Mais um feriado?



Sábado à noite (19), após ver meu Sport massacrar o Paraná e entrar no grupo dos quatro (G4) que terão acesso à Primeira Divisão do futebol brasileiro, peguei um calendário para programar o meu fim de ano, já que terei que enfrentar grandes mudanças ainda este ano. 2011 foi um ano inusitado para mim, afinal de contas eu comecei o ano numa empresa e terminarei (a tentação de gerundizar: “estarei terminando” é imensa, mas, como não sou atendente de call center, eu vou utilizar a forma da norma culta!) em outra, isso sem contar que ainda trabalhei numa terceira empresa no intervalo entres as duas citadas, além de outras tantas mudanças em minha vida pessoal.

Constatei que teremos em Dezembro mais dois feriados: 25, que cairá num domingo e dia 08, que será numa quinta-feira, dia da Imaculada Conceição de Maria, feriado em várias cidades, inclusive em Recife, onde moro.

Aí curiosamente fiz uma conta rápida, bom, pelo menos o MS Excel ajudou a ser rápida: dos 365 dias de 2011, após a subtração dos 52 domingos, restariam 313 dias para serem efetivamente trabalhados, caso a atividade desenvolvida não seja exercida aos sábados, teríamos 53 dias a menos, já que, inusitadamente, o ano começou num sábado e vai terminar noutro, o que nos deixaria com 260 dias, caso não ocorram absenteísmos, potencialmente produtivos, ou seja, 71,23% apenas de aproveitamento do ano, um índice, ao meu ver muito baixo. Espere, eu esqueci os feriados! bom vamos lá então:

Foram ao todo 16 feriados em Recife, 4,38% de folga anual, exceção apenas de 06/03, Dia da Revolução Pernambucana e 1º de Maio, que caíram no domingo, e 25 de dezembro, que também cairá no domingo, ainda assim, tivemos o dia 14/11 que foi assassinado por muitos e o dia 09 de Março, quarta-feira de Cinzas que no nordeste é feriado branco, pois o índice de absenteísmo é altíssimo neste dia.

Logo, com esses 13 feriados, ficamos então com 247 dias úteis na cidade, atingindo um percentual de 67,68% de dias produtivos. No município vizinho, Cabo de Santo Agostinho, ainda existe mais um feriado: 31 de Outubro, Dia da Consciência Evangélica, ou seja, foi feriado na segunda (31), alguns trabalharam no dia 01 (terça) e na quarta-feira (02) o município fechou de novo. E ainda reclamam quando as empresas querem ir embora da cidade e do estado. Alguns setores defendem ainda a criação dos feriados estaduais de 31 de outubro, Dia da Consciência Evangélica, mormente que neste dia se comemora a Reforma Protestante, e o Dia da Consciência Negra em 20 de Novembro, ou seja, mais dois dias para que folguemos ou tenhamos que dar folgas.

Sem levar em consideração os encargos trabalhistas, que podem encarecer em até 86% do salário pago ao funcionário, podemos fazer outro exercício mental e constatar que um funcionário que ganha R$ 600,00 reais por mês, ganharia ao ano R$ 7.200,00 caso tivesse descontados todos os feriados e folgas semanais, teria recebido apenas R$ 4.872,33, o que equivaleria a um desconto de R$ 2.327,67 para um empregador, longe de mim defender este desconto, o que eu acho estranho é que nem o governo, nem a igreja, os principais criadores e beneficiários dos feriados queiram pagar a conta desta festa. Aí é que o caldo engrossa.

Destes feriados que eu listei, temos, pela ordem os seguintes feriados cívicos: 06 de Março, Revolução Pernambucana (feriado estadual), 21 de Abril, Dia de Tiradentes, 07 de Setembro, Independência do Brasil e 15 de novembro, Proclamação da República (todos feriados federativos).

Fica fácil listar então os feriados religiosos: 22 de Abril, Sexta-feira da Paixão, 24 de Junho, São João, já que no nordeste não se comemora o Corpus Christi, opta-se pelo caráter mais festivo que religioso do dia de São João, 15 de Junho, Senhora do Carmo, padroeira do Recife, 12 de Outubro, Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, 02 de Novembro, Dia de Finados, 08 de Dezembro, Senhora da Conceição, padroeira do Recife (Recife tem a honra de ter duas padroeiras!) e 25 de Dezembro, Natal de Jesus Cristo. Ou seja, 07 (sete) feriados religiosos, e nenhum é consenso entre as religiões praticadas no país, nem mesmo os feriados maiores (Natal e Páscoa) são aceitos por todos, muitos respeitam a figura de Jesus como profeta, mas não o consideram divino, e a Páscoa, ainda que guardada por cristão e judeus, muito embora por vieses diferentes, ainda deixa um séquito de religiões para trás que não aceita as razões para tal reserva do dia.

Deixei de fora alguns outros dias como São José, São Pedro, etc, que numa ou noutra cidade acabam sendo guardados, já que cada cidade tem direito a possuir um padroeiro.

Então eu fico me perguntando, estamos ainda no tempo do Padroado Português? O Brasil é de fato um estado laico? Respostas simplistas às estas perguntas não satisfazem e nem condizem com a realidade dos fatos. Dizer que o Brasil não vive mais na época do padroado não responde satisfatoriamente, caso isso fosse verdade, então por que temos ainda padroeiros e padroeiras? E responder que somos um estado laico não explica o fato de que, nem o parlamento, nem o executivo, exercem a nossa laicidade com o banimento de alguns desses feriados. Qual congressista teria coragem de propor a redução de 05 desses feriados e a adoção de um dia apenas por ano para comemorações religiosas? Dou minha cara à tapa se isso não levaria à derrocada do parlamento, o Brasil entraria numa guerra de poderes, com boicotes e protestos espalhados por todo o país.

Falam que precisamos respeitar a fé do povo, bom, dentro de alguns anos o catolicismo não será mais maioria no país, já não o é hoje, pois a quantidade de católicos nominais e maior do que a de praticantes, e o que será feito então? Teremos ainda feriados de padroeiros e padroeiras num estado de maioria evangélica? Ou será que escolheremos a solução mais fácil de criarmos dias feriados que agradem aos evangélicos? Multifacetado e desunido como é o protestantismo no Brasil, difícil vai ser escolher o dia que seria consenso, nem mesmo 31 de Outubro seria aceito unanimemente.

De resto o que eu tenho a dizer é que o excesso de feriados não ajuda em nada ao país, às empresas e aos trabalhadores e que os feriados religiosos, que no Brasil são todos de conotação católica, são um desrespeito a quem não comunga desta fé, ser obrigado a “folgar” no dia santo é a mesma agressão que obrigar os católicos de países de maioria islã a “guardarem” o Ramadã!

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