Sapines: Breve História da humanidade (I)


Harari (2015) (H) teve êxito editorial maiúsculo com seu “Sapiens: A brief history of mankind”, mexendo com muitas sensibilidades sobre a saga humana até aqui na história. Começa com uma “linha do tempo da história”, desde 13.5 bilhões de anos, até ao presente e futuro[1]. Foi surpreendente que um apanhado da história humana (que chama de “breve”) tivesse tanto impacto, em parte devido ao modo de colocar as coisas, as provocações interpostas, os recados nas entrelinhas, a interpretação inteligente. Nesta parte vamos estudar o que chama de Revolução Cognitiva, que vamos dividir em quatro capítulos. 

I. UM ANIMAL DE DE NENHUMA SIGNIFICAÇÃO
“Cerca de 13.5 bilhões anos atrás, matéria, energia, tempo e espaço chegaram à existência no que se conhece como Big Bang. A estória dessas características fundamentais de nosso universo é chamada física. Cerca de 300 mil anos após seu aparecimento, matéria e energia passaram a coalescer em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A estória dos átomos, moléculas e suas interações é chamada química. Cerca de 3.8 bilhões de anos atrás, num planeta chamado Terra, certas moléculas se cominaram para formar estruturas particularmente amplas e intrincadas chamadas organismos. A estória dos organismos é chamada biologia. Cerca de 700 mil anos atrás, organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar mesmo estruturas mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é chamado história” (H:3). Harari divisa três revoluções incisivas no curso da história: a cognitiva que deslanchou a história há cerca de 70 mil anos; a agrícola que espalhou-se há cerda de 12 mil anos; a científica, que entrou em cena apenas há 500 anos, e que pode terminar a história e começar algo completamente diferente.

É o objetivo do livro: contar a estória das três revoluções que afetaram humanos e organismo parceiros. Houve humanos bem antes de haver história; animais muito similares a humanos modernos apareceram primeiro há cerca de 2.5 milhões de anos; mas por gerações incontáveis não conseguiram destacar-se dos outros organismos como que coabitavam. Na África oriental, há 2 milhões de anos, podíamos achar um elenco familiar de caracteres humanos: mães ansiosas embalando seus bebês e grupos de crianças soltas brincando na lama; jovens temperamentais brigando contra ditames da sociedade e idosos preocupados que ficarem em paz; machos batendo no peito tentando impressionar a beleza local e matriarcas velhas sábias que já haviam visto de tudo. Esses humanos arcaicos amavam, brincavam, faziam amizades estreitas e competiam por status e poder – mas igualmente chimpanzés, babuínos e elefantes. Não havia nada de especial em relação a humanos. Ninguém, menos ainda nos humanos, parecia haver qualquer indício de que seus descendentes iriam um dia chegar à lua, partir o átomo, destrinchar o código genérico e escrever livros de história.

Para Harari, esta foi a marca da pré-história humana – animais sem significação maior. Biólogos classificam organismos em espécies. Animais se dizem da mesma espécie se tendem a acasalar-se entre si, produzindo crias férteis. Cavalos e asnos têm ancestral comum recente e partilham muitos traços físicos; mas mostram pouco interesse sexual entre si. Acasalam-se apenas se induzidos, mas suas crias, as mulas, são estéreis. Mutações no DNA do asno não podem cruzar para o dos cavalos, e vice-versa; são, pois, duas espécies distintas. Ao contrário, um buldogue e um spaniel podem até parecer diferentes, são membros da mesma espécie, partilhando o mesmo pool de DNA; acasalam-se bem e suas crias crescem capazes de acasalarem-se com outros cães e procriar. Espécies evoluídas de ancestral comum são agrupadas sob o epíteto de “gênero”; leões, tigres, leopardos e jaguares são espécies diferentes do gênero Panthera. Biólogos etiquetam organismos com nome e gênero latino de duas partes, seguido por espécie; leões, por exemplo, são chamados de Panthera leo, a espécie leo do gênero Panthera. O Homo sapiens – a espécie sapiens (sábio) do gênero Homo (homem). Gêneros são agrupados em famílias, como os gatos (leões, chitas, gatos domésticos), e cães (logos, raposas e chacais) e os elefantes (elefantes, mamutes e mastodontes). Todos os membros de uma família recuam sua linhagem uma matriarca ou a um patriarca fundador. Todos os gatos, por exemplo, desde o menorzinho caseiro ao leão mais feroz, partilham ancestral felino comum que viveu há cerca de 25 milhões de anos. Homo sapiens, também, pertence a uma família; este fato banal costumava ser um dos segredos mais guardados, pois Homo sapiens sempre preferiu ver-se como separado dos animais, um órfão sem família, sem parente ou primos e, mais importante, sem progenitores. Quer se goste ou não, somos membros de uma família ruidosa e grande chamada de grandes macacos. Nossos parentes mais próximos incluem chimpanzés, gorilas e orangotangos, sendo chimpanzés os mais próximos. Há apenas 6 milhões de anos, uma única fêmea macaca teve dois filhos; um virou o ancestral de todos os chimpanzés, outro é nosso avô.
Este modo de contar a história humana tem sido trunfo fundamental do êxito de Harari. Simples, elucidativo, bem informado, divertido. Humanos são animais, têm ancestrais, são de uma família de macacos. Evolucionariamente, nada especial, porque a evolução é apenas normal.  

II. ESQUELETOS NO BANHEIRO
Gostamos de nos ver como humanos únicos, como se tivéssemos saído do nada. Ao contrário, temos um bocado de primos não civilizados. Na verdade, o sentido de humano é de um animal pertencendo ao gênero Homo, tendo havido muitas espécies neste gênero, além do Homo sapiens. Há 10 mil anos, de fato, somos a única espécie humana que restou. Ao final da história atual pode ocorrer que sobrevenham humanos não-sapiens, tecnologicamente. Harari usa, em geral, sapiens para denotar membros da espécie Homo sapiens, e reserva “humano” para denotar membros do gênero Homo. Humanos evoluíram primeiro na África oriental há cerca de 2.5 milhões de anos de um gênero prévio de macacos chamados Australopitecos, que significa “macaco do sul”. Há cerca de 2 milhões de anos, alguns desses homens e mulheres arcaicos deixaram sua pátria para viajar e colonizar áreas da África do norte, Europa e Ásia. Exigindo a sobrevivência nas florestas nevadas da Europa do norte traços diferentes daqueles indonésios com florestas tropicais, populações humanas evoluíram em direções diversas. Resultaram distintas espécies, com nome latino pomposo (Homo rudolfensis [África oriental]; erectus [Ásia oriental], neanderthalensis [Europa e África]). Humanos na Europa e Ásia ocidental evoluíram para Homo neanderthalensis (Homem do Vale Neander) (o neandertal); mais fortes e musculosos do que nós sapiens de hoje, estavam bem adaptados ao clima frio da era glacial na Eurásia ocidental.

Já as regiões mais orientais da Ásia estavam habitadas pelo Homo erectus (Homem ereto), que sobreviveu perto de 2 milhões de anos, tendo sido a espécie mais duradoura até então, um recorde que nossa turma dificilmente vai quebrar, pois é duvidoso que Homo sapiens esteja por aí a mil anos de hoje e dois milhões nem se fala. Na ilha de Java (Indonésia) viveu Homo soloensis (Homem do Vale Solo), adaptado aos trópicos. Oura ilha indonésia – Flores – humanos arcaicos sofreram processo de nanismo – chegaram a flores quando o nível do mar estava excepcionalmente raso, tornando a ilha acessível; subindo o mar, alguns ficaram por lá, em situação de penúria. Humanos grandes, com muita necessidade de comida, morreram antes; menores sobreviveram melhor. Em gerações, as pessoas de Flores se tornaram anões; esta espécie única, conhecida por cientistas como Homo floresiensis, tinham altura máxima de cerca de 1 metro e pesavam 25 quilos; mas eram capazes de produzir ferramentas de pedra e ocasionalmente caçar até elefantes, ainda que também os elefantes fossem uma espécie de exemplares menores.

Em 2010, outro parente foi resgatado do esquecimento, quando cientistas escavaram a Caverna Denisova na Sibéria e descobriram osso fossilizado do dedo; análises genéticas provaram que o dedo era de uma espécie não conhecida antes da espécie humana, que passou a chamar-se Homo denisova. Não seria surpresa achar, no futuro, outros parentes. O berço da humanidade continua a nutrir outras novas espécies, como Homo rudolfensins (Homem do Lago Rudolf), Homo ergaster (Homem trabalhador) e eventualmente nossa própria espécie, que sem modéstia alguma alcunhamos de Homo sapiens (Homem sábio). Alguns deles foram parrudos, outros anões; alguns foram caçadores temíveis e outros coletores/agricultores; alguns viviam numa única ilha, enquanto muitos perambulavam nos continentes – mas todos eram do gênero Homo, seres humanos. É falácia visualizar essas espécies como arranjadas em linha reta de descendência, com Ergaster resultando no Erectus, este no Neandertal e este em nós. Modelos lineares sugerem que, em dado momento, apenas um tipo de humano habitava a terra, e todas as espécies anteriores eram meramente modelos mais velhos de nós mesmos. A verdade é que desde há 2 milhões de anos até 10 mil anos, o mundo era lar, ao mesmo tempo, de muitas espécies humanas, como há muitas espécies de cães, porcos, gatos... O mundo antigo teve pelo menos seis espécies diferentes humanas. O que é peculiar é nossa atual exclusividade, não a multiplicidade de espécies, sob suspeita... Como se há de ver, nos Sapiens temos razões para reprimir a memória dos parentes (exterminados) (H:8).

III. CUSTO DE PENSAR
Mesmo com tantas diferenças, as espécies humanas compartilham características definitórias, em especial cérebros grandes; mamíferos pesando quase 60 quilos têm cérebro médio de 30 cm3. Os primeiros homens e mulheres, há 2.5 milhões de anos, tinham cérebros de 91 cm3. Modernos Sapiens têm cérebro de 185 – 215 cm3. Cérebros dos Neandertals eram ainda maiores, mas inteligência não depende apenas de tamanho cerebral. Cabe perguntar por que cérebros gigantes são tão raros no reino animal? No Sapiens, o cérebro responde por 2-3% do peso do corpo, mas consome 25% da energia do corpo em repouso – em outros animais, o consumo pode ser de apenas 8%. Humanos arcaicos pagavam por cérebros grandes de dois modos; primeiro, gastavam mais tempo em busca de comida; segundo, seus músculos atrofiavam – humanos derivaram energia do bíceps para os neurônios, embora fosse estratégia ótima para a sobrevivência na savana. Um chimpanzé não pode filosofar com umHomo Sapiens, mas pode fazê-lo em pedaços como uma boneca. Hoje, cérebro grande vale por demais a pena, bastando levar em conta os feitos tecnológicos, ainda que isto tenha vindo bem mais tarde. No início, à parte algumas facas e pontoes de pedra, humanos tinham pouco a mostrar. Então, o que levou em frente a evolução humana? Não se sabe. Outro traço singular é o andar ereto sobre duas pernas. Ficar de pé facilita vasculhar a savana para buscar caça e antecipar-se ao inimigo, e braços liberados da locomoção poder fazer outras coisas importantíssimas, como jogar pedra e flechas ou sinalizar. Quanto mais coisas as mãos fazem, tanto maior êxito se garante na manipulação da natureza, razão pela qual humanos melhoraram nervos e músculos finos nas palmas da mão e dedos. Podem fazer ferramentas sofisticadas. A primeira evidência de produção de ferramenta data de cerca de 2.5 milhões de anos atrás, e isto é critério pelo qual arqueólogos reconhecem antigos humanos.

Andar ereto teve, porém, seu custo, já que o andaime tinha de carregar crânio grande – pagava-se pela visão mais ampla e mãos industriosas com dores nas costas e pescoços endurecidos. Mulheres pagaram bem mais, exigindo cinturas mais estreitas, constringindo o canal do parto – e isto logo agora que bebês eram cada vez maiores – morte no parto tornou-se mais comum. Mulheres que davam à luz mais cedo, quando o cérebro da criança ainda era relativamente pequeno e macio, saíam-se melhor e sobreviviam para terem mais filhos. A seleção natural favoreceu, então, nascimentos mais cedo; de fato, comparados com outros animais, humanos nascem prematuros, quando muito de seus sistemas vitais estão subdesenvolvidos. Um potro logo troteia após nascer; um gatinho já se cuida algumas semanas depois de nascer; bebês humanos dependem por muitos anos dos mais velhos. Mas isto contribuiu para as habilidades sociais extraordinárias humanas, bem como para problemas sociais únicos. Mães sozinhas dificilmente conseguiam sustentar suas crias e a si mesmas com outras crias no pé. Crianças crescendo impunham necessidade constante de ajuda de outros membros da família e vizinhos – é preciso uma tribo para criar um humano. Evolução, assim, favoreceu a quem criou laços sociais fortes. Ademais, já que humanos nascem subdesenvolvidos, podem ser educados e socializados em extensão bem maior do que outros animais. “A maioria dos mamíferos emerge do ventre como cerâmica vidrada emergindo de um forno – toda tentativa de remoldar irá apenas arranhar ou quebrar” (H:9). Já humanos emergem do ventre como vidro fundido de uma fornalha – podem ser talhados, esticados e moldados com grau surpreendente de liberdade. “É por isso que hoje podemos educar nossos filhos para tornarem-se cristãos ou budistas, capitalistas ou socialistas, beligerantes ou pacíficos” (Ib.).

Assumimos que cérebro grande, uso de ferramentas, habilidades superiores de aprendizagem e estruturas sociais complexas são vantagens incisivas. Parece evidente que isto fez da humanidade o animal mais poderoso na terra. Mas humanos desfrutaram tais vantagens por plenos 2 milhões de anos, nos quais eram criaturas fracas e marginais. Assim, humanos de há um milhão de anos, mesmo com cérebros grandes e ferramentas de pedra, viviam atemorizados por predadores, quase nunca caçavam coisa grande e subsistiam mormente colhendo plantas, pegando insetos e assaltando animais, ou comendo restos de carne deixados por carnívoros. Um dos usos mais comuns era quebrar ossos com ferramentas de pedra para chegar à medula – alguns pesquisadores creem que este foi nosso nicho original – assim como pica-paus se especializam em extrair insetos de troncos de madeira, os primeiros humanos se especializaram em extrair medula dos ossos. Por quê? Leões derrubam uma girafa e a devoram; espera-se pacientemente, até depois que hienas e chacais façam sua parte; só depois, chegam humanos, com cuidado extremo. Isto é chave para entender nossa história e psicologia. A posição na cadeia alimentar era, até bem recentemente, no meio; por milhões de anos, humanos caçavam criaturas menores e colhiam o que podiam, sendo facilmente caçados por predadores. Só há 400 mil anos várias espécies humanas começaram a caçar animal grande regularmente e só nos últimos 100 mil anos – com a chegada do Homo sapiens – humanos pularam para o topo da cadeia alimentar. E isto teve consequências; outros animais no topo da pirâmide, como leões e tubarões, evoluíram para esta posição bem gradualmente, em milhões de anos; isto facultou ao ecossistema desenvolver filtros que impedem leões e tubarões de depredar em demasia. Tornando-se leões mais letais, as gazelas evoluíram para correr mais, hienas para lançar mão da cooperação e rinocerontes para serem mais mal humorados. Em contraste, humanos ascenderam ao topo tão rapidamente que o ecossistema não teve tempo de ajuste; ainda, humanos também não se adaptaram. A maioria dos predadores do topo do planeta são criaturas majestosas – milhões de anos os encheram de autoconfiança. Sapiens, em contraste, parece mais uma ditador de república das bananas – tendo sido até recentemente um subalterno (underdog) da savana, mantém-se cheio de temores e ansiedades sobre sua posição, o que o torna tanto mais cruel e perigoso. Muitas calamidades históricas, desde guerras letais a catástrofes ecológicas, resultaram deste salto açodado (H:11).

Esta descrição animada e colorida de Harari é, naturalmente, uma interpretação (humanos falando de humanos é coisa sempre suspeita); falta saber se a “evolução” concorda. No entanto, foi esta narrativa divertida que deu fama tão destacada ao livro, em particular sua cautela desconstrutiva da empáfia humana; antes de pretender e ser tanta coisa, foi um bicho qualquer. Por muito tempo patinou na savana, até elevar-se cognitivamente acima dos outros animais. Depois deslanchou, mas bem recentemente. E continua, sobretudo, uma fera ambígua.

IV. CORRIDA DE COZINHEIROS
Ponto algo na ascensão ao topo foi a domesticação do fogo. Algumas espécies teriam feito uso casual por volta de 800 mil anos atrás; mas há cerca de 300 mil anos, Homo erectusNeandertals e antepassados do Sapiens estavam usando diariamente. Humanos conquistaram fonte confiável de luz e calor e arma mortal contra leões espreitando. Não muito depois, humanos começaram a colocar tochas a seu redor; fogo bem gerido podia tornar matas intransitáveis em pastagens para gado domesticado. Ademais, uma vez apagado o fogo, empreendedores da idade da pedra podiam perambular  nos restos fumegantes e colher animais carbonizados, nozes e tubérculos. Mas a melhor coisa do fogo é cozinhar. Alimentos não digeríveis in natura – como trigo, arroz e batatas – viraram bases da dieta via cozimento, que, ainda, matava germes e parasitas que infestavam a comida. Havia então tempo maior para mastigar e digerir favoritos antigos como frutas, nozes, insetos e carcaças, se fossem cozidos. Enquanto chimpanzés gastam cinco horas por dia mastigando comida crua, basta uma hora para as pessoas ingerirem comida cozida. Com isso a comida também se diversificou, além de gastar menos tempo comendo, com dentes e intestinos menores. Alguns pesquisadores creem que há link direto entre a chegada do cozimento e o encurtamento dos intestinos humanos e o crescimento do cérebro. Intestinos longos e cérebro grande consomem muita energia – preferiram-se os primeiros (Gibbons, 2007).

Fogo também aprofundou o hiato entre humanos e outros animais; o poder de quase todos os animais depende dos corpos: força muscular, tamanho dos dentes, alcance das asas; embora possam lidar com ventos e corretes, não as controlam, constritos a seu design físico. Águias, por exemplo, identificam colunas termais vindas do chão, abrem suas asas gigantes e facultam que o ar quente as elevem no céu; mas não controlam a localização das colunas e sua carga mássica é estritamente proporcional à envergadura das asas. No entanto, há 150 mil anos humanos ainda eram criaturas marginais; podiam agora meter medo em leões e queimar matas; mas, contando as espécies juntas, não haveria mais que um milhão de humanos vivendo entre o arquipélago indonésio e a península ibérica, “um mero borrão no radar ecológico” (H:P12). Nossa espécie, Sapiens, já andava por aí, mas restringia-se a um canto da África. Não se sabe onde e como animais que podem ser classificados como Homo sapiens evoluíram primeiro de algum tipo prévio de humanos, mas a maioria dos estudiosos concordam que, há 150 mil anos, a África oriental foi habitada pelo Sapiens similares a nós hoje. Concorda-se também que há 70 mil anos, Sapiens saiu da África oriental e se espalhou na península árabe e daí para toda a Eurásia continental. Quando chegou, encontrou outros humanos. O que aconteceu a estes?

Há duas teorias em conflito. A “teoria do cruzamento” fala de uma estória de atração, sexo e mistura; quando Sapiens chegou ao Oriente Médio e Europa, encontraram os Neandertals; estes eram mais musculosos, tinham cérebros maiores e estavam mais bem adaptados ao frio; usavam armas e fogo, eram bons caçadores e aparentemente cuidavam de seus enfermos e deficientes. São muitas fezes descritos como brutos e estúpidos (da caverna), mas evidência recente mudou a imagem. Conforme a teoria do cruzamento, quando Sapiens se espalhou nas terras dos Neandertals, o cruzamento ocorreu a ponto de as populações se fundirem; se tiver sido o caso, euroasiáticos de hoje não são puros Sapiens, mas mistura de Sapiens e Neandertals; de modo similar, quando Sapiens chegou à Ásia oriental, cruzaram com Erectus locais, de sorte que chineses e coreanos são mistura de Sapiens e Erectus. A visão oposta – teoria da substituição – narra outra estória, da incompatibilidade, revulsão e talvez genocídio. Para esta visão, Sapiens e outros humanos tinham anatomias diferentes, talvez também outros hábitos de acasalamento e mesmo odores corporais; teria havido pouco interesse sexual entre si; mesmo se ocorresse acasalamento, a cria seria infértil. As duas populações permaneceram distintas e quando os Neandertals se extinguiram, ou foram mortos, seus genes se foram. Sapiens substituiu as populações humanas prévias sem fundirem-se. Se for o caso, as linhagens de humanos contemporâneos podem ser rastreadas, exclusivamente, até a África oriental, há 70 mil anos e seríamos todos “Sapiens puros” (H:13).

Está em jogo muita coisas em ambas as teorias; 70 mil anos é algo curto na evolução; se a teoria da substituição for correta, todos os humanos têm a mesma bagagem genética e distinções raciais são negligenciáveis. Se a teoria do cruzamento for certa, pode bem haver diferenças genéticas entre africanos, europeus e asiáticos que recuam a milhares de anos, sendo isso dinamite político... A teoria da substituição tem prevalecido por enquanto, por conta de fundamentos arqueológicos mais sólidos e é politicamente mais correta. Mas isto terminou em 2010, quando os resultados de um esforço de quatro anos em mapear o genoma dos Neandertals foram publicados; geneticistas foram capazes de coletar DNA suficiente intacto de fósseis para montar comparação ampla com os humanos atuais. Os resultados surpreenderam a comunidade científica; achou-se que de 1-4% do DNA humano único das populações modernas no Oriente Médio e Europa é DNA de Neandertal; pouca coisa, mas significativa. Segundo choque veio logo depois, quando DNA extraído de dedo fossilizado de Denisova foi mapeado – resultados provaram que até 6% do DNA humano único do melanésios modernos e dos australianos aborígenes são DNA denisovano. Se isto for válido – há pesquisa ulterior em andamento que pode reforçar ou modificar as conclusões – os adeptos do cruzamento acertaram em algumas coisas, mas não significa que a teoria da substituição esteja toda errada. Em vista de que Neandertals e Denisovanos contribuíram com montante pequeno do DNA nosso de hoje, é impossível falar de “fusão” entre Sapiens e outras espécies humanas; embora diferenças não fossem suficientemente grandes para completamente impedir intercurso fértil, eram suficientes para tornar tais contatos muito raros. Parece que, há 50 mil anos, as espécies se distanciaram o suficiente para não se misturarem, em particular, Sapiens já eram bem diferente dos Neandertals e Denisovanos, sobretudo no plano cognitivo e social, mas poderia ocorrer, ainda que muito raramente, algum cruzamento. Mesmo assim, alguns genes do Neandertal pegou carona no Sapiens...

Sobra a pergunta: por que sumiram? Uma possibilidade é que Sapiens, tecnológica e socialmente superior, os levou à extinção. Outra é que a disputa por recursos gerou violência que propiciou a primeira limpeza étnica da história... Temos aí, na saga dos Neandertals, um dos maiores condicionais (se...). Se tivesse havido chance de cruzamento generalizado, como teria sido o futuro deles? Que culturas teriam emergido, religiões, estruturas políticas...? Nos últimos 10 mil anos, Sapiens se acostumou a ser espécie única, a ponto de se pretender ápice da criação e que um abismo nos separa dos outros animais. Quando Darwin indicou que o Sapiens era apenas outro tipo de animal, as pessoas se sentiram ultrajadas. Até hoje, muitos se negam a crer. Os últimos resquícios do Homo Soloensis datam de cerca de 50 mil anos; Homo denisova desapareceu pouco depois; Neandertals sumiram há 30 mil anos; os últimos humanos anões evaporaram de Flores há 12 mil anos – deixaram alguns ossos, ferramentas de pedra e alguns genes em nosso DNA e um monte de questões sem resposta. Qual o segredo do sucesso do Sapiens? A resposta mais provável é a própria coisa que torna o debate possível: conquistou o mundo graças à sua linguagem única (H:18).

CONCLUSÃO
A ciência arqueológica e similares avançaram muito em descobertas de como teria sido nosso passado ancestral. Mas, cada vez que achamos algumas respostas, sobrevêm outras ainda mais inquietantes. Talvez seja mesmo impossível recompor uma saga tão dinâmica, tortuosa, gradual e agitada, com restos arqueológicos. O lado interessante de Harari é o acento que põe nas questões mais provocativas, como a disputa em torno de como aconteceu o encontro entre espécies humanas diferentes, se houve cruzamento a ponto de uma fusão definitiva, ou se a diferença, aumentando, provocou confrontos e rivalidades que deixaram o palco para apenas uma, a cognitiva e socialmente superior... Este tipo de conhecimento é, como diz Harari, dinamite. Alguns vão pescar aí apoios racistas, tão comuns em ocidentais brancos. É particularmente instigante o contraponto entre um animal mais ou menos vagabundo, e o que ele virou depois, o pico da evolução animal. Tudo isso está pendurado numa hipótese científica, por mais que seja hoje tão badalada: seleção natural (evolução natural). Alguns vão dizer que está mais que confirmada; outros preferem manter como a hipótese mais palatável ou em voga, já que ciência não cria verdades inamovíveis. Não será à-toa que há tanta gente ainda apegada ao criacionismo, por conta de uma “fé”.

Pedro Demo (2016)

REFERÊNCIAS
GIBBONS, A. 2007. ‘Food for Thought: Did the First Cooked Meals Help Fuel the Dramatic Evolutionary Expansion of the Human Brain?’, Science 316:5831 (2007), 1,558–60.
HARARI, Y.N. 2015. Sapiens: A brief history of humankind. Harper, London.

[1] Eis a linha do tempo, segundo Harari: Anos antes do presente: 13.5 bilhões – matéria e energia aparecem; começo da física; átomos e moléculas aparecem. Começo da química. 4.5 bilhões – formação do planeta terra. 3.8 bilhões: emergência dos organismos; começo da biologia. 6 milhões – última avó comum de humanos e chimpanzés. 2.5 milhões – evolução do gênero Homno na África; primeiras ferramentas de pedra. 2 milhões – Humanos se espalharam da África para Eurásia; evolução de espécies humanas diferentes. 500 mil – Neandertals evoluem na Europa e Oriente Médio. 300 mil – Uso diário do fogo. 200 mil – Homo Sapiens evlui na África oriental. 70 mil – A Revolução Cognitiva; emergência da linguagem fictiva; começo da história; Sapiens se espalhou a partir da África. 45 mil – Sapiens coloniza Austrália; extinção da megafauna australiana. 30 mil – Extinção dos Neandertals. 16 mil – Sapeinas colônia a Américva; extinção da megafauna americana. 13 mil – Extinção do Homo floresiensis; Homo sapiens é a úncia espécie humana que sobrevive. 12 mil – A Revolução Agrícola; domesticação de plantas e animais; colonizações permanentes. 5 mil – Primeiros reinados, escrita e dinheiro; religiões politeístas. 4.250 – Primeiro império – Império Acadiano de Sargon. 2.500 – Invenção da cunhagem de moeda – dinheiro universal; império persa – ordem política universal “para libertar todos os seres do sofrimento”. 2 mil – Império Han na China; Império Romano no Mediterrâneo; cristiandade. 1.400 – Islã. 500 – A Revolução Científica; humanidade admite sua ignorância e começa a adquirir poder sem precedentes; europeus começam a conquistar a América e os oceanos; o planeta inteiro se torna arena única histórica; surgimento do capitalismo. 200 – A Revolução Industrial; família e comunidade são substituíodos pelo Estado e mercado; extinção massiva de plantas e animais. O Presente – Humanos transcendem os limites do planeta terra; armas nucleares ameaçam a seleção, mais que a natural. O Futuro – Design inteligente se torna princípio básico da vida? Homo sapiens é substituído por super-humanos? (H:P75).

Humano, Demasiado Humano II


Documentário II: Humano, Demasiado Humano – Martin Heidegger: Projeto Para Viver. O projeto do tratado Ser e Tempo, foi publicado em 1927 no mesmo ano que Minha Luta (Adolf Hitler). Este programa examina a vida e a filosofia de Martin Heidegger, descreve a sua ascensão a proeminência intelectual, expondo os motivos do seu envolvimento no partido Nazi. Entrevistas com o seu filho, Hermann Heidegger, George Steiner autor de uma influente critica da sua filosofia, contado também com o seu biógrafo Hugo Ott; e ex-aluno de Hans-Georg Gadamer, fornecem novas ideias enquanto se faz uma reconstrução dos momentos chaves da vida de Heidegger. Vida e história de um homem cujos apologistas e os antagonistas ainda amargamente se dividem.

Humano, demasiado humano I

A série da BBC  ‘Humano, Demasiado Humano’ (Human All Too Human) inclui três programas fantásticos sobre Friedrich Nietzsche, Jean Paul Sartre e Martin Heidegger, um trio de pensadores controverso que continuam influenciando até os dias de hoje, na filosofia e na psicologia. A série aborda os personagens e suas teorias. Vale assistir cada minuto, são três programa envolventes e emocionantes sobre a filosofia e os filósofos.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 -1900) foi um filósofo alemão do século XIX e um dos maiores nomes dessa área. Martin Heidegger (1889 – 1976) foi um filósofo alemão do século XX que influenciou muitos outros, dentre os quais Jean-Paul Sartre. Jean-Paul Sartre (1905 -1980) foi um filósofo francês, conhecido como representante do existencialismo.

Os documentários são conduzidos por Alain de Botton, escritor e produtor famoso por popularizar a filosofia e divulgar seu uso na vida cotidiana. Botton iniciou um Ph.D em filosofia francesa em Harvard, mas acabou preferindo escrever ficção. Para além de escrever possui a sua própria produtora, a Seneca Productions, que transmite regularmente programas e documentários de televisão, baseados nos seus trabalhos.

Documentário I: Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche: Além do Bem e do MalA semente do pensamento disseminado por Nietzsche no século 19 prefigurava o piloto do século 20 sobre os conceitos do existencialismo e da psicanálise. Este programa conta com entrevistas de grandes estudiosos do pensamento do Nietzsche sendo eles: Ronald Hayman e Leslie Chamberlain (biógrafos de Nietzsche), Andrea Bollinger (arquivista), Reg Hollingdale (tradutor), Will Self (escritor) e Keith Ansell Pearson (filosofa) que sonda a vida e os escritos de Nietzsche. Além de mostrar também o papel da irmã de Nietzsche na edição das suas obras para o uso como propaganda nazi. Conta também com partes de prosas aforísticas extraídas de obras como a parábola de um louco e assim falou Zaratustra.




Logística Reversa

Os deficientes cívicos


Em tempos de globalização, a discussão sobre os objetivos da educação é fundamental para a definição do modelo de país em que viverão as próximas gerações.

Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo.

O interesse social se inspira no papel que a educação deve jogar na manutenção da identidade nacional, na idéia de sucessão das gerações e de continuidade da nação, na vontade de progresso e na preservação da cultura. O interesse individual se revela pela parte que é devida à educação na construção da pessoa, em sua inserção afetiva e intelectual, na sua promoção pelo trabalho, levando o indivíduo a uma realização plena e a um enriquecimento permanente. Juntos, o interesse social e o interesse individual da educação devem também constituir a garantia de que a dinâmica social não será excludente.

Em todos os casos a sociedade será sempre tomada como um referente, e, como ela é sempre um processo e está sempre mudando, o contexto histórico acaba por ser determinante dos conteúdos da educação e da ênfase a atribuir aos seus diversos aspectos, mesmo se os princípios fundamentais permanecem intocados ao longo do tempo. Foi dessa forma que se deu a evolução da idéia e da prática da educação durante os últimos séculos, paralelamente à busca de formas de convivência civilizada, alicerçadas em uma solidariedade social cada vez mais sofisticada.

As modalidades sucessivas da democracia como regime político, social e econômico levaram, no após guerra, à social-democracia. A história da civilização se confundiria com a busca, sempre renovada, e o encontro das formas práticas de atingir aqueles mencionados princípios fundamentais da educação, sempre a partir de uma visão filosófica e abrangente do mundo.

Esse esforço, para o qual contribuíram filósofos, pedagogos e homens de Estado, acaba por erigir como pilares centrais do sistema educacional: o ensino universal (isto é, concebido para atingir a todas as pessoas), igualitário (como garantia de que a educação contribua a eliminar desigualdades), progressista (desencorajando preconceitos e assegurando uma visão de futuro).

Daí, os postulados indispensáveis de um ensino público, gratuito e leigo (esta última palavra sendo usada como sinônimo de ausência de visões particularistas e segmentadas do mundo) e, dessa forma, uma escola apta a formar concomitantemente cidadãos integrais e indivíduos fortes. Aliás, foram essas as bases da educação republicana, na França e em outros países europeus, baseada na noção de solidariedade social exercida coletivamente como um anteparo, social e juridicamente estabelecido, às tentações da barbárie.

A globalização, como agora se manifesta em todas as partes do planeta, funda-se em novos sistemas de referência, em que noções clássicas, como a democracia, a república, a cidadania, a individualidade forte, constituem matéria predileta do marketing político, mas, graças a um jogo de espelhos, apenas comparecem como retórica, enquanto são outros os valores da nova ética, fundada num discurso enganoso, mas avassalador.

Em tais circunstâncias, a idéia de emulação é compulsoriamente substituída pela prática da competitividade, o individualismo como regra de ação erige o egoísmo como comportamento quase obrigatório, e a lei do interesse sem contrapartida moral supõe como corolário a fratura social e o esquecimento da solidariedade.

O mundo do pragmatismo triunfante é o mesmo mundo do “salve-se quem puder”, do “vale-tudo”, justificados pela busca apressada de resultados cada vez mais autocentrados, por meio de caminhos sempre mais estreitos, levando ao amesquinhamento dos objetivos, por meio da pobreza das metas e da ausência de finalidades. O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso, sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada.

É nesse campo de forças e a partir dessa caldo de cultura que se originam as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho, com a busca do saber prático.

Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo em que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade.

Daí, a difusão acelerada de propostas que levam a uma profissionalização precoce, à fragmentação da formação e à educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade, situação em que a privatização do processo educativo pode constituir um modelo ideal para assegurar a anulação das conquistas sociais dos últimos séculos. A escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos.

É a própria realidade da globalização -tal como praticada atualmente- que está no centro desse debate, porque com ela se impuseram idéias sobre o que deve ser o destino dos povos, mediante definições ideológicas sobre o crescimento da economia, como a chamada competitividade entre os países. As propostas vigentes para a educação são uma consequência, justificando a decisão de adaptá-la para que se torne ainda mais instrumental à aceleração do processo globalitário. O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos -os ideais de universalidade, igualdade e progresso-, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal como agora se verifica, comprometa o processo de formação das novas gerações.

“Os deficientes cívicos”, texto de Milton Santos sobre o papel da educação
Fonte: http://www.pensarcontemporaneo.com/1119-2/

Renascer das cinzas

A religião como fonte de utopias salvadoras


Hoje predomina o convencimento de que o fator religioso é um dado do fundo utópico do ser humano. Depois que a maré crítica da religião feita por Marx, Nietzsche, Freud Popper e Dawkins retrocedeu, podemos dizer que os críticos não foram suficientemente críticos.

No fundo, todos eles laboraram num equívoco: quiseram colocar a religião dentro da razão, o que fez surgir todo tipo de incompreensões. Estes críticos não se deram conta de que o lugar da religião não está na razão, embora possua uma dimensão racional, mas na inteligência cordial, no sentimento oceânico, naquela esfera do humano onde emergem as utopias.

Bem dizia Blaise Pascal, matemático e filósofo no famoso fragmento 277 de seus “Pensées: ”É o coração que sente Deus, não a razão”. Crer em Deus não é pensar Deus mas sentir Deus a partir da totalidade de nosso ser. A religião é a voz de um consciência que se recusa a aceitar o mundo tal qual é, sim-bólico e dia-bólico, sombrio e luminoso. Ela se propõe transcendê-lo, projetando visões de um novo céu e uma nova Terra e de utopias que rasgam horizontes ainda não vislumbrados.

A antropologia em geral e especialmente a escola psicanalítica de C. G. Jung veem a experiência religiosa, emergindo das camadas mais profundas da psiqué. Hoje sabemos que a estrutura em grau zero do ser humano não é razão (logos, ratio) mas é a emoção e o mundo dos afetos (pathos, eros e ethos).

A pesquisa empírica de David Golemann com sua Inteligência emocional (1984) veio confirmar uma larga tradição filosófica que culmina em M. Meffessoli, Adela Cortina, Muniz Sodré e em mim mesmo (Direitos do coração, Paulus 2016). Afirmamos ser a inteligência saturada de emoções e de afetos. É nas emoções e nos afetos que se elabora o universo dos valores, da ética, das utopias e da religião.

É deste transfundo que emerge a experiência religiosa que subjaz a toda religião institucionalizada. Segundo L. Wittgenstein, o fator místico e religioso nasce da capacidade de extasiar-se do ser humano. “Extasiar-se não pode ser expresso por uma pergunta. Por isso não existe também nenhuma resposta”(Schriften 3, 1969,68). O fato de que o mundo exista, é totalmente inexprimível. Para este fato “não há linguagem; mas esse inexprimível se mostra; é o místico”(Tractatus logico-philosophicus, 1962, 6, 52). E continua Wittgenstein:”o místico não reside no como o mundo é mas no fato de que o mundo é”(Tractatus, 6,44). “Mesmo que tenhamos respondido a todas as possíveis questões científicas, nos damos conta de que nossos problemas vitais nem sequer foram tocados” (Tractatus, 5,52).

“Crer em Deus”, prossegue Wittgenstein, “é comprender a questão do sentido da vida. Crer em Deus é afirmar que a vida tem sentido. Sobre Deus que está para alem deste mundo, não podemos falar. E sobre o que não podemos falar, devemos calar”(Tractatus,7).

A limitação do espírito científico é não ter nada sobre o que calar. As religiões quando falam é sempre de forma simbólica, evocativa e auto-implicativa. No fim terminam no nobre silêncio de Buda ou então no uso da linguagem da arte, da música, da dança e do rito.

Hoje, cansados pelo excesso de racionalidade, de materialismo e consumismo, estamos assistindo a volta do religioso e do místico. Pois nele se esconde o invisível que é parte do visível e que pode conferir uma nova esperança aos seres humanos.

Cabe recordar uma frase do grande sociólogo e pensador, no termo de sua monumental obra “Formas elementares da vida religiosa”(em português 1996): “Há algo de eterno na religião, destinado a sobreviver a todos os símbolos particulares” Porque sobrevive aos tempos, vale a afirmação de Ernst Bloch em seus famosos três volumes “O princípio esperança”: ”onde há religião, aí há esperança”.

O essencial do Cristianismo não reside em afirmar a encarnação de Deus. Outras religiões também o fizeram. Mas é afirmar que a utopia (aquilo que não tem lugar) virou eutopia (um lugar bom). Em alguém, não apenas a morte foi vencida, o que seria muito, mas ocorreu algo maior: todas virtualidades escondidas no ser humano, pela ressurreição, explodiram e implodiram numa surpreendente realização. Jesus de Nazaré é o “Adão novissimo” na expressão de São Paulo (1Cor 15,45), o homem abscôndito agora revelado.

Mas ele é apenas o primeiro dentre muitos irmãos e irmãs; também a humanidade, a Terra e o próprio universo serão transfigurados para serem o corpo de Deus.

Portanto, o nosso futuro é a transfiguração do universo e tudo o que ele contem, especialmente a vida humana e não o pó cósmico. Talvez essa seja a nossa grande esperança, o nosso futuro absoluto.

Leonardo Boff e articulista do JB on line e escreveu A nossa ressurreição na morte, Vozes 2002.

Alternativas: e se energia for um Bem Comum?



Eletricidade e combustíveis são vitais para atividade humana — mas produzi-los pode causar enormes impactos sociais e ambientais. Por isso, não podem continuar submetidos aos interesses do mercado.

Como estender os benefícios e conforto oferecidos pela eletricidade a todos os seres humanos — inclusive a um bilhão de pessoas que não têm, hoje, acesso a uma lâmpada elétrica? Como evitar que, a pretexto de garantir este direito, mega-empresas, quase sempre financiadas por recursos públicos, desenvolvem imensos projetos que afetam a natureza e as populações locais?

A Assembleia Europeia dos Comuns (AEC), uma articulação da sociedade civil impulsionada pela Fundação Peer to Peer (saiba mais aqui) propõe uma resposta inovadora. Ela quer alterar o paradigma que orienta, hoje, tanto a produção de eletricidade e combustíveis quanto sua distribuição e suas receitas. Ao invés de subordinarem-se a interesses de mercado, estas atividades devem ser consideradas Bens Comuns da Humanidade. As decisões essenciais precisam ser transferidas das mega-empresas a comunidades organizadas.

No vídeo acima, Cecile Blanchet, da AEC, explica as bases da ideia. Sob a lógica mercantil em que estamos mergulhados, ela argumenta, as decisões essenciais que determinam a vida coletiva são tomadas com base apenas em sua capacidade de gerar lucro. Constroem-se imensas usinas, redes de transmissão, gasodutos transcontinentais sem planejamento real. Muitas vezes, estes empreendimentos são duplicados ou triplicados — multiplicando os danos ambientais e sociais — porque o interesse de cada empresa é competir e desbancar as concorrentes.

Já há condições materiais, diz Cecile, de superar esta dinâmica predatória. As tecnologias da informação permitem às comunidades conhecer suas necessidades energéticas reais e planejar a produção, distribuição e — eventualmente — importação ou exportação de energia necessárias para satisfazê-las. Redes inteligentes permitem que cada domicílio não apenas consuma, mas também produza energia (a partir, por exemplo, de coletores solares ou pequenos cataventos).

É preciso derrubar as legislações que bloqueiam, na maioria dos países, esta geração decentralizada — para reforçar o poder do oligopólio. É preciso também que as agências estatais, hoje voltadas ao apoio a mega-empresas e projetos (vide, no Brasil, o papel do BNDES), financiem e viabilizem as iniciativas locais, muito mais modestas e racionais.

Será uma luta difícil e prolongada — tamanho o poder do oligopólio e a força de inércia do paradigma atual. Mas que transformação importante pode ser alcançada com facilidade, no cenário global áspero que vivemos? A potência da iniciativa da AEC está em ir além da crítica; formular uma alternativa; demonstrar que ela é concretamente possível — falta criar as condições políticas.

Fonte: http://outraspalavras.net/blog/2017/03/04/alternativas-e-se-energia-for-um-bem-comum/
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