Responsabilidade Compartilhada: Sistema de Logística Reversa de Resíduos de Medicamentos Domiciliares como instrumento para a sustentabilidade



A confiança cega nos benefícios advindos das pesquisas científicas e dos avanços tecnológicos, que se manifestou de forma exponenciada durante quase todo século XIX, entrou num longo declínio desde que as luzes deste mesmo século se extinguiram. Esta confiança era parte do conjunto das características do modelo social que se desenvolveu durante a Revolução Industrial, por isso mesmo também chamado de Sociedade Industrial. Para este modelo social os riscos ambientais, sociais ou econômicos eram considerados como intrínsecos à evolução científica e como consequência previsível do progresso proporcionado. O preço a ser pago por todos os benefícios resultantes e que seria minimizado ou superado quando as pesquisas científicas alcançassem níveis que sequer poderiam ser previstos ou imaginados àquela época, permitindo que fossem alcançados avanços consideráveis nas áreas de consequências mais críticas (BECK, 2011; HARARI, 2015; HOBSBAWN, 2014).

No próprio Século XIX algumas vozes dissonantes quanto à postura confiante nos benefícios obtidos por meio dos avanços da Revolução Industrial e do Capitalismo dela resultante se fizeram ouvir em diversas áreas da sociedade, uma das áreas que logrou contribuição mais profícua foi a literatura. O inglês Charles Dickens (1812 – 1870) e os franceses Victor-Marie Hugo (1802 – 1885) e Émile Zola (1840 – 1902) foram alguns dos proeminentes escritores daquele período que se dedicaram ao tema.

Charles Dickens (2014, p. 37) apresenta o contexto no qual inspirou Tempos Difíceis de forma lúgubre: “Era uma cidade de tijolos vermelhos, ou de tijolos que seriam vermelhos caso as cinzas e a fumaça permitissem; mas no estado de coisas de então, era uma cidade de vermelhos e negros antinaturais”.

Nesta obra, mais do que em qualquer outra, efetuou um relato dramático do esgarçamento do tecido social da sociedade daquela época. A despersonalização causada pela exploração trabalhista da indústria, sempre em busca do lucro fácil sem mensurar as externalidades, alcançou níveis tais que os mais hábeis trabalhadores eram considerados apenas uma “Mão” e dos que não eram providos de habilidades que os destacassem sequer poder-se-ia dizer que eram notados ou percebidos como algo além de meros objetos. Estes estavam sujeitos a desenvolver atividades rotineiras e entendiantes, que não transmitiam sentido algum para suas vidas sem objetivos maiores ou aspirações relevantes: “para fazer o mesmo trabalho, e para quem cada dia era o mesmo de ontem e de amanhã, e cada ano o equivalente do próximo e do anterior” (DICKENS, 2014, p. 37).

Este livro, que conta com a admiração de um gênio do quilate de G. K. Chesterton, é considerado pela crítica literária como um manifesto de protesto contra as consequências sociais e ambientais, as externalidades, resultantes dos avanços científicos e tecnológicos que em algum momento fugiram ao controle humano durante e imediatamente após a Revolução Industrial inglesa. Com a geração incessante de riquezas e a concentração destas em poucas mãos e a aparente produção de conforto para os indivíduos que não sabiam sequer que precisavam de todo aquele aparato (MATOS, 2007, p. 27).

Jean Valjean, um fugitivo das galés francesas, consagrado pela indústria do entretenimento por meio de filmes, musicais e peças de teatro, Fantine, uma prostituta desdentada, esfarrapada e doente e Cosette, uma órfã sem esperanças, são os personagens centrais da obra mais conhecida de Victor Hugo e que o imortalizou: Os Miseráveis. Publicado originalmente em 03 de abril de 1862 é parte do movimento conhecido como Romantismo. Nesta obra em particular Hugo utiliza-se de sua pena para efetuar uma análise introspectiva sobre as condições sociais da época em que se insere, interpretando de forma vigorosa e por vezes revolucionária, as transformações que as Revoluções Industrial e Francesa introduziram no corpo orgânico da sociedade francesa dos séculos XVIII e XIX e o decorrente e inevitável conflito de classes que começava a imergir e tomar força, sem deixar de demarcar sua posição de forma incisiva e inquestionável.

Uma chave hermenêutica à obra de Hugo é a confiança que tinha no homem e na sua imensa capacidade de transformar o meio em que habitava de forma positiva, tal confiança é patente nesta obra, mais do que em qualquer outra que tenha escrito. Valjean que esteve preso 17 anos por roubar um pão, suportou todos os suplícios imagináveis na pior das prisões francesas: as galés, sai do cativeiro de forma inusitada, como um farrapo humano e após uma experiência espiritual com um representante do clero que lhe demonstra imerecida bondade, se permite deixar para trás toda a carga negativa que se amoldou ao seu caráter durante o encarceramento e se torna um cidadão virtuoso, altruísta e de uma bondade infinita (HUGO, 2013).

Hugo seguindo a tendência romântica de sub-repticiamente defender ideias de fraternidade e liberdade leva o leitor a refletir sobre o envilecimento humano, causado principalmente pela onipotência do dinheiro e as muitas variáveis do nascente capitalismo: individualismo feroz, a usura bancária ou de indivíduos quase sempre inescrupulosos, desprezo pelo meio ambiente e pela natureza. Apresenta ainda de forma trágica, embora favorável, os últimos dias da Comuna de Paris, ato de suprema coragem de alguns manifestantes que defendiam ideias de igualdade no meio de uma desigualdade tão crescente (HUGO, 2013).

Outra obra que retrata de forma traumática essa época é Germinal do escritor francês Émile Zola, expoente do movimento naturalista que tem no visceral O Cortiço do maranhense Aluísio de Azevedo um correspondente brasileiro. Para escrevê-lo (originalmente publicado em 1885), Zola decidiu conhecer de perto as agruras dos trabalhadores das minas de extração de carvão e passou cerca de dois meses atuando como mineiro. Sua “encarnação” para familiarizar-se com o meio em que mais morriam do que viviam incluiu viver no mesmo lugar que os trabalhadores, onde comeu e bebeu nas mesmas tavernas.

Retratou de forma crua e realista as lutas diárias daqueles trabalhadores em busca da sobrevivência durante o Segundo Império francês: os baixos salários e a exploração trabalhista que os expunha a uma luta sem sucesso contra fome; as moradias inapropriadas até mesmo para animais; o calor inclemente dentro das minas e as constantes infiltrações que os obrigavam a trabalhar com os pés sempre úmidos; as péssimas condições de trabalho por conta da falta de estruturas sólidas e seguras; as doenças epidérmicas e respiratórias trazidas pelas atividades profissionais; os acidentes constantes que aleijavam aqueles que preferiam a morte como uma forma de libertação de uma realidade sem esperança, além da exploração sexista a que as mulheres estavam sujeitas, seja de ordem familiar, conjugal ou trabalhista (ZOLA, 2000).

Zola observou tudo isso enquanto empurrava um vagonete cheio de carvão, acompanhou ainda de perto a greve dos mineiros contra a opressão trabalhista, sob a orientação do movimento socialista que estava no nascedouro e se disseminava entre o proletariado. E a luta entre as ideias anarquistas e socialistas, tão em voga àquela época. Germinal que é o primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa utiliza-se das ideias, que serviam de sementes da revolução que possibilitaria uma transformação social, como uma metáfora. Por diversas razões é considerado um libelo cruento contra exploração que a revolução industrial causou na França (CHIAVENATO, 1995).

Outro modelo social sub-repticiamente substituiu este modelo da Sociedade Industrial, ainda que também tenha sofrido alterações profundas desde as últimas décadas do fim do século XX. O sociólogo alemão Ulrich Beck (2011) denominou este modelo de Sociedade de Risco que neste paradigma é menos catástrofe que antecipação da catástrofe. Seria um estágio da modernidade no qual começam a se concretizar as ameaças produzidas até então pela sociedade industrial. Um modelo que busca antever cenários futuros por meio de simulações no presente, tentando antecipar as prováveis catástrofes (quer sejam mudanças climáticas, êxodo de refugiados, escassez de alimentos, revoluções sociais e políticas, crises financeiras, guerras e litígios internacionais, conflitos étnicos e religiosos ou desastres ambientais) que podem surgir em decorrência dos modelos atuais de produção e consumo. De forma que políticas públicas e medidas econômicas possam ser estruturadas e implementadas e que contribuam efetivamente para que essas catástrofes sejam evitadas.

Este modelo é caracterizado como aquele no qual a elevação do nível de conforto e do bem-estar de cada indivíduo que vive em sociedade é propiciado pela constante inovação tecnológica [ou destruição criativa, no dizer do economista austríaco Joseph Schumpeter]. E tornou-se realidade no mesmo momento em que a modernização atingiu seu ápice de sucesso: avanços tecnológicos, sociais, culturais, científicos ou econômicos. Porém, este sucesso intrinsecamente também permitiu o surgimento de aspectos causadores de consequências negativas, visto que criam um ciclo que escapa ao controle humano, são denominados de efeitos colaterais indesejados do processo de modernização. Quando esta sociedade se dá conta dos riscos a que está exposta estabelece uma necessidade premente de precaução e segurança ao mesmo tempo que, obrigatoriamente impõem uma “lógica do risco”, gerando uma crise de legitimidade nas instituições da Modernidade, pois se instala um estado constante de indeterminação e insegurança (BAHIA, 2012; BECK, 2011).

Esta Sociedade está em constante perigo de sofrer catástrofes de diversas ordens devido à evolução técnica constante da fase anterior, também conhecida por “modernidade simples”. E este perigo e risco a que esta sociedade é vulnerável e está submetida é causado pela própria sociedade global e globalizada que toma decisões por intermédio de alguns dos seus membros no manejo dos avanços tecnológicos, industriais, biológicos, sociais, políticos, culturais, científicos, econômicos, genéticos, de energia nuclear, etc., numa ação reflexiva: sendo ela a causadora dos efeitos que lhe atinge, daí este modelo também ser denominado como “modernização reflexiva” (GIDDENS; LASH; BECK, 2012).

A Sociedade do Risco é pródiga em gerar incessantemente riquezas, com a mesma voracidade com que produz socialmente riscos globalizados que atingem indiscriminadamente as condições básicas de todas as nações do planeta. Estes riscos de procedência antrópica são porém, indeterminados do ponto de vista do binômio espaço-tempo, o que contribui para que a comprovação dos danos se torne quase impossível, bem como o nexo de causalidade, fator imprescindível para que um fato antecedente seja vinculado a um resultado danoso (BAHIA, 2012, p.61).

Esta sociedade de risco deverá trilhar dois caminhos da mesma importância: nenhuma nação deverá tentar resolver seus problemas sozinha, visto que os efeitos colaterais são globais; abrir espaço para discussão de ordem moral e política que facilite o surgimento de uma cultura amadurecida e que tendo consciência do risco global, proporcione meios para a criação de espaços alternativos que façam surgir um movimento civil de responsabilidade globalizada. Que supere de forma eficiente o que Beck (2011, p. 75) chama de “irresponsabilidade organizada”, aquela contradição que enfrenta a sociedade de risco diante de uma degradação ambiental ao não ter instrumentos efetivos que lhe permita responsabilizar indivíduos ou instituições pelo dano causado (BAHIA, 2012, p. 60).

A Responsabilidade Compartilhada pelo Ciclo de Vida do Produto, um princípio-mor da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) instituída pela Lei 12.305 de 02 de agosto de 2010 e regulamentada pelo Decreto 7.404 de 23 de dezembro de 2010, é uma tentativa de minimizar esta “irresponsabilidade organizada” e propiciar a criação de uma cultura de responsabilização dos riscos e dos danos causados ao meio ambiente, com a obrigatoriedade da criação de sistemas de logística reversa que garantam o retorno efetivo e satisfatório dos resíduos de produtos de pós-venda ou pós-consumo e suas respectivas embalagens ao ciclo produtivo, ao ciclo de negócios ou recebam a destinação final de forma ambientalmente adequada.


[Introdução da dissertação defendida no Programa de Mestrado da Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável na Faculdade da Ciência da Administração de Pernambuco da Universidade de Pernambuco (UPE)]

Desfazendo a Entropia por meio da Logística Reversa


A logística reversa se propõe a reverter a dispersão entrópica de resíduos sólidos por todo o globo terrestre. As inquirições que as várias vertentes motivadoras impôem, se traduzem numa pergunta norteadora: pode a logística reversa desfazer esta dispersão e como pode fazer isso? Foi empreendida uma pesquisa exploratória e descritiva na literatura técnica de livros e artigos científicos da base de dados da Scielo e do Google Acadêmico sobre logística reversa publicados após a regulamentação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em 02 de agosto de 2010, em busca de respostas para as questões impostas. A logística reversa se apresenta como o instrumento da PNRS com capacidade de reverter esta desordem, reorganizando o sistema. A desordem de um sistema é matéria da Física, especificamente da 2ª Lei da Termodinâmica, a Lei da Entropia, que afirma que a desordem de um sistema isolado tende ao infinito e que esta desordem é irreversível, visto que espontaneamente a desordem não poderá ser desfeita, num sistema aberto a desordem pode ser desfeita, porém com repercussão para o mesmo sistema ou sistema maior no qual esteja contido. Constatou-se que os sistemas de logística reversa que são requeridos pela PNRS podem minimizar a entropia, por meio dos planos de coleta, acondicionamento, armazenamento e beneficiamento, contatou-se também que desfazer a entropia por meio da logística reversa requer cuidados especiais, para que a diminuição num elo da cadeia não redunde no aumento da mesma em outro elo, com perdas para todo o sistema.

Leia o artigo

Logística Reversa e a PNRS


A geração de resíduos sólidos, urbanos, de saúde, industriais, radiativos ou perigosos cresceu exponencialmente nos últimos anos, graças, em parte à estabilidade econômica alcançada com a consolidação do Plano Real e a consequente elevação da renda das Classes C, D e E, a economia cresceu e o consumo acelerou. Um dos segmentos industriais que tem experimentado um crescimento inigualável é a industria de eletroeletrônicos, principalmente a produção de linha verde (que compreende desktops, notebooks, impressoras e aparelhos de telefonia móvel, os smartphones, e os tablets), para que se tenha ideia do tamanho do mercado ou do problema, dependendo por qual prisma se avalie a situação, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) em 2005 a base instalada de aparelhos de telefonia móvel somava 86,2 milhões de unidades, em 2010 este número se elevou para 202,9 milhões, um aumento de 135,38% em cinco anos, o que representaria aumento de quase 27,08% anualmente, a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) afirma que quase 55 milhões de unidades foram vendidas, apenas em 2010. Este aumento exponencial de produção e consumo se deve à necessidade que estas indústrias têm, de que, para se manterem competitivas, precisam lançar produtos novos, alguns sem nenhum inovação tecnológica em relação aos modelos já existentes, apenas modificações estéticas, num espaço de tempo menor do que 10 anos atrás, com isso o Ciclo de Vida do Produto tende a ser menor, beneficiando assim a geração cada vez maior de resíduos, gerando uma entropia em níveis nunca antes imaginado nesta era industrial (SARAIVA, 2012, pg. 701). Foi para, em parte, propor uma solução para este problema que a PNRS foi instituída.

Em 02 de Agosto de 2010, quando o então Presidente da República, Luís Inácio da Silva, sancionou a Lei 12.305, que instituía a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a regulamentou quatro meses depois, por meio do Decreto 7.404 (23 de dezembro de 2010), um ciclo de mais de 25 anos chegava ao fim.

O inicio desta trajetória remonta a 1983, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) retomou o interesse pelas questões ambientais, inserindo-as em sua agenda de prioridades, criando a Comissão Mundial do Meio Ambiente, a presidência da mesma coube à Gro Harlem Brundtland, então primeira-ministra da Noruega, Mansour Khalid, sudanês, foi escolhido como vice-presidente da Comissão. Após quatro anos de intensa discussão a Comissão elaborou um relatório bastante contundente, por meio dele criticava o modelo de crescimento econômico adotado, tanto pelos países ditos desenvolvidos, bem como por aqueles em desenvolvimento, posto que o mesmo era baseado na exploração excessiva dos recursos naturais (PEREIRA; SILVA; CARBONARI, 2011).

O Relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum), publicado em 1987, passou a ser chamado de Relatório Brundtland, em alusão à presidente que tão brilhantemente liderou a Comissão. Ao mesmo se deve a definição de desenvolvimento sustentável mais adotada hoje: “O equilíbrio que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades” (CMMAD, 1998). Este conceito contrariava tudo o que estava sendo feito então em diversas partes do mundo, pois buscava-se o desenvolvimento econômico, ou buscava-se manter o desenvolvimento econômico da geração atual, sem se preocupar e nem mensurar o dano causado ao meio ambiente, que estava sendo exaurido.

O passo seguinte dado pela ONU foi propor, em 1989, que estratégias efetivas que detivessem a degradação ambiental e promovessem o desenvolvimento sustentável fossem elaboradas, esta resolução resultou na Agenda 21, um programa que foi aprovado durante a Conferência sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento do Rio de Janeiro (que ficou conhecida como Rio-92 ou Eco-92), o programa deveria ser implementado pelos países ao longo do seculo XXI e objetivava incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável nas politicas públicas de cada país.

Neste contexto, o então Deputado Federal Fábio Feldmann, apresenta o Projeto de Lei (PL) 3.333/92, por meio do qual torna pública a primeira proposta de uma lei abrangente, de âmbito nacional, que tratasse dos resíduos sólidos, o mesmo é apensado ao PL 203/91, que era originário do Senado Federal e se propunha a regular tão somente à gestão de resíduos hospitalares, face à complexidade e quantidade de temas debatidos, transcorreram-se quase 20 anos de tramitação no   Congresso Nacional (ARAUJO; FELDMANN; 2012, pg. 561).

A PNRS foi sancionada e regulamentada por meio de decreto num espaço de 04 (quatro) meses, porém, isto não é indicativo de que redundou dos esforços tão somente dos membros da legislatura de então. A Lei 12.305/2010, bem como o decreto 7.404/2010 que a regulamentou vieram à lume por alguns fatores que merecem destaque: iniciativa do executivo federal que reacendeu o debate no Congresso Nacional, anseio da sociedade civil organizada, interesse por parte do empresariado que almejava pela definição dos papéis de responsabilidade com os resíduos urbanos bem delineados, pressão do terceiro setor, de órgãos ambientalistas e de sindicatos classistas, principalmente das associações e cooperativas de catadores e catadoras de materiais reciclados (PHILIPPI, 2012).

Para que não pairem dúvidas sobre a quem se destina a PNRS, no Art. 1º, § 1º o legislador é bem claro ao enumerar quais entes estão sujeitos à observância desta lei:
as pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, responsáveis, direta ou indiretamente, pela geração de resíduos sólidos e as que desenvolvam ações relacionadas à gestão integrada ou ao gerenciamento de resíduos sólidos (BRASIL, 2010, p. 09).

A PNRS essencialmente se baseia em princípios inovadores: a prevenção e a precaução; o poluidor-pagador e o protetor-recebedor; a visão sistêmica na gestão dos resíduos (com foco nas variáveis ambiental, social, cultural, econômica, tecnológica e de saúde pública); o desenvolvimento sustentável; a ecoeficiência; a cooperação entre os setores produtivos, poder público e a sociedade civil na gestão e governança dos resíduos sólidos urbanos; o importante princípio da responsabilidade compartilhada durante todo o ciclo de vida do produto e o reconhecimento do resíduo sólido reutilizável e reciclável como um bem econômico e promotor da cidadania. Estes princípios elevam a PNRS à categoria de Lei que poderia ser aplicada em qualquer país desenvolvido ou naqueles que, por sua longevidade histórica, transcenderam algumas questões que ainda são vitais em economias em desenvolvimento.


[Introdução da monografia de conclusão de curso do MBA em Logística Empresarial 2013 na FCAP - UPE (Modelo de Sistema de Logística Reversa para o Setor Farmacêutico na Região Metropolitana do Recife)]

Cartas de um sobrevivente!


Acordei esta manhã com uma sensação que não consigo descrever, absolutamente! A impressão que tenho é de que minha mente se transferiu para outro corpo. Olhei para minhas mãos, meus braços e para o meu próprio corpo e não os reconheci, olhei em volta, exceto o fato de ser um quarto de hospital, não faço ideia de onde estou, ouso dizer, não faço ideia de quem sou. 

Tento me levantar, mas estou fraco, além de estar preso a diversos equipamentos, fios e mais fios me envolvem, ouço uma música distante, vozes no quarto contíguo me indicam que alguém está vindo trazendo comida, deduzo isso pelo barulhos dos talheres e das panelas sendo tampadas, tento gritar, mas não sai nenhum som de minha garganta. Volto meu rosto para o lado oposto de onde estava olhando e vejo alguém estranho deitado ao lado de minha cama, fitando-me com estranheza, demoro algum tempo para perceber que sou eu, ou pelo menos o corpo que estou habitando agora, refletido num grande espelho na parede.

Os olhos, o rosto por barbear, tudo, absolutamente tudo é estranho, nada faz sentido para mim, me pergunto se estou acordado, se estou sonhando ou tendo um pesadelo, mas não encontro respostas. Alguém entra no quarto e olha de soslaio, não parece que esperava me ver acordado, pois volta correndo para o corredor e fala num tom de voz de surpresa: - Ele acordou!

De repente quatro ou cinco pessoas de jaleco branco entram na sala, esbaforidos, surpresos e sorridentes, um deles toma minha mão e entre suspiros e risada me diz: - Seja muito bem vindo, esperamos muito tempo por este momento.

Abro a boca e falo com uma voz que eu nunca ouvi antes: - Onde estou e o que estou fazendo aqui? O que aconteceu?

O mais sorridente deles, respira fundo, olha em volta e continua então, entre paradas bruscas para respirar: - Sei que não vai entender logo o que vou dizer, mas, com o tempo vai se acostumar e poderá então entender melhor. Você sofreu um acidente vascular cerebral, cremos que por conta de um colapso nervoso, há bastante tempo que estávamos tentando lhe trazer de volta, alguns de nós já tinha perdido a esperança, não queremos que se assuste, mas você dormiu por quase sete anos, precisamos avisar à seus familiares, eles vêm aqui toda semana lhe ver, mesmo que nunca responda, conversam com você e contam tudo o que acontece com eles, vamos lhe deixar a sós, sei que vai precisar processar o que te falei, se precisar de algo, estamos na sala ao lado, onde estivemos nos últimos anos lhe esperando acordar, toque esta campainha que viremos imediatamente.

Depois que todos saíram, após terem apertado a minha mão e sorrido, um por um, virei meu rosto para a parede onde está o espelho e percebi que é apenas uma vidraça que permite que eu seja visto por quem está do outro lado do quarto, porém, pela posição da luz do Sol, tenho a possibilidade de ver meu rosto refletido, e o que vejo não faz sentido: Os olhos, os cabelos embranquecidos, o rosto pálido, nunca tinha visto este rosto antes, não são meus, ou pelo menos não eram, começo a sentir um pânico terrível, a sensação de terror é sufocante. Parece que estou no meio de um pesadelo kafkaniano, sem a possibilidade de acordar, o que é mais terrível ainda.

Smile

Smile, 
Though your heart is aching
Smile, even though it's breaking
When there are clouds in the sky
You'll get by
If you smile through your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You'll find that life is still worthwhile
If you just

Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Altho' a tear may be ever so near
That's the time you must keep on trying
Smile - What's the use of crying
You'll find that life is still worthwhile
If you just smile

Smile, Though your heart is aching
Smile, even though it's breaking
When there are clouds in the sky
You'll get by

If you smile through your fear and sorrow

Smile and maybe tomorrow
You'll find that life is still worthwhile
If you just smile

Larara

That's the time you must keep on trying
Smile - What's the use of crying
You'll find that life is still worthwhile
If you just smile


Sorria, embora seu coração esteja doendo
Sorria, mesmo que ele esteja partido
Quando há nuvens no céu
Você sobreviverá
Se você apenas sorri 
Com seu medo e tristezaSorria e talvez amanhãVocê descobrirá que a vida ainda vale a penase você apenas
Ilumine sua face com alegria Esconda todo rastro de tristeza Embora uma lágrima possa estar tão próxima Este é o momento que você tem que continuar tentando Sorria, pra que serve o choro? Você descobrirá que a vida ainda vale a pena Se você apenas Sorrir 
Sorria, embora seu coração esteja doendo Sorria, mesmo que ele esteja partido Quando há nuvens no céu Você sobreviverá Se você apenas sorri 
Com seu medo e tristeza Sorria e talvez amanhã Você descobrirá que a vida ainda vale a pena Se você apenas Sorrir 
Larara 
Este é o momento que você tem que continuar tentando Sorria, pra que serve o choro? Você descobrirá que a vida ainda vale a pena Se você apenas Sorrir.
[Sorria, Mysha, apenas sorria!].

"... eu envergo, mas não quebro..."

Se por acaso pareço
Que agora já não padeço
De um mau pedaço na vida
Saiba que minha alegria
Como é normal, todavia
Com a dor é dividida

Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo
Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mas volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibro, e requebro
É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambu-taquara
Eu envergo mas não quebro


  

Eu envergo mas não quebro
Não é só felicidade
Que tem fim na realidade
A tristeza também tem
Tudo acaba, se inicia
Temporal e calmaria
Noite e dia vai e vem

Quando é má a maré
E quando já não dá pé
Não me revolto ou nem queixo 
E tal qual um barco solto  
Salvo do alto mar revolto  
Volto firme pro meu eixo  

E em noite assim como esta  
Eu cantando numa festa  
Ergo o meu copo e celebro  
Os bons momentos da vida  

E nos maus tempos da lida  
Eu envergo mas não quebro  
Eu envergo mas não quebro 
Eu envergo mas não quebro

Eu envergo mas não quebro.

[Quando procurei palavras que pudessem expressar o que sinto, lembrei desta música, que consegue traduzir tudo o que penso e sinto, Mysha].

Depois da linha do horizonte!


["Imagine que você está à beira-mar e você vê um navio partindo, você fica olhando, enquanto ele vai se afastando e afastando, cada vez mais longe, até que finalmente aparece apenas um ponto no horizonte, lá onde o mar e o céu se encontram e você diz: "Pronto, ele se foi". Foi aonde? Foi a um lugar que sua vista não alcança, só isto, ele continua grande, tão bonito e tão importante como era quando estava com você. A dimensão diminuída está em você, não nele. E naquele exato momento em que você está dizendo "ele se foi", há outros olhos vendo-o aproximar-se, outras vozes exclamando em júbilo: "Ele está chegando"]

Um verdadeiro choque, foi o que senti quando soube que ele estava de partida, sua ida era inadiável e inexorável, não havia o que pudesse fazer para que não acontecesse, a tristeza por esta perda irreparável foi suplantada, ainda que momentaneamente, pela ansiedade de, ao menos, me despedir dele. Sai correndo em direção ao local em que, segundo me disseram, ele partiria, era um pequeno cais, no meio de uma encosta rochosa na beira de uma praia quase deserta.

O crepúsculo se aproximava, nuvens cinzas cobriam o céu, tornando o dia mais triste ainda, um temporal se avizinhava, era apenas uma questão de minutos que caísse, o vento frio, inclemente, aumentava o desconforto, não conseguia impedir que o maxilar involuntariamente se mexesse, o barulho dos dentes se chocando era tão natural quanto tentar respirar, apenas a vontade de me despedir era maior que tudo isso.

Desci os degraus de três em três, eram escorregadios, haviam sido esculpidos há muito tempo, além disso o constante uso por décadas os deteriorava, os que utilizavam o cais, arrastavam suas pequenas embarcações por ali, provocando um desgaste maior do que o das intempéries, verdadeiras armadilhas, por muito pouco não cai. De repente vislumbrei uma figura dentro da água, empurrava o pequeno bote à remos, a água chegava-lhe aos joelhos, olhava absorto para um ponto, parecia que estava vendo alguém, antes que pudesse gritar o seu nome, a forte chuva, esperada, mas não desejada, caiu, o vento soprava forte e o céu escureceu, coloquei as mãos, qual viseira, sobre a testa para poder continuar acompanhando os movimentos daquela figura, agora quase indistinta, já não tentava descer os degraus ao seu encontro, sabia que seria impossível, queria pelo menos vê-lo partir, isso seria um pequeno consolo, já que, naquele momento, percebera que não iria conseguir falar com ele.

Entrou no bote, tomou os remos e começou a se afastar da costa lentamente, olhou em direção aos rochedos sobre os quais eu me encontrava, a impressão que eu tive foi que ele não me viu, mas durou alguns segundos olhando para aquela direção, até que virou o rosto e começou a remar vigorosamente. Ao contrário do que eu pensara ele não tinha se assentado de costas para a proa do barco, ele se colocara de frente para a proa, o que fazia com que visse apenas as suas costas, e, fato que me impressionou bastante, foi que ele usava apenas um remo, nunca soubera que ele manuseava com tanta perícia aquele artefato. 

Recuei um pouco e subi de volta alguns degraus, queria que ele me visse, caso olhasse para trás outra vez, a chuva diminuiu, o vento começou a soprar na direção contrária, da terra para o mar, o  que fazia com que a velocidade do barco aumentasse gradativamente.

Sentei-me num rochedo e contemplei com espanto o progresso que vazia, se afastava da costa cada vez mais rápido, a escuridão das nuvens cinzas arrefeceu, uma réstia de luz furou as nuvens e circundou aquele pequeno bote, eu só conseguia ver uma pequena sombra, não conseguia divisar a forma humana do objeto em si, as lágrimas salgadas se misturaram à miopia inclemente e lentamente o ocultaram de minha vista.

Em questão de minutos, o barco se aproximou da linha do horizonte, ali onde o mar se confunde com o céu, em pouco tempo eu não seria mais capaz de vê-lo, me levantei em reverência àquela perda irreparável, enquanto refletia sobre aquele momento tão triste, pensei te-lo visto ficar em pé no barco e acenar, meu coração palpitou desesperado para que eu acenasse de volta, só então quando um forte trovão ribombou, eu me dei conta de que ele não acenava para mim, nas sim para o "outro lado do horizonte", acenava para alguém que o estava esperando na outra margem.

Fiz todo o caminho de volta, não havia mais desespero e nem ansiedade em minha alma, quando cheguei em cima, olhei mais uma vez, porém não via mais nada, enxuguei as lágrimas, esbocei um sorriso de satisfação, pois havia compreendido que ele havia voltado para casa e que eu um dia faria o mesmo, mas ainda não, pelo menos não hoje.

Tributo ao amigo que se foi Rodrigo Azevedo, o Gral.

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul. 

 By William Ernest Henley



Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma. 


[Este tornou-se o meu "mote" desde Maio de 2013]

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