O enigma do capital


É um grande privilégio estar aqui, eu gostaria de ter públicos como este em Nova Iorque, seria ótimo. A ideia geral do livro O enigma do capital foi pegar a teoria da crise, como eu a considerei ao longo dos anos, e tentar explicar o que estava acontecendo em torno de nós, com relação às compreensões teóricas. Uma das compreensões que surgiu, no sentido de trazer a teoria e juntar a teoria e a história, foi o reconhecimento de que o capital nunca resolve suas tendências de crise, ele simplesmente as move de lugar. E ele as move num sentido duplo, ele as move de um tipo de problema para outro. Por exemplo, pode haver problemas no mercado de trabalho, uma crise do poder do trabalho com relação ao capital, que depois é resolvida pela financeirização ou outras medidas, que tiram o poder do trabalho somente para deixá-lo com mais problemas no mercado. Há muitas maneiras diferentes de como a crise pode ser apresentada, e eu acho que o que nós estamos vendo, nos últimos cinco anos, tem sido um deslocamento, cada vez mais rápido, de um setor da economia para outro. Por exemplo, começa no mundo do consumo, com problemas de habitação, depois vai para o setor financeiro, e, depois do setor financeiro, para uma crise de dívida soberana de alguns estados-nação. E depois, uma maneira de como essa crise pode ser transferida, é de volta para o setor bancário, se as dívidas soberanas não puderem ser resolvidas. Mas, no lugar de fazer isso, a gente obtém uma política de austeridade, que empurra a crise para as pessoas, para o povo. Então, vocês veem esse movimento da crise ao longo do tempo. Mas ela também está se movendo no sentido geográfico, e eu gostaria de falar especialmente sobre isso, esta noite. Porque uma conexão que falta, na compreensão desta crise, é a maneira como ela está arraigada à história da urbanização e do desenvolvimento urbano. Isso é algo que me interessa particularmente, dado meu interesse na urbanização, e isso traz algumas questões políticas, a que eu vou chegar, assim que possível.

A crise, então, começou – no sentido de que ela tem um começo, porque ela está se mexendo o tempo todo –, o ponto inicial desta crise foi, essencialmente, a quebra do mercado de habitação, mas não foi uma quebra mundial, ela estava altamente localizada. Enquanto ela estava nos EUA, ela não estava em todas as partes dos EUA, ela estava altamente concentrada no sul da Califórnia, Nevada, Arizona e na Flórida, e o que aconteceu nessas áreas é que você tem um tipo peculiar de habitação, de bolha de habitação, que se desenvolveu e que tinha tudo a ver com a estrutura peculiar de habitação como um ativo, uma mercadoria, e o papel do capital financeiro na criação de habitação. Na verdade, o que os financistas fazem é emprestar dinheiro para os empreendedores construírem casas, mas depois eles emprestam dinheiro para os consumidores comprarem as casas, então, na realidade, as instituições financeiras controlam a oferta e a demanda de casas. Então, a construção de casas se torna totalmente dependente do fluxo de fundos que vai para a construção e do fluxo de fundos que vai para o consumo. E, o tempo todo, as instituições financeiras estão preparadas para bombear dinheiro para os dois lados, porque a construção ocorre cada vez mais rapidamente, e o valor das habitações sobe cada vez mais.

Então, a mecânica da bolha é razoavelmente simples, deste ponto de vista. Mas há também a questão de pra quem você empresta o dinheiro. Geralmente, as instituições financeiras dizem “A gente só empresta dinheiro pra pessoas que tenham bom crédito”. Então, você precisa provar que tem bom crédito. Mas o que aconteceu, em 1995, foi que o presidente Bill Clinton – e isso eu acho muito importante reconhecer: que começou com o presidente Clinton –, ele tomou uma iniciativa chamada Habitação Nacional e, nessa iniciativa, o que eles fizeram foi tentar dizer “Nós queremos que pessoas de baixa renda também tenham acesso à propriedade de casas, e o que isso significa é que nós queremos relaxar as aquisições de crédito”. E muitas instituições disseram “Isso parece ótimo, podemos ganhar muito dinheiro assim”. Então, de repente, de 1995 em diante, um grande fluxo de dinheiro começou a ir para as pessoas, com taxas de crédito cada vez mais baixas.

Tudo isso parou em 1998, porque houve uma grande crise em 1998, com a falência da Enron, da administração de capital em longo prazo. Então, tudo parou em 1998, mas em 2001, com o colapso da bolsa de valores, as pessoas começaram a dizer “O único lugar que nós temos sobrando para colocar seguramente o nosso excesso de capital é a habitação”. Então, foi o começo de um grande fluxo de dinheiro na habitação, e também houve um grande fluxo de dinheiro, que depois foi desviado por várias organizações, instituições financeiras, que foram particularmente ativas em alguns mercados de habitação, que construíram condomínios na Flórida e no sudoeste dos Estados Unidos. Então, se vocês quiserem… isso foi muito poderoso e continuou sendo mantido pela Reserva Federal, que sabia o que estava acontecendo, mas, por razões políticas, não fez nada. Ou então eles eram totalmente burros, porque todo mundo já sabia, em 2003, que o mercado de habitação era instável. O que aconteceu foi que o Greenspan, que era o chefe da Reserva Federal, decidiu que queria que a bolha continuasse. Então, ele manteve os juros muito baixos. Quer dizer, por razões políticas, a bolha continuou, sendo que a habitação era o que mais absorvia o excesso de capital.

Esta história de a habitação ser central na formação da crise e na resolução da crise nunca foi profundamente investigada. Só recentemente algumas das instituições originais da Reserva Federal começaram a observar mais cuidadosamente essa questão, e uma das conclusões a que eles chegaram, há pouco tempo, foi que os americanos saem da crise construindo casas e preenchendo-as com coisas. Esta é uma ideia muito interessante, ela basicamente diz “O capital excessivo: eu não sei onde investi-lo, então, tudo bem, eu vou na criação de habitações”. Você constrói uma casa e precisa comprar os móveis, as cortinas, tudo o que você precisa, e, se você constrói casas de um certo tipo, num estilo de consumo, precisa combinar com isso. Quando você olha os dados, historicamente, os EUA, nos anos 30, tiveram uma situação de depressão muito difícil, em que a construção foi muito baixa, e a propriedade também era muito baixa. Então, nos anos 30, muitas instituições foram estabelecidas, para tentar criar a possibilidade de sair da crise da construção, e da crise geral dos anos 30, construindo casas e enchendo-as de coisas. Isso funcionou por algum tempo, a 2ª Guerra Mundial resolveu o problema dos anos 30, mas, em 1945, você tinha o problema seguinte: onde é que você iria colocar todo o excesso de capital que existia nos EUA? Como todo esse excesso, essa produção que fora colocada no esforço de guerra, seria utilizado? E, além disso, como todos os soldados que tinham ido lutar e voltaram para os EUA iriam arrumar emprego?

Essa foi uma situação muito perigosa nos EUA, e esta situação perigosa encontrou duas formas: a econômica e a política, ou seja, a repressão de qualquer discussão da política de esquerda. Nós tivemos algo chamado macarthismo, que era uma mão de bruxa com qualquer pessoa que tivesse visões de esquerda; eram tirados dos sindicatos, considerados antipatrióticos, antiamericanos, e havia um comitê do congresso americano chamado A casa das atividades antiamericanas; em outras palavras, ser de esquerda era ser antiamericano. Então, se você estivesse ativamente na esquerda, por definição você era antiamericano e não pertencia aos EUA, e eram necessárias medidas para deportá-lo. Isto foi uma repressão política sobre todas as formas de pensamento de esquerda, e se tornou impossível ler Karl Marx nas universidades, quando Karl Marx foi demonizado, e a Guerra Fria também ajudou em tudo isso.

Suburbanização
Mas isto não resolveu o problema econômico, o problema econômico foi resolvido com a construção de casas e preenchendo-as com coisas. Houve um grande debate, em 1947/48, com relação a qual seria o futuro da urbanização nos EUA, e houve uma visão de um futuro urbano – que tinha a ver com a construção de cidades justas e compostas –, que seria desenvolvida em alguns círculos intelectuais, que era totalmente ignorada pelo impulso de construir subúrbios, ou seja, a suburbanização foi uma das grandes maneiras pelas quais os EUA saíram da grande depressão dos anos 30, suburbanizando, nos anos 50 e 60. Isto é, na verdade, um dado muito interessante: antes da 2ª Guerra Mundial, o número de unidades habitacionais construídas nos EUA flutuava entre 300 e 500 mil por ano, no máximo; depois de 1945, ele nunca ficou abaixo de 1 milhão por ano, em muitos anos, ele até chegou a 2 milhões de unidades habitacionais por ano. Esta é uma absorção imensa de excesso de capital, mas não é somente a habitação, há também as estradas, e o fato de que você precisa de um carro, pelo menos um, talvez dois. O que eu gosto de dizer é que, se você mora no subúrbio, você precisa de gramados, e, se você fosse bem esperto, em 1947, você construiria uma fábrica de cortador de gramas, porque todo mundo no subúrbio tem um cortador de gramas, e todo domingo eles ficam fazendo vrum-vrum. Era um estilo de vida, era uma mudança de estilo de vida, que também estava ligada à absorção de excesso de capital pela suburbanização. E, na verdade, se vocês analisarem os dados, verão, nos anos 30, que ele fica flutuando; de repente, ele sobe, quando começa a construção, e somente em 2008 ele começa a descer, e a habitação começa a voltar para os níveis de antes da 2ª Guerra. Eles ainda não estão lá, mas não tem nenhum sinal de ressurreição dos níveis de construção nos EUA, ou seja, os EUA, que tipicamente saem das suas dificuldades construindo casas e enchendo-as com coisas, não podem mais fazer isso, e, se você não pode fazer isso porque tem um excesso de casa e excesso de coisas, então, você tem um problema realmente sério nesse país.

Uma crise global
Quando eu mencionei isso como um problema urbano, geográfico, – porque tinha a ver com a urbanização dos EUA, que foi tão crítica,– eu também quis dizer um problema geográfico numa outra escala. Por exemplo, a quebra da habitação, que estava localizada no sudoeste dos EUA, na Flórida, afetou muitas instituições financeiras. Em outras palavras, ela mudou deste campo da urbanização para os centros financeiros do mundo, particularmente Nova Iorque e Londres. E, no nível em que todo o financiamento de hipotecas foi reestruturado e reorganizado, de forma a juntá-los, e essas obrigações colateralizadas de dívida (CDOs), esses instrumentos, esse tipo de instrumentos malucos, as hipotecas foram passadas para uma outra pessoa. Então, em um certo sentido, você tem a geração do que pode ser chamado de ativo tóxico, que foi repassado para outras pessoas, nessas estruturas de investimento diferentes, e qualquer pessoa que entrasse nisso, quando lhe diziam que era seguro comprar casas, acabou perdendo dinheiro. Foi pra Nova Iorque, depois para Londres, porque aí é que estavam todos os ativos. Então, poderia ir pra qualquer lugar do mundo em que houvesse uma pessoa burra o suficiente para comprar esses investimentos. Isso incluía muitos bancos europeus, muitos governos, no mundo inteiro.

Por exemplo, havia uma prefeitura no norte da Noruega que foi convencida a investir num desses instrumentos, e, de repente, eles descobriram que não valia nada, e como tinham investido todo seu dinheiro, não podiam mais pagar seus policiais, seus empregados, não podiam pagar mais nada. Então, qualquer lugar que tenha sido burro o suficiente para investir nisso, foi pego, mas muitas partes do mundo não foram tão burras. Eu não acho que os bancos no Brasil investiram, eu sei que os bancos no Canadá, por exemplo, não investiram, então, isso não foi um problema no sistema bancário canadense, os bancos chineses certamente não investiram. Então, foram somente algumas partes do mundo, e é muito interessante observar onde ficam esses lugares que foram idiotas o suficiente para investir, e eles foram golpeados.

Depois, veio a segunda onda de problemas: com o colapso do mercado de habitação, também colapsou o consumo nos EUA. Isso aconteceu de duas maneiras diferentes: em primeiro lugar, foi porque a confiança terminou e, depois, na verdade, muitas pessoas estavam usando a habitação quase como um banco privado. E a maneira como isso era feito é a seguinte: por exemplo, você comprava uma casa de 200 mil dólares, hipotecava por 200 mil dólares e, dois anos depois, valia 300 mil dólares. Então, você hipotecava de novo por 300 mil dólares, ou seja, você tinha 100 mil dólares no bolso. Dois terços das hipotecas que foram emitidas durante 2006/07 foram refinanciados, ou seja, pessoas que estavam retirando fundos das suas casas.

Mas por que elas estavam extraindo dinheiro de suas casas? Algumas pessoas diriam que elas eram simplesmente ambiciosas, mas não é só isso, alguns fizeram isso porque precisavam, e porque os salários estavam sendo reprimidos, ou seja, se você não consegue obter dinheiro através do salário, você obtém deste jeito. Mas isso não funcionou mais, o consumo acabou, e então, houve um colapso do mercado de consumo em 2008.

China
À medida que o mercado de consumo entrou em colapso, todos os países que estavam exportando para os EUA se encontraram em uma dificuldade considerável. A China, que se apoia muito pesadamente no mercado de consumo americano, perdeu 13 milhões de empregos em três meses, desde o final de 2008 até o começo de 2009. E depois houve um relatório, no final de 2009, que estimou que a perda líquida de trabalho, em todo o mundo, foi muito maior do que a que tinha ocorrido na China.

Então, de uma forma ou de outra, durante 2009, os chineses criarem 27 milhões de empregos, é uma coisa imensa. Agora, quando você vai e faz a pergunta: onde esses empregos foram criados? Num certo nível, o mercado de consumo reviveu, e alguns empregos voltaram, mas o grande empuxo na China foi dizer “Nós precisamos absorver esses trabalhadores e criar empregos pelo investimento em infraestrutura, investimentos maciços em novas estradas, trens de alta velocidade, novos sistemas hidráulicos, construindo cidades inteiras”. Os chineses construíram duas cidades novas, quase sem residências, e depois eles divulgaram na imprensa às empresas americanas: “Nós temos uma cidade vazia aqui, vocês podem dar subsídio e trazer seu negócio pra cá”.

Este é um caso clássico do que eu chamo de um capitalismo de culto das cargas. Os indonésios veem aviões voando, então eles criam uma faixa aérea na selva, achando que, se eles construírem essa pista, então, os negócios virão. A mesma coisa acontece na China: eles constroem as casas, esperando que os negócios venham, mas esse é um problema imenso. Isso não foi feito só centralmente, mas também nos governos locais e com os bancos locais. “Emprestem para os governos e permitam que eles construam o que eles puderem”.

Então, houve uma grande urbanização. Na verdade, o que a China estava fazendo, num grande sentido, era o que os EUA fizeram em 1945, os investimentos em infraestrutura, em estradas, a indústria de automóveis – altamente lucrativa na China, porque o aumento de proprietários de automóveis foi enorme –, construindo cidades, investimento em infraestrutura e todo esse tipo de coisa. Em outras palavras, os chineses estavam construindo casas e enchendo-as com coisas, como uma maneira de lidar com a crise.

O resultado foi um boom no mercado de propriedade chinês: os preços das propriedades em Xangai dobraram em um ano, eles têm aumentado numa taxa de cerca de 40%, 50% por ano, no país inteiro, nos últimos cinco anos, e qualquer pessoa que oferece matéria-prima para os chineses está indo muito bem, porque metade da produção de aço do mundo foi pra China, eles consumiram metade da produção de cimento nos últimos cinco anos, eles consumiram vastas quantidades de metais… Então, se você fornece essas matérias-primas, você se dá muito bem. O Chile se deu muito bem, por causa da grande demanda de cobre, os preços subiram. A Austrália se deu muito bem. Então, se você for para lugares como a Austrália e disser “Como é que você se sente em relação à crise?”, eles dirão “Que crise?”. Até na Argentina – que passou por sua própria crise em 2001/02 -, quando esta crise chegou, e você dizia para as pessoas “Como é que está indo a crise?”, eles diziam “Ah, sempre tem uma crise na Argentina.”, mas, economicamente, a Argentina está indo muito bem. Aqui também vocês estão indo muito bem. Então, todos os países que estão orientados para o comércio chinês estão indo muito bem, especialmente se há uma empresa que exporta pra estrutura chinesa e há um projeto interno de investimento em infraestrutura.

Então, você tem esse tipo de projeto de habitação neste país, e grandes projetos de construção que estão acontecendo no Chile, na Argentina, e grandes projetos de construção também nos estados do Golfo, lugares como Dubai, assim por diante. Nessas partes do mundo, não há colapso, em parte, por causa da mobilização de um grande projeto de urbanização. Quanto excesso de capital foi absorvido, em Dubai, por aquele impressionante projeto de construção urbana? Então, o que estamos vendo é um uso global da urbanização, grande parte do qual agora está recebendo poder de uma estrutura financeira interconectada, um uso global da urbanização, por meio do qual os economistas estão tentando estabilizar, e isto está sendo trabalhado na China, ou seja, a China está crescendo, e outras partes do mundo também estão crescendo, mas ela não pode funcionar nos EUA, porque os EUA já construíram as suas estradas, as suas casas e já encheram essas casas com coisas. Então, nós temos um excesso de casas por toda parte, o despejo de casas, cerca de 6 milhões de casas foram desapropriadas, existe um problema muito grande com habitação nos EUA. Ao mesmo tempo, nos EUA, há uma tentativa política, especialmente pelo Partido Republicano, por razões políticas, de impedir investimentos infraestruturais que o Obama quis fazer dizendo que nós não podemos sustentar, porque a dívida dos EUA é muito grande. Eu já vou voltar a isso daqui a pouco.

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Mas o que estou fazendo aqui são duas coisas: eu quero falar sobre a geografia do projeto de urbanização e, em segundo lugar, quero falar sobre sua história, e como há uma conexão muito grande entre o processo de urbanização e as crises macroeconômicas, a formação da crise, ou seja, “qual o seu papel histórico na formação de crises e na sua resolução?”

Economistas convencionais nunca pensaram muito nisso. Quanto ao campo dos economistas marxistas, as pessoas também não prestam muita atenção, porque a urbanização não é considerada como um campo muito significativo de estudos – só algumas pessoas, como eu, estudam isso, e eu fico falando que é importante, e as pessoas falam que tudo bem, mas não se importam muito.

Recentemente, houve alguns estudos interessantes, e o que foi descoberto é que, nos anos 20, muito excesso de capital foi jogado num boom de construção e no desenvolvimento de construção nos EUA. Este boom esteve localizado em pouquíssimas áreas – Flórida sempre parece ser um bom lugar, Nova Iorque e Chicago. E o que aconteceu foi que, enquanto não havia instrumentos financeiros sofisticados, havia algumas estratégias similares de financiamento emergindo naqueles mercados, e havia, portanto, um boom muito grande nos preços de propriedades, durante os anos 20. Este boom, entretanto, terminou um ano antes da grande crise da bolsa de valores, e o que eles estão reconhecendo, agora, em círculos oficiais é que houve uma relação entre a crise do mercado de propriedade, em 1928, e o colapso da bolsa de valores, em 1929. E o colapso da bolsa, em 1929, atingiu tudo, enquanto que o colapso do mercado de propriedade, em 1928, atingiu somente o setor de construção, e era nesse setor que a maior parte da perda de empregos estava acontecendo, em que grande parte das dificuldades ocorriam. Até os anos 30, essa foi uma das áreas principais de depressão na economia americana, e foi a que chamou a atenção política dessas novas instituições de hipotecas, que entraram no cenário.

Então, o que isso sugere é que há uma relação entre acumulação de capital e urbanização, muito significativa em termos da dinâmica histórica do capitalismo. Além disso, quando você começa a observar bem de perto, percebe que o preço das propriedades tem um papel muito importante na acumulação de riquezas da burguesia.

Agora, vamos voltar ao século 16 e as classes altas inglesas, que conseguiram mais dinheiro da propriedade de terra, nos séculos 17, 18 e 19, do que das fábricas de Manchester. Esta foi uma das formas principais como a riqueza foi acumulada por indivíduos privados. E este ainda é o caso. Por exemplo, uma pessoa como Donald Trump, você olha e diz que é um bom exemplo de como a riqueza pode ser acumulada dessa forma. Na China, surgiram muitas pessoas agora que são bilionárias, muitas delas envolvidas no desenvolvimento da propriedade, na incorporação. Aqui também a incorporação é muito importante. Num certo sentido, a urbanização é um campo de acumulação de capital e, portanto, é vital para a manutenção do acúmulo de capital a longo prazo. E, num lugar em que você encontra repetidas quebras na bolsa de valores, mas depois recuperações com projetos de incorporação, esse é o caso.

Então, nós, politicamente, precisamos prestar muito mais atenção à dinâmica urbana, em termos daquilo que a acumulação de capital faz. E, para se declarar envolvido em uma política anticapitalista, nós temos de pensar a urbanização como um campo de luta de classes. É aí que eu tenho um tipo de história muito peculiar com meus colegas marxistas que gostam de falar sobre a classe trabalhadora: suas definições sobre a classe trabalhadora têm a ver com o trabalho nas fábricas, e eu sempre disse “E as pessoas que constroem as cidades? E as pessoas que mantêm a cidade? E todo este capital fixo na cidade, a sua manutenção?”, e as pessoas dizem “Ah, tudo bem, eles estão aí, mas a classe trabalhadora nas fábricas é o que realmente conta”.

Então, eu comecei a dizer “Bem, como é que o acúmulo de capital pode tratar a cidade como um campo aberto para suas atividades, e onde está a resistência a isso?”. Se você observar, verá resistência por toda parte, porque a reurbanização, quase invariavelmente, envolve uma economia de espoliação, e a economia de espoliação, geralmente, significa o que eu gosto de chamar deacumulação por desapossamento: você desprovê as pessoas da sua vizinhança, dos seus espaços de moradia, porque você quer aqueles espaços para a incorporação.

Eu me lembro de visitar uma cidade, Seul, na Coreia, e havia enormes colinas, que estavam sendo derrubadas por gangues contratadas pelos incorporadores, para tornar aquele lugar inabitável. Daí, então, eles construíam os arranha-céus que eles queriam construir. Mas é claro que havia resistência, e havia comunidades inteiras que se organizavam de uma forma militar, para resistir a essas expulsões. Nós vemos, na China, esse projeto de urbanização que se apoia na aquisição de terra urbana e rural, e que está gerando uma oposição considerável, e há muitos relatórios, na China, de conflitos violentos com relação a esses projetos de urbanização.

Redefinição da classe trabalhadora
Isso me faz voltar pra uma questão muito maior, que é de que forma a cidade é um campo viável para pensar a política da luta de classes, mas pensar sobre isso significa redefinir o que você quer dizer com classe trabalhadora. Eu gostaria de redefinir a classe trabalhadora como todas aquelas pessoas que produzem e reproduzem a vida urbana, e que geralmente está vivendo numa situação precária, que, cada vez mais, até nos EUA, vivem nos setores informais; E esta classe – que a maior parte dos meus colegas não quer considerar como uma classe, eles têm uma definição diferente –, está ativamente envolvida na resistência a essa política de desapossamento, elas estão tentando preservar um outro tipo de noção do que é urbanização. Porque a definição capitalista de urbanização não tem a ver com a criação de uma vida social, não tem a ver com a criação de comunidades políticas, ela tem a ver, simplesmente, com a construção de casas e encher essas casas de coisas, para manter o processo de acumulação continuadamente. E fazendo isso de tal forma que a política e toda oposição se fragmente, pela propriedade de casas – se isso acontecer, ótimo. E, se você observar as consequências políticas da suburbanização nos EUA, verá que quase todo mundo nos subúrbios vota nos republicanos, eles não estão interessados nas questões sociais, é uma grande forma de controle social. Isso foi explicitamente compreendido, nos anos 30, quando essas instituições para facilitar o financiamento de hipotecas foram estabelecidas. Havia um relatório que dizia que os proprietários de casas não entravam em greve, eles precisavam pagar suas hipotecas, se não, eram despejados. Eles não podem sustentar a perda dos seus empregos, eles não podem lidar com uma greve e, possivelmente, serem demitidos. Então, era uma medida de controle social que também se torna altamente significativa.

Revolução urbana
Depois, eu pergunto “O que acontece quando a gente começa a pensar na cidade como um lugar em que algumas formas de luta podem realmente funcionar?”, e é uma questão muito interessante. Quantas vezes houve revoluções urbanas? A Comuna de Paris é uma clássica, que é considerada, pelos esquerdistas, como tendo sido feita pelos trabalhadores, mas não foi feita pelos trabalhadores. É o meu tipo de definição de classe dos trabalhadores, mas, depois… este não é um fenômeno tão incomum. Houve uma greve geral de Seattle, de 1919, teve uma insurreição em Córdoba, Argentina, em 1969, teve uma comuna de Xangai, em Petersburgo e, se você observar os movimentos revolucionários, eles, geralmente, são muito interconectados na rede urbana – isso aconteceu até em 1848, houve uma revolução em Paris, mas simultaneamente também houve uma em Viena, em Varsóvia, em Milão, em Frankfurt.

E, quando você pensa em 1968, o que você vê? Você vê movimentos urbanos por toda parte, e, mais recentemente, houve esse evento impressionante, em 15 de fevereiro de 2003, havia 3 milhões de pessoas nas ruas de Roma, 2 milhões nas ruas de Madri, 1,5 milhão em Barcelona, 1,5 milhão em Londres, e Deus sabe quantos em Nova Iorque, porque a gente não pode se manifestar em Nova Iorque. Foi um movimento simultâneo, que ocorreu em muitas cidades, cerca de 280 cidades no mundo tiveram um movimento que era contra a guerra do Iraque. E o que nós vimos, com Ocuppy Wall Street? Também vários movimentos simultâneos.

Então, a rede urbana parece muito significativa politicamente, mas, politicamente na esquerda, nós nunca pensamos com muito cuidado sobre o que isso pode significar e como isso pode ser usado. E aqui está uma outra coisa: eu me mudei pra Nova Iorque três semanas antes do evento que hoje nós chamamos de 11 de setembro, e o que era interessante, sobre morar em Nova Iorque, é que tudo parou de se mexer, por três dias você não podia ir para as pontes, não podia passar pelos túneis, o metrô foi fechado, não tinha movimento e, de repente, os poderes perceberam que, se não tivesse movimento, não haveria acumulação de capital. Então, o prefeito de Nova Iorque foi pra televisão e fez o apelo “Saiam para as ruas, peguem os seus cartões de crédito e comecem a comprar, comecem a consumir, vão para a Broadway, vocês podem ver os melhores shows, e os ingressos estão disponíveis”. Houve o reconhecimento de que, se a cidade fechasse, parasse… essa é uma força econômica muito poderosa, e isso foi acidentalmente colocado em uso, em 2006, nos EUA.

Em 2006, alguém decidiu, no Congresso, que eles iriam criar uma nova lei, em que eles iriam criminalizar todos os imigrantes ilegais, não seria mais uma ofensa civil, mas criminal. Isso foi enorme, provocou uma reação enorme da comunidade de imigrantes, é claro, em especial, os imigrantes ilegais. Então, começaram a surgir protestos, e houve um dia em que foi anunciado que todos os imigrantes, especialmente os ilegais, não fossem ao trabalho, e eles não foram. Adivinhe o que aconteceu… Los Angeles parou, São Francisco parou, Chicago parou, Nova Iorque não parou totalmente, mas foi muito afetada, muitas indústrias, reconhecendo o que estava acontecendo, simplesmente não abriram.

Em outras palavras, parar a cidade é um movimento político muito importante, e nós vemos isso acontecendo politicamente, de tal forma que o centralismo na cidade se torna muito significativo politicamente. A gente vê isso na Praça Tahrir, no Cairo, em Wisconsin, no Madison Square… em muitos lugares, em que a política urbana se torna um campo em que muitas coisas podem começar a acontecer, e isso começa a envolver um grupo totalmente diferente da população.

Agora, nós temos, por exemplo, em Nova Iorque, um grupo chamado Congresso de Excluídos Políticos. São todos os trabalhadores que não podem criar sindicatos, por exemplo, todos os trabalhadores domésticos. O Congresso de Trabalhadores Excluídos toma atitudes na cidade, e ele também se une aos movimentos urbanos, para tentar militar sobre a qualidade da vida urbana e os problemas da vida urbana, os problemas que têm a ver com a gentrificação, e assim por diante. E o que nós vimos – que é ainda mais impressionante – na Bolívia, foi uma cidade como El Alto, que se mobilizou para depor dois presidentes, no espaço de três anos. El Alto é privilegiada, porque as três principais rotas que servem La Paz passam por El Alto, então, se você bloqueia essas três estradas, a burguesia fica sem comida em La Paz. Mas El Alto se tornou o centro, como Cochabamba, também na Bolívia, para uma política de transformação.

Então, um dos argumentos que quero colocar é que a urbanização é tão importante com relação à crise, à formação da crise e à resolução da crise, precisamente porque ela é tão importante para a classe capitalista, em termos do seu acúmulo de riquezas. Então, ela também deve ser tão importante para a esquerda, como um campo onde as organizações acontecem para tentar militar numa luta anticapitalista. Há, na realidade, uma história de luta anticapitalista que tem base nas cidades, e a esquerda tem que sair dos seus preconceitos contra os movimentos urbanos como veículos de uma luta anticapitalista.

Talvez isso não exista tanto aqui no Brasil, mas, na Europa ocidental, há uma tradição da esquerda que diz que só os trabalhadores das fábricas importam. O Partido Comunista ainda diz isto, eles falam que só importam os trabalhadores precários.

Então, é aí que eu gostaria de começar a pensar sobre uma nova política, que é uma nova política urbana anticapitalista, que coloca a questão: “Por que nós não pensamos, de uma forma mais coerente, sobre qual seria uma boa cidade socialista, e em que sentido é possível construir uma cidade comunal e socialista, no lugar de uma urbanização capitalista?” Este é o projeto político que me parece ser algo que vale a pena perseguir. Eu não garanto que esta seja a resposta, mas é um caminho e um projeto que merece uma grande discussão e reflexão por parte da esquerda, porque o proletariado tradicional nos EUA já desapareceu, como na Europa também.

O que nós temos é o que os franceses chamam de trabalhadores precários e temporários. É muito difícil mobilizá-los pelos partidos tradicionais, mas é absolutamente vital, como nós temos visto nos movimentos de direitos dos imigrantes de 2006, manter a cidade funcionando. Então, chamar a atenção do trabalho é um uso tático da cidade, como forma de engajamento político. Como eu vejo, há muitas possibilidades que não podem ser realizadas no momento presente, e este é o problema que eu gostaria de passar pra vocês, pra que vocês resolvam, porque é a sua geração que terá que resolvê-lo.

A destruição criativa
Uma coisa que nós precisamos também observar, que eu não tive tempo de falar é a política que Joseph Schumpeter chama de destruição criativa: que uma das formas como você pode sair da crise é através da destruição e da desvalorização. Já houve uma grande quantidade de destruição e desvalorização, em algumas cidades dos EUA. Talvez vocês já tenham visto imagens de Detroit, que é uma cidade que parece ter sido destruída por algum tipo de guerra, uma máquina de guerra, e o que isto quer dizer é que há grandes perdas nos valores de ativos. A gente pode acrescentar alguns números, mas, nos EUA, perto do valor de um ano de produção do país foi perdido pela desvalorização que ocorreu nos ativos financeiros em geral e na habitação, em particular. Então, uma das formas como você obtém acumulação crescente é destruindo a acumulação passada, e é claro que isso geralmente acontece em uma crise. A crise geralmente tem a ver com a desvalorização, e a destruição e a questão quantitativa – o crescimento de 3% – se você destruir o equivalente à produção de um ano, por meio da desvalorização de ativos, então, você abre caminho pra um crescimento de 3% no ano seguinte, simplesmente reconstruindo o que você perdeu no ano anterior, e quanto mais você perde, tanto mais fácil se torna sair da crise, porque há uma série de possibilidades mais abertas.

A desvalorização de ativos é muito traumática para aquelas pessoas que os possuem, e os ricos possuem ativos, mas muitos desses ativos, hoje em dia, são mantidos por fundos de pensão, então, na realidade, o que você pode acabar fazendo, com essa desvalorização, é destruir os direitos de pensão de grandes segmentos da população, como muitas pessoas nos EUA, no mundo acadêmico. Eu tenho fundo de pensão privado e, de vez em quando, eu olho pra ver o que está acontecendo com ele. Em 2008/09 ele caiu, eu perdi cerca de 20% dos meus bens, e eu acho que isso está muito ligado ao crescimento subsequente. Então, você abre espaço para o futuro, destruindo parte do passado, e essa foi uma das coisas significativas que aconteceram entre 1939 e 1949, muita destruição ocorreu, e a reconstrução se tornou significativa.

Eu tenho um exemplo particular disso: quando estive no Líbano, em 2008, no meio desta crise, eu perguntei às pessoas no Líbano “Tem uma crise aqui?”, e a resposta foi “Não, não há crise aqui no Líbano”. Por que não? Porque os israelenses destruíram tanto do sul de Beirute, que houve um grande projeto de reconstrução, para reconstruir o sul de Beirute. E eles tinham seu próprio projeto de reconstrução, que era financiado… Então, esse também é um exemplo do papel da destruição, que está envolvido agora nessa reconstrução.

Então, se é pra haver destruição criativa, eu gostaria de ver isso nos EUA, por exemplo, num projeto de reurbanização dos EUA, que é sair do estilo suburbano e começar a reconstruir as cidades como Detroit, reconstruir com uma imagem diferente. Você também pode ligar isso a questões ambientais, você deve tentar lidar com questões de transporte, residência e trabalho de uma nova forma. Existe a possibilidade de obter de volta os 3% fazendo uma reurbanização maciça e coerente, mas seria um projeto de reurbanização que não, necessariamente, teria a ver com a máquina política de crescimento e como eles encaram a urbanização. Então, iria significar uma transformação revolucionária, no que nós queremos dizer com vida urbana, e a transformação revolucionária de como nós lidamos com construção e reconstrução dos ambientes urbanos. Cada vez mais, há uma população urbana global de sete bilhões de pessoas. Isso, é claro, vai exigir um trabalho imenso.

Como pensar uma cidade 
Uma das coisas que eu acho que precisa acontecer, dentro do marxismo, é uma reconexão com as vozes das ruas. E uma das coisas que me atrai no trabalho de Henri Lefebvre, por exemplo, em A produção do espaço, A revolução urbana e O direito à cidade, é que ele é uma resposta ao que Lefebvre estava encontrando nas ruas de Paris, e eu acho que isso, no nível em que ele já estava trabalhando, há anos, e abrir-se para as cidades cria uma teoria muito melhor. Quando eu trabalhei com o Movimento do Direito à Cidade, em Nova Iorque, ou com o Congresso dos Trabalhadores Excluídos, o que eu tenho a dizer hoje, esta noite, ressoa com as pessoas que estão trabalhando politicamente nesses grupos. Houve até um deles que me perguntou – a pergunta que está na última parte da minha fala –, ele me disse “Como é que a gente organiza uma cidade inteira?” Eu acho que é uma coisa muito interessante. Eu não fiz essa pergunta, ele fez, ela veio das ruas, das pessoas trabalhando nas ruas. “Como é que a gente faz isso?” Eu disse “Não tinha pensado nisso”, ele disse “Por que você não pensa? Você é um acadêmico”. Então, o livro que eu acabei de publicar tem a ver com isso, como você organiza uma cidade inteira.

Eu acho que é aí que o marxismo precisa ir, mas, à medida que entramos nesse campo, a gente não precisa abandonar tudo que Marx falou sobre a teoria da crise. O que estou tentando fazer, noEnigma [O enigma do capital], é integrar essas ideias, o desenvolvimento teórico, nessas questões que vêm das ruas. Como é que você organiza toda uma cidade?

*

Bem, agora, a questão das reformas, a gente vive num mundo muito complicado. Se ele fosse rompido completamente agora, nós morreríamos de fome em algumas semanas. Você pode ver o que acontece, quando as coisas ficam totalmente rompidas, não seria agradável. Então, uma revolução, a transformação não me parece ser do tipo violenta. A grande questão é criar uma agenda de reformas e transformá-la num projeto revolucionário. Há muitas reformas que apontam para uma direção revolucionária e, portanto, uma das questões é saber quando a reforma é um instrumento revolucionário e quando ela não é. Eu acho que isso também precisa ser muito bem pensado.

Marx fala sobre o sistema financeiro como um mundo em que o capital comum das classes é redirecionado, ele fala sobre a associação de capital; a coletivização do capital, do sistema financeiro é absolutamente crucial para a dinâmica do capitalismo. Sempre foi. Há uma conexão muito interessante, em que eu tenho trabalhado teoricamente (eu acho que já encontrei a resposta), que diz que a acumulação de riquezas, ao longo do tempo, sempre foi paralela à acumulação de dívidas. Quando eu percebi isso – e percebi isso porque estava acontecendo isso, e era necessariamente assim –, eu escrevi que o Partido Republicano, nos EUA, por ser tão antagonista à dívida, pode ter um papel mais importante contra o capitalismo do que as classes trabalhadoras, porque a dívida é absolutamente fundamental à maneira como a demanda efetiva se internaliza dentro da dinâmica do sistema de capital, porque ela depende de comprar agora e pagar depois.

Então, a acumulação de dívidas, como sendo uma parte necessária do sistema, não é algo periférico, é fundamental e sempre foi. Marx já tinha reconhecido isso, quando ele falou de uma formação de uma “bancocracia” no século 17, que é uma fusão do Estado e dos interesses financeiros. Agora, nós vemos essa fusão representada pela palavra Banco Central e, de uma forma estranha, quando você observa a situação, nós estamos realmente vivendo sob a ditadura dos bancos centrais mundiais. Eu estou muito impressionado com o poder dessas instituições. Isso não significa que eles sempre tomam as decisões corretas – a evidência é de que os bancos centrais adotaram políticas erradas, como Greenspan fez na primeira parte do século: ele afundou o mundo numa crise mais profunda do que a que está acontecendo agora.

Há um debate sobre a financialização e seu significado, mas o que eu disse é que ela sempre foi significativa, e a dificuldade com ela é que, por um lado, ela é necessária e, por outro lado, é quase impossível controlá-la, é isso que o Marx fala n’O capital: que, por um lado, você absolutamente precisa disso e, por outro lado, você não pode parar essas ondas de atividades especulativas. O que nós vemos, portanto, é a história da especulação financeira, que gera quebras, crises, e que geram impacto no resto da economia. Eu tenho tentado colocar o volume dois d’O Capital na rede, mas, fazendo isso, eu trouxe pro volume dois as questões do mercado de capitais do volume três. Então, na palestra do volume dois, há algumas partes do volume três, eu pego algumas dessas questões e tento voltar à maneira como Marx entendia essas questões, e o significado das questões financeiras com relação ao acúmulo de capital.

Uma das coisas que aconteceram na história do capitalismo é a história da aceleração, as coisas acontecem mais rápido, a lógica disso é dada pela ênfase em algo que Marx chama de turnover. Se eu posso diminuir o meu ritmo mais rápido do que você, antes do que você, então, eu produzo mais, eu ganho mais. Então, a história do capitalismo tem sido a história da aceleração, aceleração de tudo, a aceleração geralmente leva a um tempo de decisão cada vez menor. Isto significa que os sistemas econômicos se tornaram o que nós chamamos de sistemas acoplados, sistemas em que uma coisa se mexe e imediatamente uma outra coisa muda. As finanças no século 19 não eram acopladas. Quando os computadores entraram nas finanças, nos anos 80, isto começou a ficar totalmente acoplado ao sistema, quando o comércio computadorizado acontece, tudo isso ocorre em segundos.

Então, está tudo na rede, eles não contratam um especialista de Wall Street, eles contratam físicos e matemáticos, porque são eles que sabem como os computadores funcionam e podem usar os programas de computador. O resultado disso é que nós vivemos num mundo em que as crises são muito mais problemáticas, alguém em algum lugar pode vender muitas bombas, e há um movimento de preço que dispara o comércio de computadores, que dispara uma outra coisa, e tudo se move muito rapidamente. Então, tem muita volatilidade no mercado financeiro, que faz que seja muito difícil, a qualquer pessoa, estabelecer um controle exato sobre o que está acontecendo nesses mercados, porque os mercados estão descentralizados.

Então, o capitalismo está mudando, e suas formas de organização mudam algumas possibilidades. Uma das coisas que a esquerda precisa começar a pensar é como ela pode fazer essa luta de classes contra o sistema financeiro. Você pode fazer uma luta contra os bônus bancários, mas será que você pode lutar contra o sistema financeiro e transformá-lo, para que ele se torne mais socializado e mais democrático? É uma questão enorme, porque, se este for um instrumento de poder pra classe capitalista, é aí que você tem que ir, pra tentar confrontar o poder do capital. Essas transformações ocorreram em todos os tipos de área.

Uma das coisas que eu acho muito importante – e aqui nós chegamos à última questão – é a distinção urbano-rural. Henri Lefebvre tem uma história muito interessante sobre isso. Originalmente, ele trabalhava na sociologia rural, e depois ele ficou interessado na urbanização, nos anos 60, e depois ele colocou a questão sobre qual é a relação entre a cidade e o campo. Ele começou a sua vida num mundo em que havia uma sociedade muito distinta ali, que era chamada campesinato, a sociedade dos camponeses, que tinham uma organização e uma cultura muito diferente, que só vendiam seus produtos e seus excessos para os mercados, e era autossustentável. Portanto fazia sentido dizer que era um mundo separado, e eles chamavam de camponeses, ou campo, ou rural, que é muito diferente do urbano.

Mas, quando você chega no final dos anos 60, o campesinato na França desapareceu, e essa cultura distinta também desapareceu. O campo está sendo absorvido na urbanização, ele se torna um lugar em que a população urbana vai para lazer, se torna exclusivamente um lugar de produção de mercadorias para a cidade, está muito mais conectado, mais integrado ao mundo urbano. E, quando Lefebvre escreveu A revolução urbana, ele falou sobre o desaparecimento dessa distinção, e quando ele escreveu A produção do espaço, agora ele está falando sobre a produção de espaços diferenciados, dentro desse processo de colonização do mundo pela vida urbana, e a urbanização da vida.

Nos últimos seis meses, eu tenho vivido em uma terra, na Argentina, em um lugar relativamente longe. Eu tento criar plantações e uma organização autossustentável, mas ela é altamente urbanizada de muitas outras formas: nós usamos telefones celulares, eletricidade, a gente até assiste a televisão. A ideia de que essa é uma sociedade separada, os camponeses, ou algo desse tipo, é muito distinto da vida urbana? Sim, é diferente, mas é diferente em termos de um desenvolvimento geográfico heterogêneo, não distinto no sentido de que aqui está a cidade, aqui está o campo. É claro que é muito diferente, quando você vai para Buenos Aires, um lugar muito diferente. Às vezes eu preciso ir para a cidade, pra usar a internet, e é por isso que eu peço desculpas, se alguém tentar falar comigo por internet, porque minha conexão é muito ruim, mas eu gosto disso.

Eu acho que essa distinção… a gente não deve achar que ela é tão importante, a gente tem que pensar em um mundo muito mais integrado, que tem várias formas de possibilidades de organização política. Então, quando você tem os movimentos do campo, como é o MST, e qual é a sua política, a política numa certa arena deste desenvolvimento desigual, a sua política não está isolada e separada. Em algumas partes do mundo, em que as distinções tradicionais entre os camponeses e as formas tradicionais de vida e o capitalismo ainda persistem, você pode encontrar isso, na África, em partes da Ásia, mas, de uma forma geral, o mundo não está mais organizado assim. Então, acho que a gente tem política que não tem mais a ver com uma política do campesinato, uma política rural diferente, que não está conectada com a política urbana. Eu acho que essas conexões… se nós ignorarmos essas conexões, entre esses dois tipos de política, então perderemos a possibilidade real de criar ações políticas realmente interessantes. Eu mencionei o exemplo de El Alto, na Bolívia. El Alto é uma cidade, mas é uma cidade de imigrantes que têm fortes conexões com o campo em volta. O campo foi comercializado e perdeu grande parte das suas raízes indígenas, então, há uma conectividade entre os movimentos revolucionários no campo, que fluem para a cidade, em Cochabamba. As guerras foram feitas pelas pessoas ocupando a cidade por fora, e as pessoas na cidade deram apoio aos movimentos que estavam acontecendo no campo. Então, o desenvolvimento geográfico desigual, e eu gosto de pensar em política em termos desse desenvolvimento desigual, ao invés de duas ideias distintas, rural e urbana.

Conferência do professor David Harvey que aconteceu no Auditório Ariosto Mila da FAUUSP, em São Paulo, no dia 28 de fevereiro de 2012.
Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2013/03/23/o-enigma-do-capital/

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