"Me deixem ser medíocre!"


A julgar pelo que ouço nas conversas durante o almoço com colegas no trabalho, nos corredores e nas salas de aula da faculdade, nas conversas na igreja após o culto e pelo que leio no Twitter e Facebook, eu devo ser um dos poucos brasileiros a desligar o rádio, mudar de estação ou simplesmente acionar o botão “mute” quando Arnaldo Jabor vai ao ar nas manhãs da rádio CBN. Sei que corro o risco de ser impreciso e parecer pretensioso ao declarar isto, porém creio ter razões de sobra para fazer tal assertiva, principalmente quando se observa a quantidade de pensamentos (sic) do tão afamado “intelectual” que é postada nos blogs e nas redes sociais e as inúmeras “tuitadas”, “retuitadas”, “curtidas” e “compartilhadas” que podem ser vistas.

Devo ser muito medíocre, ou então algum retardado, que não consigo ver graça ou achar cult o besteirol que ele destila (ou seria melhor dizer: despeja?) todos os dias pelo rádio. E olha que, por uma questão de honestidade, nem estou me referindo ao que ele escreve em alguns jornais e revistas, pois não perco tempo para lê-los, e nem às falas dele na TV, que eu nem vejo, não me dou ao trabalho de assistir às suas crônicas diárias que servem de alimento para as “mentes férteis” dos seguidores da programação Global. Eu sou mais um dos poucos brasileiros que já superou o “trauma da infância” que me fazia acreditar que o Jornal Nacional da famigerada Globo seria a minha única fonte confiável, ética e profissional de notícias.

Esta semana, enquanto me dirigia pela manhã para uma clínica médica, fui surpreendido pelo anúncio solene do locutor: “o comentário de Arnaldo Jabor”! Eu estava dirigindo, o trânsito estava complicado, a região, na qual transitava, não me é familiar (numa ocasião em que estava numa situação parecida, arranquei o painel do rádio do carro pois não consegui mudar de estação), por isso resolvi deixar que a crônica que ele teimava em fazer terminasse (há mais de cinco anos que não o ouvia, deixei de ouvir por conta do meu fígado que estava se estragando, minha bílis estava azedando e minha mente estava me culpando pela agressão que eu a deixava sofrer!), pensei que o tempo poderia ter mudado algo, ou ele, ou eu, mas ao terminar aquela bravata, descobri que não houve mudança, nem de minha tolerância para com a mediocridade e nem dele para com o bom senso. O texto continuava recheado de frases de efeitos, chavões, bordões e pensamentos lugares-comuns, com interpretações, diga-se de passagem questionáveis, sobre os fatos, como se fossem os próprios fatos, e ainda por cima permeado daquela postura arrogante e prepotente que só ele consegue ter: “quem discorda de mim ou é corrupto ou então é massa de manobra, não tem condições intelectuais para me entender!”.

Meu azedume com este sujeito tornou-se mais acentuado desde que ele vendeu seu passado de independência e resistência à censura ditatorial militar e tornou-se o porta-voz extra-oficial das ORM (Organizações Roberto Marinho), passando a apresentar diariamente o “editorial” da organização com a versão malbaratada dos fatos, caricaturando a realidade para parecer engraçado e cult

Jabor é carioca de 1940, seu pai era oficial da Aeronáutica e sua mãe era dona de casa, não sei até que ponto ela é culpada pela mediocridade e incoerência do filho. Antes de ser o cineasta famoso, tão propalado pela Globo e jornalista “culto”, ele foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Ele fez parte do que se chamou à época de segunda fase do Cinema Novo, que era caracterizado pela busca por análise da conjuntura nacional, com inspiração no neo-realismo italiano e na nouvelle vague francesa. Sua primeira obra que merece destaque é também um dos grandes sucessos de bilheteria do cinema brasileiro: Toda Nudez Será Castigada (1973), adaptada da peça homônima de Nelson Rodrigues, tinha viés humanista, porém recheada de críticas implacáveis à hipocrisia da moral burguesa e de seus costumes, um verdadeiro golpe numa sociedade decadente, a qual ele se opunha, já que a mesma apoiava sem reservas o regime ditatorial que reinava à época, do qual ele era um crítico (Ver verbete com o nome do mesmo na Wikipédia©).

Seguindo na trilha das críticas à sociedade considerada como padrão, ele adapta outro romance de Nelson, no qual investe fortemente contra as deformidades comportamentais e sexuais da sociedade: O Casamento (1975) e em Tudo Bem (1978) consegue se superar e apresenta num tom de forte sátira e ironia, as contradições da sociedade brasileira já vitimada pelo fracasso do milagre econômico, foi porém com Eu Sei que Vou Te Amar, que conseguiu seu último sucesso nas bilheterias. Jabor é um cineasta que há 30 anos não faz nada de relevante no cinema, mesmo assim ainda é decantado como cineasta. Seus filmes fizeram sucesso na época, é bem verdade, mas se o fizeram foi mais pela transgressão que apresentavam do comportamento que a sociedade hipócrita defendia do que pela plástica da arte cênica. Em outra época teria sido mais um besteirol, como tantos outros. Como seus filmes eram recheados de pornografia e palavrões, muitos enxergavam nisso uma forma de transgredir a censura, ainda que não fosse pelo pensamento revolucionário, ainda assim era transgressão, é por esta causa que tantos filmes desse período abusam demasiadamente do sexo e da nudez.

Depois que viu sua carreira definhar, com a mudança que o fim da ditadura impôs, não vendo outra alternativa, já que o momento pedia películas com outros tipos de abordagens, as quais não lhe eram familiares, rendeu-se às Organizações Globo e passou a destilar o seu veneno contra todos aqueles que ousem entrar em seu caminho e no caminho da empresa que tão bem representa.

Este texto tem uma causa, tem um motivo, tem um propósito: Deixem-me pensar o que eu quiser, deixem-me achar Jabor medíocre em paz, parem de me patrulhar, eu tenho o direito de achar que ele é pau mandado, medíocre, parcial, vendido, traidor de amigos e de ideologias, incoerente e até mesmo babaca. Estou farto do seu preconceito contra os nordestinos e pobres que ascenderam na vida e agora podem comprar carros, viajar de avião e fazer viagens de turismo ao exterior, do seu preconceito contras os que não tiveram acesso à educação requintada, mas por serem eficientes e determinados em suas áreas de atuação alçaram voos e hoje são destacados profissionais e políticos, ainda que não possuam curso superior, estou farto de sua bajulação da classe rica e dominante, daquelas famílias tradicionais que ainda não aprenderam que o Brasil mudou, estou cansado do ranço dele contra os pobres e negros que estudaram, fizeram faculdade e conseguiram ser destaques em alguma área, contrariando a lei da seleção natural que a elite brasileira defendia, estou cansado de ouvi-lo repetir que brasileiro compra iPhone, iPad e Tablets, mas nem sabe para que servem. Como protestante histórico, estou farto de que, no auge de sua ignorância jornalística, ele confunda os herdeiros da Reforma com ladrões, charlatões e incultos, criando estereótipos caricaturescos ao gosto da “cultura Global” para nos ridicularizar.

Por que Jabor nunca fala do público medíocre que assiste ao Faustão, dos espectadores manipulados, e sem a mínima capacidade de exercerem uma crítica, que assistem ao Big Brother Brasil? Por que Jabor nunca expõe o que as novelas da Globo fazem com a mente de quem as assiste? Por que não critica a TV Globo que manipula o futebol brasileiro e que por conta disso arruinou o futebol do Norte e de boa parte do Nordeste? Por que ele não fala do contrassenso que é Xuxa falar de pedofilia quando ela foi protagonista de um filme em que “seduzia” um adolescente com menos de 13 nos? Por que ele não presta um serviço ao Brasil e não critica a forma com que o Império da Globo faz jornalismo? Não é ele um intelectual independente e sem “rabo preso”?

O fato de alguém admirar Jabor não o torna mais inteligente do que é, da mesma forma que quem não o “curte” não é menos inteligente por isso. As pessoas, todas elas, têm o direito de escolher quem lhes serve de referência e o fato de não ser render às falas de um produto da mídia não torna ninguém inculto por isso. Ainda que nem ligue para o fato de alguém me criticar por eu ojerizar Jabor, me incomodo que isto seja a ponta de um iceberg de algo bem mais denso e profundo: o medo de parecer diferente, já que todo mundo, que parece cult, sorri com o que ele escreve e todo mundo, que parece inteligente, comenta o que ele escreve, alguns lhe apoiam tacitamente com medo de não serem confundidos com imbecis. Seria uma massa que se deixa manobrar para não parecer “burra”, é o avesso do avesso!

Não gosto das “tiradas” de Jabor não é por ser medíocre e burro, antes fosse, as razões pelas quais detesto o sorrisinho irônico desse rapaz é justamente por entender aonde ele quer chegar e saber quem pagou a passagem dele.

1 comentários:

Anônimo disse...

* "Eu sou mais um dos poucos brasileiros que já superou o 'trauma da infância' que me fazia acreditar que o Jornal Nacional da famigerada Globo seria a minha única fonte confiável, ética e profissional de notícias." — Como assim trauma de infância?
* "Ver verbete com o nome do mesmo na Wikipédia©" — Porquê o símbolo de copyright?

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