Confissões de um ex-pastor (XII) 2ª Parte


Foi na obra de Flannery O’Connor, uma brilhante escritora oriunda do Sul dos Estados Unidos, que eu enfim encontrei alguém, ainda que um personagem fictício, na literatura com o qual eu tenha me identificado em absolutamente tudo. Segundo alguns estudiosos das obras de Flannery, ela revela, em seus textos, uma verve racista e preconceituosa, mesmo que professasse a fé católica, ainda assim é acusada de possuir tais tendências. Eu já li todos os contos que ela escreveu, bem como os romances que são, em sua maioria, ambientados no Sul, rural, protestante e preconceituoso, o que por isso, reforçaria a tese do racismo, e não vi nada de preconceito da parte dela, os personagens revelam algo que existia na sociedade, ainda que alguns sejam caricaturescos, não encontrei nada despropositado ou fora de lugar. Só imagino como é que ela sobreviveu naquela região, o famoso “Cinturão da Bíblia”, não por sua literatura, mas pelo seu credo, mesmo depois de morta ainda é perseguida.

Posso garantir de antemão que não se trata de um mocinho, nem de um herói destemido, nem mesmo de um príncipe encantador, não é nem mesmo um vilão sedutor ou um ser superinteligente, acho que ele está mais para anti-herói.

Foi num menino, um estranho menino, num mundo estranho, criado por uma escritora estranha, que julguei encontrar o mais perfeito correspondente literário para mim, todo mundo tem um, mesmo aqueles que acham que não têm, têm sim, basta procurar. Ruller é o seu nome, é o personagem central do conto O peru da genial Flannery, morta em 1964 aos 39 anos de idade (tenho outros dois ícones que também morreram aos 39 anos de idade: o sorumbático Soren Kierkgaard e Dietrich Bonhoeffer, achei até que eu mesmo morreria com esta idade. Cuidado! Digressão à vista.).

Eu tenho que admitir que, quando criança, eu já pensei em ser Elias, aquele profeta ranzinza do Primeiro Testamento, seria ranzinza mesmo ou o primeiro caso notificado de um Borderline? Vamos continuar o assunto, caso contrário eu entro numa digressão e acabo não voltando mais, ou mesmo João Batista, o alter-ego de Elias no Segundo Testamento, ou ainda Paulo de Tarso, feio e eloqüente orador, pensei em ser Sansão ou Davi, mas eu não tinha a força do primeiro e nem a sagacidade e beleza do segundo, pensei em Moisés, Josué, Salomão, etc. mas nunca fui e nunca serei nenhum destes, nem outro personagem qualquer da Bíblia.

Foi fora dela que eu encontrei o meu correspondente literário. Ainda bem que meu nome não é bíblico, caso contrário eu teria que corresponder ao profeta, evangelista ou rei. Já pensou o que faria se meu nome fosse Sofonias? Ou se eu tivesse sido registrado como Zorobabel? E se meu pai tivesse me batizado de Acabe? Acabar-se-ia tudo de vez mesmo, ao invés de Borderline eu seria defunto, eu me matava se tivesse um nome desses. Aprender a escrever Jocelenilton, aos quatro anos requereu um esforço mental indizível, já basta o trauma de ter que decorar as 12 letras, a ordem de escrevê-las e a necessidade da primeira ser maiúscula. Melhor seria que um simples João ou José fosse meu nome!

Já havia vasculhado a literatura, o teatro, o cinema e a televisão em busca de um correspondente, desde Robinson Crusoé a D’Artagnan, de Ivanhoé ao Arthur da Távola Redonda, mas não encontrava uma identificação plena, passei por Superman, Homem-Aranha, Durango Kid, Zorro, Tex, Heitor de Tróia, etc. tantos que nem consigo citar sequer um décimo. Hoje eu iria querer ser Passolargo de Senhor dos Anéis, Capitão Miller de Resgate do Soldado Ryan ou Maximus de Gladiador.

Ruller, porém, é diferente de todos estes que eu citei, ele é tangível, sua forma de introdução é humana, visceralmente humana, ou no dizer de Nietzsche: humano, demasiadamente humano, é como eu diria, de um perfil mais atingível. Muitos dos que eu admiro, ou admirava, não parecem humanos, são figuras míticas, de perfis inatingíveis. Creio que ele é uma obra inacabada da natureza, se isso soar como heresia, eu não vou pedir perdão, pois é assim que me sinto também, logo a natureza não o deixou sozinho, eu vim para fazer-lhe companhia, creio que não houve tempo necessário para que o Controle de Qualidade Angelical me vistoriasse e me liberasse para descer, eles estavam muito ocupados, dois dias antes de eu nascer, Martin Luther King tinha sido assassinado, as coisas não andavam muito bem lá nos EUA e nem na França, que passava por uma tormentosa rebelião estudantil, por isso, creio eu, que miríades de anjos sobrevoavam estes países, e esqueceram um pouco o setor de envio de bebês para o Brasil, eu fui um destes que não passou pelo Setor de Qualidade, fui despachado incompleto, inacabado. Quem iria se preocupar com um bebê que fora enviado para Monteiro na Paraíba no ano de 1968? Ainda mais com um alto índice de mortalidade infantil? A Seleção Natural daria um jeito, caso as coisas não saíssem bem. O pior é que quase que ela dá um jeito mesmo! Antes dos dois anos, quase que morro de tantas doenças que tive, o médico mandou até que minha mãe não se apegasse tanto, pois eu era enfermiço demais. Acho que até mesmo ela, a Seleção Natural, se descuidou e eu cheguei aqui, mas por descuido da morte do que por vontade da vida.

Ruller adora andar só vivendo no meio da mata e das estradas as suas aventuras imaginárias, como eu um dia fui e fiz. Não sei se este sujeito era Borderline, mas eu mesmo sendo um, gostava da solidão, da sozinhês que o campo me permitia ter, acho que no meio do nada, do vazio, eu conseguia exercitar minha mente com mais facilidade, sem os barulhos e sem as interrupções indesejadas,. Lembro com nostalgia as tardes em que me embrenhava nas matas com um pequinês pulguento e encrenqueiro, acho que ele era esquizofrênico, chamado Dick, para desbravar lugares inabitados e conquistar penínsulas e países com a força de meus exércitos imaginários. Vezes sem conta fui capitão de navios que desbravavam os 07 mares, aventuras que fariam A viagem do Peregrino da Alvorada de Lewis parecer contos para crianças de 05 anos.

Ruller sente que não se ajusta fácil às formas que o mundo lhe impõe, como eu até hoje me sinto. O combinado era dizer que ele parecia comigo na minha infância, mas pelo que vejo este sujeito sou eu mesmo, eu sou ele adulto, ninguém me disse isso antes! Este sentimento de inadequação me acompanha a vida toda, vou repetir, a vida toda. Em lugar algum eu me senti em casa, me senti aceito, adequado e amoldado. Ruller cresceu, conseguiu chegar à idade adulta, só que o nome dele agora é Jocelenilton e mora no Brasil, esta é um revelação tardia, mas necessária de ser feita, só que Flannery nunca soube disso, que pena! Ela morreu quatro anos antes que eu nascesse.

Ruller ganha perus, sem esperar, e os perde com a mesma facilidade, como até hoje acontece comigo. A verdade é que ganhei menos do que perdi e os que ganhei, eu mesmo os joguei fora, por não saber aproveitar, ou porque achava que um dia iriam tirar de mim, então eu mesmo me desfiz, para que a desilusão não fosse maior. Aos 06 anos eu consegui ganhar um presente de Natal na Igreja, e no caminho para casa, eu consegui, olha que fiz isso sozinho, consegui deixá-lo cair de minhas mãos dentro de um riacho, de um canal, e nunca mais consegui recuperá-lo, a correnteza o levou embora, como eu disse em outro texto, foi meu último Natal.

Para Ruller as coisas nunca foram fáceis, para mim também não. Nada absolutamente nada foi fácil, tudo, absolutamente tudo, foi e é difícil, até mesmo sobreviver. Nunca encontrei nada, nunca ganhei nada, nunca sequer fui sorteado ou ganhei em Rifa de Igreja, pois é, nem Cesta de Páscoa eu ganho em rifa. Todas as poucas coisas que consegui na vida, foi à base de suor e muitas lágrimas, isso inclui até mesmo o simples ato de pegar um ônibus, não sei o que essas geringonças têm contra mim, pois sempre, absolutamente sempre, eu desço na parada errada, ou mesmo espero por ônibus que nunca passam por aquele trajeto. Se algo pode dar errado com alguém, pode ter certeza, esse alguém sou eu!

Apesar de tudo isso, me enganava fingindo ser normal, até que um dia meu mundo caiu. Sei exatamente o dia em que meu mundo de cristal quebrou, que nem era tão de cristal assim, a mesma sensação que Ruller sentiu no dia em que ganhou e perdeu muito mais que um simples peru, foi há exatos 18 anos, 31 de agosto de 1993, dia em nasceu meu primeiro filho Ulrich Zwínglio, poderia também dizer que neste mesmo dia morreu o meu primeiro filho, as duas datas são importantes para mim, pois acho que perdi, nesse dia, um sonho, nesse dia perdi a fé. Nesse dia senti “Uma Coisa Medonha” me perseguindo, até hoje eu a percebo, tem horas que é tão tangível que penso ser capaz de tocá-la. Sinto seu bafejar quente em minha nuca e ouço amedrontado sua respiração fétida e barulhenta.

Quando o desespero é maior do que o medo ou a angústia, se é que pode haver algo maior que isso, procuro consolo nas paternais palavras de Brennan Manning comentando o conto:

“Muita gente pensa o mesmo que Ruller sobre Deus. O Deus em quem cremos é Alguém que nos dá um peru com uma mão e o tira com a outra. Quando ele dá, vemos nisso um sinal de que Deus se importa conosco. Quando conseguimos o que queremos, a sensação é de que estamos perto de Deus, o que também faz com que nos sintamos generosos. Assim, todo mundo fica satisfeito, certo? Mas a história é diferente quando perdemos o peru — um claro sinal de rejeição. Procuramos entender o motivo. Onde foi que eu errei? Por que Deus está bravo comigo? Deus está tentando me ensinar alguma coisa? A maioria de nós jamais fala algo assim em voz alta nem se arrisca a pensar muito nisso, mas quando perdemos o peru, passamos a pensar que Deus é imprevisível, mal-humorado, mesquinho e injusto. São pensamentos que nos afastam dele e nos fazem mergulhar em nós mesmos. Deus se transforma num contador que contabiliza cada passo em falso, cada erro, cada burrada, e debita tudo contra nós. Deus é alguém rancoroso que nos arranca das mãos família, amigos, saúde, dinheiro, satisfação, sucesso e alegria.”

Meu nome é Ruller, sou apenas um esquisito menino que ainda me embrenho nas matas acreditando que vou caçar alguma ave, nem que seja outro peru, e mudar e moldar a minha história ou estória. O peru pode nunca mais ser dado, mas eu vou voltar àquela clareira, quem sabe o que pode acontecer, quem sabe?

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