Qual é a tolice da inteligência brasileira?


Acabo de ler o livro de Jessé Souza e vou arriscar fazer um resumo de sua tese principal.

Indo direto ao ponto, a ideia síntese do livro é que todas as sociedades modernas são iguais, uma vez que foram forjadas pelas mesmas instituições – Estado burocrático e mercado capitalista. Assim, sociedades de países como, Japão, EUA, Alemanha, França, Inglaterra, ou mesmo, Paraguai, Brasil, Argentina, México, Guatemala, etc; são, modernamente falando, idênticas.

Mas como provar que essas sociedades são iguais?

Uma forma (creio eu) seria acompanhar o desenvolvimento dos filhos das famílias mais ricas e mais pobres em todos esses países, citados como exemplo.

Após um bom período de acompanhamento, uns trinta ou quarenta anos, supõe-se que em todos os países haveria uma correlação positiva (estatisticamente significativa) entre a riqueza das famílias e a “qualidade de vida” dos filhos quando adultos. Confirmada essa hipótese, seria possível afirmar que, sob esse aspecto, todas as sociedades modernas são iguais. Ou seja, todas são reprodutoras de desigualdades socioeconômicas.

Porém, poderia haver outro resultado para o teste acima proposto. Nele, os países se dividiriam em dois grupos. Um grupo apresentaria o resultado acima e o outro, um distinto. Nesse último grupo de países, os filhos das famílias mais ricas, quando adultos, teriam as mesmas chances que aqueles das famílias mais pobres de serem, por exemplo: garçons, motoristas de ônibus, balconistas, bombeiros, jardineiros, etc. E, os filhos das famílias mais pobres teriam, estatisticamente falando, as mesmas chances de serem, por exemplo: banqueiros, CEOs, empresários, juízes, embaixadores, etc.

No caso desses países, eles seriam meritocraticamente perfeitos, isto é, a riqueza dos pais e as oportunidades oferecidas a seus filhos de estudar nas melhores universidades do mundo, frequentar certos clubes, viajar frequentemente ao exterior, aprender uma ou mais línguas estrangeiras, frequentar teatros, museus, etc., seria estatisticamente insignificante para determinar a “qualidade de vida” de seus filhos quando adultos (leia-se, para galgar uma carreira de ponta no mercado ou na burocracia estatal).

Como se pode perceber a probabilidade dessa última hipótese ser verdadeira é muito pouco provável, quiçá ocorra nos países escandinavos. Mais à frente se verá por que.

Feita essa observação e retomando a ideia de ser verdadeira a hipótese inicial, pode-se dar mais um passo na definição da igualdade entre os países modernos, afirmando que não há diferença valorativa entre suas sociedades. Todas são meritocraticamente imperfeitas. E aí está o conteúdo da definição de igualdade: a total identidade entre suas subjetividades (ou todas sociedades modernas são boas/melhores ou ruim/piores - você escolhe, mas seja coerente).

Diante dessa constatação, se deduz que todas são portadoras dos mesmos vícios que impedem o desenvolvimento pleno da meritocracia, que pressupõe um ponto de partida comum de modo que o esforço e a capacidade de cada indivíduo prevaleçam sobre os demais fatores. Esses vícios, que poderiam ser chamados de “doenças” modernas, foram cientificamente conceituados como: patrimonialismo, compadrio, personalismo, etc. Vulgarmente, eles são “denunciados” como: corrupção, jeitinho, indolência, etc.

Nessa hora, os mais apressados questionarão em tom irônico e professoral.
- Ah, então quer dizer que não há diferença entre as sociedades modernas?
- Há.
- A diferença é o tamanho da desigualdade entre a riqueza das famílias e, consequentemente, a gravidade de suas “doenças”.
E aqui vale a pena abrir um parêntese para tratar dos anteriormente mencionados países escandinavos. Nessas sociedades, devido a baixa desigualdade entre a riqueza das famílias, talvez, os méritos pessoais possam se sobrepor a todos os outros fatores (vale lembrar que, se todos nascem iguais, porque os filhos das famílias mais ricas é que teriam, em média, quando adultos, melhor “qualidade de vida”?). A partir desse ponto, se deduz também que o resultado dessa estrutura social menos desigual gera um maior aproveitamento dos recursos humanos e, consequentemente, um maior desenvolvimento dos países escandinavos em relação a outros.

Fechado o parêntese, retoma-se novamente a hipótese original para se acrescentar a ela outro fator decisivo. Segundo esse novo fator, quanto maior a incidência de famílias abaixo da “linha de pobreza” (“ralé” JS), mais estatisticamente significativa será a correlação entre a riqueza dos pais e a “qualidade de vida” dos filhos, quando adultos.

Isso ocorre porque as pessoas só conseguem desenvolver valores modernos, como por exemplo, “autocontrole, disciplina, pensamento prospectivo” (JS), se tiverem acesso a um mínimo de bens e serviços que lhes permita participar (dentro e fora das famílias) de uma vida moderna. Do contrário, estarão fadadas a não desenvolverem esses valores. E, desse modo, não poderão contribuir com o desenvolvimento de um país moderno – um Estado burocrático eficiente e um mercado capitalista dinâmico.

Pegando um gancho nesse fenômeno relativo a “ralé”, pode-se expor outro, que ocorre com a classe dos “batalhadores” (JS) – pobres que acessam a modernidade no contexto de uma sociedade extremamente desigual. A grande parcela de “batalhadores”, mesmo quando for mais capaz e dedicada que a média da sociedade moderna, por ser relativamente muito mais pobre (em relação a minoria de classe média), não é capaz de romper a imensa barreira imposta pela desigualdade socioeconômica (acesso a educação de qualidade, cultura privilegiada, viagens, exemplo dos pais bem sucedidos, etc.).

Devido a esse fator, apesar de seus méritos, os “batalhadores” não conseguem (estatisticamente falando) ocupar posições estratégicas na sociedade e, por conta disso, não contribuem à altura de seu potencial com o desenvolvimento do país.

Por fim, pode-se dizer que essa “dupla desigualdade” (uma grande “ralé” que não acessa a modernidade, e um grande número de “batalhadores” em condição de extrema desigualdade) tende a se retroalimentar, produzindo ao longo do tempo uma espiral perversa. Algo que somente poderá ser interrompido por uma ação pública, através da única instituição moderna capaz de fazer isso – o ESTADO.

Agora, a pergunta que não quer calar: onde está a tolice da inteligência?

Antes de expô-la, vale a pena recapitular. Toda sociedade moderna possui “doenças” geradoras de desigualdades. Em alguns países há uma “dupla desigualdade” que tende a se retroalimentar perpetuando-se de maneira historicamente perversa. Isso gera um Estado ineficiente e um mercado pouco dinâmico e, consequentemente, um baixo desenvolvimento socioeconômico expresso em PIB e/ou renda per capta.

Dito isso, se conclui que a tolice dos “inteligentes”, “colonizados até o osso” (JS), é ver esse problema histórico, de um desenvolvimento socioeconômico relativamente baixo, como próprio das pessoas destas sociedades e não como resultado da estrutura extremamente desigual e excludente de distribuição da riqueza (acesso a bens e serviços) entre as pessoas.

A tolice, portanto, é confundir causa (desigualdade extrema associada a “pobreza extrema”) com a consequência (reprodução crônica e ampliada das “doenças” modernas). Por conta dessa confusão, os tolos (vale a pena repetir, “colonizados até o osso”) acabam vendo subjetividade, ou seja, sociedades melhores, onde na verdade existe objetividade, isto é, sociedades estruturalmente menos desiguais.

Por fim, para aqueles que insistem em serem “colonizados até o osso”, pode-se dizer ainda que essa leitura equivocada não é privilégio dos brasileiros, trata-se de um fenômeno mundial. A maioria dos cientistas sociais vê a modernidade como uma “fábula para adultos” (JS), que pode ser descrita como fruto de uma benção divina. Desta feita, algumas sociedades, por serem abençoadas, têm pessoas boas que são recompensados com riquezas. Outras, entretanto, não são abençoadas e têm pessoas más, merecendo como castigo a pobreza.

Essa interpretação dos tolos, ou espertos (a minoria muito rica, beneficiária direta da estrutura desigual da sociedade) faz crer que o brasileiro, não abençoado, é corrupto por natureza. Além disso, faz crer também que o âmago da corrupção está no Estado (vale repetir, única instituição moderna capaz de intervir na estrutura socioeconômica a ponto torná-la menos desigual).

Como ninguém é dominado se não aceitar a dominação como algo bom ou, na melhor das hipóteses, necessário devido a sua inferioridade moral em relação ao dominador, a divulgação massiva desse conto da carochinha é de fundamental importância. Daí o papel dos meios de comunicação de massa como um instrumento imprescindível para aqueles, no topo da pirâmide social, beneficiários diretos de uma desigualdade que se reproduz de forma ampliada, fazerem a sociedade brasileira crer que ela é indolente e corrupta. Devendo, por isso, aceitar de bom grado as orientações e intervenções dos “melhores” países, ou das pessoas que lá estudaram.

Por último, o mais importante. Esses meios de comunicação são imprescindíveis também para servirem como uma espécie de alter ego da sociedade brasileira, repetindo, ad nauseam, que se deve negar a política (os políticos e seus partidos), bem como repudiar o poder do Estado – lócus de todo mal. - É lá que mora o bicho papão, ops!, a corrupção!

Diz-se isso, porque enfraquecer a participação política (especialmente da parcela intermediária da população, mais capaz de assumir o poder do Estado) é imprescindível para a existência de um poder estatal (legislativo e executivo) pouco representativo e/ou frágil, de modo que seja incapaz de alterar a estrutura desigual de apropriação das riquezas. Dessa maneira, a parcela mais rica e minoritária da população (que os donos dos grandes mídias integram) garante de modo permanente a apropriação da reprodução ampliada das desigualdades.

Em suma, somente através da repetição diuturna da ideia de que somos uma sociedade leniente e corrupta, cujo centro disseminador dessa “doença” é o Estado (o mercado só tem virtudes) é possível manter uma grande parte da população estrategicamente afastada da política e, consequentemente, do poder do Estado. Vale a pena repetir mais uma vez, a única instituição capaz alterar a estrutura de apropriação desigual e perversa da riqueza numa sociedade moderna.

Obs.:
1- Não se trata de acabar com o mercado capitalista, um dos pilares da modernidade.

2 - Dizer que todas as virtudes estão no mercado e todos os vícios no Estado, é uma forma de perpetuar os vícios de um mercado pouco competitivo, posto que, pouco aberto ao mérito. Afinal, só existe mérito quando todos partem do mesmo ponto e chegam mais longe por seus próprios esforços e não porque já nasceram quase no ponto de chegada (1%), comparativamente a grande maioria da população que está lá na rabeira, a anos luz de distância (99%).

3 - Pensar esse contexto sob o ponto de vista individual, sem abstrair para os duzentos milhões de brasileiros, é tolice (fabricada, diga-se de passagem). É querer curar a tuberculose do paciente (corrupção) sem tirá-lo de seu contexto insalubre (desigualdade extrema). Alguns indivíduos podem até ter a sorte de se curar (exceção), mas a maioria, isto é, a sociedade, continuará enferma (a regra), gerando pouca riqueza para poucos e, consequentemente, um país com baixo dinamismo socioeconômico.

por Rafael Pizzato Vier, no GGN

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