A Glória se foi!


Na Bíblia existem alguns textos que são atemorizantes, mormente no Primeiro Testamento, dentre estes eu citaria 1º Samuel 4.21, sempre me aproximei deste texto, bem como de seu contexto, com um misto de temor e reverência, nele está registrado que: “... Ela deu ao menino o nome de Icabode, e disse: “A glória se foi de Israel”, porque a arca foi tomada e por causa da morte do sogro e do marido”.

Sempre que o leio, faço uma pausa silenciosa para marcar a gravidade dos fatos e não deixar que a essência do que foi lido se perca no ar, para que a superficialidade da leitura não me faça tratar esse acontecimento com banalidade ou futilidade. O texto é grave, assustador e não é uma ideia minha, mas sim o próprio Deus quem pensa assim, basta continuar lendo os acontecimentos seguintes para que se chegue a essa conclusão com facilidade. Tem muita coisa acontecendo aqui e que não podem ser relegadas à meras notas de rodapé. 

Sempre me indaguei, e nos últimos anos com mais ênfase e frequência, onde foi que perdemos o medo por tal coisa? Onde foi que sepultamos o temor e a reverência? Onde foi que escondemos o terror que deveríamos sentir ao saber que podemos perder a presença da Glória de Deus em nosso meio?

Alguns poderão me dizer que nunca perderemos essa Presença Divina, já que o Espírito Santo nos foi enviado até à Segunda Vinda de Jesus! Digam isso para os piedosos Pais da Igreja que abandonaram as cidades e foram para o deserto (Gr. êremós, de onde origina o termo ermitão no nosso vernáculo) em busca dessa Presença Divina que não encontravam mais dentro da Igreja, digam isso para os piedosos medievais que ansiaram por um avivamento genuíno na Igreja, que atravessaram uma Era das Trevas, na terminologia do historiador da Igreja Justo Gonzalez, acreditando que um dia a Igreja seria restaurada e que viveram, e morreram, lutando por isso. 

31 de Dezembro, estava numa igreja qualquer, num bairro qualquer, numa cidade qualquer, num estado qualquer, não interessa a denominação, nem localização, isso é tão sintomático em nosso meio que tais identificações só serviriam para nos ajudar a transferir o fato para outrem, sem o ato digno de uma auto-avaliação que permitisse uma retomada de rumo. O culto estava maçante, havia começado às 20h00 e deveria se estender até às 0h00, mais de 1.000 pessoas dentro do templo, conversando e deixando o tempo passar e outro tanto lá fora alheio a tudo o que estava acontecendo dentro da nave, envolvidos por qualquer coisa, menos pela consciência da Presença de Deus. 

Em determinada hora, quando eu achava que não poderia haver mais agressões à liturgia, ao bom senso e aos ensinamentos da Sagradas Escrituras, eis que o pastor presidente daquela igreja vai ao púlpito e convida a prefeita da cidade, a mãe, que outrora foi prefeita, e o pai, que sempre serviu como secretário da esposa e era conselheiro da filha, para que tomassem assento na tribuna de honra, quase no presbitério, eu me cocei no banco, ameacei me levantar e ir embora, mas por educação com quem tinha me convidado, fiquei sentado, calado, mas não menos indignado por isso. 

Eu até achei que não ia chegar a tanto, mas quando aquele pastor entregou o microfone para que a prefeita desse uma “saudação” à igreja, eu não me contive, me levantei e fui respirar o ar puro de fora da nave, era muito para o meu estômago. E para piorar, pois é isso ainda era possível, um dos membros da igreja que é vereador, da base aliada da prefeita, foi buscar água numa bandeja para servir à família da prefeita. Nada demais que faça isso, desde que servisse às outras 500 pessoas dentro da igreja que estavam sedentas! 

Eu, e pelo menos metade das pessoas que estávamos ali, as demais estavam mais interessadas em mostrar a roupa nova e os penteados, a julgar pela forma como desfilavam dentro do átrio, queríamos ouvir da voz de Deus, queríamos entender a Sua vontade para nós no ano que iria iniciar, mas o que ouvimos foi um discurso politico num ano eleitoral. Imagine o que ainda será feito durante este ano, quantos “Aleluias” não serão ouvidos nos átrios das igrejas, exclamados por políticos, que só visam a glória pessoal, enganando os membros das igrejas, que não são mais tão inocentes assim. 

Depois eu soube que esta igreja conseguiu um grande terreno para construir uma das maiores naves de igreja do país, a maior do estado, uma mega estrutura, e que a família da prefeita era dizimista e estava ajudando na construção do templo e com a distribuição de empregos para membros daquela igreja. 

Eu me perguntei naquela noite, é esse o preço da Glória de Deus? Ter o privilégio de ter autoridades nos cultos festivos, receber dízimos “gordos”, membros da igreja com cargos comissionados nas secretarias da prefeitura? Por que nos contentamos com tão pouco? Por que trocamos a Glória de Deus por elogios e louvor dos homens? 

Cada vez mais eu me convenço de que tem algo errado, cada vez mais eu me convenço de que um cristianismo profético, que tem que ser exercido, não é o que é banalizado em nosso meio, mas sim o conceito Bíblico do termo: denúncia dos descaminhos do povo de Deus e um convite à retomar o caminho que esteja dentro da vontade de Deus. 

Que moeda falsa, ouro de tolo! Enquanto isso, a Glória se foi, e não vemos, com desespero e tristeza, nenhuma evidência que a mesma vá voltar, não enquanto agirmos assim.

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