Contos IX - Morte (II)

Parte I

Como o primeiro caminhão já estava carregado, orientou o motorista a sair do local, no veículo estavam os objetos mais caros, pediu que ele fosse embora para o Posto Fiscal na rodovia, que distava uns cinco quilômetros da loja, área alta, segura e com amplo estacionamento para veículos grandes e pesados, era uma preocupação a menos, uma vida, um veículo e os valores que estavam ali.

Passou a motivar e exigir um pouco mais dos funcionários que, cansados e com sono, diminuíam gradativamente o ritmo de trabalho. Alguns dos funcionários da loja, que moravam na cidade estavam apreensivos, não conseguiam esquecer de suas próprias casas, liberou a maioria, ficando apenas com os que as residências não corriam riscos e com os 14 que trouxe da capital.

Antes que o último caminhão fosse totalmente carregado, fez uma avaliação do que não pudera ser embarcado, constatou que eram os objetos de pouca monta e outros de mostruários, de difícil desmontagem e que já tinham perdido o valor inicial de venda, que ele havia recomendado que não dessem prioridade, não ficara muita coisa.

Fez uma rápida reunião com todos, agradecendo a cada um o empenho demonstrado, fez questão de ressaltar que a operação tinha sido bem sucedida, e que cada um que estava ali tinha contribuído para isso. Desejou boa sorte aos que ficavam na cidade, lutando por suas vidas, por suas posses e por suas famílias.

Entrou num dos caminhões e seguiu em frente. Já não havia a calmaria da noite anterior, rumores davam conta que a água estava subindo rápido, nas partes mais baixas, as casas já estavam submersas, todos queriam salvar-se ou salvar alguma coisa que tivesse algum valor, a cidade estava agitada, nervosa e prestes a estourar, qual barril de pólvora.

Enfrentou um grande engarrafamento na saída da cidade, a ponte que ligava o bairro onde estava à saída mais rápida estava tomada de carros de todos os tipos e tamanhos e muitos pedestres, ciclistas e motociclistas ajudavam para que o caos ficasse maior. Não havia nenhuma organização, carros no contra fluxo impediam a movimentação, chegava a ser desesperador, imaginava o quanto o ser humano era frágil, pois perdia o bom senso e beirava à irracionalidade de uma forma que, qualquer observador imparcial duvidaria de que um ser como aquele, foi um dia chamado de racional.

Quando enfim conseguiu ultrapassar a ponte, teve que tomar um caminho por uma estrada de barro para poder alcançar a rodovia que permitiria que voltasse sem maiores empecilhos para a capital. Esta estrada estava enlameada, a chuva da noite anterior tinha sido eficiente em desgastá-la, a mesma estava quase que intransitável, o motorista que conduzia o veículo que ele se encontrava teve dificuldades para manter-se na estrada enquanto subia o aclive, os outros já haviam passado na frente, todos pesados, tinham contribuído mais ainda para o desgaste da estrada. Teve que pedir ao motorista que parasse e desceu, junto com um auxiliar do motorista para poder orientá-lo de fora do veículo, mas o obstáculo era maior do que pensava, o veículo estava quase batendo num poste, foi preciso que os demais motoristas descessem de seus veículos e juntos, como equipe, procurassem uma solução. Até que um agricultor que passava, informou que perto dali havia um trator, que a solução seria pedir ao dono deste que o emprestasse.

Foram em busca do dono daquele veículo, que solícito atendeu prontamente e com pouco esforço, por conta da grande capacidade de tração do veiculo, o caminhão foi posto outra vez em condições de seguir viagem sem mais atropelos.

Uma vez na rodovia, solicitou que todos parassem no primeiro posto seguro, para que pudessem comer alguma coisa, cerca de 02 quilômetros depois pararam, comeram bolachas com caldo de cana e retomaram a viagem. O cansaço já demonstrava que estava alcançando bons resultados sobre todos, a maioria tinha dificuldade em manter-se alerta e acordada, exceto os motoristas que tinham sido liberados por ele para que dormissem, todos estavam cansados e dormindo de qualquer jeito nas cabines dos 05 caminhões.

Quando se aproximavam do local na qual ele havia descido do veículo do colega que não tinha tido coragem para seguir em frente, encontrou a mesma retenção de veículos, uma longa fila se formava, todos procuravam ir, ou voltar, o quanto antes para a capital ou para as cidades no entorno dela, em busca de segurança.

Após mais de uma hora de paralisação, conseguiram desvencilhar-se daquele obstáculo e por volta do meio dia, entravam todos os caminhões no pátio da empresa, cansados, com sono e exaustos, mas todos estavam seguros, e isso o fazia sentir-se um pouco melhor, nenhum transtorno de grande monta havia acontecido, conseguira trazer a sua “tropa” sã e salva e isso valia para ele mais do que os objetos que estavam naqueles cinco caminhões.

Tão logo entrou nas dependências da empresa e colocou o telefone móvel para carregar, recebeu ligações da gerente da loja que havia sido evacuada, ela dava noticias de que a água já “lavava” a calçada da loja, foi tomado de súbita incredulidade, não acreditava que em tão pouco tempo a água chegasse tão rápido.

Deu algumas ordens, despediu-se dos seus colaboradores, não sem antes apertar a mão de todos os que passaram a noite na operação com ele e dar-lhes dinheiro para que tomassem cervejas como um pequena recompensa pela dedicação demonstrada. Enviou para toda a empresa uma mensagem na qual elogiava os seus colaboradores pelo empenho demonstrado, ao mesmo tempo que elogiava a gerente da loja que junto com os funcionários dela, tinham contribuído para que a operação fosse um sucesso, além de desejar que os transtornos que viriam fossem poucos e facilmente contornáveis, como diria a diretora da empresa alguns dias depois, foi uma “bela mensagem para um momento tão sombrio”, foi de fato uma mensagem inspiradora e confortante, foi a última mensagem que escreveu, talvez por isso tenha sido tão bela.

Ao chegar em sua casa, após um banho que fazia com que os ossos doessem de tanto cansaço, recebeu nova ligação da gerente da loja, desta feira ela comunicava que a loja tinha sido invadida pela água e que a altura da mesma naquele momento era mais de 1,5 metro de altura. Foi deitar-se para dormir um pouco, estava desiludido, a notícia do avanço inclemente da água o fez ficar deprimido, pensava em todas as pessoas que tinha visto, nas casas no entorno da loja, não conseguia acreditar que tudo aquilo estava àquela hora debaixo d'água.

Acordou-se no fim da tarde com mais uma ligação da gerente, esta chorava bastante, informava que a loja havia sido destruída, e que agora temia por sua própria casa, a água continuava a subir e ameaçava invadir a sua residência, que estava localizada numa das partes mais altas da cidade, mas mesmo assim, corria riscos.

Quando a mesma informou que a bateria do telefone estava descarregando e que poderia ficar sem contato, o sentimento de impotência que o tomou foi completo, beirava o desespero. Ela informava que não tinham alimentos, nem água para beber, estavam com frio, no escuro e sem esperança alguma.

Ficou deitado, no escuro, não conseguiu mais dormir, a única coisa que podia fazer era orar por aquelas pessoas, sabia que muitas cidades no entorno daquela que tinha ido estavam em situação de calamidade, uma tragédia se avolumava, muita gente havia morrido, muitos ainda morreriam, a grande maioria perderia tudo o que tinha. Não conseguia pensar como seria sua semana, o dia seguinte era domingo, dia de descanso, mas ele duvidava que isso fosse possível. A noite que se aproximava seria escura, fria e sem esperança, torceu que o dia chegasse logo, pois rolar na cama a noite toda deixaria seu corpo mais cansado ainda e a alma com uma sensação de vazio e desespero.

- Melhor enfrentar os inimigos durante o dia, eles ficam menos aterradores, são facilmente identificados e pode-se atingi-los com mais eficiência. Que venha o dia, mesmo que em meio ao caos e ao desespero, mas que venha!

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