O nosso iceberg está derretendo!

Supermarket Flowers (Flores de Supermercado)

I took the supermarket flowers from the windowsill
I threw the day old tea from the cup
Packed up the photo album Matthew had made
Memories of a life that's been loved

Took the Get Well Soon cards and stuffed animals
Poured the old ginger beer down the sink
Dad always told me: Don't you cry when you're down
But mum, there's a tear every time that I blink

Oh, I'm in pieces, it's tearing me up, but I know
A heart that's broke is a heart that's been loved

So I'll sing hallelujah
You were an angel in the shape of my mum
When I fell down you'd be there holding me up
Spread your wings as you go
And when God takes you back He'll say: Hallelujah, you're home

I fluffed the pillows, made the beds, stacked the chairs up
Folded your nightgowns neatly in a case
John says he'd drive then put his hand on my cheek
And wiped a tear from the side of my face

I hope that I see the world as you did, 'cause I know
A life with love is a life that's been lived

So I'll sing hallelujah
You were an angel in the shape of my mum
When I fell down you'd be there holding me up
Spread your wings as you go
And when God takes you back He'll say: Hallelujah, you're home

Hallelujah
You were an angel in the shape of my mum
You got to see the person I have become
Spread your wings and I know
That when God took you back He said: Hallelujah, you're home

Ed Sheeran



Eu peguei as flores de supermercado do peitoril da janela
Joguei fora o chá velho
Empacotei o álbum de fotos que Matthew fez
Memórias de uma vida que foi amada

Peguei os cartões de melhoras e os bichinhos de pelúcia
Derramei a velha cerveja Ginger ralo abaixo
Meu pai sempre me disse: Não chore quando você estiver pra baixo
Mas mãe, há uma lágrima toda vez que eu pisco

Oh, eu estou em pedaços, rasgado, mas eu sei
Um coração que está quebrado é um coração que tem sido amado

Então eu vou cantar: Aleluia
Você foi um anjo na forma da minha mãe
Quando eu caí você esteve lá me segurando
Abra suas asas enquanto você vai
E quando Deus te receber de volta vai dizer: Aleluia, você está em casa

Eu afofei os travesseiros, arrumei as camas, empilhei as cadeiras
Dobrei sua camisola bem arrumada em uma mala
John disse que iria dirigir e colocou a mão em minha bochecha
E enxugou uma lágrima que escorria

Espero que eu veja o mundo como você viu, porque eu sei
Uma vida com amor é uma vida que foi vivida

Então eu vou cantar: Aleluia
Você foi um anjo na forma da minha mãe
Quando eu caí você esteve lá me segurando
Abra suas asas enquanto você vai
E quando Deus te receber de volta vai dizer: Aleluia, você está em casa

Aleluia
Você foi um anjo na forma da minha mãe
Você viu a pessoa em que me tornei
Abriu suas asas e eu sei
Que quando Deus te recebeu, Ele disse: Aleluia, você está em casa

Era uma vez...

Se alguma música pudesse definir minha personalidade ou minha própria vida em toda sua totalidade, esta seria C’era una volta il West de autoria do italiano Ennio Morricone (tema do filme de faroeste Once upon a time in the West, versão brasileira: Era uma vez no Oeste), revelo isto com temor de ser linchado pelos fundamentalistas modernos, já que a música que mais me fala à alma é uma música secular e não uma música sacra, além disso ela não tem letra e fala mais que muitas músicas que só tem palavrório sem melodia e harmonia. É triste e bela, tão triste quanto bela, triste ainda que bela, bela ainda que triste. Só aqueles que associam a beleza apenas às coisas alegres, pensamento fruto da pós-modernidade vaga e de modismos efêmeros, não conseguirão entender isto que eu estou apregoando, posso até parecer um arauto louco ou bêbado em cima de um telhado, mas pelo menos tenho a coragem de gritar o que penso sem fazer coro com a massa.



O início suave, quase imperceptível da música, a leveza do trinado das cordas, o piano que parece ter vida própria e querer falar, a harmonia da orquestra, a coesão dos instrumentos, a sensação de que nada é inadequado ou que está fora do lugar, o êxtase qual onda que quebra na praia, o sentimento de paz que se instala após a passagem do turbilhão avassalador e aquele solfejo triste da solista, qual Polimnia a musa grega do canto solene, encantam minha alma, com a mesma intensidade que a entristecem, o único ato propício, como uma liturgia recomendada por meio de rubrica, para ouvir adequadamente é fechar os olhos e calar, só assim, desligando alguns periféricos é possível ouvir com a alma, os olhos abertos podem distrair, as palavras ditas, por mais belas que sejam se mostram inadequadas.

Se compararmos essa “universidade” musical com a superficialidade das músicas gospel de hoje de pouca letra e menos acordes ainda, não fica difícil entender a minha preferência por ela, as músicas contemporâneas parecem mantras, versos repetidos à exaustão, vãs repetições já dizia o evangelho. Quando a música acaba fica uma sensação de vazio que só passa quando eu volto e a ouço novamente, hoje com comodidade graças ao controle remoto, santa tecnologia! Antes tinha que fazer um esforço físico grande para mover o braço mecânico da radiola e posicionar no começo da faixa do disco de vinil. Sei que quando a ouço eu fico triste, mas a ouço exatamente para isso. Quando quero ficar reflexivo, pensativo, sondar minha própria alma, eu me sento e vou ouvi-la, não há saída, ao ouvir alimento minha alma, às vezes de uma tristeza profunda e de sentimentos inexplicáveis, sou tomado de uma sensação, que não sei definir, e não consigo fugir disso.

Já devo ter ouvido esta música pelo menos umas 5.000 vezes, ainda pretendo ouvir mais umas 10.000, mormente depois que eu me aposentar, mas a sensação é de que estou ouvindo pela primeira vez, os sentimentos se renovam ao primeiro acorde. Parece estranho este fato, principalmente para alguém que se sente inadequado quando tem que cantar o mesmo estribilho 10 ou quinze vezes só porque um ministro de louvor, que tem vontade de parecer com André Valadão, quer, tem alguns que até a flanela põe no bolso para ficarem mais caricatos, seria risível, se não fosse tão ridículo.

 Quando tinha uns 10 anos de idade eu era apaixonado por filmes de faroeste, ainda sou, mesmo hoje com 52 anos de idade, e a TV do Grande Irmão, que à época era apenas o braço direito na área de comunicação da ditadura militar, gostava de passar filmes que não permitiam a reflexão social, era para entreter, hoje é para “emburrecer” mesmo. Um dos que mais repetiu foi o citado Era uma vez no Oeste, com toda a poesia da direção do italiano criador de metáforas Sérgio Leone, a fotografia impecável, a capacidade de dar a uma cena de uma goteira uma dimensão inigualável e fazer de uma mosca uma atriz coadjuvante, o latinismo visceral, a atuação de grandes atores (como o novato Charles Bronson, o já veterano Henry Fonda e o expressivo e assustador Jason Robards) e a trilha sonora assinada pelo mestre Ennio Morricone, muito embora esta à época me passasse despercebida. Eu adorava assoviar a música de “O Bom, o Mal e o Feio”, mas não me lembro de ter sentido nenhum êxtase ao ouvir C’era una volta il West quando Cláudia Cardinale (seria Melpômene a musa grega da tragédia?) descia na estação do trem e o crescente melodioso até o âmago na chegada à fazenda e encontrar seu marido e os filhos deste todos mortos pondo um aparente fim à possibilidade de uma vida decente para uma prostituta em recuperação.

 Quando eu tinha uns dezesseis anos tentei entrar para o seminário, tinha pressa em cursar teologia o quanto antes possível para exercer o sacerdócio, quanto antes eu estivesse pronto mais rápido o mundo seria consertado, era mais ou menos o que eu pensava, não me deixaram entrar, o mundo deve ter agradecido, porém a “salvação” do mesmo foi adiada um pouco, era muito novo, como prêmio de consolação me colocaram num grupo teatral, composto em sua maioria de alunos do seminário, que tinha como missão despertar vocações nas igrejas da região.

Uma das minhas participações era como soldado comunista, eu vestia uma farda de verdade e junto com outros seminaristas (o hoje Rev. Alexandre da Igreja Episcopal Carismática e o também Rev. Marco Cosmo da Igreja Anglicana) representávamos soldados do então regime comunista que torturavam pastores, missionários e até mesmo leigos cristãos, era época da Guerra Fria e “Torturado por amor a Cristo”, “Ivan”, “Perdoa Natasha” e “Torturado por sua fé” estavam em evidência, eu já os tinha lido várias vezes e tinha uma grande vontade de ser missionário no leste europeu, porém na peça eu é que estava por trás do gatilho, recebíamos então ordens do “General” Zózomo Malta (isso mesmo, não escrevi errado o nome do sujeito é esse mesmo, Zózomo, irmão do Senador Magno Malta) para arrancar as unhas dos cristãos.

Os que representavam os missionários colocavam unhas feitas com pedaços de plástico de carretel de linha de costura, que eram presas com sabão, fingíamos então que cada unha era arrancada com alicate, o sangue de “brincadeira” escorria pelos braços e os gritos convincentes deixavam a plateia em prantos e depois atirávamos neles com revólveres de espoleta, que nem sempre davam tiros com qualidade, parecia que “a bala pinava”, os nossos missionários portavam por baixo da roupa um “saquinho” com suco de uva que ao ser apertado vazava parecendo sangue, o que dava um tom de realismo às cenas. Quantas crianças não fizemos chorar de medo, tínhamos que mostrar depois que era de brincadeira e que ninguém tinha morrido. 

A música que fazia fundo musical para a cena era essa, confesso que não associava a música ao filme, não fazia essa ilação. Um dia ao ouvir intencionalmente na casa de um parente essa música me dei conta das duas épocas de minha vida que ela tinha marcado e desde então eu passei a ouvi-la cada vez mais intensamente. 

Um dia estava fazendo terapia em grupo, não sei quanto ao grupo, mas eu num aprendi nada daquilo tudo e nem aproveitei uma linha sequer de caderno pequeno, quando a psicóloga colocou essa música eu travei, ela tinha invadido meu santuário particular, pois a música falava demais ao meu coração e o que ela falava não combinava com o momento, foi desde então que eu a “canonizei”, só a ouço em momentos especiais e que eu mesmo tenha escolhido ouvir, não gosto de intromissão. Até hoje não perdoei àquela psicóloga por tamanha heresia. 

Muito tempo depois, não sei se foi sonho ou realidade, estava deitado numa praça bastante arborizada pensando na vida, sempre que não estamos fazendo nada, dizemos que estamos pensando na vida, até parece um contrassenso ou que a vida não vale nada para nós, já estava meio sonolento e quase dormindo, quando de repente ouvi esta música tocando, no começo tocava baixo, depois foi aumentando, ainda sem acreditar me ergui sobressaltado, a sensação que tenho hoje é que senti pânico (o sentimento trazido pelo mítico Pã), e vi que era um carro de som que havia parado próximo à praça e que tocava a música, tocava e repetia sem parar, achei que estava morrendo com minha cabeça repousada no colo de uma ninfa do bosque ou de uma náiade e que os anjos do céu ou as fortes e doces valquírias nórdicas tinham vindo me buscar tocando a música de minha preferência.

Seria uma ótima forma de se despedir da vida e entrar na eternidade, provavelmente não sentiria medo, tal era o êxtase, mas justamente por conta deste que eu queria permanecer vivo, a sensação de paz era maior que eu mesmo. A melhor definição do que senti naquele momento é o que disse o Leone sobre a película: “O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que uma pessoa exala antes de morrer. Era uma vez no Oeste é do começo ao fim, uma dança da morte...”. Na hora de partir da vida, tendo como fundo musical esta música, nada melhor que tirar a morte para uma dança. Ela vai gostar, há muito que não se diverte, trabalha demais e a área de atuação dela é muito sombria. 

Desde este dia decidi que se eu não morrer ouvindo esta música, pelo menos que a toquem em meu velório, tenho certeza que ela, naquele momento, não me poderá deixar triste, será vez de ouvi-la e sorrir, será a vez de mudar a história, será o momento de cantar definitivamente “era uma vez...

Diário de um confinado (6º dia)


Não fiz nada de relevante nos dias anteriores, comprar caldo para 08 dias e almoço para 05 ou 06 dias não é algo que mereça registro, bem como tomar banho, fazer café e sentar defronte a um notebook e tentar estabelecer uma rotina de trabalho com eficiência e produtividade.

Hoje me deparo com a noticia de que o presidente (sic) inseriu cultos religiosos como atividades "essenciais" que não poderiam ser impedidas de serem realizadas por decretos estaduais ou municipais.

Obviamente que o miliciano simplório atende aos pleitos de sua base dita evangélica que se queixa das igrejas fechadas, pois vislumbra que a arrecadação de dízimo será bem menor, as pessoas em casa não seriam presa fácil, pois o clima estático que cria nas reuniões para pedir as doações não teria o mesmo efeito aos que estão sentado no sofá com inúmeras distrações.

Postei um vídeo para mostrar o que os charlatães americanos estão falando sobre a pandemia, aqui em breve estará assim também, brasileiro não pode ver uma heresia americana que ele logo quer seguir.

Chegamos ao cúmulo da justiça estadual obrigar a um desse líderes (o charlatão e facínora do Silas Malafaia) a não realizar reuniões presenciais, para não colocar a população em risco de contágio.

Ainda há quem defenda um canalha desse... 

Diário de um confinado (2º dia)


Mesmo estando aqui em Uberaba, ontem eu consegui reunir minha família em diversos lugares: Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes, por meio de um desses aplicativos de chamadas de vídeos e tivemos alguns momentos lúdicos e de descontração, em meio a um momento de medo, pânico e incertezas. 

Lembrei de quando nós éramos crianças e nos deitávamos no chão da sala para ouvir meu pai contar histórias e estórias. Sempre que ele contava um conto pela segunda vez, descobríamos que ele havia acrescentado um final diferente ou um viés diferente, era a forma que ele tinha de nos entreter numa época sem TV e tantas outras formas de distração. 

Também pude acompanhar algumas manifestações da população batendo panelas para ironizar o aniversário do presidente (sic) e de alguns grupos evangélicos que foram às janelas cantar um hino que fala de ressurreição e destemor diante da morte. 

O hino diz mais ou menos isso: "... Porque Ele vive, posso crer no amanhã/ Porque Ele vive, temor não há/ Mas eu bem sei, eu sei, que a minha vida/ Está nas mãos de meu Jesus, que vivo está/ E quando, enfim, chegar a hora/ Em que a morte enfrentarei/ Sem medo, então, terei vitória/ Irei à Glória, ao meu Jesus que vivo está..."

A manifestação tinha como objetivo reafirmar a fé inconteste na ressurreição de Jesus, tema central da fé cristã, mas, também, e é aqui que perde todo o sentido, de "abafar" as manifestações de críticas a Bolsonaro, já que os grupos pentecostais são aliados de primeira hora do miliciano e não perdem uma oportunidade de angariar créditos e favores do executivo, na busca por consolidação do projeto de dominação e poder dos seus líderes inescrupulosos. 

A música também tem um efeito de alienação e tem um tema preocupante: se o crente não tem medo diante da morte, seja ela qual for, por que então se trancar em casa com medo do contágio, se ele pode ir à igreja (dar o dízimo, obviamente) para louvar a Deus ou ainda, evangelizar nas ruas em busca de almas perdidas?

Vi outra postagem hoje numa rede social que alegava que não precisavam de vacina, pois o sangue de Jesus protegia aqueles que creem nele, tal como o sangue do cordeiro protegeu os israelitas no Egito, durante o evento das dez pragas.

Isso não é fé, é puro fanatismo e irresponsabilidade. Já não bastam os despautérios de Bolsonaro com sua tentativa de minimizar o tamanho do problema e ainda vem seus apoiadores tentarem desviar a atenção da população do que de fato vai trazer o escape dessa pandemia: ficar em casa.

Não, não é Deus e nem o sangue de Jesus que vai impedir que a nação sofra um holocausto, afirmar isso seria um desrespeito e desumano com as 14.611 vítimas fatais e as mais de 335.403 que foram contaminadas ao redor do mundo até esse momento (20h26).

Essa é uma crença de pequena parte da população, aquela que se diz cristã e, mesmo assim, boa parte do cristianismo que é sóbria e reflete sobre a fé sem fanatismo não propagaria isso. Não é que ter fé num momento desse é ruim ou atrapalha, o que atrapalha mesmo é o fanatismo.

Vi ontem um vídeo dos médicos cubanos (ateus em sua grande maioria) sendo aplaudidos num aeroporto da Itália, chegavam para ajudar a conter a peste inclemente. Com essa imagem me veio à mente a pergunta: quem estaria mais perto dos ensinos do Nazareno, os cubanos que estão arriscando suas vidas ao tentar ajudar os outros, que nem conhecem e nem são da mesma pátria ou Macedos e Malafaias da vida que tiveram que ser obrigados pela justiça a fechar seus templos (o que trará queda de arrecadação e prejuízo financeiro certamente)?

Pensar ainda é de graça e não faz mal.

Diário de um confinado (1º dia - II)


Por que um evangélico médio, aquele que não tem cargos na instituição eclesiástica que está inserido e nem recebe nenhuma renda da mesma, frequentaria os cultos ou reuniões em massa durante uma grave pandemia que põe em risco a integridade física e a existência dos que acomete?

É isso o que está sugerindo (não seria exigindo?) dois dos maiores "empreendedores" e "capitalistas" eclesiásticos do Brasil. Alcunhados por alguns como pastor e bispo, Silas Malafaia das Assembleias de Deus Vitória em Cristo e Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus. 

Não é de hoje que esses dois líderes se envolvem com polêmicas e defendem práticas que estão muito distantes do evangelho do Nazareno e do ramo protestante majoritário tradicional. Aliados de primeira hora de Jair Bolsonaro, fica até difícil entender quem está explorando quem, já que os três são mestres em fingir ser o que não são para conquistarem seus objetivos de poder e dominação. 

Após mais de 40 anos como evangélico, hoje bem distante desse ramo e tendo me tornado um crítico desse movimento na última década, tenho vergonha de dizer que já fui um militante da causa protestante e até mesmo pastor e professor de seminário. Mesmo que sempre tenha desprezado figuras como Malafaia, Macedo, Santiago, Feliciano e tantos outros (difícil é achar um para elogiar...), ainda assim me sinto desconfortável quando vejo os caminhos que estão sendo trilhados por uma ampla maioria de igrejas e líderes eclesiásticos.

A resistência da dupla se deve mais à briga por espaço e poder que à teologia e crença que tenham. O medo desses dois é de que as pessoas deixem de contribuir em suas instituições e guardem o dinheiro ou mesmo gastem com coisas mais úteis. Quem fica em casa não dá dinheiro para igreja ou pastor, gasta com comida. Algo que esse dois não querem, precisam de dinheiro para alimentar suas redes de poder e influência.

Há muito que tenho chamado o Edir Macedo de adorador de Mamom (Mamom é um termo que aparece na Bíblia para se referir a bens terrenos. A palavra Mamom é uma transliteração do aramaico mamon e significa literalmente “dinheiro” ou “riqueza”.) e Silas Malafaia de homem de Belial (Belial é uma palavra de origem hebraica que aparece em algumas passagens bíblicas, principalmente na expressão “filhos de Belial”. No livro de Provérbios 6:12, o termo Belial é igualado ao hebraico ‘awen na expressão “homem de Belial”, cuja tradução frequentemente significa “iniquidade“, ou seja, “homem de Belial” equivale a “homem perverso”, “homem mau” ou “homem iníquo”.) pela busca desenfreada por poder, riqueza e influência que empreendem.

Guarde seu dinheiro, não apenas agora, mas sempre, Deus não precisa de nenhum centavo teu, não deixe que discurso de milionários, que enriqueceram às custas do povo ingênuo te façam continuar sustentando a vida de luxo e ostentação desses canalhas charlatães. Malafaia há muito tempo trocou o púlpito pela militância política, distanciando-se cada vez mais do perfil que se espera de um pastor, até quando você ainda vai chamar e tratar um impostor por "homem de Deus"?

Já fui por muitos anos dizimista, há muito tempo que direciono a minha renda para outras coisas, inclusive poupança para o futuro incerto, e nem por isso estou "amaldiçoado", como esses vermes vorazes apregoam todos os dias, causando pânico nas pessoas ingênuas.

Cada um faz o que a sua consciência e conhecimento permitem, a minha manda desligar a TV, guardar meu dinheiro para as necessidades futuras e hidratar minha mente com o que é sadio e edifica. Coisa que esses dois e outros tantos não são capazes de fazer. Não troque de canal (Globo por Record), desligue a TV e vá viver, vá ler a Bíblia ou um livro e conversar com seus familiares, vocês ganham muito mais com isso.

Chega um momento em que devemos escolher entre viver a vida que os outros querem que vivamos ou viver a vida para qual nascemos. É uma questão de escolha. 

Zizek e o Coronavírus


Por Slavoj Zizek | Tradução: Simone Paz

A disseminação contínua da epidemia do coronavírus acabou desencadeando, também, certas epidemias de vírus ideológicos que estavam adormecidos em nossas sociedades: fake news, teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo.

A quarentena, devidamente fundamentada em evidências médicas, encontrou um eco na pressão ideológica por estabelecer fronteiras estritas e isolar os inimigos que representam uma ameaça à nossa identidade.

Mas, talvez, outro vírus muito mais benéfico também se espalhe e, se tivermos sorte, irá nos infectar: o vírus do pensar em uma sociedade alternativa, uma sociedade para além dos Estados-nação, uma sociedade que se atualiza nas formas de solidariedade e cooperação global.

Especula-se que o coronavírus pode levar à queda do regime comunista chinês, do mesmo jeito que a catástrofe de Chernobyl foi a gota d’água que levou ao fim o comunismo soviético (como o próprio Gorbachev admitiu). Mas existe um paradoxo nesta situação: o coronavírus também nos levará a reinventar o comunismo, com base na confiança nas pessoas e na ciência.

Na cena final de Kill Bill 2, do diretor Quentin Tarantino, Beatrix derruba o vilão Bill, destruindo-o com a “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” — o golpe mais fatal das artes marciais. O movimento consiste numa combinação de cinco golpes com as pontas dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do alvo. Assim que a vítima se afasta e dá cinco passos, seu coração explode dentro do seu corpo, e ele desmorona no chão.

Este ataque faz parte da mitologia das artes marciais e não é factível nos combates da vida real. Porém, voltando ao filme, depois que Beatrix ataca Bill, ele faz as pazes com ela, calmamente, anda cinco passos e morre…

O que torna esse ataque tão fascinante é o tempo existente entre o golpe e o momento da morte: posso manter uma agradável conversa enquanto eu permanecer sentado e sossegado, mas durante todo esse tempo estarei ciente de que no momento em que eu começar a andar, meu coração irá explodir e eu cairei morto.

Não se parece com a ideia daqueles que especulam sobre como o coronavírus levaria o sistema comunista da China à sua queda? Numa espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” social, no regime comunista do país, as autoridades podem sentar-se, observar e atravessar os movimentos da quarentena, mas qualquer mudança real na ordem social (como confiar nas pessoas) resultará em sua queda.

Minha modesta opinião é muito mais radical: a epidemia do coronavírus é uma espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” de ataque ao sistema capitalista internacional — um sinal de que não podemos seguir pelo mesmo caminho que viemos até agora, de que precisamos uma mudança radical.

Fato triste: será preciso uma catástrofe
Há alguns anos, Fredric Jameson chamou a atenção para o potencial utópico dos filmes sobre catástrofes cósmicas (um asteroide que ameaça a vida na Terra ou um vírus que mata a humanidade, por exemplo). Tal ameaça global dá origem à solidariedade global, nossas pequenas diferenças se tornam insignificantes, todos trabalhamos juntos para encontrar uma solução — e aqui estamos hoje, na vida real. O ponto não é sobre curtir sadicamente o sofrimento generalizado, porque ele ajudaria nossa causa: pelo contrário, o ponto é refletir sobre o triste fato de que precisemos de uma catástrofe para nos permitirmos repensar as características básicas da sociedade na qual vivemos.

O primeiro esboço de modelo de uma coordenação global do tipo é da Organização Mundial da Saúde, da qual não estamos recebendo a tagarelice burocrática usual, mas avisos precisos, anunciados sem pânico. Tais organizações devem receber mais poder executivo.

Os céticos zombam de Bernie Sanders por sua defesa a uma saúde universal nos EUA — e não é que a lição da epidemia de coronavírus não apenas demonstra como ela é muito necessária, mas também que devemos começar a criar algum tipo de rede global de saúde?

Um dia após o vice-ministro da Saúde do Irã, Iraj Harirchi, aparecer em uma coletiva de imprensa para minimizar a disseminação do coronavírus e afirmar que as quarentenas em massa não seriam necessárias, teve de fazer uma breve declaração admitindo que contraiu o coronavírus e se isolou (inclusive, na sua primeira aparição na TV, ele já apresentava sinais de febre e fraqueza). Harirchi acrescentou: “Este é um vírus democrático, que não faz diferença entre pobres ou ricos, ou entre políticos e cidadãos comuns”.

Nesse ponto, ele estava correto — estamos todos no mesmo barco. É difícil não reparar na enorme ironia do fato: aquilo que nos uniu e nos levou à solidariedade global se expressa, no nível da vida cotidiana, em orientações severas para evitar o contato com os outros, e até de se isolar.

Além do mais, não estamos lidando apenas com ameaças virais — outras catástrofes já estão surgindo no horizonte ou mesmo acontecendo: secas, ondas de calor, tempestades fora de controle, etc. Para todos esses casos, a resposta não é o pânico, mas o trabalho árduo e urgente para estabelecer algum tipo de coordenação global eficiente.

Só estaremos a salvo na realidade virtual?
A primeira ilusão a ser dissipada é aquela formulada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, durante sua recente visita à Índia, onde ele disse que a epidemia recuaria rapidamente e que só precisamos esperar pelo seu pico, que a vida voltará ao normal.

Contra essas esperanças fáceis, a primeira coisa que precisamos aceitar é que a ameaça veio para ficar. Mesmo se a onda passar, ela reaparecerá em novas formas — quiçá bem mais perigosas.

Por esse motivo, podemos esperar que as epidemias virais afetem nossas interações mais elementares com outras pessoas e objetos ao nosso redor, incluindo nosso próprio corpo — evitar tocar em coisas que possam estar (invisivelmente) sujas, não sentar em assentos sanitários ou bancos públicos, evitar abraçar pessoas ou apertar as mãos. Podemos até passar a ter mais cuidado com gestos espontâneos: não encostar no nariz nem esfregar os olhos.

Portanto, não serão apenas o Estado e outras instituições nos controlando, devemos também aprender a nos autocontrolar e disciplinar. Talvez apenas a realidade virtual seja considerada segura e a movimentação livre em espaços abertos fique restrita às ilhas pertencentes aos ultrarricos.

Mas mesmo no nível da realidade virtual e da internet, devemos lembrar que, nas últimas décadas, os termos “vírus” e “viral” foram usados principalmente para designar vírus digitais que infectavam nossos espaços na web e dos quais não tínhamos consciência, pelo menos até que seu poder destrutivo fosse liberado (por exemplo, a destruição de nossos dados ou de discos rígidos). O que vemos agora é um forte retorno ao significado literal original do termo: as infecções virais trabalham de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual.

O Retorno do Animismo Capitalista
Outro fenômeno bizarro que podemos observar é o retorno triunfante do animismo capitalista, de tratar fenômenos sociais como mercados ou o capital financeiro como uma entidade viva. Lendo a mídia empresarial, ficamos com a impressão de que, na verdade, não deveríamos nos preocupar com os milhares que morreram (nem com os outros milhares que ainda vão morrer), mas com os “mercados que estão ficando apreensivos”. O coronavírus perturba cada vez mais o bom funcionamento do mercado mundial e, segundo o que ouvimos, o crescimento pode cair dois ou três por cento.

Tudo isso não indica claramente a necessidade urgente de uma reorganização da economia global, que não esteja mais à mercê dos mecanismos de mercado? É óbvio que não estamos falando de comunismo às antigas, mas de alguma forma de organização mundial que consiga controlar e regular a economia — bem como limitar a soberania dos estados-nação quando necessário. Os países já conseguiram fazer isso no contexto da guerra no passado, e agora todos nós estamos, efetivamente, nos aproximando de uma guerra clínica.

Além do mais, não devemos ter medo de reparar em alguns efeitos colaterais positivos da epidemia. Um de seus símbolos são os passageiros aprisionados (em quarentena) em grandes cruzeiros — boa maneira de se libertar da obscenidade desses navios, devo dizer. (Só precisamos tomar cuidado para que as viagens a ilhas isoladas ou a outros resorts exclusivos não se torne, novamente, o privilégio de uns poucos ricos, como aconteceu décadas atrás com voos de avião). A produção de automóveis também se vê seriamente afetada pelo coronavírus — o que não é de todo ruim, já que isso pode nos levar a pensar em alternativas à nossa obsessão pelos veículos individuais. E a lista não para por aí.

Num discurso recente, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, declarou: “Não existe essa coisa de liberal. Um liberal nada mais é do que um comunista com um diploma”.

E se o contrário estiver certo? Se designarmos como “liberais” todos aqueles que se preocupam com a nossa liberdade; e, como “comunistas”, aqueles que sabem que só poderemos salvá-la por meio de mudanças radicais — já que o capitalismo global está cada vez mais próximo de uma crise? Então, deveríamos dizer que, atualmente, aqueles que ainda se reconhecem comunistas são liberais com diplomas — liberais que estudaram seriamente o porquê de nossos valores liberais estarem sob ameaça, e que tomaram consciência de que só uma mudança radical poderá salvá-los.

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Diário de um confinado (1º dia - I)


Hoje, como tantos bilhões de pessoas ao redor do mundo, eu estou confinado em casa. Distante de família (esposa, filha, mãe, irmãos, cunhados, sobrinhos e sobrinhos-netos) que está em Recife, Pernambuco, eu estou em Uberaba, no Triângulo Mineiro, cercado de livros e de pacotes de café. 

Esse é um diário de um sobrevivente. Sou do grupo de risco de vulnerabilidade ao Coronavirus disease (COVID-19), tenho mais de 50 anos e sofro de crises de asma. 

Acredito plenamente que o mundo nunca mais será o mesmo, depois que essa pandemia passar. Então, resolvi voltar a colocar as minhas impressões no blog, que há muito tempo não fazia. 

Esse mundo de egoísmo e individualismo será questionado num momento futuro, espero que esse momento seja breve e que essas discussões conduzam a humanidade a um patamar de maturidade, empatia, tolerância e respeito, sobretudo de compaixão com os desfavorecidos e necessitados. 

Não é possível que a humanidade remanescente, mesmo que o número de mortos não alcance 100.000, não aprenda nada com essa pandemia. O que temos visto é individualismo, egoísmo, xenofobia, racismo, ignorância e intolerância. Inclusive vindo de pessoas que a mídia e as redes sociais dão voz e visibilidade (principalmente do deputado Eduardo Bolsonaro, pródigo em asneiras e falastrão como o pai). 

Vamos ter muito o que conversar, então, puxa uma cadeira, pega uma xícara de cafe, estou apenas começando.

Se quiser e puder, vamos conversar, trocar impressões e aproveitar esse momento para buscar novas formas de viver a vida. 
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