Desde 7 de outubro de 2023, a Faixa de Gaza tornou-se o palco de uma devastação sistemática que, aos olhos de inúmeros juristas, agências da ONU e organizações de direitos humanos, adquiriu contornos de genocídio. Mais de 67 mil palestinos foram mortos, cerca de 170 mil feridos e aproximadamente 80% das habitações foram destruídas ou severamente danificadas. Enquanto as bombas caem e a fome se instala, o mundo assiste, e, em grande medida, permanece em silêncio. Esta reflexão analisa o paradoxo do “estranho cruzar dos braços da humanidade”: como é possível que, na era da informação instantânea e da transmissão ao vivo do sofrimento, a comunidade internacional tenha reagido com uma passividade que muitos já classificam de cumplicidade ativa. O silêncio incômodo que cerca a destruição de Gaza não é um acaso histórico, mas o resultado de decisões políticas deliberadas, de uma arquitetura de poder que protege certos Estados da prestação de contas e de uma “paralisia moral” que as gerações futuras dificilmente perdoarão.
A magnitude do desastre - Os números, por si sós, contam uma história avassaladora. Segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, amplamente considerados confiáveis pelas Nações Unidas, o conflito já vitimou dezenas de milhares de pessoas, sendo a esmagadora maioria de civis. Um levantamento secreto da própria inteligência militar israelense, revelado por uma investigação conjunta do Guardian, da +972 Magazine e do Local Call, indica que 83% dos mortos até maio de 2025 eram civis, uma proporção que apenas três outros episódios nas últimas três décadas ultrapassaram: o genocídio de Ruanda (1994), o cerco russo a Mariupol (2022) e o massacre de Srebrenica (1992-1995). A fome, entretanto, foi oficialmente declarada em agosto de 2025, com mais de meio milhão de palestinos à beira da inanição. A devastação não se limita às baixas humanas: mais de 25 mil toneladas de explosivos, o equivalente a duas bombas nucleares, foram lançadas sobre Gaza, colapsando os sistemas de água e saneamento e espalhando poluição tóxica que afetará a população por gerações.
O enquadramento jurídico - A acusação de genocídio deixou há muito o terreno da retórica para se firmar em decisões judiciais vinculativas. Em dezembro de 2023, a África do Sul moveu uma ação contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ) ao abrigo da Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948. Em 26 de janeiro de 2024, a CIJ determinou medidas provisórias, ordenando que Israel “tomasse todas as medidas ao seu alcance para prevenir a prática de todos os atos abrangidos pelo âmbito do artigo II” da Convenção, incluindo a imposição deliberada de condições de vida calculadas para provocar a destruição física do grupo. Em maio de 2024, o tribunal foi ainda mais longe, ordenando a Israel que “cessasse imediatamente a sua ofensiva militar” em Rafah. Para além da CIJ, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de captura contra o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, por “crimes de guerra e crimes contra a humanidade”. A Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio concluiu que as ações de Israel preenchem os critérios da Convenção da ONU. Em novembro de 2024, um comitê especial da ONU declarou, sem rodeios: “Um genocídio está se desenrolando diante dos nossos olhos. A História não perdoará a nossa inação”.
Contudo, o direito internacional, desprovido de um mecanismo de execução efetivo, revelou-se uma folha de papel. Israel ignorou as ordens da CIJ, desrespeitou as resoluções do Conselho de Segurança e desafiou a jurisdição do TPI. Os Estados Unidos vetaram sistematicamente resoluções que exigiam um cessar-fogo no Conselho de Segurança, enquanto a União Europeia se revelou impotente e dividida. Como observou o embaixador palestino na Índia, “pela primeira vez na História, um genocídio foi transmitido ao vivo, apoiado pelas potências ocidentais, enquanto o resto do mundo permanecia impotente, incapaz sequer de entregar alimentos ou medicamentos”.
As razões do silêncio - Por que o mundo se cala? O Centro Tricontinental, numa análise recente, cunhou o conceito de “pânico moral” para explicar a indiferença do Ocidente oficial. Trata-se de um fenômeno em que “uma pessoa tem medo de aderir às suas próprias convicções morais porque isso exigiria alguma coragem que poderia ter consequências”. No caso de Gaza, ignorar o genocídio e a limpeza étnica “só pode ser descrito como intencional e não por ignorância”. As ações de Israel são demasiado visíveis para serem ignoradas, a menos que políticos, acadêmicos e jornalistas escolham ativamente fazê-lo, receando ser rotulados como antissemitas ou confrontar a cumplicidade dos seus próprios países.
Esta paralisia moral inscreve-se numa estrutura mais ampla de cumplicidade ativa. Os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, romperam com décadas de consenso internacional ao reconhecer Jerusalém como capital indivisa de Israel, legitimar assentamentos ilegais e desmantelar a solução de dois Estados. A Alemanha, por sua vez, vê-se enredada na contradição de uma Staatsräson que a leva a apoiar com armas e diplomacia um Estado acusado de genocídio, enquanto proclama o “Nunca Mais” do Holocausto como seu mais alto compromisso moral. A União Europeia, como lembra o teólogo Evaristo Villar, oscila entre a impotência e a cumplicidade, bloqueando resoluções de paz. Como advertiu Hannah Arendt, “a violência pode destruir o poder, mas é incapaz de criá-lo”. O silêncio dos poderosos, longe de ser neutro, é uma forma de violência estrutural que permite que o massacre continue.
O julgamento da História - As gerações futuras, ao olharem para este período, confrontar-se-ão com uma questão inquietante: como foi possível que a humanidade, armada de informação e de instituições construídas sobre as cinzas do Holocausto, tenha assistido de braços cruzados a um novo genocídio? A resposta, suspeita-se, não será piedosa. O relatório do comitê especial da ONU foi inequívoco: “Sob a nossa vigilância, temos permitido que o relógio recue para uma era de barbárie sem controle, a própria perseguição que um dia juramos que nunca mais aconteceria”. E acrescentou: “A nossa inação não está apenas falhando na proteção de vidas inocentes; está desmantelando o próprio sistema jurídico internacional, uma estrutura laboriosamente construída para proteger a paz e a segurança de todos”.
Os historiadores do futuro registrarão, certamente, que este genocídio ocorreu em plena luz do dia, filmado em celulares e transmitido ao vivo para todo o mundo. Não houve desculpa de ignorância. O que houve foi uma escolha deliberada de priorizar interesses geopolíticos de curto prazo em detrimento de princípios humanitários fundamentais. Como escreveu o embaixador palestino, “a máscara da superioridade moral caiu”. E a cumplicidade que permitiu que este genocídio continuasse durante dois longos anos será, para a posteridade, uma mancha indelével na consciência coletiva da nossa época.
Mas o julgamento da História não recairá apenas sobre os governos. Recairá também sobre cada um de nós, acadêmicos que se calaram com medo de represálias profissionais, jornalistas que normalizaram o horror com eufemismos, cidadãos que preferiram não saber, religiosos que se escondem atrás de mitos bíblicos ou doutrinas espúrias para legitimar assassinatos covardes, estupros e o cárcere a céu aberto que Gaza se tornou. Villar nos recorda que “aqueles que permanecem em silêncio por razões geopolíticas tornam-se cúmplices; aqueles que justificam o massacre com eufemismos tornam-se carrascos”. O futuro perguntará: onde estavas tu, quando Gaza clamava?
A urgência do testemunho - O genocídio em Gaza não é um conflito distante entre dois lados equidistantes. É, como afirma Villar, “o teste final da nossa humanidade, um ponto de virada ética para a nossa era”. A arquitetura do direito internacional pode ter falhado na sua função protetora, mas a memória, essa, resiste. E a memória coletiva das futuras gerações será moldada não apenas pelos fatos, mas pelas respostas que hoje damos a esses fatos. A inação não é neutralidade; é cumplicidade. O silêncio não é prudência; é conivência.
Num mundo onde a impunidade ameaça tornar-se norma, a única resposta moralmente defensável é o testemunho, a recusa em aceitar a voz única do mais forte, a coragem de dizer o que está acontecendo, mesmo quando as consequências são incômodas. O futuro, como nos recorda o comitê da ONU, “não perdoará nem esquecerá a nossa inação e cumplicidade”. Resta saber se, antes que seja tarde demais, o estranho cruzar dos braços da humanidade se transformará num abraço solidário com os que sofrem. Até lá, o silêncio continuará a ecoar, ensurdecedor, cúmplice e, para sempre, vergonhoso.

































































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