Contos (VII) - Fogo

Era um piromaníaco, nem sabia bem o que este termo significava, mas era exatamente o que ele era, se alguém lhe dissesse que ele era isso, consideraria como um elogio ou que era portador de uma doença grave. E não apenas no sentido metafórico, ainda que gostasse de ardis e estratagemas próprios da infância ele era piromaníaco de verdade, poria fogo em Roma com mais qualidade que Nero, nada escapava à sanha ardente que tinha. Como quase todas as outras crianças era fã incondicional dos bombeiros, os homens do fogo, mas era fã do fogo também, não saberia “elaborar” essa contradição dentro si mesmo, não era a única e não era a mais grave, logo, não era objeto de sua preocupação, seu negócio mesmo era andar com uma caixa de fósforos no bolso. 

Tinha começado com queima de papéis no banheiro, adorava fazer isso, ainda que levasse reprimenda da mãe, ainda assim de vez em quando colocava papéis no vaso sanitário e depois tocava fogo. A fumaça que ficava presa no banheiro e o odor de papel queimado o denunciavam com muita facilidade, mas também não o impediam, sempre dava um jeito quando ia lavar o banheiro para ajudar a mãe de tocar fogo nos papéis na lixeira.

Tinha desgosto por ter nascido presbiteriano, pelo menos no mês de junho, pois nas festas juninas não podia ter a sua própria fogueira, contentava-se em queimar as fogueiras dos vizinhos, mas não era a mesma coisa. E ainda tinha aquela bendita tradição de dizer que quem mexia com fogo “mijava na cama à noite”.

Costumava andar com seu inseparável cão de guarda, um pequinês misturado com vira-latas, mais vira-latas que pequinês, infestado de pulgas, de humor instável e encrenqueiro, cria que a razão de tamanha instabilidade do cão se dava ao desgosto que o coitado tinha por ter dentes tão desalinhados, o pobre cão não tinha oclusão, nem ele mesmo sabia o que era isso, mas a palavra era bonita demais, cabia muito bem: - Meu cão não tem oclusão! Várias vezes descia as encostas da montanha em que morava em busca de aventuras, um dia descobriu que a parte que descia para um vale desabitado, com uma lagoa fantasmagórica no meio, era propriedade privada, um vizinho dizia ser dono daquela terra, plantara então cana-de-açúcar para poder afirmar a sua autoridade sobre o local, mas decerto que aqueles pés de goiaba, não foram plantados por ele, mas mesmo assim requisitava a posse dos mesmos, e colocava os filhos para vigiar o que eles chamavam de “sítio”, eram tantos que pareciam ser onipresentes, bastava roubar uma goiaba, verde ou cheia de vermes que lá vinha um deles dizer: - Vou dizer ao meu pai! E lá ia o sitiante bater na casa do acusado e dizer para os pais que o filho estava roubando as goiabas dele, era motivo de surra na certa para toda a vizinhança.

Um dia após ser flagrado roubando umas tantas goiabas verdes e denunciado a sua mãe, prometeu se vingar. Quando ninguém mais se lembrava de nada, colocou uma caixa de fósforos no bolso e desceu a encosta por um lado em que não podia ser visto pelos onividentes filhos do dono do sítio, desceu e tornou a subir por onde tinha a plantação de cana-de-açúcar, e lá começou a atear fogo na palha seca, que não precisava de absolutamente nada para fazer o serviço, e que ainda contou com a ajuda do vento que soprou forte e subiu a encosta levando as chamas, verdadeiras línguas de fogo, para cima da vegetação que sofria com a estiagem.

Não demorou muito e toda a encosta da montanha virou uma enorme fogueira, não sobrou nada, apenas tocos de madeira enegrecidos e retorcidos pelo calor.

Não sabe dizer quem tomou a iniciativa, só lembra que quando o terreno esfriou viu pessoas com enxadas na mão limpando o terreno e demarcando os lotes. Logo vieram outros e mais outros, em menos de uma semana já tinham casas, depois de um mês já era uma vila, havia iniciado sem querer um movimento de reforma agrária urbana.

E por conta da invasão empreendida pelos sem teto, e por alguns que não eram tão sem teto assim, ninguém no final soube que o estopim fora iniciado por ele.

Depois de mais de 25 anos deste fato ele se constrange quando tem que pegar ônibus, pois de vez em quando entra no coletivo em que um daqueles onividentes garotos é motorista, e, por gentileza, não o deixa pagar a passagem.

Um toque de vulnerabilidade natalina

 
Talvez porque eu envelheci antes do tempo, eu ainda não fico muito à vontade com cartões eletrônicos, com mensagens coloridas e letras brilhantes. Mas essa forma de comunicação e expressão de bem querer chegou para ficar, e se não me rendo totalmente a ela, também não devo deixar de usá-la. Então aqui vai uma tímida expressão de um desejo de Feliz Natal. Feliz Natal? Que Natal? Eu fico um pouco desapontado quando percebo que Natal tem se tornado para muitos apenas um trampolim para a celebração da Festa do Ano Novo. A expectativa do Novo Ano parece ser tão grande que a celebração do Natal é facilmente obfuscada. Então Natal se tornou um trampolim, apenas enquanto uma espécie de festa preparatória para a festa maior que é a celebração de final de ano e acolhida da chegada de um novo ano que se inicia. O mais triste para mim é que o Natal não é nesse caso um trampolim impulsionador, mas um trampolim do tipo brinquedo menor no parque de diversões. Mas seria bom que o Natal fosse usado como um trampolim mesmo. Um trampolim impulsionador. Trampolim no qual as pessoas buscam o impulsionamento para serem atiradas de peito aberto para as novas aventuras de um Novo Ano.

Eu sou daqueles que curtem muito o período natalino. Gosto dos filmes, das músicas, das compras, das expressões nos rostos da pessoas. É claro que em meio a tudo isso sempre surge em mim aquele crítica antimercadológica e anticonsumista, mas eu curto tudo isso assim mesmo! Há uma certa magia no ar. Existe um certo encantamento, que eu gosto de curtir. E eu me sinto com um menino novamente. O período natalino mesmo quando destituído do seu significado mais profundo pode proporcionar isso. Adultos voltando a ser crianças! E penso que é disso que precisamos: Deixar de posar de adultos, se desvencilhar da couraça protetora mas que sufoca a expressão do amor, desfazer esse semblante sério e responsável e se soltar como uma criança diante da beleza do mundo. Não era isso que Aristóteles e Platão diziam em relação a filosofia? A filosofia começa com uma atitude de maravilhamento diante do mundo. E parece que para sermos vistos como adultos nós somos forcados a perder essa capacidade de maravilhamento. As vezes esse maravilhamento nos leva à aquele famoso embobecimento, expressa na famosa frase do sábio fulano de tal: “O Amor é lindo e embobece.” Pois Natal é’isso, Deus se fazendo criança, Deus se embobecendo para experimentar todo esse maravilhamento que nós humanos somos convidado a vivenciar!

Eu acordei hoje tentando encontrar uma frase que resumisse um pouco o significado mais profundo do Natal, e cheguei a uma conclusão que penso definir uma dimensão importante da mensagem natalina:

Natal é Deus tornando-se vulnerável aos deleites e às agruras do amor.

Então Natal é Deus se entregando como um presente, e nessa entrega ele se faz vulnerável. Ele sofre o risco da agrura da rejeição e indiferenca, mas também se abre para experimentar o deleite da aceitação e reciprocidade. Natal é Deus presente e Natal é presente de Deus! Emanuel, o Deus conosco, mas o Deus que se dá a nós como uma dádiva infinita. Então Natal é entrega! A palavra grega usada no Novo Testamento para descrever essa entrega divina é Kenosis, que significa esvaziamento e mesmo rebaixamento (Filipenses 2.6). No Natal Deus se esvazia do seu próprio poder para viver dentro das limitações humanas. Deus se rebaixa para exaltar os seres humanos. Deus se biologiza para tirar os humanos do estado meramente animal e trazê-los de volta a transcendência. Deus se faz carne demonstrando que não há nada errado com o corpo humano e a fisicalidade. Mas Deus também se corporifica numa afirmação inequívoca de que não existe espiritualidade vivida fora do corpo e separada dos outros. Deus toca o mundo e se permite ser tocado por ele.

Que este Natal seja o trampolim que nos impulsione a viver um Ano Novo de forma mais plena e profunda. Que façamos como Deus e nos entreguemos kenoticamente ao outro! Que sejamos esvaziados do egocentrismo e nos enchemos do amor que se entrega, que se faz vulnerável. Que toquemos o mundo! Que nos permitamos ser também tocados por ele!

Feliz Natal!

Nele,

The Revd Joabe G. Cavalcanti
St Barnabas Vicarage

Contos (VI) - Nascer!


Mesmo após quase quinze anos a imagem é bastante clara e bem nítida em sua mente, nenhum acontecimento posterior poderia fazê-lo esquecer daquele momento específico, a impressão é que não se passou nenhum só dia, não só pela nitidez da imagem guardada, nunca percebeu nenhum indício de que a mesma estaria arrefecendo ou desintegrando-se, mas também pelo o que sentia quando pensava no assunto, revivia tudo com intensidade, e gostava disso.

Os fatos, que estavam descritos minuciosamente, jamais saíram dos arquivos de sua memória, sabia, no momento em que estavam acontecendo, que aqueles acontecimentos ficariam como que arquivados quadro por quadro em sua alma para sempre, ou no dizer dos antigos hebreus ficariam gravados indelevelmente no coração.

Foi marcante demais o que aconteceu para que algum segundo sequer corresse o risco de ser esquecido e nem ser esquecido, ainda que seja por um segundo. Ele podia entender a metáfora paternal para expressar o amor de Deus que foi usada por um antigo profeta israelita: “Na palma de minhas mãos te tenho gravado...”.

Ele estava de pé num corredor, num corredor de um hospital, mais precisamente de uma maternidade, estava diante de uma janela envidraçada, de um verdadeiro “aquário”, o nariz roçando no vidro, a respiração acelerada em decorrência da ansiedade embaçava o vidro e retornava para seu rosto embaçando também os óculos, mas ele não se afastava, não conseguiria se afastar, ainda que quisesse. Mascava chicletes, não apenas um, mas muitos, enchera a mão e colocara dentro da boca uma quantidade muito grande de tabletes, e a cada minuto de espera colocava mais, quase não conseguia mastigar, não se dava conta que deveria jogar fora alguns para poder colocar novos tabletes, mas a mente estava ocupada demais com coisas muito importantes para que se preocupasse com um assunto tão insignificante quanto este. Seus maxilares doíam, a boca estava tomada de goma e saliva, mas ele ficara inerte, não se afastaria dali ainda que o corredor virasse o leito de uma linha do trem e viesse um comboio desgovernado em sua direção.

Lá dentro do “aquário” havia mais de 10 caixinhas de acrílico, chamadas carinhosamente pelas atendentes de “berço”, todas estavam vazias, não havia nenhuma criança ali, ou todas que nasceram naquele dia já tinham ido para o berçário ou não havia nascido nenhum bebê nas últimas horas. Mas como já eram mais de três horas da tarde, divagava ele, é provável que nasceram muitos bebês, mas já saíram dali para o berçário ou para os quartos juntos às mães. Este tipo de raciocínio o impedia de ficar mais ansioso, mas o mesmo raciocínio o fazia ficar ansioso, não tinha chance, não havia escapatória dessa roda inexorável.

Olhava com ansiedade para a porta branca no fundo da sala, quase defronte à janela de vidro em que se encontrava, a ansiedade era tamanha que corria o risco de converter-se em raiva. Já não bastava a raiva que sentia por não ter reagido à desculpa idiota do médico, que por isso estava sendo considerado um idiota e até a si mesmo ele estava chamando de idiota. Tinha pedido ao médico para acompanhar tudo, o pedido tinha sido feito com muita antecedência, ele tinha anuído, mas na hora “H” veio com a desculpa de que não tinha roupas suficientes, ele acreditou, mas só conseguiu se dar conta de que deveria ter reagido com veemência ao médico quando já era tarde e não podia fazer mais nada, a paralisia que o tomou no momento da negativa era o que mais o irritava.

Ainda tinha a mente turvada de sentimentos contraditórios e compensações emocionais, como canalizar para o médico desprezo e raiva a fim de diminuir a adrenalina que parecia correr a 1.000 km por hora em suas veias, pronta para explodir seu coração em milhares de pedaços, quando a porta branca se moveu, seus olhos a fixavam há tanto tempo que estavam doendo por conta da brancura, uma mão envolta por uma luva de látex apareceu e afastou de vez a porta, atrás dela veio outra mão, também envolta numa luva, apenas dois olhos o fixaram, uma máscara encobria o resto do rosto, ele não podia ver as feições, mas notava que os olhos sorriam, as mãos enluvadas traziam um lençol e envolvida por aquele lençol vinha algo que não podia divisar com certeza, não sabia se eram as lágrimas ou a miopia que o impediam de ver direito. As mãos quando se aproximaram do “aquário” foram elevadas e deixaram à amostra dois pezinhos pequenos e vermelhos, duas perninhas rechonchudas, dois bracinhos também vermelhos com duas mãozinhas que pareciam de boneca, de tão pequenas que eram, um rostinho inchado, com dois olhinhos fechados e uma cabeleira escura, quase preta. Parecia que aquele diminuto ser ou tentava sugar todo o ar do mundo ou estava com muita fome, se mexia, fungava e abria a boca, não estava chorando. Foi depositada num berço de acrílico para que ele pudesse olhá-la com calma, ainda que por trás do vidro.

Foram segundos que para ele duraram anos. Quando deitada ela que estranhava a abrupta introdução no mundo, se mexia tentando encontrar conforto naquele novo ambiente frio. Foram suas pernas que lhe chamaram à atenção, pareciam recurvadas, ele ficou preocupado, a ansiedade que sentira antes do nascimento era transferida agora para a saúde dela, será que era realmente saudável? Aquela perna parecia ter uma ligeira deformidade. Quando se virou e notou que sua mãe estava ali, não perdeu tempo e indagou sobre a perna da pequeninha, ela, com toda a experiência de quem teve oito filhos, tranqüilizou-lhe, não era nada, apenas a posição fetal que a pequenina ainda tentava manter. Depois de alguns dias ele descobriu que ela tinha razão e ficou muito feliz por isso. Era tão bom para ser verdade que ele procurara alguma coisa “errada” com medo de que tudo não passasse de uma ilusão, algo que ele conhecia muito bem, pois já tinha acontecido quase dois anos antes, agora, porém tudo era perfeito demais!

Então vieram buscá-la para terminar os procedimentos profiláticos.

Daquele momento em diante ela o tornara outra pessoa, quando ele entrou naquele hospital, entrou carregando muitos sonhos e uma quantidade muito maior de medos e ansiedades, medo que tudo não se transformasse numa desilusão, que o seu sonho mais belo não se tornasse um pesadelo aterrorizante, estes pensamentos ele guardara para si, não tinha dividido com ninguém, e agora quando saísse dali, todos os sonhos concernentes a ela teriam se realizado, os medos e as ansiedades teriam sido vencidos, seriam deixados para trás, sairia livre, leve, feliz! O segundo domingo de agosto para ele agora teria um novo sentido, ele fora inserido na categoria que deveria ser homenageada nesse dia: Ele agora era pai!

Aquele dia ficou marcado em sua vida: 04 de Março de 1995, dia em que medo, ansiedade, felicidade e tranqüilidade se misturaram e se sucederam numa velocidade muito grande. Vieram depois milhares de dias em que novas lembranças foram acrescentadas, mas aquele foi o maior de todos, diria parafraseando os modernos babilônios que aquele dia foi o Pai de todos os dias.

Muito tempo depois, no 120º aniversário da República, ela cumpriu mais um dos ritos de passagem para a vida adulta, que no ritmo do século XXI acontecem cada vez mais cedo: prestou vestibular seriado para uma universidade pública, quando ela começou a subir a rampa de acesso rumo à sala de aula no meio de centenas de outros adolescentes, ele que a tinha levado e que ficaria até o final da prova esperando-a pensou consigo mesmo: Cadê aquele bebê rechonchudo e vermelho que eu vi sair da sala de parto que cabia apenas numa mão da pediatra?

Era aquela bela mulher de porte elegante e confiante que subia a rampa, mas que para ele seria sempre a sua menininha.

Músicas da minha vida (I)

Se alguma música pudesse definir minha personalidade ou minha própria vida em toda sua totalidade, esta seria C’era una volta il West de autoria do italiano Ennio Morricone (tema do filme de faroeste Once upon a time in the West, versão brasileira: Era uma vez no Oeste), revelo isto com temor de ser linchado pelos fundamentalistas modernos, já que a música que mais me fala à alma é uma música secular e não uma música sacra, além disso ela não tem letra e fala mais que muitas músicas que só tem palavrório sem melodia e harmonia. É triste e bela, tão triste quanto bela, triste ainda que bela, bela ainda que triste. Só aqueles que associam a beleza apenas às coisas alegres, pensamento fruto da pós-modernidade vaga e de modismos efêmeros, não conseguirão entender isto que eu estou apregoando, posso até parecer um arauto louco ou bêbado em cima de um telhado, mas pelo menos tenho a coragem de gritar o que penso sem fazer coro com a massa.


O início suave, quase imperceptível da música, a leveza do trinado das cordas, o piano que parece ter vida própria e querer falar, a harmonia da orquestra, a coesão dos instrumentos, a sensação de que nada é inadequado ou que está fora do lugar, o êxtase qual onda que quebra na praia, o sentimento de paz que se instala após a passagem do turbilhão avassalador e aquele solfejo triste da solista, qual Polimnia a musa grega do canto solene, encantam minha alma, com a mesma intensidade que a entristecem, o único ato propício, como uma liturgia recomendada por meio de rubrica, para ouvir adequadamente é fechar os olhos e calar, só assim, desligando alguns periféricos é possível ouvir com a alma, os olhos abertos podem distrair, as palavras ditas, por mais belas que sejam se mostram inadequadas. Se compararmos essa “universidade” musical com a superficialidade das músicas gospel de hoje de pouca letra e menos acordes ainda, não fica difícil entender a minha preferência por ela, as músicas contemporâneas parecem mantras, versos repetidos à exaustão, vãs repetições já dizia o evangelho. Quando a música acaba fica uma sensação de vazio que só passa quando eu volto e a ouço novamente, hoje com comodidade graças ao controle remoto, santa tecnologia! Antes tinha que fazer um esforço físico grande para mover o braço mecânico da radiola e posicionar no começo da faixa do disco de vinil. Sei que quando a ouço eu fico triste, mas a ouço exatamente para isso. Quando quero ficar reflexivo, pensativo, sondar minha própria alma, eu me sento e vou ouvi-la, não há saída, ao ouvir alimento minha alma, às vezes de uma tristeza profunda e de sentimentos inexplicáveis, sou tomado de uma sensação, que não sei definir, e não consigo fugir disso. Já devo ter ouvido esta música pelo menos umas 5.000 vezes, ainda pretendo ouvir mais umas 10.000, mormente depois que eu me aposentar, mas a sensação é de que estou ouvindo pela primeira vez, os sentimentos se renovam ao primeiro acorde. Parece estranho este fato, principalmente para alguém que se sente inadequado quando tem que cantar o mesmo estribilho 10 ou quinze vezes só porque um ministro de louvor, que tem vontade de parecer com André Valadão, quer, tem alguns que até a flanela põe no bolso para ficarem mais caricatos, seria risível, se não fosse tão ridículo.

Vou iniciar uma nova série de reflexões que retratará as minhas razões em preferir algumas músicas, eu havia pensado em colocar o nome Hinos de minha vida, mas como existem outras músicas que transcendem esta categoria, resolvi nomear a série: Músicas de minha vida, esta é a primeira e talvez a mais intensa e marcante de todas. Isto não é uma hinódia, seria heresia e pecado de superbia tal intento, é apenas a minha reflexão pessoal sobre algumas músicas, pode ser que nem sempre seja a visão correta, porém é apenas a minha visão, quem quiser que tenha a sua.

Quando tinha uns 10 anos de idade eu era apaixonado por filmes de faroeste, ainda sou, mesmo hoje com 41 anos de idade, e a TV do Grande Irmão, que à época era apenas o braço direito na área de comunicação da ditadura militar, gostava de passar filmes que não permitiam a reflexão social, era para entreter, hoje é para “emburrecer” mesmo. Um dos que mais repetiu foi o citado Era uma vez no Oeste, com toda a poesia da direção do italiano criador de metáforas Sérgio Leone, a fotografia impecável, a capacidade de dar a uma cena de uma goteira uma dimensão inigualável e fazer de uma mosca uma atriz coadjuvante, o latinismo visceral, a atuação de grandes atores (como o novato Charles Bronson, o já veterano Henry Fonda e o expressivo e assustador Jason Robards) e a trilha sonora assinada pelo mestre Ennio Morricone, muito embora esta à época me passasse despercebida. Eu adorava assoviar a música de “O Bom, o Mal e o Feio”, mas não me lembro de ter sentido nenhum êxtase ao ouvir C’era una volta il West quando Cláudia Cardinale (seria Melpômene a musa grega da tragédia?) descia na estação do trem e o crescente melodioso até o âmago na chegada à fazenda e encontrar seu marido e os filhos deste todos mortos pondo um aparente fim à possibilidade de uma vida decente para uma prostituta em recuperação.

Quando eu tinha uns dezesseis anos tentei entrar para o seminário, tinha pressa em cursar teologia o quanto antes possível para exercer o sacerdócio, quanto antes eu estivesse pronto mais rápido o mundo seria consertado, era mais ou menos o que eu pensava, não me deixaram entrar, o mundo deve ter agradecido, porém a “salvação” do mesmo foi adiada um pouco, era muito novo, como prêmio de consolação me colocaram num grupo teatral, composto em sua maioria de alunos do seminário, que tinha como missão despertar vocações nas igrejas da região. Uma das minhas participações era como soldado comunista, eu vestia uma farda de verdade e junto com outros seminaristas (o hoje Rev. Alexandre da Igreja Episcopal Carismática e o também Rev. Marco Cosmo da Igreja Anglicana) representávamos soldados do então regime comunista que torturavam pastores, missionários e até mesmo leigos cristãos, era época da Guerra Fria e “Torturado por amor a Cristo”, “Ivan”, “Perdoa Natasha” e “Torturado por sua fé” estavam em evidência, eu já os tinha lido várias vezes e tinha uma grande vontade de ser missionário no leste europeu, porém na peça eu é que estava por trás do gatilho, recebíamos então ordens do “General” Zózomo Malta (isso mesmo, não escrevi errado o nome do sujeito é esse mesmo, Zózomo, irmão do Senador Magno Malta) para arrancar as unhas dos cristãos. Os que representavam os missionários colocavam unhas feitas com pedaços de plástico de carretel de linha de costura, que eram presas com sabão, fingíamos então que cada unha era arrancada com alicate, o sangue de “brincadeira” escorria pelos braços e os gritos convincentes deixavam a platéia em prantos e depois atirávamos neles com revólveres de espoleta, que nem sempre davam tiros com qualidade, parecia que “a bala pinava”, os nossos missionários portavam por baixo da roupa um “saquinho” com suco de uva que ao ser apertado vazava parecendo sangue, o que dava um tom de realismo às cenas. Quantas crianças não fizemos chorar de medo, tínhamos que mostrar depois que era de brincadeira e que ninguém tinha morrido.

A música que fazia fundo musical para a cena era essa, confesso que não associava a música ao filme, não fazia essa ilação. Um dia ao ouvir intencionalmente na casa de um parente essa música me dei conta das duas épocas de minha vida que ela tinha marcado e desde então eu passei a ouvi-la cada vez mais intensamente.

Um dia estava fazendo terapia em grupo, não sei quanto ao grupo, mas eu num aprendi nada daquilo tudo e nem aproveitei uma linha sequer de caderno pequeno, quando a psicóloga colocou essa música eu travei, ela tinha invadido meu santuário particular, pois a música falava demais ao meu coração e o que ela falava não combinava com o momento, foi desde então que eu a “canonizei”, só a ouço em momentos especiais e que eu mesmo tenha escolhido ouvir, não gosto de intromissão. Até hoje não perdoei àquela psicóloga por tamanha heresia.

Muito tempo depois, não sei se foi sonho ou realidade, estava deitado numa praça bastante arborizada pensando na vida, sempre que não estamos fazendo nada, dizemos que estamos pensando na vida, até parece um contra-senso ou que a vida não vale nada para nós, já estava meio sonolento e quase dormindo, quando de repente ouvi esta música tocando, no começo tocava baixo, depois foi aumentando, ainda sem acreditar me ergui sobressaltado, a sensação que tenho hoje é que senti pânico (o sentimento trazido pelo mítico Pã), e vi que era um carro de som que havia parado próximo à praça e que tocava a música, tocava e repetia sem parar, achei que estava morrendo com minha cabeça repousada no colo de uma ninfa do bosque ou de uma náiade e que os anjos do céu ou as fortes e doces valquírias nórdicas tinham vindo me buscar tocando a música de minha preferência. Seria uma ótima forma de se despedir da vida e entrar na eternidade, provavelmente não sentiria medo, tal era o êxtase, mas justamente por conta deste que eu queria permanecer vivo, a sensação de paz era maior que eu mesmo. A melhor definição do que senti naquele momento é o que disse o Leone sobre a película: “O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que uma pessoa exala antes de morrer. Era uma vez no Oeste é do começo ao fim, uma dança da morte...”. Na hora de partir da vida, tendo como fundo musical esta música, nada melhor que tirar a morte para uma dança. Ela vai gostar, há muito que não se diverte, trabalha demais e a área de atuação dela é muito sombria.

Desde este dia decidi que se eu não morrer ouvindo esta música, pelo menos que a toquem em meu velório, tenho certeza que ela, naquele momento, não me poderá deixar triste, será vez de ouvi-la e sorrir, será a vez de mudar a história, será o momento de cantar definitivamente “era uma vez...”.

Confissões de um ex-pastor(X)

Creio que Timóteo, o jovem presbítero de origem judia, teve uma grande vantagem em seu ministério: a mentoria espiritual do apóstolo Paulo. Isto fica claro nas cartas que lhe são dirigidas, que pormenorizam as instruções chegando às minúcias. Mas creio que o que mais reforça esse argumento é o que está implícito nas entrelinhas: a companhia quase que onipresente de Paulo, estava sempre disposto a ouvir, a aconselhar, a dirigir os passos, a ser o paracletos de Timóteo, aquele que anda lado a lado.

Olhando para trás eu vejo que o que mais me faltou no passado foi alguém que me mentoreasse, eu hoje lamento a minha falta de humildade à época para procurar alguém que me ajudasse, que fosse o meu diretor espiritual. Acho que não encontrei a pessoa certa porque confundi a forma certa de procurar com o lugar certo, enfatizei mais o local onde encontrar do que o modo, atitude de humildade, que deveria ter feito isto.

Tive muitos tutores eclesiásticos, mas nenhum que pudesse ser chamado de mentor, no mais fiel sentido da palavra.

Tive na minha infância um pastor que quando entrei no seminário se tornou meu tutor, trabalhei em sua igreja liderando uma congregação, sentia que o mesmo me escanteava, sentia que ele não gostava de mim, seus presbíteros lhe faziam oposição e ele achava que eu fazia parte do grupo para tomar seu lugar. Um dia ele me procurou na congregação para me dizer que naquele dia deixaria a igreja por conta da perseguição dos presbíteros, eu imediatamente lhe informei que sairia junto com ele da igreja, pois não concordava com a atitude dos líderes leigos, ele começou a chorar, e em lágrimas me pediu que continuasse na igreja por amor das ovelhas, vi que não precisava mais provar para ele que eu lhe era fiel e que não estivera articulando a sua derrubada.

Tive outro pastor e tutor que era ex-militar da aeronáutica à época que eu o conheci, estava na ativa durante a ditadura militar e pelo que me consta era um torturador nos calabouços infames dos DOI-CODI´s. O que mais me assustava era a sua arrogância intelectual e autoritarismo, ele não pastoreava a igreja, ele a conduzia com chicotadas e açoites, era uma igreja assustada, nervosa, doentia e que até hoje, mas de 10 anos depois da saída dele ainda sofre os efeitos daquele pastorado caótico. Um dia, eu estava muito alquebrado, ele gritou comigo, meu pai estava presente, era presbítero do conselho, eu apontei para meu pai e disse: - Meu pai não fala assim comigo, quem é o senhor para falar? Ele me respondeu que era meu pastor, eu me levantei e saí da sala dizendo: - Pastor não, o senhor é reverendo!

Um dia, alguns anos depois numa assembléia para decidir a permanência dele à frente da igreja ele se portou de uma maneira tão indecente, vulgar, desonesta e anticristã que eu me encolhi nos bancos da igreja, estava morto de vergonha de ver alguém tratar a noiva de Cristo daquele jeito, manipulando a votação, que lhe era na maioria contrária, para poder continuar à frente de uma igreja que nem lhe pagava salário, tudo apenas pelo poder e pelo status.

Fui para uma igreja que me chamou para ser pastor, mas à época eu só queria estudar teologia e ensinar, tinha o objetivo de ser apenas professor, não queria pastorear. Ocupei o cargo até que um ex-colega de turma meu chegou para pastorear a igreja, éramos da mesma idade, tínhamos idéias iguais, linhas teológicas semelhantes, mas éramos de universos paradoxais. Passei um ano na igreja sem que me pedisse para pregar, tinha ciúmes de mim por conta da igreja gostar de me ouvir pregando, não sei o que ele pensava, eu não quis ser pastor antes dele, porque tomaria a igreja dele então? Chegou até a enviar relatórios negativos ao meu respeito para o presbitério e ainda os apresentou na minha ausência, não esperou que eu chegasse para apresentá-los. Fui incisivo numa reunião da mesa do presbitério, meu mal sempre foi ser honesto, disse que o tal pastor tinha gabarito, pregava bem e exercia sua função a contento, mas eu não tinha o mesmo como homem no sentido da palavra aqui no nordeste: alguém com caráter e de palavra. Lógico que isso causou rebuliço e naquela reunião eu desisti de ser pastor, foi meu primeiro passo para abandonar de vez o ministério.

Após um tempo eu, que já tinha perdido a esperança de exercer o ministério, entrei em contato com um pastor que havia adulterado e por isso mesmo tinha sido expulso da denominação, estava numa comunidade pequena que era ligada a uma igreja de outro estado, forte e com um pendor para a tolerância, ecumênica e extremamente politizada, diria que era uma igreja de esquerda, eu já tinha tido contatos com essa comunidade antes, mas sempre os considerei exóticos, mas naquele momento eu achei que era o lugar ideal para mim, tínhamos as mesmas idéias e os mesmos objetivos. Ocorre que o pastor era um aproveitador, ele não tinha nenhuma veia ecumênica, acho que era até mesmo anti-ecumênico, mas como queria a todo custo exercer o ministério, fingia que aceitava as doutrinas dessa igreja, era tolerado e aceito. Descobri que ele era uma farsa, além do mais era um mentiroso contumaz e incorrigível. Quando falei com o pastor líder no outro estado, fui não só mal compreendido como acabei sendo forçado a sair da igreja me sentindo injustiçado e muito abalado espiritualmente.

Acabei procurando a supervisão espiritual de um pastor reconhecido nacional e internacionalmente, fui bem recebido, deram-me até cátedra no seminário da igreja, depois me pediram para supervisionar uma igreja em outro estado, distante mais de 12 horas de viagem de ônibus, eu ia aos fins de semana, sem reclamar e sem ganhar nenhum tostão por isso. Um dia este pastor me deu um telefone de uma mulher que tinha tentado suicídio, minha missão era dar apoio pastoral e ajudar naquilo que pudesse. Depois de algumas conversas descobri que a mulher estava em crise porque tinha se envolvido com aquele pastor, que dizia para ela que a relação com ele não era pecado, pois a poligamia estava na Bíblia, e a esposa dele não poderia oferecer o que ela poderia. O corpo dela aceitou, mas a mente e o coração não, por isso entrou em crise e tentou se matar. Fiquei indignado, ter sido enviado para “limpar a sujeira” que ele havia feito. Senti-me usado, não só nessa ocasião como em outras, quando o meu nome saiu em manifestos que eu sequer havia lido, depois de sentir-me um bagaço de cana jogado fora, deixei a igreja com muita tristeza. Este foi o passo final para a desistência plena do ministério pastoral.

Meses atrás eu recebi uma mensagem num site de relacionamento de um velho pastor de São Paulo, o Rev. Enos Moura, presbiteriano de larga tradição, que foi pastor em Recife e professor do mesmo seminário que eu estudei e ensinei, muito embora eu não tenha sido aluno dele, diria que no jargão anglicano ele é um verdadeiro “Pai em Deus”. Eu tinha postado uma foto minha pregando em uma igreja numa cidade vizinha, era a única foto que eu tinha digitalizada no meu computador, por isso que a tinha colocado, debaixo dela, à guisa de comentário eu havia escrito: “Faz tanto tempo que eu nem sei mais como é que se faz!”. Algumas pessoas que me conheciam bem e que viram a foto disseram que tiveram um choque, um colega meu havia dito que sentira um “murro” quando leu o que eu tinha escrito. A mensagem do Rev. Enos me trouxe lágrimas aos olhos, não chorei mais por estar num local público, ele me pedia que o deixasse me ajudar, queria dividir a minha dor e queria saber o que poderia fazer por mim. Não tivemos tempo depois para conversar por conta da distância, sei apenas que em algum lugar há um pastor de almas disposto a me pastorear e a me carregar nos ombros, caso eu mesmo não consiga voltar ao redil por minhas próprias pernas. Enos Moura é o seu nome, alguém que tem o coração de pastor, um Pai em Deus!

Hoje com toda a experiência que tenho sei que preciso de um diretor espiritual, de alguém que me mentoreie, alguém a quem eu tenha que prestar contas, sei que Brennan Manning, Henry Nouween e Eugene Peterson seriam ótimos diretores, mas me dou conta que não posso buscar mentores que sejam super-espirituais, estes não existem, por isso nunca encontrei nenhum, estava buscando errado, só tinha encontrado vasos de barros como eu, mas é por meio de vasos de barros com pés de argila que Deus implanta Seu Reino. Quero apenas um pastor que seja honesto, comigo, consigo mesmo e principalmente com Deus, alguém assim eu seguiria, alguém assim eu obedeceria. Ainda busco, sei que existe, Rev. Enos me provou isto, por isso não desisto.

P.S.: Eu já “sigo” o Rev. Enos Moura no Twitter.

Confissões de um ex-pastor(IX)

Eu tinha de tudo para ser um fundamentalista convicto, um bom cristão conservador, mas não sou, e olha que a culpa não foi de meus pais, tive uma criação austera. Fui criado na mais perfeita tradição reformada, sentia orgulho em dizer que era presbiteriano do pé roxo, isso significava ser também calvinista. Meus heróis da infância eram Martinho Lutero, João Calvino, Ulrich Zwínglio e Girolamo Savonarola, eu me emocionava ao ouvir: “Castelo forte é o nosso Deus...”, até hoje ainda sou contagiado pelo sentimento de orgulho de ser protestante ao ouvir a Marselhesa da Reforma.

Quando eu era pequeno os católicos para mim eram a face de Satanás na terra, não era para menos vivíamos uma guerra religiosa com eles, as nossas igrejas eram apedrejadas continuamente e não podíamos comprar nas mercearias dos bons católicos, pois éramos hereges. Um dia de domingo voltando da Escola Dominical eu e meus irmãos recebemos no meio da rua alguns livrinhos de catecismo das mãos de um padre, não sei qual a intenção dele, só sei que quando chegamos em casa os livrinhos foram confiscados por minha mãe e viraram cinzas antes mesmo que entendêssemos o que se passava. Na rápida olhada que dera, só tinha algumas imagens inocentes, nada demais. O nosso ódio pelo catolicismo era tanto que quando algum de nós era flagrado cantando música secular (contive o ímpeto de colocar mundana, pois assim abriria a hipótese de música extraterrena e isso seria assustador), alertávamos: - Vou dizer à mainha que você está cantando música do padre!

Eu era presbiteriano, mas minha mãe me matriculou numa escola paroquial católica, confusão na certa, eu não gostava das rezas e dos obrigatórios Ave Maria e Salve Rainha, costumava ficar em pé, mas não movia um dedo, até que me revoltei e um dia me escondi no guarda roupa para não ir para a escola, quando minha mãe descobriu, antes que me desse uma sova, expliquei que não queria rezar na escola, ela foi até lá e recebeu da diretora a promessa que eu jamais seria forçado a rezar, então eu tinha a autorização para não rezar, ficava sentado, calado e de cabeça baixa, a vergonha de ser diferente tornou-se em orgulho por ser diferente. Desde então passei a entender de fato o que era ser protestante.

Tive uma formação doutrinária conservadora, mesmo vivendo o auge do pentecostalismo desconhecia as manifestações espirituais desta tradição cristã. Ainda que a minha adolescência tenha passado por uma igreja que aceitava essa doutrina, ao entrar no seminário, passei a considerar as manifestações como fruto de transtornos psicológicos e até mesmo como manifestações demoníacas, não considerava a possibilidade de que algumas delas, ainda que em número muito pequeno, fossem de fato manifestações verdadeiras e reais.

Li todos os livros que podiam me ajudar a entender a luta contra o ecumenismo, o liberalismo teológico e o modernismo, temas que aliados ao comunismo eram diuturnamente combatidos no seminário e na igreja. Fui aluno de grandes luminares fundamentalistas de então, que lutavam contra o modernismo e o liberalismo, mas esqueciam de lutar contra suas próprias fraquezas sexuais, que levaram a maioria deles a cometer pecado de adultério e alguns até de pedofilia e pederastia. Isso sem contar a soberba espiritual e o orgulho doutrinário que dominavam aqueles que não cometiam adultério, achavam-se a Arca de Noé do século XX. Tinha um jornal chamado Presbiteriano Bíblico, que não tinha nada de presbiteriano e nem de bíblico, era apenas para destilar fel e ódio em cima daqueles que não se enquadravam, boa parte dos meus ícones à época eram escrachados ali: Robinson Cavalcanti, Caio Fábio, Leonardo Boff, Karl Barth, Rubem Alves, João Dias, etc.

A primeira vez que ousei dizer que o pré-milenismo dispensacionalista poderia não ser a corrente escatológica mais correta e que o dom de línguas poderia ser contemporâneo, quase fui parar na fogueira. Passei a ser chamado de liberal. Ocorre que eu estava dando um estudo numa igreja, eu ficara responsável pelo culto de doutrina, dia em que afora o domingo a igreja tinha mais gente, preparei então estudos sobre a posição escatológica da igreja, durante as apresentações eu me dei conta que não poderia crer naquilo, era especulativo e não tinha base bíblica, terminei o estudo que já tinha começado sem dizer que não cria no que tinha explanado. Porém no seminário onde estudava eu disse numa aula de Escatologia que se tinha que crer em alguma coisa no que diz respeito à vinda de Jesus, melhor seria na opção da negativa do Milênio, o termo é muito estranho e contraditório, mas era a única opção viável, a conhecida como amilenismo, por não ter algo mais factível para crer, eu era aluno do segundo ano, quase fui linchado pelos colegas e pelos professores que desde aquele momento passaram em todas as aulas a me ridicularizar e a fazer objeção às minhas convicções, tive que trancar algumas cadeiras e no fim do ano, mudei de seminário. Descobri que ser diferente entre católicos ou protestantes dava no mesmo, sempre seria perseguido.

O fato de ler abertamente Barth, Boff, Rubem Alves (e às escondidas Tillich e Bultmann) me deixou com o estigma de liberal. Nessa época entendi que a opção política do Comunismo teórico era a que estava mais perto do evangelho de Jesus, não aquilo que a Rússia, Romênia e Albânia viveram, mas aquilo que está nos escritos dos primeiros teóricos, quase fui linchado de novo. O fato de não votar em Collor em 1989 me deixou em maus lençóis (eu não votei no Lula no Primeiro Turno, votei no, à época, comunista Roberto Freire), engraçado que depois de alguns meses os mesmos que votaram nelle foram para as ruas comigo, protestar contra. Nessa época então eu me tornei liberal e comunista e nas horas vagas era seminarista e professor de Escola Dominical, nada mais paradoxal.

Tive um professor, muito conhecido hoje no país todo, que ministrou exegese de 1º Coríntios, era conservador, fundamentalista e defensor do exercício anacrônico do modus vivendi dos puritanos de três séculos atrás como norma para hoje, ele não conseguia conviver com alguém que pensasse diferente dele, era intolerante. Um dia os alunos me pediram que falasse com ele para trocar uma professora que não ministrava aulas muito bem, fiz isso, era representante da turma, ele então me pediu que fizesse um abaixo assinado para ser encaminhado ao conselho do seminário, do qual ele era diretor, depois de alguns dias soube que ele propôs no conselho que eu fosse expulso, pois eu tinha feito um documento pedindo a exoneração de uma professora, todos os alunos retiraram as assinaturas, eu por ser coerente mantive a minha e quase fui expulso, até hoje quando vejo livros desse pastor ou o vejo na televisão pregando tenho que me policiar para não ser tão intolerante, pois tenho que acreditar que até alguém que agiu como um hipócrita, como ele agiu, pode corrigir-se.

Às vezes quando dava aula nos seminário e demonstrava meu barthianismo quando dizia que a Bíblia se tornava a Palavra de Deus e questionava os muitos mitos bíblicos e as muitas sagas, eu acabava entrando para as listas de oração dos alunos “piedosos” que intercediam por minha salvação. Fui professor de história da Igreja e de Israel, procurava aguçar mais a mente dos alunos do que repassar lições prontas, mas não era essa a moda e eu me dava mal por isso.

Quase fui expulso de uma sala de aula numa pós-graduação, num seminário que meus outrora amigos fundamentalistas chamavam de modernista, apenas pelo fato de ventilar a hipótese que Moisés poderia não ter escrito o Pentateuco todo, achei que teria que passar por um Auto de Fé.

Um dia, quando todas as portas se fecharam, quando eu não via caminhos eclesiásticos que pudessem ser os meus caminhos, fui em direção ao anglicanismo, cheio de ritos e de tradições que eu antes considerava sem sentido e anacrônicos, no mínimo deveriam ter sido abolidos na Reforma, cria eu.

Mas pude receber amor, compreensão e me sentir de fato acolhido. Ser diferente ali era a regra e não a exceção, lógico que sempre aparece alguém para estragar a harmonia, mas o ideal de tolerância já plantado sobrevive, creio que por ser um dos sinais do estabelecimento do Reino de Deus. Às vezes eu parava para pensar e via que eu era tão normal comparado com aqueles irmãos, que não consegui imaginar a causa de ter sido repudiado pelos conservadores, de uma coisa eu sei: a comunidade, mais parecida com a caverna de Adulão, aprendeu a viver os ensinamentos de Jesus: - Vinde a mim, todo os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei.

Num fim de ano qualquer, numa celebração do Advento, estava eu com uma comunidade de católicos ao lado de um padre malgaxe celebrando o nascimento de Jesus entre irmãos, uma moça, membro daquela comunidade católica, fez uma Proclamação do Evangelho cantada, até hoje eu ouço a ressonância daqueles versos bíblicos cantados por ela, talvez seja o que Philip Yancey, outro fundamentalista resgatado, chama de “rumores do outro mundo”.

Continuo calvinista, protestante e amilenista, só que um pouco mais do que era, só para citar alguns dos meus rótulos, mas aprendi que o Reino de Deus se estabelece quando pessoas com opiniões diferentes e com histórias de vida tão dispares se encontram e celebram o Ágape no amor incondicional de Abba.

Confissões de um ex-pastor(VIII)

Aqui vai mais uma confissão, talvez a mais difícil de fazer e a que pode me trazer mais problemas, pois se não for corretamente compreendida poderei sofrer mais críticas do que deveria: Não gosto do Natal!

De antemão vou fazer logo uma advertência para que não haja mal-entendidos: Não sou como alguns fundamentalistas modernos que dizem ser o Natal uma festa que nasceu do paganismo romano do Sol Invicto, por isso a mesma não deve ser comemorada, não pelo contrário, creio que deve ser comemorada sim. Sei da origem da festa e sei dos motivos que levaram a igreja em busca de sobrevivência a fixar a data do aniversário de Jesus em 25 de dezembro, mas isso não ofusca a verdade que o nascimento do Rei do Universo deve ser celebrado, se em dezembro como os cristãos ocidentais o fazem, se em janeiro como celebram os orientais ou se em fevereiro como querem outros, não importa, contanto que seja celebrado e repassado às novas gerações.

Para mim basta apenas ver os comerciais na televisão, com aquelas músicas melodiosas e aqueles atores com “cara de Natal” e a decoração luminosa e avermelhada das lojas para que tudo comece de novo, o mesmo sentimento de tristeza profundo, parafraseando Mackenzie (Vide A Cabana de Wiliam Young. Ed. Thomas Nelson) diria que neste período a “Grande Tristeza” se apossa de mim, não me sinto bem quando ele se aproxima, sou tomado de uma estranha melancolia, de uma tristeza profunda, fico inexplicavelmente depressivo. Até mesmo Mister Bean, consegue me deprimir com um quadro em que celebra o Natal.

Um dia estava em Brasília fazendo um treinamento na empresa que trabalhava. O hotel que estava hospedado ficava ao lado de um dos maiores shoppings da capital federal, eu jantava lá todas as noites, fui como sempre fazia, mas ao adentrar o recinto, aquela música triste e uma enorme, não era grande, era enorme, árvore de Natal com mais de 20 metros de altura me causou um impacto tão grande que voltei para o hotel para não chorar, além do clima, eu estava só e longe de casa, combinação perfeita para uma depressão prolongada.

Mas não é apenas ojeriza à paganização comercial do Natal não! Sinto resistência até mesmo a certos ritos eclesiásticos na tradição litúrgica, que no geral me é apaixonante. Não consigo ver o Círio da Coroa do Advento sendo aceso que já fico com vontade de chorar. Os cânticos de Natal que me emocionavam na infância hoje me fazem ficar triste, não consigo mais ouvir: “Ah um anjo proclamou o primeiro Natal...” e “Noite de Paz, noite de amor...”. “Jingle Bells” nem pensar! E ainda tem a “santa hipocrisia” que toma conta de todo mundo, que alguns chamam de “Espírito do Natal”, eu pelo menos acho que é uma forma de justificar a súbita mudança de relacionamento entre as pessoas que mal se falam ou que se odeiam, para que no outro dia, tudo volte a ser como era, não há transformação, apenas uma pausa, algo como a “Paz de Deus” para calar a consciência e deixar-nos com o sentimento do dever cumprido. E para meu espanto, isso é estimulado pela mídia, pela sociedade e até mesmo pela igreja.

Não quero parecer um iconoclasta fanático iniciando uma batalha quixotesca, mas eu também não gosto de Papai Noel, acho que é uma metáfora capitalista, e como tudo que gira em torno do comércio é uma metáfora excludente, pois quantas crianças que acreditam neste “bom” velhinho nunca receberam e nunca receberão presente algum? Ficava pensando que se Papai Noel dependesse de uma chaminé para entrar na minha casa, ele passaria o resto da eternidade lá fora, não só na minha casa como em milhões de residências no hemisfério sul, mormente nos países tropicais onde as casas não são providas de lareira, lá em casa só tinha fogão à lenha e se ele tentasse entrar por lá decerto que se daria muito mal. Mas em compensação ele não teria frio, pois no sertão paraibano, onde nasci, que eu saiba nunca nevou, pelo menos ainda não. Acho que trenó e renas não seriam adequados neste contexto, carroças e jumentos se adequariam melhor, a roupa vermelha e branca e aquela longa barba que moldura uma tez rósea também não seria bem vindas, um belo chapéu de couro e um gibão num velho com a pele queimada seria um personagem mais aceitável, mais real. Agora imagine como deveria ser o Papai Noel da África! Acho que essa metáfora do Papai Noel caucasiano é para o norte frio, capitalista e de religiosidade vaga e descomprometida com muito de paganismo misturado. E ainda tem o quesito insegurança, quem não chamaria a polícia se acordasse com alguém na sala com um saco nas costas? Pode ter certeza que na minha casa ele levaria umas boas “cabadas” de vassoura antes de dizer quem era.

A perda da crença em Papai Noel se deu logo muito cedo, não tanto por questões de fé, mas sim porque meus pais nunca acertavam o meu pedido ao velhinho, era sempre o presente errado. Prometi a mim mesmo que se um dia fosse pai eu nunca permitiria que meus filhos pensassem que um velho qualquer lhes deu presente, e sim que eu mesmo trabalhei e com meu esforço comprei algo para comemorarmos o nascimento de Jesus. Fui muito criticado por isso, diziam que eu tolhia a imaginação de minha filha, mas nunca valorizei muito esta crítica, pois não só contava estórias de ficção e de contos de fadas para ela, como a abasteci de filmes e livros dos mesmos gêneros que alimentaram bastante a sua profícua e fértil mente.

E ainda tinha mais um problema: eu não podia ser considerado pelos parâmetros sociais como um “bom garoto”, então não adiantaria mesmo esperar por Papai Noel, melhor seria que ele não existisse mesmo. A minha tendência de não se adequar, de ser inquieto, ou de ser, como diziam meus familiares, “impulsivo” não me colocava no topo da lista do Papai Noel, sequer na lista eu figurava. Mas não era tão traquino assim, apenas gostava de tocar fogo em algumas coisas, ou desaparecer em solitárias e longas caminhadas em que fantasiava divertidas aventuras, ou me escondia para ler, coisas básicas que um garoto sadio fazia, nada comparado com os garotos entediados e gordos de hoje na frente de um videogame.

Também não gosto de Árvore de Natal, um lindo pinheiro verde, com neve caindo em cima não é uma figura real para quem nasceu num sitio no sertão paraibano, acostumado com Algaroba e Avelós e quem nem sabia o que era neve, a única coisa que tinha ouvido falar foi que um dia “choveu pedras” na sua cidade há muito tempo, uma alusão à chuva de granizos por alguma mudança climática que não se repetiu. Certa vez vi numa igreja uma árvore ressequida, sem folhas, tentando parecer uma árvore de Natal contextualizada, poderia até ter conseguido, se não fossem os “capuchos” de algodão sobre a mesma querendo parecer neve.

Não consigo aceitar estas duas figuras dentro de uma igreja, acho que desvirtuam, desfocam e encobrem o verdadeiro sentido da festa. Concordo que num shopping elas caem bem para o que o comércio se propõe, mas numa igreja?

Mas nem sempre o Natal significou tristeza para mim, nem sempre foi assim, lembro-me com nostalgia de minha mãe arrumando a casa, pintávamos a casa toda por volta de novembro e às vezes no começo de dezembro, o cheiro da tinta de látex até hoje me lembra as festas natalinas. A árvore sendo arrumada na sala, as cortinas novas, o long-play tocando na radiola as músicas da ocasião, o cheiro do galeto ou do peru sendo assado, o champanhe, uma das duas ocasiões em que tomávamos um drinque, a outra era o réveillon, e a roupa nova para irmos à igreja para o culto de Natal, onde receberíamos presentes e encenaríamos alguma peça ou mesmo cantaríamos no coro infantil. Os preparativos que antecediam as festividades já preparavam meu espírito para o grande dia, os ensaios na igreja, a arrumação e pintura da mesma, tudo levava a crer que aquele seria “o Natal”.

Procuro avaliar o passado e não encontro nada que possa explicar o fato de não gostar mais do Natal, não encontro o ano em que isso mudou, não encontro o motivo. Talvez estes dois fatos ajudem a explicar o que considero inexplicável, talvez:

Uma vez fui convidado junto com outros garotos a participar das peças de Natal, ponto alto na programação da nossa igreja, os garotos mais altos foram colocados para serem os Reis Magos, eu e outros dois, inclusive um dos filhos do pastor da igreja, por sermos menores fomos chamados para sermos pastores de ovelhas, é lógico que eu não iria, meu irmão era rei e eu lá iria ser apenas pastor? Foi uma dificuldade para nos convencerem a atuar, e só os fizemos com o aumento do nosso cachê, ou melhor, do nosso status, passamos a ser “reis gordos”, pelo menos foi isso o que nos disseram e eu como não sabia que não existia essa classe no nascimento de Jesus, aceitei de bom grado a mentira “pia” que me contaram.

Num outro Natal muito distante ganhei um presente na igreja, um carrinho de brinquedo, não muito diferente da maioria, mas pouco importava, pois não existiam ainda os brinquedos eletrônicos que nem fascinam mais as crianças entediadas de hoje.

Só me lembro que no trajeto para casa, após o culto de Natal, tinha que atravessar uma ponte de madeira sobre um córrego, ela não tinha proteção lateral. Não sei se foi o vento, ou minhas pernas que tropeçaram, lembro apenas do brinquedo caindo na água. Era noite e nem sequer dava para tentar resgatar o presente que nem tempo tivera de senti-lo meu. Pode parecer trágico ou mesmo cômico, mas quando li o conto de Flannery O’Connor sobre Ruller e o peru, me identifiquei imediatamente com o mesmo, acho que eu era um Ruller paraibano, tão inadequado quanto ele. Se eu tivesse conhecido esse conto antes!

Foi o Natal mais curto de minha vida, talvez tenha sido o último.

Contos V - Ônibus

Quando acordou estava escuro e fazia muito frio, não saberia dizer que horas eram, não que isso fizesse qualquer diferença para ele, mas como não tinha ouvido o galo cantar, sabia que ainda não eram cinco horas da manhã, era sempre o primeiro a despertar. Fez como fazia todos os dias: levantou-se, foi ate à cozinha, pegou o copo de alumínio preferido, colocou várias colheres de açúcar, mais colheres do que deveria, mas era assim que gostava das coisas: todas muito doces.

A porta da cozinha era composta de dois módulos, um superior e um inferior, ou como se dizia na sua terra: “a banda de cima e a banda de baixo”, alguém, ele não sabia quem, havia descoberto uma forma de abrir o módulo de baixo sem abrir o de cima, algo que não era comum, para sair então tinham que se abaixar, ele não precisava se abaixar tanto, afinal só tinha três anos.

Seguiu com seu irmão, dois anos mais velho, e com as suas irmãs, quatro e cinco anos mais velhas, os únicos barulhos que ouviam além do vento sibilante era o coaxar das rãs e o crocitar dos grilos, ao longe se ouviam os mugidos das vacas sendo retiradas do pasto, protestavam pela intromissão tão cedo em seu merecido descanso, e o balido de algumas ovelhas sendo perseguidas pelos cães pastores que guardavam o sítio e os latidos destes. Ainda estava escuro, mas conheciam bem o caminho, bem até demais.

O cheiro do capim molhado pelo orvalho que havia caído, o cheiro do esterco das vacas revolvido pelas próprias patas, o cheiro das ovelhas que começavam a acordar, o cheiro das cabras com seus chocalhos tão peculiares, o cheiro inconfundível das folhas molhadas do pé de Algaroba na frente da casa, o cheiro das galinhas que catavam comida no quintal eram-lhe familiares, mesmo de olhos fechados conseguiria se locomover nesta Babel de odores. Nem sequer ouviam o galo cantar, ou era cedo demais ou ele havia perdido a hora.

Dirigiam-se ao curral, lá o pai estava preparando as vacas para a ordenha, eles tinham o privilégio de tomar leite quente, antes mesmo até que os bezerros, depois largariam os copos por cima dos reservatórios de água do gado e procurariam algum lugar quentinho para dormir, às vezes em cima do feno destinado ao gado era que o alvorecer os encontrava, dormiriam até que o pai terminasse a ordenha e os acordasse mandando-os para casa, teriam que tomar o desjejum e estariam então liberados para brincar o resto da manhã. Depois de separar o leite que deveria ser vendido o pai iria transformar alguns litros em queijo, o mais delicioso queijo da região, que era tomado com o café que eles mesmos torrariam e moeriam no quintal de casa, nada de gôndolas de supermercado, nada de enlatados, bastava estender a mão e pegar aquilo que quisessem comer, dava um pouco de trabalho para fazer, mas ficava muito mais gostoso.

Não sentiam dificuldades em acordar cedo, pois dormiam muito cedo, não tinham televisão em casa para distraí-los, só havia uma na cidade toda, e que ele se lembre, nunca tinha visto uma imagem sequer na TV, pois esta estava sempre “chiando”, quando perguntavam a causa da TV chiar muito e ter muito chuvisco, recebiam como resposta: - Tá chovendo no Recife! Depois que foram morar no Recife descobriu que isso era uma mentira deslavada, pois quando chovia, a imagem da TV continuava limpa, e quando a imagem estava com chuvisco, não chovia, uma coisa não tinha ligação com a outra, dessa forma descobriu que os adultos não queriam que ele mentisse, mas mentiam e enganavam com facilidade. A única coisa que faziam após a janta era ouvir as estórias que seu pai contava, às vezes contava a mesma mais de uma vez na semana, porém com uma perspectiva completamente diferente, era um grande contador de estória, ele dava sempre uma nuance sua, mas ainda assim era um grande contador de estórias, ainda que analfabeto.

Um dia eles resolveram se embrenhar dentro do sítio em que moravam, faziam isso duas ou três vezes por semana, mas planejavam como se fosse a primeira vez, e acabava sendo mesmo, pois era sempre uma aventura nova. Após o café da manhã cada um pegou aquilo que achava necessário e lá foram eles em busca de aventuras, ainda que se resumissem a pegar formigas com o ventre intumescido, que dariam ótimas iguarias depois de assadas, ainda assim eram aventuras. Muito embora já tivessem vivido outras “grandes” aventuras como no dia em que os ciganos estiveram no sítio, ou como naquele dia em que uma terrível Salamandra quase o pegou e outras tantas reais ou fantasiosas. Pegou sua sandália nova, colocou nos pés e vestido apenas com um calção e com uma vareta na mão sentiu-se pronto para desbravar as “florestas intransponíveis e virgens na redondeza de sua casa”.

Foram na direção contrária à porteira principal, na qual estava escrito “Sítio do Limão”, até hoje ele se pergunta a razão do nome, pelo que lembre nunca viu um pé de limão sequer, que os conduziria aos fundos do sítio, onde existia um pomar.

Seguiram margeando a cerca lateral do curral, já estavam quase na porteira secundária, que não era muito usada, quando de repente, não se sabe de onde saiu, veio uma coisa enorme e barulhenta em direção à porteira, eles que estavam quase encostados nela foram tomados de um terror indizível, pois achavam que aquilo iria pegá-los, não saberiam nem dizer o que era, se fossem crianças da cidade provavelmente diriam que era um disco voador, a única reação previsível e indicada àquela situação era correr, correr sem olhar para trás, correr em desabalada carreira para a Casa Grande, local em que estariam seguros do terrível monstro.

Viraram-se e como um quarteto que passou a vida toda ensaiando começaram a correr dentro das possibilidades de cada um, como era o menor e tinha as pernas mais curtas, que não eram muito acostumadas a este tipo de exercícios, ficou logo para trás, além de ser pequeno, ainda tinha uma sandália nos pés que atrapalhava a sua desenvoltura, com medo e assustado correu o mais que pôde, correu tanto que perdeu a sandália dentro do mato, nunca mais a achou, nem sequer olhava para trás, se tivesse olhado talvez tivesse visto que o “monstro mecanizado” era um ônibus que havia aproveitado o recuo da porteira para fazer a volta e que já tinha ido embora, sem nem se dar conta que quatro matutinhos tinham corrido a não mais poder fugindo dele ou como diriam os seus conterrâneos: - Correram até a percata bater na bunda!

Alguns anos depois seu pai foi trabalhar na empresa do mesmo ônibus da aventura e ele, que já tinha perdido o medo, entrava nos veículos e fingia ser o motorista dirigindo-os. Depois de muitos anos a empresa de ônibus foi comprada por outra empresa de ônibus que também era transportadora, e ele já adulto foi coordenador desta transportadora, quando entrava num ônibus para fazer alguma vistoria ou mesmo para deslocar-se pelo pátio da empresa lembrava-se rindo do medo que um dia teve de um veículo como aquele em que ele estava, mas nesta época já não brincava mais de motorista e nem corria com medo do ônibus quando o via, mas também não tinha mais o pai para contar-lhe estórias e dar-lhe todas as manhãs um copo de leite bem doce.

Contos IV - A fuga II

A tarde já estava terminando, não se lembrava de nenhum crepúsculo como aquele, sem estar em casa, de banho tomado à espera do jantar e acompanhado de alguém, essas coisas no momento estavam muito longe de se tornarem reais para ele, pois estava só, faminto e muito cansado, o calor no ônibus era sufocante, não conseguiu manter-se alerta, pegou no sono, dormiu boa parte do trajeto, trajeto esse que ele não sabia qual era. Foi acordado pela trocadora que lhe indagou para onde ele ia, como não soube inventar uma mentira convincente, levantou suspeita, falou que tinha batido a cabeça no ferro do ônibus e que estava confuso, isso preocupou mais ainda os passageiros e o motorista que decidiu levá-lo para uma delegacia, não tinha jeito de menino de rua, além de fardado levava livros.

A idéia de ter que tratar com policiais numa delegacia o deixou nervoso, mas era muito tarde para recuar ou mesmo para continuar fugindo. Rendeu-se. Quando chegaram à delegacia, foi entregue pelo motorista aos policiais com a informação que ele estava perdido, não sabia onde morava e nem, obviamente, sabia voltar para casa. Anotou isto na memória, ele não era um garoto em fuga, era um garoto que saiu da escola para ir ao trabalho do pai e se perdeu, isso faria toda a diferença no futuro.

Era a primeira vez que entrava num distrito policial, só tinha visto um por dentro nos filmes e em alguns programas da televisão. Sabia que a partir daquele momento levava vantagem sobre seus irmãos e alguns colegas, pois estava passando por experiência que eles nunca passaram e talvez nunca passassem, logo ele teria muitas histórias para contar e eles se roeriam de inveja de suas aventuras.

Os policiais foram educados, reza uma lenda que naqueles tempos eles eram humanos, perguntaram onde estudava, quem era seu pai e onde trabalhava, onde ele morava, nome da mãe, etc. enfim queriam encontrar qualquer informação que pudesse ajudá-los a encontrar seus pais. A única coisa que não lhe perguntaram foi se ele queria ser encontrado. Ele sabia que se admitisse que não sabia onde seu pai trabalhava e onde morava seria considerado pelos homens como um menino bobo, mas o medo da surra fez com que ele escolhesse parecer tolo, negou qualquer informação que pudesse ajudá-los, propositadamente.

Achou até engraçado que os policiais não conseguissem localizar a escola que ele estudava pelo emblema que trazia no bolso da camisa, afinal de contas era uma escola pública. Ele sabia o nome e o bairro, mas não disse, os policiais eram adultos e eles se quisessem que descobrissem, afinal de contas eram investigadores, porém se deu conta que eles não se pareciam em nada com Baretta ou mesmo Kojak, e a diferença maior não era apenas a aparência exótica e sim a sagacidade, ou melhor, a falta dela.

Como não havia conselho tutelar e nem abrigo, foi conduzido pelo responsável pelo plantão para sua própria casa, para ele era o delegado, lá conheceu a mulher do policial, seus filhos e filhas. Foi muito bem tratado, tomou banho, deram-lhe uma roupa limpa, colocaram comida para ele. Depois ainda teve tempo de assistir a programas de televisão junto com os filhos da casa.

Depois de algum tempo a mulher conduziu todos para o quarto, deram-lhe uma cama e cobertor. Quando deitou ficou imaginando que talvez ficasse morando ali mesmo, com aqueles meninos e meninas como seus irmãos, não sabia dizer se gostaria disso, ainda não tivera tempo de pensar sobre o assunto. Pegou no sono, suas preocupações não o impediram de dormir, estava muito cansado e o dia tinha sido muito longo, o mais longo que já tivera até então.

Foi acordado pela dona da casa por volta da madrugada, ouviu vozes na porta da casa, eram algumas pessoas que queriam vê-lo, eram parentes de uma criança desaparecida e talvez essa criança fosse ele. Ao chegar à porta deu de cara com seu pai, que em lágrimas gritou de alegria ao vê-lo bem e sem nenhum machucado. Abraçaram-se durante muito tempo enquanto seu pai, que tinha pouco mais de 37 anos, chorava como criança.

Após o reconhecimento o colocaram no carro de um vizinho e ele foi espremido no banco de trás entre seu pai ainda em prantos e alguns parentes e amigos dele. Contou a mesma mentira que contara na delegacia, tinha saído de casa com a intenção de fazer uma surpresa ao seu pai indo para o trabalho dele, o alívio de tê-lo encontrado foi tão grande que ninguém lhe perguntou como esperava fazer surpresa ao pai se este estava dormindo em casa quando ele saiu da escola.

Quando o veículo começou a subir a ladeira que conduzia ao seu bairro, os homens que estavam levando-o colocaram revólveres para fora e começaram a atirar, disparavam para o alto, acordando aqueles que porventura tivessem adormecido e gritavam a plenos pulmões: - Nós achamos o menino, nós achamos o menino!

Quando o veículo parou na porta de sua casa sua mãe, irmãos e outros parentes correram para abraçá-lo, ele nunca tinha visto tanta gente reunida por sua casa. Contaram-lhe depois que no bairro ninguém dormiu naquela noite, alguns homens junto com seu pai tinham montado equipes de buscas e tinham descido as encostas da montanha armados e com lanternas em busca de alguma pista que pudesse levá-los a ele, as mulheres e as crianças sentavam ou deitavam nas calçadas com cobertores e tomando café, não queriam dormir, não enquanto ele não fosse achado. Foram às rádios, às estações de televisão e às delegacias, numa delas por influência do filho do patrão de seu pai souberam que numa delegacia no município vizinho tinha um garoto que correspondia à descrição dada. Não demoraram então a encontrá-lo, ele passou desaparecido por cerca de 12 horas, 12 angustiantes horas para seus pais.

Com esta aventura recebeu a alcunha dos vizinhos de “Perdido no espaço”, em referência a um programa de televisão exibido à época. Detestava o apelido, talvez o maior castigo pela aventura tão funesta.

O que mais chamou à atenção de seus irmãos foi que na manhã seguinte, ainda com o efeito da aventura vivida e do fato de ter se tornado celebridade da noite para o dia ainda teve tempo de perguntar-lhes: - Vocês viram àquele programa de humor ontem? Consideraram uma piada de mau gosto.

Ao final todos se salvaram, inclusive a surra prometida, motivo da fuga, nunca foi dada. A sua empreitada planejada, executada e abortada por força maior alcançou o objetivo inicial: não levar uma surra.

Ilusão

Um dia qualquer eu andava à esmo pelo centro da cidade quando de repente vi Rubem Fonseca (pelo menos eu até hoje acho que era ele) atrás de uma vidraça folheando um livro que eu podia jurar que era de Susan Sontag, mas bem podia ser de Philip Roth, como sou avesso à tietagem fiquei meio ressabiado em abordá-lo, mas acabei entrando só para vê-lo de perto, sem querer incomodá-lo, na verdade eu queria ver o que ele estava lendo. Para minha surpresa à porta junto ao Paulo Coelho estava José Saramago, não sei se os dois estavam se entendendo, pois apesar de falarem a mesma língua, habitam universos paradoxais. Pasmei! Encontrar um autor já era demais, encontrar três só poderia ser sonho. Eu sabia que não estava sonhando. Procurei o Rubem Fonseca, mas já não conseguia mais vê-lo, havia muita gente e muitos cercavam Coelho e Saramago e eu nem sequer ousei abordá-los, o primeiro por não gostar de seus livros e o segundo por conta de algumas questões sobre Deus que eu acho que levaria horas ou dias discutindo com ele, não para tentar convencê-lo, esse não é um papel para mim, mas para poder entendê-lo, talvez assim eu entendesse a mim mesmo. Tentei afastar-me, tentei, por que esbarrei em Orhan Pamuk e fiquei estático. Não era para menos ele estava ao lado do caçador de pipas Khaled Hosseini e de William “Mackenzie” Young, o que diziam mexeu profundamente com minha alma, cheguei às lágrimas.

Para disfarçar fui para os fundos do salão e me dei conta que só poderia estar ficando doido, já que eu tinha certeza de que não estava sonhando, pois vi dois barbudos, com paletós antigos, aparência austera, conversando numa língua estranha, eram Tolstoi e Dostoiévski, e ainda tinha o Amós Oz escrevendo uma carta, logo ele que tem essa mania, mas faz isso de forma admirável. Pensei em fugir, mas o careca do Stephen Covey e o enorme G.K. Chesterton estavam barrando literalmente meu caminho, o segundo procurava convencer o primeiro dos efeitos positivos do café, parei para observar as suas obras e teria me demorado dias por ali se não tivesse ouvido André Rieu executando prodigiosamente Amazing Grace. Ia me desesperar quando vi a angelical Flannery O´Connor, que me trouxe lucidez, aí quando o maltrapilho de Abba Brennan Manning me envolveu com suas palavras eu me senti em casa. Dei-me conta então que estava numa livraria e vi que não estava doido, nunca estivera tão lúcido em toda minha vida. Vi ainda C.S. Lewis e Tolkien conversando no Café, cada um apontava as falhas na adaptação de suas obras para o cinema, Enya e Nana Mouskouri conversando com um sujeito com roupas estranhas e uma peruca bizarra, eu acho que era Bach, na área de CD´s e Rubem Alves aprontando com Ian McEwan na área infantil, ele já havia aprontado umas boas com João Calvino na área técnica, dei muitas risadas.

Sempre que quero boas companhias vou lá, me sento e me delicio com essas adoráveis figuras. Se é verdade que o céu é reflexo de nossas maiores aspirações, espero que o meu seja igual a uma livraria, ciumento e egoísta por livros do jeito que sou, é capaz de eu não deixar ninguém entrar nele, nem São Pedro.

Contos III - A fuga I

Abriu a porta, desceu os 16 degraus da escada, ele era capaz de fazer isso de olhos fechados, uma vez tentou subir, mas não deu muito certo, tomou um tombo que lhe trouxe péssimas recordações por muito tempo, cruzou o portão de madeira e o fechou atrás de si, dessa forma saiu de casa, não sentia saudades antecipadas e achava que não sentiria nunca, não tinha naquela época nenhum cão de estimação, por isso que não teve que despedir-se de ninguém, nem de algo. Só estavam em casa os seus irmãos e seu pai dormindo, mas a estes ele não contaria de jeito nenhum o que iria fazer. Além da farda da escola, só levava a mochila nas costas com os livros e os cadernos, nada mais.

Estava indo para a escola, mas não estava indo apenas para escola, aquele dia seria marcado como o dia em que viveria a maior aventura de sua vida, até então. Naquele final de manhã já tinha tudo programado: quando as aulas terminassem por volta das 03 horas da tarde, não voltaria para casa, não voltaria nunca mais, tal decisão era algo pensado, já havia arquitetado isso semanas atrás. A gota d’água para tão drástica decisão é que ele corria o risco de levar naquele mesmo dia uma sova da mãe por conta de algumas atitudes que andava tomando na escola, e olha que quando a mãe prometia uma sova ela não esquecia e ainda aplicava a mesma com uma qualidade que faria Torquemada se roer de inveja. As tais atitudes, motivo da prometida sova, eram coisas como: conversar muito em sala de aula e discutir com alguns colegas por conta de suas idéias sonhadoras e talvez precoces, depois de alguns anos foi detectado que o mesmo tinha hiperatividade, mas naquele tempo isso era considerado “impulsividade” e a pecha que a família lhe colocou: “impulsivo”, era sinônimo de traquinas e treloso.

A escola era uma obrigação, não porque não gostasse de estudar, mas porque não mexia com a sua mente que era inquieta e abastecida com sonhos e projetos que ele tirava dos livros que devorava desde o primeiro dia em que começou a ler, gostava de aprender, mas o método que impunham não lhe atraía, ficava alheio e distraído. O assunto chato e a forma modorrenta da professora ensinar fritavam seus nervos. Ela competia com os contos de fadas e as centenas de aventuras que ele vivenciava todos os dias, e estes sempre levavam a melhor. Não tirava notas altas e isso preocupava a sua mãe, um dia, no futuro, detectaram que a sua capacidade de raciocínio era muito acima da média, mas nem por isso deixou de ser considerado, neste tempo, um aluno problema.

Ao toque da campainha, qual general que se dirige à frente do seu exército para ser o primeiro a combater o inimigo ou qual condenado que caminha inexoravelmente ao cadafalso, dirigiu-se à saída, com a certeza que nunca mais voltaria àquela escola. Só dariam por sua falta lá pelas quatro horas da tarde, hora em que a mãe voltaria do médico, o pai estaria dormindo ainda, pois tinha que trabalhar no turno da noite e só acordaria por volta das cinco horas.

Caminhando o mais rápido possível, para que não fosse visto por conhecidos ou parentes se dirigindo por caminhos que não levavam a sua casa, o mais rápido que as pernas de um menino de sete anos podem andar.

Desceu a enorme ladeira que conduzia ao bairro em que morava, este ficava no alto de uma montanha, as encostas eram cobertas por espessa vegetação, em algumas partes existia uma verdadeira floresta. Ao chegar à estrada de via expressa, tomou o primeiro caminho, sem um plano, sem um rumo. Os carros passavam velozes assustando-o, além da vegetação espessa ao lado da rodovia, não via viva’lma. Sentiu-se só e com medo, mas a sua determinação não o faria voltar atrás.

Um menino loiro, de 07 anos de idade, com uma farda escolar na década de 70, numa estrada de via expressa, é óbvio que chamaria à atenção. Passava um casal e uma senhora de idade de carro que lhe perguntaram para onde se dirigia. Teve a oportunidade de contar a primeira mentira naquele dia, a primeira de muitas que teria que contar durante aquela aventura. Disse que tinha que ir ao trabalho do pai e que este estava esperando por ele, perguntaram se queria carona, ele aceitou, primeiro porque sairia mais rápido daquele lugar, segundo porque não precisaria andar tanto. Lá foi ele naquele Fusca conversando distraidamente, tentando não parecer nervoso e aumentando o cabedal de mentiras para manter a primeira mentira.

Desceu quando a rodovia cruzava uma área urbana, onde passava um ônibus para o bairro em que seu pai trabalhava, o nome era muito sugestivo: Afogados, o mesmo bairro em que morara quando a família chegou do interior fugindo da seca, depois tiveram que fugir para a casa da planície por conta de enchentes, e agora estava ele em mais um êxodo, seria sempre assim? Sua intenção não era ir para o trabalho do seu pai.

Pegou qualquer ônibus, nem olhou o destino, mesmo que olhasse não adiantaria nada mesmo, pois não conhecia nenhuma rota de viagem. Sempre sentia enjôos nos ônibus, chegara várias vezes a vomitar. Torceu para que isso não acontecesse desta vez, pois estava por conta própria, não podia mostrar-se frágil e nem vulnerável. Estava tão nervoso que nem sequer sentiu vertigens, tanto melhor. O ônibus passou bem perto do local onde o seu pai trabalhava, por certo que ele ainda não estava lá, era muito cedo, deveria estar em casa, será que já acordara? Será que sua mãe já chegou? Será que já deram por sua falta? Não parou para pensar nas respostas e nos desdobramentos que elas trariam, concentrou-se em seu plano.

Ao chegar ao terminal no centro da cidade desceu e pegou o primeiro ônibus que estava parado, nem sabia para onde ia e nem queria saber, a sua idade lhe dava gratuidade em todos os ônibus, caso tivesse que pagar a passagem esta aventura teria outro final, bem mais abrupto. O único plano que tinha em sua mente era morar na beira da praia, local que lhe fascinava e para o qual tinha ido tão poucas vezes, não nos casarões e apartamentos, mas na areia mesmo, vivendo daquilo que as pessoas lhe dessem. Parece pueril, mas é pueril mesmo, ele só tinha 07 anos.

A praia lhe atraía e repelia com o mesmo fascínio, pois uma vez foi lançado pelas ondas na areia, o que lhe causou vergonha e alguns arranhões que doeram menos que o fato de parecer não se adequar. Lembrava que quando o pai prometia levá-los à praia, a avó materna sempre se intrometia e acabava convencendo-o a não sair de casa. Uma vez a desculpa que deram é que era feriado, logo a praia estaria fechada, acreditou, como sempre fazem as crianças, mas odiou a mentira quando descobriu a verdade, e isso lhe tirou um pouco da confiança nos adultos, até o dia em que lhe tiraram toda.

Contos II - Ler

Ele pegou um livro na cadeira que lhe servia de criado mudo, tinham mais de 20 em cima dela, todos ordenados de forma perfeccionista, alguns eram técnicos, outros eram de espiritualidade e outros ainda de liderança, cada um com um marcador, alguns com plástico envolvendo a capa, são os mais caros e aqueles que ele manuseia mais. Estava lendo todos de uma só vez, quando cansava de um, passava para outro, conseguia dessa forma ler mais de 10 livros por mês, às vezes lia mais de 120 livros por ano, ainda lembrava-se de uma época que ficou doente de bronquite e conseguiu ler mais de 300 livros em seis meses. Procurou os óculos de grossas lentes, sinal de astigmatismo avançado e miopia inclemente, colocou-os, olhou para o título do livro para certificar-se que estava pegando o livro certo e foi para o banheiro, passaria a próxima meia hora sentado, lendo, como fazia todos os dias. Leria pelo menos por uma hora antes de sair para o trabalho. Como morava razoavelmente perto, vinte minutos andando, levava sempre dois ou três livros, um deles seria lido durante a caminhada, conhecia de cor o caminho, não tinha medo de tropeçar e nem vergonha que o considerassem louco. No intervalo do almoço leria mais uma hora, não era bem compreendido pelos colegas de trabalho por isso, alguns costumavam distraí-lo na hora em que estava lendo, quando perguntou por que faziam isso, recebeu como resposta: - Não gosto de te ver estudando, me sinto ignorante. Ao que perguntou então: - Por que então não faz o mesmo? A resposta é sempre a mesma: - Porque tenho preguiça. Isso fez com que procurasse uma sala diminuta, onde a partir daquela data se trancaria lá dentro para ler até o término do intervalo. À noite após o jantar leria duas ou três horas, era assim que fazia desde que se lembrava, não sabia fazer diferente, tinha necessidade disso, tinha esse vício e não fazia nada para curá-lo. Mas nem sempre foi assim, ainda se lembrava como tudo começou cerca de 35 anos antes.

Foi como um cego ao ver a luz pela primeira vez após uma cirurgia de transplante de córnea, ou como um surdo ao ouvir o som de um pássaro apenas aos 10 anos de idade graças a um aparelho. O universo tomou outra cor quando descobriu que sabia ler, aconteceu assim mesmo, acordou um belo dia, escovou os dentes, tomou o seu cotidiano café com pão e procurou um local para ficar invisível, como também era de seu costume, deitou-se no chão de barriga para baixo, pegou o primeiro gibi de histórias em quadrinhos que veio à mão e sentiu-se o próprio Champollion, muito embora no momento nem idéia tivesse quem era esse sujeito, decifrando hieróglifos em manuscritos milenares, ainda que fossem apenas as patusqueladas de Donald e Tio Patinhas. Olhando assim parece que foi simples.

Foi só o começo, depois vieram os livros infantis, a Bíblia (três vezes a leu antes de completar 10 anos), os contos de bang-bang e os livros policiais que emprestava do marido da tia. Surgiu então o hábito, por necessidade pois não tinha dinheiro para comprar os que queria, de pedir livros e gibis emprestados, lia tanto, que mesmo na segunda ou terceira série, lia os livros dos irmãos que estavam quatro ou cinco anos mais adiantados que ele. Numas férias leu um livro escolar do irmão que continha mais de 200 resumos de livros de literatura brasileira, começou então um longo namoro com este tipo de livros, até encontrar numa biblioteca escolar literatura européia e americana, então conheceu A Ilha do Tesouro, Robinson Crusoé, O Médico e o Monstro, As Aventuras do Príncipe Eric, Os Três Mosqueteiros, A Cabana do Pai Tomás, Tarzan, etc. Tinha o hábito de pegar sempre um livro emprestado na biblioteca. No intervalo das aulas, antes mesmo de largar e depois que largava lia outro livro. Quando aparecia algum livro que chamava à atenção, às vezes roubava para poder ler em casa, sempre procurando devolver assim que terminasse de ler. Um dia chegou em casa mais tarde que de costume, pois a leitura o tinha feito viajar e não ter se dado conta da hora, quando disse à mãe que estava na escola lendo, ela não acreditou, tomou uma surra e ficou de castigo, mas não lamentou, a lembrança do que tinha lido enxugou suas lágrimas.

Porém além de não possuir livros, nunca ganhou nenhum livro do pai ou da mãe, talvez por isso quando adulto deixava de comprar roupas e até mesmo comida para poder adquirir livros, havia outro empecilho às leituras: sua mãe. Ela não gostava da sofreguidão e do ímpeto de náufrago socorrido que ele tinha, achava um exagero que ele ficasse lendo até tarde da noite, por isso proibiu sumariamente aquelas aventuras noturnas. Televisão, novela podia, ler demais não.

O teto da casa que morava era de telhas de barro, não era moda as casas terem o teto lajeado ainda, por isso o pai havia colocado telhas de vidro em lugares estratégicos da casa para que as luzes não precisassem ser acesas durante o dia, era uma forma de economizar energia, numa casa com 04 adolescentes isso era vital. Ele aproveitava então o reflexo que a lua incidia sobre a cama para poder ler, colocava um livro debaixo do travesseiro e na hora em que ia dormir, tão logo a mãe apagasse a luz da sala ou do quarto dela, ele tirava o livro e navegava num mar de emoções e aventuras até que uma nuvem encobrisse ou a réstia se alonjasse demais da cama. A escuridão nunca foi desculpa para que não lesse, metáfora para a vida toda, nada o faria dali em diante não ter um livro à mão. Mesmo que não tenha condições de ler, anda sempre com um livro.

Uma tarde deslocava-se com algumas pessoas para efetuar visitas a enfermos e outros desesperançados, levava à mão uma Bíblia, livro pelo qual tinha afeição especial, já era hábito ler andando, talvez pela leitura empolgante ou pelo caminho que não era de todo conhecido, ao descer uma ladeira não tão íngreme tropeçou nos próprios pés ou em alguma coisa e deu de cara com o chão, de cara só não, de pernas, de joelhos, de cotovelos e outras partes do corpo, foi um verdadeiro açougue, foi levantado todo arranhado, e a única coisa que o fazia lamentar-se foi que a sua amada Bíblia tinha se rasgado e perdido a capa, nem a vergonha o deixou triste. Uma metáfora que levou para o resto da vida: É preciso ler e olhar em volta, caso contrário a leitura pode ser um perigo.

Logo estaria usando grossas lentes, sinal de uma miopia crescente, mas com um misto de satisfação de saber que faria tudo outra vez, a sua infância não teve vídeos-game, nem brinquedos sofisticados, mas teve a companhias de reis, rainhas, magos, bruxos, feiticeiras, monstros, animais de todos os tipos, mocinhos, bandidos, escoteiros, marinheiros, etc. toda uma gama de seres que ainda se alojam em sua mente, levando-o a desejar ser apenas o sonhador que foi na infância que nem sempre sabia onde terminava a ficção e começava a vida real.

Mensagem para você, meu filho!

Não acho que esta música seja de teu gosto, um adolescente de 16 anos não deve gostar de músicas melancólicas, a não ser os “emos” e pelo que me consta você não é emo, mas mesmo estes não devem gostar dela, talvez a achem “brega”. Por isso peço licença para começar esta carta reproduzindo um verso composto por um grande cantor: Antônio Marcos, que era um gênio, mas também era um desajustado, um inconformado, provavelmente morreu infeliz e incompreendido:

"... Como vai você, eu queria saber da sua vida,
peço alguém pra me contar sobre os seus dias,
anoiteceu e eu preciso só saber..."

Essa música ele cantava com a alma, muito melhor que o insosso Roberto Carlos. Pena que você nunca o viu cantar, pena mesmo! Utilizo-me desta parte da música como uma forma de expressar o quanto eu sinto saudades de você. Há 16 anos ela tem sido o “hino” que eu canto em cada aniversário teu, o clamor de minha garganta em cada dia dos pais em que a tua ausência é tão presente e o grito inaudível de meu peito em cada dia das crianças. Sei que você nem se considera mais sequer adolescente e deve ser como todos os demais garotos de tua idade, como eu mesmo fui um dia, livre e independente, certamente que não desejaria presentes e nem aceitaria recebê-los hoje, afinal de contas hoje é apenas “Dia das Crianças”, por isso que para marcar esta data eu te escrevo esta mensagem, que há 200 anos estaria numa garrafa lançada ao mar, há 100 anos seria uma missiva entregue pelo carteiro à cavalo, há 10 anos seria um telegrama e hoje é “postada” num blog, mas todas expressariam, como esta, o amor incondicional de um pai que tem por sobrenome saudade. Há muito tempo que não paramos para conversar, já se passaram tantos anos desde a última vez.

A vida tem sido tão difícil, marcada por sonhos irrealizados e que nunca se realizarão e planos que foram lançados no mar do esquecimento para não lancetarem tanto, ela é tão corrida, ela passa tão rápido, ou deixamos que ela passe tão rápido, que eu chego a me perguntar se vale a pena viver oitenta anos em vinte.

Nem parece que sou pai de um adolescente com essa idade, ainda não me acostumei com a idéia. Tenho apenas a certeza do que é difícil educar filhos desta faixa etária hoje em dia, são tantos desafios, tantas dificuldades, que às vezes bate um desespero, tenho lido muito sobre o assunto, procuro me informar para poder enfrentar bem as situações que podem me sobrevir, além de você ainda tenho a Mysha (caso não saibas, Mysha é o epíteto de Jessicah Rhebeccah, tua irmã) com 14 anos, uma linda garota, no mais amplo sentido da palavra, tanto interiormente, quanto exteriormente. Inteligente, culta, sensível, escreve bem demais, tem centenas de contos que eu vivo pedindo que ela publique, mas ela sempre procrastina, digo, protela, prorroga, vocês dois são dois universos diferentes, cada um com seu mundo, cada um com suas “certezas”. Você precisa ver o que ela fala de si mesma, as lutas que tem e, olha que dá vontade de rir, as paranóias de que é feia, uma verdadeira Cinderela que se acha Gata Borralheira! Dá uma olhada de leve no blog que ela mantém e depois ver as fotos no perfil dela no Orkut. Vá entender as mulheres! Conselho de pai, não tente, é uma roubada, para cada coisa que elas disserem, diga apenas hum, hum! E balance a cabeça afirmativamente, isso vai fazer com que te considerem atencioso e você não se meterá em problemas.

Só agora que já tens capacidade de me entender e compreender de fato é que te escrevo esta, e um dos motivos é para dizer o quanto lamento não ter visto você dar os primeiros passos, eu não estava à tua frente com os braços abertos te dando a confiança que precisavas nesta fase tão importante de tua vida, eu também não limpei as feridas, que as muitas quedas e os muitos tombos te causaram. Não pude também te ensinar as primeiras palavras, como também não ouvi sequer quais foram as que você primeiro pronunciou. Nunca troquei uma fralda sequer tua, nunca me levantei à noite para te colocar no braço até que a dor ou o desconforto te deixasse dormir. Nunca arranquei nenhum dente teu e nunca te coloquei para dormir ninando-te me meus braços.

Lamento profundamente o fato de não ter te ensinado a andar de bicicleta, nem sei se sabes, se aprendeste de alguma forma, também não te ensinei a jogar bola, muito embora eu nem saiba muito, sempre fui meio desajeitado, parece que nem tenho coordenação motora, nem sei se seria capaz de fazer isso, mas com certeza correr contigo atrás de uma bola teria sido um prazer imenso para mim..

Não te ensinei a jogar pião, bola de gude e construir e empinar pipas, coisas que eu sei que os meninos de hoje nem sabem que um dia existiram, pensam que são peças de museu, mas também poderia jogar contigo no computador ou em qualquer videogame irado desses modernos.

Não pude te levar à escola, nem no primeiro dia e nem outro dia qualquer depois, não pude ver teus jogos, tuas competições esportivas, nunca pude ir à escola para comemorar o Dia dos Pais ao teu lado.

Nunca te levei ao Santuário Maior dos Rubro-negros de Recife, a majestosa Ilha do Retiro, covil do Leão do Norte, se bem que neste momento as coisas não andam muito boas por aquelas bandas não. Nunca assistimos a jogos do Sport e nem tomamos sorvetes juntos.

Nunca te levei à igreja, você nunca me viu pregando ou ensinando e nunca pudemos falar de Deus e de Jesus. Nunca pude ler histórias (e estórias também) para você, como fazia para a tua irmã quando ela era menor. Nunca pude te contar minhas aventuras, como o dia em fugi de casa ou o dia em que toquei fogo numa plantação, mas isso fica para outro dia, eu já estou correndo o risco de entrar numa digressão, e em outro lugar eu já escrevi sobre isso.

Não fiz nada disso não foi por estar ocupado, talvez se esse fosse o motivo eu estaria agora feliz, pelo menos poderia recuperar o tempo perdido, mas não fiz nada disso porque você foi embora muito antes que eu pudesse fazer algo, foi embora sem um sorriso, sem uma lágrima, sem um choro e até mesmo sem um adeus.

O dia 31 de agosto de 1993 ainda está marcado à ferro e fogo em minha alma, deixou marcas indeléveis, que, acredito eu, são eternas. Neste dia, ainda que eu tivesse 25 anos, para mim foi o dia em que perdi a noção do “mundo maravilhoso de Alice”. Onde tive que enfrentar todos os meus medos, todos de uma só vez, onde a sombra começou a pairar sobre minha vida e a “noite escura” da alma chegou de vez.

Neste dia você nasceu e floresceu, neste dia você definhou e morreu.

Você foi como um presente de Deus, chegou quando disseram que era impossível que você viesse, e foi embora quando eu achava impossível que fosse verdade. 16 longos anos imaginando como seria toda uma vida, como seria ter você e Mysha, juntos, curtindo a infância de cada um e vivenciado cada momento e cada vitória, e dividindo o peso de cada derrota que por acaso sobreviesse.

Senti-me só no dia em sepultei você, perdido, ainda que muita gente estivesse ao meu lado, uma dor profunda como eu nunca havia sentido, como nunca senti depois, porém a dor nunca mais foi embora, resisti por muito tempo, depois me acostumei, caso ela vá embora eu creio que sentirei muita falta. Não é que ela virou amiga, apenas não sei como é existir sem ela.

Alguns anos depois senti a mesma solidão, o mesmo sentimento de desamparo e abandono à beira da sepultura do meu pai, você já o deve ter conhecido, é claro! Não sabes o quanto eu sonhei com vocês dois juntos, tenho certeza que ele te colocaria nas costas e te deixaria fazer cavalinho nele, seria um problema para mim, pois ele como um bom avô iria te colocar no mau caminho, como o pai de minha mãe me colocou. A dor que eu senti foi diferente, a dor que senti quando me despedi de você foi uma dor não natural, nenhum pai deveria enterrar um filho, nenhum pai!

A saudade dói, mas a saudade que sinto pode ser, parafraseando um escritor americano, um “rumor da outra vida” que um dia teremos juntos, quando nos reencontrarmos, então a tua presença e a presença eterna da Luz Divina preencherão todos os vazios que porventura ainda existam. Sobre os vazios que só Abba pode preencher, um santo do passado um dia disse: "Fizeste-nos para Ti, e inquieto estará o nosso coração enquanto não encontrar em Ti descanso". Você já deve tê-lo conhecido, é um cara esquisito que gostava de roubar pêras, por nome Santo Agostinho. Sei que já experimentas essa plenitude, sabes bem do que estou falando, muito melhor do que eu.

E então sentaremos na beira de um rio, pescaremos, andaremos e conversaremos, colocaremos os assuntos em dia. Mas neste dia, já não terei mais lágrimas para derramar, pois elas serão enxugadas por Abba, a saudade vai desaparecer e só alegria do reencontro dominará nossos corações. E aí esperaremos aqueles que virão depois de nós e então “estaremos juntos para sempre com o Senhor”.

Até breve Ulrich, até breve garoto, dê lembranças ao teu avô, diga-lhe que sinto muito a sua falta, até breve meu filho.
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