Um "rumor" de lealdade!


Em Rumores de outro mundo (Vida:2004), tradução do original inglês: Rumors of another world, Philip Yancey defende a teoria, que eu denominaria de “fronteiras da fé” usando seus próprios termos, de que alguns fatos e acontecimentos cotidianos são fagulhas de verdades eternas e transcendentes que a Queda não conseguiu apagar de todo da raça humana, este livro, que li por duas vezes, tendo terminado a segunda leitura em agosto de 2009, me trouxe muitas lições na área da espiritualidade e muito no que refletir e pensar na área teológica. Depois que “ruminei” o livro por vários meses, consciente ou inconscientemente, fiz uma colação (Termo que significa o confronto de uma cópia de um manuscrito com outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para a escolha do texto exato. Ver Crítica Textual do Novo Testamento de Wilson Paroschi Vida Nova:1993) da teoria de Yancey com as teses de Don Richardson apresentadas em Fator Melquisedeque, um dos melhores livros de missiologia que tive a oportunidade de ler, devo ter terminado a sua “degustação” por volta de 1988, quase 20 anos antes de ler o livro de Yancey, quando ainda estava estudando o primeiro ano no primeiro seminário, dos três que cursei, porém o ruminei por muitos anos ainda.

Após esta síntese, passei então a enxergar com outros olhos as histórias e estórias de culturas antigas, mormente as não cristãs, em busca destes lampejos e rumores que são, no entender destes autores, sopros da verdade que o Espírito Santo preservou nestas culturas. Recentemente (2011) pude assistir por duas vezes Para sempre ao seu lado com Richard Gere, tão logo passou a emoção que a película me transmitiu, percebi que se tratava de um desses rumores. A história, que é baseada em fatos verídicos, se deu no Japão do começo do século passado e condensa elementos fortíssimos de algo que só pode ser explicado sobrenaturalmente. Convido-o(a) a me acompanhar nesta viagem e comprovar se tenho razão ou não.

Este “rumor” se tornou manchete (“Velho e fiel cão espera pela volta do dono por dez anos”) na primeira página do conceituado jornal japonês Asahi Shinbum, na edição de 4 de Outubro de 2009 (Coincidentemente o dia em que a cristandade ocidental reservou para Francisco de Assis, considerado o Protetor dos Animais), por meio dela, que sintetiza toda uma vida, somos guiados e ajudados a entender o que de fato aconteceu e quais os desdobramentos que teve. O filme com Gere, a qual me referi, que é intitulado no original como: Hachiko: A Dog's story (2009) é uma refilmagem de um filme japonês de 1987.

Hachiko, que indubitavelmente, é o principal personagem desta história, nasceu em novembro de 1923 e quando ainda era um pequeno filhote foi enviado como presente para um professor do Departamento Agrícola da Universidade de Tóquio, o Profº Hidesaburo Ueno que morava em Shibuya, este acalentou por muitos anos o sonho de ter um cão Akita, esta raça sempre gozou de alta estima e valor para a sociedade japonesa por suas características tão peculiares e incomuns que serão expostas mais à frente, porem à época, se encontrava em vias de extinção.

Paulatinamente a amizade e a convivência entre o cão e o dono foram se transformando em amor e respeito de ambas as partes, e duas coisas, dentre outras, evidenciavam essa relação tão profunda: o costume adquirido por Hachi de sempre, invariavelmente, acompanhar o Profº Hidesaburo até a estação onde este tomaria um trem com destino à Universidade, depois que se despedia, na entrada da estação, voltava para casa, e em segundo lugar é que Hachi parecia ser dotado de um dispositivo interno, algo como um timer, que o fazia ir sozinho à estação de trem esperar o dono sempre por volta das 15h00, sem nunca se atrasar e sem nunca faltar, não importava como ele estava, não importavam as adversidades climáticas, quer chovesse, nevasse ou fizesse sol, lá estava ele esperando o professor à porta da estação, para que os dois pudessem voltar juntos para casa.

Depois de quase dois anos de amizade crescente e convivência intensa, em maio de 1925, o professor Hidesaburo durante uma aula na universidade veio a falecer, e infelizmente, jamais retornou vivo para a estação de trem onde Hachi o esperava.

Neste ponto da história, o filme japonês apresenta uma cena muito comovente, e talvez a mais comovente da história, Hachi é filmado atravessando a sala da casa durante o velório do professor e como único recurso para demonstrar sua dor e perda começa a uivar, depois, sem saber o que estava acontecendo, é filmado acompanhando o carro que conduz o féretro do professor.

Ainda que haja divergência sobre os fatos que se passaram após a morte do professor (Na história os parentes e amigos dos Ueno cuidaram de Hachi, já no filme o cão acabou se transformando em uma espécie de ‘estorvo’, uma triste lembrança para toda a família, de algo que eles talvez não quisessem lembrar), o que importa na verdade, o fato que é o mais relevante da história, é que não havia nada que o impedisse, fome, doença, frio, chuva, neve ou sol, etc. de aparecer pela manhã na antiga casa dos Ueno, e de lá se dirigir à estação de trem, como sempre fizera por dois anos levando o professor, e no final da tarde se posicionar defronte à saída da estação, sempre por volta das 15h00, “britanicamente”, na esperança de reencontrar seu dono.

Sua presença na estação já tinha sido notada por todos os que a frequentavam, sejam passageiros, sejam funcionários da companhia de trem, sejam comerciantes que atuavam nas redondezas, porém, após a morte de Hidesaburo, que era bastante popular e querido na comunidade, ela se tornou bem mais famosa por sua postura empertigada de espera e pela constância com que fazia aquilo, alguns vendedores que comercializavam no acesso à estação e os antigos amigos de Hidesaburo se revezavam levando comida e água para Hachi, parecia que aquilo era dado como um tributo, era o mínimo que podiam fazer pelo cão, de uma lealdade e fidelidade ímpares, que sempre voltava para esperar pelo dono que, ele parecia não se dar conta, nunca voltaria.

Esta espera, quase uma devoção religiosa, durou exatamente longos 10 anos, que representavam mais do que 10 anos para um cão, em virtude de sua vida nem tão longeva quanto a humana. Não foi surpresa quando em 1932 a história de Hachiko tornou-se conhecida por meio das páginas dos jornais japoneses, e essa história quando difundida, (Que apresentava um cão da raca Akita de uma lealdade ao dono que transcendia até mesmo a limitação inexorável que a morte impunha), serviu de estopim para um movimento que defendia a raça Akita. No Japão eram catalogadas apenas 30 espécimes vivas, uma matilha diminuta de um animal tão valioso. Ocorreu uma verdadeira revolução que se alastrou como uma febre, tomando a lealdade do cão e sua amizade inconteste como exemplo foi estimulada a reprodução e cuidados para evitar a extinção plena foram tomados, com sucesso incontestável, haja vista que a raça hoje não mais enfrenta o risco da extinção. Como reconhecimento à tamanha lealdade em 1934 foi erigida uma estátua de bronze de Hachiko, a mesma foi destruída pelos próprios japoneses durante as inúmeras batalhas da Segunda Guerra, em 1948, durante a reconstrução do país, foi erigida uma nova estátua, que permanece até hoje defronte a estação de Shibuya, na posição empertigada de espera que o caraterizou para sempre e por meio da qual sempre será lembrado.

Quando enfim morreu em 1935, Hachiko, então sentindo o peso dos 12 anos de vida, dos quais 10 foram de expectativa em vão, estava em algum esconderijo habitual próximo à estação de trem, ainda esperando pelo seu dono. E aí o filme presta um tributo ao Hachi numa cena bastante comovente: Ele enfim reencontra o seu dono após tanto tempo, óbvio que isso é uma licença poética, mas não deixou de ser cativante ver este encontro tão esperado por aquele leal cão.

Até hoje é realizada anualmente, todo dia 8 de Abril, uma cerimônia solene na área frontal da estação de trem, em homenagem à história do cão mais leal que a história já registrou. Nada mais justo!

A história não podia ter um final feliz, o que talvez fizesse com que a mesma fosse uma bonita e alegre história, porém, o conceito de beleza não está associado ao conceito de felicidade, algo pode ser muito triste, mesmo assim muito belo, bela ainda que triste e triste ainda que bela. Esta é uma das mais belas histórias verídicas que eu conheço.

Mas não é pela beleza, nem pela tristeza que a reputo por um “rumor de outro mundo”, mas sim por ser a mais densa metáfora de lealdade, de expectativa e esperança que eu conheço. Se um cão, que não é dotado de razão e nem possui em sua integralidade nenhuma parte espiritual, é capaz de ter uma atitude dessas, o que dizer daquele ser que foi formado à Imago Dei?

Esta é minha "opinião de segunda", na próxima segunda-feira eu posto o resultado daquilo que vou "maltrapilhar" e ruminar durante a semana!

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