A partícula no fim do Universo


Como a caçada pelo bóson de Higgs leva-nos à fímbria de novo mundo

Carroll (2012) (C) publicou texto chamativo sobre a partícula de Higgs, que tem dado o que falar no mundo da física, em especial por suas metáforas “divinas” (a partícula de Deus). Mostra-se que os resultados atuais da física têm pouco a ver com certezas definitivas; ao contrário, o universo continua uma caixinha de surpresas, sempre mais estonteante. Mesmo não sendo físico de formação, vou tentar propor alguns remixes aqui, para alargar nosso olhar sobre como ela tenta entender um universo que, aumentando nosso conhecimento, parece afastar-se sempre mais de nossa capacidade de conhecer.


I. PARA COMEÇAR

Conta Carroll sobre coquetel no consulado suíço em San Francisco, celebrando o LHC (Large Hadron Collider) em Genebra (entre França e Suíça), em 2012. Por um tempo, pensou-se que os Estados Unidos sairiam na frente, no Texas (Superconducting Super Collider – SSC), programado para operar a partir de 2000. Foi cancelado. A especialidade de Carroll é cosmologia (o cenário maior da física), ainda que partículas sejam inseparáveis. As teorias proliferam e disputam atenção – bósons de Higgs, supersimetria, tecnicolor, dimensões extra, matéria negra... Esperam-se novidades, contando com a inventividade da natureza, sempre surpreendente. Em 4 de julho de 2012, abertura de International Conference on High Energy Physics, encontro bianual, perambulando de cidade em cidade no mundo, em Melbourne (Austrália) – centenas de físicos de partículas presentes. Uma apresentação é transmitida do CERN (laboratório em Genebra que comanda o LHC), aparecendo em fila físicos que estiveram na origem da empreitada (o americano Incandela, a italiana Gianotti, etc.). é a moderna Big Science (C:2). A maior excitação gira em torno da partícula achada por Higgs, presente também.

O bóson de Higgs é partícula fundamental da natureza, uma de muitas, de tipo muito especial – há três tipos: da matéria, como elétrons e quarks, que constituem os átomos que perfazem tudo que vemos; há partículas força que carregam gravidade e eletromagnetismo e as forças nucleares, que mantêm partículas da matéria juntas; e há Higgs, categoria única. Higgs é importante, não pelo que é, mas pelo que não é – a partícula emerge de um campo pervadindo o espaço, conhecido como “campo de Higgs”. Tudo no universo conhecido, enquanto se viaja no espaço, move-se via campo de Higgs; sempre está lá, invisível no background. Tem muita importância: sem ele, elétrons e quarks não teriam massa, como fótons, as partículas da luz. Mover-se-iam à velocidade da luz e seria impossível formar átomos e moléculas, muito menos vida como a conhecemos. Este campo de Higgs não é jogador ativo na dinâmica da matéria ordinária, mas sua presença no background é crucial. Sem isto, o mundo seria lugar completamente diferente, como agora descobrimos.


Cautela, porém. O que temos de fato hoje é evidência de uma partícula muito similar à de Higgs; tem massa correta, é produzida e decai mais ou menos do jeito esperado. Mas é cedo demais neste jogo para assegurar que esta descoberta é o simples Higgs predito nos modelos originais. Poderia ser algo mais complicado ou parte de uma rede elaborada de partículas relacionadas. Achamos, definitivamente, alguma nova partícula, e age como pensamos deveria agir um bóson de Higgs. Carroll adota 4 de julho de 2012 como dia da descoberta do bóson de Higgs. Se a realidade se mostrar mais sutil, tanto melhor para todos – físicos sonham com surpresas. Há esperança de a descoberta de Higgs represente o início de nova era na física das partículas. Sabemos que física detém muito mais do que entendemos hoje; Higgs abre nova janela para mundos não vistos. Experimentos de Gianotti e Incandela têm novo espécime a estudar; teóricos como Hewett novas chaves para construir modelos. Nosso entendimento do universo deu passo fantástico para frente.


O livro quer ser a história das pessoas que devotaram suas vidas a descobrir a natureza última da realidade, da qual Higgs é componente crucial. Há teóricos a postos, motivos a café e disputas com colegas, lidando com ideias abstratas na mente; há engenheiros empurrando máquinas e eletrônica para além dos limites da tecnologia existente. E há os experimentadores, trazendo máquinas e as ideias juntas para descobrir algo novo sobre a natureza. Projetos custam bilhões de dólares e tomam décadas para se desenvolverem, exigindo extrema devoção à causa.


II. O PONTO

Por que um grupo de pessoas talentosas e dedicadas devotariam suas vidas a perseguir coisas tão pequenas que não podem ser vistas (C:7). Física de partículas é atividade estranha – milhares de pessoas gastam bilhões de dólares construindo máquinas gigantes de muitas milhas, chicoteando partículas subatômicas a velocidades perto daquela da luz e as colidindo, tudo para descobrir e estudante outras partículas subatômicas que não têm impacto nenhum no cotidiano. Mas pode-se ver de outro modo – como resultado da curiosidade humana sobre o mundo em que vivemos. Sempre pusemos perguntas, desde pelo menos os gregos antigos, explorando mistérios e leis naturais. Não são as partículas a grande motivação, mas o desejo de imaginar como este universo funciona. O início do século XXI foi virada importante – o último experimento de um acelerador de partículas foi de 1970; mas, mesmo melhorando as máquinas, não se via nada de novo. No mundo especializado da ciência moderna, os papeis dos “experimentalistas” e os “teóricos” são distintos, em particular na física das partículas. Foram-se os dias em que um gênio como de Fermi pode propor nova teoria das interações fracas, e logo orientar a construção da primeira reação em cadeia nuclear autossustentada artificial. Hoje, teóricos das partículas rabiscam equações em lusas, que viram modelos específicos, a serem testados por experimentalistas que ajuntam dados de máquinas bem precisas.

Os melhores teóricos mantêm olho fixo em experimentos e vice-versa, mas ninguém comanda ninguém. Os 1970 viram os toques finais da melhor teoria da física de partículas, o “Standard Model” – descrevendo quarks, glúons, neutrinos e todas as outras partículas elementares. Como celebridades de Hollywood ou políticos carismáticos, teorias científicas põem-se em pedestais, só para as rasgar aos pedaços. Não nos tornamos conhecidos dizendo que teorias dos outros estão corretas; só mostrando o contrário. Mas o Standard Model é teimoso, porém. Por décadas, todo experimento que podemos fazer na terra está bem confirmado em suas predições. Geração inteira de físicos de partículas surgiu e amadureceu, mesmo sem novos fenômenos descobertos, mas agora muda com o LHC. Parece termos um universo enorme feito de pedaços pequenos.


Perto da costa do Pacífico, ao sul da Califórnia, a uma hora de carro, há lugar mágico onde sonhos se tornam realidade: Legoland. Na Dino Island, Fun Town e outras atrações, crianças se maravilham com um mundo construído por legos, blocos de plástico sem limites. Parece-se bem com o mundo real. As coisas parecem diferentes, mas, no fundo, são compostas dos mesmos pedacinhos. Um átomo é um trilionésimo do tamanho de um bloco de lego, mas os princípios são similares. Algumas coisas são duras, outras moles, algumas são leves, outras pesadas, algumas líquidas, outras líquidas, algumas são gases; algumas são transparentes, ouras opacas; algumas são vivas, outras não. Mas abaixo da superfície, tudo é bem similar. Há perto de cem átomos listados na tabela periódica, e tudo é uma combinação deles. A esperança de podermos entender o mundo em termos de ingredientes básicos escassos é velha.


Antigamente, muitas culturas diferentes – babilônica, hindu e outras – inventaram um conjunto consistente de cinco “elementos” dos quais tudo seria feito – terra, ar, fogo e água são os mais familiares, mas havia um quinto, a quintessência. Foi elaborada por Aristóteles, sugerindo que cada elemento buscava um estado natural particular; por exemplo, terra tende a cair e ar a subir. Demócrito, antes de Aristóteles, sugeriu que tudo é feito de pedacinhos invisíveis que chamo de “átomos” – foi acidente infeliz da história que esta terminologia foi apanhada por Dalton, químico do início dos 1800, referindo-se a pedaços que definem elementos químicos. O que pensamos agora do átomo, é que não é indivisível – a divisibilidade não parece ter fim. Prótons e nêutrons são feitos de pedaços menores, os quarks; estes e elétrons são os átomos reais, indivisíveis (assim parece). Dois tipos de quarks – ditos “up” e “down” – entram na composição de prótons e nêutrons no núcleo atômico. Mas, ao final, precisamos só de três partículas – elétrons, quarks up e quarks down. Foi enorme avanço em relação aos cinco elementos antigos. Mas não são a únicas partículas. Há hoje 12 tipos diferentes de partículas da matéria: seis quarks que interagem fortemente e se confinam dentro de coleções amplas como prótons e nêutrons, e seis “leptons” que podem viajar individualmente pelo espaço. Temos também partículas que carregam força e que os mantêm juntos em diferentes combinações. Sem partículas força, o mundo seria lugar chato – partículas individuais mover-se-iam em linhas retas pelo espaço, nunca interagindo. Há mesmo um conjunto pequeno de ingredientes para explicar tudo que vemos, sendo que Carroll acha que poderia ser mais simples. “A moderna física de partículas é movida pelo desejo de fazer melhor” (C:10).


III. BÓSON DE HIGGS

Standard Model: doze partículas da matéria, mais um grupo de partículas que carregam força para as mantêm coesas. Não é assim que o mundo nos aparece, mas tudo está aí. No espaço há ainda matéria negra e energia negra, ainda pouco inteligíveis, fora do Standard Model. Já o bóson de Higgs é diferente, achado nos 1960 – patinho feio. Tecnicamente é partícula força, mas é tipo diferente de carregador de força. Da física teórica, Higgs parece como adição arbitrária e caprichosa a uma estrutura em si linda – não fosse por ele, o Standard Model seria a própria elegância e virtude; mas é bagunçado – achar um fazedor de bagunça está sendo um desafio. Por que tantos acham que o bóson deve existir? Explicação mais comum: para dar massa a outras partículas, ou para quebrar simetrias... Sem este bóson, o Standard Model pareceria muito diverso, e não como o mundo real. Com o bóson, tudo se encaixa. Físicos teóricos deram duro para montar explicação sem ele, ou com estruturação diferente – fracassaram. O anúncio de 4 de julho descreveu a partícula – decai para outras partículas mais ou menos do mesmo jeito esperado. Mas é cedo ainda, precisando-se de mais dados. Físicos não gostam de achar um Higgs esperado; preferem uma surpresa – e já há dicas nesta direção.

Conta Carroll que em 2005 foi entrevistado por rádio local sobre física de partículas, gravidade, cosmologia..., justamente o centenário do “ano milagroso” de Einstein (1905), quando publicou alguns textos que mudaram a visão de mundo. O entrevistador ao fim colocou uma questão: por que preocupar-se com isso?; não vai levar a nada de útil para as pessoas... Quando se têm seis anos, perguntamos isso – por que o céu é azul, porque as coisas caem etc. – crianças são cientistas naturais. A escola depois mata esta curiosidade e passamos a nos preocupara com imediatismos da vida. Em 1831, Faraday, um dos fundadores do entendimento moderno do eletromagnetismo, foi instado por político sobre a utilidade da “eletricidade” recém descoberta. Sua resposta: sei não, mas aposto que um dia seu governo vai colocar imposto nela... (C:13). Um século depois, outro cientista brigava com mecânica quântica, muita abstrata no início, mas depois vieram transístores, lasers, supercondutividade, diodos etc. Até mesmo a teoria geral da relatividade pode ter algumas aplicações imediatas, como GPS. Mas um móvel persistente ainda é curiosidade natural. Querer saber pode ser o bastante.


Não teríamos achado o Higgs sem o LHC – também resultado de curiosidade científica. Física de partículas está num limiar expressivo, porque é parte fundante da saga humana entender onde estamos e por que aqui estamos. Entram aí também interesses como dinheiro, política e ciúme. Envolve muita gente, países, ideologias. LHC não é o primeiro acelerador gigante que queria chegar ao Higgs; havia o Tevatron no Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab), ao lado de Chicago, ligado em 1983 e desligado em setembro de 2011. Houve o Large Electron-Positron (LEP), que funcionou de 1989 a 200, em túnel subterrâneo, onde agora está o LHC. E houve Superconducting Super Collider, ou SSC, no Texas; mas LHC é a estrela da companhia, com resultados importantes (Higgs em especial).


IV. PERTO DA DIVINDADE

O Higgs não é nada divino, claro, mesmo chamada de “partícula de Deus”, mas tem muita importância. Lederman ganhou o Nobel em 1988 em física, ao descobrir que há mais de um tipo de neutrino, embora pudesse ganhar o prêmio por outros feitos, como novo tipo de quark. Há apenas três neutrinos conhecidos e seis quarks, o que torna isso descoberta chamativa. Lederman fundou Illinois Mathematics and Science Academy, e dirigiu o Fermilab. É figura carismática, muito bom humor e contador de causos. Uma das anedotas favoritas é do tempo de graduação, quando atropelou Einstein andando no Institute for Advanced Study em Princeton – o cientista escutou pacientemente o jovem que explicava sua pesquisa sobre partículas em Columbia, e logo disse como um sorriso: “Isto não é interessante” (C:19). Na opinião pública, Lederman é mais conhecido pela expressão “partícula de Deus” (bóson de Higgs), no título de um livro seu com Teresi. Explicam no primeiro capítulo que assim fizeram, porque o editor não aceitaria chamar de partícula satânica, embora fosse mais apropriado – a grande maioria dos físicos detestam “partícula de Deus”, bem como o próprio Higgs.

É que físicos têm relação bem complicada com Deus, nem tanto com o ser hipoteticamente onipotente que teria criado o universo, mas com o próprio “Deus”. O próprio Einstein se referia ao termo: queria conhecer os pensamentos de Deus... Deus não joga dados. Em 1922, um satélite da NASA chamado Cosmic Background Explorer (COBE) tirou imagens impressionantes de ondulações mínimas na radiação deixada pelo Big Bang. Isto levou Smoot, um dos investigadores implicados, a dizer que “se formos religiosos, é como ver Deus” (C:20). E Hawking, concluindo seu livro famoso A Brief History of Time, não se acanha em recorrer a uma linguagem teológica: “Contudo, se descobrimos uma teoria completa, seria em tempo inteligível em princípio amplo por todo mundo, não só por poucos cientistas. Então devemos todos, filósofos, cientistas e gente comum ser capazes de participar na discussão da questão do por que nós e o universo existimos. Se achamos resposta a isso, seria o triunfo último da razão humana – e aí teríamos conhecido a mente de Deus” (C:20). Alguns físicos grandes foram religiosos, como Newton (talvez o maior dos tempos), também heterodoxo (gastava enorme tempo interpretando a Bíblia). No século XX, temos o exemplo de Lemaître, cosmólogo que desenvolveu a teoria do “Átomo Primevo” – conhecido como “modelo do Big Bang” – era padre e professor em Lovaina.


Chama a atenção que, não sendo físicos grandes crentes, continuam falando de Deus. Duas razões, talvez: uma boa razão é que Deus propicia metáfora ad hoc, como fazia Einstein. Outra, menos boa, é por relações públicas – chama a atenção. Seja como for, o bóson de Higgs é descoberta altissonante. Quando se fala da partícula no fim do universo, também é metáfora, porque não há fim conhecido. Para Carroll é “a peça final do enigma de como a matéria ordinária que constrói nosso mundo cotidiano funciona em nível profundo” (C:25). No entanto, é um risco alegar que se trata de peça final, porque esta estória de chegar ao final nunca deu certo, começando pelo nome “átomo”, aduzido porque seria algo não mais divisível. Depois descobrimos que este mundo não parece ter fundo. Assim, pode também ser estranho que Hawking fale de teoria final, quando muito provavelmente é impraticável este tipo de achado, porque não haveria como suspender pesquisa ulterior, sem falar que humanos seriam incapazes deste feito (veem o universo de um ponto de vista...).


V. RELEVÂNCIA DO HIGGS


Tem gosto de mágica e queremos desvendá-la. O bóson de Higgs do Standard Model parece cenário similar – por muito não o tínhamos visto, apenas seus possíveis eflúvios, ou marcas do mundo que aí se encaixavam. Sem o bóson, as partículas como elétron teriam massa zero e andam à velocidade da luz; se tiveram massa, andam mais devagar. Sem o bóson, muitas partículas elementares parecem idênticas entre si, mas tendo massa, diferenciam-se logo. Partículas são de dois tipos – as que perfazem matéria, conhecidas como “férmions” e as que carregam força, ou bósons. A diferença é que férmions ocupam espaço, e bósons não. Não há como empilhar férmions idênticos no mesmo lugar; a mecânica quântica não deixa. Em especial quanto menor a massa da partícula, maior espaço toma. Átomos são feitos de três tipos de férmions – quarks up, quarks down, elétrons, aguentados por forças. O núcleo, feito de prótons e nêutrons, que, por sua vez, são feitos de quarks up e down, é relativamente pesado e existe em região mínima do espaço. Os elétrons, entrementes, são bem mais leves (cerca de 1/2.000o de massa de um próton ou nêutron) e tomam muito mais espaço. São os elétrons nos átomos que dão à matéria sua solidez. Bósons não tomam espaço – dois deles ou trilhões, dão na mesma em termos de localização – são carregadores de força, e podem combinar-se para perfazer campo macroscópico de força, como campo gravitacional que nos mantém na terra e o campo magnético que deflete a agulha da bússola. Físicos tendem a usar “força”, “interação” e “acoplamento” de modos permutáveis, o que reflete verdades profundas descobertas no século passado: forças podem vistas como resultantes do intercâmbio de partículas. Quando a lua sente o empuxe gravitacional da terra, podemos pensar em grávitons passando para lá e para cá entre os dois corpos. Quando um elétron é preso no núcleo, é porque fótons estão se permutando; mas tais forças são responsáveis por processos de partícula como aniquilamento e decaimento, não só de puxar ou empurrar. Quando núcleo radioativo decai, podemos atribuir à força forte ou fraca em funcionamento, dependendo do tipo de decaimento que acontece. Forças em física de partículas são responsáveis por variedade de circunstâncias. À parte o Higgs, conhecemos quatro tipos de forças, cada qual com suas partículas associadas de bóson; há gravidade, associada com uma partícula chamada de “gráviton”; não observamos ainda isso, razão por que gravidade nem sempre é incluída no Standard Model, embora a constatemos toda hora. Sendo gravidade uma força, as regras básicas da mecânica quântica e relatividade garantem que há partículas associadas. O modo como gravidade age como força sobre outras partículas é bem simples: toda partícula atrai outra (embora muito fracamente). Depois há eletromagnetismo – nos 1800, físicos sacaram o fenômeno – as partículas associadas são “fótons” que vemos toda hora; partículas que interagem via eletromagnetismo são “carregadas”, ou são “neutras” – carga elétrica pode ser positiva e negativa.


A seguir temos forças nucleares, duas, a curtíssima distância – a forte, que mantém quarks juntos dentro dos prótons e nêutrons (glúons); interage com quarks, não com elétrons; glúons não têm massa, como fótons e grávitons. Quando a força é carregada por partículas sem massa, esperamos que sua influência se esparja em espectro amplo, mas força forte tem espectro pequeno. Em 1973, Gross e Wilczek mostraram que a força forte tem propriedade formidável: a tração entre dois quarks realmente crescem em força à medida que quarks se separam. Separando dois quarks exige mais energia, a ponto de criarmos novos quarks. Assim, nunca vemos um quark individual solto – está confinado dentro de partículas mais pesadas. Tais partículas compostas feitas de quarks e glúons são conhecidas como “hádrons”. Gross, Politzer e Wilczek ganharam juntos o Nobel de 2004 por esta descoberta. Depois, temos a força fraca nuclear – não tem papel maior no ambiente imediato, mas é importante à existência da vida: ajuda o sol a brilhar. Energia solar surge da conversão de prótons em hélio, o que requer transformar alguns prótons em nêutrons, via interação fraca.


Três tipos de bósons carregam força fraca; bóson Z, neutro eletricamente, e dois bósons W, um positivo, outro negativo (W+ e W-). São massivos (tão pesadas como átomo de zircônio), difíceis de produzir e decaem rápido. O universo é pervadido de campos – das quatro forças, uma ficou como esquisita: a fraca. Gravidade tem grávitons, eletromagnetismo tem fótons e força forte tem glúons – um bóson para cada qual. Já a força fraca tem três bósons diferentes, com comportamentos estranhos – emitindo um bóson W, um tipo de férmion pode mudar-se em outro; um quark down pode cuspir um W- e mudar-se em quark up. Nêutrons, feitos de dois up e down, decaem quando fora do núcleo – um dos quraks down emite um W-, e o nêutron converte-se em próton, que tem dois ups e um down. Nenhuma outra força mudam a identidade das partículas com que interagem. As interações fracas, basicamente, são uma bagunça. A razão é o Higgs – é diferente de todos os outros bósons. Os outros emergem por alguma simetria da natureza conectando o que ocorre em pontos diferentes no espaço. Se cremos em tais simetrias, os bósons são praticamente inevitáveis. Não há princípio profundo que exige sua existência, mas existe. Muitos tentam explicar isso, em especial o campo de Higgs, de onde o bóson emerge. É fato físico básico que partículas diferentes surgem de campos – é a teoria da campo quântico. A temperatura da atmosfera terrestre em um campo – em cada ponto o ar tem certa temperatura – densidade e umidade são também campos. Mas não são fundamentais, apenas propriedades do ar. Já campo eletromagnético ou gravitacional são, por outra, visto como fundamental – não é feito de outra coisa, são o elemento primeiro.


CONCLUSÃO

Vemos que, certamente, estamos ainda muito longe de encontrar “o fim o universo”. A força fraca, como diz Carroll, é uma bagunça. Assim o chão do universo não parece próximo a nenhuma explicação atual, o que afasta tanto mais pretensões de explicação final. Quanto mais parecemos nos aproximar disso, ela se afasta sempre, como se fosse um saco sem fundo. Muito mistério. Como o próprio Higgs – uma partícula sensacional, cujo significado ainda não foi dominado, mas dela se esperam maravilhas (divinas!). Talvez tenhamos de rever o modelo padrão da física, porque possivelmente a realidade parece ser bem mais “complexa” do que nos parece ou pode ser mensurada por nossas instrumentações. Talvez tenhamos de aceitar que o universo é incompleto, é um fenômeno em formação, podendo introduzir novos elementos, dos quais ainda não temos ideia. Teorias – assim dizemos hoje – são feitas como pontes passageiras: permitem passar, mas passam também. Porque a realidade nos acena com algo insondável, talvez porque nós mesmos somos observadores muito limitados.

REFERÊNCIAS

CARROLL, S. 2012. The particle at the end of the universe: How the hunt for the Higgs Boson leads us to the edge of a new world. Dutton, N.Y.

Pedro Demo (2016)

Logística Reversa: Desafios e Oportunidades no Brasil e no Mundo


A arcaica lavoura de Nassar


Uma impressão similar à que tive ao ler Um copo de cólera tive também ao ler Lavoura arcaica: a narrativa de Nassar a todo o tempo parecia me remeter à prosa rascante de Franz Kafka. Essa percepção, sobre a qual já falei na resenha que escrevi sobre o primeiro livro, foi redimensionada no segundo livro, pois a história ali contada é de tal maneira límpida e solene, que a catarse, a tragédia, aparece como um golpe desferido após uma longa gestação de prazeres sinestésicos. Não à toa é tão fulminante e desconcertante, é “um machado para quebrar o ar de gelo que há dentro de nós.”

Mas, antes de me fiar em recursos investigativos dos quais já me utilizei outrora ou de querer fruir a obra de um autor através de obras de outros autores, ao invés de partir da sua singularidade, deixem-me discorrer um pouco sobre o enredo, a estrutura e os personagens de Lavoura arcaicaO romance foi publicado em 1975 e conta a história de André, filho de uma família camponesa, que deixou a casa paterna após constatar que não conseguiria continuar sob a égide da mentalidade tradicionalista e conservadora que imperava sobre o sítio em que habitavam. Entre outras razões. A sequência que abre o livro é justamente aquela em que Pedro, irmão de André, chega ao quarto de pensão do irmão, e busca convencê-lo a voltar para casa.

As feições psicológicas dos personagens vão se desenhando com riqueza apesar de Nassar ser preciso e econômico em sua escritura. Pedro é um tipo mais calmo, de espírito mais brando, que busca reconciliar as pontas soltas da família e reconstituir o tecido existencial dos tempos de outrora, nos quais imperava a harmonia. André é o espírito flamejante, sedento de liberdade e constantemente propenso a entregar-se com ardor as suas paixões e arroubos. O pai representa a típica vontade férrea e o pulso firme daqueles cujas rédeas da família e do sítio repousam à mão, decidido, direto, bruto e sistemático. A mãe vive em constante estado de tensão, esticada sobre os dilemas familiares entre dois pólos de atitude: a obediência ao rígido patriarca e a candura maternal para com os filhos. Ana é a filha, a mulher a florescer, confusa, ardorosa, sensível e propensa a assumir posturas extremas diante das invectivas dos pais. Lula é o caçula, o caçula que parece ter aprendido com os irmãos a atitude gauche daqueles que não se conformam com as normatizações cotidianas de uma vida sob um estigma.

A trama do livro decorre em torno do amor proibido que André sente por Ana, assim como sua reciprocidade. O contraste entre essa polêmica relação e o pano de fundo de tradições conservadoras clássicas do campo dá o tom com o qual a trama se move. Nassar consegue delinear traços típicos da mentalidade e da visão de mundo da “lavoura arcaica” através de pinceladas apuradas, traduzindo nos atos e palavras do pai, por exemplo, todo um constructo de valores e elementos históricos, assim como na postura da mãe, a partir da qual o tecido existencial da questão da posição da mulher no mundo da lavoura arcaica é trazido a lume.

O romance incestuoso que põe em questão o suposto arcaísmo da lavoura não passa despercebido como algo chocante aos olhos do autor. Ele não quer nos levar a relativizar de maneira absoluta o fato de que se trata de um tabu profundamente arraigado, mas conduzir nosso olhar para uma perspectiva perturbadoramente interessante: o de como a transgressão amorosa de André e Ana se encontra incrustada dentro de um cosmos particular, o modo de vida rural.

Para que esse conflito tenha profundidade e seja cotejado em sua complexidade, Nassar faz o movimento de urdir a tessitura sentimental e moral do cosmos da lavoura arcaica. Para tal ele busca nos personagens e nas situações recursos através dos quais essa ambiência (ambiência no sentido de extrapolar o espaço e transformá-lo em arranjo e experiência humanos) venha à tona. A postura rígida do pai, por exemplo, é um dos elementos que compõem a vida nos domínios da lavoura arcaica, assim como ela é, também, um dos elementos que indispõem André a esse mundo. A moralidade estrita, o trabalho duro e estafante, a aridez existencial que esse mundo costuma cobrar de seus habitantes são outros dos elementos que ajudam a compor o panorama espiritual e humano da vida na lavoura.

É assim que o leitor, ciente da textura humana desse modo vida, consegue enxergar as várias dimensões do ato de André bem como a beleza rústica dessa experiência existencial. Nassar não quer nos conduzir a julgamentos fechados, mas chamar nossa atenção para a complexidade da questão, apesar da moralidade polarizante nela imbricada. Não moralismo, moralidade.

Creio que seja por conta dessa intencionalidade velada que ele faz sua narrativa ter algo de parábola bíblica. O retorno de André ao sítio tem em torno de si uma aura estarrecedoramente similar à bíblica volta do filho pródigo. A dança profana de Ana, celebrando de forma ousada a volta do irmão amado, tem algo que lembra as descrições da mulheres pecaminosas que perambulam pelas páginas da Bíblia, entre elas a famosa – e controversa – Maria Madalena. A atitude extremada do pai tem algo daquele ranger de dentes que não raro espoca em algumas das histórias bíblicas. O próprio patriarcado parece ser um outro ponto de semelhança entre uma e outra narrativa.

Com poucos elementos e personagens, Raduan Nassar cria uma bela história. A riqueza psicológica dos personagens dá conta de expressar o espírito e a essência dos conflitos da lavoura arcaica e de suas dinâmicas humanas. Os objetos e os eventos são revestidos de tal poder simbólicos que prescindem da existência de mais deles: o sono fingido de Lula como a cumplicidade confusa de dois deslocados naquele mundo; os acessórios de Ana como a coroação ritualística da dança catalisadora da catarse; o arroubo do pai como a tragédia do homem que quer preservar sua rigidez patriarcal a todo o custo.

Costurando sentimentos, personagens e situações, a prosa poética de Nassar consegue dar conta de explorar algumas das várias dimensões que, entretecidas na trama da vida e da existência humana, formam a “geometria barroca do destino”. Com uma expressividade muito bem trabalhada e alocada, Lavoura arcaica consegue ir além de suas imediações históricas e suas circunscrições específicas, sendo um clássico no sentido universal, isto é, que lida com dramas que pertencem ao domínio da assim chamada natureza humana, e não somente daqueles personagens ou dos sujeitos que os inspiraram.



O homem que amava os cachorros


“A dor e a miséria figuram entre aquelas poucas coisas que, quando repartidas, tornam-se sempre maiores.”

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“O ódio é uma doença incontrolável.”

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“O olhar de Liev Davidovitch, no entanto, tentava ver para lá dos edifícios, das igrejas pontiagudas, das mesquitas arredondadas: tentava ver a si próprio naquela cidade (turca) onde não tinha um único amigo, um único seguidor de confiança. E não se encontrou. Sentiu que, naquele preciso instante, começava o seu exílio: verdadeiro, total, sem ter onde se agarrar. Para além da família e de alguns poucos amigos que lhe tinham reiterado a sua solidariedade, era um homem aflitivamente só. Seus únicos aliados úteis numa luta que devia iniciar (como?, por onde?) continuavam isolados em campos de trabalho ou já tinham claudicado, mas permaneciam todos dentro das fronteiras da União Soviética, e a relação com eles ia se apagando com a distância, a repressão e o medo.

Ao evocar aquela manhã de aspecto tão agradável, Liev Davidovitch recordaria sempre da urgência que experimentara de apertar a mão de Natália Sedova para sentir algum calor humano ao seu lado, para não asfixiar de tanta angústia diante da sensação de abandono que o acossava. Mas recordaria também que nesse momento tinha fortalecido a sua decisão de que, embora só, o seu dever seria lutar. Se a Revolução pela qual tinha combatido se prostituía na ditadura de um czar vestido de bolchevique, seria necessário nesse caso arrancá-la com raiz e tudo e semeá-la de novo, porque o mundo precisava de revoluções verdadeiras. Aquela decisão, estava ciente, o aproximaria ainda mais da morte que já o vigiava das torres do Kremlin. A morte, no entanto, podia ser considerada apenas uma contingência inevitável: Liev Davidovitch sempre pensara que as vidas de um, de dez, de cem, de mil homens podem e até devem ser devoradas se o turbilhão social assim o exigir para atingir seus fins transformadores, pois o sacrifício individual é muitas vezes a lenha que se queima na pira da revolução. Por isso lhe dava vontade de rir quando certos jornais insistiam em mencionar a sua “tragédia pessoal”. De que tragédia falavam?, escreveria. No processo sobre-humano da revolução não tinha cabimento pensar em tragédias pessoais. Sua tragédia, quando muito, era saber que para se lançar na luta não tinha à mão correligionários forjados no forno da revolução, nem meios econômicos e muito menos um partido. Mas restava-lhe aquela que sempre fora a sua melhor arma: a pena, a mesma que difundira as suas ideias nas colaborações entregues ao Iskrae que, já no seu primeiro desterro, o conduzira ao coração da luta, desde aquela noite de 1901 em que recebera a mensagem capaz de situar a sua vida de lutador no vórtice da história; a pena fora convocada para a sede do Iskra, em Londres, onde o esperava Vladimir Ilitch Ulianov, já conhecido como Lenin.”

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“O verdadeiro revolucionário começa a sê-lo quando subordina sua ambição pessoal a um ideal. Os revolucionários podem ser cultos ou ignorantes, inteligentes ou limitados, mas não podem existir sem vontade, sem devoção, sem espírito de sacrifício.” (L. D. Trotski)

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“Em Prínkipo, a presença de Trotski não provocava sobressaltos, e essa evidência o fez compreender que, se seu nome ainda gerava confusões na Europa, não se devia ao que ele pudesse originar mas àquilo que seus inimigos exigiam que lhe fosse entregue em pagamento dos seus atos: hostilidade, repressão, rejeição. O ódio de Stalin, transformado em razão de Estado, tinha posto em marcha a mais potente engrenagem de marginalização jamais dirigida contra um indivíduo solitário. Mais ainda, tinha se entronizado como estratégia universal do comunismo, controlado a partir de Moscou, e até como política editorial de dezenas de jornais. Por isso, engolindo os vestígios do seu orgulho, teve de admitir que, enquanto no Kremlin não decidissem quando a sua vida deixaria de ser útil, manteriam-no preso num ostracismo inflexível justamente até se decretar a queda do pano e o fim da palhaçada. E, pela primeira vez, atreveu-se a pensar em sua vida em termos de tragédia: a clássica, a grega, sem oportunidade para apelações.”

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“Olha, Ramón, entre as muitas coisas que você tem de aprender estão a ter paciência e a saber que não se atacam os inimigos quando estão de pé, mas quando estão de joelhos. E atacam-se sem piedade, caralho!”

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“A morte é tão definitiva e irreversível que quase não deixa margem para outros temores.”

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“Aquela jogada sórdida permitiu que Liev Davidovitch percebesse uma coisa que lhe escapara durante os julgamentos anteriores: Stalin também se propusera a transformar as poucas figuras do passado que ainda o acompanhavam já não em comparsas submissos de suas mentiras, mas em cúmplices diretos de sua fúria criminosa. Quem não fosse vítima seria cúmplice e, mais ainda, carrasco. O terror e a repressão estabeleciam-se como política de um governo que adotava a perseguição e a mentira como recursos de Estado e estilo de vida para o conjunto da sociedade.”

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“A primeira conclusão de Trotski foi que, de acordo com o governo stalinista, todos os membros do bureau político que levaram a revolução ao triunfo, que acompanharam Lenin nos dias mais difíceis da guerra e da fome e colocaram o país em marcha, homens que sofreram a cadeia, o desterro e inúmeras repressões, na realidade tinham sido desde sempre traidores dos seus ideais e, mais ainda, agentes a serviço de potências estrangeiras desejosas de destruir o que eles próprios tinham construído. Não seria um paradoxo os líderes de Outubro, todos eles, acabarem sendo traidores? Será que o traidor não era um só e se chamava Stalin?”

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“Há várias semanas, um grupo de escritores e ativistas políticos que se diziam próximos das posições do velho revolucionário tinham se obstinado, no calor dos vinte anos de Outubro, em procurar os defeitos do sistema bolchevique que proporcionaram a entronização do stalinismo. Para isso, quiseram desenterrar, com particular insistência, a repressão sangrenta da revolta dos marinheiros de Kronstadt e, invocando a pureza da verdade histórica, decidiram tornar pública a responsabilidade do exilado nos acontecimentos. O argumento mais utilizado fora de que aquela repressão podia ser considerada o primeiro ato do “terror stalinista” inerente ao bolchevismo no poder, e equiparavam a resposta militar e o fuzilamento de reféns aos expurgos de Stalin. Devido à sua responsabilidade à frente do exército, consideravam o então comissário da Guerra o progenitor daqueles métodos de repressão e de terror.

Fora doloroso para Liev Davidovitch saber que homens como Eastman, Victor Serge ou Souvarine sustentavam aquelas opiniões acerca de uma responsabilidade que o acossava há anos, mas incomodava-o, sobretudo, que tivessem retirado do seu contexto um motim militar, verificado no tempo da guerra civil, e o tivessem colocado ao lado de processos fabricados e fuzilamentos sumários de civis em tempos de paz.

Durante semanas, Liev Davidovitch se embrenharia naquela disputa histórica. Para começar a rebatê-los, o exilado teve de aceitar a responsabilidade que lhe correspondia como membro do Politburo, por ter aprovado, ele também, a repressão daquela estranha sublevação, mas recusou-se a aceitar a acusação de que ele pessoalmente favorecera a repressão e incentivara a crueldade com que tinha se manifestado. “Estou disposto a considerar que a guerra civil não é precisamente uma escola de conduta humanitária e que, de um lado e de outro, se cometem excessos imperdoáveis”, escreveu. “É verdade que em Kronstadt houve vítimas inocentes, e o pior excesso foi o fuzilamento de um grupo de reféns. Mas, mesmo tendo morrido inocentes, o que é inadmissível em qualquer tempo e lugar, e mesmo tendo sido eu, como chefe do exército, o derradeiro responsável pelo que aconteceu ali, não posso admitir uma equiparação entre o esmagamento de uma rebelião armada contra um governo frágil e em guerra com 21 exércitos inimigos e o assassinato frio e premeditado de camaradas cujo único crime foi pensar e, quando muito, dizer que Stalin não era a única nem a melhor opção para a revolução proletária.”

Mas Liev Davidovitch sabia que Kronstadt ficaria eternamente marcado como um capítulo negro da Revolução e que ele próprio, cheio de vergonha e de dor, carregaria para sempre essa culpa. Também sabia que, se em Kronstadt os bolcheviques (e incluía-se a si próprio e a Lenin) não tivessem reprimido sem piedade a rebelião, talvez tivessem aberto as portas à restauração. Assim, simples, terrível e cruel, podem ser a revolução e suas opções, pensou nessa altura e continuaria a pensar até o fim, sem que nada o fizesse mudar de opinião.”

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“A jogada de mestre da procuradoria era acusar Iagoda de ter agido como um instrumento das agressões trotskistas. Em consequência disso, durante os dez anos em que perseguira, prendera e torturara os camaradas de Liev Davidovitch e confinara milhares de pessoas aos campos da morte, seus excessos criminosos deviam-se a ordens contrarrevolucionárias justamente de Trotski, e não a disposições de Stalin…

Sentindo como aquela agressão à verdade lhe devolvia as forças, o exilado escreveu que Stalin, o Coveiro da Revolução, conseguia superar toda a sua experiência anterior, além de ultrapassar os receptáculos da credulidade mais militante. A irracionalidade das acusações era tanta que lhe era quase impossível conceber um contra-ataque, embora inicialmente tenha decidido responder usando a ironia: é tamanho o meu poder, escreveu, que por ordens minhas, dadas a partir da França, da Noruega ou do México, dezenas de funcionários e de embaixadores com quem nunca falei se transformam em agentes de potências estrangeiras e me enviam dinheiro, muito dinheiro, para apoiar minha organização terrorista; chefes de indústrias tornam-se sabotadores; médicos respeitáveis dedicam-se a envenenar seus pacientes. O único problema, comentaria, era aqueles homens terem sido dirigentes escolhidos pelo próprio Stalin, pois há muitos anos ele não nomeava ninguém na União Soviética.

As confissões inacreditáveis ouvidas durante os dez dias que durou o processo e a forma como foram obrigados a humilhar-se homens repletos de história como Bukharin e Rikov não surpreenderam Liev Davidovitch. Mas provocou-lhe uma enorme tristeza, pelo contrário, ler as autoincriminações de um lutador como o radical Rakovski (tão perto da morte que lhe fora permitido prestar declarações sentado), que reconheceu ter se deixado levar pelas aventureiras teorias trotskistas, apesar de Trotski ter lhe confessado em 1926 sua condição de agente britânico. A que extremos teriam chegado as pressões para quebrar a dignidade de um homem que resistira a anos de deportações e de prisão sem renunciar às suas convicções e que sabia, além disso, estar no fim da vida? Será que algum deles acreditava que, com a sua confissão, prestava um serviço à União Soviética, como eram obrigados a repetir? Liev Davidovitch teve de reconhecer ser incapaz de compreender aquelas exibições de submissão e covardia.

Um primeiro contratempo do processo revelou as costuras da sua montagem. Foi protagonizado por Krestinski, que, durante uma tarde inteira, se atreveu a afirmar que suas confissões, feitas à polícia secreta, eram falsas e se declarou inocente de todas as acusações. Mas, na manhã seguinte, quando subiu ao estrado, Krestinski admitiu serem verdadeiras as acusações anteriores, além de mais algumas, certamente elaboradas a toda a pressa. Com que argumentos teriam quebrado um homem já convencido de que ia ser fuzilado? A nova GPU estava desenvolvendo métodos que apavorariam o mundo no dia em que fossem conhecidos, métodos graças aos quais se verificou a revelação mais espetacular do processo, quando Iagoda, depois de se declarar inocente e de receber o mesmo tratamento que Krestinski, confessou ter preparado o assassinato de Kirov por ordens de Rikov, uma vez que este invejava a ascensão meteórica do jovem.

Mas a estrela do julgamento, como seria de se esperar, foi Nicolai Bukharin, que, depois de um ano de estada nos porões da Lubianka, parecia pronto para cometer o último ato de sua autodestruição política e humana. Embora negasse ser responsável pelas atividades de terrorismo e de espionagem mais assustadoras, Liev Davidovitch julgou compreender que sua tática era aceitar o inaceitável com uma convicção e uma ênfase com que pretendia demonstrar aos observadores mais perspicazes a falsidade da instrução criminal. O velho revolucionário, no entanto, percebeu o erro de perspectiva cometido por Bukharin ao tentar lançar um grito de alarme aos alarmados, para quem (apesar do silêncio que mantinham) todas aquelas acusações seriam tão pouco críveis como as dos julgamentos anteriores. Mas a grande massa, aquela que em Moscou e no mundo seguia o decorrer dos processos, tinha tirado de suas palavras uma única conclusão que validava as acusações e destruía a estratégia do réu: Bukharin confessou, disseram, e isso era o mais importante. Fora para acabar ajoelhado e choroso, admitindo crimes fictícios, que Bukharin preferira voltar a Moscou?, Liev Davidovitch se perguntaria, recordando a carta dramática que Fiodor Dan lhe remetera há três anos.

Parecia evidente a Liev Davidovitch que, nos processos, Stalin exigia dos acusados, mais que uma verdade, a sua autodestruição humana e política. Quando executara os condenados dos julgamentos anteriores, obrigara-os a morrer com a consciência de que não só tinham escarnecido de si próprios, como, além disso, tinham condenado muitos inocentes. Por isso se admirava de que Bukharin, que sem dúvida aprendera a lição dos bolcheviques que o antecederam naquela situação, conservasse a esperança vã de salvar a vida. Numa das muitas cartas que escreveu a Stalin dos porões da Lubianka e que o Coveiro se encarregava de fazer circular em algumas esferas, Bukharin chegou a dizer-lhe que só sentia por ele, pelo Partido e pela causa, um amor grandioso e infinito, e despedia-se abraçando-o em pensamentos… Liev Davidovitch podia imaginar a satisfação de Stalin ao receber mensagens como aquela, que o transformavam num dos poucos carrascos da história a obter a veneração de suas vítimas enquanto as empurrava para a morte… Em 11 de março, os autos tinham sido conclusos para a sentença. Quatro dias depois, os condenados à morte foram executados, garantia o Pravda…

Desde que aquela encenação começou a ser exibida, Liev Davidovitch manteve-se no seu quarto porque lhe era doloroso tentar responder às perguntas que lhe colocavam jornalistas, correligionários, secretários e guarda-costas, todos à procura de uma lógica existente para além do ódio, da obsessão conspiratória e da insanidade criminosa do homem que governava um sexto da Terra e a mente de milhões de pessoas em todo o mundo. Liev Davidovitch sabia que o único objetivo possível de Stalin nesses processos era desacreditar e eliminar adversários reais e potenciais e transferir para eles as culpas por cada um de seus fracassos. O que lhes escapava era aquele descrédito ser dirigido para o interior da sociedade soviética, que, numa porcentagem sem dúvida notável, devia acreditar em tudo o que era divulgado, por mais difícil que fosse sua assimilação. Outro grande objetivo era tornar o medo extensivo e onipresente, sobretudo o medo dos que tinham alguma coisa a perder. Por isso os primeiros destinatários daqueles expurgos tinham sido, na realidade, os burocratas: seguindo essa estratégia, Stalin atingia dezenas dos seus acólitos, incluindo vários membros do Politburo e secretários do Partido nas repúblicas, stalinistas que, de um dia para o outro, tinham sido qualificados como traidores, espiões ou ineptos. Se os oposicionistas de outros tempos foram desonrados publicamente, os stalinistas, pelo contrário, costumavam ser destruídos em silêncio, sem processos abertos, da mesma forma que tinham sido dizimados os comunistas de diversos países refugiados na União Soviética, contra quem Stalin, depois de usá-los, parecia ter se encarniçado.

O mais preocupante era saber que aquelas limpezas tinham afetado toda a sociedade soviética. Como era de se esperar, num Estado de terror vertical e horizontal, a participação das massas na depuração contribuíra para sua difusão geométrica, porque não era possível desencadear uma caçada como aquela que se vivia na União Soviética sem exacerbar os instintos mais baixos das pessoas e, sobretudo, sem que cada uma delas sofresse do terror de cair em suas redes, por qualquer motivo que fosse – ou mesmo sem motivos. O terror gerara o efeito de estimular a inveja e a vingança, além de ter criado um ambiente de histeria coletiva e, pior ainda, de indiferença pelo destino dos outros. A depuração alimentava-se de si própria e, uma vez desencadeada, libertava forças infernais que a obrigavam a seguir em frente e a crescer…

Semanas antes, Liev Davidovitch constatara dramaticamente o horror vivido por seus compatriotas quando uma velha amiga, fugida milagrosamente para a Finlândia, lhe escrevera: “É terrível verificar que um sistema nascido para resgatar a dignidade humana tenha recorrido à recompensa, à glorificação, ao estímulo da denúncia, e que se apoie em tudo o que é humanamente vil. A náusea sobe-me pela garganta quando ouço as pessoas dizerem: fuzilaram M., fuzilaram P., fuzilaram, fuzilaram, fuzilaram. As palavras, de tanto as ouvirmos, perdem seu sentido. As pessoas repetem-nas com a maior tranquilidade, como se estivessem dizendo: vamos ao teatro. Eu, que vivi esses anos no medo e senti a compulsão de denunciar (confesso com pavor, mas sem sentimento de culpa), deixei de sentir na minha mente a brutalidade semântica do verbo fuzilar… Sinto que chegamos ao fim da justiça na Terra, ao limite da indignidade humana. Que morreram demasiadas pessoas em nome daquela que, prometeram-nos, seria uma sociedade melhor”…”

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“Para a arte, a liberdade é sagrada, é a sua única salvação. Para a arte, tudo tem de ser tudo”. (Trotski)

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“Para indignação de poucos e para confirmação popular de suas boas intenções, o Grande Capitão tinha criticado os executores do expurgo, que fora acompanhado, as palavras eram suas, de “mais erros que os esperados”. Nesse caso, tudo teria corrido bem se só tivessem sido cometidos os erros esperados? Quantas pessoas podiam ser fuziladas por engano?

Na realidade, a mais dramática das certezas históricas que o Congresso revelara foi a de que o secretário-geral tinha chegado finalmente aonde desejava em sua ascensão ao céu do poder. O terror daqueles últimos anos tinha lhe permitido tirar de cena, de uma maneira ou de outra, dezoito dos vinte e sete membros do Politburo eleitos no último congresso presidido por Lenin, e poupar a cabeça de apenas um quinto dos membros do Comitê Central eleitos em 1934, quando a situação, pela última vez, esteve prestes a fugir-lhe das mãos. Stalin tinha demonstrado ser um verdadeiro gênio da trapaça: sua bem-sucedida eliminação de qualquer oposição no interior do Partido (apoiando-se no acordo sobre a ilegalidade das facções promovido por Lenin) transformou-se em sua arma política mais eficaz para acabar com a democracia e, mais tarde, instaurar o terror e levar a cabo os expurgos que lhe deram o poder absoluto. Talvez o primeiro erro do bolchevismo, deve ter pensado Liev Davidovitch, tenha sido a eliminação radical das tendências políticas que se lhe opunham. Quando essa política passou do exterior da sociedade para o interior do Partido, começou o fim da utopia. Se a liberdade de expressão fosse permitida na sociedade e dentro do Partido, o terror não teria conseguido se implantar. Por isso Stalin empreendera a depuração política e intelectual, para que ficasse tudo sob a alçada de um Estado devorado pelo Partido, de um Partido devorado pelo secretário-geral. Exatamente como Liev Davidovitch, antes da abortada revolução de 1905, disse a Lenin que aconteceria.”

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“O que mais o encorajava Trotski a dedicar-se à escrita daquela desoladora biografia de Stalin, era a convicção de que, tal como acontecera ao também deificado Nero, depois de sua morte as estátuas de Stalin seriam derrubadas e seu nome apagado de toda a parte, porque a vingança da história costuma ser mais terrível do que a do mais poderoso imperador que alguma vez existiu.”

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“Minha fama de boa pessoa, mais que a de veterinário eficiente, espalhou-se pela zona e as pessoas iam me ver com animais tão magros como elas (conseguem imaginar uma serpente magra?) e, por absurdo que pareça naqueles dias de escuridão, ofereciam-me medicamentos, linha para suturas, ataduras que por alguma razão haviam sobrado, numa prática fervorosa da solidariedade entre os fodidos, que é a única verdadeira.”

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“Embora ainda não tivesse começado a acompanhar Ana à igreja, Dany, Frank e os outros poucos amigos que via diziam que eu parecia estar trabalhando para minha candidatura à beatificação e minha ascensão incorpórea aos céus. A verdade era que, lendo e escrevendo sobre como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino que obra de homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendência histórica, tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer, e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar nossos conceitos do bem e da verdade por (acreditarmos) serem os únicos possíveis e por, além disso, deverem estar agradecidos pelo que lhes demos, mesmo que não o tivessem pedido. E, embora soubesse que a minha cosmogonia era de todo impraticável (e que merda fazemos com a economia, com o dinheiro, com a propriedade, para que tudo isso funcione? e que porra fazemos com os espíritos predestinados e com os filhos da puta de nascença?), satisfazia-me pensar que talvez um dia o ser humano pudesse cultivar essa filosofia, que me parecia tão elementar, sem sofrer as dores de um parto ou os traumas da obrigatoriedade, por pura e livre escolha, por necessidade ética de ser solidário e democrático. Masturbações mentais minhas…”

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“Com aquele impulso, que ele sabia ser um epílogo, Trotski pôs-se a dar forma às suas últimas vontades. “Durante 43 anos da minha vida consciente fui um revolucionário”, escreveu, “e durante 42 lutei sob a bandeira do marxismo. Se tivesse de começar outra vez, tentaria evitar este ou aquele erro, mas o decurso geral da minha vida permaneceria inalterado. Morrerei sendo um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é hoje menos ardente (antes, mais firme) do que era nos dias de minha juventude. (...) A vida é bela, os sentidos celebram sua festa… Que as gerações futuras limpem a vida de todo o mal, de toda a opressão e violência, e desfrutem dela com plenitude”.”

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“Ramón decidira desde o princípio, mesmo quando estava convencido de que Roquelia tinha sido enviada por seus chefes distantes, manter a mulher à margem dos pormenores mais profundos de sua relação com o mundo das trevas, porque, no meio dos ímpios de sempre, não saber é a melhor maneira de estar protegido.”

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“– Compreende agora que somos uns empestados? Você consegue se dar conta de que somos o que Stalin criou de pior e, por isso, ninguém nos quer, nem aqui na União Soviética depois de sua morte, nem no Ocidente? Que, quando aceitamos a missão mais honrosa, estávamos nos condenando para sempre, porque íamos executar uma vingança que o cérebro enfermo de Stalin julgava necessária para conservar o poder?

– Stalin não era um doente. Nenhum doente governa meio mundo durante trinta anos. Vocês mesmos diziam: Stalin sabe o que faz…

– É verdade. Mas uma parte dele estava doente. Dizem que matou cerca de 20 milhões de pessoas. Um milhão pode ter sido por necessidade, os outros 19 milhões foram por doença, eu digo… Mas já lhe disse que Stalin não era o único doente.”

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“Stalin, pare de enviar assassinos para me liquidarem. Já apanhamos cinco. Se não parar com isso, eu enviarei pessoalmente um homem a Moscou, e não haverá necessidade de mandar outro.” (Marechal Tito, em carta datada de 1950 encontrada nos arquivos pessoais de Stalin)

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“Pensou que o fato de ter acreditado e lutado pela maior utopia jamais concebida implicava doses necessárias de sacrifícios. Ele, Ramón Mercader, tinha sido um dos arrastados pelos rios subterrâneos daquela luta desproporcional, e não valia a pena esquivar-se de responsabilidades nem tentar atribuir suas culpas a enganos e manipulações: ele encarnava um dos frutos podres que apareciam mesmo nas melhores colheitas e, ainda que fosse verdade que outros lhe tinham aberto as portas, ele atravessara, satisfeito, o umbral do inferno, convencido de que deveria existir a morada das trevas para que houvesse um mundo de luz.”

O homem que amava os cachorros – Leonardo Padura
Editora: Boitempo
ISBN: 978-85-7559-445-2
Tradução: Helena Pitta
Páginas: 592
Fonte: http://jornalggn.com.br/blog/doney/lista-de-livros-o-homem-que-amava-os-cachorros-de-leonardo-padura

"Vivemos tempos sombrios"


Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados.
 
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.  
 
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
 
Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.
 
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
 
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
 
Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
 
Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.
 
Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
 
Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas
 
É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
 
 O golpe estava consumado!
 Não há como ficar calado.
 Obrigado
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Logística Reversa - Brasil 2050 2ª Temporada

Dualidade do homem: grandeza e miséria


Há tempos o homem vem procurando conhecer a totalidade das coisas, e através destas buscas surgem alguns questionamentos tais como: poderá o homem conhecer todas as coisas? Poderá o homem ser perfeitamente feliz? Não estará buscando apenas por vaidade? Por que busca o divertimento? Em que consiste a grandeza e miséria do homem? Neste artigo tentaremos responder estes questionamentos, procurando apresentar soluções para tamanho problema a partir da análise do artigo II – “Miséria do homem sem Deus” – da obra Pensamentos, de Blaise Pascal (1623-1662).

O ser humano possui um desejo demasiado pelo conhecimento. O homem é uma parte, que não pode, não consegue conhecer, “mas a parte pode ter, pelo menos, a ambição de conhecer as partes, as quais cabem dentro de suas próprias proporções” [1]. Deseja conhecer a totalidade das coisas, com intuito de ser útil a si mesmo e aos outros, sente paixão e se aproxima de paixões, ama e deseja ser amado, mas tudo isso é vaidade. “Eis a visão final do sábio rei: tudo é vaidade, tudo é afficção de espírito…” [2]. Os homens acreditam que é possível conhecer a totalidade das coisas usando apenas a razão, pois acreditam que ela é superior a todas as coisas, mas o mundo possui dimensões tão pequenas, as coisas se dividem em tantas partes que a vista, a razão do ser humano não consegue compreender e apreender, pois elas estão para além de onde se pensa ser o limite. “Todo esse mundo visível é apenas um traço imperceptível na amplidão da natureza, que sequer nos é dado conhecer de modo vago” [3].

O homem é um grande problema para si mesmo, visto que não consegue conhecer a si mesmo, sua própria realidade e nem a totalidade das coisas existentes. “Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas como o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve” [4]. Nem um ser humano finito poderá conhecer o início e nem o fim das coisas, visto que o homem está instalado neste universo, o ser humano em relação ao nada é tudo, já em ralação ao tudo é um nada, o ser humano é uma espécie de meio termo entre o nada e o todo; e apenas o criador de tal magnitude, o criador de todas as coisas poderá conhecê-las em sua totalidade. “(…) O autor destas maravilhas conhece-as; e ninguém mais” [5]. E estando a razão inserida no homem, este que é uma pequena parte neste universo, ela se vê nas mesmas ou piores dificuldades ainda de conhecer; se ela fosse infinita e não fizesse parte deste universo, certamente ela poderia conhecer a realidade existente, a totalidade das coisas, mas não está, e consequentemente, não poderá conhecer, pois “Nossa inteligência ocupa, entre as coisas inteligíveis, o mesmo lugar que nosso corpo na magnitude da natureza” [6]. E com a grande impossibilidade de conhecer todas as coisas, o ser humano se depara com a sua própria miséria, seu limite e sua impotência. Mas ao reconhecer sua miséria, sua limitação e sua impossibilidade diante do universo do saber torna-se o ser mais grandioso de todo o universo, pois sua grandeza está, justamente, no reconhecimento de sua miséria, de sua limitação, de sua pequenez em relação ao universo. “O homem é grande porque se reconhece miserável” [7].

Ele é comparado a não mais que um “caniço”, que é frágil, é agitado pelo vento para todos os lados, quebra-se com facilidade, mas que possui um pensamento, pensamento este que possibilita o reconhecimento de sua miséria. E ao reconhecer a sua miséria, limitações e impotências, torna-se relativamente superior a todas as outras criaturas, pois estas não podem reconhecer que são miseráveis, vista que não possuem o pensamento para tal reconhecimento. “O homem não é mais que um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço que pensa” [8]. E juntamente com a miséria vêm todos os tormentos, as aflições, os sofrimentos batendo a fundo no coração do ser humano, e o será necessário descansar e acalmar seu íntimo e procurar algo que o tire do tédio. “A presente miséria produz nele um tormento de nostalgia pela sua passada grandeza, e este tormento o incita o instinto de uma verdade superior, a aspiração de um bem que somente pode satisfazê-lo” [9].

Para que o tédio não se torne uma profunda solidão, é necessário que o homem procure algo para não se angustiar cada vez mais, e é aí que entra o divertimento para livrá-lo do tormento, levá-lo à felicidade, mas que acaba conduzindo-lhe a outro caminho. “A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento e, no entanto, essa é a maior das nossas misérias” [10]. O divertimento afasta o homem de si mesmo, da morte e o impede de ver suas limitações e suas misérias. “Não tendo conseguido curar a morte, a miséria, a ignorância, os homens lembraram-se, para ser felizes, de não pensar nisso tudo” [11]. Por outro lado, o divertimento livrar o ser humano de um tédio, de uma depressão, de uma angústia, de uma náusea, pois logo que começa a pensar na sua condição humana limitada e também miserável causa um profundo desgosto. “Mas tirai o divertimento e os vereis consumir-se de desgosto; sentem então o seu nada, sem conhecê-lo” [12]. Por isso, o ser humano está constantemente buscando o divertimento para fugir da sua miséria, pois deixa de pensar em suas questões latentes, tentando tornar-se demasiadamente feliz e buscar uma forma de esperar e suportar a morte.

“É mais fácil suportar a morte, quando não se pensa nela, do que pensar na morte sem perigo” [13]. O divertimento tem força suficiente de conduzir um homem de um estado de tristeza, abatimento e miséria a um estado de felicidade. Dentro da visão pascaliana, a condição humana está marcada por uma miséria ontológica. E essa é a verdadeira condição do ser humano; condição que lhe torna capaz de saber com certeza e o faz ignorar o absoluto. Embora este tenha perdido um ente querido e se encontre num estado deprimente, enquanto ele estiver no divertimento será feliz, pois “sem divertimento não há alegria, com divertimento não há tristeza” [14]. Mas ele estará vivendo uma pseudo-felicidade e não uma felicidade plena, que não carece de nada mais, pois para Pascal a felicidade plena não se dá nesta vida, mas somente em Deus, só será plenamente feliz com a morte do corpo, onde se estará definitivamente com Deus. “E Pascal bem sabia que só haveria paz quando o corpo fosse destruído”. [15]

Com base no que foi apresentado, surgem alguns questionamentos: o que é o homem na natureza? E Pascal responde que o ser humano é um “(…) nada com relação ao infinito e um tudo em relação ao nada (…)” [16]. Se o homem não se deparasse primeiro com a vaidade, e sim com o divertimento, o que aconteceria? Ele não conheceria sua miséria, não se tornaria grandioso e não saberia onde encontrar felicidade absoluta. É possível ao homem conhecer? Sim, mas o que conhece não lhe é satisfatório, sempre falta algo amais.

Testifica-se, assim, que tanto a vaidade como o divertimento tem grande importância na vida do ser humano: a vaidade por envaidecer o seu coração com a possibilidade de conhecer e conduzi-lo à miséria, que consequentemente o reconduzirá à grandeza, que é o reconhecer a sua própria miséria; o divertimento resgata-o do tédio, da angústia, da tristeza, da depressão, do sofrimento, dos tormentos e o fortalece para suportar sua morte e esperar o seu encontro definitivo com Deus, quando então será feliz.

Alessandro Ferreira de Andrade Blanck
Fonte: http://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=1482

Por um cristianismo não religioso


Por William Felipe Zacarias

Na era pós-cristã, resta ao cristianismo limitar sua existência para fora das paredes do “túmulo de Deus”, metáfora de Nietzsche à igreja institucional. O esvaziamento da instituição pressupõe uma retomada do cristianismo original de Jesus que não fundou uma religião, mas, ao contrário, foi contra ela em suas discussões com fariseus e escribas. Por conseguinte, o que seria a vivência de um cristianismo não religioso? O cristianismo é a comunhão dos ateus.

Quando alguém me diz ser ateu, ironicamente tenho respondido, “pois é, também sou!”. O indivíduo se espanta, pois a resposta parte da boca de um teólogo. De fato, não creio na metafísica, nem no “deus comércio” da prosperidade material. Conforme o sociólogo francês também ateu Michel Maffesoli, “o mais prostituído dos seres é o ser por excelência: é Deus. Com efeito, em numerosas tradições religiosas, é Ele que se dá todo a todos.”(1)

Em grande medida, a teologia grega foi transportada para dentro da teologia judaico-cristã. A música gospel que atualmente faz tanto sucesso no mercado se identifica muito mais com o castigador imponente e vingador Zeus do que com o Deus pessoal judeu. Enquanto Zeus é a-histórico, Ihwh age concretamente na história e inclusive se encarna nela, um escândalo para os gregos, visto que a carne lhes era desprezível por aprisionar a alma. Para os gregos, Deus se fazer carne vai muito além do que se esperaria de uma divindade. O verbo (do gr. Lógos) nunca poderia se reduzir a algo tão nauseabundo. Como bem afirma o brasileiro Clóvis de Barros Filho, “o texto de João propõe que esse lógos – ainda traduzido por verbo – se fez carne e habitou entre nós. Aqui, as concepções de Deus se afastam brutalmente. É inaceitável para a concepção grega dominante da época que o divino da ordem universal tenha se convertido em carne. Na carne de um corpo específico. E essa carne, de que fala o texto, é Jesus, um homem, tido como Filho de Deus.”(2) De repente, Deus e torna em “um indivíduo. Um divino encarnado. Um Deus pessoal. Que podíamos encontrar na rua. Que podíamos bater um papo. Aparentemente, sem frescura. Afinal, dava prosa a qualquer um. E grande atenção aos carentes. Não só de riqueza, mas também de notoriedade, de capital simbólico de afeto etc. Nada a ver com os reis da época.”(3) De repente, Deus não precisa ser procurado no céu, pois está presente na terra. Ao invés do ser humano buscar a Deus, agora Deus busca o ser humano. Os gregos quase infartaram ao ler o v. 14 do primeiro capítulo do evangelho de João. Não é o ser humano que se “religa” a Deus, mas Deus que se ligou ao ser humano. Além disso, acontece uma aberração: o lógos morreu na cruz.

Jesus não fundou uma igreja ou uma religião. Ao contrário, promoveu a caridade e o amor como uma antirreligião. Ele não queria uma fé abstrata, mas concreta com ações práticas no mundo real. Assim como prometera que na casa de seu Pai há muitas moradas, da mesma forma agia cristãmente no mundo secular. Sua mensagem era para os seculares. O próprio Nietzsche o definiu como um “bom mensageiro” que “morreu tal como viveu, como ensinou – não para “redimir os homens”, mas para mostrar como se deve viver.”(4) Conforme Nietzsche, “A prática foi o que ele deixou para a humanidade. Sua atitude diante dos juízes, diante dos esbirros, diante dos acusadores e de todo tipo de calúnia e escárnio – sua atitude na cruz. Ele não resiste, não defende seu direito.”(5) Jesus não trouxe uma nova religião, mas o amor que concede dignidade aos fracos e malogrados do mundo.(6) Por isso que Nietzsche o odeia tanto e chama Jesus de “decadência” do Ocidente, pois sua mensagem fundou e é inexorável ao próprio Ocidente.

Por conseguinte, o processo de secularização da tradição cristã é que permite o próprio cristianismo a continuar existindo em sua forma secular. A secularização é uma invenção necessária do próprio cristianismo que acabou eliminando os fundamentos metafísicos desta própria tradição.

O ateu e filósofo italiano contemporâneo Gianni Vattimo é um dos principais expositores de um cristianismo não religioso adequado à pós-modernidade. Vattimo aplica a kénosis (esvaziamento, cf. Fp 2.7) como vocação fundamental da secularização do cristianismo. O que já era para ser, desde o início, um movimento antirreligioso acabou se tornando mais uma religião dentre tantas outras. Com religião se pressupõe aqui o termo latino religare que literalmente significa religar. Este era o modo pela qual o ser humano buscava, com suas forças, alcançar a transcendência e a salvação. Em Jesus Cristo, ao contrário, é Deus que vem ao ser humano na encarnação do Lógos. O Deus cristão rompeu com a religiosidade sinérgica humana, pois o próprio Deus se doou e se entregou ao ser humano, vindo de encontro a ele aqui mesmo, na terra. Assim, como vocação do cristianismo, a kénosis seria a maneira pela qual o cristianismo consegue continuamente se esvaziar da sua religiosidade e de suas estruturas religiosas, tornando-se um movimento prático que vive e atua no mundo secular, servindo a Deus por meio do próximo. Thimothy Keller afirma sobre a igreja primitiva que “os cristãos mudaram a história e a cultura ao conquistarem as elites e também ao se identificarem profundamente com os pobres.”(7) Tal como Cristo se doou, os cristãos doavam-se a servir com honestidade e alegria, cumprindo sua vocação secular no mundo. Com a institucionalização pós-Constantino, perdeu-se a dimensão secular do cristianismo e do evento de Cristo como kénosis. Na verdade, conforme Westphal, Constantino se tornou em um arquétipo de Cristo, assumindo seu lugar. Cristo passa a ser o Deus que quer conquistar os povos vizinhos para si por meio do poderio militar, a exemplo das cruzadas. O cristianismo torna-se institucionalizado, rígido, litúrgico, preso às paredes do que mais tarde Nietzsche chamaria, como já dito, de “tumulo de Deus.” O evento de Cristo foi transfigurado em religião.

Para o sociólogo Max Weber, foi Lutero quem resgatou a vocação secular do cristianismo através da Befuf (profissão) e da Berufung (vocação): “a profissão concreta do indivíduo vai sendo, com isso, interpretada cada vez mais como um dom especial de Deus, e, a posição que ele oferece na Sociedade, como preenchimento da vontade divina.”(8)

Para Vattimo, “a kénosis de Deus, que é o cerne da história da salvação, ela não deverá mais ser pensada como fenômeno de abandono da religião, e sim como atuação, ainda que paradoxal, da sua íntima vocação.”(9) Logo, para Vattimo, a kénosis neotestamentária é o pressuposto da atuação cristã no mundo secular. A lógica é a seguinte: Cristo encarnou e atuou no mundo em caridade. A igreja é o corpo de Cristo, portanto, deve se encarnar no mundo com ações cristãs, servindo a Deus por meio do próximo. Por conseguinte, vive-se o cristianismo não religioso no bom cumprimento da profissão secular, seja pedreiro, carpinteiro, médico, agricultor, alfaiate, programador, fotógrafo, gari, bombeiro, etc.

É preciso mencionar que, conforme Euler Renato Westphal, a “característica de toda a tradição protestante é a secularização, que enfatiza a racionalidade científica e técnica, a liberdade de pensamento e a autonomia para com as instituições.”(10) Não é à toa que grandes pensadores e cientistas da Modernidade eram ou tinham suas raízes no cristianismo, como, por exemplo, “Immanuel Kant, Schelling, Thomas Malthus, Friedrich Nietzsche e tantos outros.”(11) Foi o teólogo e pastor alemão pietista Friedrich Ernst Schleiermacher quem fundou a universidade moderna a partir da Universidade de Berlim.(12) Também as universidades modernas americanas surgiram a partir da Reforma, como Harvard, Princeton e Yale.(13)

A Pós-Modernidade rompeu não só com a Modernidade, mas também com a Pré-Modernidade que constituiu a Modernidade. O marco divisor entre Modernidade e Pós-Modernidade é anúncio nietzschiano da morte de Deus. Foi Nietzsche quem abriu o “mar vermelho” que separa a Modernidade da Pós-Modernidade. Para Nietzsche, a única maneira de superar a decadência ocidental é o estabelecimento de uma nova cultura a partir da era trágica dos gregos, especialmente na adoração do deus caótico e hedonista Dionísio. O Übermensch só pode sobreviver nesta nova cultura substituta da humanista e decadente. Para Nietzsche, o Deus que se fez fraco é uma vergonha, um “golpe de gênio do cristianismo” onde Deus se tornou “o único que pode redimir o homem daquilo que para o próprio homem se tornou irredimível – o credor se sacrificando por seu devedor, por amor (é de se dar crédito?), por amor a seu devedor!...”(14) Por conseguinte, o projeto trans-humanista do Übermensch pode ser executado somente na superação do mito decadente cristão-ocidental.

Entretanto, como afirma Marcus Throup, “No fim das contas, o velhinho da floresta riu por último porque Zaratustra havia se equivocado: Deus não morreu.”(15) Realizar bem a profissão é uma atitude concreta do genuíno cristianismo não religioso, servindo a Deus por meio do próximo. Mas também, como teólogo cristão, não excluo o cristianismo religioso com seus dogmas, ritos, hinologia, experiências, etc., desde que sejam legítimos e não abusem da fragilidade humana, especialmente financeira. Sou ateu deste deus da prosperidade financeira tão pregado por aí, que em sua orgia realiza transações com tudo e todos. Ao contrário, creio no lógos que se fez carne, esvaziou-se, serviu e lavou os pés de humanos simples sem cobrar nada, além de morrer em uma cruz de forma tão cruel. Elimino de minha crença a metafísica de Zeus. O Deus que se fez fraco (existindo ou não) é uma força simbólica incrível em momentos de fraqueza, pois ele me entende e até morrer ele sabe como é. O Deus que se fez fraco está no fundamento do Ocidente e confere dignidade aos pobres, fraco e malogrados da sociedade. O “Jesus constantiniano” não tem nada a ver com isso. Querido leitor, acabei de lhe dar uma chave interpretativa. Agora é com você. O objeto de sua fé deveria ser repensado.

Referências:
(1) MAFFESOLI, Michel. A Sombra de Dioniso. 2. ed. São Paulo: Zouk, 2005. p. 19.
(2) BARROS FILHO, Clóvis. A vida que vale a pena ser vivida. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 100.
(3) BARROS FILHO, 2014. p. 101.
(4) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: LPM, 2013. p. 399.
(5) NIETZSCHE, 2013. p. 399.
(6) Cf. BARROS FILHO, Clóvis. Somos Todos Canalhas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015. p. 114.
(7) KELLER, Thimothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 179.
(8) WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Livraria Pioneira, 1967. p. 57.
(9) VATTIMO, Gianni. Depois da Cristandade. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 12. p. 35.
(10) WESTPHAL, Euler Renato. “A pós-modernidade e as verdades universais: a desconstrução dos vínculos e a descoberta da alteridade.” in: CARVALHO LAMAS, Nadja de; RAUEN, Taiza Mara (orgs.). (Pro)Posições Culturais. Joinville: Univille, 2010. p. 15.
(11) WESTPHAL, Euler Renato. Brincando no Paraíso Perdido. São Bento do Sul: União Cristã, 2006. p. 46.
(12) Cf. ZILSE, Raphaelson Steven. Base Filosófica para uma Estrutura Dogmática?. In: SCHWAMBACH, Claus (coord.). Vox Scripturae. São Bento do Sul, v. XXI, n. II, 2013. p. 144.
(13) Cf. WESTPHAL, 2006. p. 43-44.
(14) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.. p. 74-75.
(15) THROUP, Marcus. Igreja na berlinda. Curitiba: Encontro, 2011. p. 45.




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