Parábolas Modernas (III)

Podia-se dizer que ele, o garoto, tinha um talento especial, algo realmente fora do comum: talhar com perfeição objetos em madeira, talhava animais, casas, paisagens, carros, etc, porém, sua maior especialidade era mesmo barcos, esculpia cada um melhor do que o outro, cada detalhe era retratado minunciosamente, passava horas ajustando o leme ou mesmo uma hélice, que as pessoas nunca talvez vissem, já que não levantavam o barco para olhar embaixo, mesmo assim ele fazia questão de apurar aos mínimos detalhes.

Um dia recebeu do pai um pedaço de madeira de lei, a melhor que já tivera em mãos, perfeita para a feitura de um barco, ele passou dias e mais dias apenas olhando para a madeira, criava em sua mente a figura do barco, só depois iria torná-la real, não ousava aproximar-se dela sem algo de concreto em mente, não queria estragá-la, ela era perfeita demais. Era como se o barco já estivesse ali, o que de fato ele queria fazer era tirar de cima do barco aquilo que impedia de ser visto como de fato era.

Alguns dias depois, após realizar algumas tarefas da escola, procurou o local mais ermo perto de sua casa, com a madeira numa mão e as ferramentas na outra, sentou-se debaixo de uma árvore e começou a tornar concreto algo que já existia em sua mente, apenas em sua mente, havia chegado ao esboço mental definitivo de seu projeto, e o tornaria real naquele dia.

Quem o visse esculpindo aquele barco, acharia que ele encontrava-se em transe, tal a concentração que estava. Aquele ato para ele era de tamanha importância, era como a concepção de um filho, era como dar à luz a algo que só existia na sua mente. A forma geral do barco foi concebida naquele dia, o casco, as escotilhas, os mastros, a figura entalhada na proa pontiaguda, a popa quadriculada, o calado, a quilha, os detalhes à bombordo e à estibordo.

Passou dias e mais dias concentrado em cada detalhe que não havia dado forma final ainda, os objetos no convés, as escotilhas, os salva-vidas, as velas, o timão, a âncora. Aquele não seria mais um barco, aquele seria O Barco ou, parafraseando os modernos e beligerantes babilônios, seria o “Pai de todos os barcos”.

Quando a sua obra-prima enfim estava terminada, ele a colocou à mostra, em cima de um móvel na sala. Todos que entravam na casa eram convidados a admirar aquela obra, e todos eram unânimes em admitir que nunca tinham visto nada comparado com aquele barco, era realmente especial.

Um dia, chovia torrencialmente, a água em abundância escorria pelas ruas e formava correntezas nos bueiros e canaletas ao lado das vias públicas, pareciam lagos, para uma mente de criança cheia de aventuras, eram mares em fúria, e foi assim, para saciar a sede de aventuras e para testar seu maior feito que ele pegou o lindo barco e colocou debaixo do braço e se encaminhou para a rua, procurou o local onde a água estava em maior quantidade, e encontrou uma poça enorme, perto de uma pequena ladeira, o fluxo da água era pequeno para a quantidade que se acumulava aí, logo, havia bastante água.

Ele colocou o precioso objeto na água, com um misto de ansiedade e preocupação, queria ver se seu invento se portaria da forma que ele planejara, mas tinha medo que algo o estragasse. O barquinho balançou de um lado para o outro, assim que tocou na água, mas portou-se bem, era perfeito, flutuava sem problemas.

Absorto em admiração, ele não se deu conta que o barquinho dirigia-se perigosamente para uma canaleta que ladeava uma escadaria, e que se entrasse ali, ele dificilmente o alcançaria. Foi exatamente o que aconteceu, quando o fluxo da água puxou o barquinho para aquela descida, ele tentou esboçar uma reação, mas já era tarde, o barquinho descia velozmente por aquela canaleta, ele levantou-se e correu em desabalada carreira, no meio da chuva, da lama, os olhos se fechando por conta da quantidade de água em seu rosto, de repente o barquinho sumiu, havia caído dentro de um bueiro, e certamente estava sendo levado por correntes subterrâneas para algum córrego distante.

Ninguém pode imaginar o quão destroçado ele ficou, perdera alegria da vida, perdeu a vontade de esculpir de novo, perdeu o prazer de olhar os objetos que fizera, as madeiras, algumas de boa qualidade se empilhavam no seu quarto, nem olhava para elas, todos os dias seu pai trazia uma nova, queria trazê-lo de volta daquela apatia, mas parecia inútil.

Meses depois, andava aleatoriamente no comércio da cidade, tinha ido à contragosto com a mãe para comprar presentes de Natal, seu olhar vago, pulava de uma vitrine à outra sem demonstrar o mínimo interesse, até que parou defronte a uma loja de brinquedos, seu olhar parecia de vidro, tudo estava inerte e desinteressado, porém sua atenção foi capturada de forma instantânea, depositado sobre um expositor, dentro de uma vidraça estava o mais belo barco de madeira que ele já vira, imponente, proa em riste por conta da posição que se encontrava, uma luz no teto da vidraça ressaltava ainda mais os seus detalhes, suas cores e formas. Ficou encantando, entrou tomado de ansiedade e nervosismo, pediu para ver o barco, tomou-o em suas mãos, nem ouvia nada, nem via mais nada, virou diversas vezes até que teve certeza, era o seu barco perdido.

Virou-se para o vendedor da loja e já foi decretando, do alto da inocência de um garoto que ainda não foi apresentado ao mundo dos adultos:

- Esse barco fui eu que fiz, eu o perdi na chuva, ele caiu num bueiro, agora eu o encontrei, vou levá-lo comigo.

O vendedor perplexo com aquela revelação, sem saber exatamente o que fazer, tira o barco das mãos da criança e proclama no mesmo tom:

- Não duvido que tenha feito, mas esse aqui foi comprado de um fornecedor, e a menos que pague o valor de R$ 300,00, ele não sairá desta vitrine.

Convencer um garoto que perdeu um barco a pagar pelo mesmo não seria uma tarefa fácil, saiu da loja arrastado pela mãe, sua desolação era total perdia o mesmo barco pela segunda vez.

Quando o pai chegou do trabalho, com mais uma tora de madeira, correu chorando ao seu encontro e gritou que havia encontrado o barquinho, que ele deveria ir buscá-lo, já que sua mãe havia se negado a retirar o objeto da loja.

O pai sentou, ouviu toda a história que a mãe contou e pôs um fim definitivo à história:

- Não é correto ir lá e pegar este barquinho, mesmo que saibamos que foi você que fez, vou todos os dias trabalhar um pouco mais, vou juntar dinheiro, no fim do mês eu lhe dou o valor total e você poderá ir à loja e pegar o seu barquinho.

Isso resolvia em parte o problema, faltavam mais de 15 dias para o fim do mês, será que o barquinho iria ficar aquele tempo todo esperando por ele?

No outro dia, assim que voltou da escola foi à loja e pediu que o vendedor reservasse o barquinho para ele, o vendedor disse que poderia por um dia, mas não por quinze dias. Ele então passou a vigiar o barco todos os dias, ficava na frente da vitrine o dia todo, quando algum cliente demonstrava interesse pelo barquinho, ele o dissuadia apresentando defeitos que só ele mesmo via, dizia às vezes que a madeira mão prestava, que iria rachar, isso durante quinze dias, quinze longos dias.

No último dia do mês, quando já não suportava a ansiedade que o consumia, viu seu pai entrar em casa, com o semblante abatido e cansado, fruto das longas jornadas que fizera nos últimos dias, sentar no sofá, olhá-lo nos olhos e colocar a mão no bolso da camisa e lhe entregar algumas notas surradas de dinheiro, com o adorno da frase:

- Vá buscar o seu barco!

Nenhum criança foi mais feliz naquele dia que aquele garoto, saiu em desabalada carreira em direção à loja, esta ainda estava aberta, todos os funcionários estavam cientes do drama daquela criança, e resolveram estender o horário de atendimento naquele dia, todos fingiam estar ocupados, mas acompanhavam emocionados quando aquele menino entrou na loja, foi ao caixa, depositou as notas sobre o balcão e disse com voz embargada:

- Eu vim buscar meu barquinho!

Todos queriam atendê-lo, o misto de alegria e emoção havia tomado a todos, os que não choravam, enxugavam discretamente as lágrimas furtivas.

Com os olhos marejados de lágrimas quentes, que mais pareciam grossas gotas de mercúrio, que rolavam por sua face, toma o barquinho entre as mãos, olha cada detalhe, cada mínimo detalhe e pronuncia com voz embargada de emoção:

- Barquinho você agora é meu duas vezes, primeiro porque eu te fiz, segundo porque eu te comprei!

A quem pertencemos duas vezes?

[Escutei esta estória quando eu tinha pouco menos de 10 anos, depois disso que nunca mais ouvi-la, eu mesmo a contei várias vezes, resolvi registrá-la para que não se perca].

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