Por falar em dor... (2ª edição)



Quando eu tinha por volta de 13 anos, percorria incansavelmente todos os dias os corredores cheios de estantes da biblioteca da escola que eu estudava em busca de algum título novo, já tinha lido quase tudo que, na minha opinião, prestava, conhecia o acervo muito bem, o suficiente para achar algum título que tivesse sido disponibilizado há pouco tempo. Um dia deparei-me com uma enorme coleção de livros, eu devo ter sido o primeiro aluno que a folheou assim que chegou e foi exposta, a escola era modelo, as doações de livros era uma constante, a coleção era de uma editora que eu não mais ouvi falar, EBAL, Editora Brasil-América. O título da coleção era 15 contos de... faroeste, mitos, evasões célebres, caçadas, guerra, etc, li a coleção toda num período de 10 meses, o que equivale a dizer, cerca de 50 livros com 400 páginas em média, cada um com 15 histórias ou estórias. Todos, posso dizer hoje, eram de excelente qualidade, ainda que o número de livros lidos pareça indicar que eu era mais ávido leitor quando adolescente do que sou hoje, isso não é bem verdade, apenas eu tinha mais tempo para ler, isso fazia também com que eu não fosse muito seletivo com as minhas fontes, o que não é o caso dessas obras que estou tratando agora, eu li de tudo, absolutamente de tudo, hoje como não disponho de tempo, cada vez mais disponho de menos, e me tornei muito mais rabugento e exigente, procuro selecionar com muito mais cuidado o que leio. Vivemos hoje numa época onde a maior preocupação não é com informação, mas sim com a seleção da informação. Antes a questão vital era onde encontrar, hoje é sim de separar o joio do trigo neste século midiático, o que é essencial do que é descartável, olha que existe mais descartável do que essencial.

Os 15 contos do volume da coletânea de mitos gregos, que foi meu primeiro contato com este tipo de literatura, eram todos de ótima qualidade, cada um mais apaixonante que o outro, ainda mais que eu estava lendo, mais especificamente, pela primeira vez os mitos, não era muito familiarizado com o estilo, e isso só aguçava minha curiosidade e minha vontade em ler. Lembro que antes eu havia acompanhado uma série chamada O Minotauro no Sítio do Pica Pau Amarelo, olha que isso faz décadas!, onde tive aulas de mitologia, mas, com um pouco de distorção por conta da transposição de Emília e Cia por meio do Pirlimpimpim.

Confesso que o conto Prometeu Agrilhoado me chamou deveras à atenção, por vários motivos: o título pomposo, o despotismo de Zeus, a injustiça e a omissão dos demais deuses, a coragem de Prometeu e até mesmo o castigo “quase eterno” que ele recebeu, tudo isso só ressaltava para mim o quanto os deuses do Olimpo estavam distantes do meu conceito reformado de divindade, conceito este adquirido nos estudos do Breve Catecismo e no Catecismo Maior de Westminster, documentos basilares da educação calvinista. Eles careciam de atributos realmente divinos, pois o que era mais notório neles eram as características humanas, cheias de falhas de caráter e outras idiossincrasias, que eles revelavam por meio de suas ações, muitas vezes destemperadas e vãs. Hoje volto a ter a atenção despertada mais uma vez por ele, desta feita eu olho por meio de minhas lentes Borderlines, e me surpreendo com a capacidade sobre-humana que Prometeu tem de sofrer uma dor lancinante, diria até que, eterna. Para os que não são iniciados à mitologia grega, vou fazer uma rápida anamnese:

Segundo Hesíodo, um dos maiores poetas gregos, que primava muito pelos épicos, Prometeu, que não era deus na mitologia, mas era imortal por ser um Titã, e seu irmão Epimeteu, receberam dos deuses a tarefa de criar os homens e todos os animais. Epimeteu encarregou-se da obra e Prometeu encarregou-se de supervisioná-la. Na obra, Epimeteu atribuiu a cada animal os dons variados de coragem, força, rapidez, sagacidade; asas a um, garras outro, uma carapaça protegendo um terceiro, etc. Porém, quando chegou a vez do homem, formou-o do barro. Mas como Epimeteu gastara todos os recursos nos outros animais, recorreu a seu irmão Prometeu. Este então roubou o fogo dos deuses e o deu aos homens. Isto assegurou a superioridade dos homens sobre os outros animais. Todavia o fogo era exclusivo dos deuses. Como castigo a Prometeu, Zeus ordenou ao ferreiro Hefesto que o acorrentasse no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia (ou segundo outras fontes, um corvo) dilacerava seu fígado, suas vísceras, que, todos os dias, regenerava-se, já que Prometeu era imortal, e o ciclo destrutivo se reiniciava a cada dia. Esse castigo devia durar 30.000 anos.


Prometeu foi libertado do seu sofrimento por Hércules que, havendo concluído os seus doze trabalhos dedicou-se a uma vida de aventuras. No lugar de Prometeu, o centauro Quíron deixou-se acorrentar no Cáucaso, pois a substituição de Prometeu era uma exigência para assegurar a sua libertação.(1)

Prometeu pode ser um mito, e é óbvio que é um mito, porém para muitos leitores modernos ele é um herói a ser imitado em sua defesa da humanidade, um verdadeiro exemplo a ser seguido, para outros é um ícone, por acreditar que a humanidade precisa e merece receber dotes (ferramentas) que a tornem superior aos demais seres, isso soa meio paradoxal numa época em que a racionalidade do ser humano em preservar o planeta é contestada. Talvez seja a primeira tese de credulidade no ser humano, quem sabe o nascedouro da antropologia, pode ser, mas creio que ele é quem melhor representa hoje uma série de seres anônimos que enfrentam diariamente as suas batalhas eternas: os que sofrem do TPB (Transtorno de Personalidade Borderline) ou simplesmente os Borderlines.

Os Borderlines como Prometeu estão acorrentados, agrilhoados é um termo que talvez caia muito bem, já que “grilhão” é muito mais metafórico que “correntes”, a um destino e a um modo de vida, exceto por uma intervenção “miraculosa” que os liberte disso, que são fatais e inescapáveis.

Os Borderlines foram condenados a sofrerem dores lancinantes por toda a vida, expiam na pele a culpa por atos alheios, os erros foram cometidos por outras pessoas, quando eles ainda eram crianças indefesas, e quando é que eles deixam de ser crianças indefesas? Todos os dias o ciclo se repete: correntes que os manietam, os prendem, que os impedem de esboçar quaisquer reações, nem que seja de simples proteção, as vísceras são expostas mais uma vez, parece que todos podem ver através deles e a águia, ou o fatídico corvo, inexoravelmente volta para continuar com seu trabalho destruidor incansável e interminável. A única certeza que tem é que no dia seguinte tudo o que sofreu hoje, sofrerá de novo, já que não tem como reagir, não sabe como fazê-lo e não pode fazê-lo.

Os Borderlines têm dentro de si um vazio angustiante, um vazio, aparentemente impreenchível, que faz com que tudo na vida se torne um tédio e viva sempre em busca de algo que preencha, que ocupe os espaços, seja de forma sadia ou não, a maioria das vezes não é de forma sadia.

Os Borderlines estão acorrentados a uma forma de vida que não sabe viver sem sentimentos de culpas, algumas vezes esse sentimento é absurdamente inconcebível, mas é assim que é. Se um Border souber que alguém no mundo não é feliz por conta de algo que ele fez, e caso ele não consiga reparar isso, ele se punirá e será infeliz, quem sabe pelo resto da vida.

Os Borderlines são vulneráveis, se deixam prender, permitem que os outros os mantenha como reféns, aceitam abusos, sejam físicos, sejam mentais, principalmente daqueles a quem ama. São seres que são facilmente torturados psicologicamente, são vulneráveis, indefesos, quando tentam se defender, sempre o fazem da forma errada, despropositada e desproporcional à dor que lhes foi causada.

E ainda tem gente que fala em dor, que reclama de dores que lhe sobrevieram em momentos diferentes de sua vida. Não há ninguém nesse mundo que saiba mais o que é viver com uma dor do que um Borderline, dor, vazio e angústia são seus companheiros de toda a jornada, alegria e felicidade quando aparecem é para andarem apenas um pequeno trecho da caminhada.

Mas quem sabe um dia, quem sabe não acontecerá um milagre, e eles deixarão estes fardos para que outrem carregue e suporte? Enquanto isso não acontece, o melhor que se pode fazer é apreciar a paisagem, do alto dessa montanha na qual vivem prisioneiros, o mundo se estende abaixo, alguns dias está enevoado e sombrio, mas noutros dias está ensolarado e cheio de esperança. Ninguém consegue ver o caos no meio da beleza como um Borderline, mas ninguém também consegue ver a beleza no caos melhor do que um Borderline.

[A imagem que ilustra este artigo é Prometeu Acorrentado de Dirck Jaspersz. van Babueren (cerca de 1594/1595–1624), e encontra-se no Rijksmuseum Amsterdam - Domínio Universal)]

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1- Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Prometeu

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