Ler ficção para entender a realidade!


Foi por meio de duas obras de Brennan Manning (O impostor que vive em mim, tradução brasileira de Abba's child, publicada pela Mundo Cristão em 2006 e Falsos, metidos e impostores, tradução de Posers, fakers and wannabes que é uma versão juvenil do primeiro, também publicada pela Mundo Cristão:2008), uma de Philip Yancey (Rumores de outro mundo, tradução de Rumors of another world, publicada pela Vida, 2004) e uma de Eugene Peterson (Trovão Inverso, tradução de Reversed Thunder publicado por Habacuc, 2005) que eu fui apresentado “oficialmente” à Flannery O’Connor.

A frequência com que ela era citada nas obras que listei, noutras dos mesmos autores e ainda em outros tantos livros que li, de autorias as mais diversas, que eu não citei aqui, aguçou a minha curiosidade, além do mais, as citações eram sempre qualitativas e corroborativas, numa palavra, todos lhe eram simpáticos. A tríade de autores a qual me referi no inicio, além de ser composta de grandes escritores da atualidade, contribuiu bastante para a minha formação espiritual, já que li todos os livros dela que me chegaram às mãos, isto significa dizer mais de 40 títulos, e por isso, por considerar o pensamento de cada um relevante, que eu tive a curiosidade exponenciada pelas obras de Flannery, se um padre católico com forte vocação para o álcool, casado e divorciado, um tolerante episcopal, ex-batista fundamentalista, de origem racista e preconceituosa e um teólogo presbiteriano de tão larga erudição que traduziu uma versão da Bíblia para sua própria meditação, garimpavam (devo esta conotação ao saudoso Mestre Othon Dourado do Seminário Presbiteriano do Norte em Recife) os escritos dela em busca de algo que tivesse significado, eu que os lia com avidez deveria portanto fazer o mesmo, se ela alimentava as ideias deles e eles alimentavam as minhas, nada mais natural que procurasse a fonte onde bebiam.

Foi assim então que comprei Contos completos (Cosacnaify:2008, 715 páginas), a primeira vez que tive este volume em minha mãos, o contemplei com uma fleuma sacerdotal, virei-o para olhar a contracapa e só então o abri com uma devoção incomparável. Desde então li duas vezes este livro e iniciei recentemente a terceira leitura. E a cada leitura um mundo novo se descortina diante de meus olhos que já não são mais olhos de marinheiro de primeira viagem.

O mundo protestante brasileiro precisa conhecer a católica estadunidense Flannery O'Connor, não apenas por ser tão citada por expoentes literários modernos, mas, principalmente, pelo mundo de relações densas (permeado de hipocrisia e preconceito, com personagens complexos, que ela enclausurou, muito bem, num universo religioso tão sui generis quanto caricaturesco, estereotipando-os), que ela pinta nas páginas de seus contos, tal como um pintor faria em suas telas por meio de um pincel. O resultado é magnífico, a sua obra é como um grande painel daqueles que vemos em alguns museus e pinacotecas, para poder apreciá-lo devidamente, temos que nos aproximar com cuidado para entender os detalhes, mas temos também que nos afastar para contemplar o todo e poder assim encaixar cada peça em seu devido lugar. Isso ajudaria com certeza ao ethos protestante brasileiro tão diverso (e tão sem consciência do seu papel e da diversidade interna, a ponto de não podermos chamá-lo de protestantismo, mas sim de “protestantismos”), a descobrir caminhos que permitam o exercício de uma espiritualidade sadia, diversa e inclusivista, com resposta à altura dos anseios do homem moderno, sem que com isso perca de vista os marcos bíblicos.

Mary Flannery O'Connor nasceu no sul dos Estados Unidos, em Milledgeville na Geórgia (a mesma Geórgia de Ray Charles em Georgia on my mind, que se tornou o hino do estado), em 1925, era filha única de pais católicos, descendentes de imigrantes irlandeses, isso por si só já diz em que tipo de catolicismo ela foi criada. A sua formação em Sociologia e Inglês, em 1945, e o posterior programa de Mestrado em Criação Literária na Universidade do Estado de Iowa que cursou, a capacitaram a enxergar aquele universo em que habitava de uma forma muito particular e específica. A cidade em que nasceu tinha pouco mais de 10.000 habitantes, acompanhando a tendência do estado, e da região em que estava inserida, era uma cidade de maioria branca, protestante e rural, com investimentos altíssimos na agropecuária. O estado possuía mais de de 50 mil fazendas, que ocupavam aproximadamente 30% de todo o território. A economia da região agiu sobre a formação do povo e até mesmo sobre aspectos religiosos, como cultivavam o algodão, arroz e milho, necessitavam de mão-de-obra barata, e isso só podia ser equacionado com a escravidão, no período em que Flannery nasce a abolição já tinha acontecido, porém as consequências de centenas de anos de escravidão tinham impingido na sociedade marcas que outras centenas de anos seriam necessárias para que reconciliassem tantas divergências, e isto é bastante exposto e explorado na obra de Flannery, sendo um dos seus temas subjacentes.

A sua vocação literária foi se revelando aos poucos desde a sua infância, quando passou a colaborar com o jornal da escola com artigos e desenhos satíricos. Quando tinha apenas quinze anos ela perde o pai, que foi vítima do lúpus, uma doença infecciosa do sangue, de caráter hereditário. Quando ainda estudante de sociologia ela já era atuante nos veículos literários do Georgia State College for Woman, e por conta de suas talentosas publicações se tornou conhecida do escritor Robert Penn Warren e de editores de uma revista literária, que abriram-lhe caminho para suas primeiras publicações. Após a graduação passou a lecionar e em 1952 publicou seu primeiro romance Wise blood (que foi para o traduzido para o português por José Roberto O’Shea e recebeu o título de “Sangue sábio”.

É esta católica branca tentando sobreviver numa região dominada pela maioria branca protestante e democrata, uma verdadeira remanescente (o catolicismo representava menos de 8% da população) numa região em que o fundamentalismo se propagou com facilidade e onde a famigerada Ku Klux Klan plantou suas sementes de ódio, racismo e preconceito que pode exercer uma influência benéfica sobre a mente protestante brasileira.

Ela utiliza-se de forma magistral de diversos elementos, alguns de forma contraditória, do sul dos Estados Unidos e cria um mundo ficcional, mas nem tanto, onde ambienta a sua obra, utiliza ainda, habilmente, diga-se de passagem, da violência que era comum à região como instrumento para provocar no leitor respostas aos seus questionamentos sub-reptícios (ou seja, furtivos), choca com a realidade de sua ficção, porém ainda que provoque continuamento o leitor branco e protestante, ela diverte este mesmo leitor ao apresentar o lado mais grotesco possível de seus personagens caricatos.

Em 1964, quando só contava com 39 anos morreu de lúpus, a mesma doença que vitimou seu pai, foi uma das mais curtas e ricas carreiras literárias que se tem notícia, ela escreveu mais um romance, três volumes de contos e ensaios. E se tornou reconhecida como uma das maiores contistas de todos os tempos, recebendo por isso a honra de figurar entre os principais escritores contemporâneos, sendo comparada, não sem motivos, com William Faulkner, um grande nome da literatura mundial e, o maior nome da literatura do sul dos Estados Unidos.

Num evento que abordou a dificuldade de escrever literatura secular e conciliar isso com uma fé credal ela disse: “... O romancista e o crente, quando não são o mesmo homem, ainda mantêm muitos traços em comum – uma desconfiança do abstrato, um respeito pelos limites, um desejo de penetrar a superfície da realidade e de encontrar em cada coisa o espírito que o faz ser o que é e sustenta o mundo unido. Mas eu não acredito que tenhamos uma grande ficção religiosa até que tenhamos de novo a feliz combinação de um artista crente e uma sociedade crente. Até que chegue esse tempo, o romancista terá de fazer o melhor que puder no trato com o mundo que tem. No fim, ele pode constatar que, em vez de refletir a imagem no coração das coisas, ele apenas refletiu nossa condição decaída e, por meio dela, a face do mal pelo qual estamos todos possuídos. É uma realização modesta, mas talvez necessária.” Veja O romancista e o crente.

Isto nos deixa com muita coisa para pensar, muita mesmo: como ter uma visão realista do universo que nos cerca, sem perder de vista as relações que se dão em seu interior e ao mesmo tempo como criar um outro “mundo possível” apresentando uma outra realidade que não seja utópica, sendo moldada por preceitos bíblicos? Como ter fé num mundo hipócrita e cruel? Como ter fé num mundo racista e preconceituoso? Como preservar a Imago Dei num ser falível, sem deixar que as falhas humanas o tornem uma mera caricatura daquilo para o que foi criado? É um longo caminho a percorrer, fica mais fácil usando a bússola de Flannery, seja seguindo suas lições, seja não seguindo os seus personagens.

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