A Cabana de William P. Young


Comecei a reler este livro, há pouco mais de um mês eu o li pela primeira vez, não consegui segurar a ansiedade e já estou de volta à leitura. O livro está na lista dos mais vendidos da Veja no Brasil e nas listas dos principais veículos de comunicação dos EUA, o pop-star Michael W. Smith deu a seguinte opinião sobre este livro:
"Esta história deve ser lida como se fosse uma oração – a melhor forma de oração, cheia de ternura, amor, transparência e surpresas. Se você tiver que escolher apenas um livro de ficção para ler este ano, leia A cabana."
Concordo plenamente com ele, sinto-me até ousado em tentar acrescentar algo, mas não consigo resistir, fui tomado pela mesma alegria indizível que tive ao ler O Evangelho Maltrapilho, meu peito apertou demais, às vezes não consegui resistir e chorei muito, confesso que nas primeiras 60 páginas eu fiquei tão deprimido, que eu queria continuar a ler, mas queria também parar, a dor de Mack era tão concreta que tornou-se minha dor. Li de uma "sentada", e após algumas horas ainda estava com uma sensação de êxtase, como se não estivesse na terra.

Dei esse livro de presente à minha filha Mysha com 13 anos, o livro sugere que seja presenteado às pessoas que mais amamos (não acho que seja um questão de marketing, é uma questão de compartilhar a Graça), e ela perguntou se era verídico, eu respondi que torcia que fosse, pois é bom demais para não ser verdade. O único comentário que ela fez após suas incontáveis lágrimas era do desejo de que o livro virasse um filme.

A Cabana foi publicado nos EUA por uma editora pequena, que não alcançou o status de gigante ainda, surpreendeu à crítica, à editora e talvez ao próprio autor, não foram criadas muitas estratégias de marketing, mesmo assim o livro já figura como uma dessas raridades que contagia o público, que entusiasmado sai indicando para todos os amigos e colegas, e vai aos poucos se tornando um fenômeno de vendas. Eu mesmo já recomendei a diversos amigos que presenteassem o livro no fim de ano, a mídia já previa que comprá-lo para presentear em amigo secreto seria a tendência para este verão, acrescento ainda que talvez seja um dos melhores presentes que se possa dar a alguém. E este monólogo nada mais é que uma forma de humildemente propagá-lo um pouco mais. O livro já ultrapassa a cifra de dois milhões de exemplares vendidos apenas nos EUA. A imprensa, sempre desconfiada de histórias com forte teor religioso e por que não dizer doutrinário, demonstra ter gostado também. Só discordo quando ela considera que este livro é de auto-ajuda, acho que não sabe classificar um livro.

A história tem um mote: um acontecimento trágico que ocorreu durante uma viagem de fim de semana, essa viagem, bem programada, era pra ter sido repleta de diversão e alegria, porém uma tragédia marca para sempre a vida da família de Mackenzie Allens: sua filha mais nova, a adorável, doce e reflexiva Missy(adjetivo que lembra perdida em inglês), desaparece misteriosamente, indicíos que foi raptada surgem durante as buscas. Depois de exaustivas investigações, algumas poucas evidências de que ela teria sido assassinada são encontrados numa cabana abandonada e essas evidências levam a crer que que ela foi brutalmente assassinada por algum maníaco sexual.

Os quatro anos seguintes é um misto de inferno de Dante com o Armagedon Apocalíptico, ele passa a viver numa tristeza profunda causada pela culpa de não ter conseguido proteger a sua pequena filha e pela saudade incurável que sente dela, imerso numa dor profunda e paralisante, que todos nós conhecemos bastante, Mack entrega-se ao que ele chama de a Grande Tristeza, um estado de torpor, ausência deliberada e raiva que, mesmo após tanto tempo do desaparecimento da menina, insiste em não diminuir, tornou-se companheira, tornou-se amiga, tornou-se até uma razão para viver. Este estado é muito parecido com que os Pais do Deserto denominavam de Acedia, um estado melancólico de indiferença às coisas bela da vida e à própria vida.

Mack recebe numa noite solitária e fria um estranho bilhete, que tem como remetente um tal de "Papai", essa alusão não traz boas lembranças para ele, uma vez que seu relacionamento com seu pai sempre foi tumultuado e por vezes ele só sentia ódio do seu pai bêbado. Porém a esposa e os filhos de Mack usam esse título para Deus. A mensagem escrita era um convite para voltar à cabana onde aconteceu a tragédia. Tal bilhete só poderia ter sido escrito por um maníaco sádico que não se importava com os sentimentos de ninguém.

Relutante e eivado de dores e péssimas lembranças, além de um ressentimento muito grande com uma pitada de desconfiança ele vai ao local do crime numa tarde de inverno, talvez procurasse uma maneira de aplacar o seu sofrimento, nada melhor que olhar nos olhos de nossos demônios para fazer com que percamos o medo deles, a sensação que passa é de alguém que quer rever algo que causou uma dor muito profunda e que está tão cativo daquela dor que quer passar de novo por ela, a dor tornou-se necessária, uma verdadeira obsessão. Ele aproxima-se pausadamente do local mais assustador para sua alma, palco onde seu mais terrível pesadelo foi encenado. O que encontrará alí, mudará o seu destino e dos que o cercam para sempre.

Ao entrar na Cabana ele enfrenta todos os piores pesadelos que se pode imaginar, todos os medos, todos os demônios, todos de uma vez só, sem subterfúgios, sem ter para onde correr, porém em meio a tudo isso ele tem uma surpresa, talvez não seja tão surpreendente assim, Deus, Jesus e o Espírito Santo estão à sua espera para o que se poderia chamar de "acerto de contas" e, com imensa benevolência, compreensão e compaixão, dialogam com Mack sobre vida, morte, dor, perdão, fé, amor e redenção, fazendo-o compreender alguns dos episódios mais tristes de sua história.

Ele tem então essa experiência ímpar de conversar, chorar e até mesmo de xingar, se fosse o caso, o principal responsável pela perda de Missy, o próprio Deus, o que surpreende não e a presença divina naquela cabana, mas sim a forma que essa trindade se manifesta, emana, é o que se pode chamar de versão triúna escandalosa, bastante estranha, mas nem por isso menos acolhedora, Ela, a Trindade, está pronta para responder a todos os questionamentos de Mack e ainda se oferecer para curar a sua alma. Deus pai aparece como uma acolhedora dona-de-casa negra (segundo um articulista da Veja, parece uma mistura do misterioso Oráculo, da série Matrix, com a ama carinhosa de E o Vento Levou...), o Espírito Santo é uma diáfana, bastante estranha, mulher oriental e Jesus é um jovem carpinteiro que faz piada sobre o próprio narigão judaico, no melhor estilo de sátira. Como ficar irritado e se afastar de personagens assim? Além do mais, Papai (estranho chamar uma mulher assim) gosta de soltar umas piadinhas meio sem graça. Algo que transparece desde a primeira vez que aparece é a idéia que o seu colo é bastante convidativo para cabeças que não reclinam há muito tempo, para rostos que há muito não choram porque as lágrimas já secaram. Este estranho "acerto de contas" se dá no palco da dor, uma metáfora de Young para o fato de que para alcançar a cura, precisamos sentar à mesa com nossas dores e medos e olhá-los nos olhos. É com imensa benevolência que Papai, Sarayu(Espírito Santo) e o alegre e bondoso Jesus travam com Mack iniciam o processo de cura, revirando feridas, desatando as ataduras e colocando as feridas ao ar livre, para serem definitivamente curadas, mas só após serem expostas. Quem não gostaria de um encontro como esse? 

A Cabana é para mim uma metáfora de uma discussão muito antiga: como conciliar a bondade de Deus com tanta injustiça, dor e violência? E o que é mais incompreensível ainda: como conciliar que Ele seja tão poderoso se coisas más acontecem? Em curtas palavras, ou Deus é bom ou é Poderoso, pois o mundo não permite as duas coisas ao mesmo tempo. Como então equacionar as contradições da vida? Se Deus é poderoso por que permite que coisas más aconteçam? Deus é bom, porém não tem tanto poder assim e o mundo é cruel e injusto, e Ele não pode fazer nada. Estas são as discussões que A Cabana desperta.

Mack, como eu e você, como tantos bilhões de seres humanos diante das muitas dores profundas e dilacerantes que assolam à alma mais do que ao corpo se questiona: Se Deus é tão poderoso, por que não faz nada para amenizar o nosso sofrimento? A tendência de quem só consegue pensar assim é se afastar de um ser que não se importa, não é melhor ficar distante de alguém impassível? Por isso que nos distanciamos tanto de Deus, não conseguimos conviver com sua aparente e irritante impassibilidade. Ficamos do lado de Mack, por que o vemos inocente, não vemos nenhum aparente erro em sua vida que justifique tal sofrimento, mas a pergunta aqui é: e os que cometeram erros em suas vidas, esses mereceriam ter o sofrimento atenuado? A misericórdia é justa?

A leitura é de uma intensidade que chega a doer, mas é bastante sensível, e com certeza é profundamente transformadora. O livro nos leva a refletir sobre o amor e o poder de Deus, sobre o sentido da dor, do sofrimento e das dúvidas. Permite que aqueles que desconfiam do amor de Deus possam olhar de novo para Ele, não como um juiz, mas como um Pai desesperado de amor. O livro deve ser lido por todos, principalmente para aqueles que, como eu, estão há tanto tempo dentro da Cabana que não sabem onde é a saída, mas sabem que ela existe, mesmo que demore achar, quando a achar será uma pessoa melhor, para aqueles que olham de fora para a Cabana com terror e medo possam olhar como um processo inevitável em busca de cura.

Como disse um poeta cristão tempos atrás: "Não me negue o sofrimento se for para te encontrar Jesus...", peço a Papai que me tire da Cabana escura e fria, quando eu tiver que sair dela, não quando eu quiser sair dela.

[Este é para Jennyfher, amiga e companheira, que descobriu na sua própria Cabana que Abba, Papaizinho, está lá, cuidando de suas dores, de suas tormentas e com a mão na maçaneta, pronto para abrir a porta].
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