“El Coronel no Tiene Quien le Escriba”


Há algo de insólito e desesperador, mas também de belo e encantador, no incomparável conto “El Coronel no Tiene Quien le Escriba” de Gabriel García Márquez. Este conto foi publicado pela primeira vez em 1961, posteriormente, por conta da grande receptividade que teve, ganhou edição própria e passou a ser publicado separadamente da coleção original. Em português já ganhou várias edições desde 1968, a primeira foi da Editora Sabiá e por último da Editora Record, que já está na 16ª edição [Tradução: Danúbio Rodrigues, 16ª edição, São Paulo:1996, 96 páginas], em 1999 ganhou no México uma versão cinematográfica de Arturo Ripstein, com brilhantes atuações de Fernando Lújan, Marisa Paredes e Salma Hayek.

Basta uma rápida e superficial leitura do título desta obra para se deduzir quem é o personagem principal: um Coronel, um velho coronel! Ele é um daqueles poucos homens que podem ser definidos numa curta e única palavra: honra! É também um daqueles raros homens que busca viver em sua velhice do modo mais coerente possível com suas crenças, ou com a falta delas, seus princípios e suas opiniões políticas.

O coronel é um veterano de guerra, participou de uma revolução com conotações religiosas, que ficou estacionado no tempo e no espaço, relembrando com nostalgia do passado, ainda se ressente de que os ideais pelos quais lutou, a liberdade do estado das mãos da religião fascista e manipuladora, não sejam mais do que uma lembrança no passado, se é que alguém ainda se lembra, além dele, desses motivos. A sua luta por um estado laico, sem a tutela de uma igreja que paralisa o povo por meio da religião supersticiosa, não é uma simples metáfora para Márquez, há algo de autobiográfico nisso.

Porém é por sua tenacidade, que pode ter conotações positivas ou negativas, depende do prisma pelo qual se olha, que o coronel é reconhecido. Alguns diriam que esta tenacidade na verdade é teimosia, outros que esperança vã, outros que ilusão e outros ainda que rabugices de um velho esclerosado, mas ainda assim não há quem possa negar que ele viva de modo coerente com o que crê, ou com o que não crê.

Após o término da revolução, tentando recompensar os militares que lutaram em favor de sua causa, o governo prometeu aos 200 oficiais que lideraram aquela revolta que cada um deles receberia uma indenização pelo esforço empreendido e uma aposentadoria vitalícia, porém devido à falta de recursos, não podemos esquecer que estavam reconstruindo o país após a guerra, adotou um sistema de filas de espera, o número do coronel era 1823. A partir de então, ele passa a esperar com orgulho pelo cumprir da promessa, já se vão quase 27 anos e a carta que comunicaria o tão esperado anúncio parece que nunca chega. Inexoravelmente, não importa se chova ou faça sol, todas as sextas-feiras ele veste o único terno que tem, põe um sapato gasto e cheio de buracos, um chapéu amarfanhado na cabeça, um guarda-chuva roto e cheio de buracos e, ainda que uma parte sua saiba que a carta não virá, enche-se de esperança e vai ao cais, aguardar o barco que traz o carteiro com as correspondências para o povoado. Mas ninguém escreve ao coronel, ninguém! No filme não há como não se encolerizar com a indiferença do carteiro ao desembarcar da chalupa e o seu riso zombeteiro e cheio de desdém ao comunicar ao coronel que não há cartas para ele, parece até que ele sente um prazer sádico em minimizar naquele pobre homem o pouco que lhe resta: um fio de esperança.

Sua esposa, europeia por nascimento (uma culta espanhola que tinha dificuldades para se adaptar ao meio ambiente atrasado da aldeia na qual moravam) era apaixonada pelos filmes que teimosamente eram exibidos no tosco cinema da vila, era também teimosa e orgulhosa, porém uma bondosa, abnegada e compreensível mulher, tinha a saúde em frangalhos em virtude da alimentação precária, do cansaço da velhice e das péssimas condições em que vivia, sofria crises cada vez mais forte de asma, sua têmpera era de aço, pode-se dizer que ela era uma mulher dura, não verteu uma lágrima sequer quando o filho morreu, porém estava definhando pouco à pouco, por causa do desgosto, da espera em vão e da desilusão.

O estopim que desencadeia uma sucessão de fatos, que entrelaçados dão corpo ao conto é a morte do filho do coronel, este teima em acreditar que seu filho morreu por conta de ser um revolucionário, enquanto que as demais pessoas atribuem à morte do rapaz à querela numa rinha de galo envolvendo uma prostituta, tudo o que uma família orgulhosa como a do coronel não podia tolerar. As únicas posses que o filho deixou, são recebidas como um alento após a morte trágica do rapaz, são também a única esperança daquela família orgulhosa e que vivia na miséria total: uma máquina de costura velha, instrumento de sua profissão de alfaiate e um galo de briga, instrumento de sua diversão, e ao que parece de mais da metade da cidade. Estes bens, pensava o coronel, garantiriam a ele e à sua mulher a sobrevivência por certo período, alimentando esperança de um futuro melhor que só viria com a aposentadoria do governo. Mas ninguém escreve ao coronel, ninguém! Os dias se sucedem e com eles as semanas, o coronel espera a tão desejada carta, que nunca vem.

O dinheiro que recebeu pela máquina de costura chegou ao fim, um misto de vergonha com um resquício de dignidade, parte de seu ser que não foi ultrajada, impedem-no de assumir diante de todos a miséria em que vive e de vender o único bem de valor que ainda possui: um relógio de parede, porém, sem ter como alimentar a esposa, suas dívidas com a mercearia, na qual compra fiado há anos, só fazem aumentar, obrigando-o a se esquivar quando passa defronte dela e é “tacitamente” cobrado, o coronel vive um dilema: vender o galo herdado do filho. O galo tinha sido treinado pelo filho do coronel para combater nas rinhas, e nele o coronel deposita as suas esperanças de ganhar algum dinheiro para poder sanar as dívidas, comprar alimentos e remédios, comprar roupas e sapatos, pagar a hipoteca da casa que estava perto de ser liquidada, até que a carta com a benfazeja notícia chegue, mas ninguém, ninguém mesmo escreve ao coronel e nem o galo, muito menos sua mulher, se alimentam de esperança e ar. Aparece então a proposta de vender o galo por 900 pesos, obviamente bem abaixo do valor que o galináceo teria, mas para as condições atuais do casal, era uma fortuna! O que fazer: vender o galo ou esperar os 45 dias que faltavam para o início das rinhas de briga de galo? O que comer até lá? E se o galo perder na rinha? Perguntas que nunca saberemos as respostas.

Fazendo coro com centenas de outros apreciadores da obra de Gabo, afirmo sem medo de errar que este é um conto doloroso de se ler. Alguns leitores apaixonados dizem que esta é uma história fraca em comparação ao grande Cem anos de solidão (tal comparação para mim é despropositada, visto que a abordagem deste conto é muito diferente da abordagem apresentada naquele livro, tão denso, de personagens tão complexos e de enredo intrincado, e o propósito do autor é outro), creio porém que nenhum dos seus escritos pode ser comparado a este conto, ele é único, de uma simplicidade arrebatadora, e atende a uma intenção única. Tenho a impressão que estou lendo um dos contos de Dostoiévski, seja Humilhados e ofendidos, seja Memórias do subterrâneo, ou mesmo Crime e castigo, tal é a miséria que vejo em suas poucas páginas, ainda que seja uma miséria orgulhosa. Alguém já disse que “é uma história dura e cruel com um final triste e desconcertante”, eu diria que além disso é um diário de bordo de um homem que a miséria total não conseguiu arrancar-lhe a única coisa que lhe restou: a esperança! Além disso não se pode perder de vista a densidade da leitura e a inexplicabilidade da mesma, o que não é novidade em se tratando de Gabo.

O tema subjacente a este conto, é também um tema recorrente nas obras de Gabo, e pode ser desmembrado em três tópicos: a) a condição de miserabilidade do ser humano; b) quanto do espírito deste ser foi afetado pela miséria que é tão presente; c) até que ponto o ser humano pode resistir a uma vida dura e cruel, que não lhe oferece nenhuma oportunidade para a felicidade.

Um outro velho, num passado tão distante passou por dúvidas cruéis e por motivos para desistir talvez mais fortes do que os do coronel: “... Abraão, contra toda esperança, em esperança creu!” (Romanos 4:18 NVI), creio que lições e verdades evangélicas podem ser extraídas deste conto de Gabo.

O coronel era ateu, considerava a religião crendices e superstições, mas ainda assim vestia-se de esperança todos os dias, mesmo em meio à miserabilidade aquela família conseguia crer, mesmo recebendo golpes sobre golpes, ele teimava em crer, ainda que pareça ingenuidade, a esperança dele é admirável. A miséria que o envolvia não tocou sua alma, ela permanecia intacta, seu corpo definhava, mas sua esperança cada dia se renovava.

Sei que Ruach sopra onde quer e como quer, e creio que este conto é um dos muitos sopros que ele deu sobre a nossa sociedade secularizada e intelectualizada, por meio deste conto muitos foram catequizados sem perceberem. Enquanto louvavam a genialidade de Gabo, Ruach os ensinava que para manter a esperança viva, não é necessário ter fundamentos sólidos e concretos, que a esperança verdadeira nasce quando o desespero domina, e é neste macro-ambiente que Ruach encontra espaço para espalhar suas fagulhas de fé e esperança.

Pode ser que ninguém escreva ao coronel, pode ser que ninguém nos dê a resposta que tanto almejamos, mas certamente Ruach permanecerá ao nosso lado para que não desistamos quando estivermos tão perto de conquistar aquilo pelo qual esperamos por anos a fio.

1 comentários:

Anônimo disse...

Uma bela parábola para este mundo moderno com tantas redes sociais e com tanta solidão!

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