Eu, um Borderline (II)



“... Isto provavelmente acontece porque borderlines geralmente foram crianças privadas de uma necessidade básica, possivelmente foram negligenciadas emocionalmente em alguma etapa de sua vida psíquica, o que, por sua vez, ocasionou marcas profundas e indeléveis em sua personalidade. Tais marcas podem advir por conta de inúmeros eventos de caráter traumático, como, por exemplo, a separação dos pais, abusos sexuais na infância, violência física e até a perda precoce de um ente querido. Partindo desse pressuposto, pode-se dizer que o desenvolvimento emocional do borderline estacionou drasticamente, antes de alcançar a fase do pleno amadurecimento psicológico. Em suma, são pessoas que crescem e envelhecem fisicamente, mas emocionalmente continuam sendo crianças egoístas e, infelizmente, muito problemáticas. Indivíduos borderlines podem ser pessoas que cresceram com um grande sentimento de não ter recebido atenção suficiente. Eles geralmente agem como crianças revoltadas, e buscam caminhos para procurar essa falta de atenção em suas relações; porém, esses caminhos são essencialmente imaturos e anormais. Frequentemente, na anamnese, é achada uma carência afetiva (exemplo: ausência do pai), maus tratos, abuso sexual ou negligência emocional. Os diferentes traumas na infância geram um sentimento crônico de vazio e rejeição, incorporando-se na personalidade borderline que é vivenciada como uma dor dilacerante...” [Grifos meus].

Nunca, até hoje, eu tinha conseguido entender a causa de, desde minha tenra infância, ter um vazio tão grande em minha alma, ao ponto de doer de forma tão intensa, tão dilacerante que, eu acho, nenhuma dor externa, quero dizer dor física, pode ser mais forte. Muitas vezes confundi com algum sentimento religioso, sendo presbiteriano desde a infância e, como tal, calvinista, crendo na predestinação, sentia um certo desconforto entre minha fé e meus sentimentos, já que os mesmos eram antagônicos e paradoxais. Um vazio, com um misto de medo, sensação de abandono, que me tirava o sono todas as noites, vezes sem conta eu me lembro de ouvir todos os barulhos da madrugada, isso só aumentava e alimentava meus medos. Este vazio não encontrava eco nas palavras de Santo Agostinho, quando dizia que existe um vazio dentro de nós que só Deus pode preencher, eu tinha certeza que Deus já havia preenchido este vazio na alma, o vazio que continuava ia além disso, era incompreensível.

Um sentimento de inadequação. Quando ia dormir, sonhava que era um príncipe desaparecido, que um dia, meus verdadeiros pais vinham me buscar, descobriam onde eu estava e então vinham reclamar minha guarda. E eu, de inadequado, passava a príncipe amado de um reino distante. Não sonhava com isso apenas por gostar de contos de fadas, sonhava com isso por necessidade, para poder acordar no outro dia e enfrentar a realidade inexorável.

Nasci numa casa simples, a casa principal de um sítio, chamado de Sítio do Limão, localizado no município de Monteiro, no sertão paraibano. Não nasci em maternidade, sequer fui segurado por parteira, quando ela chegou, eu já tinha saído por conta própria. Nasci no auge do Golpe Militar, em 02 de abril de 1968. Sou o quinto irmão de oito. 06 mulheres e dois homens, como as três que nasceram depois de mim, morreram com poucos meses, assumi o posto de caçula. Tive a “sorte” de ser retirante da seca, tendo migrado da Paraíba para Pernambuco, e flagelado por uma enchente, pouco tempo depois de ter chegado ao Recife, com menos de 06 anos de vida. Desde pequeno que aprendi que a vida não é fácil e aprendi com meu pai a reagir diante das adversidades e ser resiliente, mesmo que ele nunca soubesse o que esta palavra significava, ainda assim foi uma encarnação viva desta qualidade.

Minhas memórias sempre me foram preciosas, por isso lembro de fatos que me aconteceram antes mesmo que eu completasse um ano, lembro de ter ficado doente quando tinha apenas 09 meses e lembro até do meu aniversário de um ano, dos presentes que recebi, nos braços de quem fiquei e da disposição da mesa com o bolo e com o que foi servido naquele dia. Mas a minha mente não guardou apenas o que me aconteceu de bom, tudo, absolutamente tudo o que me aconteceu eu lembro, mesmo hoje 43 anos depois, é como se estivesse acontecendo agora em minha frente. Talvez eu seja o que sou hoje por conta de ter uma mente que registra com muita facilidade o que vejo, o que acontece e o que leio.

Uma vez uma das minhas irmãs me prendeu com uma coleira do cachorro, e prendeu a corrente a um carro de transportes de palmas, planta típica do sertão, que servia para alimentar o gado, fiquei por muito tempo preso, sem conseguir me soltar, sem ninguém por perto, até que o carro soltou-se, adernou e quase me atingiu em cheio, só então ela veio e me libertou. O pavor que eu senti por estar preso e por ser quase esmagado por aquele carro é indescritível, ainda me lembro de como me senti naquele dia.

Lembro de ter me perdido do meu pai e do meu irmão durante uma ida ao campo, onde meu pai iria buscar alguns animais que pastavam, a sensação de alívio ao encontrá-los depois de caminhar a esmo não tem descrição. Lembro de uma chuva muito grande que deu na região, com medo de enchente ou mesmo de que a casa que vivíamos não suportasse a tormenta, meus pais nos levaram para a Casa Grande, que vivia vazia, objeto de fascínio meu e de meus irmãos, já que brincávamos nas escadas daquela casa, fantasiando diversas aventuras, tendo-a como palco. Lembro dos ciganos que nos visitavam, do pequeno burrico que ganhei de presente e que morreu pouco tempo depois.

Poderia dizer que tive uma infância muito feliz, inclusive tenho diversos arquivos neste blog que reforçam esta tese, mas a verdade por trás do menino traquinas e hiperativo que eu era, havia uma história de abuso sexual desde os meus dois anos, ou até mesmo antes. É doloroso falar sobre isto, ainda mais quando sei o malefício que isto me fez, o quanto isso transtornou minha vida e minha alma.

A mais tenra lembrança que eu tenho é de ser obrigado a fazer sexo oral em algumas parentes, ou mesmo apenas masturbá-las. Pessoas que poderiam me acolher, me proteger e mesmo me amar, foram elas que me laceram a alma. O medo que eu tinha era tão grande que nunca falei nada para meus pais.

Tão pequeno, tão desprotegido, tão usado e sem ter a noção do que era aquilo, nem a palavra sexo eu sabia o que significava, mas ainda assim, por medo de desagradá-las eu fazia, não sabia dizer não. Isso durou até meus 10 ou 11 anos, o que me dói hoje é que já com esta idade, e sendo “muito experiente” sexualmente, eu já havia mantido relações sexuais diversas vezes e me sentia bem com isso, pois eu, já contaminado pelo vírus do machismo, me achava superior aos garotos de minha idade que nunca sequer tinha visto uma mulher nua, lêdo engano, como eu os invejo hoje!

Alguns anos depois, já morando em Recife, eu comecei a desenvolver diversos distúrbios de comportamento, seja de ira incontida, seja de mentiras, ou mesmo de simples traquinagens de criança, para tais comportamentos lembro-me do quanto era punido por isso. Cheguei a levar surras de minha mãe com o cinto do meu pai, que deixavam as minhas costas com marcas que duravam dias. Certa vez fiquei conversando na frente da igreja com alguns amigos, não entrei para assistir ao culto que era realizado, quando ela saiu e me viu na rua, não me disse nada, mandou apenas que eu fosse para casa, ao chegar lá, me bateu tanto, que eu mal consegui dormir com dores na pele dos braços e das costas, no outro dia de manhã, ainda me fez mostrar ao meu pai. Tive que ir para a escola com camisas de mangas longas, pois as manchas me envergonhavam.

Mas ela também era expert em fazer chantagem emocional, fingia desmaios, se trancava no quarto e passava, às vezes, o dia todo deitada, apenas por alguma coisa que tínhamos feito e que ela não gostou, era uma forma pior de punir do que bater, preferia as surras, pois o que ela fazia com a minha mente de criança era cruel.

Um dia eu já adulto, consciente de que esta violência física me fazia mal, tentei conversar com ela, não é que eu quisesse perdoá-la, isso eu já tinha feito, eu queria apenas conversar e afastar de mim qualquer mágoa que pudesse ter, mas ela não me quis ouvir, disse que eu era o que era por opção minha, e que ela não tinha nada a ver com isso, que tinha apenas feito o papel de mãe. Desde esse dia eu me tranquei e não falei mais nada, ainda que mágoas e ressentimentos me acompanhem desde então, eu tento lidar com isso sozinho, para evitar que isso me faça mais mal do que já tem feito.

Sei que sou Borderline por estes dois fatores: abuso sexual na infância e extrema violência doméstica, não posso voltar ao meu passado e tentar enfrentar isso de outra forma, eu não poderia evitar que fizessem isso comigo, era apenas indefeso e inocente, o que talvez eu pudesse era blindar minha mente. Mas será que poderia mesmo?

O que se passa na mente de um menino sonhador, que adorava ler histórias e estórias de aventura, com príncipes e princesas, heróis e cavaleiros, nobres e mosqueteiros, e que no fundo da alma só queria ser aceito e amado, mas só recebia violência em troca? Acho que até hoje eu ainda sou esse menino, e até hoje ainda busco ser aceito e amado. Ainda sinto o mesmo vazio, a mesma angústia e a mesma sensação de abandono.

Não procuro culpados, quero apenas redenção, redimir minha alma, redimir minha mente e tentar me manter são. Só posso desejar que Abba me indique o caminho, o caminho da cura, o caminho do perdão aos outros eu já encontrei, só quero encontrar o caminho do perdão a mim mesmo.

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