Contos III - A fuga I

Abriu a porta, desceu os 16 degraus da escada, ele era capaz de fazer isso de olhos fechados, uma vez tentou subir, mas não deu muito certo, tomou um tombo que lhe trouxe péssimas recordações por muito tempo, cruzou o portão de madeira e o fechou atrás de si, dessa forma saiu de casa, não sentia saudades antecipadas e achava que não sentiria nunca, não tinha naquela época nenhum cão de estimação, por isso que não teve que despedir-se de ninguém, nem de algo. Só estavam em casa os seus irmãos e seu pai dormindo, mas a estes ele não contaria de jeito nenhum o que iria fazer. Além da farda da escola, só levava a mochila nas costas com os livros e os cadernos, nada mais.

Estava indo para a escola, mas não estava indo apenas para escola, aquele dia seria marcado como o dia em que viveria a maior aventura de sua vida, até então. Naquele final de manhã já tinha tudo programado: quando as aulas terminassem por volta das 03 horas da tarde, não voltaria para casa, não voltaria nunca mais, tal decisão era algo pensado, já havia arquitetado isso semanas atrás. A gota d’água para tão drástica decisão é que ele corria o risco de levar naquele mesmo dia uma sova da mãe por conta de algumas atitudes que andava tomando na escola, e olha que quando a mãe prometia uma sova ela não esquecia e ainda aplicava a mesma com uma qualidade que faria Torquemada se roer de inveja. As tais atitudes, motivo da prometida sova, eram coisas como: conversar muito em sala de aula e discutir com alguns colegas por conta de suas idéias sonhadoras e talvez precoces, depois de alguns anos foi detectado que o mesmo tinha hiperatividade, mas naquele tempo isso era considerado “impulsividade” e a pecha que a família lhe colocou: “impulsivo”, era sinônimo de traquinas e treloso.

A escola era uma obrigação, não porque não gostasse de estudar, mas porque não mexia com a sua mente que era inquieta e abastecida com sonhos e projetos que ele tirava dos livros que devorava desde o primeiro dia em que começou a ler, gostava de aprender, mas o método que impunham não lhe atraía, ficava alheio e distraído. O assunto chato e a forma modorrenta da professora ensinar fritavam seus nervos. Ela competia com os contos de fadas e as centenas de aventuras que ele vivenciava todos os dias, e estes sempre levavam a melhor. Não tirava notas altas e isso preocupava a sua mãe, um dia, no futuro, detectaram que a sua capacidade de raciocínio era muito acima da média, mas nem por isso deixou de ser considerado, neste tempo, um aluno problema.

Ao toque da campainha, qual general que se dirige à frente do seu exército para ser o primeiro a combater o inimigo ou qual condenado que caminha inexoravelmente ao cadafalso, dirigiu-se à saída, com a certeza que nunca mais voltaria àquela escola. Só dariam por sua falta lá pelas quatro horas da tarde, hora em que a mãe voltaria do médico, o pai estaria dormindo ainda, pois tinha que trabalhar no turno da noite e só acordaria por volta das cinco horas.

Caminhando o mais rápido possível, para que não fosse visto por conhecidos ou parentes se dirigindo por caminhos que não levavam a sua casa, o mais rápido que as pernas de um menino de sete anos podem andar.

Desceu a enorme ladeira que conduzia ao bairro em que morava, este ficava no alto de uma montanha, as encostas eram cobertas por espessa vegetação, em algumas partes existia uma verdadeira floresta. Ao chegar à estrada de via expressa, tomou o primeiro caminho, sem um plano, sem um rumo. Os carros passavam velozes assustando-o, além da vegetação espessa ao lado da rodovia, não via viva’lma. Sentiu-se só e com medo, mas a sua determinação não o faria voltar atrás.

Um menino loiro, de 07 anos de idade, com uma farda escolar na década de 70, numa estrada de via expressa, é óbvio que chamaria à atenção. Passava um casal e uma senhora de idade de carro que lhe perguntaram para onde se dirigia. Teve a oportunidade de contar a primeira mentira naquele dia, a primeira de muitas que teria que contar durante aquela aventura. Disse que tinha que ir ao trabalho do pai e que este estava esperando por ele, perguntaram se queria carona, ele aceitou, primeiro porque sairia mais rápido daquele lugar, segundo porque não precisaria andar tanto. Lá foi ele naquele Fusca conversando distraidamente, tentando não parecer nervoso e aumentando o cabedal de mentiras para manter a primeira mentira.

Desceu quando a rodovia cruzava uma área urbana, onde passava um ônibus para o bairro em que seu pai trabalhava, o nome era muito sugestivo: Afogados, o mesmo bairro em que morara quando a família chegou do interior fugindo da seca, depois tiveram que fugir para a casa da planície por conta de enchentes, e agora estava ele em mais um êxodo, seria sempre assim? Sua intenção não era ir para o trabalho do seu pai.

Pegou qualquer ônibus, nem olhou o destino, mesmo que olhasse não adiantaria nada mesmo, pois não conhecia nenhuma rota de viagem. Sempre sentia enjôos nos ônibus, chegara várias vezes a vomitar. Torceu para que isso não acontecesse desta vez, pois estava por conta própria, não podia mostrar-se frágil e nem vulnerável. Estava tão nervoso que nem sequer sentiu vertigens, tanto melhor. O ônibus passou bem perto do local onde o seu pai trabalhava, por certo que ele ainda não estava lá, era muito cedo, deveria estar em casa, será que já acordara? Será que sua mãe já chegou? Será que já deram por sua falta? Não parou para pensar nas respostas e nos desdobramentos que elas trariam, concentrou-se em seu plano.

Ao chegar ao terminal no centro da cidade desceu e pegou o primeiro ônibus que estava parado, nem sabia para onde ia e nem queria saber, a sua idade lhe dava gratuidade em todos os ônibus, caso tivesse que pagar a passagem esta aventura teria outro final, bem mais abrupto. O único plano que tinha em sua mente era morar na beira da praia, local que lhe fascinava e para o qual tinha ido tão poucas vezes, não nos casarões e apartamentos, mas na areia mesmo, vivendo daquilo que as pessoas lhe dessem. Parece pueril, mas é pueril mesmo, ele só tinha 07 anos.

A praia lhe atraía e repelia com o mesmo fascínio, pois uma vez foi lançado pelas ondas na areia, o que lhe causou vergonha e alguns arranhões que doeram menos que o fato de parecer não se adequar. Lembrava que quando o pai prometia levá-los à praia, a avó materna sempre se intrometia e acabava convencendo-o a não sair de casa. Uma vez a desculpa que deram é que era feriado, logo a praia estaria fechada, acreditou, como sempre fazem as crianças, mas odiou a mentira quando descobriu a verdade, e isso lhe tirou um pouco da confiança nos adultos, até o dia em que lhe tiraram toda.

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