Contos V - Ônibus

Quando acordou estava escuro e fazia muito frio, não saberia dizer que horas eram, não que isso fizesse qualquer diferença para ele, mas como não tinha ouvido o galo cantar, sabia que ainda não eram cinco horas da manhã, era sempre o primeiro a despertar. Fez como fazia todos os dias: levantou-se, foi ate à cozinha, pegou o copo de alumínio preferido, colocou várias colheres de açúcar, mais colheres do que deveria, mas era assim que gostava das coisas: todas muito doces.

A porta da cozinha era composta de dois módulos, um superior e um inferior, ou como se dizia na sua terra: “a banda de cima e a banda de baixo”, alguém, ele não sabia quem, havia descoberto uma forma de abrir o módulo de baixo sem abrir o de cima, algo que não era comum, para sair então tinham que se abaixar, ele não precisava se abaixar tanto, afinal só tinha três anos.

Seguiu com seu irmão, dois anos mais velho, e com as suas irmãs, quatro e cinco anos mais velhas, os únicos barulhos que ouviam além do vento sibilante era o coaxar das rãs e o crocitar dos grilos, ao longe se ouviam os mugidos das vacas sendo retiradas do pasto, protestavam pela intromissão tão cedo em seu merecido descanso, e o balido de algumas ovelhas sendo perseguidas pelos cães pastores que guardavam o sítio e os latidos destes. Ainda estava escuro, mas conheciam bem o caminho, bem até demais.

O cheiro do capim molhado pelo orvalho que havia caído, o cheiro do esterco das vacas revolvido pelas próprias patas, o cheiro das ovelhas que começavam a acordar, o cheiro das cabras com seus chocalhos tão peculiares, o cheiro inconfundível das folhas molhadas do pé de Algaroba na frente da casa, o cheiro das galinhas que catavam comida no quintal eram-lhe familiares, mesmo de olhos fechados conseguiria se locomover nesta Babel de odores. Nem sequer ouviam o galo cantar, ou era cedo demais ou ele havia perdido a hora.

Dirigiam-se ao curral, lá o pai estava preparando as vacas para a ordenha, eles tinham o privilégio de tomar leite quente, antes mesmo até que os bezerros, depois largariam os copos por cima dos reservatórios de água do gado e procurariam algum lugar quentinho para dormir, às vezes em cima do feno destinado ao gado era que o alvorecer os encontrava, dormiriam até que o pai terminasse a ordenha e os acordasse mandando-os para casa, teriam que tomar o desjejum e estariam então liberados para brincar o resto da manhã. Depois de separar o leite que deveria ser vendido o pai iria transformar alguns litros em queijo, o mais delicioso queijo da região, que era tomado com o café que eles mesmos torrariam e moeriam no quintal de casa, nada de gôndolas de supermercado, nada de enlatados, bastava estender a mão e pegar aquilo que quisessem comer, dava um pouco de trabalho para fazer, mas ficava muito mais gostoso.

Não sentiam dificuldades em acordar cedo, pois dormiam muito cedo, não tinham televisão em casa para distraí-los, só havia uma na cidade toda, e que ele se lembre, nunca tinha visto uma imagem sequer na TV, pois esta estava sempre “chiando”, quando perguntavam a causa da TV chiar muito e ter muito chuvisco, recebiam como resposta: - Tá chovendo no Recife! Depois que foram morar no Recife descobriu que isso era uma mentira deslavada, pois quando chovia, a imagem da TV continuava limpa, e quando a imagem estava com chuvisco, não chovia, uma coisa não tinha ligação com a outra, dessa forma descobriu que os adultos não queriam que ele mentisse, mas mentiam e enganavam com facilidade. A única coisa que faziam após a janta era ouvir as estórias que seu pai contava, às vezes contava a mesma mais de uma vez na semana, porém com uma perspectiva completamente diferente, era um grande contador de estória, ele dava sempre uma nuance sua, mas ainda assim era um grande contador de estórias, ainda que analfabeto.

Um dia eles resolveram se embrenhar dentro do sítio em que moravam, faziam isso duas ou três vezes por semana, mas planejavam como se fosse a primeira vez, e acabava sendo mesmo, pois era sempre uma aventura nova. Após o café da manhã cada um pegou aquilo que achava necessário e lá foram eles em busca de aventuras, ainda que se resumissem a pegar formigas com o ventre intumescido, que dariam ótimas iguarias depois de assadas, ainda assim eram aventuras. Muito embora já tivessem vivido outras “grandes” aventuras como no dia em que os ciganos estiveram no sítio, ou como naquele dia em que uma terrível Salamandra quase o pegou e outras tantas reais ou fantasiosas. Pegou sua sandália nova, colocou nos pés e vestido apenas com um calção e com uma vareta na mão sentiu-se pronto para desbravar as “florestas intransponíveis e virgens na redondeza de sua casa”.

Foram na direção contrária à porteira principal, na qual estava escrito “Sítio do Limão”, até hoje ele se pergunta a razão do nome, pelo que lembre nunca viu um pé de limão sequer, que os conduziria aos fundos do sítio, onde existia um pomar.

Seguiram margeando a cerca lateral do curral, já estavam quase na porteira secundária, que não era muito usada, quando de repente, não se sabe de onde saiu, veio uma coisa enorme e barulhenta em direção à porteira, eles que estavam quase encostados nela foram tomados de um terror indizível, pois achavam que aquilo iria pegá-los, não saberiam nem dizer o que era, se fossem crianças da cidade provavelmente diriam que era um disco voador, a única reação previsível e indicada àquela situação era correr, correr sem olhar para trás, correr em desabalada carreira para a Casa Grande, local em que estariam seguros do terrível monstro.

Viraram-se e como um quarteto que passou a vida toda ensaiando começaram a correr dentro das possibilidades de cada um, como era o menor e tinha as pernas mais curtas, que não eram muito acostumadas a este tipo de exercícios, ficou logo para trás, além de ser pequeno, ainda tinha uma sandália nos pés que atrapalhava a sua desenvoltura, com medo e assustado correu o mais que pôde, correu tanto que perdeu a sandália dentro do mato, nunca mais a achou, nem sequer olhava para trás, se tivesse olhado talvez tivesse visto que o “monstro mecanizado” era um ônibus que havia aproveitado o recuo da porteira para fazer a volta e que já tinha ido embora, sem nem se dar conta que quatro matutinhos tinham corrido a não mais poder fugindo dele ou como diriam os seus conterrâneos: - Correram até a percata bater na bunda!

Alguns anos depois seu pai foi trabalhar na empresa do mesmo ônibus da aventura e ele, que já tinha perdido o medo, entrava nos veículos e fingia ser o motorista dirigindo-os. Depois de muitos anos a empresa de ônibus foi comprada por outra empresa de ônibus que também era transportadora, e ele já adulto foi coordenador desta transportadora, quando entrava num ônibus para fazer alguma vistoria ou mesmo para deslocar-se pelo pátio da empresa lembrava-se rindo do medo que um dia teve de um veículo como aquele em que ele estava, mas nesta época já não brincava mais de motorista e nem corria com medo do ônibus quando o via, mas também não tinha mais o pai para contar-lhe estórias e dar-lhe todas as manhãs um copo de leite bem doce.

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