Fundamentalistas versus Reformados (II edição)


Escrevi este texto quando o Talebã, a mais radical face do Fundamentalismo Islâmico ainda dominava boa parte do Afeganistão e os donos de toda a verdade e receptáculos da sabedoria divina, segundo a sua ótica, cabe-nos refletir sobre um outro fundamentalismo: O teológico pós-reformado, aquele surgido, não como uma reação ao existencialismo ou ao liberalismo europeu, mas sim como instrumento do Departamento de Estado dos Estados Unidos. O auto-denominado Reforma do Século XX. Como dizia Carl McIntire, e seus comensais menos influentes aqui em solo Tupiniquim, nada poderia ser mais soberbo, pois o mesmo surgiu, com investimentos do governo norte-americano, durante a chamada guerra-fria, para expandir, não a fé reformada, mas a suposta democracia americana, ou o American Way of Life. Coisa que fizeram muito bem, quem não lembra da famosa Aliança para o Progresso? quando as doações de alimentos e outras coisas mais entravam em nossas igrejas, enquanto agentes da CIA fomentavam junto com os militares brasileiros o que seria a Revolução de 1964?

Porém hoje, como as ameaças de guerra, ficaram só nas ameaças, o Muro de Berlim caiu, o Império Soviético ruiu, o mundo ficou sem bicho-papão até que surgissem os talebãs. O Fundamentalismo entrou em crise, pois o seu grande inimigo foi despedaçado, daí ficou sem norte, visto que era um movimento de reação e não de ação. O fundamentalismo precisa de um inimigo, para justificar a sua própria existência.

O Fundamentalismo cristaliza as verdades do passado como se fossem eternas, ele é nocivo às novas aprendizagens, é pouco estimulador do pensar teológico, não é original e nem tampouco há teólogos de destaques em seu meio, o que há são reprodutores ou contadores de teologia alheia, o fundamentalista não ousa, não pensa, não cria. Incrível que o fundamentalista coloca em pé de igualdade com a Bíblia, o que seus teólogos disseram no passado.

O fundamentalista é estressado, pois se sente na obrigação de defender Deus, como se dEle tivesse recebido procuração para isso. Acha que tem todas as respostas, e que só ele pode teologizar ou pensar sobre Deus, só ele sabe o que Deus pensa e como pensa, só a ele foi dada a condição de desvendar os mistérios de Deus.

O fundamentalista persegue quem pensa diferente dele sobre Deus, lembrado Torquemada e outros inquisidores do passado católico, porém ele é pouco reverente com Deus, pois atribui às suas palavras e às crenças dos outros tal poder que chega a acreditar que elas podem mudar o ser de Deus. O fato de alguém dizer que Deus é pequeno e pouco poderoso, não diminuirá em nada a Divindade, porém o fundamentalista acha que sim, daí, minimiza o caráter e a essência divinas.

Quem não pensa como ele,está errado, sempre. O amor fraternal não faz parte de seu catecismo, conduta que não o impulsiona a olhar com respeito às crenças alheias. É catedrático em usar versículos chaves das escrituras, para não julgar, mas já condenar sumariamente quem não canta por sua cartilha. "… arrepende-te e volta às primeiras obras...".

Entendo e a história da igreja comprova isso, que os reformadores, mesmo sendo homens de sua época, não eram assim, ousaram teologicamente, expandiram visões doutrinárias, sistema filosóficos e pensamentos não muito ortodoxos sobre Deus, não para a época. Não creio que ser reformado é ser fundamentalista, muito pelo contrário, pois a fé reformada não é cristalizada, permite a reflexão e o filosofar sobre Deus, o homem e sobre essa relação.

Faria um bem maior se falasse dos "fundamentalismos", visto que existe um concílio que os congrega, mesmo sendo tal movimento uma colcha de retalhos, que não se casam de doutrinas díspares. Batismo de criança, aspersão, imersão, línguas estranhas, governo de igreja, eucaristia, predestinação, arminianismo e muitas outras mais. Difícil é para alguns fundamentalistas, incluindo os batista e os de origem pentecostal, justificar essa união, quando eles crêem, que quem é batizado por aspersão na infância não é crente. Pois tal sacramento para eles é impróprio. Juntar-se então com os presbiterianos e outros, é mais conveniência, pois nem mesmo da eucaristia estes últimos podem participar. Difícil de entender.

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