Por um cristianismo não religioso


Por William Felipe Zacarias

Na era pós-cristã, resta ao cristianismo limitar sua existência para fora das paredes do “túmulo de Deus”, metáfora de Nietzsche à igreja institucional. O esvaziamento da instituição pressupõe uma retomada do cristianismo original de Jesus que não fundou uma religião, mas, ao contrário, foi contra ela em suas discussões com fariseus e escribas. Por conseguinte, o que seria a vivência de um cristianismo não religioso? O cristianismo é a comunhão dos ateus.

Quando alguém me diz ser ateu, ironicamente tenho respondido, “pois é, também sou!”. O indivíduo se espanta, pois a resposta parte da boca de um teólogo. De fato, não creio na metafísica, nem no “deus comércio” da prosperidade material. Conforme o sociólogo francês também ateu Michel Maffesoli, “o mais prostituído dos seres é o ser por excelência: é Deus. Com efeito, em numerosas tradições religiosas, é Ele que se dá todo a todos.”(1)

Em grande medida, a teologia grega foi transportada para dentro da teologia judaico-cristã. A música gospel que atualmente faz tanto sucesso no mercado se identifica muito mais com o castigador imponente e vingador Zeus do que com o Deus pessoal judeu. Enquanto Zeus é a-histórico, Ihwh age concretamente na história e inclusive se encarna nela, um escândalo para os gregos, visto que a carne lhes era desprezível por aprisionar a alma. Para os gregos, Deus se fazer carne vai muito além do que se esperaria de uma divindade. O verbo (do gr. Lógos) nunca poderia se reduzir a algo tão nauseabundo. Como bem afirma o brasileiro Clóvis de Barros Filho, “o texto de João propõe que esse lógos – ainda traduzido por verbo – se fez carne e habitou entre nós. Aqui, as concepções de Deus se afastam brutalmente. É inaceitável para a concepção grega dominante da época que o divino da ordem universal tenha se convertido em carne. Na carne de um corpo específico. E essa carne, de que fala o texto, é Jesus, um homem, tido como Filho de Deus.”(2) De repente, Deus e torna em “um indivíduo. Um divino encarnado. Um Deus pessoal. Que podíamos encontrar na rua. Que podíamos bater um papo. Aparentemente, sem frescura. Afinal, dava prosa a qualquer um. E grande atenção aos carentes. Não só de riqueza, mas também de notoriedade, de capital simbólico de afeto etc. Nada a ver com os reis da época.”(3) De repente, Deus não precisa ser procurado no céu, pois está presente na terra. Ao invés do ser humano buscar a Deus, agora Deus busca o ser humano. Os gregos quase infartaram ao ler o v. 14 do primeiro capítulo do evangelho de João. Não é o ser humano que se “religa” a Deus, mas Deus que se ligou ao ser humano. Além disso, acontece uma aberração: o lógos morreu na cruz.

Jesus não fundou uma igreja ou uma religião. Ao contrário, promoveu a caridade e o amor como uma antirreligião. Ele não queria uma fé abstrata, mas concreta com ações práticas no mundo real. Assim como prometera que na casa de seu Pai há muitas moradas, da mesma forma agia cristãmente no mundo secular. Sua mensagem era para os seculares. O próprio Nietzsche o definiu como um “bom mensageiro” que “morreu tal como viveu, como ensinou – não para “redimir os homens”, mas para mostrar como se deve viver.”(4) Conforme Nietzsche, “A prática foi o que ele deixou para a humanidade. Sua atitude diante dos juízes, diante dos esbirros, diante dos acusadores e de todo tipo de calúnia e escárnio – sua atitude na cruz. Ele não resiste, não defende seu direito.”(5) Jesus não trouxe uma nova religião, mas o amor que concede dignidade aos fracos e malogrados do mundo.(6) Por isso que Nietzsche o odeia tanto e chama Jesus de “decadência” do Ocidente, pois sua mensagem fundou e é inexorável ao próprio Ocidente.

Por conseguinte, o processo de secularização da tradição cristã é que permite o próprio cristianismo a continuar existindo em sua forma secular. A secularização é uma invenção necessária do próprio cristianismo que acabou eliminando os fundamentos metafísicos desta própria tradição.

O ateu e filósofo italiano contemporâneo Gianni Vattimo é um dos principais expositores de um cristianismo não religioso adequado à pós-modernidade. Vattimo aplica a kénosis (esvaziamento, cf. Fp 2.7) como vocação fundamental da secularização do cristianismo. O que já era para ser, desde o início, um movimento antirreligioso acabou se tornando mais uma religião dentre tantas outras. Com religião se pressupõe aqui o termo latino religare que literalmente significa religar. Este era o modo pela qual o ser humano buscava, com suas forças, alcançar a transcendência e a salvação. Em Jesus Cristo, ao contrário, é Deus que vem ao ser humano na encarnação do Lógos. O Deus cristão rompeu com a religiosidade sinérgica humana, pois o próprio Deus se doou e se entregou ao ser humano, vindo de encontro a ele aqui mesmo, na terra. Assim, como vocação do cristianismo, a kénosis seria a maneira pela qual o cristianismo consegue continuamente se esvaziar da sua religiosidade e de suas estruturas religiosas, tornando-se um movimento prático que vive e atua no mundo secular, servindo a Deus por meio do próximo. Thimothy Keller afirma sobre a igreja primitiva que “os cristãos mudaram a história e a cultura ao conquistarem as elites e também ao se identificarem profundamente com os pobres.”(7) Tal como Cristo se doou, os cristãos doavam-se a servir com honestidade e alegria, cumprindo sua vocação secular no mundo. Com a institucionalização pós-Constantino, perdeu-se a dimensão secular do cristianismo e do evento de Cristo como kénosis. Na verdade, conforme Westphal, Constantino se tornou em um arquétipo de Cristo, assumindo seu lugar. Cristo passa a ser o Deus que quer conquistar os povos vizinhos para si por meio do poderio militar, a exemplo das cruzadas. O cristianismo torna-se institucionalizado, rígido, litúrgico, preso às paredes do que mais tarde Nietzsche chamaria, como já dito, de “tumulo de Deus.” O evento de Cristo foi transfigurado em religião.

Para o sociólogo Max Weber, foi Lutero quem resgatou a vocação secular do cristianismo através da Befuf (profissão) e da Berufung (vocação): “a profissão concreta do indivíduo vai sendo, com isso, interpretada cada vez mais como um dom especial de Deus, e, a posição que ele oferece na Sociedade, como preenchimento da vontade divina.”(8)

Para Vattimo, “a kénosis de Deus, que é o cerne da história da salvação, ela não deverá mais ser pensada como fenômeno de abandono da religião, e sim como atuação, ainda que paradoxal, da sua íntima vocação.”(9) Logo, para Vattimo, a kénosis neotestamentária é o pressuposto da atuação cristã no mundo secular. A lógica é a seguinte: Cristo encarnou e atuou no mundo em caridade. A igreja é o corpo de Cristo, portanto, deve se encarnar no mundo com ações cristãs, servindo a Deus por meio do próximo. Por conseguinte, vive-se o cristianismo não religioso no bom cumprimento da profissão secular, seja pedreiro, carpinteiro, médico, agricultor, alfaiate, programador, fotógrafo, gari, bombeiro, etc.

É preciso mencionar que, conforme Euler Renato Westphal, a “característica de toda a tradição protestante é a secularização, que enfatiza a racionalidade científica e técnica, a liberdade de pensamento e a autonomia para com as instituições.”(10) Não é à toa que grandes pensadores e cientistas da Modernidade eram ou tinham suas raízes no cristianismo, como, por exemplo, “Immanuel Kant, Schelling, Thomas Malthus, Friedrich Nietzsche e tantos outros.”(11) Foi o teólogo e pastor alemão pietista Friedrich Ernst Schleiermacher quem fundou a universidade moderna a partir da Universidade de Berlim.(12) Também as universidades modernas americanas surgiram a partir da Reforma, como Harvard, Princeton e Yale.(13)

A Pós-Modernidade rompeu não só com a Modernidade, mas também com a Pré-Modernidade que constituiu a Modernidade. O marco divisor entre Modernidade e Pós-Modernidade é anúncio nietzschiano da morte de Deus. Foi Nietzsche quem abriu o “mar vermelho” que separa a Modernidade da Pós-Modernidade. Para Nietzsche, a única maneira de superar a decadência ocidental é o estabelecimento de uma nova cultura a partir da era trágica dos gregos, especialmente na adoração do deus caótico e hedonista Dionísio. O Übermensch só pode sobreviver nesta nova cultura substituta da humanista e decadente. Para Nietzsche, o Deus que se fez fraco é uma vergonha, um “golpe de gênio do cristianismo” onde Deus se tornou “o único que pode redimir o homem daquilo que para o próprio homem se tornou irredimível – o credor se sacrificando por seu devedor, por amor (é de se dar crédito?), por amor a seu devedor!...”(14) Por conseguinte, o projeto trans-humanista do Übermensch pode ser executado somente na superação do mito decadente cristão-ocidental.

Entretanto, como afirma Marcus Throup, “No fim das contas, o velhinho da floresta riu por último porque Zaratustra havia se equivocado: Deus não morreu.”(15) Realizar bem a profissão é uma atitude concreta do genuíno cristianismo não religioso, servindo a Deus por meio do próximo. Mas também, como teólogo cristão, não excluo o cristianismo religioso com seus dogmas, ritos, hinologia, experiências, etc., desde que sejam legítimos e não abusem da fragilidade humana, especialmente financeira. Sou ateu deste deus da prosperidade financeira tão pregado por aí, que em sua orgia realiza transações com tudo e todos. Ao contrário, creio no lógos que se fez carne, esvaziou-se, serviu e lavou os pés de humanos simples sem cobrar nada, além de morrer em uma cruz de forma tão cruel. Elimino de minha crença a metafísica de Zeus. O Deus que se fez fraco (existindo ou não) é uma força simbólica incrível em momentos de fraqueza, pois ele me entende e até morrer ele sabe como é. O Deus que se fez fraco está no fundamento do Ocidente e confere dignidade aos pobres, fraco e malogrados da sociedade. O “Jesus constantiniano” não tem nada a ver com isso. Querido leitor, acabei de lhe dar uma chave interpretativa. Agora é com você. O objeto de sua fé deveria ser repensado.

Referências:
(1) MAFFESOLI, Michel. A Sombra de Dioniso. 2. ed. São Paulo: Zouk, 2005. p. 19.
(2) BARROS FILHO, Clóvis. A vida que vale a pena ser vivida. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 100.
(3) BARROS FILHO, 2014. p. 101.
(4) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: LPM, 2013. p. 399.
(5) NIETZSCHE, 2013. p. 399.
(6) Cf. BARROS FILHO, Clóvis. Somos Todos Canalhas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015. p. 114.
(7) KELLER, Thimothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 179.
(8) WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Livraria Pioneira, 1967. p. 57.
(9) VATTIMO, Gianni. Depois da Cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 12. p. 35.
(10) WESTPHAL, Euler Renato. “A pós-modernidade e as verdades universais: a desconstrução dos vínculos e a descoberta da alteridade.” in: CARVALHO LAMAS, Nadja de; RAUEN, Taiza Mara (orgs.). (Pro)Posições Culturais. Joinville: Univille, 2010. p. 15.
(11) WESTPHAL, Euler Renato. Brincando no Paraíso Perdido. São Bento do Sul: União Cristã, 2006. p. 46.
(12) Cf. ZILSE, Raphaelson Steven. Base Filosófica para uma Estrutura Dogmática?. In: SCHWAMBACH, Claus (coord.). Vox Scripturae. São Bento do Sul, v. XXI, n. II, 2013. p. 144.
(13) Cf. WESTPHAL, 2006. p. 43-44.
(14) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.. p. 74-75.
(15) THROUP, Marcus. Igreja na berlinda. Curitiba: Encontro, 2011. p. 45.




Invenção do Amor

Mundo dos espertalhões


Os Três Poderes estão se agitando freneticamente, se chocando e confrontando, por conta da Lava-Jato visivelmente. O Congresso tenta “redimir-se”, respondendo ao Supremo agressivamente, em retaliação, em parte por uma boa causa – de fato o Judiciário posta-se como entidade acima da lei, está acobertado de privilégios escusos (inconstitucionais, ainda que estejam na Constituição), está “moralizando” o Congresso (que, sim, não tem moral nenhuma, mas a moral do Judiciário é extremamente ambígua), judicializando procedimentos que deveriam ser resolvidos na Casa do Povo (que sarcasmo!). Como observador atônito, devo dizer que me espanta e incomoda o cenário de um jogo de espertalhões, onde ninguém é santo, ou não tem moral para moralizar nada. Sempre considerei o Judiciário o lado mais podre dos Poderes da República, porque tem a última palavra que, tendenciosamente, se volta a favor de si mesmo, em especial para regalias inconfessáveis, como simples aposentadoria no caso de condenação de Juiz, férias de dois meses, os salários mais elevados do país e repletos de penduricalhos, além de manobras feitas nas brechas da lei que eles mesmos arrombam. Macula o Supremo ser composto por gente “indicada”, um grupo inventado e aí ajuntado de maneira estranha, vitalícia e que pratica uma justiça lentíssima, suspeitíssima, ineptíssima. Alguma coisa mudou ultimamente, depois que Barbosa por aí passou, um evento muito memorável: deslanchando o processo do Mensalão, inaugurou alguma capacidade de reação que acabou eclodindo na Lava-Jato, uma das maiores conquistas dos últimos tempos no Judiciário.

Mas isto não refresca a suspeita que temos sobre o Judiciário, também no grupo de Curitiba, porque é constituído, em parte pelo menos, de oficiais apaniguados, privilegiados, que não se cansam de defender e degustar regalias salariais, e, em parte, por jovens (ou metidos a jovens) afoitos, sôfregos, que apreciam estardalhaço e barulho, holofote, ao invés do comedimento indispensável para se fazer justiça. Seria o caso lembrar que no Paraná, Juízes processaram jornalistas que colocaram o dedo nesta ferida fétida dos salários imorais da magistratura brasileira, só estancados por interferência do Supremo. Ao mesmo tempo, Carmen Lúcia, a franciscana do Supremo, ainda que transmita em seu posicionamento uma expectativa tocante (que se aproxima do Papa Francisco), não deixa de defender “a turma”, exalando corporativismo sonso – deveria combater abertamente privilégios do Judiciário, porque ela sabe, mais que ninguém, que poder público privilegiado deixa de ser “público”. O poder do Judiciário não é “público” – foi assaltado pelos próprios ocupantes do poder, cujo senso por salário é infinitamente superior ao senso por justiça. Não dá para confiar. A Justiça precisa calçar as sandálias franciscanas, sim, como sugere Carmen Lúcia, que são a únicas que servem a “fazedores honestos de justiça”. Não posso deixar de recordar que um Ministro deu um golpe sujo no julgamento sobre se réus poderiam ocupar cargos na linha sucessória presidencial, quando pediu vistas, mesmo havendo já maioria de votos – é muito difícil não suspeitar de conluio inacreditável, abjeto, sórdido. É o que dá ser “indicado” e dever favores...

Na outra ponta temos um Congresso desarvorado, porque está na iminência de ser devorado pela Lava-Jato. A delinquência é de tal monta que a saída foi anistiar o caixa-dois de campanha, não porque não seja crime, mas porque, tendo sido cometido por quase todos, “não deveria ser visto como crime”! As dez medidas propostas para sanear a corrupção na República (com mais de 2 milhões de assinaturas) foram desfiguradas ostensiva e porcamente, num recado vergonhoso de legislação em causa própria. A anistia não entrou porque o entrevero entre Calero e Geddel desmoralizou a ideia, mas outras manobras foram contempladas, desvelando o quanto o Congresso é um “poder paralelo”, no sentido pejorativo de uma republiqueta dentro da República. Punir abuso de poder sempre cabe, não sendo correta a alegação de Moro e sua turma de que não cabe discutir isso agora. Cabe sim. Pode-se reclamar de pressa, açodamento, texto mal elaborado; mas retirar privilégios sujos do Judiciário é preciso urgentemente. Um castelo de juízes e procuradores não convence a ninguém, porque, mesmo praticando coisas muito nobres também, o eco da autodefesa sempre macula o cenário. O tom de elite intocável, até mesmo acima da lei, é escandaloso, para dizer o mínimo. Usando uma expressão apropriada, quer-se lavar a República com água suja.

O choque entre Calero e Geddel escancarou porões da República nada edificantes. É lamentável que o Presidente perca seu tempo em acomodar pleitos inconfessáveis de um Ministro que força a invasão de área urbana tombada e sempre sugeriu anistiar o caixa-dois, possivelmente para salvar a própria pele. Não dá para confiar no governo (Executivo) – num momento paroxístico como esse, é preciso ter moral para impor moral. Nenhum Poder tem. Todos querem lavar a República com água imunda. Corrupção é o combustível político do dia a dia, endêmica, sistemática, nojenta. A razão da política é o enriquecimento ilícito e desbragado; não se roubam restos, gorjetas, mas tudo que se pode, astronomicamente. O mais triste é constatar que nenhum Poder consegue se autorreformar, tamanha é a devassidão. Não adianta propor uma Constituinte exclusiva para refazer um pacto federativo contra a corrupção, porque não faríamos nada diferente da atual Constituição: um poço de proteções corporativistas, onde todo grupo privilegiado exarou seus privilégios. Precisamos de uma Constituinte que venha de fora: um grupo, digamos de 50 pessoas (25 juristas e 25 não juristas), que fique fechado por 3 meses e produza uma constituição mais “objetiva”, voltada para o bem comum, estritamente. Onde o Judiciário, o Legislativo e o Executivo metem a mão, sai porcaria. Não tenho condição de esperar outra coisa.

Quando se mostra tão urgente e indispensável conter gastos públicos, porque a conta não fecha, não se vê um Judiciário tomando iniciativa de arrumar sua casa, ou o Congresso. Longe disso. A conta vai ficar com a população, com os assalariados que já são “assaltados” no próprio contracheque. O Rio de Janeiro escancarou esta manobra: pretendia-se taxar os servidores com até 30% para a previdência; somando-se o imposto de renda, resta meio salário, se tanto! Embora sempre se possa aludir excesso de servidores, acomodação de muitos de modo ilegal etc., não podem pagar a conta sozinhos. Sequer estamos conseguindo acabar com os supersalários, algo abjeto e já disseminado, defendido como legal por conta de “brechas da lei e garantias constitucionais”. Gostaria de lembra que lei com brecha e garantias constitucionais predatórias não podem ser “constitucionais”. Uma Constituição que permite tais excrescências nunca foi “constitucional”. Aí Ulysses Guimarães nos deixou um legado pérfido – esta Constituição não é “cidadã”, é corporativista, de privilegiados para privilegiados. Foi feita a dedo para ter brechas e proteções inconfessáveis.

Quando um país quebra, todos precisam pagar a conta. Clama aos céus que o acerto de contas comece pelo mais fraco, não pelos Juízes, deputados, em especial pelos supersalários e contratos lesivos com empresas. O Judiciário nunca fez qualquer gesto para recompor a probidade institucional. Encastelou-se e cospe de cima como casta blindada. É uma pena. A turma da Lava-Jato deveria ter incluído nas dez medidas o saneamento do Judiciário, para ter um pingo de moral. É imbecilizante insinuar que o Judiciário é um poder impoluto a ponto de poder restabelecer a moral pública e que o grupo de Curitiba é o bastião da probidade. Tem feito grande serviço, mas não consegue evitar a cortina de fumaça da autoproteção: uma elite assaltante que usa o direito à última palavra para benefício próprio. Não tem a moral que proclama. Não está a serviço da República. Está a seu serviço próprio. Uma república da elite judiciária também é de “banana”.

Não podemos desistir da democracia – embora com todos esses problemas, é o regime preferível, de longe. Mas é nessas horas que notamos o quanto é uma flor frágil. Não conseguimos sair da “sociedade do privilégio”: ser tratado de modo igual é coisa de pobre. Para ser Juiz é preciso ter supersalário, carro oficial, séquito, honrarias, acréscimos salariais de toda sorte, porque – assim parece – a competência é medida pela ostentação. Não conseguimos montar a ideia de que Juiz, para ter o acato, respeito e mesmo reverência da sociedade, não deve ter carro oficial, salários suspeitos, favorecimentos imorais, posar de elite inatingível, ser dono da lei. Justiça apaniguada não pode ser justa. O Congresso é incapaz de fazer uma faxina profunda em seus desvarios clássicos, reduzindo o número de deputados e senadores (por exemplo, manter apenas senadores, três por estado), tendo 12 salários anuais (sem estatuto próprio previdenciário), dispensando moradia subsidiada ou funcional, pagando suas contas todas com o salário, viajando com recursos próprios etc. Deputado, senador privilegiados são sanguessugas.

O Executivo também não se autorreforma. Não consegue nem conter os supersalários, cortando todos que ultrapassam o teto constitucional, acatando apelos sórdidos de brechas da lei ou garantias constitucionais, totalmente inconstitucionais. É inchado em quase todos os órgãos. Se olhássemos pela exiguidade/precariedade dos serviços oferecidos – digamos educação pública, saúde pública, segurança pública... – não justifica nem um terço dos gastos. Se quase ninguém aprende na escola, temos um sistema de ensino inepto, fraudulento, imbecilizante, e caríssimo. A população paga para ser maltratada. Mas, se houver, cá e lá, alguma oferta qualitativa – digamos, universidades federais de qualidade mais elevada – é logo feita botim dos mais ricos, sob a alegação de mérito (porque passam nos vestibulares). Sociedade do privilégio é assim – o Estado existe para proteger o mercado e a elite econômica e política. Povo é capacho – quando muito tem Bolsa-Família.

Vejo na web a celeuma em torno da ida do Presidente para os funerais do jogadores mortos da Chapecoense (hoje é dia 3 de dezembro) – vai até ao aeroporto; não vai ao campo do time por temer protesto. E Josias Souza avisa: “Talvez Temer viva o próprio velório” (josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br). A que ponto chegamos! No dia 1o de dezembro Joaquim Barbosa avisava que o “governo Temer corre o risco de não chegar ao fim” (http://www1.folha.uol.com.br/poder), por conta de um “impeachment Tabajara” (uma encenação anunciada). Um governo usurpador que não consegue legitimar-se. Tudo água suja. Talvez seja por isso também que a economia não consegue “arrancar” – falta mínima confiabilidade no governo ou nos Poderes, de modo geral. “Deitado eternamente em berço esplêndido” – um país que, ao contrário do refrão cínico, não “é para todos”; é para alguns, políticos, empresários, juízes, funcionários públicos apaniguados... Somos totalmente reféns dessa elite perversa, espertalhona.

Por Pedro Demo
Fonte:http://pedrodemo.blogspot.com.br/2016/12/ensaio-111-mundo-dos-espertalhoes.html

Quem se importa?



QUEM SE IMPORTA (2012) on Vimeo from Vialana Salatino on Vimeo.

Meu amigo Fidel, que gostava de cosmologia e de boa conversa


Perco um grande amigo. Nosso último encontro foi a 3 de agosto, quando completou 90 anos. Recebeu-me em sua casa, em Havana, e, à tarde, fomos ao Teatro Karl Marx, onde um espetáculo musical o homenageou. Embora tivesse o organismo debilitado, caminhou sem apoio da entrada do teatro à sua poltrona.

Com Fidel, desaparece o último grande líder político do século XX, o único que logrou sobreviver mais de 50 anos à própria obra: a Revolução Cubana. Graças a ela, a pequena ilha deixou de ser o prostíbulo do Caribe, explorado pela máfia, para se tornar uma nação respeitada, soberana e solidária, que mantém profissionais da saúde e da educação em mais de cem países, inclusive o Brasil.

Conheci Fidel em 1980, em Manágua. O que primeiro chamava atenção era sua imponência. Parecia maior do que era, e a farda lhe revestia de um simbolismo que transmitia autoridade e decisão. A impressão era de que qualquer poltrona era demasiadamente estreita para o seu corpanzil. Quando ingressava num recinto era como se todo o espaço fosse ocupado por sua aura. Todos ficavam esperando que ele tomasse a iniciativa, escolhesse o tema da conversa, fizesse uma proposta ou lançasse uma ideia, enquanto ele persistia na ilusão de que sua presença era uma a mais e que o tratariam sem cerimônias e reverências. Como na canção de Cole Porter, ele devia se perguntar se não seria mais feliz sendo um simples homem do campo, sem a fama que o revestia. Certa ocasião, o escritor Gabriel García Márquez, de quem era grande amigo, perguntou se ele sentia falta de algo. Fidel respondeu: “De ficar parado, anônimo, numa esquina.”

Outro detalhe que surpreendia em Fidel era o seu timbre de voz. O tom em falsete contrastava com a corpulência. Às vezes soava tão baixo que seus interlocutores tinham de apurar os ouvidos. E quando falava, não gostava de ser interrompido. Porém, não monopolizava a palavra. Jamais conheci alguém que gostasse tanto de conversar como ele. Desde que não fossem encontros protocolares, nos quais as mentiras diplomáticas ressoam como verdades definitivas, Fidel não sabia receber uma pessoa por 10 ou 20 minutos.

A convite de Fidel e dos bispos de seu país, atuei no resgate da liberdade religiosa em Cuba, facilitado pela entrevista contida no livro “Fidel e a religião” (Fontanar), na qual o líder comunista aprecia positivamente o fenômeno religioso.

Não saberia dizer quantas conversas privadas tive com Fidel. Uma curiosidade é que este homem, capaz de entreter a multidão por três ou quatro horas, detestava, como eu, falar ao telefone. Nas poucas vezes que o vi ao aparelho sempre foi sucinto.

Minhas frequentes viagens a Havana estreitaram nossos laços de amizade. No prefácio que generosamente escreveu para a minha biografia, lançada esta semana pela Civilização Brasileira, Fidel ressalta que defendo Cuba “sem deixar de sustentar pontos discrepantes ou diferentes dos nossos”. Na década de 1980, quando expressei críticas à Revolução, o Comandante frisou: “É seu direito. E mais: o seu dever”.

Todas as vezes que eu o visitava em sua casa, depois que deixou o governo, levava-lhe chocolates amargos, seu preferido, castanhas e livros em espanhol sobre cosmologia e astrofísica. Conversávamos sobre a conjuntura política mundial, a sua admiração pelo Papa Francisco e, em especial, sobre cosmologia. Contei-lhe que ao visitar Oscar Niemeyer, pouco antes de sua morte, este me disse, animado, que toda semana reunia em seu escritório um grupo de amigos para receber aulas de cosmologia. O fato de dois eminentes comunistas se interessarem tanto pelo tema, comentei com Fidel, me fez recordar uma cena do filme “A teoria de tudo”, no qual o intérprete do físico inglês Stephen Hawking, ainda estudante, pergunta à jovem com quem iniciava o namoro: “O que você estuda?” “História”, ela responde, e devolve a curiosidade. Ele informa: “Estudo cosmologia". “O que é isso?”, indaga ela. E ele frisa: “uma religião para ateus inteligentes.”

Tenho para mim que Fidel, aluno interno de colégios religiosos ao longo de dez anos , abandonou a fé cristã ao abraçar o marxismo. De alguns anos para cá deixou-me a nítida impressão de que se tornara agnóstico. Várias vezes me pediu, ao nos despedirmos: “Ore por nós.” Tenho certeza de que Fidel transvivenciou feliz com a sua coerência de vida.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/artigo-meu-amigo-fidel-que-gostava-de-cosmologia-de-boa-conversa-20548436#ixzz4ROGzN4bL 
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Hallelujah

I've heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music do you?
It goes like this, the fourth, the fifth
The minor fall and the major lift
The baffled King composing Hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty in the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair
She broke your throne, she cut your hair
And from your lips she drew the hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Now, Maybe there's a God above
And all I ever learned from love
Is how to shoot at someone who outdrew you
But it's not a cry you can hear at night
It's not somebody who's seen the light
It's a cold and it's a broken hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Maybe I've been here before
I know this room, I've walked this floor
I used to live alone before I knew you
And I've seen your flag on the marble arch
Love is not a victory march
It's a cold and it's a broken hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

There was a time you let me know
What's really going on below
But now you never show it to me, do you?
And remember when I moved in you
And the Holy Dark was moving too
And every breath we drew was hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah



Ouvi dizer que existe um acorde secreto
Que Davi tocou e alegrou o senhor
Mas você não liga muito para música, certo?
E vai assim, a quarta, a quinta
O menor cai e o grande ascende
O Rei frustrado compondo Aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia, aleluia

Sua fé era grande, mas precisava de provas
Você a viu banhando-se no telhado
Sua beleza ao luar derrubou você
Ela te amarrou numa cadeira de cozinha
Ela destruiu seu trono, ela cortou seu cabelo
E dos seus lábios tirou o aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia, aleluia

Agora, talvez haja um Deus acima
E tudo o que aprendi com o amor
É como atirar naquele que desarmou você
Mas isto não é um choro que podes ouvir a noite
Não é alguém que tenha visto a luz
É um frio e quebrado aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia, aleluia

Talvez eu tenha estado aqui antes
Eu conheço este quarto, eu já andei nesse chão
Eu costumava viver sozinho antes de te conhecer
E eu vi sua bandeira na arca de mármore
Amor não é uma marcha de vitória
É um frio e quebrado aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia, aleluia

Tinha um tempo em que você me deixava saber
O que realmente se estava a passar
Mas agora você não me mostra mais, não é?
Eu me lembro quando me apaixonei por você
E o Escuro sagrado também se movia
E cada cada respiração nossa era aleluia

Aleluia, aleluia, aleluia, aleluia

Quarenta anos da Teologia da Libertação


Teologia da Libertação celebra neste ano de 2011 40 anos de existência. Em 1971 Gustavo Gutiérrez publicava no Peru seu livro fundador “Teologia da Libertação.Perspectivas”. Eu publicava também em 1971 em forma de artigos, numa revista de religiosas – Grande Sinal – para escapar da repressão militar o meu Jesus Cristo Libertador, depois lançado em livro. Ninguém sabia um do outro. Mas estávamos no mesmo espírito. Desde então surgiram três gerações de teólogos e teólogas que se inscrevem dentro da Teologia da Libertação. Hoje ela está em todos os continentes e representa um modo diferente de fazer teologia, a partir dos condenados da Terra e da periferia do mundo.Aqui vai um pequeno balanço destes 40 anos de prática e de reflexão libertadoras.

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A Teologia da Libertação participa da profecia de Simeão a respeito do menino (Jesus): ela será motivo de queda e de elevação, será um sinal de contradição (Lc 2,34). Efetivamente a Teologia da Libertação é uma teologia incomprendida, difamada, perseguida e condenada pelos poderes deste mundo. E com razão. Os poderes da economia e do mercado a condenam porque cometeu um crime para eles intolerável: optou por aqueles que estão fora do mercado e são zeros econômicos. Os poderes eclesiásticos a condenaram por cair numa “heresia” prática ao afirmar que o pobre pode ser construtor de uma nova sociedade e também de outro modelo de Igreja. Antes de ser pobre, ele é um oprimido ao qual a Igreja deveria sempre se associar em seu processo de libertação. Isso não é politizar a fé mas praticar uma evangelilzação que inclui também o político. Consequentemente, quem toma partido pelo pobre-oprimido sofre acusações e marginalizações por parte dos poderosos seja civis, seja religiosos.

Por outro lado, a Teologia da Libertação representa uma benção e uma boa nova para os pobres. Sentem que não estão sós, encontraram aliados que assumiram sua causa e suas lutas. Lamentam que o Vaticano e boa parte dos bispos e padres construam no canteiro de seus opressores e se esquecem que Jesus foi um operário e pobre e que morreu em consequência de suas opções libertárias a partir de sua relação para com o Deus da vida que sempre escuta o grito dos oprimidos.

De qualquer forma, numa perspectiva espiritual, é para um teólogo e uma teóloga comprometidos e perseguidos uma honra participar um pouco da paixão dos maltratados deste mundo.

1. A centralidade do pobre e do oprimido
O punctum stantis et cadentis da Teologia da Libertação é o pobre concreto, suas opressões, a degradação de suas vidas e os padecimentos sem conta que sofre. Sem o pobre e o oprimido não há Teologia da Libertação. Toda opressão clama por uma libertação. Por isso, onde há opressão concreta e real que toca a pele e faz sofrer o corpo e o espírito ai tem sentido lutar pela libertação. Herdeiros de um oprimido e de um executado na cruz, Jesus, os cristãos encontram em sua fé mil razões por estarem do lado dos oprimidos e junto com eles buscar a libertação. Por isso a marca registrada da Teologia da Libertação é agora e será até o juizo final: a opção pelos pobres contra sua pobreza e a favor de sua vida e liberdade.

A questão crucial e sempre aberta é esta: como anunciar que Deus é Pai e Mãe de bondade num mundo de miseráveis? Este anúncio só ganhará credibilidade se a fé cristã ajudar na libertação da miséria e da pobreza. Então tem sentido dizer que Deus é realmente Pai e Mãe de todos mas especialmente de seus filhos e filhas flagelados.

Como tirar os pobres-oprimidos da pobreza, não na direção da riqueza, mas da justiça? Esta é uma questão prática de ordem pedagógico-política. Identificamos três estratégias.

A primeira interpreta o pobre como aquele que não tem. Então faz-se mister mobilizar aqueles que têm para aliviar a vida dos que não têm. Desta estratégia nasceu o assistencialismo e o paternalismo. Ajuda mas mantém o pobre dependente e à mercê da boa vontade dos outros. A solução tem respiração curta.

A segunda interpreta o pobre como aquele que tem: tem força de trabalho, capacidade de aprendizado e habilidades. Importa formá-lo para que possa ingressar no mercado de trabalho e ganhar sua vida. Enquandra o pobre no processo produtivo, mas sem fazer uma crítica ao sistema social que explora sua força de trabalho e devasta a natureza, criando uma sociedade de desiguais, portanto, injusta. É uma solução que ajuda favorece o pobre, mas é insuficiente porque o mantém refém do sistema, sem libertá-lo de verdade.

A terceira interpreta o pobre como aquele que tem força histórica mas força para mudar o sistema de dominação por um outro mais igualitário, participativo e justo, onde o amor não seja tão difícil. Esta estratégia é libertária. Faz do pobre sujeito de sua libertação. A Teologia da Libertação, na esteira de Paulo Freire, assumiu e ajudou a formular esta estratégia. É uma solução adequada à superação da pobreza. Esse é o sentido de pobre da Teologia da Libertação.

Só podemos falar de libertação quando seu sujeito principal é o próprio oprimido; os demais entram como aliados, importantes, sem dúvida, para alargar as bases da libertação. E a Teologia da Libertação surge do momento em que se faz uma reflexão crítica à luz da mensagem da revelação desta libertação histórico-social.

2.Teologia da Libertação e movimentos por libertação
Entretanto, só entenderemos adequadamente a Teologia de Libertação se a situarmos para além do espaço eclesial e dentro do movimento histórico maior que varreu as sociedades ocidentais no final dos anos 60 do século passado. Um clamor por liberdade e libertação tomou conta dos jovens europeus, depois norte-americanos e por fim dos latino-americanos.

Em todos os âmbitos, na cultura, na política, nos hábitos na vida cotidiana derrubaram-se esquemas tidos por opressivos. Como as igrejas estão dentro do mundo, membros numerosos delas foram tomados por este Weltgeist. Trouxeram para dentro das Igrejas tais anseios por libertação. Começaram a se perguntar: que contribuição nós cristãos e cristãs podemos dar a partir do capital específico da fé cristã, da mensagem de Jesus que se mostrou, segundo os evangelhos, libertador? Esta questão era colocada por cristãos e cristãs que já militavam politicamente nos meios populares e nos partidos que queriam a transformação da sociedade.

Acresce ainda o fato de que muitas Igrejas traduziram os apelos do Concilio Vaticano II de abertura ao mundo, para o contexto latino-americano, como abertura para o sub-mundo e uma entrada no mundo dos pobres-oprimidos. Deste impulso, surgiram figuras proféticas, nasceram as CEBs, as pastorais sociais e o engajamento direto de grupos cristãos em movimentos políticos de libertação. Para muitos destes cristãos e cristãs e mesmo para uma significativa porção de pastores não se tratava mais de buscar o desenvolvimento. Este era entenddo como desenvolvimento do subdsenvolvimento, portanto, como uma opressão. Demandava, portanto, um projeto de libertação.

Portanto, a Teologia da Libertação não caiu do céu nem foi inventada por algum teólogo inspirado. Mas emergiu do bojo desse movimento maior mundial e latino-americano, por um lado político e por outro eclesial. Ela se propôs pensar as práticas eclesiais e políticas em curso à luz da Palavra da Revelação. Ela comparecia como palavra segunda, crítica e regrada, que remetia à palavra primeira que é a prática real junto e com os oprimidos. Alguns nomes seminais merecem ser aqui destacados que, por primeiro, captaram a relevância do momento histórico e souberam encontrar-lhe a fórmula adequada, Teologia da Libertação: Gustavo Gutiérrez do Peru, Juan Luiz Segundo do Uruguai, Hugo Asmann do Brasil e Enrique Dussel e Miguez Bonino, ambos da Argentina. Esta foi a primeira geração. Seguiram-se outras.

3. Os muitos rostos dos pobres e oprimidos
A Teologia da Libertação partiu diretamente dos pobres materiais, das classes oprimidas, dos povos desprezados como os indígenas, negros marginalizados, mulheres submetidas ao machismo, das religiões difamadas e outros portadores de estigmas sociais. Mas logo se deu conta de que pobres-oprimidos possuem muitos rostos e suas opressões são, cada vez, específicas. Não se pode falar de opressão-libertação de forma generalizada. Importa qualificar cada grupo e tomar a sério o tipo de opressão sofrida e sua correspondente libertação ansiada.

Desmascarou-se o sistema que subjaz a todas estas opressões, construído sobre o submetimento dos outros e da depredação da natureza. Dai a importância do diálogo que a Teologia da Libertação conduziu com a economia políica capitalista. De grande relevância crítica foi a releitura da história da América Latina a partir das vítimas, desocultando a perversidade de um projeto de invasão coletivo no qual o colono ou o militar vinha de braço dado com o missionário. Esse casamento incestuoso produziu, segundo o historiador Oswald Spengler, o maior genocídio da história. Até hoje nem as potências outrora coloniais nem a Igreja institucional tiveram a honradez de reconhecer esse crime histórico, muito menos de fazer qualquer gesto de reparação.

Sem entrar em detalhes, surgiram várias tendências dentro da mesma e única Teologia da Libertação: a feminista, a indígena, a negra, a das religiões, a da cultura, a da história e da ecologia. Logicamente, cada tendência se deu ao trabalho de conhecer de forma crítica e científica seu objeto, para poder retamente avaliá-lo e atuar sobre ele de forma libertadora à luz da fé.

4. Como fazer uma teologia de libertação
Aqui cabe uma palavra sobre o como fazer uma teologia que seja libertadora, quer dizer, cabe abordar o método da Teologia da Libertação. O método seja talvez uma de suas contribuições mais notáveis que este modo de fazer teologia trouxe ao quefazer teológico universal. Parte-se antes de mais nada de baixo, da realidade, a mais crua e dura possível, não de doutrinas, documentos pontifícios ou de textos bíblicos. Estes possuem a função de iluminação mas não de geração de pensamento e de práticas.

Face à pobreza e à miséria, a primeira reação foi, tipicamente, jesuânica, a do miserior super turbas, de compaixão que implica transportar-se à realidade do outro e sentir sua paixão. É aqui que se dá uma verdadeira experiência espiritual de encontro com aqueles que Bartolomeu de las Casas no México e Guamán Poma de Ayala no Peru chamavam de os Cristos flagelados da história. Há um encontro de puro espírito com o Cristo crucificado que quer ser baixado da cruz. Esta experiência espiritual de compaixão só é verdadeira se der origem a um segundo sentimento o de iracúndia sagrada que se expressa: “isso não pode ser, é inaceitável e condenável; deve ser superado”.

Destes sentimentos surge imediatamente a vontade de fazer alguma coisa. É nesse momento que entra a racionalidade que nos ajuda a evitar enganos, fruto da boa vontade mas sem crítica. Sem análise corre-se o risco do assistencialismo e do mero reformismo que acabam por reforçar o sistema. O conhecimento dos mecanismos produtores da pobreza-opressão nos mostra a necesidade de uma transformação e libertação, portanto de algo novo e alternativo. Em seguida, buscam-se as mediações concretas que viabilizam a libertação, sempre tendo como protagonista principal o próprio pobre. Aqui entra a funcionar outra lógica, aquela das metas, das táticas e estratégias para alcançá-las, das alianças com outros grupos de apoio e da avaliação da correlação de forças, do juizo prudencial acerca da reação do sistema e de seus agentes e da possibilidade real de avanço. Alcançada a meta, vale a celebração e a festa que congraçam as pessoas, lhes conferem sentimento de pertença e do reconhecimento da própria força transformadora. Então constatam empiricamente que um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte, porque a união faz a força histórica transformadora.

Resumindo: estes são os passos metodológicos da Teologia a Libertação: (1) um encontro espiritual, vale dizer, uma experiência do Crucificado sofrendo nos crucificados. (2) uma indignação ética pela qual se condena e rejeita tal situação como desumana que reclama superação;(3) um ver atento que implica uma análise estrutural dos mecanismos produtores de pobreza-opressão; (4)um julgar crítico seja aos olhos da fé seja aos olhos da sã razão sobre o tipo de sociedade que temos, marcada por tantas injustiças e a urgência de transformá-la; (5) um agir eficaz que faz avançar o processo de libertação a partir dos oprimidos; (5) um celebrar que é um festejar coletivo das vitórias alcançadas.

Esse método é usado na linguagem do cotidiano seja pelos meios populares que se organizam para resistir e se libertar, seja pelos grupos intermediários dos agentes de pastoral, de padres, bispos, religiosos e religiosas e leigos e leigas cujo discurso é mais elaborado, seja pelos próprios teólogos que buscam rigor e severidade no discurso.

5. Contribuições da Teologia da Libertação para a teologia universal
A Teologia da Libertação, por causa da perspectiva dos pobres que assumiu, revelou dimensões diferentes e até novas da mensagem da revelação. Em primeiro lugar, ela propiciou a reapropriação da Palavra de Deus pelos pobres. Em suas comunidades e círculos bíblicos aprenderam comparar página da Bíblia com a página da vida e dai tirar consequências para sua prática cotidiana. Lendo os Evangelhos e se confrontando com o Jesus de Nazaré, artesão, factotum e campones mediterrâno, perceberam a contradição entre a condição pobre de Jesus e a riqueza da grande instituição Igreja. Esta está mais próxima do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. Com respeito aprenderam a fazer suas críticas ao exercício centralizado do poder na Igreja e ao fechamento doutrinal face a questões importantes para a sociedade como é a moral familiar e sexual.

A Teologia da Libertação nos fez descobrir Deus como o Deus da vida, o Pai e Padrinho dos pobres e humildes. A partir de sua essência, como vida, se sente atraido pelos que menos vida têm. Deixa sua transcendência e se curva para dizer:”ouvi a opressão de meu povo…desci para libertá-lo”(Ex 3,7). A opção pelos pobres encontra seu fundamento na própria natureza de Deus-vida.

Revelou-nos também a Jesus como libertador. Ele é libertador, não porque assim o chamam os teólogos da libertação, mas por causa do testemunho dos Apóstolos. Ele libertou do pecado mas também da doença, da fome e da morte. Jesus não morreu. Foi assassinado porque viveu uma prática libertária que ofendia as convenções e tradições da época. Anunciou uma proposta – o Reino de Deus – que implicava uma revolução em todas as relações; não apenas entre Deus e os seres humanos, mas também na sociedade e nos cosmos. O Reino de Deus se contrapunha ao Reino de César, o que representava um ato político de lesa-majestade. O Imperador revindicava para si o título de Deus e até de “Deus de Deus”, coisa que o credo cristão mais tarde atribuirá a Cristo. A ressurreição, ao lado de outros significados, emerge como a inauguração do “novissimus Adam”(1Cor 15,45), como uma “revolução na evolução”.

Permitiu-nos identificar em Maria, não apenas aquela humilde serva do Senhor que diz fiat mas a profetiza que clama pelo Deus Go’El, o vingador dos injustiçados, aquele que derruba dos tronos os poderosos e eleva os humildes (Lc 1, 51-52). Ela clarificou também a missão da Igreja que é atualizar permanentemente, para os tempos e lugares diferentes, a gesta libertadora de Jesus e manter vivo seu sonho de um Reino de Deus que começa pelos últimos, os pobres e excluidos e que se estende até à criação inteira será finalmente resgatada, onde vige a justiça, o amor incondicional, o perdão e a paz perene.

6. A Teologia da Libertação como revolução espiritual
As reflexões que acabamos de fazer nos permitem dizer: a Teologia da Libertação produziu uma revolução teológico-espiritual. Não houve muitas revoluções espirituais no Cristianismo. Mas sempre que elas ocorrem, se resignificam os principais conteúdos da fé, como assinalamos acima, emerge uma nova vitalidade e a mensagem cristã libera dimensões insuspeitadas, gerando vida e santidade.

É a primeira teologia histórica que nasceu na periferia do cristianismo e distante dos centros metropolitanos de pensamento. Ela denota uma maturação inegável das Igrejas-filhas que conseguem articular, com sua linguagem própria, a mensagem cristã, sem romper a unidade de fé e a comunhão com as Igrejas-mães.

Nunca na história do cristianismo os pobres ganharam tanta centralidade. Eles sempre estiveram ai na Igreja e foram destinatários dos cuidados da caridade cristã. Mas aqui se trata de um pobre diferente, que não quer apenas receber mas dar de sua fé e inteligência. Trata-se do pobre que pensa, que fala, que se organiza e que ajuda a construir um novo modelo de Igreja-rede-de-comunidades. Os pastores de estilo autoritário não temem o pobre que silencia e obedece. Mas tremem diante do pobre que pensa, fala e participa na definição de novos rumos para a comunidade. São cristãos com consciência de sua cidadania eclesial.

A irradiação da Teologia da Libertação alcançou o aparelho central da Igreja Católica, o Vaticano. Influenciadas pelos setores mais conservadores da própria Igreja latinoamericana e das elites políticas conservadoras, as instâncias doutrinárias sob o então Card. Joseph Ratzinger reagiram, em 1984 e 1986, com críticas contra a Teologia da Libertação.

Mas se bem repararmos, não se fazem condenações cerradas. Tais autoridades chamam a atenção para dois perigos que acossam este tipo de teologia: a redução da fé à política e o uso não-crítico de categorias marxistas. Perigos não são erros. Evitados, eles deixam o caminho aberto e nunca invalidam a coragem do pensamento criativo. Apesar das suspeitas e manipulações que se fizeram destes dois documentos oficiais, a Teologia da Libertação pôde continuar com sua obra.

Por esta razão entendemos que o Papa João Paulo II, com mais espírito pastoral que doutrinal, tenha enviado uma Mensagem ao Episcopado do Brasil no dia 6 de abril de 1986 na qual declara que esta a Teologia da Libertação, em condições de opressão, “não é somente útil mas também necessária”.

Mas sobre a figura do então Card. Joseph Ratzinger pesa uma acusação irremissível, que seguramente passará negativamente para a história da teologia: a de ter-se revelado inimigo da inteligência dos pobres e de seus aliados e de ter condenado a primeira teologia surgida na periferia da Igreja e do mundo que conferia centralidade à dignidade dos oprimidos.

Efetivamente, proibiu que mais de cem teólogos de todo o Continente elaborassem uma coleção de 53 tomos- Teologia e Libertação – como subsídio a estudantes e a agentes de pastoral que atuavam na perspectiva dos pobres. Mais que um erro de governo, foi um delito contra a eclesialidade e um escárneo aos pobres pelos quais deverá responder diante de Deus. Também para ele vale o dito: na tarde sua vida, os pobres serão seus juízes dos quais esperamos que tenham para com o Cardeal mais misericórdia que severidade, diante de tanta ignorância e arrogância de quem se poderia esperar apoio entusiasmado e acompanhamento diligente.

Ao contrário, muitos teólogos foram postos por ele sob vigilância, advertidos, marginalizados em suas comunidades, acusados, proibidos de exercer o ministério da palavra, afastados de suas cátedras ou submetidos a processos doutrinários com “silêncio obsequioso”. Esta rigidez não dminuiu ao fazer-se Papa, mas continuou com renovado fervor. Et est videre miseriam.

A Teologia da Libertação devolveu dignidade e relevância à tarefa da Teologia. Conferiu-lhe um inegável caráter ético. Os teólogos desta corrente, sem renunciar ao estudo e à pesquisa, se associaram à vida e a causa dos condenados da Terra. No apoio a seus movimentos correram riscos. Muitos conheceram a prisão, a tortura e outros o martírio. Ousamos dizer que a Teologia da Libertação junto com a Igreja da Libertação que lhe subjaz é um dos poucos movimentos eclesiais que no século XX conheceu o martírio, curiosamente praticados por cristãos repressores, atingindo leigos e leigas, religiosas e religiosos, pastores, teólogos e teólogas não poupando mesmo bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Arnulfo Romero de El Salvador. É o sinal da verdade desta opção pelos pobres.

Por fim, a Teologia da Libertação chama as demais teologias à sua responsabilidade social no sentido de colaborarem na gestação de um mundo mais justo e fraterno. Sua missão não se esgota numa diligência ad intra, ao espaço eclesial. Se ela não quiser escapar da indiferença e do cinismo deve se deixar mover pelo grito dos oprimidos que sobe das entranhas da Terra. Poucos são os que escutam esse clamor. Uma teologia que silencia diante do tragédia dos milhões de famélicos e condenados a morrer antes do tempo, não tem nada a dizer sobre Deus ao mundo.

7. A Teologia da Libertação como revolução cultural
Por fim, a Teologia não representou apenas uma revolução espiritual. Ela significou também uma revolução cultural. Contribuiu para que os pobres ganhassem visibilidade e consciência de suas opressões. Gestou cristãos que se fazeram cidadãos ativos e a partir de sua fé se empenharam em movimentos sociais, em sindicatos e em partidos no propósito de dar corpo a um sonho, que tem a ver com o sonho de Jesus, o de construir uma convivência social na qual o maior número possa participar e todos juntos possam forjar um futuro bom para a humanidade e para a natureza.

É mérito da Igreja da Libertação com sua Teologia da Libertação subjacente ter contribuído decididamente na construção do Partido dos Trabalhadores, do Movimento dos Sem Terra, do Conselho Indigenista Missionário, da Comissão da Pastoral da Terra, da Pastoral da Criança, dos Hansenianos e dos portadores do vírus HIV que foram os instrumentos para praticar a libertação e assim realizar os bens do Reino. Aqui o cristianismo mostrou e mostra a primazia da ortopraxia sobre a ortodoxia e a importância maior das práticas sobre as prédicas.

Nascida na América Latina, esta teologia se expandiu por todo o terceiro mundo, na Africa, na Asia, especialmente naquelas Igrejas particulares que penetraram no universo dos pobres e oprimidos e em movimentos dos países centrais ligados à solidariedade internacional e ao apoio às lutas dos oprimidos, na Europa e nos Estados Unidos. De forma natural, ela se associou ao Fórum Social Mundial e encontrou lá visibilidade e espaço de contribuição às grandes causas vinculadas ao um outro mundo possível e necessário, articulando o discurso social com o discurso da fé.

Em todas as questões abordadas, a preocupação é sempre essa: como vai a caminhada dos pobres e dos oprimidos no mundo? Como avança o Reino com seus bens e que obstáculos encontra pela frente, vindos da própria instituição eclesial, não raro tardia em tomar posições e insensível aos problemas do homem da rua e aqueles derivados principalmente das estratégias dos poderosos, decididos em manter invisíveis e silenciados os oprimidos para continuarem sua perversa obra de acumulação e dominação.

8. O futuro da Teologia da Libertação
Que futuro tem e terá a Teologia da Libertação? Muitos pensam e lhe interessa pensar assim que ela é coisa dos anos 70 do século passado e que já perdeu atualidade e relevância. Só mentalidades cínicas podem alimentar tais desejos, totalmente alienadas com o que passa com o planeta Terra e com o destino dos pobres no mundo. O desafio central para o pensamento humanitário e para a Teologia da Libertação é exatamente o crescente aumento do número de pobres e o acelerado aquecimento global e a opressão dos pobres. Lamentavelmente, cada vez menos pessoas, grupos e igrejas estão dispostos a ouvir seu clamor canino que se dirige ao céu. Uma Igreja e uma teologia que se mostram insensíveis a esta paixão se colocam a quilômetros luz da herança de Jesus e da libertação que ele anunciou e antecipou.

A Teologia da Libertação não morreu. Ela é atualmente mais urgente do que quando surgiu no final dos anos 60 do século XX. Apenas ficou mais invisível pois saiu do foco das polêmicas que interessam a opinião pública. Enquanto existirem neste mundo pobres e oprimidos haverá pessoas, cristãos e Igrejas que farão suas as dores que afligem a pele dos pobres, suas as angústias que lhes entristecem a alma e seus os golpes que lhes atingem o coração. Estes atualizarão os sentimentos que Jesus teve para com a humanidade sofredora.

No contexto atual de degradação da Mãe Terra e da devastação continuada do sistema-vida, a Teologia da Libertação entendeu que dentro da opção pelos pobres deve incluir maximamente a opção pelo grande pobre que é o Planeta Terra.

Ele é vítima da mesma lógica que explora as pessoas, subjuga as classes, domina as nações e devasta a natureza. Ou nos libertamos desta lógica perversa ou ela nos poderá levar a uma catástrofe social e ecológica de dimensões apocalípticas, não excluída a possibilidade até da extinção da espécie humana. A inclusão desta problemática, quiça, a mais desafiante de nosso tempo, fez nascer uma vigorosa Ecoteologia da Libertação. Ela se soma a todas as demais iniciativas que se empenham por um outro paradigma de relação para com a natureza, com outro tipo de produção e com formas mais sóbrias e solidárias de consumo.

Que futuro tem a Teologia da Libertação? Ela tem o futuro que está reservado aos pobres e oprimidos. Enquanto estes persistirem há mil razões para que haja um pensamento rebelde, indignado e compassivo que se recusa aceitar tal crueldade e impiedade e se empenhará pela libertação integral.

Ela não terá lugar dentro do atual sistema capitalista, máquina produtora de pobreza e de opressão. Ela só poderá existir na forma de resistência, sob perseguições, difamações e martírios. Mesmo assim, porque nenhum sistema é absolutamente fechado, ela poderá colocar cunhas por onde o pobre e o oprimido construirão espaços de liberdade. Por isso, a Teologia da Libertação possui uma clara dimensão política: ela quer a mudança da sociedade para que nela se possam realizar os bens do Reino e os seres humanos possam conviver como cidadãos livre e participantes.

Que futuro tem a Teologia da Libertação dentro do tipo de Igreja-instituição que possuímos? Mantido o atual sistema, cujo eixo estruturador é a sacra potestas, o poder sagrado, centralizado somente na hierarquia, ela só poderá ser uma teologia no cativeiro e relegada à marginalidade. Ela é disfuncional ao pensamento oficial e ao modo como a Igreja se organiza hierarquicamente: de um lado o corpo clerical que detém o poder sagrado, a palavra e a direção, e do outro, o corpo laical, sem poder, obrigado a ouvir e a obedecer. Na esteira do Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação se baseia num conceito de Igreja comunhão, rede de comunidades Povo de Deus e poder sagrado como serviço.

Esta visão de Igreja foi nos últimos decênios praticamente anulada por uma política curial de volta à grande disciplina e pelo reforço à estrutura hierárquica de organização eclesial.

Assim se fecharam as portas à conciliação tentada pelo Concílio Vaticano II entre Igreja Povo de Deus e Igreja Hierárquica, entre Igreja-poder e Igreja-comunhão. O difícil equilíbrio alcançado foi logo rompido ao se entender a comunhão como comunhão hierárquica, o que anula o conteúdo inovador deste conceito que supõe a participação equânime de todos e a hierarquia funcional de serviços e não a hiierarquia ontológica de poderes. A burocracia vaticana e os Papas Wojtyla e Ratzinger interpretaram o Vaticano II à luz do Vaticano I centralizando novamente a Igreja ao redor do poder do Papa e esvaziando os poucos órgãos de colegialidade e participação.

Não devemos ocultar o fato de que ao optar pelo poder a Igreja instituição optou pelos que também têm poder, numa palavra, os ricos. Os pobres perderam centralidade. A eles está reservada a assistência e a caridade que nunca faltaram. Mas quem opta pelo poder fecha as portas e as janelas ao amor e à misericórdia. Lamentavelmente ocorreu com o atual modelo de Igreja, burocrático, frio e nas questões concernentes à sexualidade, a homoafetividade, à AIDS e ao divórcio, sem misericórdia e humanidade.

Nestas condições, não há como fazer uma Teologia da Libertação como um bem da Igreja local e universal que toma a sério a questão dos pobres e da justiça social. Ela subverte a ordem estabelecida das coisas. Seu destino será a deslegitimação e a perseguição. Não será exagero dizer que ela vive e viveu o seu mistério pascal: sempre rejeitada, sempre sepultada e também sempre de novo ressuscitada porque o clamor dos pobres não permite que ela morra.

Mas na Igreja instituição, apesar de suas graves limitações, sempre há pessoas, homens e mulheres, padres, religiosos e religiosas e bispos que se deixam tocar pelos crucificados da história e se abrem ao chamado do Cristo libertador. Não apenas socorrem os pobres mas se colocam do lado deles e com eles caminham buscando formas alternativas de viver e de expressar a fé.

Qual o futuro da Teologia da Libertação? Ecumênica desde seus inícios, ela vicejará naquelas Igrejas que se remetem ao Jesus dos evangelhos, àquele que proclamou benaventurados os pobres e que se encheu de compaixão pelo povo faminto e que, num gesto de libertação, multiplicou os pães e os peixes. Estas Igrejas ou porções delas, ousadamente mantem a opção pelos pobres contra a sua pobreza. Entenderão esta opção como um imperativo evangélico e a forma, talvez a mais convincente, de preservar o legado de Jesus e de atualizá-lo para os nossos tempos.

9.Onde encontrar hoje a Teologia da Libertação
Qual será o futuro da Teologia da Libertação? Está em seu presente. Ela continua viva e cresce, com caráter ecumênico, na leitura popular da Bíblia, nos círculos bíblicos, nas comunidades eclesiais de base, nas pastorais sociais, no movimento fé e política e nos trabalhos pastorais nas periferias das cidades e nos interiores do paises. Neste nível e por sua natureza ecumênica e popular esta teologia, de certa forma, escapa da vigilância das autoridades doutrinárias.

Ela é a teologia adequada àquelas práticas que visam a transformação social e a gestação de um outro modo de habitar a Terra. Se alguém quiser encontrar a Teologia a Libertação não vá às faculdades e institutos de teologia. Ai encontrará fragmentos e poucos representantes. Mas vá às bases populares. Ai é seu lugar natural e ai viceja vigorosamente. Ela está reforçando o surgimento de um outro modelo de Igreja mais comunitário, evangélico, participativo, simples, dialogante, espiritual e encarnado nas culturas locais que lhe conferem um rosto da cor da população, em nosso caso, indio-negro-latino-americano.

Alçando a vista numa perspectiva universal, tenho uma como que visão. Vejo a multidão de pobres, de mutilados, aqueles que o Apocalipse chama “de sobreviventes da grande tribulação” (7,14) cujas lágrimas são enxugadas pelo Cordeiro, organizados em pequenos grupos erguendo a bandeira do Evangelho eterno, da vida e da libertação. Seguidores do Servo sofredor e do Profeta perseguido e ressuscitado a eles está confiado o futuro do Cristianismo, disseminado no mundo globalizado em redes de comunidades, enraizado nas distintas culturas locais e com os rostos dos seres humanos concretos. Deixando para trás a pretensão de excepcionalidade que tantas separações trouxe, se associarão a outras igrejas, religiões e caminhos espirituais no esforço de manter viva a chama sagrada da espiritualidade presente em cada pessoa humana.

Dentro deste tipo comunional e de mútua aceitação das diferentes igrejas, a Teologia da Libertação terá um lugar natural. Ela recolherá reflexivamente os esforços dos cristãos pelo resgate da dignidade dos pobres e da dignidade e dos direitos da Terra e animará a caminhada da humanidade rumo a um mundo que ainda não conhecemos mas que cremos estar alinhado àquele que Jesus sonhou.

Então, Teologia da Libertação terá cumprido a sua missão. Comprenderá que no binômio Teologia da Libertação, o decisivo não é a Teologia mas a Libertação real e histórica, porque esta e não aquela é um dos bens do Reino de Deus.

Leonardo Boff
Leonardo Boff, 1938, doutorado em teologia e filosofia, foi durante mais de 20 anos professor de teologia sistemática no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades estrangeiras e galardoado com vários dr.h.c. Escreveu mais de 80 livros nas várias áreas teológicas e humanísticas e sempre se entendeu no âmbito da Teologia da Libertação.

Fonte: https://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da-libertacao/

Riscos, crise, pobreza


Pedro Demo (2016)

Neste terceiro remix da obra de Nielsen (2013) (N) sobre os filhos do currículo central, vamos estudar três capítulos: os perigos da teste padronizado; a crise real da educação; cura para a pobreza? Cita Meighan: “Ninguém cresceu mais porque ser medido” (N:85). Em 1971, Rivlin publicou “Systematic Thinking for Social Action”, que consolidou a ideologia espalhada de que todos os resultados educacionais poderiam ser medidas estatísica e cientificamente. Incluía-se a ideia de que o que entra se correlaciona com o que sai. Cria que os escores de este estudantil acuradamente refletiam a efetividade das estruturas instrucionais. Uma de suas frases no livro: “Queremos o melhor retorno para o nosso dinheirinho” (Ib.). Como Nielsen é da área de matemática e ciência, sabe bem que estatística não pode prometer isso, já que uma correlação linear não dá conta de relações não lineares, complexas, sem falar que esta ideia arranha completamente o a neurociência diz ser aprendizagem: esta ocorre na mente do estudante, dependendo em parte de fora, mas sobretudo de dentro (autopoiese); o professor não pode aprender pelo estudante, pois é mediação. Mas este erro grosseiro estatístico se consolidou, em especial porque era o que empresários queriam ouvir para poderem vender instrucionismo (aula). Professores precisam ser bem formados, modestamente pagos e aula ser a atividade por excelência na escola, à la negócio.

I. AVALIAÇÕES NACIONAIS E ESTADUAIS
Em 1994, os primeiros resultados de National Assessment of Educacional Progress (NAEP) foram lançados, incluindo dados desde 1970 até 1994 em matemática, ciência e leitura para as idades de 9, 13 e 17 anos. O acho mais clamoroso foi o “hiato de desempenho”: afroamericanos e hispano-americanos se desempenhavam muito abaixo. NAEP continua publicando relatórios para testes anuais em alguns tópicos curriculares, e o hiato persiste. Embora os escores de teste melhorem todo ano (com poucas exceções), o hiato parece alargar-se. Infelizmente, o relatório de 1994 não inclui subgrupos com base em ingresso, de sorte que as únicas medidas para correlação da proficiência era com localização, participação em financiamento e raça – os estudantes com financiamento, sendo os mais pobres, se saíram pior. Como exemplo: proficiência em leitura para o 12o ano em 1994, onde 98% dos estudantes proficientes não tinham financiamento (assistencial), e só 2% dos proficientes eram pobres. Mesmo assim, o teste alarmou o país, com surpresas como baixíssimos escores na Califórnia (National..., 1994).

Depois do choque de 1994, Clinton assinou Improving America’s Schools Act, alocando financiamento adicional a escolas frequentadas por estudantes de baixos ingressos e marginalizados. Estados contemplados tinham que criar padrões e sistemas padronizados de teste para dar conta dos efeitos do financiamento. Califórnia passou a usar Standardized Testing and Reporting (STAR) no ano seguinte, tornando lei teste dos 3o a 8o anos. Carolina do Norte estava trabalhando em testes para o estado no ano anterior ao relatório e implementou logo depois; a meta era achar deficiências no progresso dos estudantes e direcionar ação e fundos parar as escolas necessitadas. Infelizmente, quatro anos depois, a despeito de algum crescimento, o hiato de desempenho aumentou mais ainda. W. Bush entrou com firme na batalha, prometendo solucionar de vez o problema, na esteira de Rivlin. Se os estados quisessem financiamento, tinha que alinhar-se aos padrões de teste, aplicados anualmente. Escolas sem progresso podiam ser castigadas, até mesmo fechar (Federal..., 2012). NCLB fazia ameaças a escolas marcadas por fracasso, responsabilizando em especial os professores, apelando para correlações lineares fraudulentas. Certamente, o desempenho estudantil se associa ao desempenho do professor, mas não linearmente. O estudante pode não aprender por muitos outros motivos, sem falar que papel docente é mediador. NCLB quer medir se os estudantes aprendem; RttT quer medir se os professores estão ensinando. Do ponto de vista qualitativo – que é o que interessa – testes padronizados não são capazes de fazer esta façanha.

Eis os perigos dos testes padronizados, segundo Nielsen:
1. Teste padronizado é “ciência fajuta” (junk science).
Para Nielsen, qualquer criança do 4o ano, na posição de “pequeno cientista”, vai lhe dizer que ciência começa com uma questão. NCLB começou a questão famosamente irônica de W. Bush: “Is our children learning?” (Estão nossas crianças aprendendo – o mais irônico é o inglês capenga – deveria ser “Are our children learning?”) (N:89). Esta criança do 4o ano vai ainda lhe dizer que precisamos de uma hipótese, uma resposta a esta questão. Problema ácido é que a evidência trazida por NCLB à mesa da discussão não era válida. Pior que isso, a evidência sendo usada para rastrear o sucesso de NCLB não tem qualquer validade, para Nielsen. NCLB veio dos resultados dos testes de NAEP, mostrando hiato de desempenho, causa óbvia de incômodo por conta da desigualdade se agravando. Tentou-se evitar discutir a correlação entre pobreza e escores, preferindo alegar que a assistência não estava sendo bem aplicada. Era tempo de responsabilização e ciência ruim. Em texto de segunda página em Time Magazine de outubro de 20121, Rooks descreve testes padronizados como medidas torpes da aprendizagem estudantil. Variáveis que afetam aprendizagem não são efetivamente isoladas, o que invalida o teste. As duas grandes variáveis, segundo Rooks, são raça e status socioeconômico, que são pesadamente enviesadas nos testes comuns (2012). Ademais, Popham, professor emérito da UCLA, advertiu contra a efetividade de NCLB em 1999; sugeriu que, como técnica de avaliação referenciada à norma que sopesa entendimento estudantil de tópico/conceito, os testes padronizados fazem exatamente o que se supõe fazerem; ele até aclama os bons testes por fazerem isso muito bem; contudo, volta-se contra usar os testes para outros fins, em especial para tentar incriminar o sistema de ensino e aprendizagem. Há variáveis demais em jogo, complexas, que não podem ser dominadas linearmente, sugerindo que pais e professores reajam a isso (Popham, 1999).

2. Os expertos não estão fazendo política.
Virou meme na internet: “Quem pode, ensina; quem não pode, faz leis de ensino” (N:91). Docentes sabem que são forçados a fazer coisas que jamais fariam para o bem dos estudantes. Deixar expertos de fora, para que políticos e cúmplices assaltem as políticas é risco ensandecido. Mesmo CCSS, embora com participação de expertos, é peça feita via conchavos mal tecidos. É sempre má política prejudicar a autonomia docente – o professor decide o que fazer em sala de aula, não estranhos interessados em negócios (Ramer, 2013).

3. Professores não podem usar esses testes dispendiosos.
Como são testes cujos resultados saem depois, não servem para intervenção imediata na escola. Não quer dizer que não sirvam para nada, mas para o professor chegam sempre muito tarde. Ele precisa agir no ato e para isso precisa de sua própria avaliação.

4. Resultados são usados impropriamente.
Primeiro, não servem como avaliação única, porque é tardia. Pode apenas  servir de roteiro aproximativo. Segundo, não servem para responsabilizar linearmente docentes, diretores e escolas, porque má aprendizagem tem outras origens (uma delas, facilmente encoberta, é pobreza).

5. Crianças aprendem que a vida é um teste de múltipla escolha.
Ironicamente, Nielsen questiona os testes como propostas reducionistas, simplistas, mostrando que se trata de visão instrucionista tacanha, muito distanciada das necessidades reais de aprendizagem.

6. Crianças não estão aprendendo habilidade e conceitos significativos.
Sempre se promete que os testes padronizados vão resolver o problema de outros testes rasos, superficiais e irrealistas. Esta crítica acaba voltando-se contra os próprios testes, a começar pela múltipla escolha que sempre é algo superficial e artificial. O desfio autoral, por exemplo, fica totalmente de fora.

7. Testes adaptativos de computador são inválidos.
Conta Nielsen que ficou preocupada que seus estudantes estavam por tomar um exame Accuplacer na escola média para determinar quais estariam prontos para Álgebra I. Accuplacer é conhecido como teste adaptativo de computador (CAT). Agora, testes somativos de fim de ano  alinhando-se com CCSS por dois consórcios de empresas de avaliação (SBAC e PARCC) tentam-se vender com estardalhaço em educação. Por quê? Porque esses testes também são CAT, significando: um teste adaptativo de computador é concebido para seguir o nível de habilidade de um estudante enquanto toma o teste; cada vez que responde um item corretamente, o teste automaticamente dá outro mais desafiador; por outra, se o estudante erra, o próximo é mais fácil. Isto é muitas vezes usado como exames de alocação para faculdades (como Accuplacer), mas podem ser usados para determinar proficiência para alunos do 3o ao 8o anos em leitura e matemática? O experto em avaliação, Muldoon, explica que não são apropriados (2013). À medida que estudantes vão errando, sacam que a coisa fica mais fácil – virando o que se chama de fenômeno “homem vs teste”, derrotando o tomador de teste por si mesmo, não por conta de não saber.

8. Crianças estão sofrendo estresse mental e físico.
Duas categorias são mais afetadas: quem tem inglês como segunda língua e estudantes com necessidades especiais (NYC, 2013).

II. A CRISE EDUCACIONAL REAL
Cita dito europeu, na versão de Einstein: “Educação é o resta quando se esqueceu o que se aprendeu na escola” (N:113). Em outras versões: “Formação é o que resta depois que se esqueceu tudo” – indicando que decoreba não vale nada. Sugere-se que a questão mais importante descartada pela reforma é a qualitativa, bem como um dos porta-vozes mais importantes dela, os estudantes (Goyal, 2012). Parece análise muito pertinente. Na escola temos o quantitativo em geral bem preservado: aula, prova, repasse. Em abundância. Só aprendizagem pouca, nenhuma, em queda. Vale também para a universidade.

Em especial para crianças mais necessitadas – em todos os sentidos – o que se oferece não corresponde, tornando-se ritos repetitivos que não agregam oportunidade. Para crianças marginalizadas, que chegam com déficits e atrasos clamorosos, a escola deveria ser totalmente diferente, partindo naturalmente o que elas precisam, não do cardápio padronizado fundamentalmente alucinado. Não adianta oferecer coisa pobre para o pobre, nem o mesmo, por conta dos pontos muito diversos de partida. Elas precisam de oferta extremamente mais elevada, acurada, elaborada. Mais ainda, as crianças com necessidades especiais precisam de atendimento bem focado, próprio, de preferência junto com as outras crianças, com exceção dos caso em que tratamento individualizado é o caso. Em certo sentido, como na Finlândia, todos que apresentam qualquer necessidade de aprendizagem tem tratamento individualizado, uma iniciativa vista hoje como imprescindível.

Assim, a reforma caminha para a exclusão crescente de quem mais precisa, atendendo melhor a quem menos precisa, tornando-se, outra vez, segregadora. Por isso, Nielsen acentua a necessidade de ouvir as crianças. Não se trata de princípio absoluto, porque naturalmente as crianças podem ainda não discernir bem o que querem. Mas o que se quer dizer é partir das necessidades da crianças, não dos comandantes atrasados/perversos da reforma. Testes padronizados são proposta que pode ainda ter algum valor – Nielsen já não dá nenhum – como avaliação distante, de cima, de fora, para termos referência aproximativa apenas. Mas não servem para cuidar das crianças, uma a uma (Krashen, N.d.).

III. CURA DA POBREZA?
Nielsen retoma tese fundamental de que é preciso superar a pobreza infantil, um dos maiores entraves para aprendizagem adequada na escola e cita Edelman: “Países bem menos industrializados se comprometeram a eliminar pobreza infantil, enquanto que os Estados Unidos escorrega para trás. Podemos fazer melhor. Precisamos exigir que nossos líderes façam melhor” (N:126). Eis diferença flagrante: na Finlândia, 5% dos estudantes são pobres; nos Estados Unidos podem ser 30%. O teste já se fez: quando se retiram os pobres americanos do PISA, seu desempenho é similar a dos europeus! Assim, pobreza tem muito a ver, ainda que, como sempre, não se pode fazer correlação mecanicista. Há estudantes pobres que, mesmo assim, podem aprender (por exemplo, quando a família se dedica de corpo e alma), como há estudantes ricos que não aprendem nada. Precisamos fazer as duas coisas: eliminar a pobreza infantil e elevar o desempenho dos mais pobres.

A tragédia se anuncia em distritos mais pobres com financiamento precário. Quando se aplicam regras de mercado, cada distrito precisa funcionar como pode, com o que arrecada, e isto não vai além de manter o hiato. Enquanto isso, distritos ricos mantêm sua vantagem e a curtem. Educação é empreendimento que deveria ir na direção contrária: não privilegiar os mais ricos; privilegiar sempre os mais pobres. Sempre que propala a ideia de que educação equaliza oportunidades, esquecemos que, com pontos de partida tão desiguais, ela apenas reforça a desigualdade. Isto se vê na pressão por escola privada para os mais ricos. Estes não querem a oferta genérica, pública, de nível menos elevado, com exceções. Querem uma escola que esteja à altura de seus privilégios, porque os querem manter/alargar. Vemos isso também na ocupação das Federais pelos mais ricos; são públicas e gratuitas sob a alegação do acesso igual para todos. Nada é mais farsante. Os mais pobres não conseguem entrar porque seus pontos de partida são avessos. O que se estuda na escola pública não basta para entrar nas Federais; enquanto isso, os que estudam em colégios privados de ponta vão estudar de graça; os mais pobres vão estudar em entidades privadas, pagando (National..., 2014. Wade, 2012).

Esta visão rechaça também a proposta da reforma quantitativa e neoliberal, fixada em mais tempo de aula, disciplina militar, avaliações draconianas dos estudantes para responsabilizar os docentes etc. Certamente, há escolas públicas bagunçadas, onde é impossível aprender. Mas a cura disso não é autoritarismo que nunca combina com educação. É oferta na qualidade da necessidade dos estudantes. Também não cabe alegar que, primeiro, precisamos vencer a pobreza, porque os pobres não podem esperar. Precisamos tocar a carruagem com rédea dupla. Para muitos, o desacerto americano na educação básica tem a pobreza como um dos desafios maiores. É inócuo pretender que educação sozinha acaba com a pobreza, embora possa ser proposta importante. Ela, sozinha, tende a agravar a desigualdade, na situação em que o país se encontra (Simon, 2012. Granacki, 2012).

IV. SOLUÇÃO GATES
Gates, inventor da Microsoft e superbilionário hoje, sempre foi visto como garoto prodígio, que, via capacidade incrível de programação digital, mudou o mundo da computação. Nielsen reclama que ele não tão inteligente assim e não sabe de educação, embora pose disso sempre que pode. Andou pelo mundo para observa problemas (fome, pobreza...), mas daí retirou a conclusão miserável única: “medir” (N:138). Dados são sempre importantes, porque lidamos melhor com o que medimos. Quantificar é necessário, mesmo a preço de reducionismo, desde que não nos reste apenas o reducionismo (Ravitch, 2013. Cody, 2012. Brandenburg, 2013).

O que mais tem incomodado é a pressão de Gates e comparsas (outros filantrópicos prepotentes) para uma reforma privatista, que tenho a lógica do mercado como reguladora maior. Como seu êxito é de mercado e aí são reis, acham que se aplica o mesmo para educação. Esta não é comodidade, entre outras coisas porque, quando se compartilha, não se perde, como ocorre com uma mercadoria. Quando vendida, é do comprador. Conhecimento não. Mas ignora-se isso e toca-se o barco neoliberal a todo vento. Doações são trunfo enorme, porque o poder do dinheiro é avassalador. O problema é que são doações carimbadas – buscam solapar a escola pública. Em parte há alguma razão, porque muitas escolas públicas traem a causa popular, pois são coisa pobre para o pobre. Mas é tosco supor que escola privada é melhor sempre – pode ser a mesma arapuca, via instrucionismo, padronização, repasse frenético de conteúdo, totalmente à revelia do que os próprios empregadores preferem como formação. Trabalhar educação apenas como questão de mercado é equívoco clássico, porque a lógica da mercadoria não cabe minimamente. As coisas se complicaram muito porque educação agora é vista como fator maior de competitividade (uma das razões são as melhores universidades do mundo, não por acaso privadas não lucrativas – ou seja, tocadas como negócios altamente impactantes no futuro do país), do que em geral se depreende que deveria ser conduzida na lógica do mercado. Certamente, podemos aprender do mercado. É o que as privadas não lucrativas fazem. Mas seu produto não é mercadoria, é  conhecimento de ponta, aquele que mais produz oportunidades e decide a posição do país e das pessoas.

Lembra Nielsen a preocupação tradicional americana da ligação entre prisão e má escola. Os Estados Unidos têm a maior população carcerária do mundo. Vai custar mais que os estudantes... Seria melhor educar (American..., N.d.). No entanto, não basta garantir frequência escolar, porque o X da questão não é quantidade; é qualidade, ou seja, a aprendizagem, que, como regra, se reduz ou se acaba para populações mais pobres. Não tendo estas oportunidades geradas pela educação – no fundo sua única chance de melhorar de vida – facilmente recorrem ao crime.

CONCLUSÃO
Sempre foi um espinho na garganta para os Estados Unidos reconhecer que são o país mais rico do mundo, mas com dose inaceitável de pobreza interna. Em parte isto se deve ao fato de que, tendo mercado liberal como regular final de tudo, a concentração da renda é fatal. Países europeus investem pesadamente na atuação do Estado como possível equalizador de oportunidades, mesmo sendo, ao fundo, também neoliberais. Por isso ainda há países onde educação e saúde não são mercadorias – todos devem ter acesso gratuito e de boa qualidade. Para os Estados Unidos isto não cabe, porque, ao final, é o mercado que “equaliza” oportunidades – o autointeresse conduzido no mercado acaba por favorecer a todos. Este princípio da economia liberal nunca foi demonstrado. É pura fé. Hoje temos um dos níveis mais elevados do mundo de concentração de renda e pode piorar.

As escolas para populações mais pobres precisam ter compromisso frontal de equalização de oportunidades e para tanto têm de montar oferta extremamente diferenciada, o que nunca acontece, menos ainda com escola privatizadas. Sempre foi assim que, para lucrar, é preciso padronizar, mesmo que hoje se acentue a customização em favor do cliente. Uma escola onde todos recebem a atenção de que precisam não combina com mercado. Combina com direitos humanos. Isto não impede de reconhecer o quanto é difícil para a esfera pública realizar este milagre...

Fonte: https://docs.google.com/document/d/19kttyTgyMNvERSmU3JJRKJnjcyk93Y9Bw4d_tyR5YLo/pub

REFERÊNCIAS
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