro que vá ler uma Marie Claire ou mesmo assistir novelas, este artigo não foi escrito para você, você não o entenderá e ele não lhe trará proveito algum, conselho sério: Caia fora!

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Sei que você nunca vai ler estas cartas, pois eu nunca vou te dizer que as escrevi, as postarei sem alarde, apenas por questão de honestidade comigo mesmo, não quero mais calar a dor que me consome e me corrói, e se forem lidas por outros Borderlines terei atingido meu objetivo, talvez para eles ainda haja tempo de redenção, para mim, sei que não há mais condição alguma, não há mais chance. Não estou escrevendo para que leia, estou escrevendo como forma de me restaurar, estou tentando esquecer tudo o que aconteceu, estou querendo encontrar em meu coração e em minha alma um lugar de perdão, pois do contrário eu morrerei com estas mágoas abrigadas em minha mente e que só me fazem mal, mais mal do que tudo o que sofri e que me tornaram o que sou. Se você as lesse, sei que tomaria a postura de vítima e me “puniria” da pior forma possível, o que só faria que eu me sentisse culpado e o ciclo recomeçasse, mas eu estou disposto a romper esta roda de miséria, quero dar um basta, por isso não quero que leia, não preciso que leia, não vou deixar que leia.

Não sei por onde começar, se pelo os últimos acontecimentos, ou se pelos mais remotos que me lembro, alguns dos quais me fizeram ser o que sou: um afetado pelo Transtorno de Personalidade Borderline. Acho que não vou me preocupar com a ordem cronológica dos acontecimentos, mas sim pela densidade com que fui afetado, talvez assim, eu mesmo consiga me dar conta de fato da gravidade do que ocorreu, para que desta forma eu descubra como perdoar.

Tenho orado e pedido a Deus que me ensine e me ajude a perdoar, pois eu mesmo não tenho condições sozinho, e como o teu temperamento soberbo só aumenta a minha ira e indignação, pois você é incapaz de reconhecer seus erros, vou ter que me esforçar mais ainda para conceder perdão a quem não quer receber ou não acha que precisa.

Sábado (22) eu te falei que não se preocupasse com amenidades, quando você chorou por conta de um vazamento no banheiro, eu te disse que se preocupasse com a saúde e com a vida espiritual que eram coisas mais importantes, lembra o que você me disse? Acho que lembra sim! Você disse:

- Eu não preciso me preocupar com minha vida espiritual, ela vai muito bem! Não tenho problemas nesta área.

Gostaria que a minha vida fosse como a tua, se caso isso que você me disse seja real, talvez nem tenhas mentido, apenas não tens consciência exata do que disseste, mas confesso que soou como soberba, e eu me recolhi para não discutir e nem te contradizer, pois já descobri que tens a convicção arraigada de que você não tem o que aprender, seja em qualquer área, você sempre tem razão, sempre tem opinião formada, ainda que não tenha base alguma, ainda assim mantém o que pensa, sem se importar com os argumentos que contradigam os teus.

Nos últimos cinco anos, cada vez que recebi alguma ligação tua, pedia a Deus misericórdia, pois eu sabia que, de uma forma, ou de outra, eu ficaria, após a ligação, me sentindo mal, pois infelizmente tens este poder sobre mim, de fazer com que eu me sinta destroçado por uma simples conversa de 05 (cinco) míseros minutos. E isso faz com que a minha culpa, por não tolerar tuas idiossincrasias, aumente cada vez mais.

Quando tive que vir morar contigo há três ou quatro meses atrás, eu sabia que teria uma enorme dificuldade, mas não achei que fosse tanto, imaginei que por viver só há 07 (sete) anos, você iria desfrutar um pouco de minha companhia e com isso talvez criássemos até um vínculo de amizade, já que estávamos tão afastados nestes últimos cinco anos, por opção mútua, mas eu estava errado. A minha companhia não te fez bem, não te faz bem, e só ainda continuo morando contigo por necessidade, e no dia em que esta necessidade não existir mais, vou embora, sem arrependimentos, pois eu sei que tentei, eu sei que me esforcei, mas tua postura de deusa do Olimpo, que quer todos aos seus pés em constante veneração não te permitiu dar um passo sequer em minha direção.

No dia em que te disse que era um Borderline, você por acaso procurou entender o que eu disse? Quando você me viu com diversas caixas de remédio na mão, você acreditou de fato que minha doença era grave? Aceitou isto como um fato ou me fez lembrar de que você tem ou tinha também diversas doenças? Lembro que você me disse que não colocasse na cabeça tudo o que lia na internet não, pois quase tudo o que estava neste ambiente era mentira e que eu não deveria dar crédito.

Lembra da vez em que te disse que eu tinha vontade de tomar todos os teus remédios? Lembra o que você disse? Você começou a chorar, como sempre fazes quando queres chantagear alguém, e me disse que eu tivesse pena de você, pois você estava sozinha comigo e não podia me socorrer ou me ajudar. Por acaso você perguntou por que causa eu queria morrer? Procurou saber que angústia era essa? Não, você, infelizmente, só se preocupa com você mesma, com mais ninguém. Você se trancou no quarto, escondeu teus remédios e foi assistir televisão, eu fiquei só na sala, diante de um computador, escrevendo para todo mundo, ou mesmo para ninguém, tentando me manter são.

A sensação que tenho é que não represento nada para você, quando passas do banheiro em direção ao teu quarto e trancas a porta com chave e liga a TV para assistir novelas, sem ao menos um “Boa noite!”, eu percebo o quanto ainda sou insignificante para você. Quando você sai do seu quarto e estabelece alguma conexão comigo ou algum diálogo, sempre é para efetuar uma consulta ou para pedir algum favor, como destravar teu celular ou coisa parecida.

O teu costume de colocar a campainha do telefone num volume ensurdecedor, da rua é possível ouvir o telefone tocando, ou mesmo o teu costume de ouvir programas de TV numa altura desnecessária, sem que tenhas nenhum indício de surdez, me faz acreditar que fazes isso para irritar mesmo, queres provar que a casa é tua, por isso podes fazer o que bem quiseres.

Não sou apenas eu que tenho impressões sobre o teu comportamento, acho apenas que sou o único que tem a hombridade de expor o que penso, por isso que sou mal compreendido.

Um dia, anos atrás você me mandou uma carta, expondo o que pensava da vida que eu estava levando, me expunha todos os meus erros, só lamento que em nenhuma parte dela tenha assumido a culpa que lhe cabe por alguns atos meus, quer sejam errados quer não. Lembra da vez que eu te procurei para falar do que pensava da forma que você tinha me criado e o que isso tinha causado em mim? Você começou a gritar e a dizer que não era culpada de nada, eu sim, tinha cometido erros e estava transferindo para você. Desde esse dia eu não tenho mais como dialogar com você.

Quero perdoar, quero ser perdoado, não quero que morra e eu ainda tenha mágoas de você, e não quero morrer com estas mágoas. Espero que por este instrumento eu alcance o tipo de perdão que Jesus pregou, quero fazer isso, preciso fazer isso, vou fazer isso. Não me importa se reconheça teus erros, ofereço o meu perdão quer queiras, quer não.

O mais estranho em tudo isso é que se eu escrever estas cartas de forma direta, poderei ser visceral ou condescendente, se eu começar e terminar depois, durante o fluxo da mesma poderei mudar minha abordagem, e não estarei sendo incoerente e nem tampouco desonesto ou hipócrita, estarei sendo eu mesmo, estarei sendo apenas Borderline. Esta anamnese não tem o caráter de julgamento, tem antes a intenção de dizer o que nunca disse, só assim, só assim eu curo minha alma e me preparo para morrer em paz, sem mágoas e sem rancores.

Uma questão de ética!


No último domingo (16) cheguei do trabalho em casa depois das 21h00, estava cansado demais, depois de um fim de semana exaustivo, no qual tive que acompanhar um inventário para o novo ERP da empresa, minha cabeça só tinha marcas e medidas de pneus e pesos de bandas de rodagem. Liguei o computador, fui tomar um banho, quando de volta me sentei defronte ao mesmo, com uma bela xícara de café (Segunda seria feriado, não precisava acordar cedo!) e acessei a web, de chofre me veio o Gerenciador de atualizações do Ubuntu com uma mensagem que me pegou de surpresa, não deveria, mas me surpreendeu: Nova versão do Ubuntu '11.10' (também chamada de Oneiric Ocelot), está disponível, foi-se embora o cansaço! A surpresa se deu porque, por estar muito atarefado profissionalmente, eu havia esquecido completamente que em outubro sairia uma nova versão. È a segunda vez esse ano que vejo esta mensagem, a primeira foi em Abril. Demorou cerca de 01 (uma) hora para efetuar o download, minha conexão wirelless não estava muito boa. Já estou desfrutando da nova versão, com toda a interatividade inigualável de sua parte gráfica. 

Não vou fazer aqui apologia ao uso do Linux e nem vou discutir aspectos técnicos que me levaram a sair da Matrix e abandonar o Windows e optar pelo Linux, mais especificamente pela Distribuição Ubuntu, quero antes, ressaltar a real razão que me levou a abrir as janelas e deixar que outras brisas adentrem o ambiente.

Vou começar citando o Arcebispo Desmond Tutu, que dispensa comentários, e que, como eu, é anglicano, ele escreveu em Nenhum Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness) que: “Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não se sente intimidada que os outros sejam capazes e bons, para ele ou ela ter própria auto-confiança que vem do conhecimento que ele ou ela tem o seu próprio lugar no grande todo”. Esta filosofia de vida, conceito sul-africano, é a razão de ser desta distro. Em outras palavas Ubuntu é "humanidade com os outros" ou "sou o que sou pelo que nós somos".

Ubuntu é um sistema operacional de código aberto construído em cima do núcleo Linux baseado no Debian, sendo o sistema de código aberto mais popular do mundo. A Fundação Ubuntu (8 de julho de 2005) foi criada por Mark Shuttleworth e pela Canonical Ltd que providenciaram um aporte inicial de US$ 10 milhões. Shuttleworth (Welkom, 18 de setembro de 1973) é um programador de computadores sul-africano que se tornou milionário depois de vender sua empresa de segurança de Internet, a Thawte, para a Verisign. Em 2002 tornou-se o primeiro sul-africano a ir ao espaço, lançado na nave russa Soyuz TM-34, pagando 20 milhões de dólares pela aventura, e entrando para a história como o segundo turista espacial, depois do empresário norte-americano Dennis Tito. Após sua aventura espacial fundou a Canonical Ltd, responsável pelas distribuições Ubuntu, Kubuntu, Edubuntu, Xubuntu e Lubuntu, todas derivadas do Debian.

A fundação apoia o desenvolvimento de todas as versões posteriores à 5.10. O Ubuntu é lançado semestralmente, em Abril e Outubro, por isso que as versões são disponibilizadas com a terminação 10 ou quatro, que é o mês do lançamento, os dois primeiros dígitos são do ano de lançamento. Disponibiliza ainda, suporte técnico gratuito nos dezoito meses seguintes ao lançamento de cada versão. A proposta do Ubuntu é oferecer um sistema que qualquer pessoa possa utilizar sem dificuldades, independentemente de nacionalidade, nível de conhecimento ou limitações físicas. O sistema será sempre gratuito e livre, isento de qualquer taxa. Não há distinção na Comunidade Ubuntu entre novatos ou veteranos; a informação deve ser compartilhada para que se possa ajudar quem quer que seja, independentemente do nível de dificuldade. Nós, os fãs do Ubuntu somos conhecidos como ubuntistas, ubunteiros ou ubunteros.

Com base nisso eu fico aqui me indagando: por que será que mesmo tendo uma plataforma operacional gratuita, extremamente eficiente e interativa, com o código livre, ainda existem pessoas que insistem em usar o WindowsTM de forma ilegal? Por que será que alguns cristãos que são tão veementes em sua defesa da ortodoxia, conservadores e fundamentalistas, defensores incontestes da moral, dos bons costumes utilizam softwares piratas em seus computadores pessoais e ainda usam programas que quebram senhas para poderem utilizar-se do Windows Update?

Por que ao invés de revolucionarmos o mundo com nosso dogma, por que não revolucionamos os nossos pequenos hábitos que são tão nocivos e ilegais? O que diremos para nossos filhos quando nos perguntarem a razão de usarmos programas piratas em nossos computadores? Que eficácia nossas palavras terão sobre as pessoas próximas a nós, que sabem que usamos cópias ilegais de programas de computador, quando as conclamamos a serem íntegras? O que dizer de igrejas que têm nas secretarias e departamentos computadores instalados com cópias ilegais? Uma vez fiz essa pergunta numa aula na faculdade, um aluno me disse que os programas eram muito caros, por isso pirateava, eu então perguntei e o que eu faço, já que não posso comprar um carro importado para mim, acho o preço abusivo, roubo um? Ele ficou calado!

Alguém vai me dizer que estou sendo radical e que não é bem assim! Bom, vi um debate tão grande nos últimos meses sobre homofobia, homofilia, homossexualidade e outros temas correlatos, foram temas abordados por pessoas que não veem problema algum em ter instalado em sua máquina um programa que ele copiou de alguém, ou da web, sem pagar os devidos direitos autorais, mas que acham que podem exercer juízo de valor sobre o comportamento de outrem. Balança desigual é o que Deus chama isso (Vide Provérbios 11).

Não uso o sistema operacional da Microsoft por conta de dois grandes motivos, primeiro porque tenho uma opção pela ética, pela honestidade e pela coerência, não utilizo programas piratas em meu computador pessoal e segundo porque não gosto de controle sobre mim e nem sobre o meu computador, ainda que possa usar uma cópia legal do Windows, ainda assim não usaria, a plataforma em si, com toda a interação que ela permite, exerce um controle sobre o usuário que este não se dá conta.

Será que não precisamos rever os nossos conceitos de integridade e ética?

[Para os que quiserem sair da Matrix e optar pela ética, segue link para download do sistema gratuito e legal: http://www.ubuntu.com/download/ubuntu/download].

I Still Haven't Found What I'm Looking For


Muitos hoje em dia querem se "apaixonar" por Jesus e pelo Espírito Santo, outros querem apenas empreender uma busca, seja numa jornada interior, seja numa jornada real, de algo que lhes traga completo significado, nem se importam que esta busca dure a vida toda e que o objetivo só seja alcançado no último minuto de vida, eu prefiro esta segunda opção.

"Mas eu ainda não encontrei... o que estou procurando", mas não desistirei desta busca, nem sairei deste caminho, não importam as pedras e nem a poeira, não me importam o cansaço e nem a sede, o alvo que quero alcançar me faz andar olhando em frente, a certeza de que descansarei eternamente 

A crucificação de um judeu!


Querem crucificar Rafinha Bastos, o, outrora, intrépido apresentador do CQC(Custe o que custar) da Band. Por muito tempo ele foi a voz dos que não tinham voz, foi o defensor dos fracos e algoz dos políticos corruptos, hoje se sair às ruas pode ser malhado como um Judas por aqueles que um dia o aplaudiram e riram com sua acidez. Ele pediu demissão da emissora depois que criou uma polêmica com vários famosos por conta de uma brincadeira sem graça que fez com uma cantora e o bebê da mesma. Apareceram centenas de paladinos da ética e da moral, indignados, dando apoio ao “rico” marido da dita cantora, muitos xingaram o comediante (sic) de pedófilo, chauvinista, preconceituoso, etc.

Eu estava aqui me perguntando: só agora, depois que ele agride uma cantora famosa, filha de pai famoso, casada com rico empresário, que é sócio de um jogador muito famoso que descobrem que Rafinha tem um humor cáustico? Só agora que perceberam que ele se diverte sozinho, humilhando os entrevistados e até mesmo aqueles que não queriam ser entrevistados? (Ai de quem não desse entrevista a ele!) Só agora que descobriram que as brincadeiras dele são sem graça?

Como judeu, Rafinha tem o humor apurado, sagaz, ácido, denso e um tanto quanto iconoclasta, está muito mais reservado para quem gosta do humor de Woody Allen e Mel Brooks, que como ele também são judeus, não é palatável para o público de TV. O formato do programa, que não permite densidade intelectual, pois o público que assiste, quer mais é se divertir às custas dos outros, não toleraria piadas inteligentes, pois não quer ter que pensar, não combina com o humor fino judaico.

Errou a Band e errou a produtora Cuatro Cabezas que não se deram conta de que isso um dia poderia acontecer. O público gostou e riu várias vezes, pois os humilhados eram inimigos da opinião pública, sejam políticos falastrões ou funcionários públicos incompetentes e corruptos, Mas Rafinha se deu mal, pois mexeu com coisas sagradas, mexeu com gente que a massa venera, até mesmo quem não tem opinião formada, atacou o apresentador, acham que ele quer ganhar fama às custas dos outros, o que é uma inverdade, ele não respeita nada, não liga para nada, nem se preocupa com a polêmica, visto que seu espírito é assim mesmo. Vai tirar proveito disso, ou melhor, já está tirando.

Gostava de assistir esse programa, na primeira temporada, nas primeiras edições, quando me dei conta de que o besteirol não se reinventava, mas que trazia as mesmas piadas, as mesmas circunstâncias constrangedoras e as mesmas humilhações, deixei para lá e tenho certeza que não perdi nada desde então.

Uma das coisas que me fez desistir de assistir ao CQC foi justamente o Rafinha. Nunca gostei dos constrangimentos que ele causava em centenas de anônimos que, com razão ou não, enfrentavam o microfone e a língua ferina dele.

Quantas vezes anônimos não foram ultrajados por ele? Constrangidos e humilhados por situações que o público, que o endeusa, aplaudia, tornando-o cada vez mais onipotente em sua atuação diante das câmeras, é só verificar a quantidade de seguidores que ele tem no Twitter para constatar isso.

Logo cabe a pergunta: por que só agora descobriram que Rafinha Bastos é agressor, o seu humor é desmedido e sua forma de atuação é de mau gosto? Só por conta da agressão que fez à cantora e seu bebê? O que leva a todo esse apoio? A fama dela, do pai dela e o dinheiro do marido dela ou a constatação de fato que ele é um furacão incontrolável?

Esse relativismo me indigna, preocupo-me com esse tipo de comportamento, pois vejo que a diferença de classes está longe de acabar no país. Será que não estou sendo exagerado ao querer que a massa que assiste ao folhetim, que acha normal rir de alguém que caiu de um ônibus ou no meio de uma rua consiga exercer juízo de valor adequado quando um famoso humilha um anônimo na TV?

Ficar do lado de famosos é fácil, difícil é ficar do lado de quem não tem fama e nem um microfone para se defender. Pergunto para terminar: deveríamos ficar do lado de quem tem fama ou do lado de quem tem razão? Da verdade ou do show?

Contos X - Morte (III)

Parte I
Parte II
 
Ainda pensava em tudo que tinha acontecido nas últimas 48 horas quando o telefone tocou, era o mesmo colega que o havia deixado na rodovia e tinha voltado com receio pela própria vida. O diretor da empresa, duas noites antes, havia lhe dito por telefone que trabalhava com aquele funcionário há pelo menos 15 anos, e que nunca duvidou da fidelidade dele para com a empresa e que chegava a considerá-lo amigo, mas que naquela noite, tinha reconsiderado esse seu conceito, visto que ele que tinha apenas 06 meses de empresa e demonstrava mais comprometimento e fidelidade que um funcionário de 15 anos. O colega, que não estava ciente desta conversa, informava-o que o nível de água na cidade próxima àquela que ele tinha evacuado no dia anterior estava baixando e que seria possível resgatar alguns objetos com condições de comercialização, ele sabia que a intenção do colega era limpar a própria imagem que estava desgastada com o diretor da empresa, e sabia que seria usado inescrupulosamente para que o objetivo do outro fosse alcançado, mesmo à contragosto, sabia da imprudência e da ineficácia da operação, dirigiu-se à sede da empresa, pensava como iria efetuar uma nova operação de evacuação, desta vez seria muito mais difícil a loja estava tomada de lama, e a quantidade de veículos disponíveis era bem menor que duas noites antes.

Contactou alguns funcionários, escolheu aqueles que não haviam participado da operação na madrugada do sábado, e pediu que fossem para a empresa, precisava deles, ligou para um motorista que voltava do estado vizinho e pediu que o mesmo fosse para a loja da cidade inundada, ao todo seriam três caminhões, poucos, mas era alguma coisa.

Pegou dinheiro, alguns pacotes de biscoito, queijo, e outros itens para lanche rápido que a diretora da empresa tinha comprado para que ele levasse, e assim pudesse minimizar, de alguma forma, a fome que os funcionários daquela cidade estavam passando, além disso comprou botas de borracha e água mineral, itens extremamente necessários para aquela ocasião, um garrafão de água estava sendo vendido com mil porcento de aumento, muitos, inescrupulosamente, se aproveitavam do caos para auferirem lucros exorbitantes.

Enviou um motorista com um ajudante na frente e seguiu noutro caminhão com um motorista novato e inexperiente, informou a cidade que estavam indo e entrou na cabine do veículo, seus ossos doíam, seu corpo estava cansado, sua mente inquieta, acomodou-se no banco do veículo, pegou o telefone móvel e efetuou diversas ligações para os demais colegas que estavam envolvidos naquela operação e para alguns policiais que estavam de folga e que fariam a segurança da loja durante a operação de carregamento dos caminhões, a preocupação se justificava, já que as lojas dos concorrentes e de outros ramos comerciais foram saqueadas.

Quando deu por si, o motorista já havia tomado uma rodovia estadual, ao invés da federal que os deixaria na entrada da cidade, enquanto que a estadual os deixaria na cidade mais próxima. Como não tinha mais o que fazer, orientou ao motorista que seguisse sem paradas. Quando chegaram na cidade que ele tinha estado no dia anterior, vizinha à cidade almejada, descobriu, por meio de motoristas que viajavam no contra fluxo que a via de acesso que eles tencionavam tomar estava interrompida, a ponte corria riscos de desabar, voltaram mais de 15 quilômetros e tentaram acessar a rodovia federal por meio de outra cidade, mas como a mesma estava semi inundada, também não foi possível.

Dirigiu-se até uma ponte que tivera o tráfego proibido pela polícia, que estava próxima da cidade que ele queria chegar e ligou para seus colegas e pediu que o fossem buscar, pois poderia passar à pé, mas com o caminhão não, este teria que se deslocar mais ou menos uns cinquenta quilômetros de volta e acessar a rodovia federal. Foram buscá-lo numa camionete, atravessou junto com os colegas a ponte à pé, levando os itens que trouxera, colocaram tudo na Pickup, ele então mandou que o motorista voltasse, e com ele, um funcionário da loja, que conhecia bem a região, para guiá-lo.

Entrou na camionete e seguiram em direção à cidade que ainda estava perplexa com o caos que se abatera sobre ela. O cenário era dantesco, na entrada da cidade, havia um animal de grande porte morto sobre a rodovia, quando se aproximaram um pouco mais, pode perceber que era uma vaca, morta por afogamento, não conseguiu imaginar como ela tinha parado ali.

Mas não foi apenas isso que o estarreceu, o cenário da cidade como um todo era caótico, lembrava um filme de catástrofe, parecia que um tufão, furação ou coisa que o valha, tinha passado por ali. A ponte principal, que cortava a cidade, e que ligava os estados do norte com os estados do sul, caíra, dentro de uma cratera que se formara com a erosão, podia se ver uma carreta, veículo de grande porte, tombado, completamente destruída. Lama, sujeira, prédios caídos, destruição, lojas saqueadas, por onde quer que olhasse, só via desespero e medo.

Quando chegou à loja, numa das ruas principais da cidade, conseguiu verificar a altura que o nível da água havia alcançado, pouco mais de três metros, as paredes ainda guardavam as marcas do dilúvio inclemente do qual fora vítima dois dias antes.

Não conseguia ver direito, não havia energia na cidade, a loja tinha o pé direito baixo, não tinha uma boa visibilidade natural, mas pelo que avaliou, o estrago tinha sido grande, lhe disseram que um caminhão, com produtos enlameados, já havia sido carregado e ido embora, outro estava sendo carregado.

Em silêncio, não era momento para divergências, discordou da operação como estava sendo feita, a água não havia alcançado o estoque que estava localizado no segundo e terceiro andar da loja, logo, todos os produtos estavam enxutos, eles deveriam ser priorizados, não os que estavam enlameados, alguns, visivelmente, danificados definitivamente. Como não era o coordenador daquela operação, resolveu apoiar como estava sendo feita, naquela circunstancia qualquer colocação sua seria tomada como um crítica não construtiva, queria evitar guerras de poderes e vaidades.

Quando o ocaso já começava, e a escuridão se avizinhava, ouviram um barulho enorme, todos correram para a rua para tomarem conhecimento do que era. O cenário lembrava Ensaio sobre a cegueira, foi o que lhe veio à mente assim que assomou à rua, uma turba, não saberia precisar quantos, mas, certamente que mais de cem pessoas, sujas, descalças, desesperadas, em desabalada carreira gritava que a represa que ainda continha a água da chuva, havia rompido e que estaria naquele momento descendo para a cidade, todos corriam buscando uma saída, não lutavam mais por bens ou posses, lutavam pela vida.

Quando se deu conta, viu que os policiais que faziam a segurança da loja contra saqueadores haviam fugido, o caminhão estava estacionado defronte à loja, com a frente voltada para uma rua por onde a água inundaria a cidade, detrás do mesmo estava a camionete que eles usaram para chegar ali, gritou para o mesmo colega que o havia abandonado dois dias antes, que tirasse a Pickup dali, pois o motorista teria que manobrar o veículo. Enquanto isso com os outros quatros funcionários que ficaram, os demais fugiram com medo e desespero, começou a fechar as portas corrediças da loja, as engrenagens estavam cheias de lama, não era tarefa fácil.

Quando chegou na rua, percebeu que o colega havia fugido mais uma vez, não levara ninguém com ele, teve que colocar na cabine do caminhão o ajudante, o gerente da loja e o supervisor daquela região, este era incapaz de esboçar qualquer reação, estava catatônico e suando frio. Bateu na lateral do veículo e mandou o motorista sair, gritou: - Se vamos morrer, vamos morrer pelo menos tentando.

Pegou o telefone móvel, sabia que só teria como fazer uma ligação, e tinha em mente apenas três pessoas que pudesse falar naquele momento: sua mãe, que não tinha estrutura para receber uma ligação como aquela, sua filha, que ele não ligaria, pois era uma adolescente que não saberia lidar com a despedida do pai de forma tão trágica, e a esposa, companheira de cinco anos, esta era a única que saberia lidar com uma despedida, sabia que era injusto, desesperador, mas ligou, ligou porque para ele era confortador, falar com alguém que se importava de fato com ele naquele momento.

Falou calmo, sereno e equilibrado, contou o que estava acontecendo, e que estava ligando para despedir-se, notou que o desespero se abatera do outro lado da ligação, mas não tinha o que fazer mais, tinha que ainda lutar pela vida nos últimos segundos ou minutos que restassem, e ele ainda tinha os colegas, sentiu-se responsável por eles, desligou o telefone resoluto, dependurou-se na porta do caminhão e mandou que o motorista fosse embora, gritava para que as pessoas saíssem da frente.

Era um verdadeiro pandemônio, poucos metros à frente, desceu do caminhão para ajudar o motorista a manobrar e andar um pequeno trecho em marcha ré, para poder passar de novo na frente da loja e tentar sair daquela cidade, daquele inferno.

Ouviu um barulho estranho, voltou a cabeça e viu uma parede de uns cinco metros de altura se deslocando, por conta da escuridão não conseguiu identificar logo do que se tratava, poucos segundos depois viu o que era de fato, era uma onda gigante, uma tromba d'água que se aproximava, virou-se para olhá-la melhor. Ela o encontrou de pé, junto ao caminhão, o tolheu de frente, envolvendo-o como um manto envolve um corpo, não correu, não esboçou nenhuma reação, sabia que era desnecessário, murmurou uma curta oração: “Kýrie eléison, Kýrie eléison” (Jesus Cristo, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!) que tantas vezes cantou durante a liturgia da igreja que frequentava.

De repente tudo ficou escuro e depois apenas uma luz, uma luz fraca que foi ficando cada vez mais forte. Não havia dor, frio e nem tristeza, apenas uma luz que o envolvia. 

Contos IX - Morte (II)

Parte I

Como o primeiro caminhão já estava carregado, orientou o motorista a sair do local, no veículo estavam os objetos mais caros, pediu que ele fosse embora para o Posto Fiscal na rodovia, que distava uns cinco quilômetros da loja, área alta, segura e com amplo estacionamento para veículos grandes e pesados, era uma preocupação a menos, uma vida, um veículo e os valores que estavam ali.

Passou a motivar e exigir um pouco mais dos funcionários que, cansados e com sono, diminuíam gradativamente o ritmo de trabalho. Alguns dos funcionários da loja, que moravam na cidade estavam apreensivos, não conseguiam esquecer de suas próprias casas, liberou a maioria, ficando apenas com os que as residências não corriam riscos e com os 14 que trouxe da capital.

Antes que o último caminhão fosse totalmente carregado, fez uma avaliação do que não pudera ser embarcado, constatou que eram os objetos de pouca monta e outros de mostruários, de difícil desmontagem e que já tinham perdido o valor inicial de venda, que ele havia recomendado que não dessem prioridade, não ficara muita coisa.

Fez uma rápida reunião com todos, agradecendo a cada um o empenho demonstrado, fez questão de ressaltar que a operação tinha sido bem sucedida, e que cada um que estava ali tinha contribuído para isso. Desejou boa sorte aos que ficavam na cidade, lutando por suas vidas, por suas posses e por suas famílias.

Entrou num dos caminhões e seguiu em frente. Já não havia a calmaria da noite anterior, rumores davam conta que a água estava subindo rápido, nas partes mais baixas, as casas já estavam submersas, todos queriam salvar-se ou salvar alguma coisa que tivesse algum valor, a cidade estava agitada, nervosa e prestes a estourar, qual barril de pólvora.

Enfrentou um grande engarrafamento na saída da cidade, a ponte que ligava o bairro onde estava à saída mais rápida estava tomada de carros de todos os tipos e tamanhos e muitos pedestres, ciclistas e motociclistas ajudavam para que o caos ficasse maior. Não havia nenhuma organização, carros no contra fluxo impediam a movimentação, chegava a ser desesperador, imaginava o quanto o ser humano era frágil, pois perdia o bom senso e beirava à irracionalidade de uma forma que, qualquer observador imparcial duvidaria de que um ser como aquele, foi um dia chamado de racional.

Quando enfim conseguiu ultrapassar a ponte, teve que tomar um caminho por uma estrada de barro para poder alcançar a rodovia que permitiria que voltasse sem maiores empecilhos para a capital. Esta estrada estava enlameada, a chuva da noite anterior tinha sido eficiente em desgastá-la, a mesma estava quase que intransitável, o motorista que conduzia o veículo que ele se encontrava teve dificuldades para manter-se na estrada enquanto subia o aclive, os outros já haviam passado na frente, todos pesados, tinham contribuído mais ainda para o desgaste da estrada. Teve que pedir ao motorista que parasse e desceu, junto com um auxiliar do motorista para poder orientá-lo de fora do veículo, mas o obstáculo era maior do que pensava, o veículo estava quase batendo num poste, foi preciso que os demais motoristas descessem de seus veículos e juntos, como equipe, procurassem uma solução. Até que um agricultor que passava, informou que perto dali havia um trator, que a solução seria pedir ao dono deste que o emprestasse.

Foram em busca do dono daquele veículo, que solícito atendeu prontamente e com pouco esforço, por conta da grande capacidade de tração do veiculo, o caminhão foi posto outra vez em condições de seguir viagem sem mais atropelos.

Uma vez na rodovia, solicitou que todos parassem no primeiro posto seguro, para que pudessem comer alguma coisa, cerca de 02 quilômetros depois pararam, comeram bolachas com caldo de cana e retomaram a viagem. O cansaço já demonstrava que estava alcançando bons resultados sobre todos, a maioria tinha dificuldade em manter-se alerta e acordada, exceto os motoristas que tinham sido liberados por ele para que dormissem, todos estavam cansados e dormindo de qualquer jeito nas cabines dos 05 caminhões.

Quando se aproximavam do local na qual ele havia descido do veículo do colega que não tinha tido coragem para seguir em frente, encontrou a mesma retenção de veículos, uma longa fila se formava, todos procuravam ir, ou voltar, o quanto antes para a capital ou para as cidades no entorno dela, em busca de segurança.

Após mais de uma hora de paralisação, conseguiram desvencilhar-se daquele obstáculo e por volta do meio dia, entravam todos os caminhões no pátio da empresa, cansados, com sono e exaustos, mas todos estavam seguros, e isso o fazia sentir-se um pouco melhor, nenhum transtorno de grande monta havia acontecido, conseguira trazer a sua “tropa” sã e salva e isso valia para ele mais do que os objetos que estavam naqueles cinco caminhões.

Tão logo entrou nas dependências da empresa e colocou o telefone móvel para carregar, recebeu ligações da gerente da loja que havia sido evacuada, ela dava noticias de que a água já “lavava” a calçada da loja, foi tomado de súbita incredulidade, não acreditava que em tão pouco tempo a água chegasse tão rápido.

Deu algumas ordens, despediu-se dos seus colaboradores, não sem antes apertar a mão de todos os que passaram a noite na operação com ele e dar-lhes dinheiro para que tomassem cervejas como um pequena recompensa pela dedicação demonstrada. Enviou para toda a empresa uma mensagem na qual elogiava os seus colaboradores pelo empenho demonstrado, ao mesmo tempo que elogiava a gerente da loja que junto com os funcionários dela, tinham contribuído para que a operação fosse um sucesso, além de desejar que os transtornos que viriam fossem poucos e facilmente contornáveis, como diria a diretora da empresa alguns dias depois, foi uma “bela mensagem para um momento tão sombrio”, foi de fato uma mensagem inspiradora e confortante, foi a última mensagem que escreveu, talvez por isso tenha sido tão bela.

Ao chegar em sua casa, após um banho que fazia com que os ossos doessem de tanto cansaço, recebeu nova ligação da gerente da loja, desta feira ela comunicava que a loja tinha sido invadida pela água e que a altura da mesma naquele momento era mais de 1,5 metro de altura. Foi deitar-se para dormir um pouco, estava desiludido, a notícia do avanço inclemente da água o fez ficar deprimido, pensava em todas as pessoas que tinha visto, nas casas no entorno da loja, não conseguia acreditar que tudo aquilo estava àquela hora debaixo d'água.

Acordou-se no fim da tarde com mais uma ligação da gerente, esta chorava bastante, informava que a loja havia sido destruída, e que agora temia por sua própria casa, a água continuava a subir e ameaçava invadir a sua residência, que estava localizada numa das partes mais altas da cidade, mas mesmo assim, corria riscos.

Quando a mesma informou que a bateria do telefone estava descarregando e que poderia ficar sem contato, o sentimento de impotência que o tomou foi completo, beirava o desespero. Ela informava que não tinham alimentos, nem água para beber, estavam com frio, no escuro e sem esperança alguma.

Ficou deitado, no escuro, não conseguiu mais dormir, a única coisa que podia fazer era orar por aquelas pessoas, sabia que muitas cidades no entorno daquela que tinha ido estavam em situação de calamidade, uma tragédia se avolumava, muita gente havia morrido, muitos ainda morreriam, a grande maioria perderia tudo o que tinha. Não conseguia pensar como seria sua semana, o dia seguinte era domingo, dia de descanso, mas ele duvidava que isso fosse possível. A noite que se aproximava seria escura, fria e sem esperança, torceu que o dia chegasse logo, pois rolar na cama a noite toda deixaria seu corpo mais cansado ainda e a alma com uma sensação de vazio e desespero.

- Melhor enfrentar os inimigos durante o dia, eles ficam menos aterradores, são facilmente identificados e pode-se atingi-los com mais eficiência. Que venha o dia, mesmo que em meio ao caos e ao desespero, mas que venha!

Parábolas Modernas (IV)

A Festa de Babette: Uma história
Uma pobre aldeia de pescadores no litoral da Dinamarca, uma localidade de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha. Neste ambiente triste, um ministro de barbas brancas liderava um grupo de crentes de uma austera seita luterana.

Os poucos prazeres mundanos que pudessem tentar um camponês em Norre Vosburg eram condenados por essa seita. Todos usavam roupas pretas. Sua alimentação consistia em bacalhau cozido e uma papa feita de pão escaldado em água enriquecida com um borrifo de cerveja. Aos sábados, o grupo se reunia e cantava hinos a respeito de "Jerusalém, meu lar feliz, nome sempre querido para mim". Eles haviam direcionado suas bússolas para a Nova Jerusalém, e a vida na terra era apenas tolerada como um meio de chegar lá.

O velho pastor, um viúvo, tinha duas filhas adolescentes: Martine, chamada assim por causa de Martinho Lutero, e Philippa, por causa do discípulo de Lutero, Philip Melanchton. Os habitantes da vila costumavam ir à igreja apenas para deliciar seus olhos olhando para as duas, cuja radiante beleza não podia ser ocultada, apesar dos melhores esforços das duas irmãs.

Martine captou os olhares de um jovem e arrojado oficial da cavalaria. Quando ela, obstinadamente, resistiu às suas investidas — afinal, quem cuidaria de seu velho pai? — ele foi embora para se casar com uma dama de companhia da rainha Sofia.

Além de ser muito bela, Philippa também possuía a voz de um rouxinol. Quando ela cantava a respeito de Jerusalém, visões reluzentes da cidade celestial pareciam surgir. E aconteceu que Philippa conheceu o mais famoso cantor de ópera daquele tempo, o francês Achille Papin, que estava passando uns dias no litoral por causa da saúde. Enquanto caminhava pelos poeirentos caminhos de uma cidade atrasada, Papin ouviu, para sua grande admiração, uma voz digna da Grand Opera de Paris.

"Deixe-me ensiná-la a cantar de maneira certa", ele insistiu com Philippa, "e toda a França vai cair a seus pés. A realeza vai fazer fila para conhecê-la, e você vai andar de carruagem puxada por cavalos para jantar no magnífico Café Anglais ". Lisonjeada, Philippa consentiu em tomar algumas lições, mas apenas algumas. Cantar a respeito do amor fê-la ficar nervosa, a agitação dentro dela a perturbou mais ainda e, quando uma ária de Don Giovanni acabou com ela sendo enlaçada pelos braços de Papin, os lábios dele roçando os seus, ela soube, sem a menor sombra de dúvida, que estes novos prazeres tinham de ser abandonados. Seu pai escreveu um bilhete desistindo de todas as futuras lições, e Achille Papin voltou a Paris, tão triste como se tivesse perdido um bilhete de loteria premiado.

Passaram-se quinze anos, e muita coisa mudou na vila. As duas irmãs, agora solteironas de meia-idade, tentaram continuar com a missão do falecido pai, mas, sem a sua séria liderança, a seita estilhaçou-se. Um irmão tinha queixas de outro por causa de algum negócio. Espalharam-se boatos de que havia um caso de sexo ilícito há trinta e dois anos envolvendo duas pessoas da comunidade. Duas velhas senhoras não se falavam há uma década. Embora a seita ainda se reunisse aos domingos e cantasse velhos hinos, apenas um punhado de pessoas se davam ao trabalho de ir, e a música havia perdido o seu entusiasmo. Apesar de todos esses problemas, as duas filhas do ministro continuaram fiéis, organizando os cultos e escaldando pão para os anciãos desdentados da vila.

Uma noite, chuvosa demais para que alguém se aventurasse pelas ruas lamacentas, as irmãs ouviram fortes batidas na porta. Quando a abriram, uma mulher caiu desmaiada. Elas a reanimaram e descobriram que não falava dinamarquês. Ela lhes entregou uma carta de Achille Papin. Ao ver aquele nome Philippa enrubesceu, e sua mão tremia enquanto ela lia a carta de apresentação. O nome da mulher era Babette. Ela havia perdido o marido e filho durante a guerra civil na França. Com a vida em perigo, tivera de fugir, e Papin lhe arranjara uma passagem em um navio com esperança de que essa aldeia lhe demonstrasse misericórdia. "Babette sabe cozinhar", dizia a carta.

As irmãs não tinham dinheiro para pagar Babette e, antes de mais nada, não sabiam se deviam ter uma empregada. Desconfiaram de sua arte — os franceses não comiam cavalos e rãs? Mas, por meio de gestos e rogos, Babette amoleceu o coração delas. Ela poderia fazer alguns serviços em troca de quarto e comida.

Durante os doze anos seguintes Babette trabalhou para as irmãs. A primeira vez que Martine mostrou-lhe como cortar um bacalhau e cozinhar a papa, as sobrancelhas de Babette se elevaram e o seu nariz enrugou um pouco, mas nunca questionou suas tarefas. Ela alimentava os pobres na cidade e assumiu todas as tarefas domésticas. Até ajudava nos cultos de domingo. Todos tinham de concordar que Babette trouxe nova vida à estagnada comunidade.

Uma vez que Babette nunca se referia ao seu passado na França, foi uma grande surpresa para Martine e Philippa quando, um dia, depois de doze anos, ela recebeu a primeira carta. Babette a leu, viu as irmãs de olhos arregalados e anunciou de maneira natural que uma coisa maravilhosa lhe havia acontecido. Todos os anos um amigo em Paris renovava o número de Babette na loteria francesa. Nesse ano, o seu bilhete fora premiado. Dez mil francos!

As irmãs apertaram a mão de Babette, parabenizando-a, mas lá no fundo seus corações desfaleceram. Sabiam que logo ela iria embora.

A sorte grande de Babette na loteria coincidiu com o momento em que as irmãs estavam discutindo sobre a celebração de uma festa em homenagem ao centenário do nascimento de seu pai. Babette lhes fez um pedido. Disse que em doze anos nunca lhes pedira nada. Elas assentiram. "Agora, porém, tenho um pedido: Gostaria de preparar uma refeição para o culto de aniversário. Quero cozinhar uma verdadeira refeição francesa."

Embora as irmãs tivessem sérias dúvidas a respeito desse plano, Babette, sem nenhuma sombra de dúvida, estava certa de que nunca havia pedido nenhum favor em doze anos. Que escolha elas tinham a não ser concordar?

Quando o dinheiro chegou da França, Babette fez uma rápida viagem para providenciar os arranjos para o jantar. Nas semanas que se seguiram à sua volta, os habitantes de Norre Vosburg foram surpreendidos com a visão de vários barcos ancorados descarregando provisões para a cozinha de Babette. Trabalhadores empurravam carrinhos de mão cheios de gaiolas com pequenas aves. Caixas de champanhe — champagne! — e vinho logo se seguiram. A cabeça inteira de uma vaca, vegetais frescos, trufas, faisões, presunto, estranhas criaturas que viviam no mar, uma imensa tartaruga ainda viva mexendo a cabeça como a de uma cobra de um lado para o outro — tudo isso acabava na cozinha das irmãs agora firmemente dirigida por Babette.

Martine e Philippa, alarmadas com os preparativos que mais pareciam de bruxa, explicavam a embaraçosa situação aos membros da seita, agora apenas onze pessoas, velhas e grisalhas. Todas manifestavam simpatia com elas. Depois de alguma discussão concordaram em comer a refeição francesa, refreando os comentários para que Babette não entendesse mal. Línguas haviam sido feitas para louvor e ação de graças, e não para satisfazer gostos exóticos.

Nevava no dia 15 de dezembro, o dia do jantar, iluminando a aldeia obscura com um brilho branco. As irmãs ficaram satisfeitas ao saber que um hóspede inesperado se juntaria a elas: a senhora Loewenhielm, de noventa anos de idade, estaria acompanhada de seu sobrinho, o oficial de cavalaria que havia cortejado Martine tempos atrás, e agora era general no palácio real.

Babette havia conseguido emprestadas louças e cristais suficientes, e havia enfeitado o recinto com velas e coníferas. A mesa estava linda. Quando a refeição começou todos os habitantes da aldeia se lembraram de seu pacto e ficaram mudos, como tartarugas ao redor de um lago. Apenas o general comentou a comida e a bebida. "Amontillado!", ele exclamou quando levantou o primeiro copo. "É o mais fino Amontillado que já provei." Quando experimentou a primeira colherada de sopa, o general poderia jurar que era sopa de tartaruga, mas como se acharia tal coisa no litoral da Jutlândia?

"Incrível!", disse o general quando experimentou o próximo prato. "É Blinis Demidoff!" Todos os outros convivas, as faces franzidas por profundas rugas, estavam comendo as mesmas delicadezas raras sem nenhuma expressão ou comentários. Quando o general entusiasmado elogiou o champanhe, um Veuve Cliquot 1860, Babette ordenou ao seu ajudante de cozinha que mantivesse o copo do general cheio o tempo todo. Apenas ele parecia apreciar o que estava diante dele.

Embora ninguém mais falasse a respeito da comida ou da bebida, gradualmente o banquete operou um efeito mágico sobre os habitantes da aldeia. O seu sangue esquentou. Suas línguas se soltaram. Eles falaram dos velhos dias quando o pastor estava vivo e do Natal em que a baía congelou. O irmão que havia enganado o outro nos negócios finalmente confessou, e as duas mulheres que tinham uma rixa acabaram conversando. Uma mulher arrotou, e o irmão ao seu lado disse sem pensar: "Aleluia!".

O general, entretanto, não conseguia falar de nada além da comida. Quando o ajudante da cozinha trouxe o coup de grâce, codornizes preparadas em Sarcophage, o general exclamou que vira tal prato apenas em um lugar na Europa, no famoso Café Anglais em Paris, o restaurante que já fora célebre por ter uma mulher como chefe-de-cozinha.

Cheio de vinho, o apetite satisfeito, incapaz de se conter, o general levantou-se para fazer um discurso. "A misericórdia e a verdade, meus amigos, se encontraram", ele começou. "A justiça e a bem-aventurança se beijaram." E, então, o general fez uma pausa, "pois — conforme comenta Isak Dinesen — ele tinha o hábito de fazer os seus discursos com cuidado, consciente do seu propósito, mas aqui, no meio da simples congregação do pastor, foi como se toda a figura do General Loewenhielm, com seu peito coberto de condecorações, fosse porta-voz de uma mensagem que tinha de ser transmitida". A mensagem do general era graça.

Embora os irmãos e as irmãs da seita não compreendessem totalmente o discurso do general, naquele momento "as vãs ilusões desta terra se dissolveram diante de seus olhos como fumaça, e eles viram o universo como ele realmente era". O pequeno grupo se desfez e saiu para uma cidade coberta de neve brilhante sob um céu recoberto de estrelas.

A "Festa de Babette" termina com duas cenas. Lá fora, os velhos se dão as mãos ao redor da fonte e cantam entusiasmados os velhos hinos da fé. É uma cena de comunhão: a festa de Babette abriu o portão e a graça entrou silenciosamente. Eles sentiram, acrescenta Isak Dinesen, "como se realmente tivessem os seus pecados lavados e tornados brancos como a lã, e nessas vestes inocentes recuperadas faziam brincadeiras como cordeirinhos travessos".

A cena final acontece lá dentro, na bagunça de uma cozinha cheia até o teto de louça para lavar, panelas engorduradas, conchas, carapaças, ossos cartilaginosos, engradados quebrados, cascas de vegetais e garrafas vazias. Babette senta-se no meio da bagunça, parecendo tão desgastada quanto na noite em que chegara doze anos antes. Subitamente, as irmãs percebem que, de acordo com o seu voto, ninguém havia falado com Babette a respeito do jantar.

— Foi um jantar e tanto, Babette — Martine diz para começar. Babette parece distante. Depois de um minuto ela responde: — Eu era a cozinheira do Café Anglais.

—Todos nós vamos-nos lembrar desta noite quando você tiver voltado para Paris, Babette — Martine acrescenta, como se não a tivesse ouvido.

Babette lhes diz que não vai voltar para Paris. Todos os seus amigos e parentes ali foram mortos ou feitos prisioneiros. E, naturalmente, seria muito caro voltar para Paris.

— Mas e os dez mil francos? — as irmãs perguntam.

Então Babette deixa cair a bomba. Ela havia gasto tudo, cada franco dos dez mil que ganhara, na comida que haviam acabado de devorar. — Não se assustem — ela lhes diz. — É isso que um jantar adequado para doze custa no Café Anglais.

No discurso do general, Isak Dinesen não deixa dúvidas de que ela escreveu "A Festa de Babette" não apenas como uma história a respeito de uma excelente refeição, mas como uma parábola da graça: um presente que custa tudo para o doador e nada para o que recebeu. Isto é o que o General Loewenhielm disse aos carrancudos paroquianos reunidos ao redor da mesa de Babette:

Todos nós fomos informados de que a graça deve ser buscada no universo. Mas em nossa loucura humana e nossa visão reduzida imaginamos que a graça divina seja finita... Porém, chega o momento em que nossos olhos são abertos, e vemos e entendemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós a não ser que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão.

Doze anos antes, Babette aparecera entre aquelas pessoas desprovidas de graça. Discípulas de Lutero, ouviam sermões a respeito da graça quase todos os domingos e no restante da semana tentavam obter o favor de Deus com a sua piedade e renúncia. A graça veio a elas na forma de uma festa, a festa de Babette, uma refeição desperdiçando uma vida inteira sobre aqueles que não a haviam merecido, que mal possuíam a faculdade de recebê-la. A graça veio a Norre Vosburg como sempre vem: livre de pagamento, sem cordas amarradas, como oferta da casa.

[Excerto do Capítulo 02 do livro de Philip Yancey, Maravilhosa Graça (São Paulo: Editora Vida, 2001)]

Por falar em dor... (2ª edição)



Quando eu tinha por volta de 13 anos, percorria incansavelmente todos os dias os corredores cheios de estantes da biblioteca da escola que eu estudava em busca de algum título novo, já tinha lido quase tudo que, na minha opinião, prestava, conhecia o acervo muito bem, o suficiente para achar algum título que tivesse sido disponibilizado há pouco tempo. Um dia deparei-me com uma enorme coleção de livros, eu devo ter sido o primeiro aluno que a folheou assim que chegou e foi exposta, a escola era modelo, as doações de livros era uma constante, a coleção era de uma editora que eu não mais ouvi falar, EBAL, Editora Brasil-América. O título da coleção era 15 contos de... faroeste, mitos, evasões célebres, caçadas, guerra, etc, li a coleção toda num período de 10 meses, o que equivale a dizer, cerca de 50 livros com 400 páginas em média, cada um com 15 histórias ou estórias. Todos, posso dizer hoje, eram de excelente qualidade, ainda que o número de livros lidos pareça indicar que eu era mais ávido leitor quando adolescente do que sou hoje, isso não é bem verdade, apenas eu tinha mais tempo para ler, isso fazia também com que eu não fosse muito seletivo com as minhas fontes, o que não é o caso dessas obras que estou tratando agora, eu li de tudo, absolutamente de tudo, hoje como não disponho de tempo, cada vez mais disponho de menos, e me tornei muito mais rabugento e exigente, procuro selecionar com muito mais cuidado o que leio. Vivemos hoje numa época onde a maior preocupação não é com informação, mas sim com a seleção da informação. Antes a questão vital era onde encontrar, hoje é sim de separar o joio do trigo neste século midiático, o que é essencial do que é descartável, olha que existe mais descartável do que essencial.

Os 15 contos do volume da coletânea de mitos gregos, que foi meu primeiro contato com este tipo de literatura, eram todos de ótima qualidade, cada um mais apaixonante que o outro, ainda mais que eu estava lendo, mais especificamente, pela primeira vez os mitos, não era muito familiarizado com o estilo, e isso só aguçava minha curiosidade e minha vontade em ler. Lembro que antes eu havia acompanhado uma série chamada O Minotauro no Sítio do Pica Pau Amarelo, olha que isso faz décadas!, onde tive aulas de mitologia, mas, com um pouco de distorção por conta da transposição de Emília e Cia por meio do Pirlimpimpim.

Confesso que o conto Prometeu Agrilhoado me chamou deveras à atenção, por vários motivos: o título pomposo, o despotismo de Zeus, a injustiça e a omissão dos demais deuses, a coragem de Prometeu e até mesmo o castigo “quase eterno” que ele recebeu, tudo isso só ressaltava para mim o quanto os deuses do Olimpo estavam distantes do meu conceito reformado de divindade, conceito este adquirido nos estudos do Breve Catecismo e no Catecismo Maior de Westminster, documentos basilares da educação calvinista. Eles careciam de atributos realmente divinos, pois o que era mais notório neles eram as características humanas, cheias de falhas de caráter e outras idiossincrasias, que eles revelavam por meio de suas ações, muitas vezes destemperadas e vãs. Hoje volto a ter a atenção despertada mais uma vez por ele, desta feita eu olho por meio de minhas lentes Borderlines, e me surpreendo com a capacidade sobre-humana que Prometeu tem de sofrer uma dor lancinante, diria até que, eterna. Para os que não são iniciados à mitologia grega, vou fazer uma rápida anamnese:

Segundo Hesíodo, um dos maiores poetas gregos, que primava muito pelos épicos, Prometeu, que não era deus na mitologia, mas era imortal por ser um Titã, e seu irmão Epimeteu, receberam dos deuses a tarefa de criar os homens e todos os animais. Epimeteu encarregou-se da obra e Prometeu encarregou-se de supervisioná-la. Na obra, Epimeteu atribuiu a cada animal os dons variados de coragem, força, rapidez, sagacidade; asas a um, garras outro, uma carapaça protegendo um terceiro, etc. Porém, quando chegou a vez do homem, formou-o do barro. Mas como Epimeteu gastara todos os recursos nos outros animais, recorreu a seu irmão Prometeu. Este então roubou o fogo dos deuses e o deu aos homens. Isto assegurou a superioridade dos homens sobre os outros animais. Todavia o fogo era exclusivo dos deuses. Como castigo a Prometeu, Zeus ordenou ao ferreiro Hefesto que o acorrentasse no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia (ou segundo outras fontes, um corvo) dilacerava seu fígado, suas vísceras, que, todos os dias, regenerava-se, já que Prometeu era imortal, e o ciclo destrutivo se reiniciava a cada dia. Esse castigo devia durar 30.000 anos.


Prometeu foi libertado do seu sofrimento por Hércules que, havendo concluído os seus doze trabalhos dedicou-se a uma vida de aventuras. No lugar de Prometeu, o centauro Quíron deixou-se acorrentar no Cáucaso, pois a substituição de Prometeu era uma exigência para assegurar a sua libertação.(1)

Prometeu pode ser um mito, e é óbvio que é um mito, porém para muitos leitores modernos ele é um herói a ser imitado em sua defesa da humanidade, um verdadeiro exemplo a ser seguido, para outros é um ícone, por acreditar que a humanidade precisa e merece receber dotes (ferramentas) que a tornem superior aos demais seres, isso soa meio paradoxal numa época em que a racionalidade do ser humano em preservar o planeta é contestada. Talvez seja a primeira tese de credulidade no ser humano, quem sabe o nascedouro da antropologia, pode ser, mas creio que ele é quem melhor representa hoje uma série de seres anônimos que enfrentam diariamente as suas batalhas eternas: os que sofrem do TPB (Transtorno de Personalidade Borderline) ou simplesmente os Borderlines.

Os Borderlines como Prometeu estão acorrentados, agrilhoados é um termo que talvez caia muito bem, já que “grilhão” é muito mais metafórico que “correntes”, a um destino e a um modo de vida, exceto por uma intervenção “miraculosa” que os liberte disso, que são fatais e inescapáveis.

Os Borderlines foram condenados a sofrerem dores lancinantes por toda a vida, expiam na pele a culpa por atos alheios, os erros foram cometidos por outras pessoas, quando eles ainda eram crianças indefesas, e quando é que eles deixam de ser crianças indefesas? Todos os dias o ciclo se repete: correntes que os manietam, os prendem, que os impedem de esboçar quaisquer reações, nem que seja de simples proteção, as vísceras são expostas mais uma vez, parece que todos podem ver através deles e a águia, ou o fatídico corvo, inexoravelmente volta para continuar com seu trabalho destruidor incansável e interminável. A única certeza que tem é que no dia seguinte tudo o que sofreu hoje, sofrerá de novo, já que não tem como reagir, não sabe como fazê-lo e não pode fazê-lo.

Os Borderlines têm dentro de si um vazio angustiante, um vazio, aparentemente impreenchível, que faz com que tudo na vida se torne um tédio e viva sempre em busca de algo que preencha, que ocupe os espaços, seja de forma sadia ou não, a maioria das vezes não é de forma sadia.

Os Borderlines estão acorrentados a uma forma de vida que não sabe viver sem sentimentos de culpas, algumas vezes esse sentimento é absurdamente inconcebível, mas é assim que é. Se um Border souber que alguém no mundo não é feliz por conta de algo que ele fez, e caso ele não consiga reparar isso, ele se punirá e será infeliz, quem sabe pelo resto da vida.

Os Borderlines são vulneráveis, se deixam prender, permitem que os outros os mantenha como reféns, aceitam abusos, sejam físicos, sejam mentais, principalmente daqueles a quem ama. São seres que são facilmente torturados psicologicamente, são vulneráveis, indefesos, quando tentam se defender, sempre o fazem da forma errada, despropositada e desproporcional à dor que lhes foi causada.

E ainda tem gente que fala em dor, que reclama de dores que lhe sobrevieram em momentos diferentes de sua vida. Não há ninguém nesse mundo que saiba mais o que é viver com uma dor do que um Borderline, dor, vazio e angústia são seus companheiros de toda a jornada, alegria e felicidade quando aparecem é para andarem apenas um pequeno trecho da caminhada.

Mas quem sabe um dia, quem sabe não acontecerá um milagre, e eles deixarão estes fardos para que outrem carregue e suporte? Enquanto isso não acontece, o melhor que se pode fazer é apreciar a paisagem, do alto dessa montanha na qual vivem prisioneiros, o mundo se estende abaixo, alguns dias está enevoado e sombrio, mas noutros dias está ensolarado e cheio de esperança. Ninguém consegue ver o caos no meio da beleza como um Borderline, mas ninguém também consegue ver a beleza no caos melhor do que um Borderline.

[A imagem que ilustra este artigo é Prometeu Acorrentado de Dirck Jaspersz. van Babueren (cerca de 1594/1595–1624), e encontra-se no Rijksmuseum Amsterdam - Domínio Universal)]

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1- Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Prometeu

Parábolas Modernas (III)

Podia-se dizer que ele, o garoto, tinha um talento especial, algo realmente fora do comum: talhar com perfeição objetos em madeira, talhava animais, casas, paisagens, carros, etc, porém, sua maior especialidade era mesmo barcos, esculpia cada um melhor do que o outro, cada detalhe era retratado minunciosamente, passava horas ajustando o leme ou mesmo uma hélice, que as pessoas nunca talvez vissem, já que não levantavam o barco para olhar embaixo, mesmo assim ele fazia questão de apurar aos mínimos detalhes.

Um dia recebeu do pai um pedaço de madeira de lei, a melhor que já tivera em mãos, perfeita para a feitura de um barco, ele passou dias e mais dias apenas olhando para a madeira, criava em sua mente a figura do barco, só depois iria torná-la real, não ousava aproximar-se dela sem algo de concreto em mente, não queria estragá-la, ela era perfeita demais. Era como se o barco já estivesse ali, o que de fato ele queria fazer era tirar de cima do barco aquilo que impedia de ser visto como de fato era.

Alguns dias depois, após realizar algumas tarefas da escola, procurou o local mais ermo perto de sua casa, com a madeira numa mão e as ferramentas na outra, sentou-se debaixo de uma árvore e começou a tornar concreto algo que já existia em sua mente, apenas em sua mente, havia chegado ao esboço mental definitivo de seu projeto, e o tornaria real naquele dia.

Quem o visse esculpindo aquele barco, acharia que ele encontrava-se em transe, tal a concentração que estava. Aquele ato para ele era de tamanha importância, era como a concepção de um filho, era como dar à luz a algo que só existia na sua mente. A forma geral do barco foi concebida naquele dia, o casco, as escotilhas, os mastros, a figura entalhada na proa pontiaguda, a popa quadriculada, o calado, a quilha, os detalhes à bombordo e à estibordo.

Passou dias e mais dias concentrado em cada detalhe que não havia dado forma final ainda, os objetos no convés, as escotilhas, os salva-vidas, as velas, o timão, a âncora. Aquele não seria mais um barco, aquele seria O Barco ou, parafraseando os modernos e beligerantes babilônios, seria o “Pai de todos os barcos”.

Quando a sua obra-prima enfim estava terminada, ele a colocou à mostra, em cima de um móvel na sala. Todos que entravam na casa eram convidados a admirar aquela obra, e todos eram unânimes em admitir que nunca tinham visto nada comparado com aquele barco, era realmente especial.

Um dia, chovia torrencialmente, a água em abundância escorria pelas ruas e formava correntezas nos bueiros e canaletas ao lado das vias públicas, pareciam lagos, para uma mente de criança cheia de aventuras, eram mares em fúria, e foi assim, para saciar a sede de aventuras e para testar seu maior feito que ele pegou o lindo barco e colocou debaixo do braço e se encaminhou para a rua, procurou o local onde a água estava em maior quantidade, e encontrou uma poça enorme, perto de uma pequena ladeira, o fluxo da água era pequeno para a quantidade que se acumulava aí, logo, havia bastante água.

Ele colocou o precioso objeto na água, com um misto de ansiedade e preocupação, queria ver se seu invento se portaria da forma que ele planejara, mas tinha medo que algo o estragasse. O barquinho balançou de um lado para o outro, assim que tocou na água, mas portou-se bem, era perfeito, flutuava sem problemas.

Absorto em admiração, ele não se deu conta que o barquinho dirigia-se perigosamente para uma canaleta que ladeava uma escadaria, e que se entrasse ali, ele dificilmente o alcançaria. Foi exatamente o que aconteceu, quando o fluxo da água puxou o barquinho para aquela descida, ele tentou esboçar uma reação, mas já era tarde, o barquinho descia velozmente por aquela canaleta, ele levantou-se e correu em desabalada carreira, no meio da chuva, da lama, os olhos se fechando por conta da quantidade de água em seu rosto, de repente o barquinho sumiu, havia caído dentro de um bueiro, e certamente estava sendo levado por correntes subterrâneas para algum córrego distante.

Ninguém pode imaginar o quão destroçado ele ficou, perdera alegria da vida, perdeu a vontade de esculpir de novo, perdeu o prazer de olhar os objetos que fizera, as madeiras, algumas de boa qualidade se empilhavam no seu quarto, nem olhava para elas, todos os dias seu pai trazia uma nova, queria trazê-lo de volta daquela apatia, mas parecia inútil.

Meses depois, andava aleatoriamente no comércio da cidade, tinha ido à contragosto com a mãe para comprar presentes de Natal, seu olhar vago, pulava de uma vitrine à outra sem demonstrar o mínimo interesse, até que parou defronte a uma loja de brinquedos, seu olhar parecia de vidro, tudo estava inerte e desinteressado, porém sua atenção foi capturada de forma instantânea, depositado sobre um expositor, dentro de uma vidraça estava o mais belo barco de madeira que ele já vira, imponente, proa em riste por conta da posição que se encontrava, uma luz no teto da vidraça ressaltava ainda mais os seus detalhes, suas cores e formas. Ficou encantando, entrou tomado de ansiedade e nervosismo, pediu para ver o barco, tomou-o em suas mãos, nem ouvia nada, nem via mais nada, virou diversas vezes até que teve certeza, era o seu barco perdido.

Virou-se para o vendedor da loja e já foi decretando, do alto da inocência de um garoto que ainda não foi apresentado ao mundo dos adultos:

- Esse barco fui eu que fiz, eu o perdi na chuva, ele caiu num bueiro, agora eu o encontrei, vou levá-lo comigo.

O vendedor perplexo com aquela revelação, sem saber exatamente o que fazer, tira o barco das mãos da criança e proclama no mesmo tom:

- Não duvido que tenha feito, mas esse aqui foi comprado de um fornecedor, e a menos que pague o valor de R$ 300,00, ele não sairá desta vitrine.

Convencer um garoto que perdeu um barco a pagar pelo mesmo não seria uma tarefa fácil, saiu da loja arrastado pela mãe, sua desolação era total perdia o mesmo barco pela segunda vez.

Quando o pai chegou do trabalho, com mais uma tora de madeira, correu chorando ao seu encontro e gritou que havia encontrado o barquinho, que ele deveria ir buscá-lo, já que sua mãe havia se negado a retirar o objeto da loja.

O pai sentou, ouviu toda a história que a mãe contou e pôs um fim definitivo à história:

- Não é correto ir lá e pegar este barquinho, mesmo que saibamos que foi você que fez, vou todos os dias trabalhar um pouco mais, vou juntar dinheiro, no fim do mês eu lhe dou o valor total e você poderá ir à loja e pegar o seu barquinho.

Isso resolvia em parte o problema, faltavam mais de 15 dias para o fim do mês, será que o barquinho iria ficar aquele tempo todo esperando por ele?

No outro dia, assim que voltou da escola foi à loja e pediu que o vendedor reservasse o barquinho para ele, o vendedor disse que poderia por um dia, mas não por quinze dias. Ele então passou a vigiar o barco todos os dias, ficava na frente da vitrine o dia todo, quando algum cliente demonstrava interesse pelo barquinho, ele o dissuadia apresentando defeitos que só ele mesmo via, dizia às vezes que a madeira mão prestava, que iria rachar, isso durante quinze dias, quinze longos dias.

No último dia do mês, quando já não suportava a ansiedade que o consumia, viu seu pai entrar em casa, com o semblante abatido e cansado, fruto das longas jornadas que fizera nos últimos dias, sentar no sofá, olhá-lo nos olhos e colocar a mão no bolso da camisa e lhe entregar algumas notas surradas de dinheiro, com o adorno da frase:

- Vá buscar o seu barco!

Nenhum criança foi mais feliz naquele dia que aquele garoto, saiu em desabalada carreira em direção à loja, esta ainda estava aberta, todos os funcionários estavam cientes do drama daquela criança, e resolveram estender o horário de atendimento naquele dia, todos fingiam estar ocupados, mas acompanhavam emocionados quando aquele menino entrou na loja, foi ao caixa, depositou as notas sobre o balcão e disse com voz embargada:

- Eu vim buscar meu barquinho!

Todos queriam atendê-lo, o misto de alegria e emoção havia tomado a todos, os que não choravam, enxugavam discretamente as lágrimas furtivas.

Com os olhos marejados de lágrimas quentes, que mais pareciam grossas gotas de mercúrio, que rolavam por sua face, toma o barquinho entre as mãos, olha cada detalhe, cada mínimo detalhe e pronuncia com voz embargada de emoção:

- Barquinho você agora é meu duas vezes, primeiro porque eu te fiz, segundo porque eu te comprei!

A quem pertencemos duas vezes?

[Escutei esta estória quando eu tinha pouco menos de 10 anos, depois disso que nunca mais ouvi-la, eu mesmo a contei várias vezes, resolvi registrá-la para que não se perca].
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