Eu, um Borderline (III)


Duas considerações são necessárias antes do desenvolvimento do texto propriamente dito, eu deveria ter feito as mesmas, desde o primeiro artigo desta série: 1º) Alguns visitantes do blog me perguntaram por que eu associo uma máscara com alguns textos e com outros não? 

Bom, aqui vai uma tentativa de resposta, para algo que eu julguei que estava claro:  desde que descobri (relato isso em Eu, um Borderline I) ser portador de um distúrbio psíquico, conhecido como Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), e que comecei a escrever algumas coisas sobre a égide deste tema, tenho colocado a insígnia da máscara bipartida, que demonstra a divisão que há na alma de um Borderline, não há ligação alguma com segredos, ou hipocrisia (lembrar que em grego, hypocritê, de onde vem o termo hipócrita, que significaria mais ou menos julgar pelo que está por baixo, não pelo que se vê, era a máscara usada pelos atores no teatro, por isso existe a máscara que representa a tragédia, outra a comédia, etc). Nos textos que a máscara não aparecer, eu entendo que minha personalidade Borderline não “contribuiu” tanto assim para a concepção do texto, não significativamente, uma vez que seria impossível esta separação, não posso simplesmente pegar meu lado Borderline e colocar na gaveta e tirá-lo quando eu quiser, mas entendo que algumas vezes a minha inspiração não vem de minhas emoções distorcidas de um Borderline, mas sim que são sadias e absolutamente normais, posso parecer que estou sendo confuso ao dizer isso, e não peço desculpas por isso.
2º) Para todos os textos que conceber para esta série, presumo que serão no máximo cinco, começando por este, vou colocar alguma informação sobre o TPB entre colchetes e em seguida efetuar comentários, ligando o descrito com a minha própria experiência. Sempre que enxergar que algum sintoma é dominante em minha personalidade, vou procurar revisitar minha vida e ver como isso me afetou ou me afeta. Bom, com isto posto, encerro esta digressão. Este texto promete, nem bem começou e já teve uma digressão.
[“... O borderline é extremamente intolerante às rejeições e outras frustrações comuns no cotidiano de todos. A dor pela falta de amor é intensamente sentida em indivíduos borderlines, o que pode estimular o processo auto e hétero destrutivo. Por isso, muitas vezes o borderline torna-se um indivíduo aparentemente rebelde e com um instinto vingativo contra os maus tratos passados...”] Começo este terceiro texto desta série, parafraseando uma famosa canção de Milton Nascimento: Eu sabotador de mim! E que seria um excelente título para este texto. É exatamente assim que me sinto hoje, quando olho para o meu passado, e até mesmo para o presente. Isso foi o que eu fiz em toda a minha vida, seja na área doméstica, familiar, seja na área afetiva, seja na área eclesiástica, seja na área profissional, seja na área acadêmica, eu fui muito competente em destruir meus projetos, planos, objetivos e sonhos. Eu mesmo os contruí e eu mesmo os derrubei com a mesma facilidade com que os erigi.
Sempre foram paradoxais para mim alguns fatos de minha infância, dentre eles posso citar o fato de ser um brilhante aluno em sala de aula, e ser quase um fracasso na hora das provas, cheguei a ser reprovado duas vezes na quarta série, ainda que fosse um dos melhores alunos e ser destaque em todas matérias. Eu aprendi a ler sozinho, lembro de que de uma hora para a outra eu, simplesmente, descobri que sabia ler, aprendi num gibi de Tio Patinhas, e antes mesmo de meus 12 anos, lia livros de teologia em espanhol, emprestados por um amigo, aprendi esta língua sozinho também, antes mesmo da adolescência. Eu ensinava a todos os outros alunos, eu os ajudava nas suas dúvidas, eles conseguiam as notas necessárias e passavam nas provas, eu fui reprovado, até hoje não sei o porquê, bom, hoje eu sei o porquê.
A dificuldade de terminar um projeto, um plano, um livro, um CD, um filme, qualquer coisa, exigia, e ainda exige, um esforço muito grande, facilmente me entendiava, e me entedio, e largava o que estava fazendo, pois perdia o interesse muito rápido. Isso passou a fazer parte de minha vida acadêmica, sempre tirei notas boas nas primeiras unidades, nas demais, tiro notas sofríveis, pois não me interesso mais pela matéria, já que me entedia e deixou de ser novidade. Isso também ocorre com atividades profissionais, se eu não estiver engajado em algo que a rotina seja não ter rotina, eu vou me entendiar, perder o interesse e cair fora. Paguei diversos cursos de idioma, informática, etc, e nunca os concluí, simplesmente desisti perdi o interesse. Desisti de mestrados, pós-graduações e graduações, com a mesma facilidade que jogo fora um lenço de papel que usei para efetuar a higiene nasal ou bucal.
Até mesmo nos relacionamentos eu era assim, mas isso eu vou falar em outro texto, não é o momento adequado agora. Mas não posso deixar de falar na intolerância às frustrações e rejeições. Parece que os Borderlines são mimados e birrentos, que não aceitam ouvir um sonoro “Não!”, mas é isso mesmo, não sei ouvir um não, posso ser birrento, mas não sou mimado, não tenho imunidade contra rejeição e nem sei trabalhar com frustrações, se algo não sai exatamente como eu quero, e olha que sou extremamente perfeccionista, pode ter certeza que vem uma tempestade de ira em seguida, se eu der uma ordem e ela for desrespeitada, pode acreditar que acenderam um vulcão e que vai entrar em erupção em segundos. Hoje que sou adulto, ocupo cargos estratégicos em várias empresas, posso enfrentar isso de forma que canalize essa tendência para as atividades profissionais, isso faz de mim um profissional respeitado, já que a minha fama é de gostar de tudo certo e bem feito, isso me deu a verve da eficiência. Mas, às vezes, o custo disso é muito alto.
Agora imagine essa não imunidade num garoto ou num adolescente? Frustração e ira na certa, pois ninguém se preocupava comigo, diziam que era birra, ou eu tomava uma sova, ou eu lidava com isso de outra forma, seja me refestelando em sujeira pornográfica, seja por meio de agressão física, contra mim mesmo.
[“... Os borderlines são pessoas com memória muito exacerbada para eventos negativos: não são capazes de perdoar, remoem coisas do passado e vivem e revivem intensamente um sofrimento desproporcional aos fatos porque apresentam um juízo de valor muito rígido...”] A capacidade que tem um Borderline de ser afetado por aquilo que os outros pensam sobre ele ou fazem para ou com ele, é simplesmente estarrecedor! Quando criança, eu frequentava a escola dominical de uma Igreja Presbiteriana, era sempre um dos primeiros a responder as perguntas feitas, isso por conta de ter lido a Bíblia quase quatros vezes, antes mesmo de completar 10 anos, ainda bem que eu nunca confundi Donald, Huguinho, Zezinho e Luizinho com os 04 Evangelistas, eu não perco a oportunidade mesmo de fazer uma digressão, que mania! Para estimular o aprendizado os professores costumavam promover gincanas bíblicas, eu sempre me saía muito bem. Lembro que numa destas, eu fiquei empatado com outro aluno, a professora resolveu então fazer um sorteio, ela não tinha mais tempo para novas peguntas, quando ela tirou o nome do primeiro sorteado, ela não conseguiu esconder a insatisfação que teve, chegou a exclamar: “-Esse não!”, mas antes que pudesse fazer novo sorteio, informaram que o tempo havia acabado da aula. Subimos para a nave central da igreja, depois que todas as classes estavam reunidas, ela foi à frente da igreja para anunciar o vencedor da gincana: eu! Eu mesmo. Fui à frente receber o prêmio, que nunca me consolou pela demonstração de desafeto dela, que pode ter passado desapercebido por todo mundo, menos por mim, até hoje quando vejo esta ex-professora, ainda me lembro disso. Nunca comentei isso com ninguém, absolutamente ninguém.
Não sei até hoje a razão de que uma tia materna minha, de personalidade forte e influente na família, me perseguir tanto, ela procurava saber quais as traquinagens que eu fazia na escola, depois chegava na casa de meus pais e dizia para minha mãe, que nem sequer me perguntava nada e me aplicava mais uma homérica sova. Um dia, eu me desviei do meu trajeto da escola para casa por algo em torno de 200 metros, ia buscar na casa de uma colega um gibi para ler, já era um leitor voraz à época, ela me viu, desistir de ir. No mesmo dia ela foi na minha casa, antes mesmo que entrasse eu pedi-lhe que não dissesse nada, ela nem me deu ouvidos, contou para minha mãe o ocorrido, apanhei igual a um cão de rua. O que me choca hoje é que a razão da surra foi que a irmã da menina que eu ia pegar o livro, segundo as más línguas, havia cometido um aborto, logo, eu não poderia me relacionar com pessoas assim, nem mesmo com os seus parentes. Até hoje me lembro da surra. Nunca perdoei minha mãe por não coibir isso, nunca perdoei por ela alimentar isso.
Quando alguém me diz: “-Quero falar com você depois!”. Seja quem for, mãe, irmãos, amigos, namoradas, colegas, chefes, professores, subordinados, etc, causa em mim uma tempestade emocional de proporções desmedidas e incomensuráveis, não porque eu seja curioso, não é este o fato, mas por que a minha mente trabalha rápido, e eu acabo criando centenas de cenários desfavoráveis e caóticos, imagino milhares de coisas, acabo me exaurindo emocionalmente e já me antecipo à conversa, imaginando que tipo de defesas eu devo construir ou como reagir diante de cada fato. Tudo isso pode durar um fim de semana, um dia, uma hora ou mesmo uma pequena fração de segundos enquanto o interlocutor entabular a conversa. Muitas vezes eu imagino que alguém vai me dizer algo desagradável, e já passo a “odiar” aquela pessoa sem que ela tenha dito nada, quando descubro que o que ela queria dizer era banalidades, percebo que sofri antecipadamente em vão, é tarde, se o ocorrido tornar a acontecer, eu vou ter a mesma reação, invariavelmente.
[“... que, em momentos de ira intensa, podem oscilar entre um comportamento explosivo ou friamente vingativo, passando bruscamente do papel de vítimas injustiçadas para o de verdadeiros vilões sanguinários e cruéis que não medem esforços para cometer ações maldosas em busca de vingança. Interiormente, eles acreditam estar corretos em suas atitudes e não entendem por que as outras pessoas os olham com espanto e indignação após tais comportamentos...”] Não foram poucas as pessoas que agredi fisicamente e emocionalmente, mesmo aquelas indefesas, por conta de não saber aceitar uma atitude diferente daquela que esperava, ou mesmo porque não consegui lidar com um fato que me levasse a imaginar que estava sendo rejeitado, traído ou abandonado.
Mantive uma relacionamento com uma mulher, divorciada, duas filhas, bonita, inteligente e bem sucedida profissionalmente, quando tudo parecia que estava às mil maravilhas, o medo do abandono e da rejeição, ainda que imaginário, me fez desencadear uma atitude de ira contra ela, eu a feri e agredi, ainda é algo que me lacera, quando me lembro, e faço questão de não lembrar, mas nas muitas ocasiões que pensei sobre o assunto, eu percebo que estou vendo uma outra pessoa agredindo-a, não sou eu fazendo aquilo. No outro dia eu mesmo a levei à delegacia e pedi que registrasse queixa contra mim, queria purgar o que fiz, e, mesmo depois de 12 anos, ainda sinto as consequências deste ato insano.
Em dois outros relacionamentos posteriores, as mesmas reações foram desencadeadas, uma sem muita gravidade, outra com uma gravidade muito mais acentuada, resolvi romper os relacionamentos, pois eu mesmo não queria mais ferir ninguém. Não conseguia lidar com frustração, nem com o sentimento de que estava sendo rejeitado ou traído. A dor que isso causava em mim, ainda que parecesse hipocrisia, não era menor do que a dor que eu causava, eu simplesmente fico exaurido, esgotado, sem forças e desiludido com a vida. O arrependimento por ter feito aquilo, me acompanha por dias, de forma palpável, a única coisa que quero é me afastar da pessoa, não me sinto digno de estar perto e nem tenho o direito de machucar alguém daquela forma. Sempre ouvi de uma mulher que eu machuquei que eu era um covarde por fazer aquilo, ainda ouço a voz dela me xingando, ainda ouço seus queixumes, não posso tampar ou ouvidos para não ouvir, a voz dela grita dentro de minha mente, não tenho como calá-la! Isso dói  mais do que alguém possa imaginar.
[“... No fundo, são muito imaturos emocionalmente e — embora não demonstrem — facilmente frágeis.  O borderline também é, essencialmente, insaciável. Em termos de busca de atenção, eles sempre querem mais do que realmente têm. Por mais que as pessoas lhe dêem atenção, eles estão a exigir muito mais do que recebem. Talvez porque quando crianças não tiveram sua necessidade de atenção e afeto suficientemente preenchida. Para o borderline, toda a atenção do mundo não é suficiente. Inclusive, eles tendem a ser "paranóicos", exigentes e desconfiados sempre de que os outros não lhe dão importância, mesmo que isso não seja a realidade...”] Eu nunca gostei do fato de que sempre, invariavelmente, sempre eu queria ser o centro das atenções onde estava. E olha que a vida me ajudou nisso, pois desde os 14 anos que efetuava palestras na igreja, desde meu primeiro ano de faculdade que me tornei monitor e posteriormente professor, depois fui pastor, e era bastante convidado para pregar em centenas de igrejas, e por último, me tornei gestor de algumas empresas, sempre gerindo e liderando equipes com mais de 100 pessoas. Ou seja, eu sempre tive plateia. Mas, naqueles lugares em que eu falasse, e por algum motivo, as pessoas não me dessem a atenção que eu queria, eu dava às costas e ia embora, ou então me sentava e ignorava o mundo em volta.
Outra coisa que sempre me incomodou: a fragilidade emocional. Como expressa bem o título de um livro sobe TPB, sou um ser com Sensibilidade à flor de pele, as pessoas precisam pisar em ovos para lidar comigo, do contrário me machucam, me ferem e me afastam. Se alguém me disser algo que me fira, eu perco o fim de semana, ou mesmo eu peço até demissão de um emprego, o que já fiz algumas vezes, apenas porque alguém disse algo que me magoou.
[“... Eles, sem querer, distorcem-na, e acabam por tendenciar tudo para um lado "ruim" e enxergar somente o lado negativo ou das pessoas ou das situações com que se defrontam, acreditando, por exemplo, que as outras pessoas não lhe dão atenção, ou que de repente mudaram de comportamento e por isso são más, merecendo assim, punições e vinganças. Borderlines costumam ver e achar coisas inexistentes no comportamento de outras pessoas, o que causa sempre reações exageradas e tempestades emocionais. Uma "mudança" quase imperceptível no comportamento de uma pessoa aos olhos de outros, para o borderline é um enorme motivo para se desesperar e acreditar que a pessoa não gosta mais dele. Por isso, o borderline é excessivamente possessivo, acreditando que a pessoa pertence apenas a ele e a mais ninguém. Ninguém mais merece atenção a não ser ele. Caso contrário, ele perceberá qualquer simples atitude de distração ou enfado do próximo como rejeição, o que o fará dar início a uma série de comportamentos extremos que se traduzem em atitudes perigosas tanto para si quanto para os que estão ao seu redor, causando medo e espanto às outras pessoas...”] Um copo que esteja cheio pela metade, não estará meio cheio para mim, está meio vazio, sempre absolutamente sempre, eu vou enxergar as situações com uma perspectiva negativa. As pessoas ou são boas ou são ruins e caso me deixem pensar que me abandonaram, quando talvez nem saibam como evitar que eu me sinta assim, eu imediatamente escreverei seus nomes nas ostracas e as relegarei ao ostracismo (por favor quem não souber o que é isso, consulte o Google ou a Wikipédia, eu não estou com paciência para explicar agora, nem para terminar este texto eu estou!).
Possessividade e chamar à atenção demasiada, são duas outras atitudes infantis que me irritam, irritam porque eu as tenho e nem sempre sei lidar com isso. Isso afasta as pessoas, ninguém quer ser posse, as pessoas querem ser amadas e não portadas como um objeto. O vazio que existe dentro da alma, requer muita atenção, muito mais do que uma pessoa é capaz de dar, por mais que se esforce.
O caminho mais curto para a cura ou mesmo para a atenuação desses sintomas é reconhecer que eles existem, eu estou trilhando este caminho doloroso, mas necessário. Sou Borderline sim, tenho TPB, mas não vou continuar para o resto de minha vida cometendo os mesmo erros que me custaram tantas coisas preciosas, perdi muitas coisas, pessoas e oportunidades, mas não perdi minha vida, e por isso eu vou em frente, sei que ainda posso fazer diferente, vou fazer diferente, estou fazendo diferente.
P.S.: O texto que se encontra entre colchetes é citação de parte do verbete Transtorno de Personalidade Borderline da enciclopédia virtual Wikipédia®. Os grifos são todos meus.

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